Capítulo 11

CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO: CRISTO ENVIOU OS APÓSTOLOS A BATIZAR

265. A LEI DA SOLIDARIEDADE HUMANA.

Quando dizemos que a missão da Igreja, a missão do sacerdote é SALVAR as almas, os protestantes põem os dedos nos ouvidos e bradam, indignados: Ouvistes _ a blasfêmia? Dizer que a Igreja salva, que o padre salva, quando quem salva é Jesus Cristo, o ÚNICO SALVADOR!!

Esta indignação nasce apenas de uma confusão de idéias. Primeiro que tudo, podem êles tachar de blasfemas as palavras da própria Bíblia? No entanto, a Bíblia atribui a HOMENS a missão de salvar os outros. Vejamos o que diz S. Paulo a Timóteo: Olha por ti e pela instrução dos outros; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te SALVARÁS tanto a ti mesmo, como AOS QUE TE OUVEM (1.° Timóteo IV-16). E na 1.ª Epístola aos Coríntios: Fiz-me tudo para todos, por SALVAR a todos (1.ª Coríntios IX-22).

É claro que quando a Bíblia diz que Cristo nos salvou, porque é o Único Salvador; e esta mesma Bíblia diz que um homem salva os outros, a palavra SALVAR num e noutro caso não tem exatamente o mesmo sentido. Quando diz que Cristo nos salvou, se refere ao RESGATE indispensável para a nossa salvação, oferecido só por Cristo, porque só Éle é que o podia oferecer; refere-se a Cristo como a fonte única donde procedem tôdas GRAÇAS que são necessárias para a salvação da Humanidade, não só as que nos são concedidas hoje, após a sua morte, mas também as que foram recebidas por todos os homens e em todos os tempos. Quando diz que um homem salva os outros, refere-se ao trabalho dêste homem, ao seu esfôrço, à sua cooperação para que os outros venham a aproveitar do sangue regenerador de Jesus Cristo, porque, Jesus Cristo morreu por todos, mas nem todos se salvam: há umas tantas condições a observar para que a cada um em particular sejam aplicados os frutos da Redenção.

Para darmos um exemplo: a mesma diferença de sentido que se dá com esta palavra SALVAR, se dá também com os têrmos pelos quais expressamos a nossa PROCEDÊNCIA. Somos criaturas de Deus. Mas tanto dizemos: Devo a Deus a minha existência, como dizemos: Tenho que respeitar a meus pais, porque DEVO A ÊLES A MINHA EXISTÊNCIA. Mas tem a frase num e noutro caso a mesma significação? Devo a Deus a minha existência, porque Éle criou a minha alma, tirou-a do nada, e isto é um ato de poder infinito, que, portanto, nenhuma criatura é capaz de realizar. Devo a meus pais a minha existência, porque embora sejam êles simples criaturas como eu, Deus não quis dispensar A COOPERAÇÃO DELES pela geração, para que se realizasse o ato criador.

E assim em tudo na vida, Deus está agindo sempre em mim por intermédio das CRIATURAS, por meio das CAUSAS SEGUNDAS. Uma vez nascido, precisei de alimentação, de cuidados especiais com a minha saúde. A PROVIDÊNCIA DIVINA zelou por mim, para que nada me faltasse, mas zelou por intermédio da ação de meus pais que se entregaram a cuidados, labutas, suores e sacrifícios para que eu tivesse à minha disposição tudo quanto me era necessário. A educação que tanto está influindo no meu comportamento e nas minhas qualidades morais, me veio igualmente por intermédio de meus pais que a fizeram a seu modo. Se precisei instruir-me, a ciência não me veio diretamente de Deus; veio por intermédio dos mestres que me transmitiram aquilo que sabiam, porque já o tinham recebido de outros. E ainda hoje quando estou um homem feito, livre e independente, se preciso de um emprêgo, se quero curar-me de uma doença, se me faltam recursos para empreender uma viagem etc., etc., nada disto me vem diretamente do Céu; é a Providência que age na minha vida através de um amigo, de um médico, de um protetor, de um profissional etc, e pode até às vêzes servir-se de meus próprios inimigos para me fazer benefícios. É a lei da solidariedade humana: todos precisamos uns dos outros.

266. NA ANTIGA E NA NOVA LEI.

Isto acontece na vossa vida material; e Deus quis que também fôsse assim no que diz respeito aos bens da nossa alma. Vemos, em tôda a história do Antigo Testamento, que as graças especiais concedidas a seu povo escolhido, Deus as mandava, por exemplo, por intermédio dos Profetas; eram homens fracos e imperfeitos, como demonstraram muitas vêzes, mas era dêles que Deus se servia para guiar, dirigir, advertir, iluminar o seu povo.

Na Nova Lei, a narrativa dos Evangelhos nos mostra muito bem que Deus, escolhendo os seus Apóstolos, dando-lhes uma missão especial, concedendo-lhes extraordinários poderes, não quis absolutamente agir de maneira diversa: são maiores as riquezas celestiais distribuídas aos cristãos, mas o sistema de distribuição é sempre o mesmo. Porque se na Nova Lei Deus nos concede GRAÇAS MUITO MAIORES do que na Antiga, Ele confia a homens uma COOPERAÇÃO TAMBÉM MUITO MAIOR na distribuição da superabundante graça divina e na economia da salvação.

267. PREGAR E BATIZAR.

Já vimos, no capítulo anterior, que Deus confiou aos Apóstolos e seus sucessores a missão de PREGAR, como tinha confiado aos Profetas. O homem faz o seu discurso, de acôrdo com a sua inteligência e capacidade, com o seu talento e jeitão pessoal; Deus se serve destas palavras do homem para transmitir aos outros os seus ensinamentos divinos. A palavra do homem, ensinando a legítima doutrina, se torna neste caso a própria palavra de Deus.

Mas aos Apóstolos e seus sucessores Jesus não deu somente a incumbência de pregar. Mandou-os também BATIZAR: Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes, BATIZANDO-AS em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo (Mateus XXVIII-19).

Qual é o efeito do Batismo?

O Batismo põe a alma na graça santificante. Nascemos todos nós SEM A GRAÇA SANTIFICANTE; nisto é que consiste o pecado original, que é justamente a privação desta graça, na qual foram criados por Deus nossos primeiros pais, no Paraíso Terrestre, mas não foram fiéis a Deus e a perderam para êles e os seus descendentes. É por isto que se administra o Batismo às crianças. Para entrar no reino de Deis, onde se goza uma felicidade sobrenatural (isto é, que está acima a, nossa natureza) é preciso levar também o dom sobrenatural da graça.

268. O BATISMO DAS CRIANÇAS.

Desde o tempo dos Apóstolos, a Igreja vem batizando as crianças, como nos atesta o grande escritor Orígenes, do século 3.º, que diz o seguinte: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de dar o Batismo também às crianças. Sabiam êles, a quem foram confiados os segredos dos mistérios divinos que existe em todos a genuína mancha do pecado, a qual tem que ser lavada pela água e pelo Espírito Santo" (In Rom. 15; n.º 9) S. Cipriano, em nome do concílio de Cartago (do ano de 253) escreve ao bispo Fido, o qual era de opinião que os meninos não deviam ser batizados, com menos de 8 dias de nascidos: "Neste ponto ninguém está de acôrdo com a tua opinião, antes todos ao contrário fomos de parecer que a nenhum homem NASCIDO se há de negar a misericórdia e a graça de Deus". Como veremos mais adiante, Nosso Senhor, na sua entrevista com Nicodemos, fala da necessidade do Batismo para todos, de um modo geral, sem abrir nenhuma exceção para as crianças.

Os protestantes que são contrários ao batismo das crianças apresentam por prova, como se fôsse isto um grande argumento, que A BÍBLIA NÃO FALA EM BATISMO DE CRIANÇAS. O argumento é muito fraco, porque é meramente negativo. Estão assim protestantes que dizem só ADMITIR O QUE ESTÁ NA BÍBLIA atribuindo à mesma uma doutrina que ela absolutamente não ensina, pois a Bíblia não diz em nenhuma parte QUE NÃO SE DEVAM BATIZAR AS CRIANÇAS. (36) Isto não está escrito na Bíblia. Eles vão apenas observar, pela narração dos fatos na Escritura, se aparece algum caso de batismo de crianças; se não aparecer, então vão concluir, sem mais nem menos, que as crianças não podem nem devem ser batizadas. Segundo êste mesmo critério, alguém poderia dizer: Aquêle pastor não acredita na SS.ma Trindade, pois já ouvi 50 sermões seus e não o ouvi falar sôbre êste mistério.

Ora, só no PENÚLTIMO VERSÍCULO DO ÚLTIMO CAPÍTULO do Evangelho (de S. Mateus) é que aparece Jesus dando aos Apóstolos a ordem de batizar. Se o Evangelho fala de batismo realizado pelos Apóstolos durante a vida de Cristo, não se sabe ao certo se era simplesmente um batismo de penitência igual ao do Precursor ou já o batismo cristão, e mesmo o texto não esclarece se batizavam também as crianças ou somente os adultos: Não era Jesus o que batizava, mas seus discípulos (João IV-2). Os Evangelhos falam, sim, no batismo de João, e êste era por natureza reservado aos adultos, porque tinha como finalidade excitar ao arrependimento; mas isto nada tem que ver com o nosso batismo, o batismo cristão que, como veremos (n.º 275), é perfeitamente distinto do batismo preparatório de João e muito superior a êle.

Das Epístolas nenhuma é um tratado especial sôbre o Batismo. O Apocalipse, muito menos.

E se nos Atos dos Apóstolos, que foram escritos NÃO COM O FIM DE EXPOR DIRETAMENTE A DOUTRINA, mas com a preocupação apenas de narrar aquilo que se passou nos primeiros anos da Igreja, se contam batismos de adultos, não de crianças, é o que há de mais natural. Quando começou a ser ministrado no mundo o batismo instituído por Cristo? Justamente quando a Igreja começou a existir. O mundo inteiro estava necessitando de ser batizado e só se podia começar pelos adultos. Como podia haver o costume de cada pai e mãe levar o seu filhinho ao Batismo, logo após o nascimento, se êles próprios não eram batizados ainda e a Religião Cristã ainda não estava suficientemente propagada?

Além disto, podem os protestantes garantir que a Bíblia não narra batismo de crianças? Os Atos narram que o carcereiro convertido porque viu o terremoto e a abertura das portas da prisão, foi batizado com tôda a sua família. E imediatamente foi batizado ele e TÔDA SUA FAMÍLIA (Atos XVI-33). Antes disto, já tinha sido batizada a família de Lídia, vendedora de púrpura na cidade de Tiatirenos; E tendo sido batizada ela e A SUA FAMÍLIA, fêz esta deprecação (Atos XVI-15). S. Paulo afirma que batizou a família de Estéfanas: E batizei também a FAMÍLIA de Estéfanas (1.ª Coríntios 1-16). Como podem os protestantes JURAR que nas famílias do carcereiro, de Lídia e de Estéfanas, não havia nenhuma criança?

Sendo uma questão sôbre a qual a Bíblia não se pronuncia explicitamente (não sendo de espantar, portanto, que os "evangélicos" tanto discutam sôbre o assunto) qual era a solução mais natural, senão indagar como é que a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo vem fazendo desde o princípio? Será que, não contentes com afirmar que a Igreja caiu no êrro desde vários séculos e que falhou, por conseguinte, a promessa de Cristo, querem dizer também que a Igreja está eirada desde o comêço?

Isto mostra muito bem como é necessário acrescentar aos ensinos da Bíblia o testemunho da tradição.

Para receber a GRAÇA SANTIFICANTE pelo Batismo, é claro que não precisam as crianças ter a fé nem nenhuma disposição, porque de nada disto são capazes. Recebido o Batismo, tornam-se em virtude do sacramento, um TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO.

— Como pode ser isto? dirão os protestantes. Uma criança que de nada tem conhecimento ser já a habitação do Espirito Santo!

— Como pode ser? Da mesma forma que João Batista foi santificado, foi livre do pecado original, tornou-se um templo do Espírito Santo, por especial privilégio, quando ainda estava no ventre materno. O anjo diz a Zacarias, anunciando o nascimento do Precursor: Êle será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem outra alguma bebida que possa embriagar, e JÁ DESDE O VENTRE DE SUA MÃE SERÁ CHEIO DO ESPÍRITO SANTO (Lucas I-15). O que as outras crianças mais tarde conseguirão pelo Batismo, S. João Batista já o consegue, em maior abundância e por uma intervenção extraordinária de Deus, antes mesmo de seu abençoado nascimento.

269. A REGENERAÇÃO DO ADULTO.

Passemos agora a considerar o batismo recebido pelo adulto. Seu efeito é o mesmo: DAR-LHE A GRAÇA SANTIFICANTE. Para isto é necessário não só apagar nêle o pecado original, mas também dar-lhe a remissão dos pecados ATUAIS, isto é, dos que êle cometeu pessoalmente, depois que lhe despontou o uso da razão. E assim, enquanto na criança não se exigia nenhuma preparação para recepção do Batismo, uma vez que a criança disto não era capaz, agora no caso do adulto é bem diferente. Para que o Batismo surta o seu efeito, não só é necessário o CONSETIMENTO VOLUNTÁRIO do adulto, mas também que êle tenha a rá em Cristo, bem como O ARREPENDIMENTO de todos OS seus pecados.

E assim pondo ou a criança ou o adulto no estado de graça santificante, o Batismo produz a regeneração espiritual que faz do homem um membro vivo do corpo místico de Cristo. É o Batismo quem nos introduz na Igreja.

– Como o Sr. prova, dirá o protestante, que o Batismo regenera espiritualmente o homem, dá-lhe a remissão dos pecados e lhe confere a graça santificante?

– É o que veremos daqui a pouco, neste mesmo capítulo (n.° 274 a 281) pelas próprias palavras de Jesus Cristo e pelo próprio ensino da Bíblia.

Mas o Batismo se recebe só uma vez, e o homem está sujeito a perder a graça santificante pelo pecado mortal. Como remediar agora a esta situação? Para isto Jesus Cristo conferiu claramente aos Apóstolos o PODER DE PERDOAR OS PECADOS E RETÊ-LOS. É o que veremos no capítulo seguinte.

Assim Jesus Cristo associou os Apóstolos e seus sucessores não só à obra da difusão do seu reino, pela pregação, mas também à própria REMISSÃO DOS PECADOS pelos sacramentos do Batismo e da Penitência.

270. A FÉ E OS SACRAMENTOS.

Antes, porém, de entrarmos na demonstração desta tese sôbre os efeitos do Batismo, achamos conveniente esclarecer certos pontos que fazem muita confusão na cabeça dos protestantes.

Dizem êles: A Bíblia está cheia de textos que nos ensinam que A JUSTIFICAÇÃO DO HOMEM VEM PELA FÉ; que É JUSTIFICADO TODO AQUÊLE QUE CRÊ; que ÀQUELE QUE CRÊ É CONCEDIDA A REMISSÃO DOS PECADOS, COMO se Vê, por exemplo, neste trecho dos Atos dos Apóstolos, em que nos fala S. Pedro: A este (Jesus) dão testemunho todos os profetas de que TODOS OS QUE CRÊEM NELE RECEBEM PERDÃO DOS PECADOS por meio do seu nome (Atos X-43).

Portanto, não é por meio dos sacramentos, e sim pela fé que se recebe o perdão dos pecados; logo, não é o Batismo, não é a Confissão que me justifica e regenera; é minha fé e nada mais.

  • Esta confusão que vocês fazem, caríssimos amigos protestantes, já foi suficientemente esclarecida, quando expusemos o verdadeiro sentido da salvação pela fé. Todo mal de Vocês é não tomar a palavra FÉ no seu verdadeiro sentido.

Fé não é convencer-me de que já estou salvo pelo sangue de Jesus; eu posso estar convencido de que já estou salvo pelo sangue de Jesus e ser um indivíduo mau, desonesto e desagradável aos olhos de Deus; e o resultado é que, iludido por esta falsa fé, terei que ouvir a palavra do Justo Juiz: Eu nunca vos conheci; apartai-vos de mim, os que obrais a iniqüidade (Mateus VII-23).

Fé é ACEITAR TÔDA A DOUTRINA DE JESUS, pois Éle nos diz: Se eu vos digo A VERDADE, por que me não CREDES? (João VIII-46). A fé que salva é a submissão de tôda a nossa vida, de todo o nosso ser AOS ENSINOS DE JESUS: A fé sem as obras é morta (Tiago II-26); Cristo é o autor da salvação eterna para TODOS OS QUE LHE OBEDECEM (Hebreus V-9).

Se Jesus me diz que para a salvação é indispensável a observância dos mandamentos (Mateus XIX-17) e eu vou teimar com Ele, achando que, para salvar-me esta observância não é necessária, estou tendo fé em Jesus?

Pois, é o mesmo que se dá com relação aos SACRAMENTOS. Se Jesus me diz, como veremos, que é no Batismo que se produz a regeneração espiritual do homem e eu quero teimar com Êle afirmando que o Batismo não produz êste efeito, que êste efeito se produz exclusivamente pela fé, eu estou tendo fé em Jesus? Não; estou tendo fé apenas em minha teimosia.

Se Jesus me diz que o PERDÃO DOS PECADOS é concedido por intermédio de HOMENS, a quem Êle deu o poder de perdoar e reter, e eu teimo com Êle, afirmando que êste perdão não é dado por intermédio de homens, mas vem dÊle diretamente, estou tendo fé em Jesus? Não estou absolutamente; estou apenas mostrando repugnância em aceitar Um ponto que, como mostraremos no capítulo seguinte, foi claramente estabelecido e afirmado pelo Divino Mestre.

Portanto, é a mesma fé em Cristo que me obriga a observar os mandamentos de Deus, a sua lei justa e sábia, é esta mesma fé que me impele a receber os sacramentos, os quais Cristo apontou como necessários para a salvação. Se fui batizado em criança, recebendo a regeneração espiritual logo ao nascer, isto foi um efeito da FÉ; não minha, porque eu não a podia ter; mas de meus pais que, pela sua fé em Cristo, logo providenciaram para que os frutos da Redenção me fôssem aplicados, para que eu não ficasse privado do direito de participar da visão BEATÍFICA. Se eu cresci, cheguei ao uso da razão e não sou batizado ainda, é a minha fé em Cristo que me impele a procurar o Batismo, para nêle receber, contrito e arrependido, a remissão de meus pecados. Se depois do Batismo tenho a infelicidade de perder a graça santificante pelo pecado mortal, é a mesma fé que me impele ao tribunal da Penitência, a buscar aí o perdão nas mãos daqueles que por Jesus foram autorizados para isto. A fé é assim, duma e doutra forma, o ponto de partida para a justificação. Não há, portanto, esta incompatibilidade entre A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ e A JUSTIFICAÇÃO PELOS SACRAMENTOS, como querem ver OS protestantes. A fé é o ponto de partida, mas partindo-se da VERDADEIRA FÉ se tem que passar em via de regra pelos sacramentos para se chegar à justificação. É por isto que S. Paulo, escrevendo aos Gálatas, lhes faz ver que se a fé os justificou, é porque a fé os levou ao Batismo: Todos vós sois filhos de Deus pela fé que é em Jesus Cristo, PORQUE todos os que fôstes BATIZADOS em Cristo REVESTISTES-VOS DE CRISTO (Gálatas III-26 e 27).

271. OS SACRAMENTOS E O SACRIFÍCIO DA CRUZ.

Outra confusão semelhante a esta fazem os protestantes com relação à morte de Cristo no Calvário. Dizem êles: Se é o Batismo que regenera, se é na Confissão que se me perdoa, então vou buscar a regeneração num rito religioso, já não é a morte de Cristo que me está remindo. Ora, está claro na Bíblia que quem me purifica dos pecados é o sangue de Cristo: o SANGUE de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de TODO O PECADO (1.ª João 1-7).

— Muito bem, caros amigos. Agora perguntamos: O sangue de Cristo nos purifica INCONDICIONALMENTE ou Sob certas condições?

Se nos purifica incondicionalmente, então todos os pecados são invariàvelmente perdoados; todos os homens, mesmo os mais perversos, irão para o Céu, porque a purificação que vem da cruz é destinada a todos os homens: Êle é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de TODO O MUNDO (1.ª João II-2), como diz o mesmo S. João cinco versículos mais adiante. Se nos purifica incondicionalmente, então não se exige como condição nem mesmo o arrependimento, e eis aí a licença antecipada para todos os crimes, todos os erros, tôdas as prevaricações. Neste caso, se encontrarmos um homem a praticar as maiores misérias, as mais revoltantes monstruosidades e lhe dissermos: Não faça uma coisa destas; isto é um pecado muito grande, êle poderá responder: Não, não faz mal; O SANGUE DE JESUS CRISTO ME PURIFICA DE TODO O PECADO.

Se, porém, o sangue de Cristo nos purifica SOB CERTAS CONDIÇÕES, quem, senão o próprio Cristo que foi quem nos salvou, quem derramou o seu sangue por nós e que não só nos remiu, mas nos ensinou o verdadeiro caminho da salvação, por meio da sua doutrina; quem, senão Êle é que pode indicar sob que condições a sua morte redentora nos purifica? Temos nós o direito de alterar estas condições a nosso gôsto, para tornar a salvação mais fácil do que é na realidade, ou para consegui-Ia por meios que nos são mais agradáveis?

Se Cristo condicionou o recebimento da graça santificante que Êle mereceu para nós na Cruz à recepção do Batismo, isto é sinal de que esta graça nos vem DA SUA MORTE SALVADORA, mas nos vem POR MEIO DO BATISMO, QUE ÊLE PRÓPRIO INSTITUIU. É, portanto, da morte de Cristo que o Batismo tira a sua eficácia: Vós não sabeis que todos os que FOMOS BATIZADOS em Jesus Cristo, fomos batizados NA SUA MORTE? (Romanos VI-3).

Se, depois que recebemos o Batismo, Cristo condicionou a remissão dos nossos pecados e a conseqüente recepção da graça santificante ao poder das chaves, ao poder que têm seus autorizados ministros de perdoar e reter, isto é sinal de que êste perdão nos vem DA MORTE SALVADORA DE CRISTO, mas vem por intermédio de seus ministros no sacramento da Penitência, que também Êle próprio instituiu.

O fato de conceder-nos Jesus Cristo A GRAÇA SANTIFICANTE por meio dos sacramentos, não Lhe rouba de forma alguma o seu título de ÚNICO SALVADOR.

É o que podemos ilustrar com várias comparações. Uma delas nos é insinuada pela própria Bíblia. Assim fala S. Paulo a respeito da sua missão e da de Apolo e de Pedro: Os homens devem-nos considerar como uns ministros de Cristo e como uns DISPENSEIROS DOS MISTÉRIOS DE DEUS (1.ª Coríntios IV-I). E diz a Tito, falando a respeito da missão do Bispo: Convém que o Bispo seja sem crime, como DISPENSEIRO que é de Deus (Tito 1-7). (37)

Ora, esta palavra DISPENSEIRO é tradução da palavra grega OIKONÓMOS, donde se deriva a palavra portuguêsa ECÔNOMO e que é formada de ÓIKOS que quer dizer CASA; e o verbo NÉMO que quer dizer APASCENTAR, DIRIGIR, ADMINISTRAR. OIKONÓMOS quer dizer: "dispenseiro, aquêle a quem tôda a casa, e principalmente a parte financeira, é entregue para ser administrada" (Dicionário de Zorell). Esta mesma palavra (no grego oncoNÓMOS; em português DISPENSEIRO) aparece por exemplo em Lucas XII-42: Quem crês que é o DISPENSEIRO fiel e prudente que pôs o senhor sôbre a sua família, para dar a cada um a seu tempo a ração de trigo? Com a mesma palavra OIKONÓMOS é designado o feitor, ou administrador dos bens de seu patrão, de que nos fala Jesus na parábola que se lê em Lucas XVI-1 a 9.

O fato de S. Paulo comparar os ministros de Cristo com os dispenseiros, os administradores ou feitôres que dirigem e distribuem, não os seus próprios bens, mas os bens de seu patrão, pois os chama DISPENSEIROS DOS MISTÉRIOS DE DEUS — é bem expressivo para nos indicar que S. Paulo estava longe de admitir esta teoria protestante do individualismo, isto é, cada um recebendo a graça de Deus diretamente e sem intermediários.

Mas vamos à comparação. Suponhamos que os súditos de um rei riquíssimo chegam famintos ao seu palácio e pedem que lhes distribua algo das suas riquezas. O rei, porém, lhes diz: Vão aos meus dispenseiros; êles têm ordem minha para dar a Vocês o que precisarem. Vão êles lá e recebem. Perguntamos: no final das contas, de quem receberam? a quem devem agradecer? Devem agradecer ao rei, porque foi do rei que receberam; embora, no fim de tudo, os dispenseiros mereçam também do rei algum louvor e recompensa, se cumpriram exatamente o seu dever.

Assim também, Delis, na sua infinita sabedoria, quis associar alguns homens à distribuição das riquezas de sua graça, o que não impede que esta graça venha de Deus. Vem de Deus e pelos modos que o próprio Deus estabeleceu para distribuí-la, como bem Lhe apraz.

Vamos a outra comparação. O sol está brilhando nas alturas, espargindo luz e calor para todos. Eu me encontro, porém, numa casa hermeticamente fechada e por conseguinte em plenas trevas, sem receber os influxos do astro-rei. Mas eis que alguém abre uma janela e logo a minha casa se ilumina, começa a encher-se de beleza, animação e vida. De onde me vem, quem me dá esta animação e esta luz? A janela? Não. Aquêle que a abriu? Também não. Quem me dá é o sol. A janela foi, apenas um meio para que a luz chegasse até mim. Assim também, nascemos nas trevas do pecado original, sem a luz, sem o calor sobrenatural da GRAÇA SANTIFICANTE. O Batismo é a janela que se abre, para que a graça santificante ilumine e encha de vida a nossa alma. E se nos pomos outra vez nas trevas do pecado, pode-se abrir outra janela que é o sacramento da Penitência. Assim como, já iluminados pela graça podemos abrir ainda mais a nossa alma aos influxos de Jesus Salvador por intermédio dos outros sacramentos (que se chamam sacramentos de vivos, pois se recebem em estado de graça) e por meio do Santo Sacrifício da Missa.

Uma coisa, portanto, é a Redenção operada por Cristo (isto é o sol); outra coisa é a aplicação a nós dos efeitos da Redenção (isto é quando a ação do sol chega até nós). A aplicação dos méritos de Cristo é realizada nos sacramentos e na Santa Missa; não, a nossa Redenção, porque esta já foi operada, de uma vez para sempre, no Sacrifício da Cruz.

Se queremos outra comparação, vejamos o músico com o seu instrumento (um violino, por exemplo), o cirurgião com o seu bisturi, o escritor com a sua pena, ou, para nos adaptarmos aos tempos modernos, com sua máquina de escrever. Se realizam obras maravilhosas e merecem os nossos aplausos, atribuímos êstes efeitos ao instrumento de que usam ou a êles que o sabem utilizar com perfeição? Assim também Deus se serve de sacramentos como de uma CAUSA INSTRUMENTAL, não qu Deus só nos pudesse conferir a graça santificante por meio dêles, mas porque resolveu conferi-la ordinàriamente assim por êste modo.

Ou, para usarmos uma comparação mais conhecida, se recebemos em nossa casa a água canalizada, devemos esta água à fonte donde ela procede ou aos canais por onde ela nos chega? Está bem visto que é a fonte e não o encanamento que nos lava o corpo e mata a nossa sêde. Assim Cristo Redentor é a fonte inesgotável de tôdas as graças; os sacramentos, que o próprio Cristo instituiu, são os canais por onde a graça santificante nos é distribuída.

Fica, portanto, esclarecido que não há nenhuma contradição entre a justificação EM VIRTUDE DA MORTE SALVADORA DE CRISTO e a justificação POR MEIO DOS SACRAMENTOS por Êle mesmo instituídos. E é por isto que veremos daqui a pouco S. Pedro dizer-nos que o Batismo nos salva (V Pedro III-21).

272. COMO SE SUPREM A FÉ E OS SACRAMENTOS.

Uma terceira dificuldade que perturba a cabeça dos protestantes é a seguinte: A salvação deve estar ao alcance de todos. Ora, se o Batismo e a Confissão são necessários, neste caso a salvação vai depender dos outros homens; vai depender de circunstâncias exteriores que podem muito bem não se verificar. Por exemplo: posso ter nascido num país pagão onde ninguém conhece o Batismo; posso estar num lugar onde não encontre de forma alguma um sacerdote para me absolver. Ao passo que na teoria da salvação pela FÉ EM CRISTO a coisa é diferente: a fé se realiza no meu íntimo, sem precisar de ninguém que venha ministrar-me um rito religioso.

— Perdão, prezados amigos; vê-se aí perfeitamente um engano. A fé em Cristo, necessária para a salvação, também depende de circunstâncias exteriores que podem não verificar-se. Fé em Cristo é a aceitação da verdade por file revelada. Mas suponhamos que a sua revelação, o conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo não chegou até mim. Se eu, por exemplo, nasci e tenho vivido num país onde ninguém me fala em Batismo, é também porque nesse lugar ninguém jamais me falou em Jesus Cristo e em sua doutrina. Ainda não foi possível aos missionários da Religião de Cristo penetrar tintim por tintim em todos os recantos da terra; ainda há lugares, no meio das selvas, completamente desligados de qualquer contacto com o resto do mundo. A China e o Japão passaram muitos e muitos anos tornando pràticamente impossível a entrada de missionários. Já houve no mundo, por muitos séculos, povos pagãos de cuja existência os homens cristãos não tinham nenhum conhecimento.

Admitimos também nós, católicos, como Vocês, que a fé em Cristo é necessária para a salvação.

Mas não tenham receio que não ensinamos, como tantos de Vocês, protestantes, pertencentes à escola calvinista, que há uns irremediàvelmente perdidos, porque são predestinados por Deus para o inferno. A fé em Cristo PODE SER SUPRIDA. Um pagão que nunca ouviu falar sôbre Cristo, mas sabe pela sua razão que existe um Deus, Senhor Supremo de tôdas as coisas (embora erre talvez por ignorância sôbre a verdadeira natureza dêste Deus) e vendo, pela sua consciência, o que é o bem e o que é o mal, está sempre disposto, para não desagradar a êste Deus, a seguir a voz divina que lhe fala ao coração por intermédio da sua consciência, está amando a Deus acima de tudo e por conseguinte recebe a graça santificante: Se algum me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e nós viremos a êle e faremos nêle morada (João XIV-23). Deus quer a salvação de todos e de ninguém exige o impossível; o que êste pagão tem para oferecer a Deus é apenas a retidão de sua consciência. Se êle tivesse conhecimento de Cristo e de sua doutrina, creria de todo o coração, porque tem um coração reto. Tem, portanto, uma FÉ IMPLÍCITA EM CRISTO. Pode salvar-se; ao passo que muitos que vivem com o nome de Jesus nos lábios podem perder-se, se morrerem sem esta consciência reta: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus; mas sim o que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus (Mateus VII-21). O mesmo se dá, exatamente, com relação ao Batismo e à Penitência. Êsse pagão que tenha assim um coração puro, uma alma reta e leal, se conhecesse o valor do Batismo, o procuraria receber e se soubesse que era necessário confessar os seus pecados, para ganhar o Céu, o faria de muito bom grado. Da mesma forma que é suprida a fé, os SACRAMENTOS também podem ser supridos.

Mas insistirá talvez o protestante: Isto acontece com o pagão que nenhum conhecimento tem da fé. Está certo. Mas suponhamos que se trata de um cristão. Tendo conhecimento da doutrina católica, está convicto de que a Confissão é necessária para êle salvar-se. Mas está às portas da morte; ou mesmo está desejoso de sair do estado de pecado em que se encontra e não há meios, de forma alguma, de encontrar um padre católico. Vai ficar dependendo do aparecimento de um homem para poder regenerar-se? Como pode colocar-se no caminho da salvação?

Exatamente da mesma forma que o pagão: pelo AMOR A DEUS; pela Contrição Perfeita, ou seja, o arrependimento sincero de seus pecados, mas arrependimento não ditado pelo temor do inferno e sim pelo pesar de ter ofendido a Deus, sumamente digno de todo amor. Mas como se trata agora de um cristão, de um homem que conhece a doutrina de Cristo, êsse amor, esta contrição só se concebem havendo no seu íntimo a resolução decidida de submeter-se a tudo o que Cristo determinou. Ora, Cristo submeteu os nossos pecados ao poder das chaves; logo, êle tem que incluir no seu arrependimento o voto de confessar-se logo que seja possível.

Mesmo isolado numa ilha deserta, o homem pode, portanto, alcançar a sua salvação. E não há perigo de se acusar a Igreja de querer lançar a pulso no inferno uma pessoa que REALMENTE esteja com o coração contrito e com boa vontade de submeter-se a Cristo.

273. EX OPERE OPERATO.

Finalmente costumam dizer os protestantes: Com a sua doutrina de que os sacramentos produzem efeito EX OPERE OPERATO, a Igreja atribui a salvação não à fé ou às disposições do indivíduo, mas a um rito religioso, como se a salvação nos fôsse concedida POR PASSES DE MÁGICA.

— Primeiro que tudo, será que Vocês, protestantes, fazem uma idéia clara do que seja esta expressão EX ÓPERE OPERATO? ou estão falando sómente de oitiva?

Ex ÓPERE OPERATO, quer dizer, em virtude do próprio ato realizado. Esta expressão se contrapõe à outra: EX ÓPERE OPERATIS, isto é, em virtude daquele que realiza o ato.

Quando dizemos que os sacramentos produzem o seu efeito EX ÓPERE OPERATO, queremos significar com isto, que o efeito dos sacramentos não depende da fé nem da santidade do ministro que os confere. Ainda mesmo que aquêle que tem poder para administrar o sacramento, no momento em que o faz, não tenha a verdadeira fé ou esteja em estado de pecado mortal, o sacramento é válido, porque o seu valor está no próprio ato que se realiza (ex ópere operato) e não na fé ou na probidade do ministro (como seria ex ópere operantis). Não deve haver receio por parte dos fiéis, uma vez que o ministro do sacramento não dá do que é seu, mas o sacramento tira a sua eficácia do Sacrifício de Jesus Cristo na Cruz.

É claro, porém, que A GRAÇA SANTIFICANTE OU O AUMENTO DE GRAÇA SANTIFICANTE que São efeitos dos sacramentos DEPENDEM da fé, da contrição, das boas disposições daquele que os recebe; se alguém os recebe sem a fé ou sem o arrependimento sincero de seus pecados, está cometendo um pecado de sacrilégio e não está recebendo a graça.

Na criança que recebe o Batismo não se exige a fé, é claro, porque a criança não é capaz de tê-la; não se exige o arrependimento, porque ela nem pecou, nem ainda está em idade de sentir contrição. E no entanto É DE URGENTE NECESSIDADE MINISTRAR-LHE O BATISMO, porque a criança nasceu em estado de pecado, isto é, privada da graça santificante, precisa receber o Batismo para ter o direito à visão BEATÍFICA, precisa recebê-lo quanto antes, porque está sujeita a morrer a qualquer momento. Se morrer sem o Batismo, não irá sofrer tormento nenhum por causa disto no outro mundo, uma vez que não pecou; vai ser, talvez mesmo, feliz de uma felicidade natural sem ver a Deus, como por exemplo, uma pessoa pode ser feliz aqui na terra, com um conhecimento indireto de Deus, mas não terá a felicidade tão grande, tão sublime como têm aquêles que vão ver a Deus face a face. Nisto não há injustiça, porque fica assim privada de um dom SOBRENATURAL, que está muito acima de sua natureza, pois não é natural ao homem ver a Deus diretamente. O que, porém, não está direito é por nossa negligência permitirmos que um ser humano se prive desta felicidade muito maior e deixe assim de aumentar o número dos habitantes do Céu.

E quanto à alegação de alguns protestantes de que Cristo disse que é preciso primeiro a pessoa crer para depois ser batizada, veremos daqui a pouco (n.º 286) que é inteiramente falsa.

Não há, portanto, passes de mágica na administração dos sacramentos: no ADULTO que os recebe sempre se exigem a FÉ e a CONTRIÇÃO, para que êstes sacramentos produzam a graça; e a graça recebida é maior ou menor de acôrdo com as disposições de cada um. Se da criança sem uso da, razão nada se exige, é porque nada ela é capaz de fazer e entretanto já é capaz de receber o dom de Deus, como se viu no caso de S. João Batista.

274. RENASCER DA ÁGUA E DO ESPÍRITO SANTO.

Dadas estas explicações, que tiveram por fim remover alguns preconceitos que há entre os protestantes a respeito da doutrina católica sôbre os sacramentos e dar-lhes uma idéia mais clara sôbre o assunto, passamos agora à demonstração da nossa tese. Vamos provar pela própria Bíblia que:

1.º — o Batismo é NECESSÁRIO para a salvação;

2.º — é necessário, não simplesmente porque Cristo o ordenou, mas também porque pelo Batismo é que recebemos pela primeira vez, a remissão dos pecados, produzindo-se assim a nossa REGENERAÇÃO ESPIRITUAL; desta forma, o Batismo não é um mero sinal exterior da nossa fé;

3.º — esta regeneração espiritual pelo batismo se opera porque nêle recebemos o DOM DO ESPÍRITO SANTO. Êste dom do Espírito Santo que nos regenera é a GRAÇA SANTIFICANTE, que é o próprio Espírito Santo habitando na nossa alma.

Que o Batismo é necessário para a entrada no reino dos Céus para se ganhar a vida eterna, se vê claramente pelas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua entrevista cOm Nicodemos.

Vindo Nicodemos uma noite visitar a Jesus, Êste lhe diz as seguintes palavras: Na verdade, na verdade te digo que não pode VER O REINO DE DEUS senão aquêle que renascer de novo (João III-3).

A palavra grega que a Vulgata aí traduz pela expressão DE NOVO é ÁNOTHEN, a qual pode ter dois sentidos:

ÁNOTHEN = de cima, do alto, do Céu. ÁNOTHEN = de novo, outra vez.

De forma que a frase pode ter pelo texto grego 2 traduções: Se alguém não nascer DO ALTO, não pode ver o reino de Deus. Se alguém não nascer OUTRA VEZ, não pode ver o reino de Deus.

Isto não atinge absolutamente a nossa questão. Desde que, como católicos e protestantes estamos de acôrdo em afirmar contra os espiritistas, aí se trata de uni NASCIMENTO ESPIRITUAL em contraposição com O NASCIMENTO TERRENO, que vem por intermédio de nossos pais, tanto faz Cristo dizer que é preciso que nós nasçamos DO ALTO, isto é, nasçamos da graça de Deus, para ganharmos o Céu; como dizer que é necessário nascermos DE NOVO, isto é, já nascemos materialmente pela geração humana, é preciso que haja agora outro nascimento: o nascimento espiritual pela graça.

O fato, porém, é que Nicodemos não estava na altura de perceber o verdadeiro pensamento do Mestre. Tomou a sua afirmação num sentido muito material: Como pode um homem nascer sendo velho? porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? (João III-4).

Jesus lhe mostra então que se trata de um nascimento, não de pai e mãe humanos, como é o nascimento terreno, mas sim de um nascimento espiritual pelo Batismo, em que entram também p e mãe, mas a mãe é a água, escolhida para significar a purificação interior que se produzirá no cristão, e o pai é o Espírito Santo que fecunda esta água com seu poder santificador: Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer da ÁGUA e dó Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do espírito é espírito (João III-5 e 6).

Para o nascimento espiritual de que fala Jesus, não é preciso que voltemos ao ventre materno; é preciso, sim, que sejamos lavados pela água do Batismo.

É de notar que o texto grego traz somente a palavra Espírito — renascer de água e de Espírito — mas não há dúvida alguma de que aí se trata do Espírito Santo, pois a regeneração, a renovação do indivíduo, seu renascimento espiritual é, em outros textos da Bíblia, atribuído claramente ao Espírito Santo: regeneração e renovação do ESPÍRITO SANTO (Tito III-5) vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se é que o ESPÍRITO DE DEUS habita em vós (Romanos VIII-9) o que despreza isto, não despreza a um homem, senão a Deus que pôs também seu ESPÍRITO SANTO em, nós outros (1.ª Tessalonicenses IV-8) foram feitos participantes do ESPÍRITO SANTO (Hebreus VI-4) os vossos membros são templo do ESPÍRITO SANTO (1.ª Coríntios VI-19).

E muitas vêzes na Bíblia o Espírito Santo é designado simplesmente pela palavra Espírito: Tôdas estas coisas obra só e um mesmo ESPÍRITO repartindo a cada um como quer (1.ª Coríntios XII-11) o qual também nos selou e deu em nossos corações a prenda do ESPÍRITO (2.ª Coríntios 1-22) o mesmo ESPÍRITO dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus (Romanos VIII-16) ainda o ESPÍRITO não fôra dado, por não ter sido ainda glorificado Jesus (João VII-39). Usando esta expressão: RENASCER DA ÁGUA E DO ESPÍRITO SANTO, Jesus fala de modo a não se confundir o seu batismo com o batismo de João.

275. BATISMO DE JOÃO E O DE CRISTO.

Antes de iniciar Jesus a sua pregação, aparece S. João Batista, profeta e mais do que profeta, porque é o Precursor, aquêle que aponta com o dedo o próprio Cordeiro de Deus, e é o maior dos homens, dentre todos os da Lei Antiga: Mas que saístes a ver? um profeta? Certamente vos digo e ainda mais do que profeta; porque êste é de quem está escrito: Eis aí envio eu o meu anjo ante a tua face, que aparelhará o teu caminho diante de ti. Na verdade vos digo que entre os nascidos de mulheres não se levantou outro maior que João Batista (Mateus XI-9 a 11).

Sendo o Precursor do Divino Mestre, S. João Batista, não só pelo exemplo admirável de suas virtudes e pela enérgica pregação, mas também pelo seu batismo de água prepara os homens para bem aproveitarem do exemplo, da pregação e do batismo de Jesus. Vinha a êle Jerusalém e Vida a Judéia e tôda a terra da comarca do Jordão; e confessando os seus pecados, eram por êle batizados no Jordão (Mateus III-5 e 6).

Qual era o efeito do batismo de João?

O batismo de João não comunicava, em virtude do próprio ato realizado, a graça santificante, ou seja, a presença inefável do Espírito Santo na alma; mas era uma cerimônia que excitava à contrição, à dor dos pecados, ao arrependimento. "Incapaz de purificar diretamente as almas, preparava os caminhos para a remissão dos pecados", como diz S. João Crisóstomo.

S. João Batista mostra mesmo, de uma maneira muito clara, a profunda diferença que há entre o seu batismo e o de Cristo, pois diz a MUITOS DOS FARISEUS E DOS SADUCEUS (Mateus III-7) que vinham ao seu batismo: Eu na verdade vos batizo em água para vos trazer à penitência; porém o que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de Lhe ministrar o calçado; Êle vos batizará no Espírito Santo e em fogo (Mateus III-11). A quem não conhecesse outras passagens da Escritura em que se nos mostra claramente que o batismo de Cristo é ministrado também com ÁGUA, como era o de João, poderia parecer à primeira vista que S. João aí está dizendo que êle batizava com água, mas o batismo de Jesus seria com fogo. Mas é evidente que S. João Batista está falando em sentido figurado: fogo aí está tendo o valor de um símbolo. E S. João está usando de uma figura de retórica chamada HENDÍADIS, que consiste em usar a coordenação em vez da subordinação, ou seja, dizer: batizar no Espírito Santo e em fogo — em vez de dizer: batizar no Espírito Santo QUE É FOGO. O Espirito Santo é comparado com o fogo, porque os efeitos que Éle produz nas almas se assemelham aos efeitos produzidos pelo fogo material nos corpos: pois o fogo ilumina, abrasa, purifica, transforma em si as coisas materiais; assim também o Espírito Santo ilumina a alma com suas divinas luzes, abrasa-a no amor de Deus, purifica-a de seus pecados e a diviniza de um certo modo, tornando-a cada vez mais semelhante a si.

Com o contraste estabelecido entre o seu batismo e o de Jesus, S. João faz ver quanto o batismo de Cristo era superior ao seu. A diferença já não era mais como a diferença, por exemplo, da água para o vinho, porém infinitamente maior: era como a da água para o Divino Espírito Santo. O batismo de Cristo, lavando com água, ia infundir a graça do Espírito Santo nas almas; o seu lavava com água e nada mais.

276. SENTIDO PRÓPRIO E SENTIDO FIGURADO.

Aqui entram os protestantes com o seu jôgo, trazendo uma interpretação muito fora de propósito. Dizem êles: O Sr. não disse que S. João Batista usou a palavra FOGO em sentido figurado e empregou uma figura de retórica chamada Hendíadis? Assim também, quando Jesus disse: Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus (João III-5), tomou a palavra ÁGUA num sentido figurado e usou a Hendiadis; Êle quer dizer: Quem não renascer DA ÁGUA QUE É O ESPÍRITO SANTO não pode entrar no reino de Deus. Assim como o Espírito Santo é comparado com o fogo, porque purifica, é também na Bíblia comparado com a água, à qual compete igualmente a missão de nos purificar. Vejamos, por exemplo, êste texto: O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre correrão rios dágua viva. Isto, porém, dizia Êle, falando do ESPÍRITO que haviam de receber os que cressem nÊle (João VII-38 e 39). Logo, Jesus não está falando do Batismo na sua doutrinação a Nicodemos; está falando apenas do Espírito Santo, que é a água espiritual que nos purifica.

— Esta interpretação é claramente errônea, porque é contrária a uma regra importantíssima de exegese, não só do texto sagrado, mas de qualquer livro, mesmo profano: Nunca se deve procurar um sentido figurado, para eliminar o sentido próprio, numa frase onde ÊSTE SENTIDO PRÓPRIO CABE PERFEITAMENTE. Com êste sistema de ver um sentido figurado numa frase que comporta claramente o sentido literal, se pode ir muito longe. Dêste modo, quando os protestantes quiserem provar pelas Escrituras que Jesus é Deus, é nosso Salvador, que multiplicou os pães, que ressuscitou no terceiro dia etc., etc., os seus adversários poderão dizer: Sim, é Deus, é nosso Salvador, multiplicou os pães, ressuscitou ao terceiro dia, mas tudo isto num sentido figurado. Na frase de S. João Batista não havia outra alternativa senão tomar a palavra FOGO no sentido figurado, pois se sabe muito bem que o batismo pelo qual os homens se tornam cristãos, nunca foi ministrado com fogo. Mas aqui no nosso caso, ao contrário temos vários textos da Bíblia que nos OBRIGAM a tomar a palavra ÁGUA no seu sentido próprio:

1.° — porque o batismo de Cristo se ministra é com ÁGUA, mas água no sentido próprio: água do rio, água das fontes etc. Quando Filipe se encontrou com o eunuco no caminho de Jerusalém a Gaza e o instruiu sôbre as verdades da fé — narram os Atos dos Apóstolos: E continuando éles o seu caminho, chegaram a um lugar onde havia ÁGUA; e disse o eunuco: Eis aqui está ÁGUA; que embaraço há para que eu não seja batizado? E disse Filipe: Se crês de todo o coração bem podes. E êle respondendo disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o coche; e desceram os dous à ÁGUA, Filipe e o eunuco, e o batizou (Atos VIII-36 a 38).

E quando S. Pedro instruiu a Cornélio e aos que com êle estavam e os viu receber o Espírito Santo, disse: Porventura pode alguém impedir a ÁGUA, para que não sejam BATIZADOS êstes que receberam o Espírito Santo, assim também como nós? (Atos X-47).

Nem é preciso gastar muitas palavras nesta matéria, porque todos os protestantes estão de acôrdo com isto: todos os protestantes que usam o batismo, batizam com ÁGUA.

2.º — porque é neste batismo de Cristo, ministrado COM ÁGUA que se opera O RENASCIMENTO ESPIRITUAL DO HOMEM, pois o Batismo traz A REMISSÃO DOS PECADOS e O DOM DO ESPÍRITO SANTO.

Isto se prova claramente nos Atos dos Apóstolos.

S. Pedro acabou de fazer a sua pregação no dia de Pentecostes. Os ouvintes CRERAM na sua pregação e o sinal é que ficaram compungidos no seu coração e disseram a Pedro e aos mais Apóstolos: Que faremos nós, varões irmãos? (Atos II-37).

Aí se vê bem descrita QUAL E A FÉ QUE SALVA, segundo a doutrina de Jesus. Não é a fé daquele que diz assim: Aceite Jesus como meu Salvador, portanto já estou salvo. A fé que salva é a daquele que, uma vez que crê sinceramente, ESTÁ PRONTO A SUBMETER-SE OBEDIENTEMENTE A TUDO QUANTO PRECEITUOU JESUS, vai investigar tudo o que tem a fazer, segundo a doutrina cristã, para cumpri-lo fielmente: Que faremos nós, varões irmãos? (Atos II-37).

Já que creram e aceitaram a palavra de Deus, que lhes cabe fazer nesse momento? É o que S. Pedro lhes vai explicar.

São adultos que ainda não foram batizados, porque agora é que se está começando a pregar a Religião Cristã: é o dia da sua inauguração solene. Ora, o Batismo não só apaga o pecado original que já trazemos do berço, mas todos os pecados que porventura tenhamos cometido até o momento em que nos batizamos. Mas, para que êstes pecados atuais sejam perdoados, é preciso que haja naquele que recebe o Batismo, não só a fé em Cristo, Mas também o sincero arrependimento, o que tem de incluir, está bem visto, um firme propósito de emenda. Aquêles homens já têm a fé, pois receberam a sua palavra (Atos II-41). S. Pedro agora lhes faz ver que é necessário: 1.º — arrependerem-se de seus pecados; 2.º — receber CADA UM o Batismo, para então obter A REMISSÃO DOS PECADOS; recebendo o Batismo, receberão o DOM DO ESPÍRITO SANTO, pois se trata não de um simples batismo de água como o de João, que apenas excita ao arrependimento, mas do batismo de Cristo que batiza no Espírito Santo.

Vejamos as palavras de S. Pedro em resposta aos seus ouvintes: Pedro então lhes respondeu: Fazei penitência, e CADA UM DE VÓS SEJA BATIZADO em nome de Jesus Cristo PARA REMISSÃO DE VOSSOS PECADOS; e recebereis o DOM DO ESPÍRITO SANTO (Atos II-38).

Não é preciso mais explicar que a palavra PENITÊNCIA em português também significa ARREPENDIMENTO, assim como existe o verbo — penitenciar-se — que quer dizer arrepender-se. A palavra grega que corresponde aí à expressão FAZEI PENITENCIA é o verbo METANOÉO que na Bíblia tem o significado de mudar de vida, arrepender-se das faltas, converter-se inteiramente para Deus, o que não exclui a penitência corporal como fruto desta conversão, como já vimos (n.º 197).

Agora apreciemos a

277. LÓGICA PROTESTANTE.

Os protestantes têm na sua Bíblia de Ferreira de Almeida a seguinte tradução dêste texto:

Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo (Atos II-38). (38)

Ora, vemos aí 2 condições a cumprir, para atingir uma finalidade:

1.º — Arrependei-vos => para perdão dos pecados

2.º — cada um de vós seja batizado => para perdão dos pecados

Ou esta finalidade é atingida com as 2 condições ao mesmo tempo (como é de fato no caso) ou com uma só: mas nesta última hipótese teria que referir-se necessàriamente à mais próxima que é a 2.ª (cada um de vós seja batizado). Se eu digo, a alguém, por exemplo: Sente-se e leia êste livro para distrair-se, pode esta finalidade não exigir a 1.ª condição, porque êle pode distrair-se mesmo estando de pé; mas supõe pelo menos a 2.ª condição que é a mais próxima: precisa ler o livro para poder distrair-se.

Ora o que acontece com os protestantes? tomam êste texto: Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados e ensinam que O ARREPENDIMENTO DOS PECADOS é CONDIÇÃO sine qua non para se obter o perdão (e têm que dizer isto, do contrário estarão ensinando uma doutrina ímpia, imoral e escandalosa como ensinou Lutero, dizendo que o homem pode pecar à vontade, não precisa do arrependimento, mas lhe basta a FÉ para salvar-se), porém quanto ao Batismo não admitem que seja condição para perdão dos pecados, dizem que o Batismo não é necessário para regeneração do homem, é um mero sinal exterior da fé. Se ARREPENDEI-VOS que é a 1.ª condição e que está mais distanciada é exigida, quanto mais a 2.ª que é a mais próxima: CADA UM DE VÓS SEJA BATIZADO!

Eis aí um exemplo das torturas que sofrem os textos bíblicos nas mãos dos protestantes, os quais não têm nenhum remorso de rasgá-los assim ao meio para os acomodarem às suas teorias.

E é inútil procurar fazer EMBROMAÇÃO com o texto grego, para iludir aquêles que de grego não entendem patavina.

Vejamos dois textos em que vem esta expressão: PARA PERDÃO DOS PECADOS.

No que ora comentamos — Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado para perdão dos pecados (Atos II-37), PARA PERDÃO DOS PECADOS é expresso no texto grego pelas seguintes palavras: EIS (PARA) ÁPHESIN (PERDÃO) TÓN (DOS) HAMARTIÓN (PECADOS) HYMÓN (VOSSOS). Vemos apenas que Ferreira de Almeida suprimiu a palavra vossos que está no texto original.

Comparemos agora com outro texto da Bíblia, usando a mesma tradução de Ferreira de Almeida. São as palavras de Jesus na última ceia: Isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos PARA REMISSÃO DOS PECADOS (Mateus XXVI-28). PARA REMISSÃO DOS PECADOS é aí expresso assim no texto grego: Eis (PARA) ÁPHESIN (REMISSÃO) HAMARTIÓN (DE PECADOS).

As mesmas palavras gregas EIS ÁPHESIN HAMARTIÓN vêm no texto em que S. Pedro diz que cada um seja batizado para remissão dos pecados e naquele em que Jesus diz que derrama o seu sangue para remissão dos pecados. Acaso não ensinam os protestantes que Cristo nos salvou dos pecados derramando o seu sangue? A remissão dos pecados não era a finalidade a atingir com a sua morte? Assim também Cristo nos salva pelo Batismo; a finalidade a atingir com o Batismo é a nossa remissão.

Há contradição nisto? Absolutamente não.

Cristo nos salvou derramando o seu sangue; e assim foi A CAUSA EFICIENTE, A CAUSA PRINCIPAL da nossa Redenção, do perdão dos nossos pecados; é a fonte donde procede a nossa salvação.

O Batismo, sacramento instituído e preceituado por Cristo, o Batismo, que é conferido em nome de Jesus, isto é, em virtude dos méritos de sua Paixão e Morte, é a CONDIÇÃO IMPOSTA pelo próprio Cristo, é O MEIO, a CAUSA INSTRUMENTAL, pela qual, conforme Éle assim o quis e determinou, a sua Redenção nos é aplicada.

278. O DOM DO ESPIRITO SANTO.

Finalmente o texto de S. Pedro, além de dizer que recebemos a remissão dos pecados, diz que no Batismo se recebe o dom do Espírito Santo.

Que dom é êste, se o Espírito Santo tem muitos dons?

Trata-se aí de um genitivo epexegético, ou seja, que vale como um apôsto, isto é, o dom do Espírito Santo é o próprio Espírito Santo; assim como dizemos: Fulano tem o dom da eloqüência, quer dizer, tem a própria eloqüência; ou como dizemos: Vou receber o presente DE UMA CASA, quer dizer, vou receber uma casa mesmo. Aquêle que recebe convenientemente o Batismo recebe a graça santificante e com esta se torna um templo do Espirito Santo: Os vossos membros são templo do Espírito Santo (1.a Coríntios VI-19).

Portanto, está evidentemente demonstrado que quando Nosso Senhor diz: Quem não renascer da ÁGUA e do ESPIRITO SANTO não pode entrar no reino de Deus (João III-5) não está usando com a palavra ÁGUA nenhuma figura de retórica. Está-se referindo ao Batismo QUE SE MINISTRA COM ÁGUA E NO QUAL SE RECEBE O ESPÍRITO SANTO, e sem o qual não se pode entrar no Céu, no reino de Deus, pois no Céu ninguém entra sem ter obtido a remissão dos pecados; e é pelo Batismo que aquêles que não são batizados ainda recebem a remissão dos pecados, pelo menos do pecado original se outro não houver além dêste, como acontece, por exemplo, no caso das crianças.

279. CONVERSÃO E REGENERAÇÃO DE SAULO.

Outra prova muito clara de que no Batismo se opera A REMISSÃO DOS PECADOS, é o que se deu na conversão de S. Paulo.

Jesus aparece a Saulo que ia respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor (Atos IX-1). Saulo crê imediatamente. E o Senhor lhe ordena: Levanta-te e entra na cidade, e aí se te dirá o que te convém fazer (Atos IX-7).

Levado para Damasco pelos companheiros, pois a visão o tinha cegado, Saulo esteve ali três dias sem ver, e não comeu nem bebeu (Atos IX-9).

Agora é o caso de perguntar: nesses três dias de espera, Saulo que já crê em Jesus de todo o coração, está, em virtude da suar fé, purificado de seus pecados ou precisa, PARA ISTO, receber o Batismo? É o que veremos.

Passados os três dias, lhe aparece Ananias, por ordem divina. Restitui-lhe a vista; mostra-lhe a missão que lhe está reservada e diz: E agora para que te demoras? Levanta-te e RECEBE O BATISMO e LAVA OS TEUS PECADOS, depois de invocar o seu nome (Atos XXII-16).

É um adulto que vai ser batizado. Precisa, primeiro, preparar-se pelos sentimentos de fé e contrição, e por isto Ananias lhe diz que deve invocar o nome do Senhor. Depois é a água purificadora do Batismo que deve LAVAR os seus pecados. Não se podiam exprimir de maneira mais clara a necessidade, os efeitos e o simbolismo dêste sacramento da Nova Lei, que é o Batismo.

Mas haverá sôbre a face da terra algum homem tão teimoso, tão cheio de má vontade, tão falto de compreensão, que ainda se lembre de objetar que aí são duas ordens diversas: Recebe o batismo — é uma; e lava os teus pecados — é outra; e que, portanto, não é o Batismo que lava os pecados? É bem possível; porque, quando um homem cisma para torcer os textos da Bíblia, tudo pode acontecer.

Por isto o leitor nos perdoará que nos detenhamos mais um pouquinho com êste teimoso.

— Amigo, será que Você nunca percebeu que é comum, quando se usam 2 imperativos, não se tratar de 2 ordens diversas, mas o primeiro imperativo exprimir o modo de realizar o segundo?

Suponhamos que Você espera em casa uma visita. E vê que o seu filhinho está todo enlameado, porque andou brincando o dia todo no quintal. E Você lhe diz: Menino, vai tomar o teu banho e limpa-te desta tua imundície. São duas ordens que Você está dando ou uma só? Não está Você ordenando apenas que êle, TOMANDO O BANHO, se limpe da imundície em que se encontra? Assim também Saulo, ouvindo estas palavras: Recebe o teu Batismo e lava os teus pecados — recebeu apenas uma ordem: a de, RECEBENDO O BATISMO, lavar as manchas que os pecados tinham deixado em sua alma.

280. BANHO DE ÁGUA.

A tese já está suficientemente provada. Vamos porém, acrescentar outros textos bíblicos irrecusáveis, em confirmação da mesma.

S. Paulo, na sua Epístola a Tito, fala do estado sumamente infeliz em que estavam os cristãos, antes de se converterem: Também nós algum tempo éramos insensatos, incrédulos, metidos no êrro, escravos de várias paixões e deleites, vivendo em malícia e em inveja, dignos de ódio, aborrecendo-nos uns aos outros (Tito III-3).

Depois mostra que por pura misericórdia de Deus, foram regenerados pelo batismo do Espírito Santo para que, justificados pela graça, se tornassem herdeiros segundo a esperança da vida eterna: Mas quando apareceu a bondade do Salvador nosso Deus e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito nós outros, mas segundo a sua misericórdia nos salvou pelo BATISMO DE REGENERAÇÃO E RENOVAÇÃO DE ESPÍRITO SANTO, o qual Êle difundiu sôbre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, sejamos herdeiros segundo a esperança dl& vida eterna (Tito III-4 a 7).

Aqui dirão os protestantes:

– A palavra grega que P.e Pereira traduz por BATISMO é LOUTRÓN que quer dizer banho, lavamento, lavacro. Como prova o Sr. que S. Paulo, falando aí num banho de regeneração e renovação do Espírito Santo, não está tomando a palavra BANHO num sentido figurado?

– Primeiro que tudo, a palavra, BATISMO também quer dizer banho, lavamento, lavacro. E se S. Paulo fala aí num BANHO que caracterizou a conversão dos fiéis, a sua passagem do estado lamentável de outrora para a regeneração cristã, é claro que é ao Batismo que êle se refere.

Vocês, protestantes, só se convenceriam se S. Paulo aí tivesse dito

BANHO DE ÁGUA (que seria em grego LOUTRÓN HYDATOS), não é verdade?

Pois bem, vamos provar que aí se trata de banho de água. Provamo-lo com outro texto de S. Paulo, em que êle usa exatamente êstes têrmos

BANHO DA ÁGUA (LOUTRÓN TÓU HYDATOS) para significar a purificação, a santificação que se opera nas almas: Vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a santificar, PURIFICANDO-A NO BATISMO DA ÁGUA PELA PALAVRA DA VIDA, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem outro defeito algum semelhante, mas santa e imaculada (Efésios V-25 a 27).

O que o Pe. Pereira traduziu por BATISMO DA ÁGUA é aí no grego exatamente LOUTRÓN TÓU HYDATOS (Banho da água). Como se vê, S. Paulo se serve da palavra LOUTRÓN para designar o Batismo, pois diz que com êste BANHO DA ÁGUA Cristo purifica a sua Igreja.

Para mostrar que a purificação espiritual não se opera só pela água, mas sim pela água unida às palavras ditas em nome de Jesus Cristo Salvador Nosso, palavras estas que dão à água tôda a sua eficácia, S. Paulo acrescenta PELA PALAVRA DA VIDA, a palavra que vivifica o Batismo.

Os protestantes gostam de apresentar, com ares de vitória, o seguinte texto de Jó para provar que o Batismo não purifica a nossa alma, porque a água não purifica espiritualmente a ninguém: Ainda que me lavasse como com ÁGUA de neve e brilhassem as minhas mãos como as mais limpas, contudo me cobrirás de imundícias, e os meus próprios vestidos me abominarão (Jó IX-30 e 31).

As palavras de Jó foram ditas vários séculos antes que Jesus instituísse o Batismo. Porém mesmo agora nós as subscreveríamos perfeitamente, ou melhor, diríamos ainda mais do que Jó: Podemos ajuntar a água tôda dos rios, dos mares e das fontes e derramar sôbre uma pessoa, não é isto que a vai purificar de seus pecados. Indiscutivelmente certo. Quando dizemos esta frase, estamos considerando apenas o efeito da água. Mas junte-se a um pouco dágua A PALAVRA DA VIDA, seja esta água ministrada com as palavras que Cristo ordenou se dissessem, aí a coisa muda completamente de figura. A regeneração espiritual se realiza em virtude dos méritos infinitos de Cristo, que foi quem mandou batizar.

281. O BATISMO NOS SALVA.

Finalmente S. Pedro, na sua 1.ª Epístola, falando do Batismo, mostra que êle nos SALVA, assim como foram salvos no dilúvio aquêles que estavam na arca de Noé; e nos salva, não com a simples purificação do corpo, mas com o arrependimento, com a mudança de vida, salva pelo poder de Jesus Ressuscitado que venceu a morte para que fôssemos herdeiros da vida eterna: Nos dias de Noé esperavam a paciência de Deus, enquanto se fabricava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, somente oito se SALVARAM NO MEIO DA ÁGUA; O que era figura do BATISMO dagora que também vos SALVA, não a purificação das imundícias da carne, mas a promessa de boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo que está à direita de Deus, depois de haver absorvido a morte para que FÔSSEMOS HERDEIROS DA VIDA ETERNA (1.ª Pedro III-20 a 22).(39)

Se o Batismo salva, é porque não é mero sinal exterior da fé, é porque por meio dêle nos revestimos da graça: Todos os que fôstes batizados em Cristo revestistes-vos de Cristo (Gálatas III-27).

Bem poderíamos terminar aqui êste capítulo. Mas os protestantes são férteis em levantar objeções e temos que nos entreter ainda um pouquinho com êles. Antes, porém, diremos uma palavrinha sôbre

282. O BATISMO DE IMERSÃO.

Há 3 modos de realizar o rito do Batismo: por aspersão, sacudindo, ou melhor, salpicando água sôbre o que vai ser batizado; por Infusão, derramando-lhe água sôbre a cabeça, com uma concha, por exemplo; por imersão, fazendo-o mergulhar dentro dágua.

Jamais a Igreja Católica teve a menor dúvida sôbre a VALIDADE do batismo conferido sob qualquer uma destas três formas, assunto que é Motivo de discussão entre as várias seitas protestantes.

Na prática, o que é que determina a Igreja sôbre o modo de administrar o Batismo? Vejamos o que diz o Ritual Romano: "Embora o Batismo possa ser feito ou por infusão da água, ou por imersão, ou por aspersão, contudo o primeiro ou o segundo modo, que estão mais em uso, sejam conservados de acôrdo com o costume das igrejas".

Pelo que se vê, a Igreja não quer que se faça o batismo por aspersão (não que o considere inválido, mas pelo perigo da água não atingir convenientemente o batizando). E quanto aos outros 2: infusão ou imersão, manda que se siga o costume de cada lugar.

O batismo de João foi por imersão. E era êste o modo mais usual de se administrar o Batismo no tempo dos Apóstolos; dizemos — o mais usual — porque, como veremos daqui a pouco, não se pode absolutamente provar que fôsse o único.

Referindo-se às cerimônias do Batismo, tal qual eram usadas no seu tempo, ou melhor, referindo-se ao modo pelo qual êle e os seus destinatários foram batizados, S. Paulo na Epístola aos Romanos tira daí um belo simbolismo: NÓS FOMOS SEPULTADOS com Êle para morrer ao pecado pelo Batismo, para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Padre, assim também nós andemos em novidade de vida; porque se nós fomos PLANTADOS juntamente com Êle à semelhança da sua morte, se-lo-emos também igualmente na conformidade da sua ressurreição (Romanos VI-4 e 5).

Porém agora vem outra questão bem diferente: Era usual no tempo dos Apóstolos o batismo por imersão. Está certo. Mas, se fôsse êste batismo feito por infusão ou por aspersão, seria válido? Do fato de S. Paulo tirar um simbolismo do batismo por imersão, não se segue que o batismo ministrado de outra forma não seja válido também.

É uma destas questões que a Bíblia não resolve, porque dela não trata diretamente, e eis aí o motivo por que os protestantes que tudo querem resolver só pela Bíblia se dividem nesta matéria: uns dizem que sim, outros dizem que não. A Igreja está segura neste ponto, porque a doutrina que recebeu dos Apóstolos, a doutrina nela ensinada desde o comêço, é que o batismo não precisa ser por imersão para surtir o seu efeito.

Temos neste ponto um documento antiqüíssimo, que é do tempo dos próprios Apóstolos. É o DIDAQUÉ ou Doutrina dos 12 Apóstolos, de autor desconhecido, o mais antigo livro cristão não-canônico, pois foi escrito no século 1.º, sendo provàvelmente anterior ao ano 70.

O DIDAQUÉ diz exatamente o seguinte:

"Batizai no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo em água viva. Se não tens água viva, batiza com outra água, se não podes fazê-lo com água fria, faze-o com a cálida. Se não tiveres uma nem outra, DERRAMA ÁGUA na cabeça três vêzes no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo".

Que a imersão não seja necessária para a validade do Batismo, isto é bastante lógico, porque se Jesus quer que se batize a todos os povos (Ensinai tôdas as gentes, batizando-as — Mateus XXVIII-19), se o Batismo é necessário para todos e se para êle Cristo escolheu a água, não só pelo seu simbolismo, mas porque a água é uma coisa fácil de se encontrar em qualquer parte, não se pode conceber que Cristo exigisse obrigatoriamente a imersão, quando nem sempre é fácil encontrar nas imediações um rio ou piscina onde o Batismo possa ser administrado por meio de um mergulho. Em alguns lugares até, os rios ficam congelados durante todo o inverno. Em vista destas dificuldades, se vê logo que não se pode provar pela Bíblia que os Apóstolos só usaram a imersão; antes com grande probabilidade se pode dizer que êles usaram também a infusão ou aspersão.

No dia de Pentecostes, por exemplo, se converteram e foram batizadas perto de 3.000 pessoas. E os que receberam a sua palavra foram batizados; e ficaram agregadas naquele dia perto de três mil pessoas (Atos II-41). Não havia água fluente em Jerusalém/ a não ser o rio Siloé que ficava distante da cidade, a qual era abastecida por águas das cisternas. E as piscinas públicas estavam em mãos das autoridades que eram hostis aos Apóstolos e não as cederiam para isto. Pouco tempo depois se converteram 5.000 pessoas (Atos IV-4). Não era nada provável que ali em Jerusalém tantas pessoas ao mesmo tempo pudessem ser batizadas por imersão; foi por aspersão, ou por infusão, no máximo, que os Apóstolos as batizaram.

S. Paulo batizou o carcereiro e sua família à meia-noite, quando ainda estava prisioneiro (Atos XVI-33) e não é de crer também que nessas circunstâncias o batismo tivesse sido por imersão.

Nos primeiros séculos da Igreja, esteve comumente em uso o batismo por imersão; assim é que a partir do século IV eram construídos perto das igrejas os batistérios nos quais estavam as piscinas, onde desciam as pessoas para ser batizadas. Mas sempre esteve em uso, como atesta o historiador Eusébio, o batismo por infusão para os doentes que não podiam imergir, e que era chamado batismo dos clínicos.

Até o século XIII o batismo por imersão era o mais usado, porém do século XIV em diante começou a tornar-se geral no Ocidente o uso do batismo por infusão por ser mais simples e mais prático, enquanto no Oriente a imersão ainda é comumente empregada.

Tôda a questão, porém, gira em tôrno desta pergunta: É válido ou não é o batismo por infusão? Se é válido, se a pessoa, recebendo o batismo por infusão, recebe do mesmo modo o Espírito Santo, a graça santificante, a remissão dos pecados, que isto é que é o principal, se não há nenhuma palavra da Bíblia QUE TORNE OBRIGATÓRIO O EMPRÊGO DA IMERSÃO NO BATISMO, então já não é a maior ou menor quantidade de água que importa no caso, o que importa é o efeito produzido na alma do batizando.

E se no batismo por infusão o sepultamento do neófito é apresentado de uma maneira mais imperfeita, porque êle fica debaixo apenas de um pouco dágua, contudo ainda se conserva um belo simbolismo: a água lava e purifica o corpo, o que é sinal daquele ato que ali mesmo se realiza: a purificação da nossa alma.

283. ALEGAÇÃO INCRÍVEL.

Antes de finalizar, vejamos agora quatro objeções protestantes.

A primeira é esta: Jesus foi batizado. Se o Batismo fôsse para apagar pecado, por que motivo então havia de ser batizado Jesus, em quem nenhum pecado podia existir?

– Vê-se aí a mentalidade do protestante: quando os textos da Bíblia são muito claros contra êle, procura armar confusões na sua própria cabeça.

Já explicamos bem claramente que há uma diferença profunda entre batismo de João e o de Cristo; e que o batismo de João não purificava interiormente, NÃO APAGAVA NENHUM PECADO; tinha apenas por fim excitar à contrição e ao arrependimento. Ora, Jesus recebeu o batismo de João. Não foi, portanto, em busca de apagar pecados. Bem como, não sendo pecador, não tinha de que se arrepender e é precisamente por isto que S. João não quer batizá-Lo; Êle não estava tio caso de ser batizado.

Bastava esta consideração da recusa de João Batista, para nenhum protestante alegar como objeção êste batismo de Jesus.

Jesus se põe no meio dos pecadores, sem que o seja, porque quer praticar um ato de humildade; e isto é do agrado de seu Eterno Pai. E convém cumprir tôda a justiça (Mateus III-15): em prêmio dêste ato de humildade, tão agradável aos Céus, Jesus é glorificado: Êste é meu Filho amado, no qual tenho pôsto tôda a minha complacência (Mateus III-17). E assim se Lhe faz justiça.

Mas que há entre êste ato de humildade do Mestre que quis tomar a si tôdas as nossas enfermidades, à exceção do pecado, que quis passar no meio dos outros, como um pecador e por isto recebeu o batismo de João QUE NÃO ERA SACRAMENTO, COM a doutrina de que O SACRAMENTO DO BATISMO POR ÊLE INSTITUÍDO MAIS TARDE apaga realmente o pecado?

284. EXCEÇÃO NÃO DESTRÓI A REGRA.

A outra objeção se refere ao que aconteceu com Cornélio. Quando ouviam a pregação de Pedro, Cornélio e os que com êle se encontravam receberam o Espírito Santo visivelmente, pondo-se a falar diversas línguas e engrandecer a Deus (Atos X-46). Depois disto então Pedro manda batizá-los. Ora, dizem os protestantes, está-se vendo por aí que primeiro se recebe o Espírito Santo, primeiro a alma é regenerada, depois então se recebe o Batismo como sinal desta regeneração. Logo, esta regeneração não é produzida pelo Batismo.

Todo o mundo está vendo logo que aí se trata de um FATO EXTRAORDINÁRIO, que se realizou porque HAVIA RAZÕES ESPECIAIS para isto. Era, portanto, a exceção da regra. Não é honesto abandonar a regra, para se argumentar com a exceção.

A regra é esta e já tinha sido dada por S. Pedro àquelas 3.000 pessoas que, no início da Igreja, creram com sua pregação: Fazei penitência e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo (Atos II-38).

Esta é a ordem, a doutrina estabelecida por Deus a respeito dos adultos: 1.0 — crer e arrepender-se; 2.º — ser batizado em nome de Jesus Cristo para obter então A REMISSÃO DOS PECADOS, recebendo o dom do Espírito Santo.

Mas Deus é dono e senhor absoluto de seus dons; não está escravizado à ordem por Êle próprio estabelecida.

Ali no caso havia uma razão tôda especial para alterar esta ordem de coisas, porque Deus queria dar aos judeus de uma maneira extraordinária ou, como diríamos na linguagem de hoje, DE UMA MANEIRA ESPETACULAR, uma demonstração de que já não considerava como obrigatória nem necessária a circuncisão e de que ao reino de Deus eram chamados também os gentios. Por isto quis o Divino Espírito Santo baixar sôbre gentios, sôbre incircuncisos, visivelmente, com o dom das línguas, de modo que não deixasse margem a nenhuma dúvida. Para esta demonstração é escolhido entre outros, Cornélio, homem justo e temente a Deus (Atos X-22).

Ora, os judeus eram tão aferrados às suas próprias idéias e tinham tamanha aversão aos gentios que, se o Espírito Santo baixasse visivelmente sôbre Cornélio e os seus, só depois que Pedro os batizasse, ainda seriam capazes, na sua ignorância e teimosia, de censurar a Pedro, dizendo que êle não deveria ter feito isto, não deveria tê-los batizado para receberem o Espírito Santo, porque não eram circuncidados etc. Por isto, antes mesmo que Pedro os mandasse batizar, o Espírito Santo desce sôbre êles de maneira miraculosa, com assombro de todos os presentes e agora Pedro se aproveita do fato para falar de uma maneira que não admite réplica: Porventura pode alguém impedir a água, para que não sejam batizados estes, que receberam o Espírito Santo, assim como também nós? (Atos X-47).

Tão categórica era a ordem de Jesus de batizar a todos, que não se tratava do caso de dispensar o Batismo. Mesmo assim, era necessário batizá-los: Cristo o ordenou; e o Batismo não serve só para regenerar a alma e dar-lhe o Espírito Santo; serve também para introduzir o batizando na verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se os protestantes querem argumentar com êste CASO EXTRAORDINÁRIO, acontecido com Cornélio, e não com o que, segundo a palavra de Pedro, devia acontecer com tôda a Igreja (pois aquelas três mil pessoas no dia de Pentecostes representavam a Igreja em pêso) por que é então que não se servem dêste caso para argumentar que o Espírito Santo só desce sôbre os fiéis VISIVELMENTE, com manifestações externas, ficando êles a falar diversas línguas (Atos XI-46)? Se querem argumentar com a exceção e não com a regra, por que motivo não se servem do que aconteceu com o Apóstolo das Gentes (Gálatas 1-12) para tentar provar que recebemos o Evangelho diretamente por revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo? porque não se servem do que aconteceu com S. João Batista (Lucas 1-15) para ensinar que somos santificados pelo Espírito Santo já no ventre de nossa mãe?

O caso de Cornélio era excepcional, tão excepcional que nem para o próprio S. Paulo, cuja conversão foi também acompanhada de circunstâncias maravilhosas, para o próprio S. Paulo não se abriu uma exceção daquelas: RECEBE O BATISMO E LAVA-TE DE TEUS PECADOS (Atos XXII-16).

E uma exceção não serve para destruir, serve apenas para confirmar a regra.(40)

285. IMPERATIVO COM PARTICÍPIO PRESENTE.

Nosso Senhor disse aos Apóstolos: Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes, BATIZANDO-AS em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo (Mateus XXVIII-19).

Ora, ENSINAI é no grego MATHETÉUSATE que quer dizer FAZEI DISCÍPULOS.

É como se houvesse em português o verbo — discipulizar (tornar discípulo) e Nosso Senhor dissesse: Ide e discipulizai a todos os povos.

Aí entram os protestantes com uma terceira objeção: Se Nosso Senhor diz: Ide, FAZEI DISCÍPULOS A TODOS OS POVOS BATIZANDO-OS — quer dizer que o Batismo serve só para isto: para um homem se tornar discípulo de Cristo; não serve para perdoar pecados, nem para transmitir o Espírito Santo.

— Em primeiro lugar, não repugna que o Batismo sirva para uma coisa e para outra, assim como também não repugna que o menino, ao ser matriculado numa escola, receba de graça um belo fardamento para usá-lo, afim de honrar a mesma escola: a graça santificante é êste belo uniforme de gala, de que a alma se reveste ao receber o Batismo, o qual não deixa de ser uma matrícula na escola divina de Jesus. Depois... por mais lindo, engenhoso e erudito que pareça êste sistema de recorrer ao texto grego afim de forçar uma interpretação própria, desprezando outras passagens tão claras da Bíblia, tudo isto se desmorona fàcilmente diante de uma simples regra de gramática.

Tanto no grego, como no latim, como em português, como em muitas outras línguas do mundo, é muito comum o particípio presente usado depois do imperativo ter fôrça também de imperativo: Ide, fazei discípulos a todos os povos, BATIZANDO-OS em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo — não é nada mais do que: Ide, fazei discípulos a todos os povos; BATIZAI-OS em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo.

Vamos dar um exemplo para ilustrá-lo.

Vocês, protestantes, chegam a uma localidade e conquistam prosélitos. Nesse meio encontram algumas senhoras que se dispõem a ensinar às crianças e dão-lhes esta ordem: Ide, fazei discípulos êstes meninos, fornecendo-lhes o necessário para sua saúde e vestuário e tratando-os com muito carinho.

Ao cabo de algum tempo, Vocês chamam as professôras e indagam como vão os meninos, se já sabem ler alguma coisa, se já conhecem a tabuada etc. Elas, porém, respondem: Não lhes demos nenhuma aula, por isto êles não sabem nada, porém temos fornecido o necessário para a sua saúde e vestuário e os temos tratado com muito carinho. Como OS Srs. nos disseram que OS fizéssemos discípulos FORNECENDO-LHES O NECESSÁRIO, achámos que fornecendo-lhes o que era necessário já os estávamos ensinando e fazendo discípulos.

É quando Vocês dizem: Não, senhoras; estão completamente erradas. Quando dizemos: Ensinai, fazei discípulos os meninos, fornecendo-lhes o necessário etc., estamos dando 2 ordens: Ensinai, fazei discípulos — é uma; fornecei o necessário — é outra.

É o caso também da palavra de Cristo aos seus Apóstolos: Ide, fazei discípulos a todos os povos — é uma ordem; batizai-os em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo — já é outra. Não existe um nexo lógico de subordinação entre a segunda e a primeira.

286. O RESULTADO DA PREGAÇÃO.

Finalmente vem o texto de S. Marcos: O que CRER e FÔR BATIZADO será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-16).

Estão vendo? dizem os protestantes. Nosso Senhor fala primeiro em CRER, para depois falar em SER BATIZADO. Logo, para ser batizado é preciso crer primeiro, portanto a criança que ainda não é capaz de crer não pode receber o Batismo. Portanto, o Batismo é um mero sinal da fé.

— Aí não se prova nem uma coisa, nem outra. É sempre a tal história da frase separada do seu contexto.

O que é que disse o Divino Mestre? Disse o seguinte: IDE POR TODO O MUNDO, PREGAI O EVANGELHO A TÔDA A CRIATURA. O que crer e fôr batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado. E êstes sinais seguirão aos que crerem: expulsarão os demônios em meu nome; falarão novas línguas; manusearão as serpentes e se beberem alguma potagem mortífera, não lhes fará mal; porão as mãos sôbre os enfermos e sararão (Marcos XVI-15 a 18). Nosso Senhor está falando a respeito da pregação do Evangelho que vai ser feita pelos Apóstolos, está-se referindo especialmente à pregação feita naqueles primeiros dias da Igreja, pois se sabe muito bem que hoje não se verifica mais êste fenômeno: de todos os que crerem com a pregação ficarem com o dom de expulsar demônios, manusear serpentes, imunizar-se contra venenos, curar os enfermos com a simples imposição das mãos etc. Esta pregação dos primeiros dias a quem vai ser feita? É evidente que vai ser feita A ADULTOS, como tôda e qualquer pregação, pois a crianças sem uso da razão não se fazem discursos. É claro também que vai ser feita A ADULTOS TODOS PAGÃOS, porque agora é que vai iniciar-se a propagação do Cristianismo, agora é que vai começar a se pôr em prática o batismo cristão. Se alguns foram batizados por João, tiveram que receber depois o batismo de Cristo: E êle (Paulo) lhes disse: Em que batismo logo fôstes vós batizados? Êles disseram: No batismo de João. Então disse Paulo: João batizou ao povo com batismo de penitência, dizendo que cressem nAquele que havia de vir depois dêle, isto é, em Jesus. Ouvido isto, FORAM BATIZADOS EM NOME DO SENHOR JESUS (Atos XIX-3 a 5).

Saindo por tôda a parte a fazer a pregação diante de multidões e multidões de pagãos, qual será o resultado? Uns hão de crer. É referindo-se a êstes que Nosso Senhor diz: O que crer e FÔR BATIZADO será salvo (Marcos XVI-16). O texto, em vez de ser a favor dos protestantes é positivamente contra êles, pois Jesus ensina que para a salvação não basta crer, é preciso também receber o Batismo, o que concorda muito bem com a instrução que deu S. Pedro no dia de Pentecostes: seus ouvintes creram na pregação,_ mas, se queriam obter a remissão dos pecados e receber o dom do Espírito Santo, tinham que arrepender-se e cada um ser batizado.

Outros não haviam de crer. Para êstes Jesus não fala em batismo por uma razão muito simples: aquêles que não cressem não pediriam o Batismo.

Se, portanto, Jesus neste texto de S. Marcos Sla primeiro em FÉ para depois falar em BATISMO, daí não se segue que esteja dizendo que as crianças não. podem ser batizadas, nem que o Batismo não confete a graça santificante. Está falando a respeito de ADULTOS, e de adultos pagãos, e é exatamente isto o que a Igreja ensina: precisam crer primeiro e ter uma noção da doutrina cristã, arrepender-se de seus pecados para depois receberem o Batismo. E se Jesus se refere aí no caso exclusivamente a ADULTOS, é porque o assunto de que está falando é nada mais, nada menos do que o resultado da pregação do Evangelho e esta pregação só aos ADULTOS pode ser feita.

Mas, quando Jesus conversava com Nicodemos, falava diretamente sôbre o Batismo e seus efeitos, e aí não faz nenhuma distinção entre adultos e crianças: Quem não renascer da água e do Espírito Santo (quem não renascer, isto é, qualquer pessoa, seja um adulto, seja unia criança) não pode entrar no reino de Deus (João-III-5).

287. A QUE SE REDUZ O BATISMO.

Já vimos, em todo o decurso da Primeira Parte sôbre A Salvação pela Fé, quantos textos tão claros sôbre a necessidade das OBRAS para a salvação, são desprezados, são esquecidos, são sacrificados pelos protestantes para sustentarem a sua tese da salvação só pela fé. Agora entrámos noutro aspecto da questão e passámos a ver como os protestantes, querendo artificialmente, por paus e por pedras, sustentar esta tese da salvação só pela fé, queimam e sacrificam tantos textos bem claros sôbre a necessidade dos SACRAMENTOS instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo para obtermos a salvação.

E se ali nós vimos como os protestantes adulteram a noção de fé, aqui passamos a ver como os SACRAMENTOS são desfigurados nas mãos dos protestantes. O Batismo, por exemplo, a que está reduzido na teoria de muitos "evangélicos"! Já vimos como S. João Batista estabelecia o contraste entre o seu batismo e o batismo de Cristo que lhe era muito superior. O seu apenas excitava à contrição; o de Cristo santificará no Espírito Santo. Mas, segundo a doutrina de muitos protestantes, o batismo de Cristo em nada é superior ao de João. O batismo de João, pelo menos, conduzia ao arrependimento, e assim se não produzia diretamente A REMISSÃO DOS PECADOS, contribuía indiretamente para ela. O batismo de Cristo, apresentado como mero sinal da fé é um banho e nada mais: não purifica, não transforma a alma, não a santifica, não lhe infunde a graça interior, porque segundo a hipótese dêstes "evangélicos" aquêle que o recebe não precisa dêle para isto, pois já está renegerado, já recebeu o Espírito Santo.

– Precisa, sim; dirá o protestante, porque o cristão tem que obedecer a Cristo que o ordenou.

– Aí é que está justamente o espantoso! Cristo faz questão cerrada de que todos os povos recebam o Batismo. E no entanto Êle que foi sempre tão lógico, tão sábio, tão rico em seus ensinamentos, havendo tantas maneiras tão belas, tão eloqüentes de alguém dar sinal da sua fé, foi escolher para isto um simples BANHO CORPORAL, que, na hipótese, não produz na alma nenhum efeito! Banhos corporais, purificações do corpo com água fazem todos os dias, fazem a qualquer momento todos os homens, bons e perversos, crentes e descrentes, cristãos e pagãos. A praia está cheia de criaturas que tomam banhos, sem que isto implique de forma alguma numa demonstração de fé. Por que haveria um simples banho corporal, que não realiza nenhuma transformação na alma, que não lhe confere nenhuma graça, de ser dado EM NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO? Se os protestantes ensinam em geral que Jesus Cristo foi inimigo de ritos e cerimônias, como iria o Divino Mestre fazer tanta questão de um rito que seria perfeitamente dispensável numa pessoa que pela hipótese já está regenerada e justificada pelo Espírito Santo?

Tão lógico é isto que há muitos protestantes, como por exemplo, os Quacres, os Salvacionistas ou Exército da Salvação, os Protestantes Liberais que desprezam completamente o Batismo, como desnecessário. Desfigurando o Batismo para tentar salientar um papel exclusivo da FE na economia da nossa salvação, os protestantes levam logicamente à supressão do Batismo; e, o que é mais interessante, findam também destruindo a própria FE.

A FÉ não nos obriga a aceitar tudo quanto nos diz a Bíblia? Pois bem, neste caso é preciso pôr no seu verdadeiro lugar o Santo Batismo instituído por Cristo, que não é um mero batismo de água para excitar à penitência, mas batismo no Espírito Santo que é fogo (Mateus III-11) ;

Batismo que lava os pecados (Atos XXII-16);

Batismo que nos salva, assim como nos dias de Noé oito pessoas se salvaram no meio da água (1.° Pedro III-20 a 22);

Batismo que não é um simples banho corporal, mas o banho da água pela palavra da vida que santifica a Igreja, purificando-a, tornando-a santa e imaculada (Efésios V-26 e 27), banho de regeneração e renovação do Espírito Santo, para que, justificados pela graça, sejamos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna (Tito III-5 e 7);

Batismo que é preciso receber para remissão dos pecados e para se alcançar o dom do Espírito Santo (Atos II-38);

e é por isto que Jesus Cristo disse: Quem não renascer da ÁGUA E DO ESPÍRITO SANTO não pode entrar no reino de Deus (João III-5).