PRIMEIRA PARTE: A SALVAÇÃO PELA FÉ

CAPÍTULO PRIMEIRO: DESMANTELO E DESEQUILÍBRIO DA TEORIA PROTESTANTE

1. A TESE DO PASTOR.

Bem se pode imaginar com que ânsia, emoção e contentamento o nosso amigo, pastor protestante, se aproximou do microfone, para fazer a sua dissertação pelo rádio, naquele dia. Tratava-se de uma mensagem sensacional, que êle pensara em transmitir. O seu objetivo era nada mais, nada menos que dar uma bonita rasteira em tôdas as religiões do mundo, sem respeitar nem sequer a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, ficando de pé exclusivamente a doutrina dos protestantes. Para isto, idealizou o jovem e fervoroso pastor a argumentação seguinte:

Todas as religiões ensinam que o homem se salva pelas suas próprias obras; o Protestantismo, ao contrário, ensina que o homem se salva pela fé. Ora, sabemos que a Bíblia é a palavra de Deus revelada aos homens; palavra infalível, porque Deus não pode errar. E a Bíblia em inúmeros textos afirma que o homem se salva pela fé. Logo, se vê pela Bíblia que o Protestantismo é a única religião verdadeira, e assim está refutada a doutrina perigosa (perigosa, sim, foi o que disse o pastor, e é o que dizem, em geral, os protestantes) a doutrina perigosa de que o homem alcança a salvação pelas suas obras.

2. TEXTOS EVANGÉLICOS.

Não vamos aqui logo repetir todos os textos citados pelo pastor em abono de sua tese, porque temos que analisá-los cuidadosamente mais adiante (capítulos 4.° a 8.o), não só os apresentados por êle, senão também outros alegados pelos seus colegas sôbre o mesmo assunto. Queremos apenas dar uma amostra de como os textos eram mesmo de impressionar o desprevenido ouvinte que não tivesse um conhecimento completo da verdadeira doutrina do Evangelho. Veja-se, por exemplo, o seguinte trecho do Evangelho de S. João: Assim amou Deus ao mundo, que lhe deu a seu Filho Unigênito, para que TODO O QUE CRÊ NELE NÃO PEREÇA, MAS TENHA A VIDA ETERNA, porque Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Êle. QUEM NELE CRÊ NÃO É CONDENADO, MAS O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ CONDENADO, porque não crê no nome do Filho Unigênito de Deus (João III-16 a 18)

Textos como êstes que asseveram tão abertamente — quem crê em Jesus se salva, quem não crê se condena — seriam suficientes para convencer qualquer pessoa: 1.o se não fôsse tão ímpio, tão absurdo, e, portanto, tão indigno dos lábios de Jesus o que se quer provar com êles, ou seja, a doutrina de que, para o homem salvar-se, basta que tenha fé em Cristo e nada mais; 2.o se não houvesse outros textos, igualmente claros, dos Evangelhos, para nos provar a necessidade das boas obras para a conquista do Céu, como êste por exemplo: Bom Mestre, que obras boas devo eu fazer para alcançar a vida eterna?... SE TU QUERES ENTRAR NA VIDA, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-16 e 17).

3. CONCILIAÇÃO DOS TEXTOS.

É claro que fazer uma boa interpretação da Bíblia não consiste em aferrar-se alguém a uns textos, desprezando, esquecendo, refugando, pondo de lado outros, igualmente valiosos: tudo quanto está na Bíblia é palavra de Deus. A interpretação imparcial, conscienciosa, legítima, procura harmonizar inteligentemente os textos das Escrituras. E é bastante tomar na devida consideração as duas afirmativas — quem crê em Jesus se salva, quem não crê se condena — para entrar na vida eterna, é preciso guardar os mandamentos — para se chegar à conclusão de que para a salvação eterna, tanto é necessária a fé nas palavras de Cristo, como a obediência aos mandamentos divinos. É o que nos ensina a Igreja Católica, a qual não afirma que o homem se salva só pelas obras, como queria fazer crer o nosso amigo, pastor protestante, baseando a sua argumentação em que todas as religiões assim o ensinam; segundo a teologia católica, a fé no ensino de Cristo que nos é apresentado é também indispensável. Vê-se logo por aí quanto a doutrina da Igreja é desconhecida, até mesmo por aqueles que ardorosamente a combatem. Temos, portanto, que expor (e o faremos no capítulo seguinte) a doutrina católica sobre o assunto, máximo porque ela fala de um terceiro elemento, importantíssimo e igualmente indispensável à salvação, como seja, o auxílio da graça de Deus; explicado este ponto, se esclarecem muitos textos das Escrituras que tanta confusão provocam_ na cabeça dos protestantes.

4. PERANTE A LÓGICA E A BÍBLIA: O CASO DOS PAGÃOS.

Basta igualmente esta palavra de Cristo — se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17) — para mostrar que, se o Protestantismo se distingue de todas as religiões do mundo ensinando que o homem se salva só pela fé e não pelas obras, isto não é sinal de que seja a única Religião Verdadeira; é sinal, apenas, de que ensina uma coisa que evidentemente está contra a lógica e o bom senso.

Este princípio estabelecido por Jesus Cristo — guardar os mandamentos, para salvar-se — vigora em todas as religiões, porque é também um imperativo da razão humana, e a razão, assim como a fé, procede de Deus, nosso Criador. A Humanidade viveu milhares de anos antes de Jesus Cristo vir a este mundo e, durante todo esse tempo, excetuando o povo judaico, pequenino povo que tinha a revelação dada por Deus a Moisés e aos profetas, todas as nações da Terra estavam imersas no paganismo, desconhecendo as verdades da fé. Mesmo depois da vinda de Jesus Cristo, quantos milhões e milhões de pessoas tem havido e ainda há, como por exemplo entre budistas, bramanistas, confucionistas, maometanos, índios selvagens etc, que sem culpa nenhuma sua, desconheceram ou ainda desconhecem a revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo! Podiam ou podem estes homens salvar-se?

Sim, sem dúvida alguma, porque não é admissível que Deus os condenasse a todos irremediavelmente ao inferno, se êles não tinham culpa nenhuma em desconhecer a revelação cristã. Mas salvar-se como? Seguindo o que Cristo disse: Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17). E aqui perguntará o leitor:

Se os mandamentos foram revelados aos judeus por intermédio de Moisés, e as religiões pagãs não conheciam esta revelação, como podiam admitir este princípio: — guarda os mandamentos, se queres salvar-te? Conheciam por acaso estes mandamentos?

Conheciam, sim; embora não tão perfeitamente como nós os conhecemos. Porque estes mandamentos, Deus os gravou no coração do homem. Honrarás pai e mãe, não matarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, não desejarás a mulher de teu próximo etc, são leis que se impõem a todos os homens pela voz imperiosa de sua consciência. Se a Religião tem por fim o aperfeiçoamento moral do homem e a sua união com Deus, esta união, este aperfeiçoamento não se realizam senão quando ele obedece à voz da consciência, que é a própria voz de Deus-falando a sua alma, a seu coração. Só assim podia (ou pode ainda hoje) o pagão que nunca ouviu falar de Cristo, agradar a Deus e, agradando-a Deus pelas suas obras, conseguir a salvação.

Mas, dirá o protestante, esta história da possibilidade de se salvarem os pagãos, pode-se provar pelas Escrituras?

Perfeitamente. Abra-se a Epístola de S. Paulo aos Romanos.. Lemos aí que Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras; com a VIDA ETERNA, por certo, aos que, perseverando em fazer OBRAS BOAS, buscam glória e honra e imortalidade; mas com ira e indignação aos que são de contenda e que não se rendem à verdade, mas que obedecem à injustiça. A tribulação e a angústia virá sobre toda a alma do homem que obra mal, ao judeu, primeiramente, e ao grego; mas A GLÓRIA E A HONRA E A PAZ será dada a todo o obrador do bem, ao judeu, primeiramente, e ao grego; porque não há para com Deus acepção de pessoas (Romanos II-6 a 11). O grego, a que se refere aí S. Paulo, em contraposição ao judeu, é o gentio, o pagão, o que não conhecia a lei de Moisés. Deus, não tem acepção de pessoas: todo o que opera o bem recebe a vida eterna, seja judeu, seja gentio. Porque, como diz em continuação o Apóstolo S. Paulo, se os judeus tinham uma lei escrita dada por Deus e os gentios não a tinham, o que interessa a Deus não é que SE OUÇA a lei que foi dada por Ele, mas sim que SE PRATIQUE o que ordena esta mesma lei. E o gentio, cumprindo a lei que estava escrita no seu coração, se podia tornar também justificado diante de Deus. Vejamos as palavras do Apóstolo: Não são justos diante de Deus os que ouvem a lei; mas os QUE FAZEM O QUE MANDA A LEI SERÃO JUSTIFICADOS; porque, quando os gentios que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, esses tais, não tendo semelhante lei, a si mesmos servem de lei, os quais MOSTRAM A OBRA DA LEI ESCRITA NOS SEUS CORAÇÕES, dando testemunho a eles A SUA MESMA CONSCIÊNCIA. (Romanos 11-13 a 15).

Mas perguntará alguém: Não diz a Bíblia que sem a fé é impossível agradar a Deus? Como podiam esses pagãos agradar a Deus sem a fé?

A dificuldade é muito fácil de resolver. Na mesma ocasião em que diz a Bíblia — ser impossível sem a fé agradar a Deus — mostra imediatamente qual o programa mínimo de fé que é exigido dêsses que não cheguem a ter conhecimento da revelação divina; dêles se exige apenas que creiam o seguinte: que existe um Deus e que êste Deus recompensa os bons. Vejamos o texto: Sem fé é impossível agradar a Deus; porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6). Se eles estavam ou estão, sem nenhuma culpa sua, na ignorância de muitas outras verdades da fé, Deus se contenta com êste mínimo: crer na existência de um Deus Remunerador; é o bastante para se aproximarem de Deus.

Portanto, se as religiões pagãs que existiram antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo ensinavam que seus adeptos podiam conseguir a recompensa divina mediante as suas obras, se as religiões pagãs ainda hoje existentes ensinam que os seus seguidores (que não têm suficiente conhecimento da doutrina de Jesus Cristo) se salvam pela maneira digna e correta de proceder, essas religiões podem ter lá os seus erros graves em matéria de doutrina, mas NESTE PONTO têm ensinado uma coisa certa, confirmada por S. Paulo, quando afirmou que os gentios se salvam obedecendo à lei que está escrita em seus corações (Romanos II-15). O caminho do Céu para eles é este mesmo. Agora, se de fato foram muitos ou foram poucos os que procederam corretamente e obedeceram a esta lei, isto já é outra questão. O homem tem a sua liberdade; pode usar dela bem ou mal. Infelizmente a tendência desta nossa corrupta Humanidade é mais para usar mal do que para usar bem; porém tinha que haver para os pagãos, assim como para os cristãos (falamos, é claro, dos pagãos de boa fé) algum direito, alguma possibilidade de salvar-se. Do contrário Deus seria injusto, não seria bom para todos os homens que O temem. Bem-aventurados todos os que temem ao Senhor, os que andam nos seus caminhos (Salmos CXXVII-1). E o pagão que não recebeu as luzes da revelação cristã, mas crê na existência de um Deus Justiceiro, embora erre, por ignorância invencível, sôbre a própria natureza da Divindade, não tem outro meio para mostrar que teme o Senhor e que quer andar nos seus caminhos, senão obedecendo fielmente aos ditames da sua própria consciência.

5. PERANTE A LÓGICA E A BÍBLIA: O CASO DOS CRISTÃOS.

Passemos agora às religiões cristãs, que admitem a revelação feita por Nosso Senhor Jesus Cristo. Se elas ensinam que "o homem se salva pelas obras", estão ensinando uma coisa certa ou errada? Isto depende do sentido que se queira dar à frase. Se se toma no sentido de que o homem se salva exclusivamente pelas suas obras, desprezando-se a fé, como a desprezam aqueles que dizem "Todas as religiões são boas, vem a dar tudo na mesma coisa; minha religião consiste em fazer o bem", a doutrina está errada. Foi precisamente para combater este erro, para mostrar que era preciso submeter humildemente a inteligência a todas as verdades por Ele reveladas, que Jesus Cristo tanto insistiu em dizer que — quem crê nele se salva, quem não crê se condena. Mas, se se toma num sentido que não exclua a obrigação de crer e se leva em conta a absoluta necessidade da graça para a realização das boas obras, a frase tem um sentido legítimo e verdadeiro, perante a razão e perante a Bíblia.

Senão, vejamos. Os cristãos, ou aqueles ,que têm conhecimento da doutrina cristã, Nosso Senhor veio ao mundo para dispensá-los da observância dos mandamentos, impondo-lhes Unicamente a obrigação de crer? Absolutamente não! porque é o próprio Cristo quem diz: Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17). Absolutamente não! porque ninguém está dispensado de obedecer à voz da consciência, de cumprir esta lei que está escrita no coração humano, se quiser conseguir o Céu. Foram abolidas todas as cerimonias e prescrições da lei mosaica, mas o Decálogo ficou de pé, porque é a lei eterna, que rege a alma do homem, é a fonte de toda a moral, de todas as leis.

O que acontece com o cristão é que, tendo um conhecimento mais vasto das coisas de Deus, dos preceitos e da vontade divina, a observância dos mandamentos lhe abre novos horizontes. Tem maiores obrigações e responsabilidades, desde que por sua vez recebeu maiores luzes, mais abundantes graças e tem mais facilidade para salvar-se. A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será pedido (Lucas XII-48). Éle sabe que o grande mandamento da lei é este: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de todo o teu entendimento (Mateus XXII-37). Bem como, conhece pelo Evangelho as palavras de Jesus Cristo. Ora, não estará amando a Deus com todo o seu entendimento, se não crer nas palavras do Divino Mestre. Logo, a obrigação de crer nas palavras de Jesus, que são palavras de Deus, pois Jesus Cristo é Deus, já está incluída na lei: observa os mandamentos. Porque não posso amar a Deus e, ao mesmo tempo desacreditar a sua palavra. E quando Jesus lhe diz que quem crê nele se salva, quem não crê se condena, o cristão sabe que tem que aceitar todas as palavras de Jesus; logo, não pode desprezar a verdade que está contida nestas palavras: Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17). Veja-se, portanto, que equilíbrio, que lógica se encerra na doutrina católica! Os mandamentos incluem a obrigação da fé em Cristo, e a fé em Cristo traz como consequência a obrigação dos mandamentos.

6. DESEQUILÍBRIO DA DOUTRINA PROTESTANTE.

Comparemos isto com o desequilíbrio da doutrina dos protestantes. Nós lhes apresentamos um número incalculável de pagãos que existiram antes de Cristo ou que existem ainda hoje (milhões dos quais têm adorado o Deus Verdadeiro, como os maometanos, por exemplo) pagãos êstes que não chegaram a ter conhecimento da doutrina de Cristo e que têm a fé mínima, a que se refere S. Paulo na sua Epístola aos Hebreus, isto é, crêem que existe um Deus e que Ele é remunerador; quanto ao mais, nada sabem da doutrina revelada. Ora, segundo a doutrina protestante, só a fé é que salva, as boas obras do indivíduo Não VOGAM para a salvação. Agora perguntamos: esta fé mínima — crer em um Deus Remunerador — é suficiente para a salvação ou não? Se é suficiente, todos êsses pagãos se salvaram ou ainda se salvam, só vão para o inferno os ateus, pois segundo os protestantes, o que salva é a fé, e não as obras. Neste caso, onde está a justiça de Deus, colocando assim no Céu a todo o mundo, indistintamente, sem nenhuma atenção à maneira de proceder de cada um? Se não é suficiente, então todos êles se condenam, mesmo que pratiquem as melhores obras dêste mundo e se mostrem corretíssimos na sua maneira de proceder, pois as boas obras, segundo os protestantes, não influem na salvação. Estão êsses pagãos irremediavelmente perdidos, porque sua fé é, na hipótese, insuficiente para salvar. Neste caso, onde está a justiça de Deus condenando, por não terem fé em Cristo povos inteiros que, sem culpa sua, desta fé foram privados? (1)

Os protestantes já estão salvos aqui na terra... apesar de todas as suas faltas e imperfeições, as quais temos todos nós humanos, quando morrem, vão diretamente para o Céu (pois os protestantes não acreditam na existência do purgatório)... mas fora do Protestantismo, são muitos os que inevitavelmente se condenam... Deus seria neste caso, não um Pai de Misericórdia, mas um Soberano evidentemente injusto e monstruoso, que predestina uns para o Céu e outros para a perdição.

Este Deus que assim concebem os protestantes, que a inúmeros homens nega qualquer oportunidade para se salvarem, pois para a salvação só aceita a fé e nada mais, mas como crerão àquele que não ouviram? e como ouvirão sem pregador? (Romanos X-14), este Deus tão parcial que aos protestantes dá tudo e a outros nega tudo em matéria de salvação, será o mesmo Deus da Bíblia que quer que todos os homens se salvem (1.a Timóteo II-4)? (2) que não tem acepção de pessoas (2.° Paralipômenos XIX-7; Romanos II-11, Efésios VI-9, Colossenses III-25; 1.3 Pedro I-17)? O Único Mediador que eles pregam será mesmo Jesus Cristo que se deu a si mesmo para REDENÇÃO DE TODOS (1.° Timóteo 11-6), que é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de TODO O MUNDO (1.° João II-2)? Não há lógica, portanto, nesta matéria de doutrina da salvação, se não se admite aquilo que vimos agora mesmo a Bíblia dizer pela pena de S. Paulo, na sua Epístola aos Romanos: que Deus há de retribuir a cada um SECUNDO AS SUAS OBRAS (Romanos II-6).

Lutero pensava e ainda pensam os protestantes de hoje que se pode alterar facilmente a doutrina verdadeira que Deus deixou neste mundo e que vem sendo ensinada pela sua Igreja, a Igreja Católica. Com a sua ampla liberdade para mexer na Bíblia e dela extrair apenas os textos que mais lhes convenham e agradem, os protestantes entenderam de tornar para si muito fácil a salvação, fazendo-a depender somente da fé, tornando-a inteiramente independente das boas obras. Mas ao mesmo tempo a tornaram impossível para os pagãos que nenhum conhecimento tiveram de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A doutrina da salvação só pela fé, sem as obras, logo se fez acompanhar da doutrina horrorosa e blasfema de que Deus predestina uns para o Céu e outros para o inferno, a qual já estava contida claramente nas obras de Lutero e foi abertamente ensinada por Calvino. Por mais que repugne a alguns modernos protestantes esta monstruosa teoria, não há como fugir a ela, na hipótese de que só a fé e nunca as obras do indivíduo é que podem influir na salvação. Aqueles a quem não chega a luz da revelação ficam assim numa situação irremediável. No entanto, nada mais contrário ao ensino da Bíblia, segundo a qual Deus é infinitamente bom e quer salvar a todos.

E é muito de admirar que os protestantes vejam perigo (de favorecer ao orgulho e à presunção) na teoria de que o homem se salva praticando boas obras — já veremos (n.° 37; 135 e 136) até onde existe este perigo na doutrina católica — e não vejam perigo nenhum em ensinar-se ao povo que pela fé ele já está salvo e que as boas obras não influem nem direta nem indiretamente na salvação da nossa alma…

7. ESTRANHO REMÉDIO PARA OS MALES DO MUNDO.

Quem quiser ouvir ensinamentos que aberram contra toda lógica e bom senso, é só prestar bem sentido à doutrina da salvação, à doutrina do Evangelho tal qual vem sendo apresentada pelos protestantes.

Nós sabemos que o mundo sempre foi perverso e corrompido, e especialmente nos dias de hoje. Isto decorre da decadência da nossa natureza humana, fortemente inclinada para o mal.

O homem tem que lutar contra suas paixões: há de vencê-las pelo sacrifício, pela mortificação e pela renúncia ou há de sucumbir a elas. Abrace qual religião abraçar, esta luta continuará sempre. Mesmo que se eleve à mais alta santidade, está sujeito a cair, pois continua sempre livre e sempre inclinado para o mal.

É claro que a doutrina do Evangelho é uma doutrina santificadora, que estimula o homem a dominar-se, a cantar vitória sobre si mesmo, sobre seus instintos, que o eleva à prática da virtude, a qual muitas e muitas vezes requer heroísmo. Ela se apresentará, assim, como um incentivo para o bem, a contrapor-se à maléfica influência do mundo que, posto no maligno (1.° João V-19), arrasta o homem para o mal, com suas máximas funestas, seus escândalos e seus maus exemplos.

Mas qual é a doutrina que traz o Protestantismo para o mundo corrupto de hoje?

Dizem os protestantes:

Há quem ensine que a salvação se alcança:

praticando boas obras;

fazendo penitências;

fazendo sacrifícios e renúncias; rezando;

recebendo sacramentos etc, etc.

Nada disto! A salvação se alcança simplesmente pela fé em Jesus.

E em que consiste a fé em Jesus, segundo a doutrina protestante?

Consiste apenas nisto: em ACEITAR A CRISTO COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL.

Se o pecador se arrepende de seus pecados e aceita a Cristo como seu Salvador, está salvo — e, segundo ensina um grande número de seitas protestantes, está salvo para sempre, não pode perder-se jamais, IRÁ PARA O CÉU COM TODA CERTEZA.

A salvação lhe é dada de graça. Basta estender a mão para recebê-la. Não é prémio de virtudes, nem de boas obras, nem de prática da Religião, nem da observância da lei de Deus.

E quando se objeta que esta salvação assim dada "de graça" está barata demais, os protestantes respondem que é uma loucura recusar-se uma coisa, só porque é dada de graça: a luz do sol e o ar que respiramos também nos são dados gratuitamente e ninguém os vai recusar por isto…

É este o Evangelho que vai regenerar e santificar o homem, segundo o ensino protestante! Não se fala na necessidade da mortificação, do sacrifício para ganhar o Céu; barateia-se a salvação para que ela fique ao alcance de todos.

8. ONDE ESTÁ O DESMANTELO.

Ora, percebe-se claramente que existe neste sistema uma bruta falsificação da doutrina do Evangelho.

Enquanto o Protestantismo ensina que o remédio para os males do mundo, a salvação do homem está na FÉ EM JESUS, tudo vai muito bem. Porque é realmente SEGUINDO A DOUTRINA QUE JESUS ENSINOU, que a Humanidade encontra o bom caminho e o homem se salva.

Todo o mal do homem está em não crer em Jesus, ou em crer, mas não viver de acordo com a sua crença, o que seria uma fé morta, uma fé contradita, negada e desmoralizada pelas obras.

Mas, quando o Protestantismo nos vem dizer que a fé em Jesus consiste EXCLUSIVAMENTE em aceitar a Cristo como nosso Salvador, aí é que está a completa e escandalosa adulteração do Evangelho. Esta noção de fé é mera invenção de Lutero; procura-se assim misturar a verdade evangélica com o erro luterano.

Não há dúvida que, se o Evangelho nos diz que o homem se salva CRENDO EM CRISTO, compete ao próprio Evangelho dizer-nos ESTA FÉ em que consiste. É isto o que vamos examinar minuciosamente com a Bíblia na mão, daqui a pouco (capítulo 4.°).

Mas se os protestantes dizem só admitir aquilo que está na Bíblia, em que parte da Bíblia eles viram que esta fé em Cristo, esta fé que nos salva, consiste SOMENTE em aceitar a Cristo como Salvador? Quem autorizou os protestantes a andar pregando pelo mundo esta aceitação de Cristo, tão mesquinha, tão parcial e tão incompleta? Por que motivo havemos de aceitar a Cristo como nosso Salvador e não havemos de aceita-Lo também como nosso LEGISLADOR, que nos impôs uma lei, a qual teremos de observar, se quisermos alcançar a salvação? Por que motivo não havemos de aceitar a Cristo como o MESTRE, que nos ensinou uma DOUTRINA, um conjunto de VERDADES, que estamos obrigados a aceitar, porque Ele é Deus e Deus não pode errar? Por que motivo não havemos de aceitar a Cristo como FUNDADOR DE UMA IGREJA que Ele deixou aqui na terra, inseparavelmente unida a Ele que é a cabeça do corpo da Igreja (Colossenses I-18)?

Não falam tanto os protestantes na adesão a Nosso Senhor Jesus Cristo? E como é que acham que vão para o Céu aqueles que veem em Cristo um Salvador e nada mais?

9. ACEITAÇÃO INTEGRAL DE CRISTO.

Se aceitamos a Cristo exclusivamente como Salvador, se tapamos a sua boca quando Ele nos vai doutrinar, Se não Lhe damos outro direito senão o de estender os braços sobre a cruz e morrer por nós, então é fácil lançarmos mão do Evangelho e fazermos a salvação do tamanho que a quisermos; mas se aceitamos a Cristo integralmente, se O deixamos falar como nosso Legislador, como nosso Mestre, como fundador da sua e nossa Igreja, logo chegaremos à conclusão de que para a salvação:

é necessária a observância dos mandamentos: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17);

são necessárias as boas obras, como se deduz claramente da descrição do juízo final (Mateus XXV-31 a 46);

é de grande importância a penitência: Ai de ti, Corozaim; ai de ti, Betsaida; que se em Tiro e Sidônia se tivessem obrado as maravilhas que se obraram em vós, há muito tempo que elas teriam feito PENITÊNCIA, COBRINDO-SE DE CILÍCIO E DE CINZA. Por isso haverá sem dúvida no dia de juízo para Tiro e Sidônia menos rigor que para vós (Lucas X-13 e 14);

é preciso fazer sacrifícios e renúncias: Se o teu olho te escandaliza, LANÇA-0 FORA; melhor te é entrar no reino de Deus sem um olho do que, tendo dous, ser lançado no fogo do inferno (Marcos IX-46). Se alguém quer vir após de mim, NEGUE-SE A SI MESMO, E TOME A SUA CRUZ CADA DIA e siga-me (Lucas IX-23);

é preciso orar para se obter a graça, pois sem a graça não se pode praticar a virtude: Importa orar sempre e não cessar de o fazer (Lucas XVIII-1). Vigiai e orai, para que não entreis em tentação (Mateus XXVI-41);

é preciso receber os sacramentos: Quem não renascer da ÁGUA e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus (João 111-5). Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, NÃ0 TEREIS VIDA EM vós (João VI-54). Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados, e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos (João XX-23);

é preciso obedecer à Igreja: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus, e tudo o que desatares sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19), disse Jesus a Pedro, pedra da Igreja. E se não ouvir a Igreja, tem-no por um gentio ou um publicano (Mateus XVIII-17).

E veremos que, em vez desta salvação baratíssima, Ele nos prega uma salvação árdua e penosa: Larga é a porta e espaçoso o caminho que guia para a perdição e muitos são os que entram por ela. QUE ESTREITA É A PORTA E QUE APERTADO O CAMINHO QUE GUIA PARA A VIDA e que poucos são os que acertam com êle! (Mateus VII-13 e 14).

Por que motivo então havemos de aceitar a Cristo como Aquele que nos dá a salvação e não havemos de aceitá-Lo como Aquele que tem o direito de nos impor, de nos indicar as condições em que esta salvação é obtida?

Reduzindo a fé que salva à simples aceitação de Cristo como Salvador e ao mesmo tempo dando a cada um o direito de interpretar a Bíblia como bem entende, o Protestantismo abre o Céu de par em par a todos os hereges. Isto de doutrina, de ensinamentos de Cristo passa a ter muito pouca importância, cada um os aceita como acha mais conveniente; o que vale somente para a vida eterna é aceitar a Cristo como SALVADOR.

Como veremos mais adiante (ns. 225 a 243):

há, entre os protestantes, uns que negam a SSma. Trindade e outros que a admitem;

uns que dizem que Jesus Cristo é Deus, e outros, que é um simples homem;

uns que creem na existência do inferno e outros que a rejeitam; uns que admitem a imortalidade da alma e outros que a negam;

uns que crêem que Jesus está realmente presente na Eucaristia e outros que dizem que a Eucaristia não é mais do que pão e vinho;

uns que batizam e outros que não batizam etc, etc.

Todos estes entram de roldão no Céu. Pois a pergunta de ordem é somente esta: Aceitais a Cristo como vosso Único e Suficiente Salvador, como vosso Salvador Pessoal?

Aceitamos — respondem todos.

Pois então, todos estais salvos.

Não se podia inventar uma doutrina que fosse mais a gosto para contentar a todos os hereges.

Além disto (e a questão agora é com aqueles inúmeros protestantes que acham que aquele que ACEITOU A CRISTO COMO SALVADOR já não se pode perder mais) perguntamos:

Um homem se arrependeu de seus pecados e aceitou a Cristo como Salvador. De agora por diante, que homem vai ser ele? O mesmo homem combatido pelas paixões próprias e pelas tentações do inimigo, livre para pecar ou deixar de pecar — ou um homem impecável? Cada um olhe sinceramente para si e veja se se tornou impecável, depois que aceitou a Cristo como Salvador...

Se este homem depois peca, engolfa-se no pecado, não se arrepende mais, não quer mais emendar-se, como pode ter já neste mundo a salvação garantida? A salvação dada por Cristo será uma licença ampla para cada um fazer o que bem lhe apraz e ir para o Céu de qualquer jeito?

Ou, por acaso, estão os protestantes confiados em que aquele que pecava quando tinha medo da condenação eterna, agora espontaneamente, INFALIVELMENTE vai deixar de pecar, depois que se considera já com a salvação garantida? Isto seria ser ingênuo demais e não ter nenhum conhecimento do que é a nossa natureza humana.

10. A BÍBLIA MAL COMPREENDIDA.

Será possível que o Evangelho nos ensine esta doutrina tão ilógica de que as boas obras, o nosso modo de proceder não influem na salvação da nossa alma?

É claro que não.

Se os protestantes vivem a ensinar isto e julgam ver nas páginas da Sagrada Escritura uma doutrina tão estranha, é porque eles NÃO ENTENDEM certas passagens da Bíblia. Esta é que é a verdade.

E não fiquem de cara amuada os protestantes, não se mostrem ofendidos conosco, pelo fato de dizermos que eles não entendem certos versículos da Bíblia. A Bíblia tem de fato muitas coisas DIFÍCEIS DE ENTENDER, é ela própria quem o diz, falando a respeito das epístolas de S. Paulo, nas quais HÁ ALGUMAS COISAS DIFÍCEIS DE ENTENDER, as quais ADULTERAM OS indoutos e inconstantes, COMO TAMBÉM AS OUTRAS ESCRITURAS, para ruína de si mesmos (2.° Pedro III-16).

E verá o leitor que é justamente nas epístolas de S. Paulo, com especialidade, que os protestantes se atrapalham e se confundem, querendo ver aí uma teoria sobre a salvação que o próprio Paulo nunca ensinou.

Não há nenhuma desonra em não entender a Bíblia, que tem como Autor a Deus, cuja inteligência é infinita. Desonra e crime há, sim, em não entendê-la e ao mesmo tempo meter-se a doutrinador desastrado, apresentando uns textos e desprezando outros, blasfemando daquilo que ignora e incutindo no povo uma doutrina que não passa de uma caricatura da legítima doutrina do Evangelho.

Deus nos podia ter deixado uma Bíblia sempre clara e fácil de entender. Por que quis que ela fosse tão obscura e tão difícil em certos pontos? Foi para que ninguém se arvorasse em forjador de doutrinas, quando Deus deixou também aqui na terra a sua Igreja encarregada de ensinar a doutrina da verdade.

É natural, portanto, que procuremos, primeiro que tudo, conhecer, em suas linhas gerais, a doutrina da Igreja sobre a salvação.

Depois veremos como foi que surgiu no século XVI a teoria da salvação pela fé sem as obras. E será interessante ver como foi um homem que procurou arrancar do Evangelho uma doutrina MUITO CÔMODA, de acordo com os seus interesses pessoais; e depois muitos outros ficaram viciados nesta, história de salvação baratíssima.

Finalmente analisaremos os textos apresentados pelos protestantes, com os quais pretendem provar a sua tese de salvação pela fé sem as obras e veremos como todos êles se baseiam numa interpretação errônea, seja porque não tomam a FÉ no mesmo sentido em que a tomam as Escrituras, seja porque não percebem o verdadeiro mecanismo da salvação, no qual a graça de Deus exerce um papel muito importante, sem excluir, no entanto, a necessária cooperação humana.