Capítulo X

CAPÍTULO DÉCIMO: CRISTO ENVIOU OS APÓSTOLOS A PREGAR

DIFICULDADES PARA A EXATA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

201. DOIS PONTOS DE APOIO: ESCRITURA E TRADIÇÃO.

Deus ensinou aos homens a verdade religiosa por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio completar, de maneira maravilhosa, as revelações divinas feitas por intermédio dos Profetas no Antigo Testamento: Deus, tendo falado muitas vêzes e de muitos modos noutro tempo a nossos pais pelos Profetas, últimamente nestes dias nos falou pelo Filho, ao qual constituiu herdeiro de tudo, por quem fêz também os séculos (Hebreus I-1 e 2).

Essa doutrina verdadeira emanada de Deus, Éle quer que chegue ao conhecimento de todos: Deus quer que todos os homens se salvem e que CHEGUEM A TER O CONHECIMENTO DA VERDADE (1.° Timóteo II-4).

Como é que todos os homens podem ser devidamente instruídos nas verdades reveladas por Deus? Para isto Cristo instituiu a sua Igreja encarregada de ensinar a todos os povos e vela sempre para que ela não se deixe corromper pelo êrro, na sua luta contínua contra as heresias, ficando sempre de pé a divina promessa de que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18); porque a Igreja tem que ser sempre a coluna e firmamento da verdade (1.ª Timóteo III-15).

Em que se firma a Igreja para sustentar a doutrina que nos apresenta? Não há dúvida que um de seus pontos de apoio é a Bíblia Sagrada, escrita sob a inspiração do Espírito Santo, de modo que tudo o que a mesma ensina é a palavra de Deus a nós revelada.

Mas a Bíblia é um livro de muito difícil interpretação, muito sujeito a ser torcido e adulterado por aquêles que ensinam doutrinas falsas, procurando coonestá-las com a palavra de Deus.

Mesmo antes do Protestantismo, tão fértil em extravagâncias em matéria doutrinária, como adiante veremos, mesmo desde os princípios do Cristianismo têm aparecido teorias tão esquisitas que nos deixam boquiabertos e que se baseavam em má interpretação da Bíblia. S. Agostinho refuta os maniqueus que das palavras de Cristo: Eu sou a luz do mundo (João VIII-12) deduziam ser Cristo êste sol material que nós vemos no espaço e que nos aquece e dá -vida às plantas (!). O mesmo S. Agostinho nos fala de uns hereges chamados Hermianos e Seleucianos, os quais afirmavam que se deve batizar com fogo e não com água, baseados na falsa interpretação das palavras de S. João Batista, com relação a Cristo: Eu na verdade vos batizo em água... Ele vos batizará no Espírito Santo e EM FOGO (Mateus III-11) texto êste de que se servem os protestantes da seita dos Quacres, para, desprezando outras passagens da Bíblia, afirmarem que o batismo de água não é necessário nem obrigatório.

Juliano, o Apóstata, abusa da parábola do ecônomo infiel (Lucas XVI-1 a 9) que, aliás, é de sutil interpretação, para acusar Impiamente a Cristo de estar ensinando a trampolinagem e desonestidade nos negócios, quando o intuito do Divino Mestre é exortar aos filhos da luz a que usem de tanto ardor e atividade na prática da virtude como usam os filhos das trevas em defesa de seus interêsses e na prática do mal.

Em todos os tempos, os hereges se têm procurado apoiar nas Escrituras (pessimamente interpretadas) para sustentar os seus êrros, e nós sabemos como nos nossos dias os espiritistas se servem do ensino de Cristo de que o homem precisa renascer e renascer da água e do Espírito para entrar no reino de Deus (João III-3 e 5), palavras em que Cristo nos fala de um RENASCIMENTO ESPIRITUAL pelo Batismo e querem com isto ensinar um renascimento material, pela reincarnação.

Pode a Bíblia ficar à mercê das mais loucas e grosseiras e absurdas interpretações? De que serviria Deus deixar a sua palavra consignada num grande livro, se os homens tivessem plena liberdade de falseá-la ou estivessem completamente desorientados para penetrar-lhe o verdadeiro sentido? Ou a Igreja SABE qual é a verdadeira doutrina de Deus que está contida na Bíblia, de modo que possa orientar os fiéis neste sentido, mostrando onde está a interpretação legítima e onde está a interpretação capciosa e falsificadora, ou então não passa de uma inutilidade esta Igreja que Cristo fundou e à qual mandou ensinar a todos os povos: Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes (Mateus XXVIII-19).

Daí não se segue que a Igreja tenha que decidir, uma por uma, tôdas as questões que possam surgir a respeito das palavras da Escritura. A Bíblia é um livro maravilhoso e variadíssimo que contém ensinamentos de inegável necessidade para a nossa instrução, como tudo o que se refere à natureza de Deus e da nossa alma, a doutrina de Jesus sôbre a salvação, os meios necessários para obtê-la, as nossas obrigações, enfim tudo o que nos é imprescindível saber a respeito da Religião Verdadeira que o Verbo de Deus desceu do Céu para nos ensinar. Uma vez bem orientado para colhêr da Bíblia fielmente interpretada os pontos essenciais da sua doutrina, ainda resta ao homem neste livro de sabedoria imensa, que é a Bíblia, uma boa quantidade de pequenas questões que fica aos eruditos, aos especialistas, aos grandes mestres discutir e analisar livremente. Maria, irmã de Marta era a mesma Maria Madalena ou era outra? O batismo administrado pelos Apóstolos durante a vida de Cristo (João IV-2) era o mesmo batismo de Cristo, pelo qual se recebe o dom do Espírito Santo (Atos II-38) ou era um batismo de penitência igual ao do Precursor? O bom ladrão blasfemou a princípio e depois converteu-se (Mateus XXVII-44) ou se portou convenientemente desde o comêço e o blasfemador foi só o seu companheiro (Lucas XXIII-39 e 40) empregando a Bíblia no texto de S. Mateus, por sinédoque, o plural pelo singular?.

Estas e muitas outras pequenas questões a Igreja deixa discutir à vontade, porque são minúcias que não atingem diretamente a doutrina de Jesus.

Mas perguntarão os protestantes: Se a Bíblia, como dizem os católicos, é tão difícil de interpretar, como sabe a Igreja que a interpretação dela é verdadeira? Qual o elemento que possui a Igreja, a pedra de toque para conferir se é legítima ou errônea uma interpretação?

Vocês, protestantes, perguntam isto precisamente porque estão visivelmente desorientados neste ponto. Vocês se baseiam só no seu próprio raciocínio, no seu modo de ver as coisas, quando querem interpretar a Bíblia e por isto se perdem inteiramente, porque cada um raciocina à sua maneira e os modos de ver são diversos de indivíduo para indivíduo. É que Vocês só começaram a interpretar a Bíblia do século XVI para cá. Mas a Igreja vem do princípio, vem do tempo dos Apóstolos. estes eram homens iluminados especialmente pelo Espírito Santo e escolhidos por Deus para propagar a sua doutrina. Jesus vela sempre carinhosamente sôbre a sua Igreja, por ele fundada e um dos sentimentos que sempre lhe inspirou foi o cuidado extremo em não se afastar, por consideração alguma, da doutrina recebida da bôca dos Apóstolos. Ela é ferrenhamente apegada à sua TRADIÇÃO e era isto já o que os Apóstolos recomendavam no seu tempo: E assim, irmãos, estai firmes e CONSERVAI AS TRADIÇÕES que aprendestes, ou DE PALAVRA ou por carta nossa (2.° Tessalonicenses II-14) Nós vos intimamos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que andar desordenadamente e não segundo A TRADIÇÃO que êle e os mais receberam de nós outros (2.º Tessalonicenses III-6) GUARDA A FORMA DAS SÃS PALAVRAS QUE ME TENS OUVIDO na fé e no amor em Jesus Cristo. GUARDA O BOM DEPÓSITO pelo Espírito Santo que habita em nós outros (2.° Timóteo 1-13 e 14). Eu vos louvo, pois, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e guardais AS MINHAS INSTRUÇÕES COMO EU VO-LAS ENSINEI (Coríntios XI-2).

Se os judeus tinham lá as suas tradições errôneas, contrárias à lei de Deus, isto não é conosco, é lá com êles; não é de admirar, porque Deus não disse aos judeus como disse à sua Igreja: Eu estou convosco todos os dias, até à consumação do século (Mateus XXVIII-20); Deus permitiu mesmo o fracasso da religião judaica, para que o mundo sentisse a necessidade absoluta de Cristo e da sua Igreja. O fracasso desta é que, como ele prometeu, não permitirá nunca.

Instruída desde o início pelos Apóstolos e sempre solícita em conservar o som DEPÓSITO que lhe foi confiado, a Igreja tem um ponto de referência valiosíssimo para julgar do valor ou não de uma interpretação que lhe é apresentada. A Bíblia é infalível; o ensino dos Apóstolos também o era. Não pode haver contradição entre ambos. Se os Apóstolos ensinaram a existência da SS.ma Trindade, a divindade de Jesus Cristo, a divindade e personalidade do Espírito Santo, a presença real de Jesus Cristo na SS.ma Eucaristia, a existência do inferno, a necessidade do batismo de água, a indissolubilidade do matrimônio etc, etc, etc, e aparecem novos "intérpretes" negando estas doutrinas, a Igreja podia e pode condenar tais interpretações, baseando-se neste princípio: Não, não pode ser; Vocês estão errados, porque não foi esta a doutrina que recebemos dos Apóstolos e que sempre temos ensinado desde o comêço.

202. A AÇÃO DA PROVIDÊNCIA NA INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS.

A assistência tôda especial de que Jesus Cristo tem cercado a Igreja Católica, desde a sua fundação, se estende também à Bíblia, que é a palavra de Deus. E, no decorrer dos séculos, Deus tem suscitado homens profundamente sábios e santos que se têm entregue, com carinho e proficiência, ao trabalho de nos desvendar, pela sua aguda inteligência, os segredos da Bíblia, mantendo em tôrno dela uma interpretação segura, tais como foram S. Irineu, S. Hipólito, S. Ambrósio, S. Jerônimo, S. Agostinho, S. João Crisóstomo, S. Cirilo de Jerusalém, S. Gregório Nisseno, S. Gregório Nazianzeno, S. Basílio, S. Hilário, S. Cirilo de Alexandria, S. Gregório Magno, S. Beda, S. Isidoro de Sevilha, S. Tomás de Aquino e muitos outros, para só falarmos em grandes homens que viveram antes de aparecer a heresia protestante.

Foram mestres autorizados que iluminaram a Igreja com a sabedoria de seus escritos. E o fato de tantos homens santos e sábios aceitarem a interpretação católica, defendê-la nos seus livros, é sinal de que não existe na Igreja a adulteração da palavra de Deus, mas sim um sincero amor à verdade. Esta interpretação abalizada que vem desde o princípio, sempre firme em rejeitar e combater as heresias é o que se chama a interpretação tradicional. Tradicional, sim, porque a verdade é uma só; a Bíblia não muda, não ensina uma doutrina neste século para ensinar outra alguns séculos mais tarde. Pode-se, com o decorrer dos tempos, progredir muito e muito no conhecimento das imensas riquezas que a Bíblia nos apresenta, mas a mensagem de Deus feita aos homens tem, em suas linhas gerais, que ser exatamente a mesma, porque é a todos os homens, de qualquer época e de qualquer raça ou condição, que Deus endereça a sua palavra.

203. A AVENTURA DE MARTINHO LUTERO.

O que aconteceu, porém, com Martinho Lutero é que êle apareceu no século XVI com uma doutrina que completamente se afastava da interpretação tradicional, apareceu sustentando uma tese monstruosa, imoral e absurda. Espírito doentio, completamente perturbado com o drama que se passava no seu íntimo, o drama do homem em luta com as suas paixões, Lutero sustenta que o homem não é livre, está com a natureza totalmente depravada, tudo o que faz é necessàriamente pecado e neste estado de desespêro só tem um remédio: confiar em Cristo, para que o Salvador tome a si os pecados dêle. É o meio de salvar-se SEM ARREPENDIMENTO, porque o arrependimento não adianta: "torna o homem ainda mais hipócrita e mais pecador." O homem pode pecar à vontade; não precisa arrepender-se dos pecados, para salvar-se; nem pode arrepender-se, pois se arrepende só quem é livre: confie em Cristo e será salvo.

Tudo isto já expusemos no Cap.

Esta doutrina, em completo desacôrdo não só com a moral puríssima do Cristianismo que move o homem a santificar-se, vencendo-se a si mesmo, ajudado pela graça divina, mas com as próprias religiões pagãs, nas quais nunca se perdeu a noção de liberdade e responsabilidade humana, não podia de modo algum nem de longe ter apoio nos Santos Padres, na interpretação tradicional da Igreja.

Para justificar a sua novidade, Martinho Lutero se apresenta como inspirado por Deus: "Tenho certeza de que os meus dogmas vêm do céu" (Weimar X, 2 Abt. pág. 184) e estabelece o princípio de que todo homem, todo cristão tem o pleno direito, não só de ler a Bíblia, mas de interpretá-la com suas próprias luzes, de acôrdo com a inspiração que vem do alto: "A todos os cristãos e a cada um em particular pertence conhecer e julgar a doutrina. Anátema a quem lhes tocar um fio dês-te direito" (Weimar X, 2 Abt. pág. 217). Assim estaria êle justificando o fato de ter aparecido com uma interpretação inteiramente diversa daquela que sempre a Igreja ensinara até então.

Mais tarde êle lamentará, num momento de sinceridade, ter-se afastado assim do ensino dos Santos Padres: "Ninguém é capaz de imaginar quanto custa e que suplício é para um homem ensinar e crer uma doutrina que não admitem os Padres da Igreja. Que agitações no seu coração ao pensar que tantos homens excelentes, esclarecidos, doutos e, por assim dizer, a maior e melhor parte do mundo cristão acreditaram e ensinaram tal e tal artigo e com êles tantas almas santas, os Ambrósios, os Jerônimos, os Agostinhos! Parece-nos ouvi-los em gritos de angústias repetir em côro: A Igreja! A Igreja! E a alma se confrange de dor suprema! Oh! é, na verdade, uma prova rude... separar-se de tantos personagens santos... romper com a própria Igreja e NÃO TER FÉ NEM CONFIANÇA NOS PRÓPRIOS ENSINAMENTOS . . . Não posso negar a angústia e a perturbação que me causam muitas vêzes êstes pensamentos" (Erlangen XLVI-226-229; LX, 82).

Éste remorso e esta sensação de insegurança que sentia o próprio Lutero, tão inteligente e ao mesmo tempo tão presumido, nos dão bem uma idéia da temeridade em que havia incorrido, rompendo tão abertamente com aquilo que os grandes mestres durante 1.500 anos haviam ensinado em matéria de interpretação das- Sagradas Letras. Mas um largo caminho para a presunção se abriu com a revolta luterana. E o que vemos hoje é uma multidão de homens, mesmo dentre os mais rudes e ignorantes tomarem da Bíblia para dizerem, sem mais nem menos, que está "evidentemente errada" a doutrina dos grandes doutôres e especialistas do assunto que sempre constituíram a glória da Igreja. Não querem saber de orientação da Igreja Católica na exegese do Livro Sagrado; para êles o meio de chegar até nós a mensagem divina não é indagar o que a Igreja do Deus Vivo sempre nos ensinou e nos ensina. É tomar a Bíblia e diretamente interpretá-la cada um, de acôrdo com a sua própria capacidade. A idéia pode, à primeira vista, fascinar alguns espíritos ciosos de liberdade (liberdade mal entendida, pois não temos liberdade para formular a doutrina religiosa a nosso modo) alguns espíritos cheios de ódio e de prevenção contra a Religião Católica e portanto indispostos a aceitar os seus ensinamentos, mas bem analisada se vê claramente que é idéia de um louco.

204. A MENSAGEM DE DEUS É PARA TODOS.

Se não é a Igreja quem nos ensina a doutrina de Cristo, mas vamos dizer a todos, sem exceção: "Aqui está a Bíblia; leia e interprete Você mesmo; assim Você aprende diretamente a doutrina revelada", topamos logo diante de uma grande dificuldade. Muitos dirão: "Meu filho, se para aprender a doutrina é preciso saber ler, neste caso estou perdido, porque sou analfabeto."

Os protestantes em geral se mostram bastante zelosos em abrir escolas aqui e acolá e em espalhar Bíblias muito baratas para que todos a leiam e assim tenham a palavra de Deus diante de seus olhos. Suponhamos mesmo que graças a seus esforços não haja dentro de alguns anos no mundo nenhuma pessoa analfabeta, pelo menos de certa idade em diante. Está muitíssimo difícil, mas vamos fazer esta suposição para agradar aos protestantes. Isto porventura resolve o caso de milhões e milhões de pessoas que durante êstes 2.000 anos já existiram e que se viram privadas de aprender a doutrina de Cristo pelo sistema protestante? Quantos analfabetos já houve desde o 1.º século da era cristã até os dias de hoje? Além disto, nós sabemos que a arte tipográfica só veio a ser aperfeiçoada por Gutenberg e no século XV; e a indústria do papel, introduzida na Europa no século X.º, só veio a ter pleno desenvolvimento no século XIV. Durante muitos séculos os livros eram caríssimos: 1.º porque eram feitos de papiro ou de pergaminho; 2.º porque eram todos escritos ou COPIADOS À MÃO. Um livro volumoso representava o trabalho paciente de um copista durante vários iness e, às vêzes, durante vários anos. No tempo da invenção de Gutenberg, uma Bíblia manuscrita custava 500 florins, o que era naquele tempo soma bem considerável; já em 1462, sete anos mais tarde, uma Bíblia impressa era vendida por 30. Durante muito tempo, portanto, foi impossível que todos os que soubessem ler conseguissem a sua Bíblia; não havia Bíblias nem para a décima parte e custavam uma fortuna.

Hoje está tudo muito mais fácil e mais simples neste sentido, não há dúvida alguma. Porém os protestantes mostram que souberam herdar neste ponto o velho egoísmo de Lutero; êles fazem suas teorias, estabelecem seus sistemas de ensino, como se o Cristianismo só tivesse começado a existir no século XVI, depois que surgiram os novos -profetas" Lutero e Calvino. Não. O Cristianismo vem do 1.º século da nossa era. E tem que vir também dessa época o MEIO que Jesus deixou para os homens aprenderem a sua doutrina e para ficar esta ao alcance de todos, porque Deus quer que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade. Se êste meio por Êle estabelecido fôsse apenas espalhar Bíblias e mandar cada um ler e interpretar como pode, neste caso Êle deveria ter logo ensinado aos seus Apóstolos e aos propagadores de sua Religião como se devia fabricar o papel, e qual o meio melhor de imprimir (o que só veio a ser descoberto por Gutenberg em 1455) e deveria ter também deixado logo esta ordem: Quem quiser aprender a minha doutrina, entre primeiro numa escola para aprender o a-bê-cê!

205. A BÍBLIA NÃO FOI ESCRITA EM PORTUGUÊS.

Mas será o fato de imprimir-se a Bíblia e de se colocar a mesma na mão de todos que vai resolver a questão? Entre os que sabem ler há uma enorme graduação: desde os que nós chamamos semianalfabetos, os quais mal sabem assinar o nome e mal sabem interpretar fielmente as histórias singelas que traz uma Cartilha Infantil, até homens cultos e letrados que fizeram seu curso ginasial e superior e depois disto continuaram a enriquecer com proveitosas leituras sua própria erudição. Mas, por mais competente que seja um homem para bem interpretar o sentido de um texto escrito em português, é preciso notar que a Bíblia não foi escrita nesta língua, mas em grego e em hebraico e que num ou noutro caso, reflete o modo de falar usado pelo menos há 2.000 anos na Palestina, onde se falava uma língua oriental bem diversa da nossa. Ora, nós sabemos que nem sempre a palavra de uma língua encontra um perfeito sinônimo em outra; para bem penetrarmos, por nós mesmos, o sentido da Bíblia, é indispensável um bom conhecimento do hebraico e sobretudo, do grego, que é o que mais nos interessa no Novo Testamento. Vê-se freqüentemente que os pastôres protestantes, ao explicar certas passagens da Bíblia, fazem alusão ao texto grego, porque, dizem, é preciso recorrer a êle, afim de lhes penetrar o verdadeiro sentido. Não há aí uma implícita condenação do livre exame? Se para entender bem certos trechos das Escrituras, é preciso recorrer ao grego, e O GREGO, BEM POUCAS PESSOAS O SABEM, como é então que se diz, a tôdas as pessoas a quem se entrega a Bíblia, que elas têm capacidade para interpretá-la?

Pode-se cair em erros gravíssimos pelo fato de não se atentar bem na índole das línguas orientais e sobretudo daquela que usou Jesus porque era a que se falava na Palestina no seu tempo (língua, por exemplo, na qual, em lugar de se responder — SIM — se respondia: Tu o disseste. Eu te conjuro, pelo Deus Vivo, que nos digas se tu és o Cristo, Filho de Deus. Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste — Mateus XXVI-63 e 64, e em que .Jesus muitas vêzes, em lugar de dizer EU, dizia: O Filho do Homem; língua em que palavras tão simples como INFERNO, IRMÃOS, ADORAR, CONHECER etc, podem ter exatamente o mesmo sentido que têm no nosso idioma, ou podem assumir de uma hora para outra um sentido diferente); (23) é o que mostraremos no último capítulo, quando veremos que interpretando mal uma frase de S. Mateus, precisamente por causa da diversidade de índole entre as línguas orientais antigas e o português, alguns protestantes caem no 'erro de ver ali um argumento contra a virgindade perpétua de Maria SS.ma (n.º 399).

206. ENTENDES O QUE ESTÁS LENDO? (Atos VIII-31).

Mesmo que não houvesse nenhuma dificuldade quanto à língua e que todos tivessem grandes conhecimentos do grego e do hebraico para ler a Bíblia, conhecendo perfeitamente até onde as palavras em português exprimem exatamente o sentido do texto original, ainda assim não estaria resolvida tôda a questão. A Bíblia é, por sua natureza, um livro de interpretação dificílima. Algumas de suas passagens são tão claras e tão singelas que qualquer criança é capaz de entendê-las; isto não se pode negar. Outras, porém, tão árduas e tão intrincadas que os maiores sábios e os mais eruditos quebram a cabeça para decifrá-las. Não venham os protestantes querendo negar isto e afirmar que tudo na Bíblia é muito simples e Muito fácil, porque é a própria Bíblia que nos declara que há nela muitas coisas difíceis de entender. S. Pedro fala a respeito das epístolas de S. Paulo nas quais HÁ ALGUMAS coisaS DIFÍCEIS DE ENTENDER, as quais adulteram os indoutos e inconstantes (2.ª Pedro III-16). Nos Atos dos Apóstolos se lê que Filipe encontrou o eunuco a ler o Profeta Isaías e lhe perguntou: Crês porventura que ENTENDES O que estás lejido? (Atos VIII-30). E o eunuco lhe responde: E como o poderei eu ENTENDER, se não houver alguém que mo explique? (Atos VIII-31). Esta mesma palavra, nós poderemos ouvi-la de inúmeros protestantes, os quais tantas e tantas vêzes nós vemos pelos seus programas de rádio fazendo as mais banais interrogações sôbre textos bem simples e bem claros da Bíblia, sinal de que muito mais se perturbarão diante de outros textos muito mais difíceis e complicados. Um protestante pergunta o sentido da Bíblia ao seu pastor (sinal de que não sabe por si mesmo interpretá-la; e tem o pastor a certeza de que o sabe?); o católico também o pede ao sacerdote. Mas a diferença é muito grande no resultado: o pastor segue o livre exame, interpreta a Bíblia pela sua própria cabeça, muitas vêzes não tem firmeza naquilo que ensina, pode até mudar de opinião de um dia para outro e ser desmentido por outro pastor protestante que segue orientação diversa. O padre católico expõe, ao contrário, a interpretação tradicional que vem desde o princípio, desde os tempos dos Apóstolos e que se firma na experiência multissecular que tem a Igreja do seu trato com as Escrituras.

Mesmo após a ressurreição do Mestre, são os próprios Apóstolos que, depois de tudo passado, ainda não entendem bem o sentido das Escrituras e é preciso que Jesus lhes explique. Então lhes abriu o entendimento para alcançarem o sentido das Escrituras (Lucas XXIV-45). Para que se mostrassem seguros na sua interpretação, foi preciso que o Espírito Santo os iluminasse profusamente no dia de Pentecostes. A Bíblia, portanto, está muito longe de ser êste livro assim tão claro, como querem os protestantes, que se põe na mão de todos, para que todos o interpretem por si mesmos e de acôrdo com as suas próprias luzes.

206. ENTENDES O QUE ESTÁS LENDO? (Atos VIII-31).

Mesmo que não houvesse nenhuma dificuldade quanto à língua e que todos tivessem grandes conhecimentos do grego e do hebraico para ler a Bíblia, conhecendo perfeitamente até onde as palavras em português exprimem exatamente o sentido do texto original, ainda assim não estaria resolvida tôda a questão. A Bíblia é, por sua natureza, um livro de interpretação dificílima. Algumas de suas passagens são tão claras e tão singelas que qualquer criança é capaz de entendê-las; isto não se pode negar. Outras, porém, tão árduas e tão intrincadas que os maiores sábios e os mais eruditos quebram a cabeça para decifrá-las. Não venham os protestantes querendo negar isto e afirmar que tudo na Bíblia é muito simples e Muito fácil, porque é a própria Bíblia que nos declara que há nela muitas coisas difíceis de entender. S. Pedro fala a respeito das epístolas de S. Paulo nas quais HÁ ALGUMAS coisaS DIFÍCEIS DE ENTENDER, as quais adulteram os indoutos e inconstantes (2.ª Pedro III-16). Nos Atos dos Apóstolos se lê que Filipe encontrou o eunuco a ler o Profeta Isaías e lhe perguntou: Crês porventura que ENTENDES O que estás lejido? (Atos VIII-30). E o eunuco lhe responde: E como o poderei eu ENTENDER, se não houver alguém que mo explique? (Atos VIII-31). Esta mesma palavra, nós poderemos ouvi-la de inúmeros protestantes, os quais tantas e tantas vêzes nós vemos pelos seus programas de rádio fazendo as mais banais interrogações sôbre textos bem simples e bem claros da Bíblia, sinal de que muito mais se perturbarão diante de outros textos muito mais difíceis e complicados. Um protestante pergunta o sentido da Bíblia ao seu pastor (sinal de que não sabe por si mesmo interpretá-la; e tem o pastor a certeza de que o sabe?); o católico também o pede ao sacerdote. Mas a diferença é muito grande no resultado: o pastor segue o livre exame, interpreta a Bíblia pela sua própria cabeça, muitas vêzes não tem firmeza naquilo que ensina, pode até mudar de opinião de um dia para outro e ser desmentido por outro pastor protestante que segue orientação diversa. O padre católico expõe, ao contrário, a interpretação tradicional que vem desde o princípio, desde os tempos dos Apóstolos e que se firma na experiência multissecular que tem a Igreja do seu trato com as Escrituras.

Mesmo após a ressurreição do Mestre, são os próprios Apóstolos que, depois de tudo passado, ainda não entendem bem o sentido das Escrituras e é preciso que Jesus lhes explique. Então lhes abriu o entendimento para alcançarem o sentido das Escrituras (Lucas XXIV-45). Para que se mostrassem seguros na sua interpretação, foi preciso que o Espírito Santo os iluminasse profusamente no dia de Pentecostes. A Bíblia, portanto, está muito longe de ser êste livro assim tão claro, como querem os protestantes, que se põe na mão de todos, para que todos o interpretem por si mesmos e de acôrdo com as suas próprias luzes.

207. A DIVERSIDADE DE GÉNEROS.

Uma das dificuldades que encontramos na Bíblia reside na sua imensa variedade. Livro escrito em várias épocas e composto por muitas pessoas diversas (conservando, apesar da inspiração vinda de Deus, o estilo e as características de cada uma) a Bíblia abrange todos os gêneros literários e acrescenta outros gêneros próprios. Ora é a linguagem clara e prática daquele que legisla ou a linguagem simples e precisa do historiador. Ora é o estilo epistolar, umas vêzes mais chão, outras vêzes mais elevado. Ora a linguagem imaginosa e ardente do poeta, seja poesia lírica, como na maioria dos, Salmos, seja poesia mística, como no Cântico dos Cânticos, seja poesia didática, como nos livros de máximas, os Provérbios por exemplo. E, além dos gêneros em uso na literatura profana, a Bíblia tem ainda o estilo profético e apocaliptico do qual faz parte necessàriamente a obscuridade, estilo enigmático, simbólico e alegórico. Um pobre homem que não tenha grande cultura literária, que está acostumado a tudo quanto lê tomar ao pé da letra, no sentido material da palavra, se perde completamente na leitura da Bíblia.

208. A DOUTRINA NO NOVO TESTAMENTO.

Mas dirão os protestantes: Esta grande diversidade de gêneros se observa sobretudo no Antigo Testamento. No Novo, fora o Apocalipse que apresenta as dificuldades do estilo profético e alegórico, vemos o estilo histórico nos Evangelhos e nos Atos, e o estilo epistolar nos demais livros. Assim, mesmo que se deixe o Apocalipse para os grandes entendidos no assunto, temos os Evangelhos, os Atos, as Epístolas para daí extrairmos a doutrina de Jesus.

— Pois, a dificuldade reside precisamente nisto: é que o Novo Testamento foi escrito em gênero histórico e gênero epistolar e daí temos que extrair tôda uma doutrina.

Os Evangelhos e os Atos e as Epístolas não foram escritos com a idéia preconcebida de expor metódicamente a doutrina de Jesus. Neste caso teriam exposto esta doutrina de uma maneira ordenada, como quem faz um catecismo ou um compêndio de teologia; primeiro um assunto, depois outro etc.

A preocupação dos Evangelistas é narrar a vida de Jesus, mais ou menos de acôrdo com a ordem cronológica, assim como a preocupação de S. Lucas nos Atos é narrar os primeiros acontecimentos da vida da Igreja. As Epístolas são escritas de acôrdo com os assuntos éspeciais que merecem a atenção das pessoas a quem se dirigem. A doutrina vem tôda esparsa aqui e acolá e para entender bem um texto é preciso compará-lo com todos os textos paralelos que os completam e explicam. Jesus Cristo não ensinou tôda a sua doutrina de uma vez, mas a foi revelando aos poucos, de acôrdo com as circunstâncias; é preciso muito método, MUITA HONESTIDADE, muito conhecimento das Escrituras para saber coordenar, sistematizar os seus ensinos, fazendo um corpo de doutrina de tudo o que Êle afirmou.

E nem tudo o que ensina a Bíblia se aplica a todos os casos; cada palavra tem a sua aplicação especial; é preciso bastante sabedoria e iluminação do Espírito Santo para dar a cada texto a aplicação adequada.

209. A INTERPRETAÇÃO TEM QUE SER TOTAL E NÃO PARCIAL.

Interpretar a Bíblia não é valer-se de uns textos, querer basear-se nêles para formular uma determinada doutrina e sacrificar muitos outros, como quem abre no seio da floresta um caminho próprio, derrubando e queimando árvores. Temos que acertar o caminho, mas deixando intacta a floresta.

Por isto, quando nos firmamos em certos textos e nos apresentam na Bíblia outros que são, ou pelo menos, parecem CONTRÁRIOS ao nosso ponto de vista, cabe-nos a obrigação de explicá-los T000s, de modo que se conciliem e harmonizem, sem falsear, nem torcer, nem adulterar nenhum dêles.

A tarefa é árdua, mesmo para as mais agudas inteligências.

Tanto na interpretação da Bíblia como no estudo de qualquer ciência, podem aparecer êstes casos em que o estudioso precisa de uma argúcia especial para conciliar duas coisas que parecem inconciliáveis. Mas enquanto, no estudo das ciências, o homem pode suspender o seu julgamento, dizer simplesmente: "É uma questão discutida; a ciência ainda não resolveu êste problema, vou continuar estudando, pode ser que mais tarde eu encontre a solução exata e se eu morrer e não a descobrir, outros descobrirão depois", no estudo da Bíblia não é assim: a Bíblia versa sôbre problemas que nos dizem respeito mui de perto, e que exigem pronta e imediata solução; trata-se da salvação de nossa alma e nós podemos morrer a cada instante. A criança, o adolescente, o jovem têm também a necessidade de possuir uma certeza absoluta a respeito de todos os pontos do verdadeiro ensino de Jesus, não podem ficar esperando para chegar a uma conclusão depois de vários anos de vigílias e de estudos. O mesmo se diga de tantos homens que vivem atarefados dia e noite para conseguirem o pão de cada dia; precisam de alguém que lhe ensine a verdade religiosa, mas com absoluta firmeza e autoridade, não como quem expõe, apenas teorias e opiniões próprias, porque não têm tempo para tomar esta sobrecarga de estar comparando os textos da Bíblia, uns com os outros, para daí extrair a legítima doutrina.

210. PRODÍGIOS E CARISMAS.

É precisamente pelo fato de vir a doutrina inserta em livros históricos e epistolares, que se torna difícil na Bíblia separar a doutrina, que permanece, daquilo que é transitório, sendo próprio exclusivamente dos inícios da Igreja.

A Igreja esteve, nos primeiros dias, em condições especiais e extraordinárias, que eram necessárias para o seu desenvolvimento. Os carismas, os milagres não podiam ser freqüentes nos tempos posteriores como no início da Igreja. Quando esta precisava propagar-se ràpidamente, êles serviam de prova da sua origem divina. Depois de propagada a Igreja, tais manifestações extraordinárias teriam que aparecer com mais raridade, do contrário desapareceria o merecimento da fé. Viciados a ver milagres a tôda hora, a todo instante, os fiéis podiam incorrer na censura de Jesus: Vós, se não vêdes milagres e prodígios, não credes (João IV-48), quando a perfeição da fé se traduz por estas palavras: Bem-aventurados os que não viram e creram (João XX-29). A doutrina revelada tem que ficar intacta; as verdades que Jesus nos ensinou, ou diretamente ou por intermédio dos seus Apóstolos, têm que permanecer de pé; mas a Igreja dos nossos dias não pode funcionar da mesma maneira que a Igreja primitiva, pois as circunstâncias são diversas.

E é neste ponto que os protestantes têm caído em erros verdadeiramente infantis e às vêzes até lamentàvelmente ridículos. No seu empenho de demonstrar que a Igreja Católica muito se afastou da Igreja primitiva e na ânsia de se mostrarem perfeitos imitadores dos primeiros cristãos, não recuam nem diante de verdadeiras palhaçadas. Que são as ridicularias tantas vêzes praticadas pelos Pentecostais senão uma conseqüência dêsses enganos fatais, a que está sujeito o livre exame? Não há dúvida que o Espírito Santo desceu visivelmente sôbre os ApóStolos e sua presença se mostrou de maneira extraordinária pelo dom das línguas. Não há dúvida que naqueles primeiros dias houve até simples fiéis que receberam o Espírito Santo com estas manifestações prodigiosas que chamavam a atenção de todos para a divindade da Igreja, a qual então se começava a propagar. Mas, porque a Bíblia faz menção dêsses fatos, segue-se daí que exatamente o mesmo deva acontecer em todos os tempos?

Ora, o caso é que os Pentecostais querem mostrar serem cristãos legítimos, cristãos iguais aos dos primeiros tempos da Igreja. Têm, portanto, que receber o Espírito Santo com o dom das línguas; têm que falar línguas estranhas e para isto se põem a articular sons sem sentido e palavras desconexas. E em algumas de suas reuniões, o "Espírito Santo" se tem manifestado através de risos, choros, gritos e ataques. As outras seitas muitas vêzes se têm rebelado contra êles, chamando-os de feiticeiros etc. Mas que podem elas fazer? Estão os Pentecostais apenas "interpretando" a Bíblia pelo livre exame e querendo voltar exatamente à Igreja primitiva, o que é de fato o ideal que se propuseram as seitas protestantes.

211. O CELIBATO NA IGREJA PRIMITIVA E NA ATUAL.

Outro êrro infantil e êste agora comum a quase tôdas as seitas evangélicas é o seu engano a respeito do celibato eclesiástico. Ninguém que tenha uma noção, embora vaga, do que é a doutrina do Cristianismo, doutrina de vitória sôbre si mesmo, de domínio do espírito sôbre a matéria, de desprendimento do mundo e das criaturas, ninguém em boa lógica vai negar quão meritório seja aos olhos de Deus o gesto daquele que, para melhor servir ao mesmo Deus, se Lhe consagra totalmente de corpo e alma, pelo voto de virgindade. A Igreja é a primeira a reconhecer que legítimo, honroso e santo é o estado do matrimônio, estado em que forçosamente se coloca a maioria. Mas, se no meio dos cristãos há alguns que, por vocação especial de Deus, se querem dedicar inteiramente a Êle pelo voto de perfeita castidade, êste estado sem dúvida alguma é mais santo e mais perfeito ainda. Nosso Senhor faz abertamente no Evangelho uma alusão a êste estado especial: Nem todos são capazes desta resolução, mas somente aquêles a quem isto foi dado. Porque há uns castrados que nasceram assim do ventre de sua mãe; e há outros castrados, a quem outros homens fizeram tais; e há outros castrados que a si mesmos se castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de compreender isto, compreenda-o (Mateus XIX:11 e 12). É claro que Nosso Senhor não fala, aí no terceiro caso, de uma mutilação física, como entendeu mal Orígenes; é uma operação do espírito pela qual alguém com generosidade e sacrifício se vota ao serviço divino, renunciando os prazeres da carne. Nem todos são capazes dêste sacrifício; é um dom de Deus, mas um dom que é dado "àqueles que o pedem, que o desejam e que se esforçam por adquiri-lo", como observa S. Jerônimo. (24) O que aos homens é impossível, é possível a Deus, explicará Nosso Senhor neste mesmo capítulo do Evangelho (Mateus XIX-26). O que o homem não é capaz de fazer por suas próprias fôrças, poderá fazê-lo com o auxílio especial da graça divina, de modo que disse S. Paulo: Tudo posso nAquele que me conforta (Fillpenses IV-13). Deus não nega êste dom da castidade perfeita àqueles que o pedem de todo o coração, que empregam todos os meios para consegui-lo e depois conservá-lo, principalmente quando, distinguidos ciom uma VERDADEIRA vocAçXo, precisam dêste dom para melhor se dedicarem ao serviço do Reino dos Céus.

S. Paulo, na ta Epístola aos Coríntios, fala também abertamente a respeito da superioridade do estado de continência perfeita sôbre o de matrimônio. O que está sem mulher está cuidadoso das coisas que são do Senhor, de como há de agradar a Deus; mas o que está com mulher está cuidadoso das coisas que são do mundo, de como há de dar gôsto a sua mulher e anda dividido. E a mulher solteira e a virgem cuida nas coisas que são do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito, mas a que é casada cuida nas coisas que são do mundo, de como agradará ao marido. Na verdade digo-vos isto para proveito vosso; não para vos ilaquear, mas somente para o que é honesto e que vos facilite a orar ao Senhor sem embaraço (1.ª ,Coríntios VII-32 a 35).

Jesus Cristo, modêlo da mais elevada perfeição humana, foi castíssimo. Se o estado de matrimônio fôsse mais perfeito que o de virgindade, como querem muitos protestantes, Êle estaria, com relação a muitos outros homens, em situação de inferioridade.

Castíssimos foram também sua Mãe, Maria SS.ma e S. José; alguns protestantes ousam negá-lo, mas sôbre isto falaremos no capítulo final. Castíssimo foi também o seu precursor S. João Batista e se dentre os Apóstolos a sua predileção era para S. João Evangelista, a causa disto era a sua virgindade, de modo que diz S. Jerônimo: "O Apóstolo João, um dos discípulos do Senhor que, segundo nos refere a tradição, foi o mais moço entre os Apóstolos, aquêle que a fé cristã tinha encontrado virgem e virgem permaneceu, por isto é mais amado pelo Senhor e descansa a sua cabeça sôbre o peito de Jesus; e aquilo que Pedro que tinha tido mulher não ousa interrogar, pede a êle que interrogue... Quando estavam na barca e pescavam no lago Genesaré, Jesus estava na praia e os Apóstolos não sabiam a quem viam; só o virgem reconhece o Virgem e diz a Pedro: É o Senhor." (Contra Jovinianum Livro n.º 26).

Quanto aos outros Apóstolos que eram casados quando foram chamados pelo Mestre, tudo indica que êles deixaram as suas espôsas para seguir a nova vocação. Porque, quando Nosso Senhor lhes disse: Todo o que deixar por amor do meu nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou A MULHER, OU os filhos, ou as fazendas, receberá cento por um e possuirá a vida eterna (Mateus XIX-29), S. Pedro Lhe havia dito naquela mesma hora: Eis aqui estamos nós, que deixámos TUDO e te seguimos (Mateus XIX-27).

Não há, em todo o Novo Testamento, o mínimo vestígio de que os Apóstolos continuassem a viver com suas espôsas, depois que começaram a seguir o Divino Mestre; delas se desligaram, é o que nos refere a tradição.

O texto em que querem basear-se os protestantes para afirmar o contrário vem muito desastradamente fora de propósito. Argumentam êles com o seguinte versículo de S. Paulo: Acaso não temos nós poder para levar por tôda a parte UMA MULHER IRMÃ, assim como também os outros Apóstolos e os irmãos do Senhor e Celas? (1.ª Coríntios IX-5). Ora, dizem êles, esta palavra MULHER corresponde no texto grego à palavra GYNÉ, a qual significa mulher casada. Assim os Apóstolos levavam consigo uma mulher casada. Mas não se pode conceber que uma mulher casada deixasse em casa seu marido para acompanhar um Apóstolo por tôda a parte; logo, se trata de uma mulher casada com o próprio Apóstolo.

— Primeiro que tudo, é necessário que se observe o contexto. S. Paulo aí neste capítulo não está tratando absolutamente do problema da castidade, mas sim do direito à subsistência, da capacidade de prover às coisas materiais necessárias à vida, por isto tinham os Apóstolos o direito de levar consigo UMA MULHER IRMÃ para cuidar dêsses problemas materiais de alimentação, hospedagem etc. Assim é que no versículo anterior havia dito: Porventura não temos nós direito de comer e de beber? (1.ª Coríntios IX-4) e um versículo mais adiante Quem jamais vai à guerra à sua custa? Quem planta' uma vinha e não come do seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não come do leite do rebanho? (1.ª Coríntios IX-7).

S. Paulo aí está falando em seu nome e no de Barnabé. Ora, sabe-se muito bem que S. Paulo era SOLTEIRO, praticava e aconselhava o celibato: Digo também aos SOLTEIROS e às viúvas que lhes é bom se permanecerem assim, como também eu. Mas se não têm dom de continência, casem-se (L4 Coríntios VII-8 e 9).

Pois bem, se S. Paulo que era reconhecidamente solteiro falava no direito que tinha de levar para tôda parte UMA MULHER IRMÃ, aí se trata de uma mulher que honestamente vá ajudá-lo prestando serviços domésticos, mas não que vá servir-lhe dormindo no mesmo leito; assim S. Paulo estaria dizendo que lhe cabia o direito de escolher uma mulher dentre as cristãs, dentre as irmãs na fé e levá-la como concubina nas suas viagens, o que seria o maior absurdo. Se S. Paulo quisesse referir-se a êste assunto, como afirmam os protestantes, teria que dizer assim: Não tenho eu o direito de casar-me e levar para tôda parte a minha espôsa? porque é claro que precisava casar-se primeiro para andar com uma espôsa por tôda parte. Não seria UMA MULHER IRMÃ qualquer; seria a mulher dêle e ninguém mais.

E tôda esta argumentação protestante se baseia num ponto inteiramente falso. A alusão ao grego é, neste caso, descabida, porque não é verdade que GYNÉ em grego signifique necessàriamente mulher casada. GYNÉ tem exatamente o mesmo sentido que tem a palavra MULHER em português. É claro que quando se diz em português: a mulher de Francisco; Francisco repudiou sua mulher — aí a palavra MULHER significa espôsa. Mas daí não se segue que MULHER só pode ser casada. Se eu digo: Chegou aqui uma mulher; o homem e a mulher são obras de Deus; procure uma mulher e se case — é claro que aí não tem o mesmo sentido.

Se a Bíblia diz: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, TUA MULHER (Mateus 1-20) Herodes... o meteu no cárcere por causa de Herodias, MULHER DE SEU IRMÃO (Mateus XIV-3), a palavra GYNÉ, tal qual a palavra MULHER em português, significa espôsa. Mas, quando diz: Iam-se batizando homens e MULHERES em nome de Jesus Cristo (Atos VIII-12) tôda MULHER que faz oração ou que profetiza não tendo coberta a cabeça desonra a sua cabeça (1.ª Coríntios XI-5) é coisa indecente para uma MULHER o falar na igreja (1.ª Coríntios XIV-35) orem também as MULHERES em traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade (1.º Timóteo II-9) tinham os cabelos como os cabelos das MULHERES (Apocalipse IX-8), em todos êstes casos se emprega no texto grego da Bíblia a palavra GYNÉ, mas aí sem nenhuma consideração ao estado civil: casada, solteira ou viúva.

E:,

São exemplos êstes do Novo Testamento.

O Antigo Testamento também está cheio dêles. Repare o leitor nos seguintes textos, em que aparece a palavra MULHER no sentido geral, mesmo que não seja casada: O homem ou MULHER, em cuja cabeça ou barba brotar a lepra serão reconhecidos pelo sacerdote (Levítico XIII-29) a MULHER não se vestirá de homem (Deuteronômio XXII-5) eu vi em Tamnata unia MULHER das filhas dos filisteus; rogo-vos que ma deis por espôsa (Juízes XIV-2) se uni homem ou uma MULHER entrar sem ser chamado na câmara do rei, no mesmo ponto sem recurso é morto (Ester IV-11) a MULHER de engraçada compostura alcançará glória (Provérbios XI-16). No texto grego do Antigo Testamento, ou seja, na versão dos Setenta, o têrmo correspondente é sempre GYNÉ.

Não era preciso citarmos tantos textos da Bíblia (fazemo-lo apenas, porque os protestantes são em geral muito teimosos) bastava um bom dicionário para resolver esta questão. Veja-se o Dicionário de Bailly: GYNÉ 1.° Mulher, por oposição a homem, sem consideração de idade, nem de condição, casada ou não; 2.º Mulher, espôsa; 3.º Mulher mortal, por oposição a deusa.

Portanto, quando diz o Apóstolo UMA MULHER IRMÃ não está fazendo a menor referência ao estado civil. E é mostrar completo desconhecimento do grego afirmar que a palavra correspondente nesta língua, significa forçosamente mulher casada. (25) É claro que S. Paulo aí pode referir-se, primeiro que tudo, a mulheres viúvas e de idade já avançada, postas a serviço da Igreja, conforme se lê na Epístola a Timóteo: A viúva seja eleita, não tendo menos de sessenta anos, a qual não haja tido mais dum marido (1.° Timóteo V-9).

Os Apóstolos praticaram a continência perfeita depois que começaram a seguir o Mestre. Mas acontece que para a propagação do Evangelho, propagação que logo se tornou prodigiosamente rápida, os Apóstolos precisavam de muitos outros que participassem com êles dos poderes do sacerdócio: bispos ou presbíteros e eiáconos. Donde haviam de ser tirados êstes novos ministros de Deus? Ou dos judeus, ou dos gentios. Tanto entre os gentios, como entre os judeus, salvo raríssimas exceções, ninguém tinha idéia desta nova concepção das vantagens da virgindade, a qual veio justamente com as palavras acima citadas de Nosso Senhor Jesus Cristo e de S. Paulo. Se os próprios protestantes, apesar de cristãos, apesar de falarem tanto em espiritualidade, fazem tantas caretas quando se lhes fala em virgindade para homens, que se dirá dos pagãos e dós judeus, quando êstes últimos até a indissolubilidade do matrimônio, pregada por Nosso Senhor, queriam achar demasiado pesada? Éstes bispos ou presbíteros haviam de ser, na maioria dos casos, tirados dentre os homens já respeitáveis pela sua idade, que se haviam convertido ao Cristianismo, muitos dêles, na velhice ou na idade madura, quando, portanto, já eram casados. Impor a lei do celibato, obrigar todos êstes casados a abandonar suas próprias espôsas não era conveniente NAQUELAS CIRCUNSTÂNCIAS; as idéias cristãs não tinham amadurecido ainda entre os homens, para que se firmasse a lei do celibato eclesiástico. Tinha que haver, portanto, bispos ou presbíteros e diáconos casados.

Entretanto a Bíblia, por bôca de S. Paulo, mostrando mais uma vez a importância da castidade para os ministros de Deus, faz uma restrição muito interessante; entre as qualidades exigidas para ser bispo, S. Paulo apresenta esta: que se tenha casado uma só vez. Não é que sejam proibidas pelo Cristianismo as segundas núpcias; mas elas denotam um decréscimo de perfeição, um certo apêgo às coisas carnais, o que não era decente para aquêles que estavam destinados a tão altas funções. Assim como a viúva escolhida para o catálogo oficial daquelas que haviam de prestar maiores serviços à Igreja devia estar entre as que não houvessem tido mais de um marido (1.° Timóteo V-9), portanto que se tivessem casado uma só vez, assim também exige S. Paulo o mesmo dos bispos: Importa, logo, que o bispo seja irrepreensível, Espôso DUMA SÓ MULHER, sóbrio, prudente, concertado, modesto, amador da hospitalidade, capaz de ensinar (1.ª Timóteo III-2). S. Paulo aí não está dizendo que o bispo deve ter uma mulher só e não duas; pois isto não é novidade, uma vez que qualquer cristão está também neste caso: a nenhum homem é lícito ter duas espôsas. Nem se está limitando a dizer que o bispo deve evitar o adultério; neste caso não teria usado esta expressão Espôso DUMA SÓ MULHER; teria dito que o bispo deve ser inteiramente resguardado de fornicação, de adultério ou de amizades ilícitas etc. S. Paulo está mostrando apenas como as segundas núpcias não condizem bem com a dignidade de um bispo,linem mesmo a de diácono, como êle dirá, alguns versículos mais adiante (1.ª Timóteo III-12).

Os protestantes se valem dêsse texto para clamar: Estão vendo? A Igreja está contra a Bíblia! A Igreja exige que seus padres e bispos sejam celibatários e S. Paulo manda que os próprios bispos sejam casados.

— Mas isto é, antes de tudo, torcer o sentido das palavras de S. Paulo que não só não ordenou que os bispos se casassem, mas até aconselhou o estado de virgindade ou de continência perfeita às próprias pessoas do século: Digo também aos solteiros e às viúvas que lhes é bom se permanecerem assim, como também eu (1.º Coríntios VII-8); se fôsse uma ordem para casar, por que motivo então S. Paulo permaneceu celibatário? deveria êle ser o primeiro a dar o exemplo.

E é também, como já explicámos, mostrar um completo desconhecimento da diversidade de circunstâncias entre a Igreja primitiva e a Igreja atual. Nesta diversidade, a Igreja atual leva manifestamente vantagem, porque pode agora, com a difusão das idéias cristãs, manter uma sábia e santa lei que seria pesada demais, que dificultaria, pela falta de sacerdotes, a propagação do Cristianismo, nos tempos primitivos.(26)

212. OS CATÓLICOS JÁ ESTÃO EVANGELIZADOS.

Se se quiser bem apreciar outro caso em que demonstram os protestantes uma extrema ingenuidade na confusão que fazem entre a Igreja dos primeiros dias e a de hoje, basta ver o modo como se faz a pregação de suas seitas.

É claro que nos primeiros dias da Igreja, quando o mundo inteiro, à exceção dos judeus, se achava mergulhado no paganismo, e os próprios judeus, na sua grande maioria, tinham rejeitado a Nosso Senhor Jesus Cristo, a pregação dos Apóstolos e dos primeiros evangelizadores consistia em levar ao mundo o conhecimento e a fé em Jesus, que os gentios não conheciam e em quem os judeus não acreditavam. A insistência mesma com que se fala em crer em Jesus para salvar-se, está adaptada àqueles tempos. Tinham aparecido muitos sábios, muitos filósofos pregando várias doutrinas; mas Jesus não era um sábio como muitos outros que a gente ouve, aprova e sive, se quiser; Jesus é o Filho de Deus. Quem nÊle se recusa a crer, não pode salvar-se; quem nÊle crê com tôda a alma, está salvo, está no caminho da salvação, pois quem nÊle crê de verdade, com fé firme, lógica e coerente, observa fielmente a sua lei, pratica perfeitamente tudo quanto Êle manda.

Esta pregação sôbre Jesus Cristo, sua vida, suas perfeições, seus diversos atributos, já a Igreja vem fazendo há 20 séculos e já vinha fazendo, havia 15 séculos, quando o Protestantismo apareceu sôbre a face da terra. É a Igreja que tem sustentado contra os hereges a tese de que Jesus Cristo é Deus, Consubstanciai ao Pai, tendo as duas naturezas divina e humana; que tem ensinado que Êle é o nosso Salvador que morreu por todos os homens e que é o autor ela salvação eterna PARA TODOS OS QUE LHE OBEDECEM (Hebreus V-9); ela vem ensinando a sua lei, vem batizando como Êle ordenou, para que os homens se tornem cristãos. E na sua liturgia, com cuidado especial, vai distribuindo o ano em várias festas religiosas, para que os fiéis saboreiem, a um por um, nas suas diversas particularidades, os mistérios da vida de Jesus: seu nascimento (a 25 de dezembro), sua circuncisão (a 1.º de janeiro), a adoração dos Magos (a 6 de janeiro), seu primeiro milagre em Caná de Galiléia (2.º domingo depois da Epifania), sua tentação no deserto (1.° domingo da Quaresma), sua transfiguração (2.º idem), sua entrada triunfal em Jerusalém (domingo de Ramos), sua paixão e morte, sua ressurreição, sua ascensão aos Céus, sua presença no SS.mo Sacramento do Altar. Jesus ora é apresentado como o Bom Pastor (2.º domingo da Páscoa), ora como um Rei (Festa de Cristo-Rei, no último domingo de outubro) etc, etc. Cada domingo se toma um trecho especial de seu Evangelho para explicar ao povo.

Pois bem, pelo simples fato de que no princípio se pregou a um mundo que não cria em Jesus e não cria, antes de tudo, porque não O conhecia, hoje a pregação dos protestantes tem que ser obrigatória-mente assim: vai-se falar em Jesus, como se o mundo nunca houvesse ouvido falar neste nome e quase tôdas as pregações dos protestantes terminam com êste apêlo que para nós, católicos, se mostra perfeitamente irrisório: Queres conhecer a Jesus? Queres crer em Jesus? Aceitas a Jesus, como teu Salvador?

Esta linguagem dá a entender que só entrando no Protestantismo é que se conhece a Jesus, é que se crê nÊle, é que se aceita Jesus como Salvador.

No entanto, esta CRENÇA em Jesus consiste em tomar a Bíblia nas mãos e ficar com a liberdade de crer em Jesus da maneira que bem se entender. Se nos vier na gana dizer que Jesus não é Deus, é um simples homem e por isto podia errar, também está valendo, também isto é protestantismo e é livre interpretação da Bíblia, porque o essencial para se crer em Jesus é... não se pertencer à Igreja Católica. Se dissermos que para a salvação basta crer, não é preciso obedecer à lei de Jesus, se dissermos que o homem não é livre e nossos pecados é Deus quem os faz, se dissermos que Cristo não morreu por todos, mas só pelos predestinados para o Céu, pois há alguns predestinados para o inferno... se dissermos que não há SS.ma Trindade, que não há inferno, que os ímpios desaparecerão completamente pois serão aniquilados, se dissermos que é mentira que Jesus Cristo nos dê a sua carne para comer etc, etc, estamos crendo em Jesus Cristo pelo sistema do livre exame, o qual consiste em ouvirmos as suas palavras, dando-lhes o sentido que melhor nos aprouver. Só depois de ficarmos com a liberdade de abusarmos da Bíblia para tentar justificar tôdas as heresias é que atingimos a verdadeira fé... porque o que é contra a fé é sómente aceitarmos o que A IGREJA CRISTÃ E CATÓLICA, fundada por Jesus Cristo, vem ensinando desde 20 séculos.

Foi em reação contra êste verdadeiro despropósito, que os habitantes de Barbalha (Estado do Ceará) puseram à entrada de sua cidade um grande letreiro com êstes dizeres: ALTO LÁ, SRS. PROTESTANTES! A BARBALHA DE S. ANTÔNIO JÁ ESTÁ EVANGELIZADA! Assim como quem diz: O Jesus que Vocês nos vêm pregar já é nosso velho conhecido: já a Igreja nos ensinou a ver nÊle nosso Deus, Rei, Pastor e Mestre; nosso Irmão, Amigo e Salvador.

213. NEM TUDO ESTÁ NA BÍBLIA.

É precisamente porque foi escrito no gênero histórico e no epistolar, como quem narra a vida de uma pessoa, ou os primeiros passos de uma instituição ou como quem trata, em carta, de assuntos de urgência, que o Novo Testamento, sem deixar de ser uma luminosa mensagem que nos aponta o caminho real da salvação, focalizando a vida e os ensinamentos de Jesus e a constituição da Igreja, ainda não é uma exposição minuciosa e completa de tudo o que nos é necessário saber, no ínterêsse mesmo da nossa própria alma.

Vamos dar um exemplo.

Sabemos que há uns pecados maiores do que outros; e que há pecados mortais e veniais. O que me entregou a ti tem MAIOR pecado (João XIX-11), disse Jesus a Pilatos. Até de uma palavra inútil, havemos de prestar contas a Deus: De tôda a palavra OCIOSA qve falarem os homens, darão conta dela no dia do juízo (Mateus XII-36). E é claro que aquêle que proferiu uma palavra inútil, porém não ofensiva, não vai ser condenado ao inferno como está arriscado a sê-lo quem diz uma palavra de calúnia ou de blasfêmia. Ninguém nega que nos é muito importante saber quais são os pecados graves e os pecados leves. Mas a Bíblia dá-nos indicações gerais, é certo (1.ª Corínt4s VI-9 e 10; Apocalipse XXII-15), mas não nos faz uma exposição completa neste sentido.

Escritos os Evangelhos, não com a intenção de expor minuciosamente a doutrina, ponto por ponto, mas principalmente de relatar a vida de Jesus (e relatando a sua vida, vão relatando espaçadamente a sua doutrina), não nos transmitem tudo quanto ensinou Jesus. S. João escreveu o útimo Evangelho muitos anos depois dos três primeiros evangelistas.

E no fim de tudo confessa que está muito longe de ter escrito todos os acontecimentos da vida do Divino Mestre: Muitas outras coisas, porém, há ainda, que fêz Jesus, as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que, delas se houvessem de escrever (João XXI-25).

Os Atos nos mostram Jesus dando instruções especiais aos Apóstolos nos dias que mediaram entre a ressurreição e a subida para os; Céus: aparecendo-lhes POR QUARENTA DIAS E FALANDO-LHES DO REINO DE DEUS-(Atos 1-3). Quais foram essas instruções, a Bíblia não nos revela; mas; com elas estavam os Apóstolos completando os seus conhecimentos para ensinar ORALMENTE aos fiéis: Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes (Mateus XXVIII-19). Com elas estava Jesus Cristo instruindo os seus Apóstolos sôbre o modo como deviam reger a Igreja e exercer nela o papel de dispenseiros dos mistérios de Deus (1.a Coríntios IV-1).

O que é fato é que os Atos nos mostram os Apóstolos impondo as mãos sôbre uns que já haviam sido batizados, afim de que êles recebessem o Espírito Santo: Pedro e João, os quais, como chegaram, fizeram orações por êles, afim de receberem o Espírito Santo; porque Êle ainda não tinha descido sôbre nenhum; mas somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus; então punham as mãos sôbre êles e recebiam o Espírito Santo (Atos VIII-14 a 17). E S. Paulo falando, na Epístola aos Hebreus, dos rudimentos da fé que se ensinavam 'aos primeiros cristãos, depois de referir-se à doutrina dos batismos (batismos no plural, ou porque se explicava a doutrina sôbre o batismo de água, o de sangue e o de desejo, como querem S. Agostinho e S. Tomás, ou porque se ensinava a distinção entre o batismo de João e o batismo de Cristo), se refere imediatamente à imposição das mãos: Deixando os rudimentos dos que começam a crer em Cristo; passemos a coisas mais perfeitas, não lançando de novo o fundamento da penitência das obras mortas, e da fé em Deus, da doutrina sôbre os batismos, também da IMPOSIÇÃO DAS MÃOS, e da ressurreição dos mortos. e do juízo eterno (Hebreus VI-1 e 2). S. Tiago fala na unção feita sôbre os enfermos pelos presbíteros, acompanhada de oração, cerimônia esta que tem eficácia espiritual, pois se o enfêrmo estiver em alguns pecados, ser-lhe-ão perdoados.

(Tiago V-15). Ora, esta imposição das mãos (Sacramento da Confirmação), esta unção com óleo (Sacramento da Extrema-Unção) não podiam assim conferir a graça sem serem instituídas e ordenadas por Nosso Senhor Jesus Cristo. Entretanto, os Evangelhos não nos dizem com que palavras nem em que ocasião.; os Atos é que nos vêm dizer de modo geral, os Atos declarando que Jesus se manifestou aos seus Apóstolos várias vêzes depois da sua paixão, aparecendo-lhes por quarenta dias e FALANDO-LHES DO REINO DE DEUS (Atos 1-3).

Mesmo aquilo que está escrito explicitamente no Evangelho necessita de um comentário para explicá-lo, porque o evangelista refere as palavras de Jesus, mas não se encarrega, êle mesmo, de nos dizer quando Jesus está dando UM PRECEITO para ser por todos observado ou apenas um CONSELHO dirigido àqueles que querem seguir na maior perfeição. É que o evangelista se mostra sempre como um historiador (narra o que aconteceu, o que. disse Jesus) e não como um teólogo que nos vai explicar em que sentido se entendem aquelas palavras. Da mesma forma que Jesus disse: , Não queirais julgar, para que não sejais julgados (Mateus VII-1), disse também: Não resistais ao que vos fizer mal; mas, se alguém te ferir na tua face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quer demandar-te em juízo e tirar-te a tua túnica, larga-lhe também a capa (Mateus V-39 e 40). A primeira citação pode ser tomada como um preceito para todos no sentido de que não se deve fazer juízo temerário, nem andar fazendo cálculos sôbre as intenções do próximo. Mas no segundo caso se tratará também de um preceito para todos? Sendo um preceito, não vão ficar os cristãos completamente indefesos e sempre à mercê dos perversos e dos inimigos? Não é antes um conselho de perfeição? É o que o Evangelho por si mesmo não nos explica.

Jesus disse: ABSOLUTAMENTE não jureis nem pelo Céu, que é o trono de Deus; nem pela terra, que é o assento de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei (Mateus V-34 e 35). Que quer dizer Nosso Senhor com êste ABSOLUTAMENTE? Que não devemos jurar nunca, nem mesmo quando somos convidados a jurar em coisas sérias perante os tribunais -- ou que absolutamente não devemos jurar, salvo o caso de real necessidade? S. Paulo não invocou mais de uma vez nas suas epístolas o testemunho de Deus? (Romanos 1-9; Filipenses 1-8). O Evangelho nos indica as palavras de Jesus, mas não nos fornece a sua verdadeira interpretação. E isto é um dos mil assuntos que dão margem aos protestantes para discutirem acerbamente entre si, pois os Quacres, por exemplo, não juram por consideração alguma e há outros protestantes que juram perante os tribunais, quando os juízes a isto os obrigam.

A Bíblia ensina claramente a existência do pecado original, dizendo que todos morrem porque TODOS PECARAM (Romanos V-12) e é claro que não se trata aí de pecado pessoal, pois os que não pecam, as criancinhas também morrem. O Antigo Testamento já havia insinuado esta mesma doutrina, pois Davi nasce de um matrimônio legítimo e entretanto diz: Eu fui concebido em iniqüidades e em pecados me concebeu minha mãe (Salmos L-7).

Mas êste pecado original EM NÓS, em que consiste? É inútil procurar na Bíblia uma solução para êste problema; não há nenhum texto seu que ponha em pratos limpos esta questão. Alguns protestantes aventuram-se por sua conta própria a imaginar que êste pecado original seja a concupiscência, ou a nossa inclinação para o mal. Mas estão realmente certos disto? É preciso não esquecer que a concupiscência ou inclinação para o mal não desaparece, nem mesmo nas criaturas mais santas e amantes de Cristo. A santidade não consiste em suprimi-la, mas em resistir-lhe sempre heròicamente. Se o pecado original é esta concupiscência, que pecado é êste que pode coexistir até com o mais alto grau de santidade? Se o pecado original é esta concupiscência, então é ineficaz a ação do Cordeiro de Deus QUE TIR44 O PECADO DO MUNDO (João 1-29). Pois como poderia conceber-se que Êle não conseguisse tirar de nós o PECADO que trazemos do berço?

Aí finda naturalmente, sôbre o assunto, tôda a ciência do protestante que não quer ter outra fonte de informações além da própria Bíblia.

Mas, dirão os protestantes, quer o Sr. dizer então que não é completo o ensino dá Bíblia a respeito da nossa fé e da nossa salvação? Afinal É COMPLETO OU NÃO É?

  • Sim; é completo o ensino da Bíblia, não há dúvida alguma, porque, desde que a Bíblia nos traz muitos e riquíssimos ensinamentos sôbre o assunto e entre êstes ensinamentos está também a existência da Igreja, a sua infalibilidade (as portas do inferno não prevalecerão contra ela — Mateus XVI-18) OU DIRETA OU INDIRETAMENTE a Bíblia resolve todos os problemas que dizem respeito à verdadeira doutrina e à salvação da nossa alma. Se, por exemplo, ficamos em dúvida se um seguidor de Cristo pode ou não pertencer à maçonaria, não há necessidade de nos dividirmos em duas facções, como já aconteceu uma vez com os Presbiterianos no Brasil. A Bíblia não fala em mações, mas resolve êste problema, quando diz que se deve ouvir a verdadeira Igreja fundada por Jesus Cristo: e se não ouvir A IGREJA, tem-no por um gentio ou um publicano (Mateus XVIII-18). Se temos dúvida sôbre algum ponto importante na doutrina da salvação e não sabemos como interpretar a Bíblia, não há motivo para nos dividirmos em seitas diversas, como acontece com os protestantes; há quem tenha a missão de nos esclarecer, é a Igreja de Deus Vivo, coluna e firmamento da verdade (1.ª Timóteo III-15).

Por tudo isto que até aqui expusemos, se vê claramente que está completamente errado o modo de pensar dos protestantes quando assim dizem: Não precisamos de saber o que a Igreja Católica nos ensina, nem o que ela sempre nos ensinou desde o princípio. Temos a Bíblia e só NA BÍBLIA é que cada um deve ir buscar diretamente, vendo com seus próprios olhos, a verdadeira doutrina.

Não há dúvida: a verdadeira doutrina está na Bíblia, mas sendo um livro de interpretação muito difícil, sendo um livro que ainda não nos diz tudo quanto necessitamos saber, sua leitura exige uma sadia orientação pois muitos, em vez de extrair dela a verdade pura e simples, a têm interpretado erradamente e com ela têm ensinado lamentáveis despropósitos e heresias porque

COM O LIVRE EXAME, O INTÉRPRETE É CAPAZ DE TODOS OS ABSURDOS E EXTRAVAGÂNCIAS.

214. FRAQUEZAS DA INTELIGÉNCIA E DA VAIDADE HUMANA.

Vamos supor que a Bíblia não apresente dificuldade alguma e seja um livro muito claro e singelo do princípio até o fim. Façamos de conta mesmo que a Bíblia foi escrita em português, escrita no século XX e tôda ela numa linguagem que qualquer criança entende.

Mesmo assim, não estaria livre de ser horrivelmente deturpada. É a experiência que nós temos com os próprios protestantes: não há texto da Bíblia, por mais claro, por mais simples que seja, que êles não consigam adulterar.

O homem possui duas faculdades espirituais: a inteligência e a vontade. O mal em que pode cair a inteligência é o êrro. O mal em que pode cair a vontade é o pecado.

A fraqueza do homem na sua vontade, a facilidade com que êle se deixa vencer e escravizar pelo pecado é um fenômeno que nos entra pelos olhos. O estado miserabilíssimo em que estava o mundo, não só entre os pagãos, como entre os judeus, no que diz respeito à moral, até que Nosso Senhor trouxe com o Cristianismo a abundância da graça divina, é uma prova evidente disto. E mesmo depois do Cristianismo, depois de criado um ambiente mais puro e mais sadio, ainda recebendo-se auxílios e luzes especialíssimas de Deus, a nossa experiência própria nos está sempre mostrando como continua a ser frágil a vontade humana diante da tentação e como é inclinada ao mal por sua natureza.

Pois bem, talvez os homens se recusem a percebê-lo, porque é mais fácil indicar onde está o pecado do que mostrar onde está o êrro, mas o que é certo é que esta mesma lamentável fraqueza se manifesta também na nossa inteligência. Por que Deus demorou tanto tempo para fazer brilhar no mundo as luzes da Revelação, trazidas por Nosso Senhor Jesus Cristo? Quis mostrar primeiro até que ponto é louca a inteligência do homem, quando entregue a si própria. À exceção dos judeus, todos os povos estavam à mercê de sua própria razão. E o resultado é que caíram nos erros mais grosseiros, a começar pela idolatria. "Não há nenhum absurdo, por maior que seja, que um filósofo não tenha defendido" — dizia Cícero; e os filósofos eram considerados a nata da Humanidade em matéria de inteligência e sabedoria.

Veio Jesus, trouxe a luz da fé, e a razão humana encontrou o seu verdadeiro caminho na submissão completa aos ensinos de Jesus, transmitidos a todos os povos por intermédio da Igreja.

Leia-se a História e se verá A IGREJA CATÓLICA, a única Igreja que vem dos tempos apostólicos, apresentar-se como a propagadora do verdadeiro ensino do Cristianismo, sem que a êste título pudessem aspirar os hereges que sempre houve e haverá sempre (porque é necessário que até haja heresias, para que também os que são provados fiquem manifestos entre vós — 1.ª Coríntios XI-19; assim como é necessário que sucedam escândalos, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo — Mateus XVIII-7) e que se apresentavam aqui e acolá como meras oposições que a Igreja sempre levou e levará de vencida.

O fato de que nestes 20 séculos os maiores gênios, os mais autorizados intérpretes da Bíblia se têm submetido humildemente ao ensino tradicional da Igreja é não somente uma prova de que não há nada neste ensino que repugne à mais genuína e esclarecida interpretação do Livro Sagrado, como também uma demonstração de como reconhecem êsses sábios quão fàcilmente a razão humana pode errar e cair em desatinos e ilusões, principalmente quando se trata de assunto tão difícil e delicado como êste: os mistérios de Deus, em si mesmo, e nas suas relações com a alma humana.

É que reconhecem que a verdadeira fé é um cativeiro: (reduzindo A CATIVEIRO todo o entendimento para que obedeça a Cristo — 2.ª Coríntios X-5). Mas um doce cativeiro que nos liberta de dúvidas atrozes, que nos traz a segurança, que nos livra do êrro, da mentira e da heresia, porque só na verdade é que se encontra a liberdade legítima: E a verdade vos livrará (João VIII-32).

Entretanto Lutero, fazendo jus ao título de maior heresiarca de todos os tempos, arvora a bandeira da independência completa da razão humana. Cada um é livre em organizar os seus artigos de fé, os pontos em que há de crer, interpretando, como melhor lhe pareça, as palavras da Bíblia. Sem o freio que a Igreja lhe impõe para que não se desmande, está agora a inteligência humana com plena liberdade para todos os erros, todos os desvarios.

Mas, dirão os protestantes, não estamos desenfreados; não, senhor. O nosso freio é a própria Bíblia. Temos liberdade, sim, mas liberdade para interpretar aquilo que está escrito nos Livros Sagrados. Somos escravos, portanto, da palavra de Deus.

Aí é onde está exatamente o engano. Nós sabemos como os homens, apesar de fracos e confusos na sua inteligência, são perseguidos pelo demônio da vaidade. Quantos desde o princípio do mundo têm caído nos erros mais extravagantes, têm defendido as mais ridículas teorias, somente porque querem conseguir a glória de ter descoberto alguma coisa, de se terem mostrado mais perspicazes do que os outros, sustentando uma teoria nova, uma teoria sua, aparecendo com uma "bela" doutrina, na qual ninguém antes dêles, havia pensado! Não é preciso ser muito versado nas teorias dos filósofos de todos os tempos para ter a experiência disto. Todo homem gosta de filosofar; e quantas vêzes entre as nossas relações de amizade, nas palestras com os nossos amigos, se estabelecem discussões e nós ficamos boquiabertos ao ver homens que em outros pontos se mostravam até bem inteligentes, sustentarem obstinadamente as idéias mais absurdas, só pelo gôsto de se mostrarem originais! Se isto acontece com os inteligentes e com os que são perfeitamente normais, que se dirá com os rudes e com os desequilibrados? e também êstes são autorizados pelo Protestantismo a fazer por si próprios a interpretação da Bíblia.

O livre exame é um verdadeiro achado para aquêles que dotados de uma certa dialética (no mau sentido da palavra, ou seja, a facilidade de impressionar os outros com especiosos sofismas), gostam de se apresentar como doutrinadores, como líderes religiosos, envaidecidos de ver mui tos homens aderirem às suas idéias e contentes com a perspectiva de deixarem o nome célebre na História de qualquer maneira, ao menos, como fundadores de mais um arremêdo de Religião sôbre a face da terra.

E aferrados a esta idéia de torcer os textos da Bíblia para os acomodarem às suas próprias teorias, não recuam diante de nenhum sofisma, de nenhuma extravagância, por mais absurda que ela seja. De modo que os desvarios da razão neste ponto são muito mais sérios e lamentáveis do que aquêles que se verificavam no tempo do paganismo: os absurdos dos pagãos eram erros da nossa fraca razão humana entregue à sua própria sorte, sem as luzes da Revelação% os absurdos que se têm originado do livre exame são erros do homem que criminosamente abusa da Bíblia, da palavra de Deus, para tentar justificá-los.

Não é uma acusação no ar que estamos fazendo, vamos provar isto com fatos concretos. O Protestantismo tem abusado da Bíblia para sustentar os maiores absurdos. E não se trata apenas de enganos dos protestantezinhos humildes e semi-analfabetos que andam por aqui e por acolá fazendo exegese bíblica; são exemplos que vêm do alto, de seus "grandes mestres", que foram também grandes sofistas, como Lutero e Calvino.

215. MÁ DOUTRINA E PIOR EXPLICAÇÃO.

Lutero, como vimos, sustentou a teoria de que o homem não é livre, porque só quem é livre é Deus. Deus é quem faz tôdas as ações do homem, boas ou más. E a gente deve considerá-Lo tão justo quando castiga os inocentes, como quando recompensa os culpados (!). Deus assim vai encaminhando, por sua vontade inexorável, uns para o Céu e óutros para a condenação eterna. Ora, esta doutrina completamente ilógica e blasfema vai de encontro claramente ao ensino da Bíblia: Deus quer que todos os homens se salvem (1.ª Timóteo. II-4). Deus não quer a morte do ímpio, mas sim que o ímpio se converta do seu caminho e viva (Ezequiel XXXIII-11).

Apresentam-se a Lutero êstes textos que da maneira mais clara e insofismável denunciam o êrro de sua doutrina, que aliás já é uma aberração contra tôda a lógica. Ou Deus é bom ,e justo ou então não é Deus.

Apresentam-se também a Calvino que ensinou abertamente a predestinação de uns para o Céu e de outros para o inferno.

Vamos esperar agora a interpretação que êles vão dar a êstes textos, curiosos, como estamos, de ver como se saem desta embrulhada.

A resposta de Lutero (também esposada por Calvino) é esta: São duas coisas diferentes: a vontade de Deus revelada; e a vontade de Deus oculta. O que Éle mostra, na sua palavra, na Bíblia, é que quer a salvação de todos. O que, porém, Éle quer ocultamente, a sua vontade que não podemos perscrutar, é que uns se salvem e outros se condenem (n.º 49).

Não podia ser mais desastrada a explicação, nem encerrar mais clamorosa blasfêmia. Estávamos espantados de ver como é que se considerava a Deus tão cruel, destinando a uns para o inferno de qualquer maneira. A explicação que nos fornecem é esta: dizer-nos que Deus, além de cruel, é também mentiroso. Diz-nos uma coisa, porém faz outra bem diferente.

E chama-se a isto interpretar a Bíblia!

Um professor tinha entre seus alunos um que, quando interrogado, se saía freqüentemente com os maiores disparates. Um dia perguntou-lhe a razão dêste procedimento, por que motivo não se calava, não era melhor do que dizer uma grande asneira? O menino então explicou a razão: É que minha mãe me disse que eu nunca ficasse calado, sempre respondesse alguma coisa. Desta raça eram Lutero e Calvino e são também todos os protestantes: ou certa, ou duvidosa, ou completamente absurda, têm sempre uma interpretação da Bíblia para nos apresentar!

216. JESUS LUDIBRIANDO?

Calvino, como Lutero, como quase todos os protestantes, ensinava que o homem se salva só pela fé. Apresenta-se diante de Calvino o trecho do Evangelho em que um moço pergunta a Jesus: Bom Mestre, que obras boas devo eu fazer para alcançar a vida eterna? (Mateus XIX-16). A resposta de Jesus foi esta: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17).

Vejamos como Calvino se vai sair desta dificuldade.

A explicação que êle dá é a seguinte:

O caminho para o Céu não pode ser a observância dos mandamentos, porque esta é impossível, mas só a fé. Por isto, vendo diante de si aquêle homem tão iludido com a idéia de conquistar o Céu por meio das obras, Jesus ensina que o caminho é êste mesmo das obras, para que êle aprenda depois, pelo conhecimento da sua própria fraqueza, a buscar o verdadeiro caminho na fé.

Segundo Calvino, Jesus teria feito como nós, se agíssemos da seguinte maneira:

Estamos numa esquina. Alguém nos vem perguntar o caminho para ir a tal lugar, ao palácio do governador, por exemplo. Notamos que esta pessoa está convencida de que o caminho é aquêle da direita, mas é um caminho impraticável. É impossível chegar lá seguindo aquela direção. Em vez de ensinarmos o caminho certo, que é o da esquerda, nós lhe ensinamos de acôrdo com o que ela pensa, para que aprenda, pelas cabeçadas que der, a acertar com o verdadeiro caminho.

Eis aqui as palavras de Calvino: "Para que se faça um melhor juízo da natureza da resposta, é preciso notar a forma da pergunta. O moço não pergunta simplesmente de que modo ou por que caminho chegará à vida, mas que boas obras há de fazer para adquiri-la. Portanto sonha com méritos, aos quais a vida eterna seja dada como débita compensação, por isto ajustadamente Cristo o desterra para a observância da lei, já que o moço está certo de ser êste o caminho da vida... A resposta de Cristo foi uma resposta de acôrdo com a lei, porque a um jovem que interroga sôbre a justiça das obras, era preciso ensinar que ninguém pode ser considerado justo se não cumprir com a lei (o que é impossível) para que, convicto de sua fraqueza, êle procurasse o subsídio da fé" (Calvino. ópera. Baum, Cunitz et E. Reuss. Brunswick vol. 45 págs. 537 e 538). E -o mais espantoso é que Calvino declara abertamente que reconhece que o moço "não veio insidiosamente, como era costume dos escribas, mas sim com o desejo de aprender e assim atesta, não só pelas palavras, mas também pela genuflexão, que reverencia a Cristo, como a um mestre digno de confiança" (Ibidem pág. 537).

Bem considerada, a explicação de Calvino, por mais manhoso que seja o seu modo de expor, é verdadeiramente ímpia e altamente ofensiva a Jesus.

Nós mesmos ficaríamos envergonhados de nossa má ação, se ensinássemos propositadamente um caminho eiado ou impraticável a uma pessoa que nos viesse pedir uma informação. Como é que Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida (João XIV-6), quando uma pessoa SINCERAMENTE vem fazer uma pergunta a respeito do assunto primordial que Êle veio trazer a êste mundo, ou seja, a salvação da nossa alma, em vez de dar uma resposta certa, adequada, tranqüilizadora, que dissipe as idéias errôneas que porventura tenha esta pessoa desejosa de esclarecimento, ao contrário aponta um caminho impossívEL? Era preciso que o Divino Mestre quisesse ludibriar o seu consulente!

Só depois que apareceu o Protestantismo, é que semelhante absurdo pôde vir à cabeça de um intérprete da Sagrada Bíblia!

217. OUTRA PROEZA DE CALVINO.

Pregando Calvino a salvação só pela fé, põe-se diante dêle a palavra de Jesus a seus Apóstolos: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-do êles retidos (João XX-23).

Todo o mundo percebe claramente que Jesus, nos últimos dias de sua peregrinação aqui na terra, estando prestes a subir para o Céu, começou a transmitir aos Apóstolos poderes especiais para cumprirem a sua alta missão, quando estivessem privados da presença do Mestre. Na última ceia, depois de fazer aquela ação maravilhosa tomando o pão e dizendo: Isto é o meu corpo, acrescentou: Fazei isto em memória de mim (Lucas XXII-19). Êle que havia pregado o Evangelho, disse aos Apóstolos: Pregai o Evangelho a tôda a criatura (Marcos XVI-15). Êle que tinha sido o Mestre da verdade, disse: Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes (Mateus XXVIII-19). Êle que havia absolvido os pecados do paralítico (Lucas V-20) e de Maria Madalena (Lucas VII-48) deu também aos Apóstolos o poder para perdoar os pecados e para retê-los. Se a fé por si basta para salvar, como é que Cristo dá aos Apóstolos o poder de perdoar ou reter o perdão? Como se sai desta Calvino? Com o maior cinismo dêste mundo: perdoar pecados quer dizer PREGAR O EVANGELHO ( !).

Não se espante o nosso caro leitor; nem pense que estamos brincando; é esta de fato a interpretação que dá Calvino, a qual se lê claramente nas suas obras (Calvino. Ópera. Baum, Cunitz et E. Reuss Brunswick. vol. 47. cols. 440 e 441). Isto é simplesmente incrível, porque não há homem nenhum de bom senso que, diante destas palavras: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23), possa nem de longe conceber a idéia de que poderá alegar que aí se trata da missão de realizar a pregação do Evangelho.

Além disto, todos nós estamos vendo aí que foram dois os poderes concedidos aos Apóstolos: o de perdoar e o de reter; é o exercício de uma ação judicial: perdoar a uns e adiar o perdão para outros. Quando Nosso Senhor manda pregar o Evangelho, trata-se de uma só função, pois Êle não mandou pregar o Evangelho a uns e ocultá-lo a outros. Se PERDOAR OS PECADOS quer dizer PREGAR O EVANGELHO, então a ordem não é nunca para reter e sim para perdoar os£ecados a todos sem exceção: Pregai o Evangelho A TÔDA A CRIATURA (Ma,cos XVI-15). E mais: quando Nosso Senhor mandou pregar o Evangelho, não usou de meios têrmos, nem de enigmas, nem de obscuridades; disse abertamente: Pregai o Evangelho; Ide, ensinai. Que necessidade tinha Êle de falar na pregação do Evangelho em têrmos tão enigmáticos que durante 1.500 anos ninguém foi capaz de decifrar essa charada e só Calvino a veio matar no século XVI?

218. UMA DOS SOCINIANOS.

Um dos expedientes mais comuns usado pelos hereges para fazerem cair por terra as mais categóricas afirmações das Escrituras, é inventar-se um SENTIDO FIGURADO para os lugares em que a Bíblia nos fala em sentido literal e próprio. Dêste processo usam os protestantes para negar a presença real de Jesus Cristo na Hóstia Consagrada, tão claramente enunciada nestas palavras: Isto é o meu corpo. É um assunto que depois veremos (n.°s 318 a 322); não é dêle que vamos aqui falar.

Queremos chamar aqui a atenção para outra doutrina importantíssima no Cristianismo: a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, negada por muitos protestantes. Os Socianianos, p. ex., no seu Catecismo de Rakow, para mostrar que Jesus Cristo é simplesmente homem, apresentam êstes textos da Escritura: Só há um Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo HOMEM (1.ª Timóteo II-5). Como a morte veio na verdade por um homem, também por um HOMEM deve vir a ressurreição dos mortos (1.° Coríntios XV-21). E argumentam com o próprio Jesus que sempre se intitulou o FILHO DO HOMEM. Vê-se claramente nesta argumentação a lábia protestante, porque se dizemos que Jesus Cristo é VERDADEIRO DEUS E VERDADEIRO HOMEM, a Escritura O pode chamar homem quantas vêzes quiser, pois de fato Êle é homem também. E a própria Escritura nos diz abertamente que Êle é Deus: No princípio era o Verbo; e o Verbo estava com Deus; e o Verbo ERA DEUS . . . E o Verbo se fêz carne e habitou entre nós (João 1-1 e 14). Como é que os Socinianos se desembaraçam dêste texto? De uma maneira muito fácil: é só torcê-lo para o sentido figurado. Verbo quer dizer palavra. Jesus Cristo nos veio trazer a palavra de Deus. A palavra de Deus está, portanto, encarnada em Jesus Cristo. Êle é a palavra de Deus que se fêz carne e habitou entre nós.

Mas é o caso de se perguntar: Não houve também, antes de Cristo, tantos profetas brilhantes que anunciaram aos homens a palavra de Deus? Por que motivo nenhum dêles foi chamado o Verbo que era Deus feito carne e habitando entre nós (João I-1 e 14), ou o Autor da vida (Atos III-15), ou o Rei dos reis e o Senhor dos senhores? (Apocalipse XIX-16).

A explicação socianiana é evidentemente falha e absurda. Mas há porventura algum absurdo diante do qual recue um homem interessado em defender uma doutrina sua, quando tem a seu favor a carta branca do livre exame?

219. UM "INTÉRPRETE" BASTANTE ESPERTO...

Agora vamos apreciar uma estúpida e, ao mesmo tempo, divertida interpretação de um dos textos da Bíblia, feita por João de Leide, um dos líderes protestantes da Holanda, no século XVI.

Já falámos há pouco na frase de S. Paulo de que o bispo deve ser ESPÔSO DUMA SÓ MULHER e já expusemos o seu verdadeiro significado (n.º 211). João de Leide toma a frase noutro sentido: que o bispo deve ter uma mulher e não duas ou três e daí conclui que os fiéis neste caso podem ter várias mulheres.

Começou a pôr em prática a poligamia, pretendendo assim basear-se na própria Bíblia.

Os luteranos não concordaram com semelhante teoria. E daí surgiu uma conferência realizada entre os luteranos Antônio Corvinus e João Kymaeus, de um lado e João de Leide e Krechting do outro, a respeito destas e de outras doutrinas dos anabatistas.

Nós podemos bem apreciar o diálogo que houve sôbre o assunto entre os luteranos e João de Leide, porque vem narrado nas próprias obras de Lutero (Vitemberga II pág. 455).

O diálogo serve para mostrar não só a interpretação bíblica de João de Leide, mas também a idéia que faziam os luteranos sôbre o matrimônio.

"João de Leide — S. Paulo disse que o bispo deve ser marido de uma mulher. Ora, se o bispo devia ter uma só mulher, no tempo dos Apóstolos, isto é sinal de que os leigos naquele tempo bem podiam possuir duas ou três mulheres, conforme, desejassem.

Luteranos — Nós consideramos o matrimônio como assunto policial. Como as leis civis do matrimônio não são as do tempo dos Apóstolos e proíbem a multiplicidade das espôsas, responderás perante Deus e os homens por esta inovação.

João de Leide — Tenho a firme confiança de que aquilo que permitiram os antigos não pode levar à perdição; e antes seguir aos antigos do que a Vocês, tanto mais que o escutá-los importaria num êrro evidente e numa inovação anticristã.

Luteranos — Mais favorece a Escritura nossa opinião do que a tua, porquanto diz: O homem deixará pai e mãe e se unirá à espôsa. Não diz a Bíblia: unir-se-á às espôsas, mas sim à espôsa. E S. Paulo diz: cada qual viva com sua mulher e não diz: com suas mulheres.

João de Leide — S. Paulo não alude a tôdas as mulheres de um indivíduo, mas sim a cada uma de suas espôsas em particular. A primeira é minha mulher: ligo-me com ela. A segunda é minha mulher também: igualmente ligo-me com ela. E assim por diante! Fica de pé a Escritura que não contraria a nossa doutrina. Para que afinal tantas palavras? Não será preferível ter diversas mulheres a ter diversas amásias?"

O leitor não poderá deixar de exclamar: Mas isto é o cúmulo!

por aí fica vendo que com o livre exame se faz da Santa Bíblia o que bem se entende. Não há limites para a cegueira e o fanatismo de um homem que quer torcer o texto sagrado, para defender uma doutrina sua, por mais horrorosa que ela seja.

220. O GRANDE CRIME DE TODAS AS RELIGIÕES.

Vamos dar mais um eloqüente exemplo, neste vasto campo do livre exame, aberto às maiores loucuras doutrinárias.

Nós sabemos que a base de tôdas as religiões é a imortalidade da alma. Não só Jesus Cristo nos ensina esta grande verdade, mas também ela é, assim como a existência de um Ser Supremo, um princípio ditado pela própria razão humana. Todos os povos, mesmo os pagãos e ainda incluindo-se nestes os mais selvagens, alimentaram sempre esta idéia de que todo homem, bom ou mau, subsiste depois da morte, assim como todos tiveram a idéia de que existe um Ser Superior que fêz o Universo. Podiam errar sôbre a natureza dêste Ser, podiam materializar demais esta vida futura, mas tais idéias da existência de Deus e da nossa sobrevivência além-túmulo estavam arraigadas no espírito de todos, o que era providencial, pois são elas a base de tôda moralidade, de tôda virtude.

Pois bem, aparece uma fanática seita protestante, os Testemunhas de Jeová, chamados também Estudantes da Bíblia e esta seita se revolta acerbamente, não só contra a Igreja Católica, mas contra tôdas as religiões do mundo por êste grande crime de ensinar que a alma é imortal (!!!), porque esta doutrina da imortalidade da alma é uma doutrina diabólica, foi introduzida no mundo pelo demônio (!!!) e isto êles pretendem provar com palavras da própria Bíblia (!!!).

Para chegarem a esta conclusão superlativamente fantástica, precisarão apenas de lançar um equívoco, adulterando o sentido da palavra MORTE. Todos nós, quando falamos em morte, entendemos com isto que a alma se separa do corpo. O corpo se dissolve na sepultura, isto é morte, mas a morte não impede que a alma sobreviva. Os Testemunhas de Jeová entendem por morte não só a dissolução do corpo, mas também o completo desaparecimento da alma.

E partindo desta falsa noção, assim argumentam:

Deus disse ao homem que êste havia de morrer : Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, porque em qualquer dia que comeres dêle MORRERÁS DE MORTE (Gênesis II-17). Mas, enquanto Deus disse que o homem havia de morrer, o demônio ensinou perfeitamente o contrário: Bem podeis estar seguros que NÃO MORREREIS DE MORTE (Gênesis III-4). Logo, concluem os Testemunhas de Jeová, as religiões ensinando a imortalidade da alma, dizendo, portanto, que o homem é, por sua natureza, imortal, propagam uma doutrina do diabo, enquanto aquêles que negam esta imortalidade da alma seguem uma doutrina de Deus.

Isto não é extravagância de um ou outro homem; é doutrina de uma seita que, fazendo uma furiosa propaganda, tem aumentado consideràvelmente o número de seus adeptos. Afirmam os Testemunhas de Jeová ter impresso, no período de 30 anos, de 1919 a 1949, mais de 500 milhões de exemplares de livros em 88 línguas diversas. No ano de 1947 havia cêrca de 3.000 grupos locais e mais de 200.000 propagandistas.

E é assim que com o livre exame se vão propagando pelo mundo inteiro os "ensinos da Bíblia"!

221. BATISMO DOS DEFUNTOS POR PROCURAÇÃO.

A que extravagâncias se pode chegar com a má interpretação de um texto bíblico, é o que igualmente nos mostra o caso do batismo dos defuntos feito pelos Mormões. (27)

S. Paulo na sua 1.ª Epístola aos Coríntios, falando a respeito da ressurreição dos mortos, usa, entre outros, o seguinte argumento: Doutra sorte, que farão os que SE BATIZAM PELOS MORTOS, se absolutamente os mortos não ressuscitam? pois por que até SE BATIZAM POR ÊLES ? (1.ª Coríntios XV-29).

O texto é, na verdade, de interpretação difícil, pois em nenhuma outra parte da Bíblia se fala mais neste BATIZAR-SE PELOS MORTOS, para que se possa chegar a uma conclusão. Já se têm imaginado cêrca de 40 interpretações diversas. A mais provável parece ser a seguinte:

O verbo BAPTIZO em grego nem sempre na Bíblia se refere só ao batismo de Cristo ou ao batismo de João. E assim se lê em S. Lucas que o fariseu em cuja casa Jesus foi jantar começou a discorrer lá consigo mesmo sôbre o motivo por que se não tinha LAVADO Êle antes de comer (Lucas XI-38). E o verbo LAVAR aí é expresso, tanto no grego como no latim da Vulgata, pelo verbo BAPTIZO. Sabemos por S. Mateus que êste lavar-se antes da comida consistia apenas em lavar as mãos: Por que violam os teus discípulos a tradição dos antigos? pois não LAVAM AS MÃOS quando comem pão (Mateus XV-2). E assim se destrói, digamos entre parêntesis, o argumento dos Batistas, os quais dizem que o batismo só pode ser por imersão, pois o verbo BAPTIZO forçosamente quer dizer imergir. A purificação antes da comida se exprime assim no grego pelo verbo BAPTIZO e seria ridículo pretender que todos os judeus, antes de suas refeições, se encaminhavam até o rio para dar o seu mergulho...

Mas fechemos êste parêntesis e voltemos ao texto de S. Paulo aos Coríntios. Sabemos pelo livro dos Macabeus (2.° Macabeus XII-43 a 46) o qual, se os protestantes não quiserem aceitar como livro inspirado, têm que admitir ao menos como livro de valor histórico, que estava em uso entre os judeus a prece pelos mortos. Bem como sabemos que eram muito usuais entre êles as purificações feitas com água, de que são exemplo o batismo de João, estas próprias purificações antes da comida etc, etc. Havia certamente entre os Coríntios o costume de fazer algumas cerimônias, algumas preces acompanhadas de purificações com água (e é isto o que S. Paulo chama batizar-se) e oferecidas na intenção dos mortos. S. Paulo no texto fazendo alusão a estas cerimônias, não mostra aprová-las nem desaprová-las. Apenas se serve dêste costume para argumentar: se êles se purificam assim na intenção dos falecidos, é sinal de que crêem na ressurreição dos mortos.

Esta é, entre outras, uma explicação do texto.

Mas (para que se veja até onde pode ir êste biblismo descontrolado do livre exame) os Mormões viram êste texto e dêle se aproveitaram para deduzir o seguinte: Vê-se aí pelas palavras de S. Paulo que uma pessoa se pode batizar em lugar de um morto (!). Ora, todos os batismos ministrados desde o princípio do Cristianismo até que chegou José Smith, fundador da "verdadeira religião", que é a seita dos Mormões (e José Smith a estabeleceu no ano de 1830), todos êsses batismos estão nulos ( !!!). Neste caso quem disser pode batizar-se em lugar de qualquer parente ou amigo que tenha falecido, mesmo que seja há muito tempo.

Logo começou a aparecer uma quantidade imensa de pessoas que têm aceitado gostosamente tão boa oportunidade de salvar os falecidos que estavam completamente enrascados no outro mundo, pagando pelo crime de terem vivido em épocas anteriores à do Sr. José Smith. E assim se provou mais uma vez a tese de que não tem limites a credulidade humana.

222. QUANDO OS HUMILDES PODEM MAIS QUE OS SABICHÕES.

Depois dêstes exemplos por nós apresentados, parece-nos ouvir muitos protestantes dizerem: Concordo em que êsses processos não são bons para a interpretação da Bíblia, mas que tenho eu a ver com êsses processos? Não os ponho em prática; não vivo torcendo os textos bíblicos; minhas interpretações são tôdas lógicas e razoáveis.

— Minhas interpretações são tôdas lógicas e razoáveis — assim falavam e falam também êsses que tão evidentemente abusaram e abusam de sofismas, na exegese bíblica; assim falam também os outros protestantes de cujas opiniões Vocês discordam, porque sustentam doutrinas contrárias às que Vocês ensinam e os quais Vocês combatem igualmente com textos das mesmas Escrituras. Quem interpreta a Bíblia, mesmo da pior maneira possível e concorda em dizer que a sua interpretação está errada? E em regra geral aquêles que fazem as interpretações mais absurdas são precisamente os que se mostram mais fanáticos e ferrenhos em defendê-las, suprindo com furor e obstinação o que lhes falta em competência e amor à verdade.

O, que queremos frisar apenas com êstes exemplos, que aos olhos de qualquer observador sereno e imparcial se apresentam como aberração de tôda lógica e como um desrespeito evidente ao texto sagrado, é que dentro do sistema do livre exame não há freio algum para conter os erros mais clamorosos nem os mais ridículos disparates, porque não há texto algum da Bíblia, por mais simples, por mais claro, por mais evidente que seja, que um homem não consiga adulterar, à custa de truques e manhosos artifícios e não há teoria, por mais ímpia, por mais absurda, por mais escandalosa, que pelo mesmo processo não se intente justificar com palavras da Bíblia Sagrada. Porque ter em mãos o livro divino é uma coisa; interpretá-lo com sabedoria, competência e honestidade, penetrar-lhe o verdadeiro sentido é outra coisa bem diferente, pois é um dom de Deus, uma graça do Espírito Santo.

E Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes (ta Pedro V-5). Aquêles que modestamente desconfiam de suas próprias luzes e se submetem ao ensino tradicional da Igreja, à proporção que progridem no conhecimento das Sagradas Letras, não só nelas descobrem novas riquezas, mas vão percebendo cada vez mais como a orientação católica é firme, razoável e segura; ao passo que aquêles presumidos que, confiados por demais em seu próprio talento, julgam poder abrir caminhos novos fora daquele velho caminho que nos vem sendo traçado desde o princípio pela Igreja Infalível, cada dia mais se perdem nas suas intermináveis discussões entre si e cada dia mais obscurecem a sua própria razão, defendendo as idéias mais absurdas, como se foram as mais belas doutrinas dêste mundo.

DIVERGÊNCIAS NO SEIO DO PROTESTANTISMO

223. NOVA BABEL.

Juntem-se todos êstes fatôres que até agora temos analisado: 1.º a Bíblia é um livro de difícil interpretação;

2.º a doutrina cristã está tôda esparsa no Novo Testamento, de modo que é preciso muita cautela e honestidade para não firmar-se alguém em certos versículos, esquecendo ou desprezando outros que os completam, que lhes "servem de contrapêso", segundo a expressão já citada do protestante Vinet (n.º 55);

3.° a Bíblia, por si só, não resolve minuciosamente tôdas as questões que, no decorrer dos tempos, possam surgir sôbre a Religião;

4.º a fraqueza da nossa inteligência é tal que fàcilmente a ignorância, a cegueira, a má fé, o fanatismo, o amor das novidades levam o homem a errar, a fazer interpretações forçadas, violentas, absurdas, mesmo diante dos textos mais claros e evidentes.

Juntem-se todos êstes fatôres, como íamos dizendo, e o resultado já se pode esperar: múltiplas, profundas e escandalosas divergências entre os partidários do livre exame. No Protestantismo se discute a respeito de tudo; não há firmeza em coisa alguma.

Não é sem razão que se tem comparado com a construção da tôrre de Babel, a pretensão protestante de querer apresentar ao mundo uma interpretação da Bíblia que sirva para desmentir, destruir, desmoralizar a segura interpretação apresentada_ pela Igreja Católica, que é a obra de Deus, sempre assistida pelo Divino Mestre.

Narra o Gênesis que, ao conceberem os homens a idéia de erguer uma tôrre que chegasse até o Céu, havia um só povo e uma só linguagem de todos (Gênesis XI-6). Começada a construção, Deus lhes confundiu as línguas, de modo que se desentenderam por completo. O mesmo tem acontecido no Protestantismo, cuja história logo se inicia com intermináveis discussões entre os seus propagadores que não se entendiam de forma alguma, continuaram sempre a não se entender e cada vez se vão entendendo menos. Enquanto na Igreja continuou sempre existindo um só povo e uma só linguagem de todos.

224. CATÓLICOS À FINA FÔRÇA.

A desunião entre os protestantes começa logo pelo fato de uns se mostrarem orgulhosos dêste nome, e outros que são também protestantes da gema não quererem ser chamados assim de forma alguma.

Há alguns até que, depois de 4 séculos de separação da Igreja Católica, depois de procurarem por todos os meios lançar o ridículo sôbre ela, acharam agora que deviam ser chamados CATÓLICOS, como se vê por esta declaração dos Bispos e Arcebispos da Igreja Anglicana da Irlanda, feita a 10 de abril de 1902:

"Os Arcebispos e Bispos chamam a atenção dos membros da Igreja sôbre o abuso do têrmo CATÓLICO, com o qual se designam como autonomàsticamente aquêles cristãos que reconhecem a supremacia do Bispo de Roma. Os membros da Igreja Católica Romana são comumente chamados CATÓLICOS e os membros da nossa Igreja e de outras que professam tôda a doutrina da Santa Igreja Católica tal como foi definida nos antigos Credos, são chamados ACATÓLICOS. Ora, isto não é uma mera questão de nomes e palavras. O caráter católico do Evangelho de Jesus Cristo e da Igreja que Êle fundou é o que distingue o Cristianismo de todos os outros sistemas religiosos. A Igreja de Cristo é universal, isto é, Católica em todo o sentido da palavra; sua missão é para todos os seus membros, que pertencem a tôdas as nações, raças, povos e línguas.

Se nós renunciamos a nosso título de membros da Igreja Católica e o concedemos somente àqueles que aceitam a autoridade de um Bispo particular, renunciamos a um ponto importante daquela doutrina que foi entregue aos Santos.

De tanta transcendência foi sempre isto considerado, que já desde a Primitiva Igreja a denominação A SANTA IGREJA CATÓLICA foi incluída entre os artigos de fé por aquêles que redigiram nossos Credos. Ser acatólico é estar fora do Corpo de Cristo e ser considerado como não-católico é equivalente a ser tido como não-cristão. Cencedemos que êstes têrmos são empregados muitas vêzes sem lhes prestar atenção, sem lhes dar seu próprio significado e importância, porém não consentimos que nós sejamos considerados como estranhos na Igreja de Deus."

Esta "descoberta" feita por protestantes agora no século XX é sumamente honrosa para nós. Êles confirmam com isto o que já afirmámos no capítulo 9.º (n.º 167), isto é, que a Igreja verdadeira de Jesus Cristo sempre foi chamada A IGREJA CATÓLICA. Êles se separaram desta Igreja; ensinam doutrinas contrárias à que a mesma sempre ensinou desde o princípio. Não podem, por isto, ser considerados como membros da Igreja Católica, porque a Igreja sempre foi UNA e nunca dividida em agremiações diversas. Se negam a obediência ao Papa, que é o legítimo sucessor de S. Pedro, não podem pertencer à Igreja de Jesus Cristo, o qual fundou UMA Só IGREJA, e apresentou como sinal característico da mesma a união à cátedra de Pedro: Tu ÉS PEDRO E SÔBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA (Mateus XVI-18). Se Êle diz A MINHA IGREJA é porque é uma só, não são duas: uma Romana e outra Anglicana.

Se querem ser chamados CATÓLICOS,(11) aceitem tudo quanto a Igreja Católica ensina, porque quando os antigos diziam na sua profissão de fé: CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA, não queriam significar COM isto Sómente que existia uma Igreja com êste nome, mas que esta Igreja recebia sua total adesão, porque é infalível.

Chamamos aqui PROTESTANTES todos aquêles que admitem a autoridade da Bíblia como livro sagrado (embora discutam sôbre o verdadeiro significado de sua inspiração) e adotam a teoria do livre exame. Desde que há o livre exame e cada um interpreta a Bíblia como bem lhe parece, já não se pode distinguir por esta ou por aquela doutrina quem é protestante e quem o deixa de ser, pois assim já se estaria negando ao protestante a liberdade na interpretação da sua Bíblia.

E se alguém, por hipótese, na sua doutrina, no seu modo de ver a Bíblia, coincidisse em tudo com o que a Igreja ensina, menos em admitir uma Igreja infalível e em reconhecer a autoridade do Papa, sucessor de S. Pedro, já seria protestante, porque já estaria pondo em uso o livre exame. Vemos que sob o regime do livre exame, salvo a obediência ao Papa, que seria formal adesão ao Catolicismo, é muito difícil encontrar um ponto da doutrina da Igreja que não ache um ou outro protestante para defender e dar uma penada a seu favor, bem como é raro encontrar um dogma do Cristianismo, mesmo dos mais importantes, que não tenha no seio da Reforma os seus opositores, porque não há nenhuma segurança nas interpretações protestantes.

É o que veremos analisando vários pontos doutrinários. Não será, portanto, pela coincidência de muitos de seus ensinos com a doutrina da Igreja que uma seita deixe de ser considerada protestante.

225. A SANTÍSSIMA TRINDADE.

A doutrina de um Deus em 3 pessoas com uma só natureza é admitida pela maioria das seitas protestantes, as quais neste ponto seguem a interpretação da Igreja Católica. Mas a simples leitura da Bíblia infelizmente não é suficiente para convencer a todos os protestantes de que há um só Deus em 3 pessoas distintas. Desde o princípio do Protestantismo, embora a doutrina católica sôbre êste ponto fôsse defendida pelos maiores chefes da Reforma: Lutero, Calvino, Zuínglio, Melanchton etc, logo apareceram autores protestantes negando a SS.ma Trindade, como Conrado in Gassen, Hetzer chamado por Harnack o mais notável dos Anabatistas, João Denk, Kautz, Cláudio de Sabóia, Campanus, Noris bispo anabatista, Jorge Blandrata, Valentino Gentilis e outros. O mais célebre de todos foi Miguel Servet, que os calvinistas de Genebra condenaram a ser queimado na fogueira precisamente por sua teoria antitrinitária. E não tardou o dogma da Trindade a ser negado por várias seitas protestantes, como os Socinianos, os Unitários, os Cristadelfos e os Testemunhas de Jeová. E assim desde cedo se abriu caminho para os Protestantes Liberais, que também o rejeitam. Estes últimos são protestantes 'de idéias avançadas que podem surgir de qualquer seita, por causa do livre exame e que existem em grande número no seio dos Luteranos, dos Calvinistas e dos Ánglicanos, assim como podem não pertencer a seita alguma.

Negam também a SS.ma Trindade os Svedenborgianos. Para Svedenborg: "Não há senão uma só pessoa no Ser Supremo, o Senhor Deus do Antigo Testamento. Esta pessoa se fêz homem em Jesus Cristo. A virtude emanada dêste Deus-Homem é o Espírito Santo que vivifica, regenera, transforma e consagra o fiel. Assim o profeta admite bem uma trindade na soberana essência, a saber, o Pai, o Filho, o Espírito Santo, mas há aí três objetos dum só sujeito, isto é, três atributos duma só pessoa divina."

226. A DIVINDADE DE JESUS CRISTO

Como se vê acima, os Svedenborgianos negam a Trindade, sem negar que Jesus Cristo seja Deus. Mas a negação do dogma da SS.ma Trindade vem em geral acompanhada da negação da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. É porque lendo a Bíblia lá a seu modo não vêem em Jesus Cristo senão um simples homem, ou no máximo, uma simples criatura, embora criatura superior, que êsses protestantes negam a existência de 3 pessoas em Deus. São, portanto, os mesmos: Socinianos, Unitários, Protestantes Liberais etc.

O fundador da seita dos Unitários, Teófilo Lindsey, chegou a publicar um livro intitulado "Conversações sôbre a idolatria cristã", em que se insurge contra o culto de adoração prestado a Jesus Cristo, culto que êle tacha de idolatria.

É impressionante ver o vulto que a teoria da negação da divindade de Jesus Cristo começou logo a tomar entre os protestantes. Entre os Luteranos, passou a ser ensinada na maioria das faculdades teológicas da Alemanha e é bem expressivo o seguinte fato citado por Goyau: em 1893, Langen, pastor protestante em Kalsruhe, negou públicamente a divindade de Jesus Cristo; êle havia tomado parte no sínodo geral de Baden; e 99 teólogos protestantes badenses logo lhe manifestaram phblicamente sua aprovação.

Entre os Calvinistas, da mesma forma. Já em 1816 a Companhia dos Pastôres em Genebra aconselhava aos pregadores muita reserva e prudência com relação a esta questão da divindade de Jesus Cristo e censurava os que se mostravam muito zelosos na pregação desta doutrina. E é bem significativo o fato de se imprimirem entre os Calvinistas 3 espécies de catecismo, para que os fregueses possam escolher a seu gôsto: um negando a divindade de Jesus, outro afirmando a mesma, outro declarando ser "muito fora de propósito e muito absurdo" ventilar esta questão.

A Igreja Anglicana contém em si uma enorme variedade de crenças, desde os Ritualistas que procuram aproximar-se o mais possível dos ritos ensinos da Igreja Católica, passando pelos Moderados ou Evangélicos que procuram, uns mais, outros menos, ficar fiéis às doutrinas da Igreja Oficial da Inglaterra, diferentes em muitos pontos da doutrina da Igreja Romana, até os da Moderna Igreja ou Liberais, de idéias bastante avançadas e nesta última classe é que mais se encontram aquêles que negam a divindade de Jesus Cristo.

Entre os protestantes que negam as4m que Jesus Cristo seja Deus, há duas opiniões diversas: uma que O considera como simples homem: são êstes de que acima falamos; outra dos que O consideram como um anjo: são os Testemunhas de Jeová, os quais identificam o Verbo, de que fala S. João no Evangelho, com o Anjo Miguel, a mais elevada das criaturas, da qual Deus se, serviu para criar todos os outros sêres e que transformou em homem (Jesus Cristo) e veio morrer por nós, voltando a ser depois da Ressurreição o mesmo Verbo-Miguel exaltado (Deus também o exaltou — Filipenses II-9), elevado a uma categoria superior, por isto depois de ressuscitado usou um corpo só aparente. Entre os próprios protestantes que admitem a divindade de Jesus Cristo, também há uma divergência.

A Igreja ensina, no Símbolo Atanasiano, que Jesus Cristo é "perfeito Deus e perfeito homem", como foi definido no Concílio de Calcedônia: "um só e o mesmo Jesus Cristo, em duas naturezas sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação, nunca se suprimindo, por causa da união, a diferença das naturezas." E o 3.° Concílio de Constantinopla fala em Jesus Cristo "perfeito na divindade e o mesmo perfeito na humanidade... consubstanciai ao Pai segundo a divindade e consubstanciai a nós segundo a humanidade."

Mas há protestantes modernos que sustentam a teoria chamada QUENÓTICA. Éste nome se deriva do verbo grego KENÓO que quer dizer aniquilar, esvaziar. Baseando-se nos seguintes textos: Jesus Cristo que, sendo rico, se fêz POBRE por vosso amor (2.ª Coríntios VIII-9), Oe se ANIQUILOU A SI MESMO, tomando a natureza de servo, fazendo-se semelhan-, te aos homens (Filipenses II-7), êstes protestantes acham que o Verbo na sua Encarnação se despojou dos divinos atributos, principalmente de seu infinito poder e de sua onisciência para melhor assumir as nossas próprias enfermidades e assim só depois da Ressurreição é que veio a ter consciência de sua divindade. É a escola quenótica de Thomasius e Gess na Alemanha; Godet e Pressensé na Suiça e na França; Goodwin Howard Crosby na América do Norte.

Há outros, como Martensen, Gore, Dorner etc, que seguem um Quenoticismo mitigado, afirmando que pelo menos habitualmente o Verbo suspendia o exercicio dos atributos divinos, principalmente do poder da onisciência, de modo que chegou a perder algumas vêzes a consciência de sua natureza divina.

Isto mostra que até os dogmas admitidos pela Igreja estão sujeitos a empalidecer e a desfigurar-se nas mãos dos hereges.

227. EM QUE CONSISTE A SALVAÇÃO.

Tôdas as doutrinas da Igreja têm íntima relação e nexo lógico entre si. A divindade de Jesus Cristo tem relação muito íntima com a doutrina da salvação. O Verbo se fêz carne, Jesus era Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, para poder sofrer por nós e ao mesmo tempo oferecer a Deus uma expiação de valor infinito, a qual sendo Êle um simples homem ou pelo menos sendo um anjo, mas em todo caso simples criatura, não podia oferecer. E para ser completamente satisfatória a reparação, tinha que ser de valor infinito, porque o pecado, sendo ofensa a Deus Infinitamente Bom e Digno de todo o amor, é ofensa infinita por sua natureza.

Lutero, Calvino, Zuínglio e Melanchton criam na divindade de Cristo, porque sabiam que negá-la era arrancar a Jesus o título de Salvador. Mas, se êles pregaam o livre exame, não podiam impor aos outros a sua mesma crença. E o resultado é que, com o direito de negar a divindade de Cristo, os protestantes ficaram também com o direito de destruir tôda a noção cristã sôbre a salvação.

Para os Socinianos, os Unitários e os Protestantes Liberais, Cristo nos salvou somente pela sua magnífica pregação, ensinando-nos o verdadeiro caminho de Deus, e pelo exemplo extraordinário de suas grandes virtudes. Não reconhecem nenhum valor expiatório na morte de Cristo.

De modo que os protestantes que tanto falam em Jesus Cristo e na sua morte redentora, como se isto valesse como arma contra a Igreja Católica, têm que reconhecer que há no seu seio muitos adeptos espalhando no mundo doutrinas que consistem em despojar a Jesus Cristo de sua divindade e de sua missão salvadora, ao contrário da Igreja Católica que sempre ensinou contra os hereges que Jesus Cristo é Deus e que Êle ofereceu ao Eterno Pai um superabundante resgate para a nossa salvação.

228. A GRAÇA.

Negando a divindade de Cristo, o valor expiatório do sacrifício da cruz, caem êstes Socinianos, Unitários e Protestantes Liberais num verdadeiro naturalismo, negando a verdadeira noção da GRAÇA, que para êles deixa de ser um dom sobrenatural, deixa de ser mesmo uma fôrça interior que ajuda o homem, para ser apenas um estímulo externo, o estímulo que nos vem quando ouvimos sábias palavras de exortação ou quando somos edificados por um belo exemplo de virtude. E foi apenas êste estímulo que Jesus veio trazer ao mundo, segundo êles, de modo que a salvação é operada pelo homem entregue às suas fôrças naturais. O contraste é bem chocante com a maioria dos protestantes que vão ao extremo oposto, considerando a salvação como efeito exclusivo da GRAÇA, não influindo nela de forma alguma as obras de cada um.

229. A FÉ E AS OBRAS

Lutero e os Primeiros Reformadores ensinavam a salvação só PELA FÉ, nela não influindo as boas obras; ensinavam que para a justificação o arrependimento não era necessário.

Os Luteranos de hoje e muitas outras seitas protestantes continuam a ensinar a salvação só pela fé, mas, ao contrário de Lutero, exigem também o arrependimento.

Entretanto, esta teoria da salvação SEM AS OBRAS tem tido, entre os protestantes, muitos opositores.

O primeiro a discordar de Lutero neste ponto foi o seu contemporâneo e amigo Melanchton que, embora awrincípio sustentasse os princípios luteranos de negação do livre arbítrio e de justificação só pela fé, depois seguiu doutrina bem diversa. Na segunda edição de seus "Lugares comuns de Teologia", feita em 1535, Melanchton afirma bem claramente a liberdade humana e ensina que ás causas que produzem a justificação são 3: "o Verbo, o Espírito Santo e a vontade do homem, não porém ociosa, mas lutando contra a própria enfermidade." E em 1536, no Comentário sôbre o Evangelho de S. João diz que as boas obras são condição necessária para a justificação. Esta doutrina foi chamada SINERGISMO (SYN= COM; ÉRGA = OBRAS) doutrina da justificação pela fé juntamente com as obras, que êle ensinou até o fim de sua vida.

Discordam igualmente os Quacres, pois segundo as palavras de Barclay, um dos teólogos do quacrismo: "Não podemos excluir da justificação as boas obras, porque embora não sejamos justificados POR CAUSA delas, contudo somos justificados NELAS e assim são necessárias como CAUSA SINE QUA NON." (Theologiae vere christianae apologia Londres 1729 I pág. 167). (28)

Discordam também os Arminianos, pois o Arminianismo foi um movimento que surgiu no seio da Reforma como uma séria reação contra a tese calvinista da predestinação de uns para o Céu e de outros para o inferno; para argumentarem com lógica contra êste sistema, os Arminianos tiveram que admitir o livre arbítrio, a tese de que a graça não violenta a liberdade e A NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS PARA A SALVAÇ1O.

Outros que discordam são os Socinianos, segundo os quais a justificação é o ato pelo qual Deus na sua misericórdia absolve do pecado o homem que crê em Jesus Cristo e observa os seus mandamentos, sendo a fé justificante uma obediência a Deus em todos os seus preceitos, mas os Socinianos já não admitem, como os Quacres e os legítimos Arminianos, o influxo sobrenatural da graça.

Discordam também os Svedenborgianos, que igualmente ensinam a necessidade das boas obras, pois Svedenborg se mostrou, nos seus escritos, um ferrenho e pertinaz adversário da justificação só pela fé.

Outros opositores, embora não o queiram dizer abertamente, são os Adventistas do 7.º Dia, que têm tomado assim uma posição sui generis. Pregam a justificação pela fé mais ou menos no mesmo estilo das outras seitas reformadas, mas também apresentam a observância dos mandamentos como condição indispensável para a salvação. No final da lição 11.ª do Curso por Correspondência da Voz da Profecia intitulada: O Fim do Conflito — A Paz para todo o sempre — assim se faz um apêlo ao aluno: "Uma vez que só haverá duas classes de pessoas por ocasião da volta de Cristo: os que Lhe forem obedientes, que serão redimidos, os desobedientes que sofrerão a condenação, está disposto a seguir, cada dia, os mandamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo para que naquele dia, esteja figurando entre os redimidos?"

Na Lição 15.º intitulada Os Três Passos Nra o Céu, ensina a Voz da Profecia: "Não se poderia pregar uma doutrina que mais desonre a Deus do que a de que o sacrifício propiciatório de Cristo haja livrado a humanidade de guardar a lei moral de Deus... O crente não pode permanecer justificado, se voluntária e persistentemente viola qualquer um dos Dez Mandamentos." E na Lição 16.° intitulada Existe uma Norma Segura de Justiça? — "A suposta fé em Jesus sem a obediência aos preceitos divinos, não salvará a ninguém."

Mesmo entre os que admitem a justificação só pela fé, há divergências. Uma é se aquêle que crê em Cristo é logo salvo definitivamente com certeza absoluta, ou ainda pode perder-se. Enquanto os Batistas, por exemplo, defendem a tese da salvação IMEDIATA, adquirida pelo crente, entre os dez artigos formulados pelo bispo metodista J. H. Vincent que resumem a doutrina comumente aceita pelos metodistas a respeito da graça, figura êste, que é o Art. 10.º: "Creio que todos os que perseveram até o fim e só êstes serão salvos no Céu eternamente." Entre os protestantes que admitem a possibilidade de perder-se ainda aquêle que crê estão, portanto, os Metodistas. "Podemos extinguir o Espírito e cair da graça, mas o nosso divino destino é o perfeito amor e a santidade na vida" — diz o folheto EM QUE CRÊEM OS METODISTAS, editado pela Junta Geral da Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil.

A outra divergência é sôbre o próprio conceito da palavra FÉ : para os Glassitas e Sandomianos, a fé é simples adesão às verdades reveladas; para muitos outros, a fé é a confiança, a firme convicção de que já se está salvo pelo sangue purificador de Jesus Cristo.

230. A IMORTALIDADE DA ALMA

Mas não é somente sôbre êstes dogmas referentes a Deus e a Jesus Cristo, à graça e à justificação que os protestantes discutem entre si. É também sôbre outro ponto de suma importância, sôbre uma verdade que era admitida, até mesmo, por todos os povos pagãos: a imortalidade da nossa alma.

Há alguns protestantes que negam ser a nossa alma imortal por sua natureza; não admitem que ela, depois da morte, continue a viver e operar separada do seu corpo. Não negam a imortalidade da alma, é verdade, da mesma forma que a negam os materialistas os quais, não, crendo na existência de Deus, nem na possibilidade da ressurreição da carne, acham que tôda e qualquer pessoa, depois da morte, desaparece por completo. Para êsses protestantes a coisa é diferente: os maus, os que não se salvam vão afinal um dia desaparecer por completo, não terão uma duração eterna, porque serão aniquilados. Mas os que se salvam, êstes receberão de Deus o privilégio da imortalidade, de modo que estas almas humanas, que por sua natureza não são imortais, vão adquirir a imortalidade, porque Jesus as vai ressuscitar para viverem eternamente. Esta doutrina já era ensinada pelos Socinianos, os quais procuram argumentar dizendo que a vida eterna era desconhecida no Antigo Testamento e que antes de Cristo havia somente uma vaga esperança de felicidade eterna, mas sem haver nenhuma promessa positiva neste sentido. Esta promessa, Cristo a veio trazer para os que crêem nÊle e assim O vão imitar na sua ressurreição, enquanto os que não crêem são juntamente com os demônios votados ao aniquilamento.

Juntam-se aos Socinianos para negar que todo homem tem alma imortal e para afirmar que a imortalidade da alma é apenas um dom concedido por Deus somente àqueles a quem Êle quer recompensar, duas seitas protestantes modernas e muito propagadas: os Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo Dia, que assim entram em viva discussão com outras seitas sôbre mais um ponto fundamental e que nos interessa mui de perto.

Tanto os Testemunhas de Jeová como os Adventistas ensinam que atualmente não há nenhuma criatura humana, nem no Céu, nem no Inferno, nem no Purgatório, mas tôdas as almas ficam até o dia de juízo em estado de completa inatividade e inconsciência. (Tal êrro, aliás, não é novidade no Protestantismo; já havia sido ensinado no princípio por muitos Anabatistas). A diferença que há entre as duas doutrinas é que, para os Adventistas do Sétimo Dia os maus serão despertados do seu estado de inconsciência para serem julgados e condenados ao fogo que os destruirá, os aniquilará, juntamente com Satanás que também será destruído; para os Testemunhas de Jeová os maus que são em geral os religionistas que crêem na SS.ma Trindade e na imortalidade da alma (!!!) despertando de sua inconsciência terão facilidade de alcançar a salvação, principalmente porque Satanás estará prêso; os que, porém, se mostrarem incorrigíveis serão aniquilados na batalha final de Harmagedon.

Quanto aos salvos, tanto na doutrina dos Testemunhas de Jeová, como na dos Adventistas do Sétimo Dia, no fim do mundo é que receberão o dom da imortalidade e vão ser felizes eternamente, sob os novos céus e na nova terra que Deus há de formar, onde não haverá mais dor, nem lágrimas, nem morte, nem sofrimento, nem enfermidade. E assim entramos noutro assunto em que estas duas seitas diferem bastante das outras seitas reformadas: em vez de admitirem uma felicidade eterna, lá no CÉU, com a visão beatífica, em que seremos como os anjos de Deus (Mateus XXII-30), êles anunciam A VIDA ETERNA, numa terra nova, transformada em jardim de delícias para o homem. Sendo que os Testemunhas de Jeová abrem exceção neste ponto para 144.000 eleitos que serão ressuscitados como verdadeiros anjos; os outros salvos serão felizes eternamente na terra, tal qual como ensinam para todos os salvos os Adventistas.

231. A EXISTÊNCIA DO INFERNO. A PREDESTINAÇÃO.

É claro que esta teoria do aniquilamento acarreta necessàriamente a negação da existência do inferno, tantas vêzes ensinada claramente por Jesus Cristo no Evangelho. Mas há uma tendência acentuada em muita gente para não querer aceitar esta doutrina da eternidade das penas; e com o livre exame, com a facilidade que êle traz de torcer os textos bíblicos, não poderia deixar de haver seitas protestantes que negassem a existência do inferno, por maior que seja a clareza da Bíblia neste particular (veja-se por exemplo: Marcos IX-42 a 47).

Assim não são sómente os Socinianos, Ilstemunhas de Jeová e Adventistas do 7.° Dia, adversários da tese da ii ortalidade da alma, que negam a existência do inferno. É negada também pelos Universalistas, os quais aceitam a imortalidade da alma, mas afirmam que, no final das contas, todos irão para o Céu, havendo um castigo no fogo, porém castigo que tem o seu fim, e depois finalmente -todos conseguirão a felicidade eterna.

É a doutrina do Evangelho falseada para assim acomodar-se aos desejos humanos. O inferno é por êles transformado num purgatório, mas purgatório mesmo para os maus, ímpios e perversos. Acompanham aos Universalistas neste ponto, admitindo a regeneração dos maus depois da morte, muitos Congregacionalistas, alguns Anglicanos e os Protestantes Liberais em geral.

Diante desta acesa disputa entre os seus colegas protestantes, os Valdenses (29) se põem do lado de fora e não querem intrometer-se na. questão. Deixam aos seus adeptos a liberdade para escolherem uma das 3 doutrinas a respeito do castigo dos maus: ou o fogo eterno; ou o aniquilamento; ou um castigo temporário, indo todos depois para o Céu.

Não se pense, porém, que o grosso dos protestantes, os que admitem um verdadeiro Céu e um verdadeiro inferno, estejam livres de discutirem entre si. Há entre êles uma acerba controvérsia a respeito da predestinação.

É a célebre discussão entre Calvinistas e Arminianos.

Os Calvinistas ensinam que Deus por um decreto irrevogável e inflexível de sua vontade, destina uns para a felicidade eterna e outros para a eterna condenação. Esta doutrina vem atingir também o conceito de salvação, pois afirma que Cristo não morreu por todos, mas só pelos eleitos, pelos predestinados; em sua eleição Deus não leva em conta nem a fé, nem a conversão, mas procede imicamente segundo seu livre arbítrio e prazer.

A esta doutrina se opõe o protestante holandês Armínio, afirmando que "Deus pelo mesmo decreto quer que sejam felizes em Cristo todos os que nÊle crêem, e que perseverem na fé até o fim e só condenará aos não-convertidos e não-crentes... que Cristo morreu por todos e que os crentes só são eleitos enquanto gozaram do perdão dos pecados... que nenhum homem tem a fé salvadora em si mesmo ou por sua livre vontade se vive em pecado, mas é necessário nascer de novo para Deus em Cristo por meio do Espírito Santo e renovar-se no entendimento e na vontade, uma vez que sem a graça o homem não pode resistir ao pecado, como também pode resistir à graça."

Como se vê, a questão se prende a outra também discutida entre os protestantes, isto é, se o homem é livre ou não é; os primeiros chefes reformadores Lutero, Calvino, Zuínglio etc, qw negavam o livre arbítrio eram partidários da predestinação de uns para o Céu e outros para o inferno; ao passo que é nas fileiras dos que admitem a liberdade humana, que se vão recrutar os Arminianos, o que não impede que destas fileiras surjam também partidários da teoria calvinista. A divisão existe em várias seitas protestantes neste assunto de predestinação, como por exemplo há Metodistas Calvinistas (que seguem a Whitefield) e há Metodistas Arminianos (que seguem a Wesley). Entre os Batistas há também esta divisão: Batistas Calvinistas e Batistas Arminianos. Os Presbiterianos seguem a doutrina de Calvino, mas alguns dêles também discordam de sua seita neste particular. No meio desta barafunda surgem, como vimos, os Universalistas para afirmar que todos são predestinados para o Céu.

232. O PURGATÓRIO

A existência do purgatório, que foi a princípio admitida por Martinho Lutero para ser depois negada pelo mesmo e sôbre a qual Melanchton sempre permaneceu indeciso, embora seja negada hoje pela grande maioria dos protestantes, encontra defensores em alguns Metodistas modernos, os quais afirmam haver, depois da morte, um estado intermediário de purificação, não para os fiéis, mas para aquêles que nunca ouviram falar de Cristo.

Vão mais adiante alguns Luteranos, admitindo o purgatório mesmo para os fiéis e estão baseados em que, como diz o protestante alemão Dr. Karl von Hase: "a maior parte dos moribundos são bons demais para o inferno, porém ruins demais para o céu" (Handbuch der protest. Polemik 385). Discordam da doutrina de que o castigo no purgatório seja verdadeiro fogo, o que, aliás, embora seja a opinião comum dos teólogos católicos, contudo não é de fé definida; discordam também da idéia de que possam estas almas que se estão purificando no outro mundo ser ajudadas pelas nossas orações e sufrágios. Já pensam de maneira diferente muitos membros da Igreja Protestante Episcopaliana, os quais não só admitem a existência do purgatório, mas possuem uma associação especial destinada a fomentar "a oração de intercessão para os moribundos e para o descanso das almas dos sócios e de todos os fiéis defuntos" e assim se mostram inteiramente de acôrdo com a doutrina católica.

233. SACRAMENTOS.

A Igreja chama Sacramento "um sinal sensível instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para significar e conferir a graça". Conferir, é claro, no sentido de dar, transmitir. Esta graça pode ser a graça primeira como no Batismo e na Penitência; ou um aumento de graça como nos outros: Eucaristia, Confirmação, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio.

Entre os protestantes reina uma grande confusão sôbre êste assunto.

Hoje já há protestantes que admitem os 7 Sacramentos exatamente como a Igreja ensina e dando-lhes o mesmo significado: são muitos Ritualistas na Inglaterra.

Fora dêstes, os protestantes admitem um úmero menor de sacramentos, variando as opiniões a respeito dêste número, como veremos.

Mas antes disto já há discussão, no Protestantismo, a respeito da NOÇÃO de sacramento. Os Luteranos, por exemplo, admitem a doutrina católica de que o Sacramento confere a graça. Vejamos o que diz nas páginas 48 e 49, o Breve Guia do Cristão, publicado pelo Sínodo Evangélico Luterano do Brasil, em 1953: "Sacramento quer dizer função ou ato sagrado, instituído por Deus, no qual, mediante determinados meios externos, ligados com a Palavra de Deus (água no Batismo e pão e vinho na Santa Ceia) nós oferece, dá e sela a sua graça adquirida por Cristo. Os Sacramentos, são portanto. meios da graça, mediante os quais Deus nos oferece a sua graça e a remissão dos pecados, adquiridas por Cristo ao realizar a nossa redenção e no-las apropria." Insurgem-se contra esta noção muitos outros protestantes (entre os quais os Batistas) afirmando que os chamados comumente sacramentos, como p. ex. o Batismo e a Ceia, não conferem graça alguma, a graça o crente já tem pela fé; servem, apenas, como um testemunho desta mesma fé.

Mesmo, porém, que se considerem os Sacramentos como MEROS RITOS RELIGIOSOS CRISTÃOS QUE VÊM DOS TEMPOS DE CRISTO, há grande diversidade entre os protestantes.

Os Anglicanos admitem como RITOS, com cerimônias e orações especiais, a Confirmação, Ordem, o Matrimônio, a Unção dos enfermos, além do Batismo e da Ceia que êles chamam SACRAMENTOS.

Os Svedenborgianos admitem o Rito da Confirmação; pois administram o batismo às crianças e depois lhes impõem as mãos, quando chegam ao uso da razão. Isto coincide com a primeira participação da Ceia do Senhor.

Os Irmãos Primitivos, chamados também Tunkers, de uma palavra alemã que quer dizer MERGULHADORES, administram a Confirmação logo após o Batismo: o batizando se ajoelha dentro dágua, é mergulhado 3 vêzes e imediatamente o ministro lhe impõe as mãos e faz preces por êle.

Os Luteranos Legítimos, (30) além do Batismo e da Ceia, que consideram como sacramentos, admitem ritos religiosos da Confirmação, da Ordem e da Confissão.

A respeito desta última, os Luteranos admitem duas espécies de confissões: a geral e a privada. Na Confissão geral, os fiéis recitam uma fórmula em conjunto e o ministro, autorizado pela congregação, os ABSOLVE. Vejamos o que diz o catecismo luterano Breve Guia do Cristão na página 56: "Que é absolvição? Declarar o pecador penitente livre do pecado, dizendo-lhe: Eu te perdôo todos os teus pecados! A absolvição é pronunciada pelo ministro de Cristo, chamado e autorizado pela congregação cristã para tal fim. Deus delegou êsse poder à congregação cristã e esta o delega ao seu pastor, afim de o exercer públicamente por ela, para que na Igreja de Deus tudo se faça com ordem e decência." Além da confissão geral, admitem também a confissão privada, secreta, auricular, que faz o fiel ao seu pastor, mas confissão esta facultativa e não obrigatória: "O crente luterano pode sei' confortado, procurando seu pastor particularmite e expondo-lhe o seu caso de consciência, para que na qualidade de ministro de Cristo o absolva individualmente, para maior confôrto seu" (Breve Guia do Cristão pág. 57).

Os Pentecostais admitem só o Batismo e a Ceia; mas fazem distinção entre o batismo de água e o Batismo do Espírito Santo, sendo êste último evidenciado pela glossolalia ou dom de falar línguas estranhas, como fizeram os Apóstolos no dia da Pentecostes (embora na realidade chamem DOM DAS LÍNGUAS a simples capacidade de emitir sons incompreensíveis); êste batismo costuma vir acompanhado de extravagâncias e crises nervosas e neste ponto os Pentecostais são justamente condenados e ridicularizados pelas outras seitas.

Os Menonitas celebram duas vêzes por ano a Ceia do Senhor, fazendo-a preceder do Lavatório dos pés, o qual consideram obrigatório e admitem, além do Batismo, a unção com óleo aos enfermos que a peçam com fé. Admite também a unção com óleo aos enfermos, a Igreja Irmã ou Dunkers Progressivos, fundada na Convenção de Dayton Ohio, em 1883, a qual afirma que todo cristão tem como dever e privilégio observar os mandamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, entre os quais se acham o Batismo dos crentes, com a imersão trina e una; a Confirmação, a Ceia do Senhor, a comunhão do pão e do vinho, o Lavatório dos pés dos santos; a Unção com óleo aos enfermos.

Os Irvingianos admitem o Batismo, a Ceia e a Ordem.

234. O BATISMO. A PREGAÇÃO.

Enquanto há tantas seitas protestantes que assim admitem outras cerimônias, outros ritos além do Batismo e da Ceia, há um grande número de seitas que não admitem, fora dêstes dois, nenhum rito religioso.

E há também seitas protestantes que não admitem nenhum rito: nem Batismo, nem Ceia, nem coisa alguma. São os Quacres e os Salvacionistas ou Exército de Salvação, por exemplo. Alegam os Quacres que com aquela palavra de S. João Batista de que êle batizava em água, mas Jesus Cristo havia de batizar no Espírito Santo e no fogo, se mostra a abolição do batismo de água; que o tempo das figuras já passou; e que a profissão de fé em Cristo e a santidade de vida são melhores sinais de cristianismo do que qualquer ablução exterior. Aliás, esta seita se distingue perfeitamente de tôdas as outras seitas protestantes pela ausência completa, não só de qualquer rito, mas de qualquer demonstração exterior nas suas reuniões. Não há nenhuma cerimônia. Não há pregadores escalados, uma vez que não há entre êles o ministério da pregação. Os Quacres acusam a pregação de se ter tornado uma ciência, uma arte, um ofício como outro qualquer; aprende-se a pregar como se aprende a advogar, a fazer discursos acadêmicos, a representar no teatro; isto serve para satisfazer à vaidade, e muitas vêzes tais doutôres se encarregam mesmo de desmentir seus próprios discursos com sua maneira de proceder; o resultado é que se produz nas almas a frieza, a secura, a esterilidade e a morte, quando a palavra eva4gélica deve ser antes de tudo a espontânea expansão da inspiração divina. Esta é a linguagem dos Quacres sôbre os pregadores, a qual podemos confrontar com o que fazem as outras seitas protestantes. Como remédio a êstes males que denunciam, o que fazem os Quacres? Dão o direito a qualquer fiel, velho ou moço, sábio ou ignorante, homem ou mulher, de pregar e glorificar públicamente a Deus na assembléia cristã, desde que receba a inspiração divina. Reúnem-se todos, concentrarei-se no mais absoluto silêncio e espéram que surja A LUZ INTERIOR, o toque do Espírito Santo, a inspiração do Céu; aí então o que a recebeu toma a palavra para edificação de seus irmãos. Não aparecendo esta moção, se conservam em silêncio até o fim. E assim, em vez de todos aquêles inconvenientes que enxergam na pregação, se sujeitam a outro muito maior do que todos êles reunidos: a liberdade de cada um dizer os maiores disparates, atribuindo-os ridiculamente à inspiração do Divino Espírito Santo.

Mas, voltando ao Batismo, mesmo os protestantes que o admitem discutem em muitos pontos.

É velha a discussão que há entre êles sôbre o batismo das crianças, ou seja, se devem as crianças ser batizadas ou só os adultos; a discussão já vem dos tempos de Lutero e de Calvino e perdura até o dia de hoje.

Aparecida a Reforma, surge a seita dos Anabatistas que em vista da teoria protestante da justificação só pela fé, condena o batismo dos meninos como ilógico, ilícito e sem valor, porque o menino não tendo o uso da razão não tem a fé, portanto não tem as disposições necessárias para o batismo. Além disto, não admitindo a transmissão -do pecado original tal qual como admite a Igreja Católica, não vêem motivo para batizar as crianças. Mas contra os Anabatistas se insurgem Lutero, dizendo que o Batismo é para todos; Zuínglio, segundo o qual o Batismo não é necessário para a salvação, nem para remissão do pecado original, mas é preciso ministrá-lo a todos, porque é a circunscisão nova, indispensável como era a antiga, pois é por meio dela que o homem se introduz no seio do povo de Deus; Calvino, afirmando que o filho dos fiéis já é santificado desde o nascimento, pois Deus prometeu abençoar a raça dos fiéis, mas é preciso conferir o sacramento ao menino, porque Deus o quer, o rito exterior introduzirá o menino na Igreja, confirmará a fé dos pais, tornará o pequeno mais caro à comunidade cristã e assegurará sua educação religiosa.

E ainda continua acesa a discussão. Só batizam os adultos, por exemplo: os Batistas, os Menonitas, os Pentecostais, os Adventistas do 7.º Dia. Batizam também as crianças: os Luteranos Legítimos, os Metodistas, os Irmãos Unidos em Cristo, os Svedenborgianos, os Presbiterianos e os Anglicanos em geral.

Outra discussão que há entre os protestantes é no que diz respeito à validade do Batismo por infusão. Uns dizem que só é válido o batismo por imersão, como por exemplo: os Batistas, os Adventistas do Sétimo, Dia, os Pentecostais. Dentre os partidários da imersão alguns até exigem 3 imersões, como a seita dos Irmãos Primitivos.

Outros, porém, discordam, admitindo a validade do batismo por infusão, como os Menonitas e os Luteranos por exemplo. Os Metodistas batizam as crianças por infusão, deixando aos adultos escolher a forma em que querem ser batizados.

Uma terceira discussão que há entre os protestantes é se se devem rebatizar os que já foram batizados em outras seitas cristãs.

E como nota extravagante nesta matéria de batismo, está o batismo dos defuntos por procuração de que já falámos (n.º 221), o qual é pôsto em prática, não só pelos Mormões, (31) mas também pela Igreja Neo-Apostólica.

235. A EUCARISTIA.

Logo nos inícios da Reforma houve, no seio dela, uma acerba discussão a respeito da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia.

Defendia esta presença real Martinho Lutero, embora discordando também da doutrina católica sôbre a transubstanciação. Em vez de admitir com os católicos que a substância do pão se converte na substância do corpo de Cristo, ensinava a permanência das 2 substâncias, ou seja, a consubstanciação. Bem como limitava esta presença só ao momento da comunhão, uma vez que não admitia o Santo Sacrifício da Missa. Contra êle se insurgiu, entre outros, Zuínglio afirmando que na Eucaristia não há mais que pão e vinho e ela vem a ser um memorial da Paixão de Jesus e nada mais. Calvino procurou colocar-se no meio têrmo entre um e outro, afirmando que Cristo está presente na Eucaristia, não realmente, mas virtualmente, isto é, no momento da comunhão desce do verdadeiro corpo de Cristo que está no Céu uma certa fôrça espiritual para aquêles que comungam.

Entre os Anglicanos: uns seguem a teoria calvinista; outros, a teoria luterana; outros vão mais além, se aproximam muito mais da doutrina católica, porque admitem a presença real de Jesus Cristo como os Luteranos, porém não só no momento da comunhão, pois conservam a Eucaristia para levá-la aos enfermos, para adorá-la e para dar a bênção do SS.m°, só não admitindo a teoria da transubstanciação, a qual, êles rejeitam (ou então não falam neste assunto); há outros enfim que admitem totalmente a doutrina católica sôbre a prewnça real de Jesus Cristo na Eucaristia, inclusive a teoria da transubstanciação. É que há no seio do Anglicanismo, um movimento de acentuada aproximação com o Catolicismo, movimento êste iniciado pelos Puseístas e intensificado pelos Ritualistas. Os Ritualistas são protestantes; são homens que surgem do seio do Protestantismo, da seita anglicana; praticam o livre exame, pois não se submetem em alguns pontos ao ensino tradicional da Igreja, rejeitam alguns dogmas católicos, não reconhecem a jurisdição do Romano Pontífice e há mesmo divergência entre êles. Mas, cansados de ver tanta controvérsia, tanta confusão nas seitas protestantes que proliferam na Inglaterra e isto devido à impotência dos Bispos anglicanos para reprimirem os erros, diante disto, espontâneamente, levados por um certo amor à unidade, vão admitindo não só muitas doutrinas, mas também muitos ritos da Igreja Católica, de modo que admitem a Missa, tal qual a concebe o Catolicismo, como verdadeiro e real sacrifício, continuação do sacrifício da Cruz e até com tôdas as cerimônias e paramentos que a Igreja usa. Como se vê, a variedade é muito grande no seio do Protestantismo.

A grande maioria das seitas não admite a doutrina de Lutero, nem a de Calvino, mas a de Zuínglio; consideram a Ceia uma mera distribuição de pão e de vinho, para lembrar a Paixão do Senhor (!) e nada mais.

Mas, ainda mesmo entre êstes que assim opinam, não deixa de haver uma pequena discordância: discutem os protestantes se esta "Ceia do Senhor" deve ser administrada só aos adeptos de sua seita, ou se também se devem admitir os de outra denominação, tornando-se assim não só uma lembrança da Paixão do Salvador, mas também um meio de confraternização entre as várias igrejas cristãs. Os Batistas são da primeira opinião, por exemplo; ao passo que os Presbiterianos são da segunda. A seita dos Irmãos se divide em dois ramos: os Irmãos Abertos, que aceitam também os outros protestantes na sua ceia; e os Irmãos Fechados, que não os admitem.

236. O MATRIMÔNIO.

Há controvérsia entre os protestantes a respeito da indissolubilidade do matrimônio. Há uns que seguem neste ponto a doutrina católica, não admitindo o divórcio em hipótese alguma, como são por exemplo os Quacres e os Irvingianos. Outros admitem o divórcio, mas só em caso de adultério, como os Menonitas. Outros, em caso de adultério e em caso de abandono voluntário que não possa ser remediado nem pela Igreja, nem pelas autoridades civis, como ensinam muitos Presbiterianos. Outros, mesmo em alguns casos fora dêstes, como são, por exemplo, muitos Anglicanos.

237. SÁBADO E DOMINGO. ADVENTISMO.

Divergem os protestantes também sôbre o dia de descanso. Uns descansam no sábado e outros no domingo. Fazem questão cerrada da observância do sábado, tomando-a como iiipa dos pontos capitais de sua doutrina os Adventistas do 7.º Dia, combatmos neste particular pela grande maioria das outras seitas protestantes.

Dizemos um dos pontos capitais, porque o outro, que os Adventistas pregam com muita insistência é A PRÓXIMA vinda do Senhor, ou seja, o próximo fim do mundo. Nisto são também contestados pelos outros protestantes que alegam, e com razão, o texto de S. Marcos: A respeito, porém, dêste dia ou desta hora, ninguém sabe quando há de ser, nem os anjos no céu, nem o Filho, mas só o Pai (Marcos XIII-32). Aliás, os Adventistas do 7.º Dia nasceram de um tremendo fracasso: o de William Miller que, fazendo os seus cálculos, baseado numa errônea interpretação do livro de Daniel (capítulos 2.º e 8.º) anunciou aos quatro ventos nos Estados Unidos que o mundo se acabaria infalivelmente no intervalo entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. Houve uma ansiosa expectativa, porque a propaganda tinha sido tremenda; muitos até caíram na imprudência de abandonar o cultivo dos campos; outros deram todos os seus bens aos "infiéis" (isto é, aos que não acreditavam), afim de ficarem mais livres para seguirem o Espôso. E veio a decepção acabrunhadora, porque se esgotou o prazo, passou o dia 21 de março de 1844 e o mundo continuou a marchar da mesma forma. Então Snow, um dos discípulos de Miller, observa, no meio da geral consternação, que havia, um engano nas contagens de seu mestre: o fim do mundo seria com tôda certeza no dia 22 de outubro do mesmo ano. Subiram os Adventistas para os montes naquele dia com suas vestimentas de festa para o encontro com Jesus, mas desta vez foi mais uma nova e espetacular decepção. Não desanimaram os adeptos de Miller; passaram a pregar que o fim do mundo está bem próximo, mas sem se saber precisar quando será; e como se vê, HÁ MAIS DE UM SÉCULO que o estão anunciando para muito breve. E enquanto há entre os Adventistas esta ansiosa expectativa em tôrno do fim do mundo, os Svedenborgianos pensam de modo muito diferente: acham que o juízo final já se realizou no ano de 1757, tendo sido presenciado pelo próprio Svedenborg...

Mas, voltando à questão do sábado, o próprio nome de Adventistas do 7.° Dia mostra que entre os mesmos Adventistas ou seja, pregadores da proximidade do fim do mundo, há uns que são do 1.º Dia ou que descansam no domingo. Em outras seitas também há partidários do sábado; entre os Batistas, por exemplo: há Batistas do 7.º Dia que descansam no sábado, ao contrário da maioria dos Batistas, que têm o domingo como dia de descanso.

Dentre os protestantes que são partidários da observância do sábado, surgiu uma seita bastante original: a dos Sabatistas da Reforma Completa, os quais se julgam obrigados a observar muitas outras coisas que eram preceituadas na lei de Moisés, por isto não comem a carne de porco, nem a banha que dêle procede, nem aquêles animais que eram considerados impuros para os judeus, não comem o sangue nem os animais sufocados, não rapam a barba etc. Os outros protestantes se revoltam contra êste regresso à lei mosaica. Nada podem fazer, porém. Tudo isto faz parte do livre exame. Estas proibições, êles as mostram na Bíblia... E a Bíblia cada um interpreta a seu modo...

238. CULTO DOS SANTOS.

É rejeitado em geral pelas seitas protestantes, menos pelos Ritualistas que o admitem. Mesmo fora dos Ritualistas têm aparecido protestantes ilustres como Grotius e Leibnitz (veja-se n.º 374) que se têm mostrado favoráveis à intercessão dos santos.

A respeito da devoção a Maria SS.ma, apesar de encontrar tão grande oposição em geral, por parte dos protestantes, surgem, entre êles, preciosas confissões dos que sabem reconhecer as vantagens dêste culto. Assim diz o luterano Karl von Hase: "Nosso juízo seria mesquinho se tivéssemos em pouca estima esta devoção que no tempo dos bárbaros estendeu seus luminosos raios sôbre o sexo feminino, apresentando a mulher um ideal sublime e amável e recordando às virgens e às mães honrar e imitar a Maria de alguma maneira... Não negamos que o Filho Divino é honrado também em sua Mãe, honra preciosa, tanto em sua singeleza bíblica, como em sua glorificação na arte" (Handbook to the Controversy with Rome, tradução de A. V. Streane. Londres 1909).

T. B. Thompson, ministro da seita dos Irmãos Plymutistas, escreve em um artigo da revista Truth and Light (Verdade e Luz): "O amor e a veneração à Virgem Maria constituem um capítulo importante no culto católico. Não tenho dificuldade alguma em aprovar a atitude da Igreja Católica para com a Mãe de Jesus. Além disto, não se pode deixar de reconhecer que o culto da Virgem Maria dulcificou o coração do mundo para com a mulher, contribuiu eficazmente para dar à mulher o pôsto de honra que ora ocupa e colocou tôda a Igreja à sombra da santidade do lar. No respeito inculcado a Maria, a Igreja Católica Romana nos apresenta a mais bela, a mais delicada homenagem prestada à graça, à doçura e à beleza maternais."

Entre as associações existentes na Igreja Protestante Episcopaliana, fundada nos Estados Unidos em separação da Igreja Anglicana, está uma que tem por título: "O Rosário de Nossa Senhora e de S. Domingos" e que se destina a propagar a devoção a Maria SS.ma e difundir entre os fiéis a recitação do Rosário.

239. VIRGINDADE DE MARIA SS.MA

Já que falamos em Maria SS.ma, surge também a questão de sua virgindade. E neste ponto vemos que os protestantes divergem entre si quanto ao interpretar a palavra de Isaías, citada por S. Mateus: Eis que uma VIRGEM conceberá e DARÁ À LUZ um filho e será chamado o seu nome Emânuel (Isaías VII-14), bem como a expressão irmãos do Senhor (1.º Coríntios IX-5).

Que Maria SS.ma foi virgem antes do parto, quer-nos parecer que todos estão de acôrdo.

Que Maria SS.ma foi virgem na hora do parto, uns afirmam e outros negam. O nascimento virginal de Jesus Cristo, negado por muitos protestantes, é considèrado questão aberta, questão discutida, por exemplo, pela Igreja Anglicana.

Mesmo entre os que admitem o nascimento virginal de Jesus há outra controvérsia: se Maria SS.ma foi perpetuamente virgem. Os protestantes se dividem em 3 correntes:

uns negam abertamente, dizendo que aquêles irmãos de Jesus de que fala a Bíblia são outros tantos filhos que Maria SS.ma teria tido;

outros dizem que nada se sabe a respeito, que é assunto controvertido;

outros finalmente abraçam sem nenhuma hesitação a doutrina católica de que Maria SS.ma foi perpetuamente virgem.

É valiosa neste sentido a opinião do Dr. João Pearson, bispo anglicano de Chester (no seu livro: Exposition of the Creed. Londres 1692 art. 3.º pág. 172): "A questão não é a de saber se Jesus teve irmãos. mas sim se a mãe de Jesus Cristo, Maria teve outros filhos além de Jesus. Na língua hebraica a palavra IRMÃOS compreende não só a relação de verdadeira fraternidade, mas também a de consangüinidade, ainda a mais remota. Por conseguinte, tendo a Virgem Bem-aventurada consangüineos remotos, êstes eram chamados irmãos do Senhor... Que Maria se conservasse sempre virgem, se infere necessàriamente do privilégio eminentíssimo e sem igual de ser Mãe de Deus; da honra e reverência devida a tal Filho e que Maria sempre Lhe tributou; do respeito ao Espírito Santo que descera sôbre ela, do poder do Altíssimo que a cobriu com a sua sombra; e finalmente da piedade singular de seu espôso José."

Outro testemunho insuspeito é o do Dr. Bull, também bispo anglicano (On the due praise and honor of the Virgin — Londres. 1851 vol. II.° pág. 588) "Da dignidade da Beatíssima Virgem se segue necessàriamente que ela permaneceu sempre virgem, como constantemente sustentou e defende a Igreja Católica. Seria indecoroso imaginar que aquêle vaso tão puro, consagrado especialmente para santuário da Divindade, pudesse depois ser profanado por um homem."

240. AS IMAGENS.

É bem conhecido o horror que têm em geral os protestantes às imagens sagradas, por êles consideradas como ídolos abomináveis. Mas não conservam os Luteranos nas suas igrejas a imagem de Jesus Crucificado? Não estão cheias de imagens as igrejas anglicanas?

241. O PECADO ORIGINAL.

Lutero afirmava que o pecado original consiste na depravação total da natureza humana, principalmente na veemente concupiscência que é invencível, pois na opinião dêle não existe o livre arbítrio; em conseqüência desta total depravação, todos os atos do homem são necessàriamente pecados e pecados mortais; só deixando de condenar-nos, só se tornando veniais, quando nos é imputada a justiça de Cristo.

Já não esposam integralmente estas idéias os Luteranos de hoje, os quais admitem a transmissão do pecado original: "somos por nascimento inimigos de Deus" (Breve Guia do Cristão pág. 32), exageram também a depravação da nossa natureza : "Ne4atual estado de pecadores nenhum homem é capaz de cumprir os mandamentos de Deus... Apenas o crente pode fazer boas obras" (Breve Guia do Cristão págs. 22 e 34) Mas não admitem, como Lutero, uma depravação total, absoluta, irremediável, de modo que á justificação fôsse apenas uma não-imputação meramente externa: "O Espírito Santo nos ilumina, tira a nossa cegueira natural, nos vivifica e nos torna amigos de Deus... É ainda o Espírito Santo quem nos conserva a fé e nos dá a fôrça para a santificação da nossa vida" (Breve Guia do Cristão págs. 33 e 34).

Muitas seitas falam igualmente na transmissão do pecado original, sendo muito comum entre os protestantes a tendência para identificá-lo com a concupiscência. Há outras seitas, porém, que se abstêm! de falar sôbre êste assunto, não se dando ao trabalho de explicar emi que sentido todos pecaram em Adão (Romanos V-12 e 19).

E num chocante contraste com a doutrina de Lutero, os Protestantes Liberais chegam ao extremo oposto, afirmando que o pecado original consistiu apenas no mau exemplo que Adão e Eva deixaram para os seus descendentes. Mais longe ainda vão os Svedenborgianos, que negam mais radicalmente o pecado original, ensinando que a narrativa do Gênesis sôbre Adão e Eva não é real, mas simplesmente alegórica, pois Adão não foi o primeiro homem, apenas Adão e Eva são tomados como símbolos para representar a primeira Igreja que existiu no mundo e que foi a Igreja do Antigo Testamento antes do dilúvio.

242. NATUREZA E ORGANIZAÇÃO DA IGREJA.

Entre os protestantes há muitos que não pertencem a seita alguma, porque achando, conforme a doutrina da Reforma, que o homem se salva exclusivamente pela fé em Cristo e pelo arrependimento, sem precisar para isto de nenhum sacramento nem rito religioso, não reconhecendo nem mesmo a necessidade do Batismo e admitindo a liberdade de cada um interpretar a sua Bíblia dizem, como conseqüência lógica de tais princípios, que a Igreja fundada por Cristo é uma IGREJA INVISÍVEL, que consta de fiéis, os quais Deus é quem os conhece. Outros, ao contrário, admitem uma IGREJA VISÍVEL; e é de ver como em geral, apesar das teorias da Reforma, as seitas se organizam como verdadeiras sociedades, admitindo e expulsando membros, recebendo pagamentos de dízimos etc..

Outros, enfim, fazem uma distinção entre a Igreja visível constituída por aquêles que externamente professam a fé cristã e a Igreja Invisível que é o conjunto dos santos e dos eleitos.

Entre aquêles mesmos que admitem a Igreja como sociedade visível, há muita diversidade no que diz respeito ao seu govêrno e organização.

Os Anglicanos têm como seu chefe o Rei ou a Rainha da Inglaterra. Os Luteranos também tomam como chefe o rei ou o príncipe, quando a Igreja está unida ao Estado; em caso contrário são governados pelo Sínodo. Os Presbiterianos são governados pela reunião dos presbíteros. Os Congregacionalistas põem o poder em cada congregação dos fiéis, a qual é considerada independente. Há protestantes Episcopalianos que reconhecem a autoridade de bispos, superiores aos pastôres comuns; outros que admitem bispos, só com o po6er de ordenar, como os Irmãos Moravos; 'outros que têm somente pastôres; outros até, como os Testemunhas de Jeová, vivem chateando os demais protestantes com certos textos da Bíblia (êste por exemplo: O meu povo veio a ser 1011, rebanho perdido; os pastôres dêles os enganaram — Jeremias L-6) ou com o capítulo 34 de Ezequiel, e tentando provar com isto que o título de pastôres é condenado por Deus. Pelo que dissemos dos Quacres já se vê que êles não admitem pastôres. Algumas seitas, entretanto, têm não só pastôres, mas também pastôras, pois concedem também às mulheres o direito de pregar nos seus templos, como a Igreja de Santidade dos Peregrinos e a seita denominada Coluna de Fogo.

243. A BÍBLIA E SUA INSPIRAÇÃO.

Ora por um, ora por outro, vários livros da Bíblia, como veremos mais adiante (n.º 255) têm sido rejeitados por alguns chefes da Reforma; e entre êles se contam por exemplo: a Epístola aos Hebreus, a 2.º e a 3.º de João, a 2.á de Pedro, a Epístola de S. Tiago, a de S. Judas e o Apocalipse. Muitos Protestantes Liberais rejeitam a autenticidade do Evangelho de S. João.

E enquanto à inspiração da Bíblia, as opiniões também são diversas.

Muitos protestantes antigos ensinavam que o Espírito Santo ditou a Bíblia palavra por palavra, (e até quanto à pontuação, diziam alguns), de modo que os escritores sacros não foram mais que A PENA de que se serviu o Espírito Santo. Muitas seitas protestantes de hoje continuam com esta teoria, como, por exemplo, os Luteranos Legítimos: "Deus Espírito Santo inspirou aos escritores da Bíblia tôda e cada uma das palavras que se acham neste livro... O verdadeiro autor da Bíblia é, portanto, o próprio Deus, o qual fêz dos santos escritores seus instrumentos, como o professor que dita as palavras que o aluno deve escrever no seu ditado" (Breve Guia do Cristão págs. 4 e 5). E há sociedades missionárias protestantes, como o Companheirismo Latino-americano de Oração e a Missão da América Central, que incluem no seu Credo: a inspiração VERBAL da Sagrada Escritura.

Outros protestantes, como os Puseístas, seguem nesta matéria de inspiração a doutrina católica, segundo a qual (para resumi-la em poucas palavras), os livros inspirados são infalíveis em tôdas as suas partes, porque têm a Deus como AUTOR. Para isto não é preciso dizer que Deus ditou as palavras, uma por uma, mas sim que Êle moveu a vontade e iluminou a inteligência do escritor sacro de tal maneira que êste escrevesse tudo aquilo e só aquilo que Deus quis que êle escrevesse. Nisto Deus se serviu do escritor como de um instrumento inteligente e livre, de modo que não obsta à inspiração que o escritor tenha feito investigações sôbre o assunto, já induzido a isto por Deus, como fêz S. Lucas, por exemplo (Lucas 1-3); nem também que inspirado por Deus na sua inteligência, êle conserve, ao passar o preto no branco, as características de seu próprio estilo e o cunho de seu talento pessoal.

Há outros protestantes (como p. ex., os teólogos C. Gore e W. Sanday) que já falam de modo diverso. Dizem êles que a inspiração foi pessoal e não do texto; isto é, os escritores sacros eram inspirados, no sentido de que eram homens privilegiados, aptos "rara inspirar aos outros a emoção religiosa. Mas os seus livros nem todos são inspirados do mesmo modo e no mesmo grau. Nêles há coisas divinas e humanas, encontram-se até alguns erros, mas do conjunto dos ensinamentos expostos na Escritura se pode 'tirar tudo o que é necessário para a salvação e seguindo-a nas coisas ESPIRITUAIS não podemos errar.

Outros, como os Protestantes Liberais, vão mais longe ainda: afirmam que a inspiração da Bíblia é semelhante à inspiração que atribuímos aos oradores e aos poetas. Os livros sacros devem ser, dizem êles, sujeitos à crítica, pois contêm coisas verdadeiras e falsas, fatos históricos e mitos. E como infelizmente não admitem a divindade de Cristo, afirmam os Protestantes Liberais que Cristo errou em várias coisas, mas ensinou os grandes princípios da paternidade de Deus e da fraternidade humana e daí decorrem todos os nossos deveres para com Deus e os homens e que é preciso observar para conseguir a salvação.

244. COMPLETAMENTE DESORIENTADOS ...

Como se vê, a Bíblia é uma só, todos os protestantes dela se consideram fiéis seguidores, mas as suas interpretações são as mais desencontradas. Na sua ânsia de dar lições à Igreja Católica em matéria de exegese bíblica, êles se mostram, sim, completamente desorientados nesta matéria. E as divergências entre êles são tantas e tão profundas que demandariam um grosso volume, não o simples capítulo de um livro para descrevê-las.

A GRANDE CHAGA DO PROTESTANTISMO

245. LÁGRIMAS E LAMENTAÇÕES DOS REFORMADOS.

Estas profundas divergências que reinam no seio do Protestantismo, mal irremediável pois as seitas se multiplicam cada vez mais, são como uma maldição que sôbre êle pesa, desde o seu aparecimento.

Já os primeiros Reformadores não ocultavam a vergonha e a decepção que lhes causavam suas próprias discordâncias. Lutero se queixava de que havia "quase tantos sistemas quantas cabeças de pregadores". Calvino escrevia numa carta a Melanchton: "É de grande importância que não passe aos séculos vindouros nenhuma suspeita sôbre as divisões que existem entre nós, porque é ridículo, acima de quanto se possa imaginar, que depois de ter rompido com todo o mundo, nós estejamos em tão pouco acôrdo desde o início da Reforma." O mesmo Melanchton dizia: "O rio Elba com tôdas as suas águas não nos forneceria lágrimas suficientes para chorar as desgraças da Reforma dividida."

Atualmente, depois de 4 séculos de sempre crescente anarquia e confusão na doutrina reformada, os protestantes modernos continuam a lamentar profundamente as suas divisões. "A multiplicidade de igrejas, diz Bertrand, é uma dor e um escândalo."

O Bispo anglicano de Bombaim (em artigo publicado na International Review of Missions, de janeiro de 1928) diz: "Nós deveríamos poder dizer aos pagãos: Aqui está a Igreja de Cristo; porém nossas divisões dão um desmentido. O Protestantismo professa opiniões contraditórias e as que são falsas deveriam ser rechaçadas, não só por amor à união, como por respeito à verdade. Em Lausanne os delegados não ousaram tomar sôbre si a responsabilidade de dizer em nome de suas seitas: Estávamos no êrro. De uma conferência dêste gênero não poderá nunca surgir a união das Igrejas."

  • protestante R. Roberts escreve (na Review of the churches, de abril de 1925) : "Pela sua acentuada tendência individualista, o movimento protestante teve uma tendência cissípara (reprodução mediante a cisão do próprio organismo); a sua história é uma história de contínuas divisões e subdivisões, a ponto de o número das seitas se ter tornado e ser ainda escândalo e objeto de mofa para todos."

Uma revista protestante Student Volunter Builetin, em seu número de março de 1930, afirma: "A situação fragmentária de nossas Igrejas é para muitos o argumento final de que o Protestantismo não pode dar-lhes a paz e unidade que êles buscam para as suas almas. Não é exagerado afirmar que para o latino acostumado à unidade de Religião e de govêrno o escândalo da multidão de seitas é fatal."

Mr. Browning (no livro New Days in Latin America, pág. 176) diz: "Quando os católicos nos apontam as 50 e mais seitas que se esforçam por introduzir o Evangelho na América Latina, o protestante não pode fazer outra coisa senão calar e admitir a fôrça do argumento."

  • o Arcebispo anglicano de Cantuária (na revista The Month de julho de 1932) : "Todos deviam reconhecer sua culpabilidade na divisão do Corpo de Cristo, divisão esta que é contrária à vontade de Deus."

Vivem assim os protestantes profundamente desgostados de suas eternas controvérsias e sonhando com uma unidade impossível, pois cada protestante espera que todos os outros abandonem suas próprias opiniões para abraçar a dêle; e, enquanto isto, têm que reconhecer a verdade daquilo que nos disse a Sabedoria Eterna: Todo o reino dividido contra si mesmo será desolado, e tôda a cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá (Mateus XII-25).

246. DESCULPAS MUITO FRÁGEIS.

Mas, como acontece a tôda pessoa sôbre que vem a cair de cheio um labéu vergonhoso, a qual procura sempre agarrar-se a alguma desculpa, mesmo que seja muito frágil, não faltam protestantes que recorrem a pálidas e, às vêzes, ridículas explicações, quando se fala neste mal incurável da desunião dos "evangélicos".

A mais célebre é a distinção entre pontos fundamentais e pontos não fundamentais da doutrina. Nós, protestantes, dizem êles, podemos discutir sôbre pontos de somenos importância, mas todos estamos de acôrdo sôbre as doutrinas fundamentais do Cristianismo.

A simples exposição que fizemos, há pouco, das divisões que existem no Protestantismo mostra perfeitamente thue esta alegação não é verdadeira: é sôbre todos os pontos, mesmo sôbre pontos importantíssimos, que os protestantes entram em discussão. Existe ou não a Santíssima Trindade? Jesus Cristo era Deus ou um simples homem? A morte de Cristo foi expiatória ou a salvação consistiu apenas no seu bom exemplo? O homem é justificado só pela fé ou também pelas suas obras? A nossa alma é imortal ou não? Existe inferno ou não existe? Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia ou não? É ou não necessário o Batismo? Em que consistem a graça, o pecado original, a predestinação? Há ou não certeza absoluta da salvação?

Tudo isto é controvertido entre os protestantes; seria inútil, portanto, querer convencer-nos de que êles divergem somente sôbre matéria de muito pouca relevância.

Outra desculpa que nos apresentam é tão ingênua, que serve apenas para divertir e provocar o riso. Dizem êles: Também na Igreja Católica não existe unidade, pois se vê grande variedade entre os padres católicos: há Padres Seculares, Jesuítas, Franciscanos, Capuchinhos, Dominicanos, Beneditinos, Carmelitas, Salesianos, Cartuxos etc.

— Esta é boa! Confundir a variedade das funções exercidas pelos padres católicos, dos quais uns se dedicam mais ao paroquiato, outros 'ao ensino, outros à pregação, outros às missões, outros à vida contemplativa etc, com as divisões que há entre os protestantes sôbre A DOUTRINA DO EVANGELHO!

Juntem-se os membros de tôdas as ordens religiosas existentes no Brasil, na China, na África, nos Estados Unidos, na Europa, em tôda a parte, com barba ou sem barba, com o hábito preto, branco, cinzento ou marrou, juntem-se os católicos do mundo inteiro, façam-se-lhes perguntas sôbre a doutrina em que êles crêem firmemente: quantas pessoas há em Deus, se existe inferno, se a alma é imortal, quantos são os Sacramentos, se Jesus é Deus, se Êle está realmente presente na Hóstia Consagrada, etc, etc, etc; e veja-se se a resposta de todos não é UMA só!

Outros, enfim, querendo mesmo encarregar-se de mostrar até onde chega, em matéria de religião, a cegueira partidária, se apresentam (ou fingem apresentar-se) envaidecidos, embelezados com esta grande diversidade que se vê no Protestantismo, o qual então aparece aos seus olhos COM Mn LINDO E VASTO JARDIM, ONDE SE ENCONTRAM AS MAIS VARIADAS FLORES (!). Mas se esquecem de uma coisa muito importante: é que, consideradas atentamente as diferenças doutrinárias existentes no Protestantismo, todo protestante é forçado a reconhecer que existem aí muitos erros e heresias. Duas coisas diametralmente opostas não podem nunca ser verdadeiras ao mesmo tempo. Se Jesus Cristo é Deus, é uma heresia dizer que Êle é um simples homem; se não passa de um homem, é uma heresia dizer que Êle é Deus. Se existe o inferno, é uma heresia negá-lo; se não existe, é uma heresia proclamar a sua existência. Se Jesus está realmente presente na Eucaristia, é uma heresia negar a sua presença; e se não está, é uma heresia afirmá-la. E assim por diante. Juntar um punhado de heresias e querer fazer delas umas flores belas e perfumadas que enchem de encanto o jardim da Igreja, é o que bem se pode chamar uma comparação muito disparatada e muito cínica.

247. VERGONHA E DESMORALIZAÇÃO.

O que é fato, sim, é que desta enorme desagregação do Protestantismo nascem 3 conclusões muito claras, que ninguém poderá negar: a primeira é que daí resulta UMA GRANDE VERGONHA E DESMORALIZAÇÃO PARA A RELIGIÃO CRISTÃ.

Topamos freqüentemente com homens indiferentes em matéria de religião, os quais alegam nada saberem de certo sôbre êste assunto, porque, dizem êles, há um grande número de religiões no mundo e tôdas pretendem ser a religião verdadeira. Pode-se argumentar mostrando a imensa, a clara, a indiscutível superioridade da Religião pregada por Cristo sôbre tôdas as religiões pagãs que já existiram no mundo.

Mas o que não se pode evitar é a pergunta desconcertante que vem depois. E como posso eu saber qual é a religião de Cristo, se são inúmeras as religiões cristãs existentes e tôdas pretendem ser a verdadeira religião do Rabi da Galiléia?

Não há dúvida que Jesus Cristo deixou sinais evidentes para que se conheça a sua verdadeira Igreja; a quem tenha o sincero amor da verdade, a demonstração cabal pode ser feita em face da Bíblia e da história do Cristianismo. Mas agora perguntamos: Quem é responsável por esta deplorável confusão que lavra no espírito daqueles que não se decidiram por uma religião, pelo fato de se assombrarem com o número excessivo de denominações existentes? É a Igreja Católica que sempre foi UNA e INDIVISÍVEL, ou é o Protestantismo que dando com o seu livre exame a cada um o direito de formular doutrinas novas, à vontade, interpretando a Bíblia, como bem entende, encheu o mundo de novos credos que se dizem cristãos? Se êste homem de quem falamos, cita 50 e poucas religiões cristãs que conhece, podemos estar certos de que 50 são seitas protestantes. Se mostra conhecer o nome de cento e poucas, de duzentas e poucas ou de trezentas e poucas; vá-se verificar e se veja se dêste número de denominações citadas, as 100, as 200 ou as 300 não são divisões existentes no seio do Protestantismo!

Pior ainda é a confusão lançada pelas seitas protestantes nas terras de infiéis, onde ainda predomina o paganismo, confusão a que víamos há pouco referir-se o bispo anglicano de Bombaim. A Igreja Católica sempre se entregou ao trabalho das Missões, procurando levar aos pagãos o conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi ela que, evangelizando os bárbaros, tornou cristãs tôdas as nações da Europa. Antes de existir o Protestantismo que só apareceu no século XVI, a doutrina que os cristãos apresentavam aos povos pagãos se impunha pela sua unidade, pela sua firmeza, pela sua estabilidade; era em tôda a parte um só Deus Uno e Trino, um só Batismo, um só Credo, uma só Religião.

O Protestantismo que durante 3 séculos quase nada fêz neste assunto, começou, a partir do século XIX, a interessar-se vivamente pelas Missões, mandando também inúmeros emissários para conquistar os pagãos de tôdas as partes do mundo. Mas desgraçadamente a religião que êles apresentam é um Cristianismo dividido, sujeito a discussões sôbre todos os pontos. Chega o missionário de uma seita e batiza as crianças; chega depois um de outra e afirma que aquêle batismo não teve valor, porque é preciso ministrá-lo só aos adultos; chega um terceiro e diz que o batismo não é necessário para ninguém. Um ensina a existência do inferno; outro diz que é mentira: o inferno não existe, é uma mera ilusão. Um manda descansar no sábado; outro manda descansar no domingo. Um prega a divindade de Jesus Cristo; outro a nega peremptóriamente. Um tem como ponto central de suas pregações o próximo fim do mundo; outro vem depois e assevera que esta proximidade do último dia é uma mera hipótese sem fundamento. E assim por diante. E no meio desta baralhada tremenda, cada qual se esforça por demonstrar que a seita dos outros é falsa e que a verdadeira é a sua, porque o que vão levar aos pagãos não é o ensino da Igreja de Jesus Cristo, tal qual veio desde o começo, desde os tempos do Salvador; o que vão levar-lhes é, por causa do livre exame, a sua interpretação pessoal a respeito do Evangelho. E os pagãos- ficam a pensar, com bastante razão, se não era muito melhor que, antes de procurar atrair os outros para a sua doutrina, os cristãos primeiro chegassem a um acôrdo entre si e descobrissem, no meio de tantas opiniões, tão diversas, tão desencontradas, onde é que se acha a verdadeira doutrina do Evangelho...

248. FRACASSO DO LIVRE EXAME.

A segunda conclusão, a que os protestantes não podem fugir, diante de suas intermináveis e variadas discussões, é a do fracasso completo do livre exame.

Todos os protestantes reconhecem muito bem que a Igreja Católica vem dos tempos de Jesus Cristo. Quando querem fazer um estudo sereno e imparcial da história da Igreja, pondo de lado qualquer sentimento de má fé ou de ódio rancoroso, têm que reconhecer, como reconheceu sinceramente o historiador protestante Gibbon, que a doutrina atual da Igreja é a mesma dos 4 primeiros séculos do Cristianismo: "Foi-me impossível resistir ao pêso da evidência histórica que mostra como em todo o período dos quatro primeiros séculos da Igreja já eram admitidos, em teoria e em prática, os pontos principais das doutrinas do Papado" (E. Gibbon. Memoirs of my life and writings — na Miscellaneous Works of E. Gibbon. Londres 1837 pág. 28). Ou como outro também insuspeito e também historiador protestante, o célebre Harnack que diz o seguinte: "É possível estabelecer com provas impressionantes que a concepção católica da Igreja nascente é histõricamente a verdadeira; isto é, Cristianismo, Catolicismo e Romanismo foram uma identidade histórica perfeita" (Theologische Literaturzeitimg, número de 19 de janeiro de 1909).

Não é nem podia ser muito vasta a literatura cristã dos 3 primeiros séculos, porque a Igreja então estava perseguida, oculta, refugiada nas catacumbas; não é vasta, sim, porém, é mais do que suficiente para se mostrar a identidade da doutrina católica com o ensino da Igreja nos tempos primitivos. E nos séculos 4.º e 5.º aí já aparecem as obras de S. Jerônimo, S. Ambrósio, S. Agostinho, S. João Crisóstomo, etc, e é tal a documentação que possuímos a êste respeito que os protestantes, mesmo os mais ferrenhos e obstinados, são obrigados a admitir a igualdade entre a doutrina ensinada por êstes grandes doutôres e a doutrina atual da Igreja. Daí por diante a documentação é sempre crescente, e a doutrina sempre inalterada.

Mas, admitindo que a Igreja, durante tantos séculos, durante mais de mil anos conservou fielmente sua doutrina, mesmo assim os protestantes aparecem no século XVI para mostrar que esta doutrina está completamente errada.

Mostrar como? Mostrar pela interpretação da Bíblia. É claro que para fazerem esta demonstração, a sua interpretação devia ser muito firme, muito segura, não devia deixar margem a nenhuma dúvida. Mas, quando pedimos que nos apontem a verdadeira interpretação, o que êles nos apontam é esta balbúrdia infernal. Não chegam a um acôrdo em coisa alguma. Cada um tem uma interpretação diferente. E são muito raros os pontos de doutrina ensinados pela Igreja que não sejam também apoiados por protestantes. Se a Igreja ensina a necessidade das boas obras para a salvação, há protestantes que dizem: Estamos com a Igreja; a salvação não se realiza só pela fé. Se a Igreja admite 7 sacramentos, há protestantes que dizem: Estamos com a Igreja, admitimos também 7 sacramentos. Se a Igreja crê na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, há protestantes que também o crêem. Se a Igreja batiza as crianças, se batiza por infusão, se descansa no domingo, há protestantes que também dizem: Estamos com a Igreja; batizamos as crianças, batizamos por infusão, também descansamos no domingo. Se a Igreja ensina a SS.ma Trindade, a divindade de Jesus Cristo, o valor expiatório de sua morte, a imortalidade da alma, a existência do inferno, a indissolubilidade do matrimônio, a necessidade do batismo etc; aparecem protestantes que, com a Bíblia nas mãos, querem negar tudo isto, porque acham que não viram nada disto na Bíblia, mas há outros muitos protestantes que também com a Bíblia nas mãos afirmam: Estamos com a Igreja em todos êstes pontos. Se na frase: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja muitos protestantes quiseram dizer que a pedra de que fala êste texto era Cristo e não Pedro, logo surgem outros intérpretes protestantes como WeisA; Keil, Mansel, Bloomfield, Marsh, Thompson, Alford, Kuinoel e outros que rejeitam esta interpretação como forçada, contorcida, antigramatical, baseada em preconceitos teológicos.

Se é verdadeira a interpretação que os protestantes nos vêm ensinar, onde está a sua firmeza? por que caem êles em tantas contradições? Como podem- convencer-nos a abandonar a interpretação dos Santos Padres, o ensino tradicional da Igreja, a qual sempre esteve bem segura do que afirma, se êles, os partidários do livre exame, vivem numa eterna discussão, sustentando as teorias mais desencontradas?

A prática do livre exame, portanto, lançando assim tanta anarquia e confusão sôbre a interpretação do texto sagrado, veio a dar apenas num tremendo fracasso, não servindo senão para demonstrar a fraqueza da inteligência humana.

249. FALSIDADE DO PROTESTANTISMO.

A terceira conclusão a que nos leva fatalmente o espetáculo das divisões e subdivisões do Protestantismo é que êste é evidentemente falso.

Falso perante a lógica. "Varias, logo não és a verdade, porque a verdade é uma só" bem lhe podia dizer Bossuet, num argumento esmagador e ao mesmo tempo muito simples, pois qualquer pessoa o percebe. Onde há contradição não existe a verdade, porque uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo.

Falso perante a Bíblia, porque Jesus Cristo fundou uma só Igreja: (A MINHA IGREJA, disse Ële) não um amontoado de seitas pregando doutrinas, as mais disparatadas. E se o Protestantismo tem a pretensão de se apresentar no mundo como a cópia fiel da primitiva Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, são os próprios fatos que se encarregam de desmenti-lo, porque é uma das características da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, da legítima Religião Cristã, que nos é apresentada no Novo Testamento, a sua UNIDADE.

Jesus Cristo mesmo que não veio à terra ensinar a verdadeira doutrina para deixá-la inteiramente ao sabor das opiniões de cada um, mas sim para ser seguida por todos, Jesus mesmo predisse que sua Igreja seria una: Tenho também outras ovelhas que não são dêste aprisco e importa que eu as traga; e elas ouvirão a minha voz e HAVERÁ UM REBANHO e UM PASTOR (João X-16). Quem realiza esta profecia do Divino Mestre? São as centenas de seitas protestantes, ensinando doutrinas tão diversas ou é a Igreja Católica que constitui no mundo inteiro um só REBANHO, professando a mesma fé, recebendo os mesmos sacramentos, sob a obediência daquele pastor, que é sucessor de S. Pedro, a quem o Mestre disse: Apascenta AS MINHAS OVELHAS (João XXI-17) ?

Na sua oração sacerdotal, proferida antes de ser entregue aos judeus no Horto das Oliveiras, Jesus disse estas palavras: E eu não rogo sÕmente por êles, mas rogo também por AQUELES QUE HÃO DE CRER em mim por meio da sua palavra; para que êles sejam todos UM como tu, Pai, o és em mim e eu em ti; para que também êles sejam UM em nós e CREIA O MUNDO QUE TU ME ENVIASTE (João XVII-20 e 21).

Cristo aí ora não só pelos Apóstolos, aos quais já se havia referido nos versículos anteriores, mas também pela sua Igreja, por aquêles que haviam de ser seus verdadeiros discípulos, aceitando integralmente a doutrina cristã, crendo em Jesus POR MEIO DA SUA PALAVRA, dêles, Apóstolos;

Cristo pede para êles uma UNIDADE perfeitíssima, a qual é comparada com A UNIDADE DE DEUS, aquela que existe entre o Pai e o Filho, os quais nunca entram em discussão, está bem visto;

esta UNIDADE deve servir para melhor mostrar ao mundo a verdade da doutrina de Jesus: PARA QUE CREIA O MUNDO QUE TU ME ENVIASTE (João XVII-21), porque é claro que se os discípulos de Jesus se põem a discutir uns com os outros, a sustentar as teorias mais diversas, a dizer uns que Êle é Deus, outros que não é, etc, etc, assim não pode brilhar aos olhos do mundo a verdade da doutrina de Jesus, porque a verdade é uma só.

Sabemos, por outro lado, que a oração de Cristo é sempre eficaz. Êle não ora para não ser atendido. Se no Horto das Oliveiras sua oração não surtiu efeito, é que Êle não pediu de t maneira absoluta, mas sob uma condição: Pai meu, SE É POSSÍVEL, passe de mim êste cálix, todavia NÁO SE FAÇA NISTO A MINHA VONTADE, MAS SIM A TUA (Mateus XXVI-39) e pediu sabendo que não seria escutado, mas somente para exprimir nesta frase tôda a angústia que lhe ia nalma naquele momento e para nos dar o exemplo de total submissão aos desígnios de Deus, mesmo nos momentos mais críticos e dolorosos da nossa vida. Mas, sempre que Cristo pede de uma maneira absoluta, se pode garantir de olhos fechados: foi atendido pela sua reverência (Hebreus V-7), porque, se foi dito aos simples fiéis: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á (Mateus VII-7) (se se pede, é claro, aquilo que é útil e proveitoso e se pede com as devidas disposições), Cristo não poderia deixar de ser atendido: 1.º porque ninguém sabe melhor do que Êle aquilo que é útil e proveitoso, para pedir; 2.º ninguém pode ter melhores disposições do que Êle tinha nas suas orações infinitamente meritórias. E o que Êle pedia era evidentemente da mais alta conveniência e utilidade: a unidade de sua Igreja, tão útil, tão necessária que a maior aflição que pesa sôbre os protestantes é a infelicidade de não possuí-la.

Se a Igreja Católica é a Igreja de Jesus Cristo, então a oração de Cristo pelos seus seguidores teve uma grande eficácia. Porque a Igreja é UNA no tempo e no espaço; vem conservando em tôdas as épocas e em tôdas as partes do mundo a sua mesma doutrina, os seus mesmos ensinamentos. É um verdadeiro prodígio, uma prova de que Deus está com ela (Eu estou convosco todos os dias até à consumação do século — Mateus XXVIII-20) esta unidade assim conservada entre homens de raças e costumes tão diversos, quando sabemos que ela possui muito mais adeptos do que tôdas as seitas protestantes reunidas, e vemos êste tremendo esfacelamento, esta enorme desagregação do Protestantismo, desde os primeiros anos da Reforma.

Se a Igreja de Cristo é o Protestantismo, então a oração do Mestre fracassou por completo: pediu ao Pai que os seus seguidores fôssem UM, e o resultado foi esta confusão inqualificável que lavra entre as seitas protestantes.

Nem venham os protestantes dizer que, quando Cristo pediu que os seus seguidores fôssem UM, se referia apenas ao amor, à únião fraternal que deve existir entre êles. Cristo naquele versículo não emprega nenhum têrmo que venha a significar só o amor recíproco, tal qual fizera claramente em outras ocasiões. Fala numa unidade perfeita como a que existe entre o Pai e o Filho. Além disto, como já vimos (n.º 246) todo protestante, se estiver convicto de sua própria doutrina (e se não estiver convicto, não tem a mínima sombra de fé) tem que reconhecer, por causa dos grandes contrastes e contradições, que há, dentro do Protestantismo, indubitàvelmente, muitas heresias. Devemos tratar a todos com caridade, amar até os inimigos, é verdade; mas fazer união com os hereges, aliar-nos, andar de cama e mesa com êles, isto nos é proibido pela própria Bíblia, não podemos ser um com êles: FOGE DO HOMEM HEREGE, depois da primeira e da segunda correção, sabendo que o que é tal está pervertido e peca, sendo condenado pelo seu próprio juízo (Tito III-10 e 11).

Já no tempo dos Apóstolos, a Igreja está em luta contra os hereges e é bem enérgico e categórico o modo como S. João, o Apóstolo que pregava tão insistentemente a caridade, previne os fiéis contra uns sedutores que apareceram dizendo crer em Cristo, mas negando a sua realidade divina e humana e os exorta à fidelidade à doutrina recebida dos Apóstolos: Muitos impostores se têm, levantado no mundo que não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Êste tal é impostor e Anticristo... Todo o que se aparta e não permanece na doutrina de Cristo, não tem a Deus; o que permanece na doutrina, êste tem assim ao Padre como ao Filho. Se algum vem a vós e não traz esta doutrina, não no recebais em vossa casa, nem lhe digais Deus te salve; porque o que lhe diz Deus te salve comunica com suas malignas obras (2.° João versos 7, 9 a 11).

Por conseguinte, a unidade pedida por Cristo não é a aliança entre várias heresias.

250. A PROFECIA DE CAIFÃS.

Tratando os judeus de matar a Cristo, com mêdo de que os romanos se apoderassem de seu país, Caifás concorda plenamente com a idéia: Vós não sabeis nada, nem considerais que vos convém que morra um homem pelo povo e que não pereça tôda a nação (João XI-49 e 50). O Evangelista S. João nos mostra que Caifás dizia estas palavras inspirado por Deus, embora não compreendesse o sentido em que eram exatas. Jesus ia mesmo morrer para bem de muitos, mas não no sentido em que Caifás imaginava: uma morte para salvar politicamente a nação dos judeus, e sim uma morte para reunir NUM CORPO os filhos de Deus que estavam dispersos: Ora, êle não disse isto de si mesmo; mas como era pontífice daquele ano, profetou que Jesus tinha de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para Êle unir NUM CORPO os filhos de Deus, que estavam dispersos (João XI-51 e 52).

Aí se mostra mais uma vez a unidade da Igreja, a qual Jesus Cristo apresentara como um REBANHO (João X-16) e agora aparece nas palavras de S. João Evangelista como formando um CORPO e não corpos diversos, igrejas diversas.

Será que as Igrejas protestantes, com doutrinas e organizações tão diversas, formam UM CORPO?

251. UMA SÓ FÉ.

S. Paulo, na Epístola aos Efésios, exorta os fiéis a conservar a maior união (a unidade do espírito no vínculo da paz), do mesmo modo que êles têm um só Deus, UMA SÓ FÉ, um só batismo: Assim vos rogo eu, o prisioneiro do Senhor, que andeis como convém à vocação com que haveis sido chamados... trabalhando cuidadosamente por conservar a unidade de espírito pelo vínculo da paz; sendo UM MESMO CORPO e UM MESMO ESPÍRITO como fôstes chamados em uma esperança da vossa vocação, ASSIM COMO NÃO HÁ SENÃO UM SENHOR, UMA FÉ, UM BATISMO (Efésios IV-1, 3 a 5).

Mais adiante mostra que se os Apóstolo, profetas, evangelistas, pastôres e doutôres instruem os fiéis é para que todos cheguemos à UNIDADE DA FÉ e ao conhecimento do Filho de Deus, a estado de varão perfeito, segundo a medida da idade completa de Cristo, para que não sejamos já MENINOS FLUTUANTES, NEM NOS DEIXEMOS LEVAR EM RODA DE TODO O VENTO DE DOUTRINA pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao êrro (Efésios IV-13 e 14).

Ora, se vê por aí que o Apóstolo exorta os cristãos a serem unidos pela caridade, da mesma forma que são unidos pela fé. Qualquer pessoa hoje que fôsse aconselhar aos protestantes que sejam unidos uns COM OS outros DA MESMA FORMA QUE SÃO UNIDOS PELA FÉ, estaria aconselhando apenas a máxima discórdia e desunião, porque é justamente em matéria de fé, em matéria de doutrina que êles são mais desunidos. E agora vinte séculos depois que os Apóstolos começaram a anunciar o Evangelho, êles estão bem longe de ter atingido a idade perfeita, vivem COMO MENINOS FLUTUANDO A TODO VENTO DE DOUTRINA, pois as teorias mais desencontradas acham acolhimento no meio das seitas protestantes. A expressão de São Paulo lhes cabe como uma perfeita carapuça, pois se baseiam INFANTILMENTE na Bíblia para ensinarem as doutrinas mais extravagantes. E dêles nunca se pode dizer o que a Bíblia dizia dos primeiros cristãos: perseveravam na doutrina dos Apóstolos (Atos II-42), porque a doutrina dos Apóstolos nunca foi esta salada, esta barafunda de teorias, as mais disparatadas, antes era um ensino firme, que não admitia a mínima divergência: Ainda quando nós mesmos ou um anjo do Céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja anátema (Gálatas I-8). Os protestantes se mostram assim inteiramente contrários ao ensino de S. Paulo: Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que TODOS DIGAIS UMA MESMA COISA, e que NÃO HAJA entre vós CISMAS; antes sejais perfeitos EM UM MESMO SENTIMENTO E EM UM MESMO PARECER (1.ª Coríntios I-10), pois ensinam coisas muito diferentes uns dos outros; cismas entre êles são tantos quantas são as suas inumeráveis seitas; e um mesmo parecer é coisa que nunca se viu no Protestantismo, desde o tempo em que Martinho Lutero era vivo até os dias de hoje.

E se a Bíblia nos mostra S. Paulo tão zangado porque vê os Coríntios divididos em grupinhos, de acôrdo com as suas simpatias: Eu na verdade sou de Paulo e eu de Apolo, pois eu de Cefas (1.ª Coríntios 1-12) — note-se bem que Paulo e Apolo e Cefas ensinavam exatamente a mesma doutrina — e diante disto pergunta indignado: Está dividido Cristo? (1.ª Coríntios 1-13) — que diria se êle chegasse hoje e visse êstes cristãos que se julgam perfeitos imitadores da Igreja Primitiva dizerem: Eu sou Luterano; eu sou Calvinista; eu sou Batista; eu sou Pentecostal; eu sou Adventista; eu sou Presbiteriano; etc, pregando todos êles as mais diversas doutrinas; qual não seria a sua indignação! Sim, Paulo, está-se abusando demais do nome de Cristo para acobertar as maiores heresias; e o Cristo do Protestantismo já não está mais dividido, está pulverizado.

O Protestantismo é, portanto, falso, porque longe de ter a unidade característica da verdadeira Igreja de Cristo, é cheio de contradições naquilo que ensinam as suas diversas seitas. E é inútil que no meio de tôda esta confusão uma seita em particular dos queira convencer de que as outras seitas estão erradas, ela, sim, é que está certa: 1.º porque tôdas as outras dizem igualmente o mesmo; 2.ª porque tôdas as seitas estão sujeitas a subdivisões, o que é uma conseqüência fatal do livre exame; 3.ª porque tôdas elas ensinam uma doutrina que no seu conjunto só começou a ser propagada no mundo depois do século XVI e não é possível imaginar-se que Cristo tenha deixado durante mais de mil anos sua Igreja inteiramente inexistente, desconhecida no mundo, para só aparecer do século XVI em diante e aparecer assim irreconhecível no meio de centenas de seitas que ensinam as doutrinas mais diversas e querem tôdas elas à fina fôrça ostentar o título de única portadora da verdadeira mensagem do Evangelho.

A BÍBLIA NÃO AUTORIZA O LIVRE EXAME

252. EXAMINAI AS ESCRITURAS.

Se Deus quer que todos os homens cheguem a ter o conhecimento da verdade (1.ª Timóteo II-4) e a verdade é uma só, diante do que já vimos sôbre o funesto resultado produzido pela teoria de Lutero de que cada um deve tomar a Bíblia para interpretá-la como bem entende, já pode o leitor avaliar que a Bíblia de forma alguma não autoriza nem pode autorizar êste sistema de fazer cada um a Religião a seu modo, pela sua própria cabeça. Era até dispensável a análise dos textos que os protestantes ingênuamente apresentam para querer justificar esta idéia louca do livre exame.

Mas, como nossos irmãos separados não são homens para quem poucas palavras bastem, será difícil encontrar um protestante que, mesmo diante dos fatos alegados (e contra fatos não há argumentos), não tente provar com textos das Escrituras extraordinàriamente ESPICHADOS (para que a conclusão seja maior do que as premissas), que o livre exame é mandado por Deus e aconselhado pela própria Bíblia.

Analisemos êste texto, por exemplo: Examinai as Escrituras, pois julgais ter nelas a vida eterna; e elas mesmas são as que dão testemunho de mim, mas vós não quereis vir a mim para terdes vida (João V-39 e 40). Aí vêem os protestantes uma ordem para todos os cristãos compulsarem a Bíblia afim de organizar individualmente a sua crença.

É preciso ver entretanto a quem, em que ocasião e por que motivo Jesus disse estas palavras, porque é velho costume dos protestantes, desde os tempos de Lutero, separar uma frase do seu contexto, para lhe dar um sentido que absolutamente não lhe compete.

A simples observação dêste final: mas vós não quereis vir a mim para terdes vida mostra claramente que foi a INCRÉDULOS, a homens que não queriam de forma alguma aceitar a doutrina de Cristo, não a todos os cristãos, como querem os protestantes, que Jesus dirigiu aquelas palavras. Senão, vejamos.

Observa-se, pela leitura de todo êste capítulo 5.º de S. João, que se trata de Jesus em luta contra os judeus obstinados. O capítulo começa com o milagre feito pelo Mestre na piscina probática (versos 1 a 9). Chega aos judeus a notícia do milagre realizado em dia de sábado e êles começam por causa disto a perseguição contra Jesus: Por esta causa perseguiam os judeus a Jesus, por Êle fazer estas coisas em dia de sábado (João V-16). Jesus lhes mostra que pode curar em dia de sábado, porque é igual ao Pai e por isto os judeus procuram matá-Lo: Mas Jesus lhes respondeu: Meu Pai até agora não cessa de obrar, e eu obro também incessantemente. Por isso, pois, procuravam os judeus com maior ânsia matá-Lo; porque não sómente quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu Pai, fazendo-se igual a Deus (João V-17 e 18).

O Divino Mestre então reafirma longamente a sua divindade (versos 19 a 30) e apela para 3 testemunhos a seu favor. Um é o testemunho de João Batista (versos 32 a 35). Depois diz que tem um testemunho ainda maior do que o do Precursor: são as suas próprias obras, são os seus grandes milagres. Da mesma forma que Êle dirá aos judeus mais tarde: Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creais; porém se eu as faço, e quando não queirais crer em mim, crede as minhas obras, para que conheçais e creais que o Pai está em mim e eu no Pai (João X-37 e 38), assim também Êle diz agora: As obras que meu Pai me deu que cumprisse, as mesmas obras que eu faço dão por mim testemunho de que meu Pai é quem me enviou (João V-36).

Finalmente, como último argumento, já que êles não querem acreditar no testemunho de João Batista, nem no valor demonstrativo dos milagres de Jesus, êles que são entendidos nas Escrituras leiam estas mesmas Escrituras e vejam se as profecias do Antigo Testamento (sim, é a estas predições do Velho Testamento que Cristo se refere, porquanto nenhum livro do Novo estava ainda escrito) leiam as profecias do Antigo Testamento e vejam se estas predições a respeito do Salvador Prometido não têm cabal e perfeito cumprimento em Jesus Cristo: Examinai as Escrituras (32) já que não credes em João, nem em minhas obras, mas credes nas Escrituras e julgais ter nelas a vida eterna: elas mesmas são as que dão testemunho de mim.

É um argumento ad hominem, isto é, bem apropriado para aquêles que o ouvem, é o mesmo argumento que a Igreja Católica pode aplicar aos protestantes: Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna e elas são as que dão testemunho de mim (Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei A MINHA IGREJA, e as. portas do inferno não prevalecerão contra ela — Mateus XVI-18. Se não ouvir A IGREJA tem-no por um gentio ou publicam) — Mateus XVIII-17. A IGREJA de Deus Vivo, voluna e firmamento da verdade — 1.ª Timóteo III-15. Não há senão um Senhor, UMA FÉ, um batismo — Efésios IV-5).

Trata-se, portanto, de um ARGUMENTO dirigido aos judeus que já conheciam as Escrituras e nelas se julgavam muito entendidos, mas se recusavam a aceitar a divindade de Jesus, argumento empregado, aliás, num tempo em que a Igreja ainda não estava definitivamente constituída; e não de um preceito ou de uma ordem para que todos os cristãos, mesmo os que são rudes e incapazes, saquem de uma Bíblia e procurem interpretá-la pela sua própria cabeça.

253. A ESCRITURA É ÚTIL.

Os protestantes alegam também o texto de S. Paulo a Timóteo: Tôda a Escritura divinamente inspirada É ÉTIL para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça, afim de que o homem de Deus seja perfeito, estando preparado para tôda a boa obra (2.ª Timóteo III-16 e 17).

Querer ver aí uma justificativa para o livre exame é falsear completamente o pensamento de S. Paulo.

Ninguém nega a imensa, a extraordinária utilidade da palavra de Deus, mas do fato de ser ela útil, digamos mesmo utilíssima, se segue que todos tenham capacidade para interpretá-la?

Há muitas coisas bastante úteis neste mundo que precisam ser bem manejadas para cumprirem a sua finalidade, e nas mãos de quem não sabe lidar com elas podem tornar-se não só inúteis, mas até perigosas. A espingarda é utilíssima para o caçador, mas se êste não tem pontaria e em vez de alvejar a caça se põe a alvejar os seus companheiros, de que lhe serve a espingarda? Utilíssimo, não há dúvida, é um automóvel; mas se um homem não sabe guiá-lo, sai sem direção e sem freio, derrubando muros, querendo subir pelas calçadas, atropelando aqui e acolá os transeuntes, pondo em perigo não só a própria vida, mas também a dos outros, de que lhe serve o automóvel? De grande utilidade é o jornal numa localidade; mas, se o seu redator se põe a levantar calúnias, a difundir notícias sem fundamento e a escrever disparates, de que serve êste jornal?

A Bíblia é um tesouro de valor inestimável, é a palavra de Deus eterna e infalível, mas os protestantes têm mostrado muito bem que não sabem manuseá-la; pois vivem entre si numa eterna discussão a respeito da SS.ma Trindade, da divindade de Jesus Cristo, da imortalidade da alma, da existência do inferno, do Batismo, da Eucaristia etc, etc, a Bíblia tem servido na mão dêles para encher o mundo de seitas e religiões diversas. Isto sem falar naqueles que vão buscar na Bíblia argumentos para defender a poligamia, como João de Leide e José Smith, ou vêem na frase: Sois deuses (Salmos LXXXI-6; João X-34) a prova de que existem muitos deuses e deusas ( !I), dos quais os principais são o Padre, o Filho e o Espírito Santo, como já têm usinado muitos daqueles que pertencem à seita dos Mormões.

A quem é que S. Paulo está aconselhando aí o manejar freqüentemente as Escrituras? Não é a um cristão qualquer, mas a Timóteo, bispo da Santa Igreja em Éfeso, um verdadeiro homem de Deus: Tu, ó homem de Deus (1.º -Timóteo VI-11), um ministro de Jesus Cristo (1.ª Timóteo IV-6) que recebeu a imposição das mãos do presbitério (1.ª Timóteo IV-14), a quem S. Paulo instruiu verbalmente: Guarda a forma das sãs palavras que me tens ouvido (2.ª Timóteo 1-13), a Timóteo que tem autoridade sare os fiéis não só para pregar, mas também para repreender, para corrigir: Aos que pecarem, repreende-os diante de todos (1.ª Timóteo V-20); Eu te esconjuro... que pregues a palavra, que instes a tempo e fora de tempo, que repreendas, rogues, admoestes com, tôda a paciência e doutrina (2.ª Timóteo IV-1 e 2) — e é por isto que S. Paulo diz que tôda a Escritura divinamente inspirada é ÚTIL para ENSINAR, para REPREENDER, para CORRIGIR, para INSTRUIR na justiça.

Não há nenhuma ligação, portanto, entre êste texto de S. Paulo a Timóteo e o desastroso livre exame que ensinou Martinho Lutero aos seus seguidores.

254. OS JUDEUS DE BERÉIA.

Outro texto que os protestantes costumam apresentar é o que se refere à pregação de S. Paulo feita aos judeus de Beréia.

Paulo tinha pregado aos judeus de Tessalônica, dos quais alguns se haviam convertido (Atos XVII-4), porém muitos outros se revoltaram, amotinando a cidade. Depois foi Paulo pregar aos judeus de Beréia, os quais, nàrram os Atos, eram mais generosos do que aquêles que se acham em Tessalônica, pois receberam a palavra com ansioso- desejo, indagando todos os dias nas Escrituras se estas coisas eram assim; de sorte que foram muitos dêles os que creram, e dos gentios muitas mulheres nobres e não poucos homens (Atos XVII-11 e 12).

A fértil imaginação dos protestantes vê logo aí nesta cena a prática do livre exame. S. Paulo pregando e os bereenses examinando nas Escrituras se é verdade o que êle diz; assim se estará recomendando o sistema protestante: cada qual com sua Bíblia para examiná-la e formular, por si próprio, sua doutrina, mesmo que seja contrária à doutrina da Igreja.

Esquecem-se apenas de uma coisa: quando aquêles ouvintes de Beréia faziam tal estudo nas Escrituras para conferir se era verdadeira ou não a doutrina de S. Paulo, êles ainda não eram cristãos, não eram convertidos, eram judeus. Judeus de boa vontade que, vendo como S. Paulo aludia freqüentemente às profecias do Velho Testamento afim de demonstrar o seu perfeito cumprimento na pessoa de Jesus Cristo, não fizeram como a maioria dos judeus de Tessalônica, os quais logo se revoltaram contra a pregação paulina, mas com muito gôsto foram estudar nas Escrituras para chegar a uma conclusão a respeito dos sermões que o Apóstolo lhes fazia. O resultado de tal investigação é que foram muitos dêles os que creram (Atos XVII-12). Aí não há absolutamente o livre exame para o crente; trata-se apenas do estudo que está fazendo o que ainda não crê, para saber se deve abraçar ou não a Religião Cristã.

Como os judeus ,de Beréia continuaram a agir depois de sua conversão é o que a Escritura não nos diz. Suponhamos, porém, que diante de tôdas as pregações de S. Paulo, êles, depois de crentes, se pusessem de Bíblia na mão, cada um de acôrdo com seu modo de ver, com sua pouca ou muita inteligência a discutir com S. Paulo a respeito dos ensinamentos que lhes eram ministrados. Concordam os protestantes com esta atitude? Não era esta anarquia uma desobediência a Cristo que mandou crer o que os Apóstolos ensinavam? Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a tôda a criatura, o que crer e fôr batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-15 e 16)? Pois a licença para esta desobediência é que seria o livre exame.

E àqueles cristãos judaizantes que podiam mostrar, com a Bíblia na mão, inúmeros textos em que Deus manda observar a lei de Moisés, o que é que dizia S. Paulo? Que êles podiam interpretar a Bíblia como bem entendessem? Não. Não havia nenhum texto da Bíblia que dissesse que a lei de Moisés tinha sido abolida; nem também o próprio Cristo o dissera em parte alguma. Mas a Igreja, magistério vivo e infalível, tinha definido, no Concílio de Jerusalém, certa de que esta era a mente de Cristo, que a lei de Moisés não obrigava mais. E o que S. Paulo dizia aos judaizantes era isto: Ainda quando nós mesmos ou um anjo do Céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos ternos anunciado, seja anátema (Gálatas 1-8).

255. EXAMINAI TUDO.

Finalmente vamos apreciar até onde se pode chegar com um versículo separado do seu contexto.

Lê-se isto em S. Paulo: Examinai, porém, tudo; abraçai o que é bom (1.° Tessalonicenses V-21). Os protestantes se lançam àvidamente sôbre êste texto para daí tirarem a seguinte conclusão: se S. Paulo manda EXAMINAR TUDO, os fiéis têm o direito de examinar os ensinos da Igreja, para então abraçarem o que é bom. E o meio que êles têm para examinarem os ensinos da Igreja é a Bíblia, a palavra de Deus infalível. Logo, aí se prega o livre exame.

— Primeiro que tudo: que eram os ensinos da Igreja Cristã nos seus primeiros dias, senão a pregação dos Apóstolos e, por conseqüência, os ensinos do próprio S. Paulo? Quer dizer que S. Paulo está dando aos fiéis o direito de submeterem os ensinamentos dêle ao seu próprio julgamento para só depois disto, depois de os submeterem à crítica, abraçarem o que êle diz? Será êste o mesmo S. Paulo que afirma que ainda aparecendo um anjo do Céu a pregar um evangelho diferente do que êle prega, êste próprio anjo é anátema (Gálatas I-8)? Será êste o mesmo S. Paulo que considera a fé um cativeiro da nossa inteligência: reduzindo a cativeiro todo o entendimento para que obedeça a Cristo (2.ª Coríntios X-5)? Será êste o mesmo S. Paulo que falando a êstes mesmos Tessalonicenses e exatamente nesta Epístola, afirma que a sua palavra é a própria palavra de Deus: ouvindo-nos, recebestes de nós outros a palavra de Deus, vós a recebestes, não como pavra de homens, mas (segundo é verdade) como palavra de Deus (1.ª Tessalonicenses II-13)? Será êste o mesmo S. Paulo que ordena a êstes mesmos Tessalonicenses: Estai firmes e conservai as tradições que aprendestes, ou de pala rra, ou por carta nossa (2.ª Tessalonicenses II-14)?

Se S. Paulo diz: Examinai, porém, TUDO; abraçai o que é bom no sentido em que o tomam os protestantes, então adeus autoridade da própria Bíblia, porque se TUDO deve ser examinado, entra neste rol o próprio Livro Sagrado, para só se abraçar nêle o que se julgar BOM para ser aceito. E não é isto exatamente o que têm feito muitos protestantes? Lutero pregou a doutrina de que o homem se justifica só pela fé; mas a Epístola de S. Tiago ensina que o homem se justifica também pelas obras (Tiago II-24). Que fêz Lutero? Como achou lá pelo seu modo de ver que não era BOM o ensino de S. Tiago, desprezou, pôs de lado a Epístola, meteu-lhe os pés, chamando-a com escárneo UMA VERDADEIRA EPÍSTOLA DE PALHA (Erlangen LXIII-15). São suas palavras textuais. Rejeitava também a epístola aos Hebreus, a de S. Judas e o Apocalipse, pois dizia não achar nestes livros o espírito evangélico e apostólico, punha-os em último lugar na sua versão, considerando-os como não canônicos. Alguns de seus partidários aumentaram a lista dos livros rejeitados com a 2.ª Epístola de S. Pedro, a 2.ª e a 3.ª de S. João. Calvino rejeitava a 2.ª e a 3.ª de S. João. Já Zuínglio implicava com o Apocalipse, que êle negava fôsse um livro canônico. Svedenborg, porém, pensava de modo diferente: para êle o cânon do Novo Testamento continha apenas os Evangelhos e o Apocalipse. Nos outros livros, êle não encontrou o sentido místico e angélico que, afirmava, deve haver em todos os versículos da Bíblia. Entre os que negam a divindade de Cristo, principalmente entre os Protestantes Liberais, são muitos os que rejeitam o Evangelho de S. João. E depois que apareceu o Protestantismo, começaram a aparecer os críticos que, de vez em quando, diante de um texto qualquer que êles estranham ou que não lhes agrada, se põem logo a afirmar que aquêle texto não é da Bíblia, mas foi depois acrescentado. Como se vê, a própria autoridade da Bíblia cai fragorosamente diante da interpretação protestante sôbre êste: EXAMINAI TUDO.

Mas o leitor já deve ter percebido uma coisa neste versículo: Examinai, PORÉM, tudo; abraçai o que é bom. O trecho tem um PORÉM. E êste PORÉM deve ser levado em conta, ou seja, a frase deve ser estudada no seu verdadeiro contexto: Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai, porém, tudo; abraçai o que é bom (1.ª Tessalonicenses V-19 a 21).

S. Paulo aí se refere àqueles dons e carismas que existiam como manifestações extraordinárias nos primeiros tempos da Igreja e dos quais nos fala na sua 1.ª Epístola aos Coríntios: A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito; porque a um pelo Espírito é dada a palavra de sabedoria; a outro, porém, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro a fé pelo mesmo Espírito, a outro a graça de curar as doenças em um mesmo Espírito; a outro a operação de milagres; a outro A PROFECIA; a outro o discernimento dos espíritos; a outro a variedade de línguas; a outro a interpretação das palavras. Mas tôdas estas coisas obra só um e o mesmo Espírito, repartindo a cada um como quer (1.ª Coríntios XII-7 a 11).

Não extingais o Espírito. É uma metonímia empregando a causa pelo efeito, pois é claro que ao- Espírito Santo ninguém pode extinguir: não extingais os dons, do Espírito Santo. Se alguém tem êstes dons e carismas, estas luzes e impulsos do Espírito Santo, deve ter todo o cuidado para não perdê-los pela incredulidade, pelas obras da carne, pelo amor das coisas mundanas, pelo espírito de malícia, pois o Espírito Santo é como uma lâmpada que abrasa e alumia e estas faltas podem apagar a sua luz dentro de nós. Não desprezeis as profecias. Examinai, porém, tudo; abraçai o que é bom. Entre êstes dons, como vimos há pouco, estava o da profecia. Mas acontece que ao lado dos profetas verdadeiramente iluminados pelo Divino Espírito, apareciam também profetas falsos, profetas loucos e desautorizados, que queriam apenas satisfazer à própria vaidade, pois nenhum dom tinham recebido de Deus. O fato de aparecerem tais pseudoprofetas não é motivo para se DESPREZAREM completamente as profecias. Apenas os fiéis devem estar de sobreaviso quando falam os profetas, para examinar se são coisas boas as que êles ensinam; e um dos critérios mais seguros para ver se tais discursos são bons e legítimos é ver se estão de acôrdo Com os ENSINOS RECEBIDOS DA JACA DOS APÓSTOLOS. Também na Epístola aos Coríntios, S. Paulo se mostra preocupado com esta discriminação entre os bons e os maus profetas e aponta como um meio prático para distingui-los fazer que um profeta seja julgado pelos outros profetas que são, segundo é de supor, os mais entendidos no assunto: Pelo que toca, porém, aos profetas, falem também só dous ou três, e OS MAIS julguem o que ouvirem (1.ª Coríntios XIV-29).

Trata-se, portanto, aqui no caso, de examinar se são bons ou não os profetas que aparecem nas reuniões cristãs, os quais podem ser realmente impulsionados pelo Espírito de Deus e podem ser, ao contrário, meros impostores. Não se trata absolutamente de examinar a doutrina ensinada pela Igreja, a doutrina que lhes ministravam os Apóstolos, pois quanto a esta não havia dúvida alguma; a palavra dêles era palavra de Deus.

No Antigo Testamento já se ensinavam alguns mistérios ou coisas que excedem a nossa capacidade de compreensão. Na revelação trazida por Jesus Cristo no Novo Testamento, aumenta consideràvelmente o número dêstes mistérios; há nela muitas coisas difíceis e às vêzes, mais do que isto, impossíveis de compreender. Como pode ser um só Deus e ao mesmo tempo três Pessoas? Como pode uma pessoa ser Deus e homem ao mesmo tempo? Como pode Jesus Cristo dar-nos a comer a sua carne (João VI-53)? Quais as profundas relações existentes entre A GRAÇA de Deus e a LIBERDADE do homem? entre a justiça de Deus e a sua misericórdia? Etc, etc. Não podia nunca S. Paulo mandar aos fiéis que examinassem de acôrdo com a sua razão, com o seu modo de ver e o seu entendimento, os ensinos da Igreja que estão, muitos dêles, bem acima da nossa inteligência.

E se já na Antiga Lei, quando a doutrina não versava estas questões assim tão complicadas, Deus dizia pela Sagrada Escritura: Os lábios do sacerdote serão os guardas da ciência e da sua bôca é que os mais buscarão a inteligência da lei, porque êle é o anjo do Senhor dos exércitos (Malaquias II-7) e Jesus ainda dizia tos judeus, antes de enviar os Apóstolos para exercer o ministério da pregação: Sôbre a cadeira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus: OBSERVAI, pois, e fazei tudo quanto êles vos disserem, porém não obreis segundo a prática de suas ações, porque dizem e não fazem (Mateus XXIII-2 e 3) — com maioria da razão na Nova Lei tem que haver pessoas idôneas para ensinar a verdade, com autoridade e firmeza: O que a vós ouve, a mim ouve; e o que a vós despreza, a mim despreza; e quem a mim despreza, despreza Aquêle que me enviou (Lucas X-16).

É o que veremos mais minuciosamente no Artigo seguinte:

ABRAÇAMOS A FÉ, NÃO PELO LIVRE EXAME, MAS PELA HUMILDE SUBMISSÃO À IGREJA

256. A POSIÇÃO CATÓLICA E A PROTESTANTE.

Chegamos assim ao final da controvérsia: livre exame ou sujeição à autoridade da Igreja?

Para melhor coordenarmos as nossas idéias e apreciarmos como Jesus Cristo e a Escritura Sagrada resolvem esta questão, será bom relembrarmos os dois pontos de vista: o católico e o protestante.

Os protestantes são de opinião que a única regra de fé é a Bíblia. Os fiéis tomam contacto com ela, lêem-na porque ela é a palavra de Deus infalível e lendo-a, não precisam mais de ouvir a ninguém para conhecer a verdadeira doutrina do Evangelho. Desde que têm em casa a palavra de Deus, não precisam de submeter-se ao ensino da Igreja, uma vez que êles mesmos podem interpretar o texto sagrado. Para isto convém pedir as luzes do Espírito Santo.

Segundo os católicos, a Bíblia é, sem dúvida alguma, regra de fé, porque é a palavra de Deus; mas nem sempre é fácil acertar com o verdadeiro sentido daquilo que ela nos ensina: há outra regra de fé, que é o ensino da Igreja. Não há nem pode haver contradição entre uma e outra; ambas são infalíveis: se a Bíblia é a palavra de Deus escrita, a Igreja é uma obra de Deus que a deixou neste mundo especialmente para êste fim: para ensinar a verdade, portanto Deus zela por ela de modo especial para que atravesse todos os séculos sempre preservada do êrro. Passará o Céu e a terra, mas não passarão as palavras de Cristo (Mateus XXIV-35), o qual garantiu que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18). Portanto, no meio da confusão que resulta das diversas e contraditórias interpretações que há em tôrno da Bíblia, o católico tem que seguir a verdadeira interpretação que é aquela que a Igreja lhe ensina, orientando-o nesta matéria. E, para que uma verdade seja de fé, não é necessário que esteja explicitamente ensinada na Bíblia, a qual não se apresenta como uma exposição completa e sistemática da doutrina, com o fim de resolver, por si só, tôdas as questões de teologia, nem também afirma em parte alguma que só SEJA VERDADE AQUILO QUE NELA SE CONTEM. (33) Não estar explicitamente na Bíblia e ser contrário ao ensino da Bíblia são duas coisas muito diferentes. Os próprios protestantes têm como verdade certíssima 4 fé que tais e tais livros são inspirados e fazem parte da Escritura; ora, isto não consta do texto sagrado, o qual não faz a enumeração dos livros canônicos. Entretanto, é êste um ponto fundamental para a Religião Cristã e é nisto que se baseia todo o Protestantismo. E tôda a sua indignação contra a Igreja Católica porque esta ensina algumas coisas de que a Bíblia não fala diretamente, êles bem a poderiam guardar para todos os erros, dentro do Protestantismo, que são aberta e escandalosamente contrários ao ensino bíblico.

O que não está explicitamente na Bíblia pode ser uma conclusão lógica daquilo que o livro sagrado nos ensina ou pode estar contido no DEPÓSITO DA FE, que a Igreja recebeu desde o princípio pela pregação dos Apóstolos e guarda com muita firmeza e segurança, apesar de tôdas as oposições da heresia.

De modo que, segundo os católicos, o meio de propagar-se a doutrina é a pregação daquilo que ensina o magistério vivo e infalível da Igreja; segundo os protestantes, é a difusão da Bíblia, posta nas mãos de todos, para que a possam ler e interpretar.

E assim o protestante, por mais rude e ignorante que seja, é sempre UM INTÉRPRETE DA BÍBLIA, que, sozinho ou ajudado pelo seu pastor e pelos seus companheiros de denominação, vai tomar a si a grande tarefa de organizar, no meio de todos aquêles textos esparsos da Bíblia, o seu Credo, a doutrina que deve professar. Nada aceita como definitivo em matéria de doutrina, quer ver pelos seus próprios olhos, e decidir pelo seu próprio julgamento (livre exame) na Bíblia e só na Bíblia qual é a verdadeira doutrina católica, mesmo que SEJA O MAIS SÁBIO E ERUDITA 4 INTÉRPRETE DA BÍBLIA, se submete ao ensino da Igreja, certo e confiante de que esta não pode errar; discute livremente e tem opiniões próprias naquilo que não é de fé definida, que, portanto, a Igreja deixa à sua liberdade; acha que é verdade infalível não só aquilo que está na Bíblia, mas também aquilo que a Igreja ensina instruída desde o princípio pela pregação dos Apóstolos e não se considera mais do que um soldado dêste imenso e incalculável exército de cristãos que, desde 2.000 anos, têm passado neste mundo, submissos disciplinadamente em matéria de fé a esta Igreja que Deus pôs aqui na terra para ser a coluna e firmamento da verdade (1.ª Timóteo III-15).

católico e o protestante crêem na Bíblia e querem seguir a doutrina de Jesus; a diferença que há entre um e outro está em matéria de confiança. Confiança na Igreja, a qual não tem o protestante, pois vê na Igreja apenas uma sociedade que, sendo dirigida por homens (e homens sempre estão sujeitos a erros) não pode, a seu ver, apresentar-se assim com esta firmeza absoluta. Confiança na Igreja, a qual possui o católico que desde os primeiros séculos vem dizendo: Creio na Santa Igreja Católica, na qual êle não vê só uma sociedade dirigida por homens, mas também sempre encaminhada por Deus que a fundou, garantida pela perpétua assistência que Jesus lhe prometeu. Todo homem está sujeito a êrro, até mesmo o Papa; mas Deus não permite que um homem consiga induzir a Igreja a cair em êrro, por meio de uma definição ex-cátedra, pois as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18); e o Papa é, como sucessor de S. Pedro, a pedra sôbre a qual repousa, segundo os desígnios divinos, a solidez da Igreja.

A desconfiança na Igreja aumenta sempre que se vêem homens, desde os tempos de Judas e de S. Pedro (dos quais um fracassou definitivamente e o outro se ergueu logo após a sua queda) apesar de elevados a altos cargos, pagarem o seu tributo à fraqueza e à miséria humanas, mas aumenta sem motivo, porque uma coisa é a fragilidade do homem que é livre e inclinado ao pecado por sua natureza, e outra coisa é a firmeza da Igreja que é obra de Deus edificada sôbre uma rocha inexpugnável. Esta desconfiança para com a Igreja aumentou, sem razão de ser, em alguns espíritos, depois que Lutero e Calvino propagaram no mundo, com o livre exame, um sistema de interpretação da Bíblia faccioso e sem escrúpulos: separar as palavras do contexto, para dar-lhes outro sentido, apegar-se a uns textos desprezando outros, inventar um sentido figurado onde a palavra se toma ao pé da letra, torcer as palavras da Bíblia por meio de sofismas para dar-lhes um sentido bem diverso etc. Esperamos que ao terminar o nosso livro, possa o leitor fazer um confronto mais seguro entre a serena e desapaixonada interpretação católica (a qual vem desde o princípio) e os processos comumente usados na inovadora interpretação protestante.

Como dizíamos, a diferença entre o católico e o protestante está em matéria de confiança. Confiança em si mesmo, em seu próprio raciocínio, em sua própria capacidade e inteligência, a qual o protestante tem MUITA, e é por isto que vive metido numa eterna divergência e discussão. Confiança em si mesmo, que o católico tem MUITO POUCA, pois vendo como a razão humana até nos grandes sábios e filósofos, tem sido tão sujeita a ilusões, absurdos e desatinos, acha que nesta matéria de fé, nesta perscrutação dos MISTÉRIOS de Deus e da sua Religião, o que resolve não são própriamente as discussões em que cada um dos contendores se julga bem firme, bem seguro na sua própria interpretação, por mais extravagante que ela seja; o que resolve é a humilde e confiante aceitação por parte da nossa inteligência, é a nossa submissão a Deus e àqueles que por Deus são realmente autorizados para nos exporem a sua doutrina: Em verdade vos digo que todo o que não receber o reino de Deus COMO PEQUENINO não entrará nêle (Marcos X-15).

257. A ÚLTIMA PALAVRA.

Assim delineados os dois campos diversos: livre exame ou humilde sujeição à Igreja Católica, já tivemos ocasião de mostrar no decorrer de todo êste capítulo como o livre exame feito por todos os cristãos num livro tão difícil como é a Bíblia, não só em teoria já se apresenta como impraticável, mas também na prática tem produzido os mais funestos resultados. Cada um se aferra à sua própria opinião. E o efeito é esta confusão inqualificável que reina na Religião Protestante: uma escandalosa multiplicidade de seitas, professando as doutrinas mais diversas, ressuscitando tôdas as antigas heresias e lançando lamentàvelmente o descrédito sôbre o Cristianismo.

Resta-nos agora a última palavra sôbre o assunto e quem no-la vai dar é o próprio Jesus Cristo ordenando o que se deve fazer na aquisição da fé; é a própria Escritura Sagrada descrevendo, como palavra de Deus infalível, de que modo funcionava a Igreja Primitiva.

É claro que os protestantes querem seguir a Religião nos moldes em que Jesus Cristo a organizou; ou não é verdade? É claro que todos os protestantes bradam que querem reconduzir o Cristianismo à pureza de seus primeiros dias.

Agora vamos investigar esta questão: Como Jesus Cristo organizou a sua Igreja? Fêz dela um rebanho de homens todos munidos da Bíblia, da palavra de Deus escrita e procurando cada um interpretá-la segundo a sua maior ou menor capacidade; ou fêz um rebanho de homens todos aceitando humildemente, integralmente a doutrina que lhes apresentavam os pregadores devidamente autorizados que Êle, Jesus, enviou para a evangelização do mundo? Como recebiam e conservavam a fé os cristãos primitivos, de que nos falam as Epístolas e os Atos dos Apóstolos? Era cada um com a Bíblia na mão a lê-la para interpretá-la; ou cada um ouvindo a pregação dos Apóstolos e aceitando totalmente o ensino que a Igreja, por meio dos Apóstolos, lhes ministrava? É o que veremos em seguida.

258. QUE ESCREVEU JESUS CRISTO?

Antes de tudo, se Jesus Cristo quisesse organizar a sua Igreja de acôrdo com o sistema protestante: cada fiel com sua Bíblia para assim receber diretamente a palavra de Deus, qual deveria ter sido o seu primeiro cuidado?

Escrever o seu Evangelho. Escreveria primeiro (e que belo e sábio livro não poderia ter redigido!), entregaria o seu livro aos Apóstolos e mandaria propagá-lo.

Entretanto, Jesus não escreveu livro nenhum; não escreveu nenhuma carta, nem uma palavra sequer. A única ocasião em que o Evangelho nos apresenta Jesus escrevendo é no episódio do julgamento da adúltera: Jesus, abaixando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra (João VIII-6). Escreveu na terra com o dedo; aquilo se apagou bem depressa e, por maior que seja a nossa curiosidade a êste respeito, não podemos satisfazê-la.

Nada melhor para os intérpretes da Bíblia que seriam, na hipótese, todos os cristãos, do que um livro escrito pelo próprio punho da Sabedoria Infinita.

259. NENHUMA ORDEM PARA ESCREVER.

Se fôsse a palavra escrita o meio de propagação do Cristianismo e sua única regra de fé, Jesus, não tendo escrito livro algum, deveria pelo menos dar uma ordem aos Apóstolos para que escrevessem. Nenhum mandamento fêz Jesus Cristo neste sentido.

Os Apóstolos é que espontâneamente, sem a isto serem obrigados pelo Divino Mestre, tomaram por um ou por outro motivo, a iniciativa de escrever, iniciativa que foi tomada também por homens que não eram Apóstolos, como os 2 evangelistas Marcos e Lucas. Nem todos os Apóstolos escreveram, mas somente 5 (6 com S. Paulo): S. Mateus, S. João, S. Paulo, S. Pedro, S. Judas e S. Tiago. E é digno de nota quão pouco escreveu S. Pedro que, vemos pelos Atos, teve par, Ê tão saliente na pregação do Evangelho, como O PRIMEIRO (Mateus X-2) que era dos Apóstolos.

Nenhum dos livros da Bíblia foi redigido com esta intenção de pôr nas mãos de todos os fiéis uma exposição completa da doutrina, para que a lessem e interpretassem; mas todos foram escritos ocasionalmente, sob o influxo de uma circunstância qualquer.

S. Mateus, antes de partir para longe a fazer a sua evangelização, quer deixar por escrito aos judeus, seus compatriotas, o Evangelho escrito na língua dêles, afim de suprir assim a sua ausência; é o que nos afirma o historiador Eusébio de Cesaréia. S. Marcos, que era companheiro de S. Pedro, resolve consignar em escrito a catequese do Apóstolo, para que seus ouvintes possam gravá-la melhor. S. Lucas se dirige no comêço do seu Evangelho a um cristão excelente, Teófilo, a quem quer melhor instruir e confirmar na fé: Pois que foram na verdade muitos os que empreenderam pôr em ordem a narração das coisas que entre nós se viram cumpridas... pareceu-me também a mim, EXCELENTÍSSIMO TEÓFILO, depois de me haver diligentemente informado de como tôdas elas passaram desde o princípio, dar-te por escrito a série delas, para que conheças a verdade daquelas coisas em que tens sido instruído (Lucas I-1 e 3). S. João já escreve o seu Evangelho muito depois dos outros, com o fim de mostrar que Jesus é o Cristo, Filho de Deus (João XX-31), porque as heresias, principalmente a de Cerinto, já começam a perturbar o povo cristão, como se nota claramente na sua 1.° Epístola (IV-1 a 6). As Epístolas foram tôdas escritas eventualmente, de acôrdo com as necessidades do momento.

260. PREGAI O EVANGELHO.

  • Como mandou Jesus Cristo propagar a sua Religião? Mandou que os Apóstolos saíssem pelo mundo afora espalhando Bíblias, para que os fiéis as lessem e interpretassem?

Absolutamente não. Jesus ordenou aos Apóstolos que pregassem, que ensinassem a doutrina cristã. E para isto é que os havia escolhido, ministrando-lhes conhecimentos especiais que aos outros não eram concedidos: A vós outros vos é dado saber os mistérios do reino dos Céus, mas a êles não lhes é concedido (Mateus XIII-11). Para isto os tinha feito iluminar com a abundância das luzes do Espírito Santo: Recebereis a virtude do Espírito Santo, que descerá sôbre vós e me sereis testemunhas em Jerusalém, e em tôda a Judéia e Samaria, e até às extremidades da terra (Atos 1-8).

E mandou-os pregar, não como quem vai expor uma doutrina que os fiéis examinam e aceitam se quiserem, mas pregar com absoluta firmeza e autoridade. Assim como dissera que quem crê n21e se salva, quem não crê se condena, o mesmo disse a respeito dos Apóstolos: Ide por todo mundo; pregai o Evangelho a tôda a criatura; o que crer e fôr batizado será salvo; o que, porém, não crer, será condenado (Marcos XVI-15 16).

Duas observações temos a fazer a respeito dêste trecho.

Uma é sôbre o sentido da palavra EVANGELHO. Já estamos bem acostumados a ver o padre católico ou o pastor protes4ante tomar um pequeno trecho dos Evangelhos de S. Mateus, de S. Marcos, de S. Lucas ou de S. João e depois explicá-lo ao povo. Esta ação nós costumamos chamar a pregação do Evangelho. Por isto, quando lemos esta frase de Jesus dita aos seus Apóstolos: Pregai o Evangelho a tôda a criatura podemos talvez cair na ingenuidade de pensar que cada Apóstolo estava munido de um livro chamado o Evangelho para lê-lo e explicá-lo aos fiéis. Mas no momento em que Jesus disse aquelas palavras nenhum livro do Novo Testamento estava ainda escrito. Chama-se Evangelho, primeiro que tudo, a doutrina que Jesus nos ensinou, pois Evangelho quer dizer boa nova e foi uma boa nova de fato a doutrina de salvação que Êle nos veio revelar. Ora, os 4 primeiros livros do Novo Testamento, simplesmente porque narrando a vida de Jesus traziam também (e ainda mais diretamente do que os outros) a sua doutrina, por isto tomaram o nome de Evangelho. Logo que Jesus começou a sua pregação, começou a chamar Evangelho a doutrina que ensinava: Veio Jesus para Galiléia, pregando o Evangelho do reino de Deus e dizendo: Pois que o tempo está cumprido e se apropinquou o reino de Deus, fazei penitência e crede no EVANGELHO (Marcos 1-14 e 15). Pregar o Evangelho é pregar a doutrina de Jesus, mesmo que não se leia, nem se tenha à mão nenhum livro do Novo Testamento, como de fato não tinham os Apóstolos naqueles primeiros anos de sua pregação.

A outra observação será um esclarecimento para muitas pessoas que naturalmente dirão: Não posso conceber isto. Como Jesus manda uns homens pregar e obriga os ouvintes a acreditarem na palavra dêles sob pena de irem para o inferno? Se são homens, não podem errar? E os Apóstolos não tinham errado tanto durante a vida do Divino Mestre? Mesmo que êles não pudessem errar, como podiam os ouvintes estar certos desta sua inerrância?

— Os Apóstolos erraram muito, mostraram rudeza e ignorância até momento em que receberam a abundância das luzes do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Dessa hora em diante, a coisa mudou por completo. Êles se tornaram pessoalmente infalíveis, iluminados como eram pelo Espírito de Deus. Isto era necessário, porque tinham de sair pelo mundo, cada qual por seu lado, lançando as bases doutrinárias da verdadeira Igreja, a qual havia de firmar-se perpètuamente na sua pregação e é por isto que S. Paulo diz que os fiéis são edificados sôbre o FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS e dos profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular (Efésios II-20); sim, porque de Jesus Cristo é que os Apóstolos haviam recebido a sua doutrina; e era em Jesus Cristo que as profecias se tinham realizado.

Como vêem os protestantes, embora fôssem HOMENS os Apóstolos, tinha que haver nêles pessoalmente uma INFALIBILIDADE, porque do contrário desapareceria tôda a firmeza doutrinária da Igreja. Entregar ao povo uma palavra escrita infalível e não fazer infalíveis pessoalmente os Apóstolos não resolveria a questão: surgiria sempre o problema daqueles que por ignorância não entendem esta palavra e assim, sem querer, deixam de interpretá-la convenientemente, ou que por malícia a adulteram com sofismas para acomodá-la a seus pontos de vista pessoais e assim é mesmo de propósito que a interpretam mal.

O livro é, como já se disse, um mestre mudoi êle ensina, é mestre; mas, quando não entendemos bem o que nêle nos é ensinado, o mestre-livro não fala para nos explicar o seu verdadeiro sentido. Máxime, é claro, tratando-se de um livro de tão difícil interpretação, como é a Bíblia. Já o filósofo Platão que viveu 5 séculos antes de Cristo e que, portanto, é insuspeito para nos dar uma opinião a respeito da controvérsia existente entre os católicos e os protestantes, dizia a respeito da insuficiência do livro para nos ministrar um ensino completo: "Interroga cem vêzes o livro; êle dará sempre a mesma resposta, adulterado do mesmo modo pelos ignorantes e pelos sofistas, não só pela petulância dêstes como pela estupidez daqueles, nem se livrará de tais injúrias, A NÃO SER QUE O AUTOR DO LIVRO APAREÇA E DE VIVA VOZ DETERMINE O VERDADEIRO SENTIDO" (Fedro; n.º 60). Até parece que Platão conheceu os protestantes, mas não era preciso; sempre foi assim em todos os tempos; porque, por exemplo, em tôdas as nações se fazem leis, porém, por mais claras e compreensíveis que elas sejam, nunca se deu a qualquer pessoa o direito de interpretá-las.

De modo que os Apóstolos eram infalíveis e por isto se podia exigir que os fiéis nêles acreditassem. Mas como podiam os fiéis ter a evidência de que era certa a doutrina pregada pelos Apóstolos?

Muito simples. Como Jesus Cristo provava que era do Céu a sua doutrina? Pelos milagres que fazia. Assim também os Apóstolos. Realizavam êles tantos prodígios, a Igreja nos primeiros dias aparecia com tantos carismas, com tantas manifestações extraordinárias (lembremos, por exemplo, a palavra de S. Paulo: as línguas são para sinal, não aos fiéis, mas aos infiéis — Coríntios XIV-22) que aquêles que não acreditassem eram da mesma raça dos judeus obstinados, os quais rejeitaram a Cristo, apesar de seus grandes milagres, apesar de sua estrondosa Ressurreição: mostravam assim tanta teimosia, tanta dureza de coração que bem mereciam a condenação eterna.

261. O ENSINO DA IGREJA NOS NOSSOS DIAS.

Dirá o protestante: Concordo com tudo isto. Mas e agora? Os pregadores da Igreja Católica, como provam que é infalível a sua doutrina? Acaso também há para êles uma descida extraordinária dó Espírito Santo, como houve outrora no dia de Pentecostes? Que milagres realizam para provar que é verdadeira a doutrina católica?

— Uma vez propagada A IGREJA pelos 12 Apóstolos e evidenciado perante todos que ela era obra de Deus e verdadeira a sua doutrina, não era mais preciso que cada pregador fôsse pessoalmente infalível ou tivesse recebido o Espírito Santo com a mesma profusão com que a receberam os Apóstolos no dia de Pentecostes, nem era mais preciso que a pregação cristã continuasse até o fim do mundo acompanhando-se de milagres para poder convencer. Milagres que se dessem continuamente e em todos os tempos já deixariam de ser milagres (porque milagre é por sua natureza um fato extraordinário) e assim já deixariam de impressionar e comover. A Ressurreição de Jesus, todos os milagres por Êle realizados bem como todos os prodígios efetuados pelos Apóstolos continuam a ser para nós um motivo que nos impele à fé, p que, se não os vemos com os nossos próprios olhos, pelo menos são fados históricos comprovados, dos quais não podemos duvidar.

O que era necessário depois da época dos Apóstolos era que os pregadores ensinassem exatamente a doutrina da Igreja Cristã que, como vimos, logo nos inícios de sua existência se começou a chamar também IGREJA CATÓLICA (n.ç 167). O que era necessário era que a Igreja fôsse fiel em conservar até o fim a mesma doutrina apostólica, porque esta doutrina já estava evidentemente demonstrada como sendo a própria doutrina de Deus.

Para a Igreja conservar fielmente, integralmente a doutrina recebida, era preciso, isto sim, que Deus velasse sôbre ela com uma especialíssima proteção.

Cristo não prometeu a cada um dos fiéis a assistência do Espírito Santo para bem entenderem as Sagradas Letras, daí extraindo a verdadeira doutrina; o Protestantismo quer que seja assim, mas é o próprio Protestantismo que se encarrega de desmenti-lo, pois todos os protestantes se julgam iluminados pelo Espírito Santo na leitura da Bíblia, mas as suas interpretações são as mais diversas e as mais diparatadas, o que é sinal de que o Espírito Santo não intervém de forma alguma nessas interpretações privadas, pois o Espírito Santo não é espírito de contradição.

Quando Jesus Cristo promete o Espírito Santo aos simples fiéis (O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre correrão rios de água viva: Isto, porém, dizia Êle falando do Espírito que haviam de receber os que cressem nÊle — João VII-38 e 39) refere-se a um dom especial de SANTIFICAÇÃO que haviam de receber aquêles que recebessem convenientemente o Batismo (Fazei penitência, e cada um de vós seja BATIZADO em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados; e recebereis o DOM DO ESPÍRITO SANTO — Atos II-38). A alma santificada pelo Batismo torna-se um templo do Espírito Santo (1.ª Coríntios VI-19), enquanto não O expulsar pelo pecado mortal.

Mas esta presença do Espírito Santo na alma pela graça é uma coisa; e a assistência do Espírito Santo para ENSINAR, no meio de tantos erros, a verdadeira doutrina, é outra coisa bem diversa. Não foi aos simples fiéis que Jesus Cristo disse: Ide, ensinai. A sua função é aprender. E se quer o fiel conservar-se neste estado de graça, é preciso que se mostre submisso à Igreja, aos legítimos enviados de Cristo, a quem Êste disse: O que a vós ouve, a mim ouve; e o que a vós despreza a mim despreza (Lucas X-16) pois se não ouvir a Igreja, tem-no por um gentio ou um publicano (Mateus XVIII-17). (34)

Urna assistência especial para ENSINAR a verdadeira doutrina é prometida por Cristo, sim, aos Apóstolos e seus sucessores, pois Jesus promete velar especialmente ATÉ O FIM Do MUNDO pela sua Igreja, isto é, por aquêles que a dirigem, que nela têm o poder de instruir e encaminhar e santificar os fiéis: Ide, pois, e ENSINAI tôdas as gentes, batizando-as em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tôdas as coisas que vos tenho mandado. E estai certos de que EU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS, ATÉ A CONSUMAÇÃO DO SÉCULO (Mateus XXVIII-19 e 20).

Será inútil querer fazer confusão a respeito destas palavras: CONSUMAÇÃO DO SÉCULO, as quais significam fim do mundo. Consumação quer dizer fim; e século (no grego AIÓN) quer dizer mundo: Não vos conformeis com êste SÉCULO, (Romanos XII-2). Os filhos dêste SÉCULO são mais sábios na sua geração que os filhos da luz (Lucas XVI-8). Os filhos dêste SÉCULO casam homens com mulheres, e mulheres com homens; mas os que forem julgados dignos daquele SÉCULO e da ressurreição dos mortos, nem os homens desposarão mulheres; nem as mulheres, homens; porque não poderão jamais morrer (Lucas XX-34 a 36). Falamos da sabedoria; não, porém, da sabedoria dêste SÉCULO, nem da dos príncipes dêste SÉCULO que são destruidos (1.° Coríntios II-6).

A expressão que corresponde no grego a esta CONSUMAÇÃO DO SÉCULO é SYNTÉLEIA TÓU AIÓNOS, a qual fora desta frase que ora comentamos, só aparece quatro vêzes no Novo Testamento e em tôdas elas indica o fim do mundo. Referindo-se à mistura do trigo e da cizânia que serão separados no juízo final, Jesus Cristo diz: O inimigo que a semeou é o diabo; o tempo da ceifa é o FIM DO MUNDO; e os segadores são os anjos (Mateus XIII-39). Assim como é colhida a cizânia e queimada no fogo, assim acontecerá no FIM DO MUNDO (Mateus XIII-40). Assim será no FIM DO MUNDO: sairão os anjos e separarão os maus dentre os justos (Mateus XIII-49). E em outra ocasião estando Êle assentado no monte das Oliveiras, se chegaram a Êle seus discípulos à puridade, perguntando-Lhe: Dize-nos quando sucederão estas coisas? e que sinal haverá da tua vinda e da CONSUMAÇÃO Do SÉCULO? (Mateus XXIV-3).

Nestes quatro trechos acima citados, as expressões FIM DO MUNDO e CONSUMAÇÃO DO SÉCULO São a tradução do grego SYNTÉLEIA TÓU AIÓNOS expressão que não aparece mais no Novo Testamento. E no nosso caso, o contexto mostra muito bem que se trata de uma assistência prometida até o fim do mundo; pois Jesus manda ENSINAR TÔDAS AS GENTES. Os Apóstolos haveriam de morrer dentro, de alguns anos e eram apenas doze homens; a missão de espalhar o Evangelho por tôda a terra, para que todos os homens cheguem a ter o conhecimento da verdade (1.ª Timóteo II-4) não podia ser realizada somente por êles, tanto mais que muitos povos não tinham sido descobertos ainda, os da América por exemplo; havia esta obra de ser continuada pelos seus sucessores. E é para esta obra de ENSINAR que Jesus promete a sua assistência até o fim do mundo. Êle promete assim velar especialmente pela IGREJA DOCENTE, para que ela cumpra com proficiência a missão altíssima que lhe foi confiada.

E a constância, a firmeza com que a Igreja Católica vem conservando a sua doutrina através de 20 séculos, apesar de lutar contra heresias tão diversas, a admirável vitalidade que ostra a Igreja entre homens de raças, de línguas, de condições, de tempos, de costumes tão diferentes, mantendo sempre todos entrelaçados pela UNIDADE DA FÉ, tudo isto se nos apresenta como um verdadeiro milagre, evidenciando nela uma proteção especialíssima de Deus, num contraste impressionante com a tremenda anarquia doutrinária que se nota no seio do Protestantismo, com 15 séculos a menos de existência.

Assim a história da Igreja Católica é, tôda ela, um grande milagre, pois foi um milagre a sua rápida propagação, foi um milagre a constância extraordinária dos mártires, como o é também o modo como ela supera tôdas as oposições, tôdas as heresias, tôdas as crises internas e externas.

E, por falar em milagres, um dos meios pelos quais se tem manifestado a assistência especial, de Cristo à sua Igreja, são os milagres que em todos os tempos néla se têm verificado. Não há dúvida que êles não podem ser freqüentes como eram nos tempos primitivos. Não há dúvida que há o milagre verdadeiro e o milagre só aparente; e a Igreja, com a sua larga experiência, se mostra sempre muito cautelosa, muito desconfiada nesta matéria. Mas que se dão no seio da Igreja muitos milagres autênticos e indiscutíveis, não há dúvida alguma. Nenhum santo pode ser canonizado, sem que se provem pelo menos 5 milagres autênticos, averiguados, depois de exame rigorosíssimo, com tôda a precisão científica. E para não falarmos em Fátima, que é mais recente, embora não menos gloriosa, LURDES na França, onde se têm aboletado os médicos mais obstinados e mais incrédulos, desejosos mesmo de desmentir os milagres e que findam sempre confessando não haver explicação natural para aquêles prodígios, LURDES, onde tantos protestantes têm encontrado afinal a verdadeira fé, é uma prova de que Deus continua a prestigiar a sua legítima Igreja, a Igreja Católica com a prova dos milagres. E neste particular a posição dos protestantes é realmente muito esquerda: sabem que os milagres são possíveis, que Jesus Cristo recorreu freqüentemente a êles para mostrar a divindade de sua Religião; sabem muito bem quanto seria útil e conveniente como uma amostra ao mundo de hoje, tão batido pela irreligiosidade e pela descrença, a realização de prodígios do Céu, para prestigiar a verdadeira doutrina de Jesus, porque a Bíblia não diz em parte alguma que Deus esteja proibido de fazer milagres nos tempos atuais. No entanto, ao passo que em favor da, sua NOVA DOUTRINA que começaram a pregar no século XVI, não apresentam um só milagre sequer, se vêem forçados a negar obstinadamente uma grande quantidade de milagres historicamente comprovados, patentes aos olhos de todos, que militam em confirmação da Igreja Católica. Tôda a sua segurança repousa apenas na interpretação pessoal que dão aos textos da Bíblia; interpretação bem diversa daquela que desde 15 séculos os mais sábios intérpretes vinham dando, quando êles apareceram; interpretação que nada tem de segura, porque êles próprios são os primeiros a discuti-la em todos os pontos.

De maneira que vemos, pelo modo como Jesus organizou a sua Igreja e mandou propagá-la, que Êle não a fundou como uma Sociedade Bíblica, encarregada de imprimir e espalhar Bíblias por tôda a parte, para cada um ler e interpretar à sua vontade. Nosso Senhor fêz dela uma sociedade em que há uns que ensinam e são os Apóstolos e seus sucessores -(Ide, pois, e ensinai tôdas gentes) e outros qiile aprendem. E êste ensino é dado pela pregação oral, pregação feita, aliás, somente por aquêles que estão legitimamente autorizados para isto, por aquêles que são de fato ENVIADOS para êste fim:: Como invocarão, pois, Aquêle em quem não creram? Ou como crerão àquele que NÃO OUVIRAM? E como ouvirão sem PREGADOR? Porém como pregarão êles, se não forem ENVIADOS?… Logo a fé é pelo OUVIDO; e o ouvido pela palavra de Cristo (Romanos X-14 e 15; 17).

E esta pregação, êste ensino não são feitos apenas como um esclarecimento para o fiel melhor se orientar na sua interpretação privada da Bíblia, ficando êste fiel com a liberdade de organizar a doutrina à sua vontade. São feitos com absoluta autoridade, de modo que os fiéis são obrigados a crer naquilo que lhes é ensinado pela verdadeira Igreja: O que crer e fôr batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-16).

262. A PREGAÇÃO CATÓLICA E A PROTESTANTE.

Aí se vê a profunda diferença que existe entre a pregação católica e a pregação protestante. O pregador católico pode dizer aos seus ouvintes: Eu prego a palavra de Deus e quem não crer está no caminho da condenação, porque a doutrina que prego não é minha, não venho aqui expor uma opinião, uma interpretação pessoal venho expor a doutrina da verdadeira Igreja, a qual VEM DO PRINCÍPIO, DO TEMPO DOS APÓSTOLOS, a qual sempre foi a mesma, porque a Igreja nunca mudou nem mudará, a qual é a mesma aqui e na Europa, e nos Estados Unidos, e na África, e na China e em tôda a parte, porque a doutrina de Deus é UMA só.

Ora, um pastor protestante já não pode falar aos seus fiéis com igual firmeza. Como pode obrigar os outros a crer o que êle ensina, se é partidário do livre exame e sobe ao púlpito para expor os seus PONTOS DE VISTA PESSOAIS sôbre a Sagrada Escritura, diante de fiéis que são autorizados pela sua própria Religião a terem lá os seus pontos de vista pessoais também? Como pode obrigar os fiéis a crer no que êle diz, se há também muitos outros pastôres protestantes que ensinam doutrinas bem diversas da sua?

263. UTILIDADE DA ESCRITURA.

A fé vem pelo ouvido. A base de sua pregação é o ensino oral. Mas daí não se segue que a Escritura seja inútil. Tôda a Escritura divinamente inspirada É ÚTIL (2.ª Timóteo III-16). Não há dúvida alguma, é utilíssima. Sem o Novo Testamento, como poderia a Igreja Católica mostrar aos hereges de todos os tempos, e especialmente aos protestantes, a sua instituição divina, as bases em que se firma a sua autoridade? A Bíblia é um imenso tesouro de sabedoria, onde a Igreja sempre foi buscar, na palavra de Deus escrita, têrmos precisos e bem adequados para ilustrar a pregação das verdades eternas. Ela serve para consolidar o ensino tradicional da Igreja.

Mas dizer-se que ela é indispensável a todo cristão, no sentido de que cada um PARA TER A VERDADEIRA FÉ, precisa ter, nas suas mãos, o Livro Sagrado, para dêle se improvisar em SÁBIO E ENTUSIASMADO INTÉRPRETE, isto já é uma coisa muito diversa. A própria história da Igreja e da Humanidade desautoriza esta pretensão.

Os ensinos de Jesus e de seus Apóstolos estão encerrados no Novo Testamento.

Pois bem, quando a Igreja foi fundada, no dia de Pentecostes, nenhum livro do Novo Testamento estava ainda escrito. Pelo menos, 8 ou 9 anos se passaram nesta situação: havia Igreja, os fiéis tinham a verdadeira fé, eram legítimos seguidores de Jesus Cristo, sem existir ainda nenhum livro da Bíblia que expusesse a doutrina cristã, porque o Evangelho de S. Mateus, o primeiro a ser escrito, foi composto entre os anos de 42 a 50, quando o início da Igreja, no dia de Pentecostes, foi no ano de 33. O Evangelho de S. João que encerra tantas coisas omitidas pelos outros foi composto numa data que também não se sabe precisar, mas que está entre os anos de 70 a 100. Mais de um século decorreu para que se organizasse num livro a coleção de todos os textos sagrados.(35) Quinze séculos se passaram, conforme já observamos, em que a difusão da Bíblia era sobremaneira difícil, pelo seu preço muito elevado, porque a imprensa só foi descoberta no século XV. E ainda hoje são inúmeros aquêles que aceitam a verdadeira fé e a professam e ganham o Céu, não pela leitura da Bíblia, mas Unicamente ouvindo a pregação, simplesmente porque não sabem ler.

Por isto não é de admirar que os protestantes, que dizem só admitir aquilo que está na Bíblia, não apresentem nenhum texto da mesma que obrigue os cristãos a lê-la ou que lhes dê o direito de interpretá-la, pois aquela palavra Examinai as Escrituras, conforme já explicamos, foi dirigida A JUDEUS INCRÉDULOS, como último recurso porque êles não quiseram acreditar na pregação de Jesus Cristo, nem nos milagres extraordinários que a acompanhavam.

E êstes mesmos protestantes que querem reproduzir exatamente a Igreja Primitiva, não nos mostram em nenhum texto da Bíblia os cristãos, os já convertidos (porque os judeus de Beréia que aparecem nos Atos consultando as Escrituras, não se tinham convertido ainda) fazendo girar tôda a sua Religião em tôrno da Bíblia no sentido de estarem todos interessados em como hão de interpretá-la, como também não mostram os Apóstolos insistindo com os fiéis para que não deixem de ler a Escritura Sagrada, a fim de aí apreciarem e compreenderem diretamente a palavra de Deus.

A Bíblia nos mostra, sim, os Apóstolos recomendando sempre, insistentemente, que os fiéis não se afastem do ensino oral, daquilo que tinham OUVIDO na pregação e nas explicações da doutrina: Ponho-vos, pois, presente, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual também vós recebestes e nêle ainda perseverais, pelo qual é certo que sois salvos, se todavia o conservais COMO EU VO-LO PREGUEI, salvo se em vão o crestes-(1.ª Coríntios XV-1 e 2). Eu vos louvo, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e guardais AS MINHAS INSTRUÇÕES COMO EU VO-LAS ENSINEI (1.ª Coríntios XI-2). O que não só aprendestes, mas recebestes, E OUVISTES E VISTES em mim, isto também praticai; e o Deus de paz será convosco, (Filipenses IV-9). Já sabeis QUE PRECEITOS VOS TENHO DADO, por autoridade do Senhor Jesus (1.ª Tessalonicenses IV-2). Guarda a forma das sãs palavras que me TENS OUVIDO na fé e no amor em Jesus Cristo (2.ª Timóteo I-13). Guardando o que OUVISTE DA MINHA BÔCA diante de muitas testemunhas, entrega-o a homens fiéis, QUE SEJAM CAPAZES DE INSTRUIR TAMBÉM OS OUTROS (2.ª Timóteo II-2). Estai firmes e conservai as TRADIÇÕES que aprendestes, ou DE PALAVRA, ou por carta nossa (2.ª Tessalonicenses II-14). Nós vos intimamos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que andar desordenadamente e não segundo A TRADIÇÃO que êle e os mais receberam de nós outros (2.ª Tessalonicenses III-6). Quem conhece a Deus OUVE-Nos; o que não é de Deus não nos OUVE: NISTO CONHECEMOS O ESPÍRITO DA VERDADE E O ESPÍRITO DO ERRO (1.ª João IV-6).

E ainda mais: é necessário êste apêgo ao ensino oral dos Apóstolos, porque já aparece na Bíblia o grito de alarme contra os que se metem a interpretar as epístolas de S. Paulo, bem como as- outras Escrituras, sem ter a capacidade, nem a firmeza de fé necessária para isto: E tende por salvação a larga paciência de nosso Senhor; assim como também nosso irmão caríssimo Paulo vos escreveu segundo a sabedoria que lhe foi dada, como também em tôdas as suas cartas, falando nelas disto, nas quais há algumas coisas difíceis de entender, as quais adulteram OS INDOUTOS e INCONSTANTES, como também AS OUTRAS ESCRITURAS, PARA RUÍNA DE SI MESMOS. Vós, pois, irmãos, estando já dantemão advertidos, guardai-vos, para que não caiais da vossa própria firmeza, levados ao êrro, destes insensatos (2.ª Pedro III-15 a 17). Não podia ser mais clara a condenação do Protestantismo e do seu LIVRE EXAME.

O que os Apóstolos insistentemente recomendam é a fidelidade à Igreja, representada por aquêles que devidamente autorizados pregam a sua doutrina, porque a Igreja é, segundo o ensino de S. Paulo,

264. COLUNA E FIRMAMENTO DA VERDADE (1.ª TIMÓTEO III-15).

Eis aí uma palavra que é e será sempre misteriosa e incompreensível para os protestantes. Se a verdade é sólida, inquebrantável, invencível em si mesma, se a verdade em última análise é o próprio Deus, como precisa ela de uma coluna para FIRMAR-SE?

Mas a verdade pode ser considerada de duas maneiras: enquanto existe em si mesma e enquanto É CONHECIDA POR NÓS. Em si mesma, ela não precisa de nenhum apoio, mas para que chegue ao nosso conhecimento, ao conhecimento de todos, é preciso haver quem a defenda, quem a SUSTENTE. Por isto é muito comum ouvir-se alguém dizer no meio de uma discussão: eu SUSTENTO a verdade, enquanto o que Você sustenta é mentira. S. Paulo, vendo já desde os primeiros tempos a luta dos hereges, daqueles que começam a perturbar os cristãos, introduzindo, no seio dêles, a peçonha do êrro, nos mostra qual é neste ponto o verdadeiro papel da Igreja, que deve ser a coluna da verdade, sustentando-a com firmeza, apesar de tôda a grita, de tôda a oposição dos adversários. Se é verdade a existência de três Pessoas em Deus, a divindade de Jesus Cristo, a imortalidade da alma, a existência do inferno, a indissolubilidade clo matrimônio, a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, a necessidade do Batismo, o valor expiatório da morte de Cristo, a necessidade da graça para a salvação etc, etc, a missão da Igreja é SUSTENTAR a verdade com firmeza, com autoridade, com absoluta segurança, reclame quem reclamar, doa a quem doer, discorde quem quiser discordar. Se o Protestantismo concede aos seus adeptos a liberdade de dar aos textos da Bíblia a interpretação que julgarem mais conveniente, então renuncia inteiramente a esta missão de sustentar a verdade; deixa a cada um a incumbência de SUSTENTAR o que bem entende. Todos sabemos que a verdade existe; mas no seio do Protestantismo, êles lá não podem saber que é verdade, nem o que não é; pois a confusão aí é muito grande.

E é preciso notar que se os protestantes, no meio de seus erros (êles próprios têm que confessar que há erros no Protestantismo, pois onde existe a contradição existe o êrro: a verdade é uma só) se os protestantes, no meio de seus erros, ainda sustentam, numa dosagem maior ou menor, algumas grandes verdades, têm que reconhecer que isto devem exclusivamente à Igreja Católica, donde se separaram, à Igreja Católica que pela sua FIRMEZA soube manter intactos os seus princípios na luta contínua contra os hereges de todos os tempos. Não fôsse ensino constante da Igreja, e a confusão entre êles ainda seria muito maior.

No meio de tantos protestantes que, levados pelo seu ódio rancoroso contra a Igreja Católica vivem a ensinar aos seus irmãos na fé (!!!) que o Papa é o Anticristo ou a besta do Apocalipse, que a Igreja não é mais do que a meretriz de Babilônia de que fala a Escritura Sagrada (Apocalipse XVII-5) e assim se servem, do modo mais ridículo, da palavra de Deus para tentar impressionar os rudes e ignorantes, prevenindo-os contra a mais numerosa Igreja Cristã e a única que vem dos tempos apostólicos, sempre aparece um ou outro que fala com mais lógica e mais serenidade. E ê assim que na Revista Inter Ocean, de Chicago apareceu um artigo do ministro metodista Dr. Charles Bayard Mitchell que diz, entre outras coisas, o seguinte:

"Agrada-me a Igreja Católica, porque permanece inabalável em seu reconhecimento da divindade de Jesus Cristo. Nem um só dos que dirigem seus destinos admite discussão sôbre êste grande dogma. Agrada-me, porque protege a pureza do lar e proclama a santidade do matrimônio. Dou graças a Deus pelo fato de protestar esta Igreja em têrmos inequívocos contra os divórcios, baldão da nossa ci4tura americana. Dou graças a Deus de uma maneira especial pela atitude que a Igreja tem assumido contra a anarquia brutal e o utópico socialismo. Deito-me tranqüilo, porque temos em nosso meio a Igreja Católica." (O artigo foi transcrito no Mensageiro de Bilbao, número de 12 de dezembro de 1929).

Esta inquebrantável firmeza de princípios, característica da verdadeira Igreja de Jesus Cristo (a qual foi posta no mundo para ensinar a verdade e dela se sente segura e certíssima desde o comêço e por isto não pode transigir com o êrro) não pode jamais ser conseguida sob o regime do livre exame. E foi por isto que Nosso Senhor Jesus Cristo, em vez de mandar espalhar Bíblias para cada um interpretar à vontade, mandou que os Apóstolos e seus sucessores saíssem pelo mundo a ensinar (Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes — Mateus XXVIII-19) e garantiu que a Igreja nunca seria vencida pelos tiranos, nem maculada pelo êrro (E as portas do inferno não prevalecerão contra ela — Mateus XVI-18), porque ela deveria ser em todos os tempos a guia segura para todos os homens, a coluna e firmamento da verdade (1.ª Timóteo III-15).