Capítulo 12

CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO: CRISTO DEU AOS APÓSTOLOS O PODER DE PERDOAR PECADOS

288. O PODER DAS CHAVES.

Já vimos que Jesus Cristo entregou a S. Pedro as chaves do Reino dos Céus (Mateus XVI-19), o que é o mesmo que dizer, deu-lhe plenos poderes sôbre a Igreja. Imediatamente, para dar-lhe uma explicação de como se entendiam êstes plenos poderes, acrescentou: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus e tudo o que desatares sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19). Ficavam assim S. Pedro e os seus sucessores com a autoridade conferida pelo próprio Cristo para ligar a todos os membros da Igreja por meio de leis e obrigações a êles impostas, ou para desligá-los, dispensando-os de tudo aquilo que não fôsse de direito natural e divino; ficavam com o poder de admitir membros na Igreja ou de exclui-los pela excomunhão, de governá-la fazendo as nomeações necessárias, exercendo a missão de julgar as questões, de impor penalidades e castigos, enfim de obrigar os fiéis à obediência, sendo suas ordens confirmadas pelo próprio Céu.

Mais adiante (Mateus XVIII-18) Cristo associou também os Apóstolos aos poderes concedidos a S. Pedro, dando-lhes igualmente o poder de ligar e desligar, ou seja, de governar os fiéis, impondo-lhes obrigações, exigindo-lhes obediência, mas sob a dependência de Pedro, está bem visto, pois Pedro foi declarado, só êle, e mais nenhum Apóstolo, A PEDRA sôbre a qual Cristo edificava a sua Igreja e pedra onde se firmavam, pela proteção divina, a unidade e a solidez desta mesma Igreja.

Mas o que ninguém, nem protestante, nem católico, se atreveria a concluir destas palavras de Cristo dando a Pedro e aos Apóstolos e conseqüentemente aos seus sucessores o poder de TUDO LIGAR E DESLIGAR no govêrno da Igreja, era que o Divino Mestre pretendesse dar-lhes com isto um poder tão sublime e tão profundo: o poder de perdoar pecados. Dirigir, administrar, impor leis, estabelecer penas e castigos, expulsar mesmo da Igreja — tudo isto se prende a um govêrno, por assim dizer, externo. Perdoar pecados é um poder exercido diretamente sôbre o âmago da consciência de cada um.

Foi preciso então que Jesus Cristo noutra ocasião declarasse abertamente que transmitia aos Apóstolos também êste poder sôbre o fôro íntimo das consciências. E Cristo fala de uma maneira clara e decisiva que não deixa margem a nenhuma dúvida, pois diz sem nenhum rodeio que os Apóstolos ficam com a autorização de perdoar pecados ou retê-los, podendo conceder imediatamente ou negar, deixar para outra ocasião a desejada absolvição dos pecados: Recebei o Espírito Santo; aos que vós perdoardes os pecados ser-lhes-ão eles perdoados; aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos (João XX-22 e 23). Esta palavra de Cristo mostra a sua confirmação divina à sentença proferida pelos Apóstolos e equivale a dizer: Se perdoardes, eu também perdôo; se retiverdes, eu também retenho, tal qual como Êle antes havia dito: Tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado TAMBÉM NO CÉU; e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado TAMBÉM NO CÉU (Mateus XVIII-18).

Desde êsse momento se viu que o poder de LIGAR E DESLIGAR que receberam Pedro e os demais, Apóstolos, ia muito mais longe do que a princípio se poderia imaginar. Era também a respeito dos próprios pecados, das culpas íntimas de cada um dos cristãos, que os Apóstolos e seus sucessores recebiam poderes de ligar e desligar: podendo DESLIGÁ-LOS dêstes pecados ou deixá-los ainda presos, LIGADOS pelos mesmos, até que recebessem a absolvição. E assim se começou a ver que o poder concedido a Pedro e do qual os demais Apóstolos também participavam, se estendia até ao mais íntimo das consciências: era não só o poder de governar, mas igualmente o de conceder ou não conceder o perdão dos pecados.

289. NÃO SE TRATA DE QUESTÕES DISCIPLINARES.

Para os protestantes que pregam a salvação só pela fé, que dizem que basta o homem CRER em Jesus, para alcançar o perdão dos pecados se estiver arrependido, que dizem que a graça vem do Céu diretamente, sem ser por intermédio de pessoa alguma, eis aí um texto do Evangelho realmente incompreensível, intrigante, inexplicável. Se para salvar-me basta CRER e ajuntar à crença o arrependimento, por que motivo então haveria o Divino Mestre de conceder a HOMENS êste poder de perdoar ou deixar de perdoar os meus pecados?

As explicações que êles inventam são evidentemente falhas e ridículas, diante de palavras tão claras como são as do Divino Mestre.

Já tivemos ocasião de comentar (n.º 217) a explicação dada por Calvino. Quando Cristo dá aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados ou retê-los, os está mandando PREGAR O EVANGELHO (!!!) Nunca ninguém em tempo algum, antes de aparecer o Protestantismo, teve coragem de afirmar semelhante despropósito, porque não pode haver nenhum homem de bom senso que, diante destas palavras: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos, possa convencer-se de que é à pregação do Evangelho, a qual deve ser feita a tôda criatura, que Jesus aí se está referindo.

Os próprios protestantes hoje se acanham de aparecer em público trazendo uma interpretação tão ridícula. E por isto se limitam a dizer que Cristo naquelas palavras se refere a QUESTÕES DISCIPLINARES; e que aquêle poder foi concedido A TÔDA A IGREJA. Alegações que são ambas evidentemente falsas.

Vamos à primeira.

Cristo usou esta expressão: PERDOAR OS PECADOS. Será que PECADO e QUESTÃO DISCIPLINAR São sinônimos?

Questões disciplinares são divergências que surgem entre os membros de uma Igreja ou dificuldades na administração da mesma e que vão ser solucionadas por aquêle ou por aquêles que para isto tenham autoridade. Mas PENSAMENTOS de inveja, de juízo temerário ou contrários à virtude da castidade, furtos feitos ocultamente de que ninguém chegou a saber, sentimentos ÍNTIMOS de revoltas contra Deus, dúvidas contra a fé, afeição desordenada que nasce no coração para com uma pessoa que já é casada, desejos de vingança, sentimentos de aversão ou de ódio enraizado contra o próximo são pecados? Sim, são pecados. São questões disciplinares? Absolutamente não.

Jesus disse ao paralítico: Os teus PECADOS te são PERDOADOS (Lucas V-20). Jesus disse igualmente à mulher pecadora: PERDOADOS te são teus PECADOS (Lucas VII-48). Jesus diz neste passo do Evangelho: Aos que vós PERDOARDES OS PECADOS, ser-lhes-ão êles PERDOADOS (João XX-23); em todos os três casos sem exceção a palavra PERDOAR é expressa no grego pelo verbo APHIEMI; a palavra os PECADOS é expressa no grego pelo mesmo substantivo HAMARTÍAI (COM O artigo: HAI hamartíai, TAS hamartías). Tudo é enunciado do mesmo modo com as mesmas palavras. Agora perguntamos: Quando Jesus perdoou os pecados ao paralítico e à mulher arrependida, provocando em ambos os casos, escândalos da parte dos judeus (Quem pode PERDOAR PECADOS, senão só Deus? — Lucas V-21. Quem é êste que até PERDOA PECADOS? — Lucas VII-49), tratava-se apenas de questões disciplinares ou tratava-se também do perdão para os pecados de pensamento, ou de sentimento, ou de ações ocultas que êles tivessem cometido? É claro que se tratava de tôda e qualquer espécie de pecado. Logo, é o mesmo poder que é concedido nesta passagem do Evangelho. Jesus tudo pode, e age como bem Lhe apraz; tanto pode perdoar diretamente (e assim o fêz na sua vida pública) como pode, prestes a subir para o Céu, delegar a alguns homens o poder de perdoar em seu nome.

O texto de S. João é tão claro, que o leitor fica até com a curiosidade de saber por que cargas dágua ou por meio de que ginástica mental chega o protestante a procurar convencer-se a si mesmo de que quando Jesus DÁ O PODER DE PERDOAR OS PECADOS E RETÊ-LOS está falando apenas em questões disciplinares.

O seu sofisma é o seguinte rodeio: Poder de perdoar pecados é o mesmo poder de ligar e desligar. Ora, quando Jesus fala no poder de ligar e desligar em Mateus XVIII-15 a 18, refere-se a questões disciplinares. Logo, aqui se trata também de questões disciplinares.

Êste raciocínio baseia-se logo num falso fundamento. Não é exato que o poder de LIGAR e DESLIGAR e O poder de PERDOAR PECADOS e RETER sejam sinônimos, de modo que se possa empregar indiferentemente uma expressão pela outra. A prova é que, como dissemos, quando Cristo deu aos Apóstolos o poder de ligar e desligar, ninguém podia imaginar que Êle com estas palavras tivesse intenção de dar aos Apóstolos um poder tão grande como o de PERDOAR PECADOS E RETER; foi preciso que Cristo depois o dissesse claramente. Com estas simples palavras LIGAR e DESLIGAR, a Igreja não podia nunca provar que os seus ministros tinham poder de perdoar pecados, porque alguém poderia logo dizer: Ligar quer dizer impor uma obrigação; desligar quer dizer desembaraçar alguém de alguma obrigação que sôbre êle pesava. Mas isto nunca foi sinônimo de perdoar ou deixar de perdoar pecados. Quando Cristo, portanto, deu claramente, sem nenhum rodeio, aos Apóstolos, o PODER DE PERDOAR PECADOS E RETER, aí então é que se viu COM esta NOVA PALAVRA DO MESTRE que o poder de ligar e desligar, ALÉM DE OUTRAS COISAS, significava também o poder de perdoar ou deixar de perdoar os pecados. Viu-se então a semelhança entre LIGAR E DESLIGAR e, a outra alternativa, PERDOAR E RETER, mas isto não os torna sinônimos: ver-se-á neste caso que LIGAR E DESLIGAR é um poder ainda mais amplo porque, p. ex., o confessor pode ter o poder de perdoar ou reter, sem ter o poder de fazer leis, de impor ao fiel novas obrigações.

À argumentação protestante neste caso falta, não só a lógica, mas também a sinceridade. Em vez de comentar, de enfrentar diretamente as palavras de Jesus que foram tão claras, tão simples, tão categóricas: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados, e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos, procuram êles lançar a confusão, chamando o leitor para Mateus XVIII-15 a 18 que não vem absolutamente ao caso, pois TRATA DE ASSUNTO DIVERSO. Como o poder de LIGAR e DESLIGAR envolve o poder de perdoar os pecados e retê-los, E MAIS ALGUMA COISA (isto é, govêrno externo, poder de legislar, de decidir questões disciplinares etc) , nem sempre quando se fala em LIGAR E DESLIGAR se está falando em perdoar ou deixar de perdoar pecados. É precisamente o que se dá com o texto de Mateus XVIII-15 a 18, que passamos a transcrever:

SE TEU IRMÃO PECAR contra ti, vai e corrige-o entre ti e êle só: se te ouvir, ganhado terás a teu irmão; mas se te não ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que por bôca de duas ou três testemunhas fique tudo confirmado. E se os não ouvir, dize-o à Igreja; e se não ouvir a Igreja, tem-no por um gentio ou um publicano. Em verdade vos digo que tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu, e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado também no Céu (Mateus XVIII-15 a 18).

O texto grego da edição de Nestle não traz a expressão: CONTRA TI. Mas isto não influi no caso. Suprimamos mesmo o CONTRA TI. SE TEU IRMÃO PECAR — vê-se bem por estas palavras que se trata de alguém que vem fazer uma queixa CONTRA OUTRO que não está procedendo bem. Ao passo que quando Nosso Senhor diz: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos, não se trata absolutamente de alguém que vem fazer queixa contra outro, mas de alguém que precisa do perdão PARA OS PECADOS PRÓPRIOS. O caso é, portanto, bem diferente. Para que então procurar embrulhar o leitor, envolvendo conjuntamente dois textos que não tratam exatamente do mesmo assunto?

Não há meio, portanto, para o protestante escapar à clareza meridiana do texto: trata-se de PERDOAR OS PECADOS e pecado é tudo aquilo em que se desagrada a Deus, mesmo ações e sentimentos ocultos; não se trata apenas de questões disciplinares.(41)

290. NÃO É UM PODER CONCEDIDO A TODA IGREJA.

Os protestantes têm todo interêsse em negar que êste poder de perdoar os pecados tenha sido concedido aos Apóstolos, a ALGUNS HOMENS somente, que o transmitissem aos seus sucessores. Isto é para êles uma questão de vida ou de morte, por uma razão muito simples: o Protestantismo vem do século XVI; a única seita protestante que é anterior a esta época é a seita dos Valdenses que, tendo aparecido no século XIII, depois aderiu ao Protestantismo. Se Cristo fundou a sua Igreja à base de poderes concedidos a homens que por sua vez os passassem a outros, então a Igreja Verdadeira de Cristo tem que existir desde o tempo de Cristo, desde o tempo dos Apóstolos para conservar em si, por sucessão apostólica, os poderes por Cristo concedidos. Ora, a Igreja Católica a única a remontar até êsse tempo.

Compreende-se, por isto, muito bem, a tenacidade com que os protestantes querem negar que Cristo tenha dado só a ALGUNS HOMENS, só aos Apóstolos, o poder de perdoar pecados. E, no entanto, é isto o que nos demonstra claramente o texto sagrado. Vejamo-lo na sua íntegra:

Chegada, porém, que foi a tarde daquele mesmo dia, que era o primeiro da semana e ESTANDO FECHADAS AS PORTAS DA CASA ONDE OS DISCÍPULOS SE ACHAVAM JUNTOS por mêdo que tinham dos judeus: veio Jesus e pôs-se em pé no meio dêles e disse-lhes: Paz seja convosco. E, dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se, pois, os discípulos de terem visto o Senhor. E Êle lhes disse segunda vez: Paz seja convosco. ASSIM COMO O PAI ME ENVIOU A MIM, TAMBÉM EU VOS ENVIO A VÓS. Tendo dito estas palavras, assoprou sôbre êles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo; aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos. PORÉM TOMÉ, UM DOS DOZE, que se chama Dídimo, NÃO ESTAVA COM ELES QUANDO VEIO JESUS (João XX-19 a 23).

A simples leitura dêste trecho mostra com tôda clareza que não se trata aí de um poder concedido a tôda a Igreja, mas só a alguns homens, aos Apóstolos.

É fora de dúvida que Cristo aí não está falando a tôda a Igreja, pois o que Cristo queria dizer a tôda a Igreja dizia-o em público, em campo aberto, diante de todo o povo, como fêz, por exemplo, no sermão da montanha, que ocupa os capítulos 5.º, 6.º e 7.º de S. Mateus. Cristo está falando a homens que estão TRANCADOS DENTRO DE UMA CASA COM MEDO DOS JUDEUS; e como é que dentro de uma casa trancada, os protestantes acham lugar para colocar a Igreja inteira?

Àqueles a quem vai dar o poder de perdoar os pecados, Jesus mostra que lhes vai conferir uma missão especial, semelhante à missão dÊle, Jesus, que não só pregou o Evangelho, mas também, com escândalo injustificado de algumas pessoas, perdoou pecados: Assim como o Pai me enviou a mim, também eu VOS ENVIO a vós (João XX-21). É aos seus ENVIADOS que Jesus vai dar o poder de perdoar os pecados; logo, não é a tôda a Igreja, pois Jesus não ENVIOU todos os fiéis; enviou, sim, os Apóstolos, para a evangelização do mundo. Se queremos ver quais são os ENVIADOS de Jesus, vejamos o que diz o final do Evangelho de S. Mateus:

Partiram, pois, os ONZE DISCÍPULOS para Galiléia, para cima de um monte onde Jesus lhes havia ordenado que se achassem. E vendo-O, O adoraram, ainda que alguns tiveram sua dúvida. E chegando Jesus, lhes falou dizendo; Tem-se-me dado todo o poder no céu e na terra; IDE, pois, ENSINAI TÔDAS AS GENTES, BATIZANDO-AS em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado. E estai certos de que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mateus XXVIII-16 a 20).

A própria palavra APÓSTOLO tem exatamente êste sentido: ENVIADO, QUE SE MANDA PARA LONGE e designava, na língua grega donde se origina, ora homens, ora barcos mercantes que para longe eram enviados.

Os poderes especiais, Cristo sempre os concedeu a ALGUNS HOMENS, ou seja, aos Apóstolos e não a tôda a Igreja. Foi somente aos Apóstolos que Jesus mandou assim ensinar a todos os povos. Foi somente aos Apóstolos que Êle, por ocasião de sua Última Ceia, deu ordem para celebrar a Eucaristia: Fazei isto em memória de mim (Lucas XXII-19). Foi a Pedro individualmente que Cristo deu o poder de LIGAR E DESLIGAR (Mateus XVI-19) e como já demonstrámos claramente (n.º 188) foi aos Apóstolos e não a tôda a Igreja que Jesus estendeu êste poder (Mateus XVIII-18).

São aquêles poucos homens, portanto, que Jesus ENVIA com poderes especiais, assim como o Pai O enviou. Seus poderes, êles têm que transmitir a outros e assim sucessivamente, porque a Igreja tem que perdurar gozando da presença de Cristo através de seus representantes até a consumação do século. Mas a base da organização da Igreja é sempre a mesma. Uns ENSINAM a doutrina, e outros a ouvem, a aprendem. Uns CELEBRAM a Eucaristia; outros apenas a recebem. Uns LIGAM E DESLIGAM; outros são ligados ou desligados. Uns PERDOAM; outros são perdoados: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados (João XX-23).

Para mostrar ainda mais que se trata de um poder especialíssimo, concedido a alguns homens, Jesus usa uma cerimônia tôda especial: SOPRA SOBRE ELES. E seria sumamente ridículo pretender que Jesus ali naquela casa fechada SOPROU SOBRE TODA A IGREJA, soprou sôbre os seus inúmeros membros que dali estavam ausentes.

O poder que Jesus confere é um poder de julgar. Trata-se de perdoar ou reter os pecados conforme o caso. E o papel de Juízes nunca foi confiado a qualquer pessoa, nem à multidão. É preciso receber para isto um dom especial e é por isto que Jesus, tendo soprado sôbre êles, disse: Recebei o Espírito Santo (João XX-22).

Afinal, para mostrar claramente, sem deixar nenhuma dúvida, que é aos Apóstolos que se refere a sua narrativa, que é a êles que tem em vista, nesta passagem do Evangelho, S. João tem o cuidado de logo acrescentar : Porém Tomé, UM DOS DOZE, que se chama Dídimo, NÃO ESTAVA COM ELES quando veio Jesus (João XX-24). Portanto, quando o Evangelista diz que ali naquela casa os DISCÍPULOS SE ACHAVAM JUNTOS (João XX-22) —também no grego com o artigo Hm MATHETÁI; os discípulos; e não era possível estarem juntos ali naquela casa fechada todos os que seguiam a doutrina de Jesus — está focalizando somente os Apóstolos, porque é muito comum nos Evangelhos dar-se aos Apóstolos a denominação de DISCÍPULOS: Então convocados os seus DOZE DISCÍPULOS, deu-lhes Jesus poder sôbre os espíritos imundos (Mateus X-1). Chegada, pois, a tarde, pôs-se Jesus à mesa com OS SEUS DOZE DISCÍPULOS (Mateus XXVI-20). Partiram, pois, os ONZE DISCÍPULOS para Galiléia, para cima de um monte (Mateus XXVIII-16). Ide, dizei a SEUS DISCÍPULOS e a Pedro que Êle vai adiante de vós esperar-vos em Galiléia (Marcos XVI-7). Entrou Êle e os SEUS DISCÍPULOS em uma barca (Lucas VIII-22). Onde está o aposento que tu me dás, para eu nêle comer a Páscoa com os MEUS DISCÍPULOS?. . . E chegada que foi a hora, pôs-se Jesus à mesa e com Êle os doze Apóstolos (Lucas XXII-11 e 14). E foi também convidado Jesus com SEUS DISCÍPULOS para o noivado (João II-2). Lançou água numa bacia e começou a lavar os pés AOS DISCÍPULOS (João XIII-5). Havia um horto, no qual entrou Êle e SEUS DISCÍPULOS (João XVIII-1).

Todo êste conjunto de circunstâncias demonstra com evidência que não se trata absolutamente de um poder concedido a tôda a Igreja. O texto de S. João que é o único Evangelista a narrar o episódio, não deixa a menor dúvida.

Mas os protestantes, na sua ânsia de demonstrar à fina fôrça que Jesus aí falou a tôda a Igreja, vão procurar um texto de S. Lucas, para provar que ali havia outras pessoas além dos Apóstolos, como se o fato de haver ali na casa mais outras pessoas além dos Apóstolos fôsse suficiente para demonstrar que naquela casa fechada Jesus falou a tôda a Igreja. S. Lucas usa esta expressão: os ONZE E OS QUE COM ELES ESTAVAM, a respeito dos que estavam na casa quando Jesus apareceu, o que de modo nenhum indica a presença de TODA A IGREJA, antes mostra que aquêles que por casualidade ou por permanência se encontravam juntamente com os Apóstolos naquela casa eram em tão reduzido número ou tinham tão pequena significação no caso, que os Apóstolos é que merecem a principal menção: os ONZE e os que com êles estavam.

Vejamos, porém, todo o texto do 3.º Evangelho.

S. Lucas narra a aparição de Jesus aos dois homens que se encaminhavam para Emaús (Lucas XXIV-13 a 32) e diz que, logo que Jesus desapareceu e êles chegaram à conclusão de que tinham visto realmente o Divino Mestre, levantando-se na mesma hora, voltaram para Jerusalém e acharam juntos OS ONZE E OS QUE COM ELES ESTAVAM (Lucas XXIV-33).

Quando estavam os 2 contando o que tinham visto, apresentou-se Jesus no meio dêles e disse-lhes: Paz seja convosco; sou eu, não temais (Lucas XXIV-36).

Agora perguntamos: Quando Jesus chegou e encontrou ali os Apóstolos, os viajantes de Emaús e mais algumas pessoas, foi imediatamente dando o poder de perdoar pecados? Não. Os Apóstolos ficaram muito assombrados com a presença do Mestre; Este mostrou-lhes as mãos e pés; depois mandou que pusessem alguma coisa para comer; comeu à vista dêles e afinal deu-lhes explicações sôbre as Escrituras. É o que S. Lucas nos narra nos versículos seguintes:

E disse-lhes: Paz seja convosco; sou eu, não temais. Mas êles, achando-se perturbados e espantados, cuidavam que viam algum espírito. E Jesus lhes disse: Por que estais vós turbados e que pensamentos são êsses que vos sobem aos corações? Olhai para as minhas mãos e pés, porque sou eu mesmo: apalpai e vêde; que um espírito não tem carne, nem ossos, como vós vêdes que eu tenho. E em dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas não crendo êles ainda e estando com admiração transportados de gôsto, lhes disse: Tendes aqui alguma coisa que se coma? E êles Lhe puseram diante uma posta de peixe assado e um favo de mel. E tendo comido Jesus à vista dêles, tomando os sobejos, lhos deu. Depois disse-lhes: Isto que vós estais vendo é o que queriam dizer as palavras que eu vos dizia, quando ainda estava convosco, que era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés e nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento, para alcançarem o sentido das Escrituras (Lucas XXIV-36 a 45).

Êste primeiro contacto de Jesus Ressuscitado com seus Apóstolos, que S. Lucas narrou assim tão circunstanciadamente, S. João narra apenas com muito poucas palavras: Veio Jesus e pôs-se em pé no meio dêles e disse-lhes: Paz seja convosco. E dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se, pois, os discípulos de terem visto o Senhor (João XX-19 e 20).

Depois daquele primeiro contacto, daquela refeição, daquela aula sôbre as Escrituras, Jesus FAZENDO UMA NOVA SAUDAÇÃO, da qual já não fala S. Lucas, passa a conferir aos Apóstolos o poder de perdoar pecados, mesmo porque antes, naqueles momentos de assombro e perturbação, a ocasião não era oportuna: E Êle lhes disse SEGUNDA VEZ: Paz seja convosco. Assim como o Pai me enviou a mim, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras assoprou sôbre êles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo; aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-21 a 23).

Estavam neste instante ali presentes outros que não eram Apóstolos? Não o sabemos. Mas, estivessem ou não ali outras pessoas além dos Apóstolos, não é isto o que faz com que êste poder de perdoar pecados seja a elas concedido. Quando assistimos a uma colação de grau, só por isto nós nos tornamos doutôres? Quando o Bispo ordena um ou mais sacerdotes, também ali na igreja estão presentes muitas pessoas; mas segue-se daí, do fato de estarem presentes àquele ato, que ficam com os mesmos poderes que recebe o neo-sacerdote, que todos os homens, senhoras e crianças que estão assistindo ao ato, se tornam padres também? O Bispo se dirige exclusivamente aos ordinandos, realiza somente sôbre êles as suas cerimônias e é claro que são somente êles que recebem os poderes. Assim Cristo não precisou mandar saírem da casa, ou, pelo menos, da sala aquêles que não eram Apóstolos, pois Êle próprio tomou precauções para demonstrar que não era a todos que o poder de perdoar pecados era concedido: fala só aos seus ENVIADOS; sopra sôbre aquêles a quem quer conceder os poderes, restringindo assim os indivíduos a quem êstes poderes são outorgados. S. João que é o único a narrar o ocorrido, dá a entender claramente que o fato se refere aos Apóstolos: Porém Tomé, UM DOS DOZE, que se chama Dídimo, NÃO ESTAVA COM ELES quando veio Jesus (João XX-26).

Mas, ainda mesmo que os protestantes quisessem teimar por paus e por pedras que, além dos Apóstolos, mais alguns seguidores do Mestre receberam também o poder de perdoar os pecados e reter, o que, aliás, êles não poderão provar nunca pelo relato da Bíblia, daí não se segue que o poder tenha sido dado a tôda a Igreja: teria sido sempre concedido A ALGUNS HOMENS, a quem Deus quis especialmente conferir tal poder, e entre êstes ALGUNS HOMENS figurariam sempre, em primeira plana os Apóstolos.

Além disto, todo êste empenho e fôrça que fazem os protestantes em querer demonstrar que o poder foi concedido A TUA A IGREJA, supõe que êles pudessem provar que se trata aí apenas de QUESTÕES DISCIPLINARES. Assentado, porém, como está, com tôda evidência, que aí se trata realmente do poder de PERDOAR OU RETER OS PECADOS, tal poder concedido a tôda a Igreja se torna verdadeiramente inconcebível. Poder concedido a tôda a Igreja, mas como? Coletivamente, no sentido de que quem vai decidir se os pecados de cada um devem ser ou não perdoados é a assembléia dos fiéis, que vai pôr os diversos e inúmeros casos em votação? É impraticável, uma vez que se trata dos pecados de todos; seria uma interminável tarefa, bem como seria submeter cada fiel a um suplício inominável: o de ver os seus pecados íntimos discutidos e julgados tumultuàriamente pela multidão, Individualmente, no sentido de que qualquer membro da Igreja, isto é, qualquer pessoa batizada, mesmo uma criança de 8 anos ou uma pessoa rude e ignorante que muito pouco conhecimento tem da doutrina, ficaria pessoalmente com êste poder de perdoar ou reter os pecados de qualquer fiel? Seria absurdo, porque o poder de julgar supõe sempre competência, capacidade, critério seguro de julgamento.

Não há para onde correr: ou se aceitam as palavras do Divino Mestre ou não se aceitam, porque elas são tão claras e elucidativas, que não podem ser desvirtuadas com artifícios e subterfúgios.

291. A NECESSIDADE DA CONFISSÃO.

Dando aos seus Apóstolos, aos seus ENVIADOS, o poder de perdoar pecados e reter, Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu um tribunal onde êstes seus autorizados ministros vão funcionar como JUÍZES para proferir uma sentença: conceder ou adiar a absolvição.

Ora, como bem observa Billot, em todo tribunal o juiz, antes de proferir a sentença, precisa de ter conhecimento de duas coisas: uma é a matéria, o assunto, o fato sôbre o qual se vai proferir a sentença; a outra é a causa, o motivo, pelo qual deve ser proferida a sentença favorável ou desfavorável.

A matéria de que aqui se trata são os PECADOS do penitente que devem ser perdoados ou retidos. E cada pecado mortal constitui em si um assunto à parte para ser submetido ao tribunal da Penitência, porque o fiel não pode ser absolvido de um pecado mortal sem ser ao mesmo tempo perdoado de todos os outros. Ou recebe o perdão de todos os pecados mortais ou de nenhum; todos, por conseguinte, têm que ser submetidos a julgamento, pois o fim a atingir é pôr a alma novamente na graça santificante. E em qualquer tribunal o juiz não julga de acôrdo com o que conhece fora do tribunal, mas de acôrdo com aquilo que é ALEGADO, REVELADO, EXPOSTO no processo. Alegado pelo acusador, pelas testemunhas, mas aqui o acusador, a testemunha têm que ser o próprio penitente. Não se trata de um tribunal em que se vão julgar as queixas ou acusações que se fazem contra outrem, mas sim onde o penitente vem em busca do perdão para os seus PECADOS PRÓPRIOS, num assunto íntimo que só a êle e a Deus interessa diretamente; êle, portanto, tem que ser o próprio acusador e testemunha.

A CAUSA, O MOTIVO pelo qual se concede ou não o perdão dos pecados é no caso O ARREPENDIMENTO do penitente.

Quando vê Jesus Cristo dando a ALGUNS HOMENS a autorização para perdoar ou reter os pecados, é bem possível que o protestante fique horrorizado com a idéia de que Jesus Cristo esteja colocando nas mãos de homens o perdão de nossos pecados, ficando êstes homens com o direito de perdoar, se quiserem; ou se não quiserem, negar o perdão. Mas não é disto que se trata. Reter os pecados não é NEGAR a absolvição para sempre; a Igreja sabe muito bem que Deus quer que todos os homens se salvem (1.° Timóteo II-4) e que Ele não quer a morte do ímpio, mas sim que o ímpio se converta do seu caminho e viva (Ezequiel XXXIII-11). A ordem que têm todos os confessores é a de dar a absolvição sempre que o penitente dá provas cabais de seu arrependimento e firme propósito de emenda. _Reter os pecados é ADIAR a absolvição para outro momento mais oportuno, quando o penitente não dá mostras sinceras e claras de estar bem disposto ou precisa tomar uma séria providência ou submeter-se ainda a alguma prova, para se mostrar verdadeiramente digno da absolvição.

Facilmente o cristão se ilude a si mesmo, julgando-se no caso de receber o perdão de Deus, mas não estando ainda em condições de receber esta graça. Vem alguém confessar-se, mas conserva ainda no coração o ódio, o rancor, o desejo de vingança contra o seu próximo. Ou está apegado aos seus vícios e não quer tomar uma séria resolução de deixá-los, custe o que custar; como por exemplo, afastar-se de uma criatura que lhe serve de ocasião para o pecado; ou abandonar de vez os processos pecaminosos de limitação da natalidade. Ou roubou e é preciso restituir; e o confessor acha necessário, como uma amostra sincera de arrependimento, que faça a restituição primeiro, para depois ser absolvido. Ou persiste em dúvidas ou negações contra as verdades da fé; e é preciso primeiro que seja convencido, esclarecido sôbre êstes pontos ou chegue, pelo menos, à boa vontade de crer, para se pôr no caminho do verdadeiro penitente. Etc., etc.

São casos inúmeros que podem aparecer, em que o penitente necessita ser advertido das providências que deve tornar, do caminho que deve seguir, afim de bem se dispor para receber o perdão divino. E para tudo isto é necessário que o penitente não só confesse as suas faltas, mas também revele sinceramente os sentimentos de que está imbuído.

Daí a necessidade da CONFISSÃO.

Não há dúvida nenhuma que o perdão é dado por Deus. O sacerdote é apenas um instrumento nas suas mãos divinas. A absolvição que êle dá está condicionada ao sincero arrependimento do penitente; não existindo êste arrependimento, a absolvição é inválida, não surte o seu efeito.

Mas aqui, como sempre, Deus quis agir por intermédio das causas segundas. O penitente precisa ter em si as disposições necessárias para o perdão divino. E êste perdão divino, Deus manda buscá-lo através de ministros e dispenseiros dos mistérios de Deus (1.ª Coríntios IV-1): Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23). Tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu; e tudo o que vós desatardes sôbre a terra, será desatado também no Céu (Mateus XVIII-18).

292. VANTAGENS DA CONFISSÃO.

Os protestantes, pretendendo, na sistemática oposição que fazem à Igreja, apresentar como mais BONITO, mais HONROSO, mais DECENTE receber-se a graça santificante diretamente de Deus, sem intermediários, não só vão de encontro ao estabelecido pelo próprio Jesus, mas também apresentam um método de santificação muito menos eficaz e menos consentâneo com a natureza humana, do que a Igreja Católica.

O pastor protestante prega para todos, exorta todos ao arrependimento e cada um que se arranje a resolver o seu caso pessoal por si mesmo, sujeito fàcilmente a ilusões nesta matéria, pois ninguém é bom juiz em causa própria.

Estas ilusões, o próprio Protestantismo se encarrega quase sempre de fomentar: incentivando em todos a auto-sugestão de que já estão salvos porque crêem em Cristo, de que já não podem mais perder-se, de que o problema da salvação já está fàcilmente resolvido.

Na Igreja Católica o fiel encontra o tribunal instituído pelo próprio Cristo, onde há sempre um ministro de Deus para lhe fazer, além da pregação geral que fêz para todos, a exortação adequada para o SEU CASO PARTICULAR; para adverti-lo, quando quer iludir-se a si mesmo, julgando-se como o sincero arrependimento, com o firme propósito, com a fé legítima, e no entanto não os possui na realidade; para indicar-lhe, como verdadeiro médico das almas, os métodos mais apropriados de ir corrigindo seus próprios vícios, defeitos e fraquezas, assim como os médicos do corpo servem para nos orientar, prevenir, indicar o verdadeiro caminho a seguir nas nossas enfermidades.

Bem consentâneo com a natureza humana é o emprêgo da confissão, pois basta fazê-la humilde, sincera e bem feita para sentir o bálsamo de paz e consolação que se derrama suavemente sôbre a nossa alma pecadora. E é de notar como a confissão está em uso na Igreja desde os seus primeiros dias e hoje a ciência moderna, a ciência do século XX, vem exaltar o seu efeito altamente benéfico sôbre as enfermidades da alma, mesmo consideradas sob o ponto de vista puramente humano, como não se cansam de proclamar aquêles que são entendidos em psicanálise.

É natural, portanto, que até os próprios autores protestantes reconheçam, uma vez por outra, as vantagens da confissão.

Era protestante Madame de Stael e no entanto escreveu: "Oh! que não daria eu para ajoelhar-me num confessionário católico!"

Era protestante Naville e no entanto disse numa tese defendida perante a Academia de Genebra em 1839: "Quem não lançou olhares de inveja ao tribunal da Penitência? Quem não desejou, nas amarguras do remorso, nas incertezas do perdão divino, ouvir uns lábios que, com o poder de Cristo, lhe dissessem: Vai em paz; teus pecados estão perdoados?"

Era protestante Leibnitz e entretanto no seu Sistema Teológico (Paris 1819 pág. 270) assim se refere à confissão: "Que tôda esta instituição é digna da Sabedoria Divina, não se pode negar; mais ainda, isto é de certo louvável e maravilhoso na Religião Cristã, merecendo admiração dos próprios chineses e japoneses; pois a necessidade de confessar-se afasta do pecado a muitos, principalmente aos que ainda não estão endurecidos; e oferece grande consolação aos que caíram, de tal modo que eu julgo ser um confessor piedoso, grave e prudente um grande instrumento de Deus para a salvação das almas; o seu conselho é proveitoso para moderar os afetos, repreender nossos vícios, evitar as ocasiões de pecado, restituir o furtado, reparar o dano, dissipar as dúvidas, reanimar a alma aflita, finalmente extirpar ou, pelo menos, mitigar todos os males da alma."

Não nos poderemos demorar neste assunto, porque a finalidade desta obra é principalmente a interpretação dos textos da Escritura. Isto é dito aqui de passagem; mas estas declarações feitas por protestantes falam eloqüentemente sôbre as vantagens da confissão, que êles não podem sentir em tôda a sua extensão, mas podem muito bem calcular.

E voltando à Bíblia, veremos que a idéia de confessar os pecados não é de modo algum estranha ao próprio texto sagrado.

293. A CONFISSÃO NA LEI ANTIGA.

O Sacramento da Penitência foi instituído por Cristo após a sua ressurreição, naquelas palavras, aqui já comentadas, em que deu aos Apóstolos o poder de perdoar pecados. Porém muito antes disto, A CONFISSÃO DOS PECADOS já nos era apresentada na Bíblia como uma manifestação de .penitência e de conversão do pecador:

Quando um homem ou uma mulher tiverem cometido algum dos pecados em que de ordinário caem os homens, e tiverem violado por negligência o mandamento do Senhor, e tiverem delinqüido, CONFESSARÃO O SEU PECADO e restituirão o mesmo capital e darão de mais uma quinta parte àquele contra quem tiverem pecado (Números V-6 e 7).

E no dia vinte quatro dêste mês se ajuntaram os filhos de Israel em jejum e vestidos de sacos e cobertos de terra. E os da linhagem dos filhos de Israel foram separados de todos os filhos estrangeiros; e êles se presentaram e CONFESSAVAM OS SEUS PECADOS e as iniqüidades de seus pais (2.° Esdras IX-1 e 2).

Aquêle que esconde as suas maldades não será bem-sucedido; aquêle, porém, que as CONFESSAR e se retirar delas alcançará misericórdia (Provérbios XXVIII-13).

E daqueles que vinham ao batismo de João diz o Evangelho de S. Mateus: Vinha a êle Jerusalém e tôda a Judéia e tôda a terra da comarca do Jordão; e CONFESSANDO OS SEUS PECADOS, eram por êle batizados no Jordão (Mateus III-5 e 6).

Apresentamos êstes textos, não como uma prova da Confissão Sacramental, a qual só foi instituída depois; mas para mostrar, pelo ensino mesmo da Bíblia, que a confissão dos próprios atos é um ato natural de humildade, de penitência que nasce espontâneamente do coração do pecador verdadeiramente contristado por suas faltas e sinceramente compungido.

294. NA 1.ª EPÍSTOLA DE S. JOÃO.

S. João, na sua 1.ª Epístola, diz o seguinte: Se nós CONFESSARMOS os nossos pecados, Êle é fiel e justo para nos perdoar êsses nossos pecados e para nos purificar de tôda a iniqüidade (1.ª João I-9).

O texto de S. João condiciona o perdão dos pecados à CONFISSÃO dos mesmos; logo, não bastam a fé e o arrependimento, como dizem os protestantes; é preciso também CONFESSAR OS PECADOS.

Sim, seja, dizem os protestantes. Mas S. João aí não diz que a confissão deva ser feita ao sacerdote. Logo, pode tratar-se da confissão feita diretamente a Deus, como nós, protestantes, fazemos.

S. João não diz explicitamente que a confissão deva ser feita ao ministro de Deus, como também não diz que a confissão deva ser feita COM VERDADEIRO ARREPENDIMENTO, o que, entretanto, também é indispensável, como reconhecem os próprios protestantes. Não se pode exigir de S. João que exponha num simples versículo tôda a doutrina sôbre o Sacramento da Penitência, tôdas as condições para se obter a remissão dos pecados. A Bíblia fala sempre assim num ESTILO ABREVIADO. O que, porém, não pode deixar de chamar a nossa atenção é que o texto grego traz as mesmas palavras (verbo APHÍEMI = perdoar; TAS HAMARTÍAS = os pecados) ou se trate do poder de perdoar pecados concedido aos Apóstolos (João XX-23) ou neste versículo em que se trata do perdão dos pecados dado por Jesus, se confessarmos êstes mesmos pecados; o que é sinal de que os Apóstolos receberam a delegação para transmitir o perdão de Cristo.

E aí no texto há uma palavrinha que nos mostra muito bem que é à CONFISSÃO SACRAMENTAL que S. João se refere. Êle diz que, se confessarmos os nossos pecados, Deus será FIEL para nos perdoar.

Ora, a palavra FIEL pode ser atribuída às criaturas e pode ser atribuída a Deus, mas não exatamente com o mesmo sentido.

Chamamos FIEL um servo que merece confiança, porque sabe cumprir exatamente as suas obrigações: Muito bem, servo bom e FIEL; já que fôste FIEL nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes (Mateus XXV-21); um amigo que é incapaz de trair: O amigo FIEL é uma proteção, e quem no achou, achou um tesouro (Eclesiástico VI-14), como também chamamos fiel aquêle que crê : Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; chega também a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas FIEL (João XX-27).

Quando, porém, chamamos a Deus de FIEL, queremos indicar com isto que Êle cumpre com a sua palavra, cumpre com aquilo que prometeu: FIEL é o Senhor em tôdas as suas palavras (Salmos CXLIV-13). E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo, para que todo o vosso espírito e a alma e o corpo se conservem sem repreensão para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. FIEL é o que vos chamou, o qual também o cumprirá (ta Tessalonicenses V\23 e 24). Conservemos firme a profissão da nossa esperança, porque FIEL é o que féz a promessa (Hebreus X-23)

Ora, a Bíblia consigna a promessa do perdão feita pela palavra de Deus no Antigo Testamento, àquele que não oculta, mas confessa os seus pecados: Aquêle que esconde as suas maldades não será bem sucedido; aquêle, porém, que as CONFESSAR e se retirar delas, alcançará misericórdia (Provérbios XXVIII-13).

Na Nova Lei, está de pé esta promessa divina feita na Lei Antiga? Sim, está de pé, mas sob um ASPECTO NOVO.

Nós sabemos que caiu a Lei Antiga; e Cristo veio trazer aos homens uma nova economia da salvação diversa em muitos pontos daquela que nos é apresentada no Velho Testamento. Muitos preceitos que vigoravam antes de Cristo, a respeito da alimentação, do culto, do regime do povo eleito não vigoram mais; em compensação Cristo trouxe preceitos novos. Hoje um dos pontos essenciais para se receber o perdão dos pecados e obter a salvação é a FÉ na doutrina de Jesus; antigamente isto não era exigido por uma razão muito simples: Cristo ainda não fôra revelado, nem havia aparecido como Homem-Deus, 2.ª Pessoa da Santíssima Trindade, nem tinha sido ainda revelada a sua doutrina. A circuncisão que era obrigatória, foi abolida; passou a ser obrigatório o Batismo. As cerimônias do Antigo Testamento dão lugar a outros ritos, entre os quais, por exemplo, a Ceia Eucarística. E assim por diante.

Cristo aparece, então, como um Legislador, com plenos poderes (Tem-se-me dado todo o poder no Céu e na terra — Mateus XXVIII-18) para estabelecer novos caminhos afim de se alcançar a salvação.

E assim, nesta renovação que Ele trouxe à terra para as relações entre Deus e os homens, estabeleceu que o perdão dos pecados estivesse subordinado ao poder de ligar e desligar que têm os Apóstolos e os que dêles recebessem esta missão: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23). O exercício dêste poder judiciário-sacramental acarreta forçosamente, como demonstramos, a necessidade da confissão dos pecados feita a êstes legítimos ministros e representantes de Deus.

E assim está de pé a promessa divina de perdão para aquêle que não ocultar, mas CONFESSAR os seus pecados, mas a confissão deve ser feita àqueles a quem Jesus Cristo delegou poderes para perdoar os pecados ou retê-los. Esta é a nova ordem por Cristo estabelecida. E é claro que é DENTRO DESTA NOVA ORDEM DE COISAS que S. João faz alusão à promessa divina: Se nós CONFESSARMOS os nossos pecados, Êle é fiel e justo para nos perdoar êsses nossos pecados (1.ª João I-9).

Na sua ânsia de destruir o efeito daquelas palavras de Cristo conferindo aos Apóstolos o poder de perdoar e reter os pecados, os protestantes costumam recorrer a inúmeros textos do Antigo Testamento, para provar com êles que o perdão vem de Deus sem intermediários ou que a confissão deve ser feita diretamente a Êle, como se o Antigo Testamento em pêso pudesse ANULAR uma palavra de Jesus que tinha em si todo o poder para firmar, na era do Cristianismo, um novo plano de salvação bem diverso daquele que vigorava para os judeus ou para os homens anteriores a Cristo no Velho Testamento.

295. NA EPÍSTOLA DE SÃO TIAGO.

S. Tiago, na sua Epístola, diz o seguinte: Confessai, pois, os vossos pecados UNS AOS OUTROS e orai uns pelos outros, PARA SERDES SALVOS (Tiago V-16).(42) Os protestantes se lançam ávidamente sôbre êste texto, tentando provar com êle que a confissão não deve ser feita ao ministro de Deus, ao sacerdote, mas deve ser uma confissão pública feita reciprocamente.

Mas esta objeção serve muito bem para mostrar como está sujeito a erros e enganos quem não tenha um profundo conhecimento das LÍNGUAS em que os livros da Bíblia foram escritos. Vemos a tradução portuguêsa, mas a expressão em português nem sempre tem exatamente o mesmo sentido que apresenta no texto original. Daí as ratas tremendas em que de vez em quando caem êsses homens, que sem a preparação adequada (a qual haveria de ser muito longa e profunda) se arvoram da noite para o dia em entusiasmados intérpretes da Bíblia.

Em português quando dizemos UNS AOS OUTROS se entende logo que há uma ação recíproca: Eles se descompuseram UNS AOS OUTROS — quer dizer: houve descomposturas de parte a parte.

Mas no grego a palavra ALLÉLOIS que aí é traduzida por UNS OUTROS não implica necessàriamente êste sentido de reciprocidade. Assim é que esta mesma palavra aparece sem êste sentido na Epístola aos Efésios: Enchei-vos do Espirito Santo.... dando sempre graças ao Deus e Pai por tudo, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, SUBMETIDOS UNS AOS OUTROS no temor de Cristo. As mulheres sejam sujeitas a seus maridos como ao Senhor.... Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, porque isto é justo.... Servos, obedecei a vossos senhores temporais com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração como a Cristo (Efésios V-18, 20 a 22; VI-1 e 5).

S. Paulo aí fala da submissão que deve haver de UNS PARA COM OUTROS e êle mesmo vai especificando qual seja: das mulheres para com os maridos, dos filhos para com os pais, dos servos para com seus senhores temporais.

E, no entanto, empregou a expressão UNS AOS OUTROS: SUBMETIDOS UNS AOS OUTROS (V-21). Seria ridículo e absurdo dizer que esta SUBMISSÃO É RECÍPROCA, isto é, os filhos devem ser submissos aos pais, e os pais aos filhos; as mulheres devem ser sujeitas aos maridos, e os maridos às mulheres; os criados, obedientes aos patrões e vice-versa.

Logo, a expressão UNS AOS OUTROS (no grego: ALLÉLOIS) usada por S. Tiago na frase: Confessai-vos UNS AOS OUTROS, não indica necessàriamente que a confissão deve ser recíproca: pode indicar que UNS se devem confessar a OUTROS, ou seja, os fiéis aos sacerdotes.

E pelo contexto se vê claramente que se pode muito bem tomar a frase no sentido de uma confissão sacramental, de uma confissão feita ao sacerdote, pois S. Tiago está falando a respeito do doente em estado grave que manda chamar o PRESBÍTERO para ministrar-lhe a Extrema-Unção: Está entre vós algum enfêrmo? chame os presbíteros da Igreja e êstes façam oração sôbre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o enfêrmo e o Senhor o aliviará; e se estiver em alguns pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes salvos. (Tiago V-14 a 16).

296. UM TRECHO DOS ATOS E A CONFISSÃO AURICULAR.

Os Atos nos narram um fato que causou profunda impressão entre os cristãos: Alguns dos exorcistas judeus que andavam de terra em terra, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sôbre os que se achavam possessos dos malignos espíritos dizendo: Eu vos esconjuro por Jesus, a quem Paulo prega. E os que faziam isto eram uns sete filhos de certo judeu, príncipe dos sacerdotes, chamado Ceva. Mas o espírito maligno, respondendo, lhes disse: Eu conheço a Jesus e sei quem é Paulo, mas vós quem sois? E o homem, no qual estava um espírito maligníssimo, saltando sôbre êles e poderando-se de ambos, prevaleceu contra êles, de tal maneira que nus e feridos fugiram daquela casa (Atos XIX-13 a 16).

Com o grande temor causado por êste fato, muitos dos cristãos vinham confessar e declarar seus próprios pecados. E muitos dos que HAVIAM CRIDO vinham CONFESSANDO E DENUNCIANDO as suas obras (Atos XIX-18).

Êste trecho nos mostra a confissão em uso entre os primeiros cristãos. MUITOS DOS QUE HAVIAM CRIDO equivale a dizer: MUITOS CRISTÃOS, porque é comum na Bíblia designar os convertidos à Igreja de Cristo com esta expressão: OS QUE HAVIAM CRIDO, OS QUE CRERAM, OS QUE CRIAM: E querendo êle ir a Acaia, havendo-o animado a isso os irmãos, escreveram aos discípulos que o recebessem. Êle, tendo ali chegado, foi de muito proveitopara AQUELES QUE HAVIAM CRIDO (Atos XVIII-27). HAVENDO CRIDO NÊLE, fôstes selados com o Espírito Santo que fôra prometido (Efésios I-13). Nós que TEMOS CRIDO havemos de entrar naquele descanso (Hebreus IV-3). Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus são os que TEM CRIDO (Atos XXI-20). Foram muitos dentre eles OS QUE CRERAM (Atos XVII-12). Acêrca DAQUELES QUE CRERAM DENTRE OS GENTIOS, nós temos escrito ordenando que se abstenham do que fôr sacrificado aos ídolos (Atos XXI-25). Vós sois testemunhas, e Deus, de quão santa e justa e sem qüerela foi a nossa mansão com vós outros QUE CRESTES (1.ª Tessalonicenses II-10) palavra de Deus, o qual obra em vós, os QUE CRESTES (V Tessalonicenses II-13). Alguns dêles CRERAM e se agregaram a Paulo e a Silas (Atos XVII-4). Da multidão dos QUE CRIAM o coração era um e a alma uma (Atos IV-32). Todos os QUE CRIAM estavam unidos (Atos II-44).

Mas os protestantes se põem a dizer: Está-se vendo aí pela Bíblia que a confissão deve ser pública e não como faz a Igreja, isto é, a confissão auricular, feita secretamente ao sacerdote. Não há nenhum vestígio de confissão auricular na Bíblia.

— Querem os protestantes simplesmente armar confusão.

Não está escrito na Bíblia, e com palavras tão claras, que Jesus Cristo deu aos seus Apóstolos, aos seus ENVIADOS, o poder de perdoar os pecados reter? É a êstes ministros de Cristo, por Êle devidamente autorizados, que outros homens têm que confessar os pecados para obter o perdão. Se confessam êstes pecados públicamente, manifestando-os diante de todos públicamente pedem perdão ao legítimo ministro do Senhor ou confessam êstes pecados secretamente e secretamente pedem o perdão ao mesmo autorizado ministro, isto não influi no caso, não é esta ou aquela maneira de fazer a confissão que TIRA aos ministros de Cristo um poder que pelo próprio Cristo lhes foi concedido.

Instituindo o sacramento da Penitência em forma de julgamento, no qual se profere uma sentença de absolvição ou não-absolvição dos pecados, o que supõe, conforme demonstramos, a confissão do penitente, Cristo NÃO ESTABELECEU NENHUMA LEI DETERMINANDO QUE ESTA CONFISSÃO DEVA SER PÚBLICA.

A confissão pública é louvável, pois revela um ato mais profundo de humildade do pecador, o qual quer mesmo humilhar-se heróicamente diante da multidão. Mas para ser usada com exclusividade, em todos os casos, seria impraticável. Daí se originariam muitos escândalos para o povo, com a revelação de coisas ocultas que serviriam apenas para estarrecer os ouvintes. E nem sempre se encontraria no seio de tôda a assembléia a serenidade, a compaixão e a misericórdia com que o confessor deve tratar o penitente e com que o trataria o próprio Jesus Cristo. Se com a confissão secreta e auricular muitos penitentes se apresentam um pouco nervosos e emocionados diante do confessionário (embora sejam êstes em via de regra os que saem de lá com maior consolação e alívio), se há alguns ainda que ocultam às vêzes pecados com acanhamento, qual não seria o pavor de confessar-se diante da multidão e quantos não ocultariam os seus pecados! Como imaginar que a mulher fôsse confessar um pecado de adultério diante de todos e de seu próprio marido e vice-versa; um criado fôsse revelar perante todos, inclusive o seu patrão, que cometeu um roubo no exercício de seu emprêgo? E assim por diante. O sacramento da reconciliação se tornaria neste caso uma fonte de contínuas discussões, complicações e desavenças.

Do fato de narrarem os Atos um caso em que os penitentes espontâneamente confessaram suas faltas perante todos, não se segue que êste sistema fôsse o único empregado na Igreja primitiva. O mal dos protestantes é querer ver à fina fôrça naqueles 28 capítulos dos Atos dos Apóstolos, dos quais os últimos 16 são dedicados exclusivamente às viagens de S. Paulo, não só todo um tratado teológico sôbre a constituição da Igreja e a administração dos sacramentos, como também a narração de tudo quanto aconteceu com os 13 Apóstolos (os onze e mais S. Matias e S. Paulo), de tudo quanto êles disseram ou fizeram em tôda a sua vida. S. Lucas é um HISTORIADOR que narra aí nos Atos os fatos de maior importância e que mais chamaram a atenção nos inícios da Igreja. Se, por exemplo, esta ou aquela pessoa procurou particularmente qualquer um dos Apóstolos para obter o perdão de suas próprias culpas, isto é um assunto que só interessaria a estas próprias pessoas e que não teria a repercussão necessária para merecer uma menção especial feita pelo historiador. E naqueles tempos de admirável fervor, de carismas e graças extraordinárias, foi grande decerto o número de cristãos que não chegaram mais a cometer nenhum pecado grave após o Batismo e por isto não tiveram necessidade da confissão.

Seja como fôr, a notícia desta confissão que nos trazem os Atos dos Apóstolos, nos mostra, pelo menos, que, ou pública ou privada, a confissão estava em uso entre os primeiros cristãos; e isto já está em contraste com o sistema dos protestantes em geral que não a fazem nem pública, nem privada, nem de forma alguma, pois acham que basta crer em Cristo e arrepender-se para o homem estar prontinho para voar para os Céus; mas, se basta crer em Cristo e arrepender-se para obter o perdão dos pecados, então Cristo fêz um ato inútil, ridículo e disparatado, quando colocou nas mãos dos Apóstolos o poder de perdoar pecados E RETE-LOS, porque tudo quanto ligassem ou desatassem aqui na terra, seria também ligado ou desatado nos Céus. Poder exercido sôbre quem, se pessoa alguma teria necessidade de recorrer a êles?

297. A CONFISSÃO E O PADRE NOSSO.

Finalmente dizem os protestantes: Nosso Senhor nos ensinou a rezar assim no Padre-Nosso: Perdoa-nos as nossas dívidas, assim, como nós também perdoamos aos nossos devedores (Mateus VI-12) ou como diz o Evangelho de S. Lucas: Perdoa-nos os nossos pecados, pois que também perdoamos a todo o que nos deve (Lucas XI-4). Logo, não é do sacerdote que nos vem o perdão; êle nos vem diretamente de Deus.

— Não há dúvida que o perdão é dado por Deus, nas mãos de quem o sacerdote não passa de um instrumento, como já dissemos. Deus é a fonte donde nos vem êste perdão; o Sacramento da Penitência é o MEIO pelo qual êste perdão chega até nós. É natural, portanto, que eu vá suplicar o perdão na sua fonte que é o próprio Deus.

Mas do fato de pedi-lo a Deus, não se segue que êle me venha diretamente do Céu. Porque também no mesmo Pai-Nosso, Jesus me ensina a pedir a Deus: O pão nosso de cada dia nos dá hoje (Lucas XI-3). E daí não se segue que êste pão, êste sustento material me venha diretamente do Céu; tenho que empregar os meios necessários para consegui-lo, o que não impede que êste pão venha de Deus através das causas segundas. O mesmo acontece com o perdão dos pecados; Deus é quem me concede êste perdão, mas tenho de empregar para isto os MEIOS ESTABELECIDOS PELO PRÓPRIO DEUS.

Além disto, se Nosso Senhor me ensina a pedir a Deus o perdão dos pecados, é porque êste perdão não depende só de mim e do sacerdote, depende também de Deus. Não poderei ser perdoado SEM O ARREPENDIMENTO. Éste arrependimento não é possível, se o próprio Deus não me dá a graça necessária para arrepender-me: Sem mim não podeis fazer nada (João XV-5). Não que sejamos capazes de nós mesmos de ter algum pensamento como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus (2.ª Coríntios III-5). Às vêzes vem o toque da graça suficiente para o arrependimento; mas o pecador, no seu egoísmo, no seu apêgo ao pecado, na sua falta de generosidade, rejeita esta graça e aí se torna preciso, para a sua salvação, que Deus o toque com uma graça, uma inspiração ainda maior. Esta graça é a Deus e não ao sacerdote que êle há de pedir.

Pedindo a Deus que me perdoe os pecados, estou também pedindo a Éle que não me falte com o sacerdote, com o seu ministro autorizado durante a minha vida e principalmente na hora da minha morte (quantas vêzes chega o sacerdote num momento tão oportuno que todos exclamam: foi mandado por Deus!); e se por acaso me faltar o sacerdote, não me falte Deus com o tempo necessário (pois a morte colhe às vêzes de surpresa o pecador) e com a graça suficiente e eficaz para fazer um Ato de Contrição Perfeita que poderá então suprir, com o voto ou desejo da confissão, a ação sacramental do ministro do Senhor. Tudo isto é efeito da Providência, da misericórdia e da bondade de Deus.

É inútil, caros amigos protestantes: por maior que seja a má vontade de Vocês em interpretar êste texto do Evangelho que tão profundamente lhes desagrada, por mais que recorram a pretextos e subterfúgios, não se podem apagar da Bíblia nem desviar do seu verdadeiro sentido estas palavras insofismáveis, estas palavras tão claras e decisivas de Jesus Cristo, ditas aos seus Apóstolos: Aos que vós perdoardes os pecados ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23).