Capítulo 13

CAPÍTULO DÉCIMO TERCEIRO: CRISTO DEU AOS APÓSTOLOS O PODER DE CONSAGRAR

298. A PROMESSA DA EUCARISTIA O CAPÍTULO 6.° DE S. JOÃO.

Se foi sublime e extraordinário o poder de perdoar pecados e retê-los, que aos Apóstolos foi concedido, mais assombroso ainda foi o poder que Cristo lhes deu com estas simples palavras: Fazei isto em memória de mim (Lucas XXII-19), porque nesse momento receberam os Apóstolos ordem, autorização e capacidade para fazer aquilo mesmo que se acabara de realizar na Última Ceia, isto é, a conversão do pão e do vinho no CORPO e no SANGUE de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, para mostrar êste poder dos Apóstolos em tôda a sua grandeza e realidade, temos que provar, pelas palavras da Bíblia, A PRESENÇA REAL DE JESUS CRISTO NA EUCARISTIA, ou seja, sob as aparências do pão e do vinho. A tarefa não é difícil, pois a Bíblia mais uma vez é muito clara nesta matéria.

Êste dogma tão belo da nossa Santa Religião se prova:

1.º — pelo capítulo 6.º de S. João, em que Jesus prometeu que daria seu próprio Corpo e Sangue para ser nosso alimento e bebida;

2.º — pela narração da Última Ceia, a qual vem nos 3 primeiros Evangelistas e na 1.ª Epístola de S. Paulo aos Coríntios, narração esta em que vem afirmada em têrmos bem claros a presença real de Jesus Cristo no mistério eucarístico, confirmada ainda por outras palavras também muito claras de S. Paulo na mesma Epístola.

O Capítulo 6.º de S. João, de que agora nos vamos ocupar, é dividido em quatro partes, tôdas elas relacionadas entre si:

A 1.ª (versículos 1.º a 25) nos mostra Jesus dando à multidão, e de uma forma prodigiosa, O ALIMENTO CORPORAL: é o milagre da multiplicação dos pães. Depois dêste milagre, a multidão, interesseira, quer fazê-Lo rei, porque vê nÊle uma fonte de prosperidade material, um homem ideal para governar o seu povo, uma vez que tem poderes para multiplicar o alimento. Mas Jesus se retira. E o povo passa a procurá-Lo ansiosamente.

Na 2.º parte (versículos 26 a 47) Jesus procura elevar a mentalidade daqueles homens que vão atrás ale em busca do alimento corporal, mas que devem buscar, acima de tudo, o ALIMENTO ESPIRITUAL, o pão que nutre a alma, e êste pão é Éle próprio, Jesus Cristo. Para Éle nos alimentar, é imprescindível a FÉ na sua palavra; e a fé é um dom de Deus.

Na 3.ª parte (versículos 48 a 59) passa então abertamente a falar sôbre a Eucaristia, explicando de que modo Êle é o nosso pão, o nosso alimento. Éle é o nosso alimento, porque DÁ A COMER O SEU PRÓPRIO CORPO e A BEBER O SEU PRÓPRIO SANGUE. E isto é necessário para conservarmos a vida da graça, assim como o alimento material é necessário para a conservação da vida do corpo.

Na 4.ª parte (versículos 60 a 72) se mostra a reação produzida entre os judeus por aquelas palavras tão estranhas e inesperadas de Jesus; terminando tudo isto com a bela profissão de fé feita por S. Pedro, em seu nome e no dos outros Apóstolos.

299. A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES.

É muito comum nos Evangelhos Jesus Cristo recorrer a símbolos, a coisas materiais, para dar uma idéia, uma noção mais concreta das coisas espirituais que file veio instituir ou ensinar. É assim que comparou a pregação da palavra de Deus com a ação do semeador que lança a sua semente aqui e acolá, podendo ou não produzir fruto, de acôrdo com a natureza do terreno em que se planta (Lucas VIII-5 a 15), bem como o desenvolvimento prodigioso da Igreja com o notável crescimento do grão de mostarda (Mateus XIII-31 e 32). E assim por diante. E acontecia muitas vêzes que Éle se aproveitava de um fato, para fazer dali a figura de um acontecimento de ordem espiritual. Como por exemplo: depois da pesca miraculosa, disse a S. Pedro que daquela hora em diante faria dêle um pescador de homens (Lucas V-3 a 10). E do fato de vir a Samaritana abastecer-se de água no poço de Jacó, Jesus se aproveitou para lhe falar de uma água espiritual, a água da graça, que Éle lhe podia dar, água que jorra para a vida eterna e que mata a sêde para sempre (João IV-7 a 14).

Assim também, Jesus se serviu do milagre da multiplicação dos pães para fazer aos judeus a revelação de uma multiplicação muito mais importante: a multiplicação do PÃO EUCARÍSTICO que é o seu próprio Corpo e Sangue, alimento êste que não é destinado a manter a vida do corpo (vida que se acaba), mas que dá a graça, penhor da vida eterna e assim confere uma vida que não tem mais fim. A multiplicação dos pães é assim uma FIGURA da distribuição eucarística do corpo de Cristo. Afim de melhor preparar o ânimo de seus discípulos para a revelação dêste grande mistério, que supõe um poder infinito da parte de Jesus, a multiplicação dos pães se faz de maneira bem prodigiosa, alimentando com 5 pães e 2 peixes uma grande multidão de perto de 5.000 pessoas. Da palavra de Jesus, por mais espantosa que seja, não há motivo agora para duvidar: Éle tudo pode.

Até mesmo o tempo em que se realiza o prodígio, é escolhido a dedo para simbolizar o mistério eucarístico. S. João se encarrega de chamar a atenção para a época em que Jesus multiplicou os pães. Estava perto A PÁSCOA, dia da festa dos judeus (João VI-3). Seria por ocasião de uma PÁSCOA mais tarde que Jesus iria instituir a Eucaristia na última Ceia; e daí por diante A PÁSCOA Dos CRISTÃOS, onde se recebe realmente o próprio Cordeiro Imaculado, iria substituir a Páscoa dos judeus, em que se matava um cordeiro para prefigurar e simbolizar a Grande Vítima do Calvário, Nosso Senhor Jesus Cristo.

300. À PROCURA DO MESTRE.

Uma vez realizado o milagre, os judeus aumentam extraordinàriamente o seu entusiasmo pelo Divino Mestre.

Muitos prodígios assombrosos de outro gênero fizera Jesus em presença da multidão; trouxera-lhe também belíssimos ensinamentos com a sua maravilhosa doutrina; mas aqui era alguma coisa que falava mais eloqüentemente ao coração do povo: matara-lhe a fome no deserto. E aquêles homens, com as idéias que alimentavam a respeito do Messias, o qual, pensavam êles, viria trazer aos judeus, ao povo eleito, uma era de grande opulência, vêem naquela abundância de alimento o sinal de que a época da grandeza messiânica já é chegada, uma vez que se encontram diante de um Jesus tão poderoso. Na sua ambição dos bens da terra, querem logo proclamá-Lo rei: E entendendo Jesus que O viriam arrebatar para O fazerem rei, tornou-se a retirar para o monte, Êle só (João VI-15).

Não querendo mais largar a Jesus, vão muitos encontrá-Lo no dia seguinte em Cafarnaum, mas o Mestre sabe muito bem que as intenções daqueles homens estão muito longe de ser puras e desinteressadas: Em verdade, em verdade vos digo que vós me buscais, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pões e ficastes fartos (João VI-26). Se ao menos os judeus O buscassem pelo fato de estarem encantados com os milagres que Êle fazia, era muito bom, porque êstes milagres constituíam uma prova da missão divina de Jesus e Êle mesmo dirá mais tarde: Quando não queirais crer em mim, crede as minhas obras (João X-38) — o pior, porém, é que todo aquêle afã e fervor em procurar o Divino Mestre vinha precisamente disto: da ganância e da ambição. Comeram e ficaram fartos, por isto não querem mais largar o Divino Salvador.

Jesus, porém, não pode aceitar como seus discípulos homens que O busquem assim guiados, acima de tudo, pela ambição: Jesus quer, para segui-lo, almas fiéis, dispostas a crer de todo o coração na sua palavra, a aceitar a sua doutrina, a sua moral, por mais espantosa ou por mais árdua que ela seja.

301 A NATURAL DEPURAÇÃO.

Que vai fazer então o Divino Mestre? Vai mandar embora, expulsar de seu rebanho aquêles que O seguem sem a verdadeira fé, sem a sinceridade do coração, com intuitos tão carnais e interesseiros?

Não será preciso o Mestre cometer um ato tão inamistoso. Bastará anunciar, dentro da própria doutrina que Êle veio trazer à terra, uma coisa bastante ESPANTOSA, para se proceder naturalmente, automaticamente, a depuração entre aquêles que O seguem: os que não têm o verdadeiro dom da fé não dão crédito a Jesus, quando Êle lhes ensina qualquer coisa de inaudito.

E aproveitando a lembrança ainda tão viva daquela multiplicação dos pães que se realizara no dia anterior, Jesus procura levantar o ânimo daqueles homens para uma grande revelação, para uma multiplicação do pão muito mais assombrosa, que Êle lhes vai anunciar: Trabalhai, não pela COMIDA que perece, mas pela que dura até à vida eterna, A QUAL O FILHO DO HOMEM VOS DARÁ, porque Êle é o em que Deus Padre imprimiu o seu sêlo (João VI-27).

Os judeus estão aqui por demais interessados em conseguir o alimento corporal, mas Jesus lhes mostra que tem uma COMIDA para lhes dar, porém uma comida que não perece, um alimento que fortifica para a VIDA ETERNA. Esta comida que Êle promete é, como dirá mais adiante neste mesmo capítulo (versos 51 a 59), o seu próprio Corpo na Santíssima Eucaristia. Deus Pai imprimiu em Jesus o seu sêlo; êste sêlo quer dizer os milagres estupendos que fêz Jesus e que são a MARCA, O SINAL de sua divina missão.

Falando nessa comida que dura eternamente, que dá a vida eterna, Jesus manda que seus ouvintes TRABALHEM para consegui-la. Os judeus, sempre materializando o que ouvem, entendem que é uma comida para prolongar a nossa vida material aqui na terra; e ansiosos por adquirir êsse alimento mágico que assim a seu entender os livraria da morte corporal, perguntam qual é o trabalho, o que é que têm a fazer PARA CONSEGUIR ESTA COMIDA. Uma vez que é uma comida dada por Deus com um privilégio especial de imortalidade, certamente para isto terão que fazer também as obras de Deus, as obras que Deus mandar e que são do seu agrado. Que obras são estas? É o que indagam de Jesus, porque estão prontos a fazê-las para conseguir um pão tão precioso: Que faremos para obrarmos as obras de Deus? (João VI-28).

Trata-se aqui de Judeus que conheciam a lei de Moisés, que sabiam quais eram as obras da Lei, o que é que Deus exigia nos seus mandamentos e nas suas prescrições; vê-se claramente pelo contexto, pelo assunto de que aqui se trata, que não é a estas obras ordenadas ao homem pela Lei que êles se referem, mas sim às obras necessárias para adquirir, como prêmio ou como salário, aquela comida de imortalidade, de que falou Jesus.

Ora, êste alimento da imortalidade é a Sagrada Eucaristia. Não é preciso muito trabalho para consegui-lo; o trabalho que se precisa ter é CRER em Jesus que nos revelou um mistério tão assombroso: A OBRA DE DEUS E ESTA que creais nAquele que Êle enviou (João VI-29).

O trabalho a fazer é ACEITAR humildemente, de todo o coração, a palavra de Jesus. Parece muito simples; mas quando Jesus revelar em que consiste esta comida, muitos não crerão na sua palavra e se afastarão dÊle para sempre, porque os seus corações não mereceram receber o DOM DA FÉ

302. JESUS E O MANÁ DO DESERTO.

Uma vez dito pelo Divino Mestre que vai dar o sobrenatural alimento e que a condição para consegui-lo é CRER nÉle, os judeus pedem um sinal para que nÊle se creia e recordam o caso de Moisés, que deu aos israelitas um pão maravilhoso, um pão do Céu, o maná no deserto, mas isto era um prodígio visível. Jesus então passa a explicar-lhes que êste pão da vida é Êle mesmo: Eu sou o PÃO DA VIDA : O que vem a mim não terá jamais fome, e o que crê em mim não terá jamais série (João VI-35).

Uma ponta do véu já está levantada: o alimento é o próprio Jesus. Êle o diz em têrmos gerais, sem especificar ainda DE QUE MODO vai ser êste alimento. Mas os judeus, que não eram firmes na fé, que não tinham nenhuma idéia da divindade de Jesus e que tinham pensado num alimento fonte de imortalidade para o corpo, já começam a não perceber coisa alguma: Murmuravam, pois, dÊle os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desci do Céu. E diziam: Porventura não é êste Jesus o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, logo, diz Êle: Desci do Céu? (João VI-41 e 42).

303. O DOM DA FÉ.

A crise da fé começa a esboçar-se. Êles que pareciam tão dispostos a fazer tôdas as obras de Deus necessárias para conseguir o alimento da vida eterna, começam agora a ficar embaraçados com a única obra exigida e que é CRER nas palavras de Jesus. Pois isto é o que é mais necessário: isto é o que hão de trabalhar para adquirir e que hão de pedir com todo ardor, como todo empenho, porque a fé é um dom do Pai Eterno: Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia (João VI-44). E a esta idéia de que a fé é uni dom de Deus, Jesus ajunta a promessa de recompensa eterna para aquêles que nÊle crêem, promessa que, como já temos dito mais de uma vez, supõe que se trata de uma fé viva, FÉ QUE OPERA PELA CARIDADE, como disse S. Paulo (Gálatas V-6), FE QUE NOS LEVA A TORNAR-NOS, PELA TOTAL SUBMISSÃO A CRISTO, DIGNOS DE SUAS DIVINAS PROMESSAS : Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim, não no lançarei fora; porque eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade dAquele que me enviou. E esta é a vontade daquele Pai que me enviou: que nenhum perca eu de todos aquêles que Êle me deu, mas que o ressuscite no último dia. E a vontade de meu Pai que me enviou é esta: que todo o que vê o Filho e crê nÊle tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia (João VI-37 a 40). Em verdade, em verdade vos digo: o que crê em mim tem a vida eterna (João VI-47).

304. VERSÍCULOS 48 A 50.

Preparados os ânimos de seus ouvintes, dito de modq geral que Êle é o alimento do mundo, mandado pelo Pai Eterno e descido do Céu, enaltecida a fé como virtude básica e fundamental, prometida a divina recompensa para os que crêem, Jesus passa a fazer a grande revelação da Eucaristia, a qual é sobretudo um grande MISTÉRIO DE FÉ.

Até aqui Êle se dissera o PÃO DA VIDA. Agora começa a usar de têrmos mais concretos, afirmando que êste pão é para ser comido: Eu sou o pão da vida. Vossos pais COMERAM O maná no deserto e morreram. Aqui está o pão que desceu do Céu, para que todo o que dÊle COMER não morra (João VI-48 a 50).

Jesus aí não só usou abertamente a palavra COMER, mas também fêz a comparação com o maná do deserto que foi COMIDO REALMENTE, não em sentido figurado. O maná foi comido pelos antepassados; o pão que Êle vai dar há de ser COMIDO pelos vindouros, mas êste tem um efeito muito superior, porque dá a vida eterna.

305. VERSÍCULOS 51 E 52.

Eu sou o pão vivo que desci do Céu. Se qualquer COMER dêste pão viverá eternamente; e o pão que eu DAREI é A MINHA CARNE, para ser a vida do mundo (João VI-51 e 52).

Jesus Cristo continua a apresentar-se como o pão vivo que se deve COMER. E falando mais abertamente ainda, de modo que exclui qualquer metáfora, Êle diz que o pão, isto é, o alimento que vai dar é a sua carne para ser a vida do mundo e emprega o futuro: O PÃO QUE EU DAREI, logo não têm razão os protestantes em dizer que Êle aí se refere à FE, que se há de comer a Cristo pela fé. A fé, muitos já a tinham naquele momento, como demonstrou S. Pedro fazendo em seu nome e no nome dos demais Apóstolos sua bela profissão de fé (João VI-69 e 70). Êste PÃO DIVINO, Cristo ainda vai dar na última Ceia.

E aqui, do mesmo modo que na Última Ceia, Êle salienta perfeitamente a íntima relação que há entre o Calvário e a Eucaristia. O pão que Êle promete é para dar VIDA aos homens, pois, como dirá dois versículos mais adiante: Se fulo comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis VIDA em vós (João VI-54). Ou, como dirá um pouco mais além: O que come dêste pão VIVERÁ ETERNAMENTE (João VI-59). Esta carne que Êle nos dá individualmente na Eucaristia para sustentar a nossa vida espiritual, Êle a entregou por todos nós no Augusto Sacrifício da Cruz, para dar ao mundo a vida sobrenatural da graça.

Esta mesma relação entre a Eucaristia e o Sacrifício da Cruz, de que a Eucaristia é um prolongamento e um memorial, Êle o salientará na última Ceia, quando instituir o Santíssimo Sacramento: Este é o meu corpo que SE DÁ POR VÓS. Este cálix é o novo Testamento em meu sangue QUE SERÁ DERRAMADO POR VÓS (Lucas XXII-19 e 20).

306. VERSÍCULO 53.

Disputavam, pois, entre si os judeus dizendo: Como pode Este dar-nos a comer a sua carne? (João VI-53).

A revelação feita por Jesus não pode deixar de causar espanto aos judeus ali presentes. Era realmente assombroso e inaudito um homem afirmar que daria a sua própria carne para comer, alimentando e vivificando assim a quem o quisesse.

Ninguém toma aí as palavras de Jesus em sentido figurado; Êle fala muito claro. E se por acaso o Mestre falou em sentido figurado e seus ouvintes entenderam mal, estaria Éle agora na obrigação de explicar que se tratava apenas de uma metáfora. Pois 'o -Mestre veio à terra para ENSINAR A VERDADE e não para lançar a confusão nos espíritos com palavras misteriosas. Quando seus ouvintes entendiam mal ou tomavam ao pé da letra uma palavra que era dita somente em sentido metafórico, Éle se encarregava de explicar e esclarecer. Assim aconteceu com Nicodemos. Quando o Mestre lhe diz: Na verdade, na verdade te digo que não pode ver o reino de Deus senão aquêle que renascer de novo (João III-3), Nicodemos toma a frase de Jesus ao pé da letra: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? (João III-4). Mas Jesus logo lhe explica que se trata de um NASCIMENTO ESPIRITUAL, e não de um nascimento material, como Nicodemos o tinha entendido: Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do espírito é espírito. Não te maravilhes de eu te dizer: Importa-vos nascer outra vez. O espírito assopra onde quer e tu ouves a sua voz; mas não sabes donde êle vem nem para onde vai; assim é todo aquêle que é nascido do espírito (João III-5 a 8).

Quando Jesus disse aos seus Apóstolos: Vêde e guardai-vos do FERMENTO dos fariseus e dos saduceus (Mateus XVI-6), os Apóstolos, ouvindo falar em fermento, pensaram que era de pão que o Mestre estava falando: É que não trouxemos pão (Mateus XVI-7). Jesus se encarrega logo de esclarecer que falava em sentido figurado, não era ao fermento material que se estava referindo: E, entendendo-o, Jesus disse-lhes: Homens de pouca fé, por que estais considerando lá convosco que não tendes pão Por que não compreendeis que não é pelo pão que eu vos disse: Guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus? Então entenderam que não havia dito que se guardassem do fermento dos pães, senão da DOUTRINA dos fariseus e dos saduceus (Mateus XVI-8, 11 e 12).

Quando Jesus quis transmitir aos seus Apóstolos a notícia da morte de Lázaro, usou de uma metáfora: Nosso amigo Lázaro DORME; mas eu vou despertá-lo do SONO (João XI-11). Os Apóstolos tomam o dito ao pé da letra: Senhor, se êle dorme, estará são (João XI-12). Mas Jesus logo desfaz o engano dos seus discípulos: Mas Jesus tinha falado de sua morte, e êles entenderam que falava do dormir do sono. Disse-lhes, pois, Jesus então abertamente: Lázaro é morto (João XI-13 e 14).

Assim fazia Jesus e assim faz qualquer bom mestre que está interessado em ensinar a verdade; se por ignorância os ouvintes interpretam mal, êle tem que entrar em explicações para desfazer o equívoco.

Quando acontecia, porém, que em vez de tratar-se de um equívoco da parte de seus ouvintes, tratava-se apenas de MÁ VONTADE em não quererem aceitar o que fale dizia, Jesus insistia na sua afirmativa, para mostrar que não havia dúvida alguma, era assim mesmo como Éle estava dizendo e não de outra maneira.

Por exemplo: Como Jesus disse: Se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente (João VIII-51), os judeus que não queriam admitir a divindade do Mestre, Lhe objetaram: Abraão morreu e os profetas morreram e tu dizes: Se alguém guardar a minha palavra, não provará a morte eternamente. Acaso és tu maior do que nosso pai Abraão que morreu? e do que os profetas que também morreram? (João VIII-52 e 53). Jesus responde: Vosso pai Abraão desejou ansiosamente ver o meu dia; viu-o e ficou cheio de gôzo (João VIII-56). Os judeus não se conformam com isto: Tu ainda não tens cinqüenta anos e viste a Abraão? (João VIII-57). Mas Jesus continua a reafirmar a sua divindade, a sua superioridade sare Abraão: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fôsse feito, sou eu (João VIII-58). Era assim que o Divino Mestre insistia diante da incredulidade.

Agora no nosso caso, Jesus afirmou que daria a sua carne para comer. Os judeus acharam aquilo por demais estranho e fabuloso; não quiseram acreditar. Se se tratar de um equívoco, o Mestre o esclarecerá. Se, porém, se tratar apenas de má vontade em aceitar o que Jesus disse CLARAMENTE, Êle o continuará afirmando. Pois foi exatamente isto o que fêz o Divino Mestre. Não disse: Meus amigos, há aqui um engano, falei de modo figurado. Mas insistiu 5 vêzes, nos 5 versículos seguintes, dizendo que DARIA REALMENTE A SUA CARNE PARA COMER, O SEU SANGUE PARA BEBER.

Senão, vejamos.

307. VERSÍCULO 54.

E Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: Se não COMERDES A CARNE do Filho do Homem e BEBERDES O SEU SANGUE, não tereis vida em vós (João VI-54).

Os judeus perguntaram COMO ERA POSSÍVEL Jesus dar a sua carne para comer. Jesus não responde à sua pergunta: como é possível? — mas continua frisando e reafirmando a realidade. Trata-se de um mistério que Êle está revelando. No mistério, no que é incompreensível, nunca se saberá o COMO, sabe-se apenas se a coisa EXISTE OU NÃO EXISTE. E Êle, pelos seus milagres, inclusive o da multiplicação dos pães que tinha feito tão recentemente, já havia dado provas suficientes de que era um enviado de Deus e de que, portanto, mereciam todo crédito as suas inspiradas palavras. Tinha, por conseguinte, o direito de exigir FÉ da parte de seus ouvintes, mesmo quando revelava aquilo que a nossa fraca e limitada inteligência não é capaz de entender.

Os judeus perguntaram COMO ERA POSSÍVEL Jesus dar a sua carne para comer. Jesus responde com uma lei, um preceito: não só é possível, mas também será OBRIGATÓRIO comer esta carne.

Os cristãos têm o dever de receber a Cristo na Eucaristia, porque só assim é que se fortalecem espiritualmente e mantêm A VIDA DA GRAÇA. Ora, quem impõe uma lei usa sempre de têrmos claros e decisivos, não recorre a metáforas difíceis, nem impossíveis de compreender. Os protestantes dizem que al se trata da fé em Jesus. Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue — aí quer dizer: se não crerdes em Jesus. Mas, se é assim como dizem os protestantes, eis aí uma lei enunciada no verdadeiro estilo e sistema da CHARADA INDECIFRÁVEL. Onde é que os protestantes viram, seja na Bíblia, seja em qual quer livro mesmo profano, seja na linguagem corrente de qualquer país do mundo, usar-se esta metáfora: para se dizer que alguém CRÉ em outro, dizer-se que êste alguém COME A CARNE OU BEBE O SANGUE dêste outro?

Na ânsia de TORCER o texto bíblico para o seu lado, os protestantes não só remexeram toda a Bíblia, mas andaram catando numa quantidade enorme de livros profanos, para ver se encontravam esta estranha figura de retórica: dizer-se — comer a carne de alguém — em vez de dizer-se — crer em alguém. Encontraram, sim, expressões como estas: nutrir o espírito de tais idéias, beber tais idéias em Fulano etc. Mas COMER A CARNE e BEBER O SANGUE, nunca. É O que confessa O protestante Tittman, referindo-se aos que não querem ver aí uma referência à Eucaristia: "Apelam para o modo de falar de escritores profanos que tenham usado as palavras COMER e BEBER a respeito de alguém que se imbuiu da doutrina de outrem, para admiti-la e prová-la. Ora, é certíssimo que escritores gregos e latinos tenham usado as palavras COMER e BEBER neste sentido; mas que êles, dêste modo, tenham usado as fórmulas COMER A CARNE e BEBER O SANGUE de alguém, isto não se pode mostrar nem com um só exemplo que seja" (Meletemata sacra. Leipzig 1816 pág. 247).

Existe, sim, na Bíblia, a expressão COMER A CARNE de alguém, mas no sentido de caluniar, perseguir, injuriar, maltratar, metáfora esta usual entre os orientais: Por que me perseguis como Deus e vos FARTAIS DAS MINHAS CARNES? (Jó XIX-22). Enquanto se chegam a mim os daninhos para COMER AS MINHAS CARNES, êstes meus inimigos que me angustiam, êles mesmos se debilitaram e caíram (Salmos XXVI-2). files COMERAM A CARNE do meu povo e lhes arrancaram de cima a pele, e lhes quebraram os ossos, e os partiram como para os fazer cozer num caldeirão e como carne que se quer fazer ferver dentro duma panela (Miquéias III-3). Se vós, porém, vos mordeis e vos DEVORAIS uns aos outros, vêde não vos consumais uns aos outros (Gálatas V-15).

Os caluniadores, os maldizentes, os perseguidores são equiparados assim aos cães que mordem, ou às feras que devoram a carne de outros animais. No nosso caso em que Jesus diz: Se não COMERDES A CARNE do Filho do Homem... não tereis vida em vós — a metáfora teria uma aplicação evidentemente absurda: Se não perseguirdes, se não maltratardes, se não caluniardes o Filho do Homem, não tereis a vida em vós.

Além disto, se se trata, como dizem os protestantes, de comer a Jesus pela fé (isto é: comer a Jesus quer dizer crer nÊle) por que motivo então o Divino Mestre haveria de fazer uma distinção entre duas ações diversas: comer a carne e beber o sangue? Não se está vendo aí uma alusão muito clara à intima Ceia, em que Êle fêz duas ações diversas: Isto é o meu corpo; Êste é o cálice do meu sangue?

É impossível fugir à evidência do texto. Aí se mostra clarissimamente a presença de Jesus na Santíssima Eucaristia, bem como a obrigação de recebê-Lo neste augusto mistério do altar.

Mas a respeito dêste assunto: comer a carne e beber o sangue —surge agora uma questão. Jesus dizendo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem E BEBERDES O SEU SANGUE, não tereis a vida em vós —não estará exigindo a comunhão sob as duas espécies? Êle diz: E BEBERDES.

— Aqui entramos na questão da diferença entre o modo de expressar-se usual outrora entre os hebreus e o nosso modo de nos expressarmos, hoje, de acôrdo com a índole da nossa língua.

O texto original grego diz realmente assim: Se não comerdes a carne do Filho do Homem E BEBERDES O SEU SANGUE; a Vulgata de S. Jerônimo (texto latino) o traduz ao pé da letra, e o P.e Pereira traduz ao pé da letra o texto da Vulgata.

Mas tanto o Pe Matos Soares, como o Mons. José Basílio Pereira, tanto Ferreira de Almeida, como a Sociedade Bíblica do Brasil traduzem: Se não comerdes a carne do Filho do Homem E NÃO beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós. Porque é uso do hebraico nestas construções (e o grego do Novo Testamento está cheio de hebraísmos, pois reflete o modo de falar dos hebreus) colocar a negativa só uma vez. Assim é que o texto grego traz: Aquêle que não toma a sua cruz e SEGUE após mim, não é digno de mim (Mateus X-38). É como se lê também no latim da Vulgata. Mas nenhum tradutor dos acima mencionados, inclusive o P.e Pereira, o traduz ao pé da letra. Êles acrescentam um NÃO Aquêle que não toma a sua cruz E NÃO SEGUE após mim, não é digno de mim (Mateus X-38), à exceção do Mons. José Basílio que faz outra construção: Quem não toma a sua cruz SEGUINDO-ME, não é digno de mim (Mateus X-38). Traduzirem ao pé da letra poderia dar margem a uma má interpretação.

O mesmo aconteceu com o nosso texto de S. João. Os outros tradutores não quiseram, como o P.e Pereira, traduzir ao pé da letra, porque, se escrevessem: Se não comerdes a carne do Filho do Homem E BEBERDES O seu sangue, não tereis vida em vós — poderiam dar margem à seguinte interpretação: Se não comerdes a carne do Filho do homem PORÉM BEBERDES O seu sangue, não tereis vida em vós — o que seria uma interpretação completamente arbitrária e sem sentido diante do contexto.

Sentimos necessidade de dar esta explicação, para que o leitor não fique porventura atrapalhado, vendo numa edição da Bíblia E REBERDES, e noutra E NÃO BEBERDES e se ponha a pensar que se trata de uma divergência muito séria. Não há divergência nenhuma. A primeira expressão mostra apenas o modo de falar próprio dos hebreus; a segunda, o modo de falar da nossa própria língua.

Mas há outro ponto ainda em que se mostram duas maneiras diversas de expressão entre os hebreus e os ocidentais: há um hebraísmo bem conhecido na Bíblia; é o emprêgo de E em vez de ou.

Vejamos, por exemplo, o livro dos Provérbios, no versículo em que fala do castigo a ser recebido pelo filho rebelde: Aquêle que amaldiçoa a seu pai E a sua mãe, apagar-se-lhe-á a sua candeia no meio das trevas (Provérbios XX-20). É claro que o Autor Sagrado quer dizer: Aquêle que amaldiçoa a seu pai ou a sua mãe — pois para merecer o castigo não é preciso que o filho amaldiçoe a ambos; amaldiçoar só o pai ou a mãe, já é um crime bastante grave para ser duramente castigado. Entretanto, o texto original hebraico, o latim da Vulgata, as traduções do P.e Pereira e do P.e Matos Soares trazem a partícula E. Ferreira de Almeida e a versão da Sociedade Bíblica do Brasil trazem a partícula ou, o que serve apenas para confirmar o que dissemos: que aquêle E do original vale por um ou.

Uma frase semelhante se encontra em Êxodo XXI-15, pois no TEXTO ORIGINAL HEBRAICO se lê assim: Quem ferir seu pai E mãe, morra de morte. Todos os tradutores trazem: pai ou mãe, para evitar que a frase seja interpretada absurdamente.

Tanto no TEXTO ORIGINAL HEBRAICO, COIMO no latim da Vulgata está escrito: Se alguém confiar a seu próximo um jumento, ou um boi, ou uma ovelha E outro qualquer animal etc. (Êxodo XXII-10). Os tradutores de língua portuguêsa põem unânimemente ou em vez de E, pois é um caso evidente do hebraísmo E = ou. Igualmente tanto no TEXTO ORIGINAL HEBRAICO, como no latim da Vulgata, se lê a respeito dos sacerdotes de Israel: Não desposarão viúva E repudiada (Ezequiel XLIV-22), quando o que se quer exprimir é: não desposarão viúva NEM repudiada

— e assim escrevem todos os tradutores em língua portuguêsa para evitar confusão. Também se poderia dizer: não desposarão viúva ou repudiada.

Nem se diga que é sé no hebraico, que isto se verifica. Também o grego bíblico reflete êste modo de falar dos orientais. A palavra que disse S. Pedro ao paralítico: Não tenho prata NEM ouro (Atos III-6) vem tanto no original grego, como no latim da Vulgata com a partícula (no grego KAI; no latim ET) e traduzida ao pé da letra, como está no original, seria: Não tenho prata E ouro, quando S. Pedro quer dizer: Não tenho prata ou ouro.

Ora, o que é decisivo nas questões de exegese não é a tradução que temos nas nossas mãos; é o texto original.

Podemos muito bem afirmar que aquêle E da frase: Se não comerdes e beberdes — equivale a um ou.

Ou digamos: Se não comerdes a carne do Filho. do Homem ou beberdes o seu sangue;

ou digamos: Se não comerdes a carne do Filho do Homem ou NÃO beberdes o seu sangue;

ou digamos: Se não comerdes a carne do Filho do Homem NEM beberdes o seu sangue;

cabe perfeitamente na frase êste sentido: Se não fizerdes uma coisa nem outra, isto é, se não comerdes a minha carne nem beberdes o meu sangue, se acontecer que não comais a minha carne E acontecer também que não bebais o meu sangue, não tereis vida em vós.

Aqui muito naturalmente hão de perguntar:

E em que é que o Sr. se baseia para afirmar que êste E equivale a um ou?

O leitor já deverá ter percebido que não costumamos afirmar coisa alguma sem uma base, sem. um argumento sólido. E nada melhor para esclarecer uma frase da Escritura do que outra frase da mesma Escritura.

A prova do que afirmamos, nós a temos em S. Paulo que diz: Todo aquêle que comer êste pão ou beber o cálix do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor (1.ª Coríntios Êste ou está no original grego. Dizendo comer êste pão ou BEBER o cálix do Senhor indignamente, S. Paulo está dando a entender que se possa comungar duma forma ou de outra, e o crime será igual, no caso em que se comungue indignamente. Mais ainda, a palavra de S. Paulo vem coafirmar o que ensina a doutrina católica: que tanto no pão eucarístico, como no cálice consagrado estão o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Jesus Cristo, pois basta alguém comungar indignamente sob qualquer uma das duas espécies para ser réu ao mesmo tempo DO CORPO E DO SANGUE DO SENHOR (V Coríntios XI-27).

Outra prova do que afirmamos, nós a temos aí mesmo no contexto, ou seja, nas próprias palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, exatamente neste capítulo 6.º de S. João, pois o Divino Mestre faz promessas de VIDA ETERNA, mesmo para aquêle que comungar sob uma só espécie, o que é sinal de que Êle não exige dos fiéis a comunhão sob as duas espécies. Pois, como bem observa o Concílio de Trento, o mesmo Jesus que disse: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós (João VI-54) é o mesmo que disse: SE QUALQUER COMER DÊSTE PÃO, VIVERÁ ETERNAMENTE (João VI-52). O mesmo Jesus que disse: O que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna (João VI-55) é o mesmo que disse: O pão que eu darei é a minha CARNE, para ser a vida do mundo (João VI-52). O mesmo Jesus que disse: O que come a minha carne e bebe o meu sangue, êsse fica em mim, e eu nêle (João VI-57) é o mesmo que disse: Assim como o Pai que é viro, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim o que ME COME A MIM, êsse »lesmo também viverá por mim... O QUE COME IASTE PÃO VIVERÁ ETERNAMENTE (João VI-58 e 59). (43)

Estas palavras, que são do capítulo 6.° de S. João, foram ditas a TODOS, no discurso de Cafarnaum, portanto são preceitos e ensinos que se dirigem a todos os fiéis. O mesmo já não acontece com as palavras: Bebei dêle todos (Mateus XXVI-27) as quais disse Jesus na Última Ceia, quando se achava EXCLUSIVAMENTE com os seus Apóstolos que seriam, êles aquêles a quem fôssem transmitidos os mesmos poderes, encarregados de celebrar o grandioso mistério dos altares, no Santo Sacrifício da Missa.

É imprescindível conservar as 2 espécies na celebração da Santa Missa, porque é o memorial da Sagrada Paixão e Morte e aí se mostram o Corpo e o Sangue misticamente separados, sob as espécies do pão e do vinho, para melhor representar o sofrimento e a morte do Redentor, em que o sangue derramado se separou do seu corpo. Mas, quando se trata simplesmente da comunhão de um fiel, êste já recebe a Cristo inteiro com a sua graça, ao receber o corpo dêste mesmo Cristo, o qual é corpo vivo e não corpo cadavérico e, portanto, inclui também o sangue.

Não há dúvida que, quando se trata de comida material, é melhor comer carne e beber vinho do que sômente comer carne. E os protestantes que opinam que ali na ceia estão somente pão e vinho, podem achar muito mais interessante, além de comer o pão, beber também o vinho.

Para o católico é diferente. "Me crê que Jesus Cristo está realmente presente na Hóstia Consagrada. Trata-se de um alimento espiritual que vem fortificar a sua alma. O efeito é o mesmo, ou receba a Eucaristia sob as 2 espécies ou sob uma só, porque a graça êle a receberá da mesma forma, de acôrdo com as suas próprias disposições.

No princípio se usou a comunhão sob as duas espécies para todos os fiéis. Mas depois, quando a Igreja cresceu extraordinàriamente e começop a propagar-se por tôda a parte, foi obrigada a limitar à espécie do pão a comunhão dos fiéis, por gravíssimas razões de ordem prática:

havia freqüentemente o perigo de se derramarem no chão algumas gôtas do Preciosíssimo Sangue;

havia dificuldade de conservar-se o Santíssimo sob a espécie do vinho que azeda fàcilmente e de levá-lo aos enfermos;

ou se teria de conseguir uma grande quantidade de cálices sagrados, um para cada pessoa (e quando a comunhão fôsse às centenas ou aos milhares, como muitas vêzes tem sido?) ou beberiam todos no mesmo cálice, com perigo de contágio e com visível repugnância de muitos;

em algumas regiões, onde não se planta a vinha, nem sempre seria fácil obter-se o vinho suficiente para consagrar e satisfazer à imensa multidão de fiéis que procurassem comungar.

Desde que sob a espécie do pão se recebe TODO o CRISTO e sem nenhuma quebra A SUA GRAÇA, a alma se une intimamente com Êle e faz jus a suas divinas promessas, diante de tais circunstâncias não havia necessidade de ministrar-se a comunhão a todos sob as duas espécies.

308. VERSÍCULO 55.

O que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia (João VI-55).

Continua Jesus insistindo na idéia de COMER alguém A SUA CARNE e BEBER O SEU SANGUE, o que, como vimos, não pode nunca ser sinônimo de CRER EM CRISTO, como querem os protestantes. E o texto grego nos mostra que a insistência de Jesus é feita agora com um têrmo muito mais enérgico. Até agora (versículos 52 e 54), Jesus falou em COMER e o verbo correspondente no grego é PHAGÉIN. Agora neste versículo 55 e nos seguintes (57, 58 e 59) o texto grego passa a usar um verbo mais forte: TR(500 — que não só quer dizer COMER, mas também mastigar, quebrar com os dentes os alimentos mais duros, tragar, devorar.

309. VERSÍCULO 56.

Porque a minha carne VERDADEIRAMENTE é comida, e o meu sangue VERDADEIRAMENTE é bebida (João VI-56).

Prossegue a insistência de Jesus na idéia de se comer a sua carne e se beber o seu sangue; e para mostrar mais uma vez que não se trata de uma metáfora, de uma comparação ou figura de retórica, Éle faz ver que sua carne é uma comida DE VERDADE, realmente, prõpriamente, literalmente comida. O seu sangue é de fato uma bebida.

Aqui os protestantes procuram, como sempre, lançar a confusão, tentando fugir ao pêso desta palavra VERDADEIRAMENTE, que é o que há de mais decisivo para firmar o sentido literal.

Dizem êles: Também afirmou Jesus: Eu sou a VIDEIRA VERDADEIRA e meu Pai é o agricultor (João XV-1) e no entanto não deixa de ser isto na metáfora.

— É comum nas metáforas, quando se quer fazer a comparação com alguma coisa, especificar também a QUALIDADE desta mesma coisa. Assim por exemplo: um homem ou uma criança para exprimir que é forte e resistente costuma dizer: Eu sou MADEIRA, mas como às vêzes há também madeiras fracas, que apodrecem bem depressa, então se julga no direito de acrescentar: Eu sou madeira QUE O CUPIM NÃO RÓI. Uma coisa é dizer-nos alguém: Você é um rei; e outra, dizer: Você é um rei DE COMÉDIA.

Jesus quer-se comparar com a VIDEIRA, mas acontece que há VIDEIRAS falsas que parecem apresentar frutos belos e valiosos e no entanto só produzem uvas amargas e de nenhum valor para a fabricação do vinho. O historiador Flávio Josefo (livro II Da guerra cap. V) atesta isto das videiras de Sodoma, muito belas na aparência, mas que não valiam coisa alguma. Uma referência a esta vinha de Sodoma se vê, por exemplo, no Deuteronômio, em que se comparam com ela os judeus rebeldes e endurecidos: A sua vinha é da vinha de Sodoma e dos subúrbios de Gomorra; as suas uvas são uvas de fel e os seus cachos amargosíssimos. O seu vinho é fel de dragões e veneno de áspides incurável (Deuteronômio XXXII-32 e 33).

A ingratidão dos filhos de Israel é comparada com a vinha que não produz frutos: O meu amado teve uma vinha plantada num alto fertilissimó... esperava que desse uvas e veio a produzir labruscas (Isaías V-1 e 2). Eu te plantei como vinha escolhida, tôda semente da verdade. Como, pois, te me hás tornado em mal, vinha estrangeira? (Jeremias II-21).

Há, portanto, a falsa videira que não produz o verdadeiro fruto e sim um fruto belo na aparência, porém enganoso, ou então é estéril, não produzindo fruto algum; mas dando sômente fôlhas. E há também a videira verdadeira que produz uva em abundância, para daí se extrair um saboroso vinho. Jesus, querendo comparar-se com a videira, faz salientar que se trata da verdadeira videira, daquela que produz bons frutos e que, portanto, é a única digna dêste nome.

O caso, por conseguinte, é bem diferente desta passagem do Evangelho, em que os judeus estão espantados com a revelação de que o Mestre dará a sua carne para comer, e o Mestre está frisando que sua carne é VERDADEIRAMENTE comida.

Quando um homem diz: "Eu sou uma videira", todo o mundo está vendo logo que se trata de na metáfora, pois um homem não pode ser árvore, nem produzir uvas. Quando, porém, se diz que uma CARNE vai servir de COMIDA, nada mais natural do que o sentido literal e próprio, pois desde o princípio do mundo se come carne. O espanto dos judeus estava em como podia Jesus dar a sua própria carne para servir de alimento, e alimento que dá a vida eterna. Dizendo: minha carne VERDADEIRAMENTE é comida, Jesus está observando aos judeus que não se espantem com isto, nem tomem noutro sentido as suas palavras, porque Êle vai dar a sua carne DE VERDADE para ser comida por nós.

310. VERSÍCULO 57.

O que come a minha carne e bebe o meu sangue, êsse fica em mim e eu nêle (João VI-57).

Continuando ainda a repisar a mesma idéia — COMER A CARNE E BEBER O SANGUE - Jesus passa a exprimir o efeito da comunhão dignamente recebida: efeito espiritual de uma perfeita união com Êle, Cristo. No Batismo, o Divino Mestre escolheu a água para melhor significar a purificação espiritual realizada por aquêle sacramento, porque a água é para o corpo um elemento purificador. Agora mostra que vai ocultar-se sob a forma de alimento, para melhor exprimir como É PERFEITA a sua união com o comungante. Assim como o alimento do corpo, a bebida material se unem intimamente conosco e se transformam em nós, em nosso próprio sangue, assim também Cristo se une de maneira perfeitíssima com aquêle que recebe êste alimento espiritual que é a Santíssima Eucaristia. Cristo permanece na alma e a alma permanece em Cristo pela graça santificaste. Esta mesma promessa, Deus faz àquele que verdadeiramente O ama, porque aquêle que O ama de verdade guarda a sua palavra, obedece fielmente a Êle que, como vimos no anterior versículo 54, fêz da comunhão um preceito: Se algum me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará; e nós viremos a êle e faremos nêle morada (João XIV-23). O que guarda os seus mandamentos está em Deus e Deus nêle; e nisto sabemos que Êle permanece em nós, pelo Espírito que nos deu (V João III-24). Deus é caridade; e assim aquêle que permanece na caridade permanece em Deus e Deus nêle (1.° João IV-16).

Destas palavras já se deduz o seguinte: Cristo por si não nos abandona nunca. Porém, como somos livres, precisamos guardar os mandamentos, permanecer na caridade, para conservarmos nossa união com Cristo e assim não expulsá-Lo pelo pecado mortal: Permanecei em mim mim e eu permanecerei em vós... O que permanece em mim e o em que permaneço, êsse dá muito fruto; porque vós sem mim não podeis fazer nada. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora como a vara e secará e enfeixá-lo-ão e lançá-lo-ão no fogo e ai arderá (João XV-4, 5 e 6).

Mas, se dÊle nos afastarmos por nossa culpa, ainda podemos conseguir, com o verdadeiro arrependimento e a confissão, o perdão dos nossos pecados e assim nos habilitaremos a fazer pela comunhão uma nova união com ele: Se nos confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar êsses nossos pecados (1.ª João 1-9), pois ser enfeixado e lançado no fogo é o castigo daquele que chega ao fim da vida sem a sua união íntima com Cristo; aquêle, porém, que perseverar até o fim, êsse é que será salvo (Mateus X-22).

311. VERSÍCULO 58.

Assim como o Pai que é vivo me enviou e eu vivo pelo Pai, assim o que me come a mim, êsse mesmo também viverá por mim (João VI-58).

Jesus diz que vive pelo Pai e quem O receber no Sacramento viverá também por ele, Jesus. A preposição POR é aí tradução do grego DIÁ que pode ter neste caso 2 sentidos:

DIÁ = para, em função de, com o pensamento em. DIÁ = por meio de, por virtude de.

A frase de Jesus pode ser perfeitamente tomada nos 2 sentidos:

Eu vivo para o Pai, em função dele, com o pensamento nele, para servir a ele, assim a alma verdadeiramente eucarística viverá também PARA MIM, totalmente a mim consagrada.

Ou então: o Pai me gerou desde tôda a eternidade, dele vem a minha vida; assim a alma que comunga sinceramente tem a vida sobrenatural da graça e de mim é que ela a recebe.

312. VERSÍCULO 59.

Aqui está o pão que desceu do Céu. Não como vossos pais que comeram o maná e morreram. O que come dêste pão viverá eternamente (João VI-59).

Aqui encerra Jesus a sua explicação. Tinha dito que era o pão vivo descido do Céu. E acabou de mostrar de que modo se tornaria êste pão, êste alimento do mundo. Tanto no grego, como em latim como em português e em muitas línguas do mundo, a palavra PÃo tem 2 sentidos: o de uma certa espécie de alimento feito com o trigo, p. ex. (o pão que tomamos com o café) e o de alimento em geral, como quando se diz: Trabalhar para ganhar o pão.

Jesus na Eucaristia é pão, porque é nosso alimento com sua carne e sangue que nos vivificam e fortalecem, e é pão, porque se apresenta sob as aparências do pão comum feito de trigo, sendo na realidade o PÃO CELESTE.

313. VERSÍCULOS 60 E 61.

O versículo 60 serve apenas para situar o sermão de Jesus: Estas coisas disse Jesus, quando em Cafarnaum ensinava na sinagoga (João VI-60).

O versículo 61, porém, vem mais uma vez acentuar o verdadeiro sentido das palavras do Divino Mestre: Muitos, pois, de seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é êste discurso, e quem no pode ouvir? (João VI-61).

Aquelas palavras de Jesus que falou tão abertamente e tão repetidas vêzes em que se havia de comer a sua carne e beber o seu sangue, foram tomadas pelos judeus no sentido literal. Viram que Jesus não estava usando nenhuma figura de retórica. E se, no princípio do sermão, se tinham espantado quando Jesus afirmou que descera do Céu: Porventura não é êste Jesus o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, logo, diz Êle: Desci do Céu? (João VI-42) — é ainda maior o seu espanto, quando Jesus lhes diz tão claramente que vai dar a comer da sua própria carne e a beber do seu próprio sangue. Já tinham êles horror à simples ação de ingerir o sangue dos animais, o que aliás era proibido pela lei mosaica. E agora se põem a imaginar um modo brutal e grosseiro de Jesus dar a sua própria carne para comer: ou tirar-se-Lhe em vida alguns pedaços do corpo e pó-los nos açougues para vender ou para distribuir, afim de que aquêle que comesse de tal carne não morresse jamais; ou então, depois de morto Jesus, retalhar-se o seu cadáver, para que dali se comesse. Tudo isto lhes causava a mais viva repugnância e se lhes apresentava como evidentemente impraticável. E por isto se recusam a crer.

Não admira que os judeus, na sua ignorância, no seu desconhecimento dos mistérios grandiosos do Cristianismo, tivessem dito aquelas palavras, recusando-se a acreditar no ensino do Divino Mestre.

O que causa mais admiração é que os' protestantes, pelo menos os que admitem que Jesus Cristo É DEUS e sendo Deus TEM UM PODER INFINITO (e o que é infinito tem que exceder, é claro, tudo quanto nós, finitos e limitados, somos capazes de imaginar), os protestantes que vêem depois claramente pelo relato do que se passou na Última Ceia, DE QUE MODO JESUS IA DAR SEU PRÓPRIO CORPO PARA COMER E SEU PRÓPRIO SANGUE PARA BEBER, êsses mesmos protestantes que tanto afirmam CRER EM JESUS, façam justamente o contrário de milhões e milhões de católicos que têm existido em tôdas as épocas, desde os primeiros tempos da Igreja até os dias de hoje, dos mais rudes até os mais geniais e que dizem: Sim, Jesus; CREIO FIRMEMENTE que vos recebo na Hóstia Consagrada — e se ponham a dizer como os judeus de outrora, diante do dogma da Eucaristia: Duro é êste discurso, quem no pode ouvir? (João VI-61).

Isto vem confirmar precisamente o que disse Jesus neste capítulo e como preparação à grande revelação que estava prestes a fazer, isto é, que a fé é um dom de Deus; temos, portanto, que nos esforçar para consegui-lo: Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer (João VI-44). É claro que estamos aqui diante de um grande mistério. Mas todo mistério, POR MAIOR QUE SEJA, é sempre uma GRANDE REALIDADE nos lábios de Jesus.

Os protestantes querem compreender primeiro para depois acreditar, mas isto é impossível, desde que se trata de um MISTÉRIO. Nesta ânsia de compreender, são assaltados pelos maiores pensamentos de dúvida, por exemplo: como pode um corpo, sendo corpo, multiplicar-se para tantas pessoas e estar naquela Hóstia pequenina?

— Prezado amigo: sem milagre algum, dentro das próprias leis da natureza, sabemos hoje de muitas coisas assombrosíssimas que, se tivessem sido ditas aos antigos, teriam provocado exclamações como estas: Isto é absurdo; não posso admitir isto; não, nesta não acredito! — e que, no entanto, são pura realidade. Quer ver?

A ciência de hoje nos diz que o ÁTOMO, isto é, uma parte mínima de um corpo qualquer, tão minúscula que não pode ser vista a ôlho nu, contém em si uma quantidade imensa de partículas chamadas eléctrons, tôdas em contínuo movimento em tôrno de um núcleo. Dentro de um pequenino corpo do tamanho de uma cabeça de alfinête giram e se agitam TRILHÕES de eléctrons. Fôsse Você dizer isto aos antigos!

Vemos hoje, pelo rádio, não só o som das palavras proferidas pelos artistas e locutores, mas também a sua visão, a sua imagem se multiplicar para milhões de ouvintes e de espectadores, na própria casa dêstes e todos receberem isto da mesma forma, com a mesma perfeição. Fôsse Você dizer aos antigos!

Se isto se produz tão naturalmente pelas simples fôrças da natureza, por que então se julga impossível o PODER INFINITO DE JESUS (para a qual não há impossível) tornar presente a substância de seu corpo numa Hóstia pequenina e multiplicá-lo para que todos recebam a sua graça? É claro que não estamos dizendo que uma coisa é igual à outra; queremos apenas frisar o seguinte: como é que diante do INCOMPREENSÍVEL, nós podemos saber onde chega ou não chega o absurdo? Para sabermos que não existe ali o absurdo, basta um atestado apenas: A PALAVRA INFALÍVEL DE DEUS.

Na ânsia de compreender, os protestantes se põem a dizer: E a hóstia não se corrompe quando a recebemos? E se se envenenar o vinho, o sangue de Cristo vai envenenar o sacerdote? E mil outras considerações desta natureza.

— A substância que está ali é Cristo. Mas ficam os acidentes do pão e do vinho como a côr, o gôsto, o tamanho etc, fazendo materialmente os mesmos efeitos que faria a substância do pão ou do vinho, se ali estivesse. Quando êstes acidentes se corrompem, ali não estão mais as APARÊNCIAS do pão ou do vinho, cessa, portanto, a presença real de Jesus Cristo; fica na alma A SUA GRAÇA. Se o vinho consagrado envenenasse o sacerdote, isto seria produzido por êstes acidentes. E é claro que se Cristo suspendesse a ação dêstes acidentes (dando, por exemplo, à Hóstia ou ao vinho consagrado outro sabor) estaria fazendo milagres visíveis a cada instante e isto tiraria o valor da nossa fé.

Agora falamos aos protestantes que admitem a divindade de Cristo e que são unanimidade em muitas seitas reformadas.

Suponham Vocês que, ao apresentarem as passagens bíblicas, tão claras, em que se prova que Jesus Cristo era DEUS e era homem, uma pessoa se ponha a embaraçar-se com mil pensamentos audaciosos e indiscretos: Como é que Deus vai passar nove meses no ventre de uma mulher? Jesus comeu, foi sujeito, portanto, a naturais necessidades do nosso organismo, não será indecente imaginar-se isto de Deus? Jesus dormiu; como um Deus podia dormir? Jesus foi surrado na sua Paixão, como é que Deus vai ser surrado pelas suas criaturas? E assim por diante. Agora perguntamos: TEM FÉ a pessoa que assim se pega com estas dúvidas por não querer admitir a divindade de Cristo? Cristo é Deus e homem, isto é um mistério; a nossa razão não pode jamais penetrar êste abismo insondável. Mas a Bíblia o ensina e ela é infalível; cumpre-nos CRER e nada mais; e aí é que está o merecimento da nossa fé.

Pois bem, o mesmo exatamente se dá com o protestante que, diante de palavras tão claras da Bíblia que nos provam A PRESENÇA REAL de Jesus Cristo sob as espécies do pão e do vinho, se põe a alimentar a dúvida no seu espírito com mil pensamentos perturbadores. É justamente por isto, porque o protestante se recusa a sujeitar humildemente a sua razão à exegese da Igreja, coluna e firmamento da verdade (1.° Timóteo III-15), que há tantos protestantes que negam a divindade de Cristo; que há no Protestantismo, ora nesta ou naquela seita, a negação de tantos dogmas importantes da Revelação Cristã, como a Santíssima Trindade, o inferno, a sobrenaturalidade da graça, a vontade que Deus tem de salvar a todos etc.

A razão humana é falaz, irrequieta e imperfeita; levando o homem pelo livre exame a sujeitar os ensinos da Bíblia às impressões de seu próprio entendimento, o Protestantismo torna-se fatalmente o caminho para a negação e para a descrença. E é por isto que o racionalismo, a indiferença religiosa e a incredulidade tanto aumentaram no mundo, depois que apareceu a Reforma.

Mas voltemos ao comentário sôbre o Capítulo 6.o de S. João.

Diante daquelas duas dúvidas que assaltam os seus ouvintes: 1.Q — Como é que Éle desceu do Céu, se é o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? (João VI-42) — 2.° Como pode este dar-nos a comer a sua carne? (João VI-53), Jesus vai dar duas explicações. Mas não vai deter-se em esclarecimentos muito longos. Como nos dirá S. João quatro versículos mais adiante, Jesus conhecia bem o coração dos seus ouvintes, sabia que muitos dêles tinham má vontade, não queriam crer; e com essa gente de má vontade é inútil perder tempo com longas explicações. Ainda que o Mestre lhes falasse anos inteiros, não os convenceria, pois, se os seus grandes milagres não os convenceram, que dirá suas palavras?

314. VERSÍCULOS 62 E 63.

Porém Jésus, conhecendo em si mesmo que seus discípulos murmuravam por isso, disse-lhes: Isto escandaliza-vos? Pois que será, se vós virdes subir o Filho do Homem onde Êle primeiro estava? (João VI-62 e 63). Esta explicação responde a ambas as dúvidas.

Jesus era Deus, e sendo Deus sempre esteve nos Céus; com o prodígio da Ascensão em que O verão subir ao reino de seu Eterno Pai, poderão os homens mais fàcilmente saber que foi dos Céus que Éle desceu à terra. É a resposta à primeira dúvida.

Subindo aos Céus, o que a nossa carne mortal não consegue fazer, Jesus mostrará as maravilhas do seu corpo glorioso, o qual tem dotes especiais surpreendentes que não tem o nosso corpo aqui na terra, e assim poderá também multiplicar-se para nos servir de alimento. É a resposta à segunda dúvida, a qual vai ter ainda outra explicação no versículo seguinte.

315. VERSÍCULO 64.

O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse sdo espírito e vida (João VI-64).

Diante destas palavras, os protestantes que não querem acreditar que Jesus na Eucaristia nos dá realmente A SUA CARNE para comer, se põem a observar: Estão vendo? Jesus mostra que não ia dar realmente sua carne, mas que estava falando num sentido figurado, pois diz que A CARNE PARA NADA APROVEITA, e acrescenta que suas palavras são espírito e vida, isto é, que devem ser tomadas num sentido espiritual e simbólico.

— Mas é o caso de dizer: Meçam bem as palavras, vejam bem o que estão dizendo, caros amigos protestantes. Então porque Jesus diz que A CARNE PARA NADA APROVEITA, Vocês concluem daí que NÃO É DE SUA CARNE que Êle está falando? Quer dizer então que A CARNE DE JESUS NÃO SERVE PARA NADA?

Mas isto é um absurdo e uma blasfêmia. A carne de Jesus serviu para muita coisa, porque SERVIU para a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade operar a nossa Redenção: E o Verbo se fêz CARNE e habitou entre nós (João 1-14).

Como se vê pelo contexto, igualmente como no versículo anterior, Jesus está esclarecendo as dúvidas que assaltavam o espírito de seus ouvintes, dúvidas que Êle conheceu em si mesmo, como vimos há pouco S. João dizer (João VI-62), mas esclarecendo noutro sentido bem diverso daquele que imaginam os protestantes. Os ouvintes, como é muito natural, como nós todos, se lá estivéssemos também imaginaríamos diante daquelas palavras tão realistas do Mestre, se puseram a imaginar Jesus retalhando a sua carne em pedaços para ser fornecida a todos, como é fornecida a carne de boi nos açougues ou então retalhando-se, após a sua morte, o seu cadáver para ser por todos comido.

Ora, Jesus faz ver que isto nada adiantaria: esta carne assim retalhada de seu corpo em vida ou retirada de seu cadáver seria uma carne SEM O ESPÍRITO DE JESUS, uma carne morta e isto não traria nenhuma vantagem, desde que se considerem os ensinos do Mestre: seus ensinamentos são para O APERFEIÇOAMENTO DO ESPÍRITO, sua doutrina é para nossa REGENERAÇÃO e PROGRESSO ESPIRITUAL, suas palavras são ESPÍRITO E VIDA, e vida eterna, vida sobrenatural, vida da graça; e um pedaço de carne do seu corpo que se comesse, assim como se come um pedaço de carne de boi ou de carneiro, serviria somente para um momentâneo proveito do corpo e não para o ESPÍRITO; não serviria nunca para ser a comida que Êle havia prometido: a comida que DURA ATÉ À VIDA ETERNA (João VI-27).

Êle está falando, ainda esta vez, da Santíssima Eucaristia, onde nos dá a sua CARNE juntamente com sua ALMA e sua DIVINDADE. Isto, SiM, é que vivifica a nossa alma; é isto o que o Mestre quer: ESPÍRITO e VIDA, ou seja, o homem cada vez mais espiritualizado e vivendo, quanto é possível, da própria vida de Deus: Assim como o Pai que é vivo, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim o que me come a mim, êsse mesmo também VIVERÁ por mim (João VI-58).

316. VERSÍCULOS 65 A 68.

Mas há alguns de vós outros que não crêem. Porque bem sabia Jesus desde o princípio quem eram os que não criam e quem O havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos tenho dito que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai lhe não fôr concedido. Desde então se tornaram atrás muitos de seus discípulos e já não andavam com Êle. Por isso disse Jesus aos doze: Quereis vós outros também retirar-vos? (João VI-65 a 68).

Tudo isto vem confirmar o que dissemos no n.° 301: Quando os judeus vieram em busca de Jesus, exclusivamente à procura de vantagens materiais, o Redentor que lia perfeitamente nos corações, sabia muito bem que a grande maioria daqueles que O buscavam, aparentemente com tanto fervor, não tinham, entretanto, A VERDADEIRA FÉ.

Advertiu-os claramente de que 'era preciso crer nÊle, mas esta fé é um dom de Deus, uma dádiva do .nosso Pai Celeste (se alguém a não possui, peça a Deus ardentemente) e para mostrar realmente que êles não tinham a crença verdadeira, aproveitou a oportunidade para revelar um dos grandes mistérios da fé, ou seja, a Eucaristia: Jesus dando sua própria carne para comer. E o resultado foi o que se viu: acharam aquilo por demais assombroso; recusaram-se a acreditar. Mais ainda: abandonaram o Divino Mestre, não quiseram mais andar com Êle. E Jesus, sem se deter em longas explicações, assim como quem diz: quem quiser ser meu discípulo, tem que acreditar de qualquer maneira na minha palavra, por mais espantoso que seja o que eu revelo, pois eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e meus milagres aí estão para demonstrá-lo, Jesus volta-se para seus Apóstolos e pergunta: Quereis vós outros também retirar-vos? (João VI-68).

O que ninguém pode negar, o que salta aos olhos na leitura dêste capítulo é que aquêles muitos discípulos que Jesus perdeu para sempre, se retiraram por causa de uma COISA ESPANTOSA, de uma COISA INCOMPREENSÍVEL que êles não quiseram acreditar. Acaso poderão os protestantes negar isto?

Ora, segundo dizem os protestantes, Jesus falou em sentido figurado: comer a carne de Jesus, beber o seu sangue quer dizer crer em Jesus (?!). E, segundo os protestantes, crer em Jesus vem a ser isto: ter confiança de que Jesus nos salva, convencer-nos de que, sendo Jesus nosso Salvador, a nossa salvação está garantida.

Mas isto é o que há de mais suave e mais fácil! Para acreditar que existe um inferno eterno para os maus, ainda há quem faça muita dificuldade; mas ter confiança de que se vai para o Céu, isto é uma coisa que se tem muito facilmente. É tão fácil, que há muita gente que tem esta confiança sem estar absolutamente no caso de possuí-la, como são muitos pecadores que não se arrependem sinceramente, não querem seriamente abandonar os seus pecados e, no entanto, alimentam no seu espírito uma presunção de se salvar sem merecimento, querendo à fina fôrça apoiar-se na misericórdia de Deus, quando Deus nunca prometeu salvar o pecador que não esteja sinceramente contrito e arrependido. Ter confiança de que se vai para o Céu porque Cristo é nosso Salvador e sofreu por nós é o que há de 'mais agradável e consolador.

De modo que, segundo a interpretação protestante, Cristo disse apenas isto: que era preciso crer, isto é, confiar nÊle como em nosso Sálvador, para se ganhar a vida eterna. Mas apresentou esta idéia de FÉ oculta misteriosamente numa metáfora: em lugar de falar em CRER, falou em COMER A CARNE DE CRISTO, BEBER O SANGUE DE CRISTO. Então OS judeus ali presentes fizeram um bicho de sete cabeças, pensando que Cristo estava falando realmente em comer-se sua própria carne, beber-se o seu próprio sangue. Acharam que isto era demais, era muito duro de se acreditar: Duro é êste discurso, e quem no pode ouvir? (João VI-61). Resolveram então afastar-se completamente de Jesus, não segui-Lo mais. E Jesus SEM MAIS NEM MENOS OS DEIXOU IR EMBORA e, voltando-se para os Apóstolos, perguntou se êles não queriam ir também.

Mas isto é simplesmente inconcebível. Cristo é o Mestre que veio ensinar a todos. E neste mesmo capitulo disse claramente ter chegado o tempo em que serão todos ensinados de Deus (João VI-45). É claro que o interêsse de todo profeta, de todo pregador da verdade é atrair a si os homens, e nunca afastá-los de si, máxime tratando-se de Jesus que era Deus, e, sendo assim, era INFINITAMENTE BOM, e portanto queria salvar a todos. Como se concebe, então, que Jesus, que tantas vêzes no Evangelho (inclusive neste 6.° capítulo de S. João) falou tão claramente em CRER nÊle para alcançar a vida eterna, substituísse de uma hora para outra esta palavra CRER por uma metáfora incompreensível, isto é, COMER A SUA CARNE e BEBER O SEU SANGUE, afastando de si desta maneira tão numerosos discípulos?

É mais do que evidente que, se fôsse como dizem os protestantes, o Mestre não permitiria que êles se apartassem: Não, meus amigos, não estou falando em dar minha carne realmente para comer; estou apenas fazendo uma comparação; estou dizendo somente que CREIAM em mim, e crer em mim é o que há de mais simples: é confiar na salvação. A não ser que Cristo fôsse um homem tão mau, tão perverso que resolvesse de propósito apresentar a idéia de CRER que seria no caso uma idéia muito simples, sob a metáfora indecifrável de COMER A SUA CARNE e BEBER O SEU SANGUE, somente para fazer uma confusão tremenda na cabeça daqueles discípulos e assim afastá-los definitivamente do seu rebanho. Mas esta hipótese é uma verdadeira aberração contra tudo o que sabemos a respeito da Sabedoria, da Bondade, da Misericórdia, do Espírito de Justiça de Jesus. Nenhum homem em perfeito juízo faria isto; muito menos o Salvador do mundo.

Vê-se claramente que as coisas se passaram de modo bem diverso. Cristo falou abertamente em que se havia de COMER A SUA CARNE e BEBER SEU SANGUE. Não era exatamente da mesma forma como êles pensavam no seu modo grosseiro de interpretar o que ouviam. Mas Cristo viu que, ainda mesmo que explicasse o MODO como havia de dar a sua carne e o seu sangue (isto é, multiplicando a sua presença na Hóstia e no Cálice Consagrado), êles haveriam de continuar da mesma forma recusando-se a acreditar, tal qual como acontece com os protestantes de hoje que, após 2.000 anos de pregação do mistério eucarístico, após ver exemplo dêsse número incalculável de membros da Igreja Católica que em tôdas as épocas da História, têm humildemente curvado a sua razão diante dêste grande MISTÉRIO DE FÉ, apesar de terem nas mãos a Bíblia, que, como vimos e ainda veremos, fala sôbre êste assunto em linguagem tão clara, apesar de tudo isto, ainda se recusam a acreditar na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Cristo viu que era inútil dar-lhes mais explicações, porque na sua ciência infinita sabia desde o princípio quem eram os que não criam (João VI-65).

Por isso limitou-se a dar uma explicação ligeira, fazendo-lhes ver que a carne de que ali lhes falava era uma carne vivificada pelo seu espírito, unida à sua Divindade.

Não se tratava, com efeito, de COMPREENDER uma coisa, como o aluno na aula pergunta ao professor o que não entendeu, e o prófessor tem obrigação de explicar tintim por tintim. Tratava-se de ACREDITAR NO QUE É INCOMPREENSÍVEL (incompreensível, isto é, para nós, diante da nossa limitada e fraca inteligência, pois a verdade do mistério é em si luminosa e inteligível e Deus a compreende perfeitamente, na sua ciência infinita)

aí é que está precisamente o grande mérito da nossa fé. E Cristo tinha o direito de exigir que se cresse no que Êle dizia, uma vez que com inúmeros milagres Êle provara realmente que era Deus, como dizia de si mesmo. Se aquêles judeus não queriam acreditar, era porque o seu coração estava cheio de má vontade e assim não podiam receber do Pai Celestial o dom da fé. Por isto Jesus os deixou ir embora.

317. VERSÍCULOS 69 E 70.

Finalmente termina o capítulo com a belíssima profissão de fé, proferida pelo Apóstolo S. Pedro.

E respondeu-Lhe Simão Pedro: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, Filho de Deus (João VI-69 e 70).

O texto grego traz assim: tu és o Santo de Deus.

Diante da pergunta do Mestre sôbre se querem também retirar-se, estão os Apóstolos num dêsses momentos que decidem para tôda a vida. E S. Pedro, seu chefe, fala em nome de todos êles: ficarão todos com Jesus, porque Jesus é quem tem palvras de vida eterna, isto é, palavras que vivificam e vivificam eternamente, se a isto não pusermos obstáculos, palavras que nos prometem e realmente nos dão a vida eterna, se a elas nos conservarmos fiéis.

E falando em nome dos Apóstolos, S. Pedro dá também um grande exemplo a tôda a Igreja, da qual seria o primeiro chefe. Diante das palavras do Mestre, ainda mesmo que elas nos ensinem o que há de mais incompreensível e impenetrável, a nossa atitude de verdadeiros cristãos há de ser esta: aceitar reverentemente o que Êle nos diz. Não vemos, não compreendemos, não somos capazes de imaginar; mas Jesus afirmou a sua presença real na Santíssima Eucaristia e é quanto nos basta.

A INSTITUIÇÃO

318. CEIA LEGAL E CEIA EUCARÍSTICA.

Os judeus, gemendo sob a escravidão no Egito, não achavam meio de libertar-se, porque o rei Faraó se obstinava em não querer autorizar a sua partida. Muitas pragas tremendas já haviam caído sôbre os egípcios, porém debalde. O remédio decisivo foi, então, a matança dos primogênitos, na PASSAGEM do anjo exterminador.

Para que os judeus, porém, não fôssem envolvidos com os egípcios nesta terrível punição divina, deveriam imolar um cordeiro e tingir com o sangue as portas de suas casas. Tudo isto era figura da Redenção operada por Jesus Cristo, Cordeiro Imaculado, que havia de libertar o mundo da escravidão do demônio, remindo com o seu sangue a Humanidade inteira.

Mas o cordeiro, cujo sangue havia de salvar os judeus, devia também SER COMIDO por êles, numa ceia que obedecia a um rito estabelecido por Deus. Era assim mais uma vez a figura do Cordeiro Imaculado, Jesus, que não só nos havia de remir, mas também nos devia servir de alimento espiritual na Santíssima Eucaristia.

Eis aqui as determinações dadas por Deus no Egito, falando a Moisés e a Arão: Falai a todo o ajuntamento dos filhos de Israel e dizei-lhes: Ao décimo dia dêste mês cada um tome um cordeiro para a sua família e casa... Êste cordeiro será sem defeito, será macho e será dum ano. Podereis também tomar um cabrito que tenha as mesmas qualidades. E o guardareis até o dia quatorze dêste mês, e tôda a multidão dos filhos de Israel o imolará à tarde; e tomarão do seu sangue e pô-lo-ão sôbre as duas umbreiras sôbre a vêrga das portas das casas onde êles o hão de comer; e esta mesma noite comerão êles a carne do cordeiro assada no fogo e pães asmos com alfaces bravas... Eis aqui, porém, como o haveis de comer: cingireis os vossos rins, e tereis sapatos nos pés e bordões nas mãos, e comereis pressa, porque é a Páscoa, isto é, a Passagem do Senhor (Êxodo XII-3, 5 a 8, 11).

Fazendo esta determinação, Deus mandou também que todos os anos festejassem os judeus aquêle acontecimento, e assim na grande festa da PÁSCOA celebravam a sua ceia, comendo o cordeiro no mesmo estilo em que haviam comido os judeus de outrora: Êste dia será para vós um dia memorável e vós o celebrareis de geração em geração com um culto perpétuo, como uma festa solene em honra do Senhor (Êxodo XII-14).

A festa durava sete dias, em que não se comia pão fermentado, porém pão ázimo: Comereis pães asmos sete dias; desde o primeiro dia não se achará fermento em vossas casas (Êxodo XII-15).

A estas prescrições do Êxodo, a tradição judaica ajuntou um certo ritual pelo qual se celebrava a Ceia da Páscoa.

Como podemos nós saber o rito que se empregava no tempo em que Nosso Senhor celebrou a Páscoa com seus discípulos?

Sabemos, porque êste rito é descrito no livro dos judeus chamado Mischna. Mischna é a parte principal do Talmud. Uma vez destruído o templo de Jerusalém, vendo os judeus que haviam desaparecido como nação, sentiram a necessidade de recolher num livro as suas tradições. E assim aparece o Mischna em meados do século segundo, consignando por escrito aquelas velhas sentenças e usos judaicos que se transmitiam de pais a filhos.

O Mischna, entre os seus 63 capítulos, traz um (que é precisamente o 14.°) intitulado Pesachim, que descreve o modo de celebrar-se a Ceia Legal, a Ceia da Páscoa. Segundo a descrição do Mischna, reuniam-se ao cair da noite, todos os membros da família, cujo número variava entre 10 a 20 pessoas, e a cerimônia era presidida pelo chefe da casa, observando-se o seguinte ritual:

1.º — O chefe da família tomava um copo de vinho misturado com um pouco dágua, rendia graças com estas palavras: BENDITO SEJA O SENHOR QUE CRIOU O FRUTO DA VINHA. E distribuía o vinho com OS presentes.

2.º — Vinha então a bacia com água e a toalha para se fazer a purificação das mãos, como costumavam fazer os judeus nas suas refeições.

3.° — Punha-se a mesa, onde estavam os diversos alimentos:.

a carne assada do cordeiro para rememorar o cordeiro imolado que no Egito livrara os judeus da exterminação dos primogênitos;

ervas amargas, para relembrar as amarguras que no Egito haviam passado;

o pão sem fermento ou pão ázimo, sem fermento para indicar simbolicamente a pressa com, que tinham saído do Egito, sem ter nem ao menos o tempo de fermentar o pão;

o charoseth, que era uma salada de diversas frutas, como maçãs, figos, limões cozinhados no vinagre.

4.º — Distribuía-se um segundo copo de vinho; e o mais moço dos convivas pedia ao chefe da família a explicação dêstes ritos. Éste levantava, aos olhos de todos, os alimentos e explicava em tom solene a sua, significação, terminando com estas palavras: "É por êstes prodígios que havemos de louvar e exaltar Aquêle que mudou nossas lágrimas em alegria, nossas trevas em luz; é a Êle só que havemos de cantar: Aleluia!" Cantavam então todos o salmo 112 e a primeira parte do salmo 113. O salmo 112 começa assim: Aleluia. Louvai, ó meninos, ao Senhor; louvai o nome do Senhor. Seja bendito o nome do Senhor desde agora para sempre. Desde o nascimento do sol até o seu ocaso é digno de louvor o nome do Senhor (Salmos CXII-1 a 3). E assim por diante. No meio dêstes cânticos bebiam o vinho que havia sido distribuído.

5.º — O chefe da família tomava o pão ázimo, o partia, benzia e distribuía. Para que todos se lembrassem que era um pão de penúria, comia-se apenas um pedaço misturado com as ervas amargas e ensopado no charoseth. E aqui se explica, digamos entre parêntesis, aquela palavra de Jesus, a respeito de Judas: É aquêle a quem eu der o nTio MOLHADO (João XIII-26).

6.º — Comia-se depois o cordeiro, que era repartido para todos, devendo desaparecer por inteiro.

7.º — O chefe da família distribuía então um terceiro copo, o CÁLIX DA BÊNÇÃO, depois do qual, cantavam novamente, continuando com a 2.ª parte do salmo 113: Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá a glória, para fazeres respiendecer a tua misericórdia e a tua verdade, para que nunca digam as nações: Onde está o seu Deus? (Salmos CXIII — 2.ª parte — vers. 1 e 2) etc, continuando com os salmos 114 e 115 e terminando com o salmo 116: Aleluia. Louvai, tôdas as gentes, ao Senhor; louvai-O todos os povos; porque sôbre nós foi confirmada a sua misericórdia, e a verdade do Senhor permanece eternamente (Salmo CXVI).

É uma alusão a êste hino final que fazem S. Mateus e S. Marcos, quando dizem que Jesus e seus Apóstolos CANTADO O HINO saíram para o monte das Oliveiras (Mateus XXVI-30; Marcos XIV-26).

Estava traçado pela Providência que Cristo fôsse imolado para nossa Redenção, precisamente no tempo em que os judeus celebravam a sua Páscoa. Assim se ajuntavam o símbolo e a realidade. Naquela festa em que os judeus, como todos os anos, IMOLAVAM o cordeiro, que era uma figura da imolação de Cristo para salvação da nossa alma, naquela mesma festa se daria a morte do Salvador.

como a ceia anual do cordeiro era também uma figura da ceia eucarística, Jesus reúne numa só ocasião as 2 coisas: faz ali no Cenáculo a ÚLTIMA CEIA LEGAL, cumprindo a Lei Antiga juntamente com seus discípulos (era a Velha Aliança que chegava ao seu fim) e celebra também A PRIMEIRA CEIA EUCARÍSTICA, dando início ao Novo Testamento, o qual é selado não com sangue de novilhos, como fôra o Antigo (Êxodo XXIV-8), mas com o próprio sangue do Redentor.

Enquanto S. Mateus e S. Marcos se põem logo diretamente a descrever a consagração do pão e do vinho, S. Lucas é o único Evangelista que se detém um pouco mais a descrever algumas passagens da ceia judaica. Assim é êle o único a falar na primeira distribuição do vinho que o chefe da família benzia (dizendo, como vimos, aquelas palavras: Bendito seja o Senhor que criou o fruto da vinha): chegada que foi a hora, pôs-se Jesus à mesa e com êle os doze Apóstolos e disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa antes da minha Paixão, porque vos declaro que a não tornarei mais a comer até que ela se cumpra no reino de Deus. E depois de TOMAR O CÁLIX, DEU GRAÇAS e disse: TOMAI-0 E DISTRIBUÍ-O ENTRE VÓS; porque vos declaro que não tornarei a beber do fruto da vide, enquanto não chegar o reino de Deus (Lucas XXII-14 a 18).

Em seguida é que passa a descrever a consagração do pão:

Também depois de tomar o pão deu graças e partiu-o e deu-lho, dizendo: Êste é o meu corpo que se dá por vós: fazei isto em memória de mim (Lacas XXII-19).

E finalmente descreve a consagração do vinho, mas com o cuidado de acrescentar que Jesus distribuiu o vinho consagrado DEPOIS DE CEAR, isto é, depois que comeu do cordeiro pascoal:

Tomou também da mesma sorte o cálix, DEPOIS DE CEAR, dizendo: Êste cálix é o novo testamento em meu sangue, que será derramado por vós (Lucas XXII-20).

319. ESTE OU ISTO?

Uma vez que tanto no grego como no latim é neutro o têrmo Correspondente à palavra portuguêsa CORPO (grego TO S(SMA; latim corpus), a frase pode ser traduzida em português de duas formas:

ESTE é o meu corpo;

ISTO é o meu corpo.

P.e Antônio Pereira de Figueiredo, como acabámos de ver, e a versão da Sociedade Bíblica do Brasil trazem a primeira forma. Ferreira de Almeida, P.e Matos Soares e Mons. José Basílio Pereira trazem a segunda.

Mas isto em nada altera o sentido. Tanto faz alguém tomar um livro e apresentar aos outros dizendo: Esta é a Bíblia, como fazê-lo dizendo: Isto é a Bíblia. Todos entendem perfeitamente que se trata aí do livro sagrado.

320. A CLAREZA E SIMPLICIDADE DAS NARRATIVAS.

A mesma narrativa que faz S. Lucas da ceia eucarística, fazem também S. Mateus, S. Marcos e S. Paulo. O único Evangelista que não a refere é S. João, o qual em compensação traz, no seu capítulo 6.Q, por nós há pouco estudado, as palavras de Jesus em que prometeu a Eucaristia. Tudo isto demonstra a importância máxima que dão os autores sagrados ao mistério eucarístico; e embora haja pequena diferença de palavras, todos são firmes e categóricos em apresentá-lo como SENDO realmente o CORPO e O SANGUE de Jesus Cristo.

(tabela não inserida)

Se Cristo quis fazer realmente a transubstanciação como a Igreja ensina, isto é, mudar a substância do pão na substância do próprio corpo, e a do vinho no seu próprio sangue, Êle não podia ter usado de palavras mais simples, nem mais claras, nem mais categóricas para exprimi-lo, do que, ao tomar o pão, dizer: Isto é o meu corpo — ou — Êste é o meu corpo, o que vem a dar na mesma coisa; e depois, ao apanhar o cálice com vinho, dizer: Êste é o meu sangue do Novo Testamento, que será derramado por muitos (Mateus XXVI-28; Marcos XIV-24). S. Lucas e S. Paulo trazem uma variante que em nada modifica o sentido: Êste cálix é o novo testamento EM MEU SANGUE (Lucas XXII-20; Coríntios XI-25).

Ao contrário, se Jesus quis dizer apenas, como ensinam a maioria dos protestantes, que aquêle pão simbolizava o seu corpo, aquêle vinho representava o seu sangue, não podia ter usado de palavras mais infelizes, nem mais impróprias. Sim, porque neste caso estaria na obrigação de dizer:

Isto representa o meu corpo; isto representa o meu sangue;

ou Isto simboliza o meu corpo; isto simboliza o meu sangue;

ou, pelo menos, Êste pão é o meu corpo; êste vinho é o meu sangue.

Mas não foi assim que Êle falou. O Cardeal Wiseman, protestante convertido ao Catolicismo, provou que na língua que Nosso Senhor falou, o aramaico, da mesma família da siríaca, Êle dispunha de QUARENTA maneiras diversas para dizer que aquilo era apenas um sinal ou figura ou representação ou símbolo do seu corpo. (Horae syriacae. Roma 1828. 3 segs).

E por que estaria Êle na obrigação de dizer claramente: Isto representa o meu corpo — ou coisa semelhante, se fôsse esta a sua intenção?

— Primeiro que tudo, estava diante de homens rudes e ignorantes, cuja tendência era por si para tomar as palavras sempre EM SENTIDO LITERAL, mesmo quando o Mestre falava em sentido metafórico. Já tivemos ocasião de ver (n.º 306) o caso do fermento dos fariseus e dos saduceus (Mateus XVI-6); a expressão: Nosso amigo Lázaro DORME; mas eu vou despertá-lo do sono (João XI-11).

Além disto, os Apóstolos não estavam diante de um homem qualquer, mas do próprio Filho de Deus, o qual êles tinham visto fazer os maiores milagres, como por exemplo, a multiplicação dos pães no deserto, o andar sôbre as águas do mar, a ressurreição da filha de Jairo, do filho da viúva e a de Lázaro etc, etc. A êstes homens, que eram os que mais criam no poder do Mestre, ou pelo menos, os que mais de perto viviam acompanhando e vendo seus grandes prodígios, Nosso Senhor sempre reclamava que a fé que êles tinham ainda era pouca: Por que temeis, homens de POUCA FÉ? (Mateus VIII-26); Homem de POUCA FE, por que duvidaste? (Mateus XIV-31); Homens de POUCA FE, por que estais considerando lá convosco que não tendes pão? (Mateus XVI-8).

Se fôsse um simples homem que tomasse um pedaço de pão e dissesse: Isto é o meu corpo — todo o mundo tomaria isto como uma pilhéria, como uma mentira dita apenas para fazer graça, porque todos estão vendo que um pedaço de pão não poderia nunca ser a figura ou a representação de seu corpo.

Com Jesus o caso era diferente, não só porque Jesus nunca disse pilhérias, mas também porque Êle era Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, cujo poder é infinito e que, segundo a feliz expressão de S. Agostinho, "pode fazer muito mais coisas do que as que o homem pode compreender".

Os Apóstolos não sentiram nenhum espanto, não esboçaram nenhum gesto de incredulidade diante do que estavam vendo e que era, na realidade, assombroso, porque já andavam esperando esta grande maravilha. como acabamos de ver no Capítulo 6.° de S. João, o Mestre já lhes dissera abertamente, claramente (tão claramente que muitos discípulos se aborreceram com isto e não quiseram mais segui-Lo) que DARIA A SUA PRÓPRIA CARNE PARA COMER E O SEU PRÓPRIO SANGUE PARA BEBER (João VI-54 a 58). Em vez de ficarem estupefactos e sem ação diante do que o Divino Mestre acabara de realizar, estão os Apóstolos, ao contrário, com a solução do enigma que os poderia vir preocupando; agora, sim, já sabem DE QUE MANEIRA poderão correr a carne e beber o sangue de Jesus; é em virtude do poder infinito do Salvador que chega ao ponto de mudar o pão comum no seu próprio corpo, e o vinho no seu próprio sangue.

E as palavras de Jesus são de um realismo que não deixa margem a nenhuma dúvida: ÊSTE É O MEU CORPO QUE SERÁ ENTREGUE POR VÓS (1.ª Corintios XI-24). ÊSTE á O MEU SANGUE DO NOVO TESTAMENTO, QUE SERÁ DERRAMADO POR MUITOS PARA REMISSÃO DE PECADOS (Mateus XXVI-28).

Falando desta maneira, Êle não só mostrou a relação íntima que há entre a Eucaristia e o sacrifício do Calvário, mas também quis impedir tôda e qualquer possibilidade de sofisma, de cavilação a respeito de que sentido Êle estaria dando a estas palavras o MEU CORPO, O MEU SANGUE. Quando Cristo diz o MEU CORPO, refere-se a seu corpo DE VERDADE: aquêle mesmo que será entregue por nós. Quando diz: o MEU SANGUE, refere-se realmente ao seu próprio sangue, que será derramado para remissão de nossas culpas.

E é preciso notar que Êle nos deixou a Eucaristia em testamento, às vésperas de sua morte: Êste cálix é O NOVO TESTAMENTO em meu sangue que será derramado por vós (Lucas XXII-20). S. Paulo na Epístola aos Hebreus, depois de chamar a Cristo mediador dum novo testamento (Hebreus IX-15) diz: onde há um testamento, é necessário que intervenha a morte do testador (Hebreus IX-16).

Ora, num testamento devem-se empregar palavras claras e simples, não há lugar para metáforas insólitas e incompreensíveis; sua linguagem deve ser límpida, singela e insofismável.

E daí se vê o grande contraste entre a fé católica e a cavilação protestante, como tantas vêzes já tem sido apontado.

Cristo disse: ISTO É o MEU CORPO. Os católicos dizem: Creio que ISTO É O CORPO DE CRISTO. Os protestantes dizem: Creio que ISTO REPRESENTA O CORPO DE CRISTO.

Cristo disse: ISTO á O MEU SANGUE. OS católicos dizem: Creio que ISTO É O SANGUE DE CRISTO. Os protestantes dizem: Creio que ISTO REPRESENTA O SANGUE DE CRISTO.

Quem é que está com a razão?

321. CRISTO FALOU MEDINDO TÔDA A SUA RESPONSABILIDADE.

Tão claras, tão decisivas, tão categóricas são as palavras de Jesus, que não sómente a Igreja Católica jamais teve dúvidas sôbre a presença real dÉle mesmo na Eucaristia, mas também se passaram mil anos sem que entre os CRISTÃOS, incluídos neste número os próprios hereges, surgisse pessoa alguma que ousasse negar diretamente êste dogma. Não há dúvida que, desde o seu comêço, a Igreja foi perseguida pelas heresias, que procuravam dar interpretações errôneas às passagens das Escrituras. Isto é velha, é constante e sempre será assim na história da Igreja. Pois bem, até o século XI, apareciam hereges que negavam a Eucaristia só indiretamente, como por exemplo os docetas que não admitiam que Cristo tivesse tido em vida um CORPO REAL e diziam que Êle tivera sômente uma aparência de corpo. Como conseqüência desta doutrina, não podiam também admitir que na Hóstia Consagrada estivesse realmente o corpo de Jesus; a razão era muito simples: êles eram de opinião que êste corpo nunca existira. Por isto diz S. Inácio Mártir (escritor e S. Padre, bote-se bem, CONTEMPORÂNEO DOS APÓSTOLOS), falando a respeito dos docetas: "Eles se abstêm da Eucaristia e da oração, porque não reconhecem que a Eucaristia É A CARNE de nosso Salvador Jesus Cristo, A QUAL PADECEU POR NOSSOS PECADOS e A QUAL O PAI RESSUSCITOU na sua benignidade" (Epístola aos Esmirnenses 7, 1).

Os Arianos, negando a divindade de Cristo, era natural que não vissem na Hóstia o seu Deus, como viam os católicos.

Mas hereges que diretamente se negassem a crer na presença de Jesus na Eucaristia, isto só veio a aparecer depois de muitos séculos.

No século IX aparece um escritor Escoto Erígena, amigo de novidades, que fala sôbre a Eucaristia de uma maneira verdadeiramente confusa, de modo que nunca se veio a saber o seu verdadeiro pensamento, e por isto mesmo não faz escola.

Só no século XI aparece Berengário negando a doutrina católica sôbre a Eucaristia, mas êste mesmo findou retratando-se.

No século XII é que aparecem os Petrobrussianos ensinando que Cristo realmente deu o seu corpo e o seu sangue na última Ceia, mas negando que os sacerdotes tivessem o poder de consagrar; e no século XIII aparecem os Valdenses e Albigenses negando a presença real. Na esteira dêstes Valdenses e Albigenses seguiram os protestantes no século XVI, sendo que o seu fundador Martinho Lutero admitia a presença real, porque achava o texto do Evangelho muito majestoso, como êle diz na sua Epístola aos cristãos de Estrasburgo, (44) embora queira Lutero explicar esta presença de modo diverso da Igreja Católica, não por transubstanciação, mas por consubstanciação. E entre os protestantes, como já vimos (n.º 325), é grande a diversidade de opiniões sôbre esta matéria, havendo até quem aceite totalmente a doutrina católica sôbre êste ponto, como se dá entre os Ritualistas.

Ora, estamos diante de 4 fatos que não se podem contestar:

1.º — Jesus, sendo Deus, tinha completo e perfeito conhecimento de tudo o que ia acontecer para o futuro;

2.º — Êle prometeu claramente que as portas do inferno NÃO PREVALECERIAM CONTRA A SUA IGREJA;

3.º — a Igreja Católica inteira em pêso, desde o tempo dos Apóstolos sempre creu e crê ainda hoje, e também creram, durante muitos séculos, até os próprios hereges na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, CONFIADOS TODOS, a Santa Igreja e os próprios cristãos dela separados, nas palavras do Mestre que disse: Isto É o meu corpo, isto É o meu sangue;

4.º — se não é verdade esta presença real, então durante muitos séculos todos os cristãos caíram na idolatria, adorando a Hóstia Consagrada. Que se conclui daí?

Que, se Cristo queria dizer somente: Isto representa o meu corpo; Êle que previa o futuro estava na obrigação de dizer: Isto representa o meu corpo, ou qualquer outra expressão que significasse ser aquilo apenas um símbolo, para evitar que A SUA IGREJA, para evitar que os CRISTÃOS em pêso caíssem na idolatria, pois é claro que, se Jesus veio fundar uma Religião, não foi para que ela continuasse a fazer exatamente o que fazia o paganismo, sendo a idolatria tão abominável aos olhos de Deus.

Mas o que Êle disse foi da maneira mais categórica: Isto É o meu corpo, isto É o meu sangue.

E Cristo não era homem que falasse sem medir tôda a respónsabilidade de suas palavras.

322. SENTIDO LITERAL E SENTIDO METAFÓRICO.

Vamos ver agora como é que os protestantes negadores da presença real se portam diante das palavras tão claras do Divino Mestre. Dizem êles:

Muitas e muitas vêzes na Bíblia se emprega o verbo SER em frases que são to'madas em sentido figurado: Eu sou a videira: vós outros, as varas (João XV-5). Eu sou o caminho (João XIV-6). Eu sou a luz do mundo (João VIII-12). Eu sou a porta das ovelhas (João X-7). Vós soIs o sal da terra (Mateus V-13). Eis ali o cordeiro de Deus (João 1-36). Jesus chamou a Herodes de rapôsa (Lucas XIII-32). S. Paulo disse que Cristo é a cabeça de tôda a Igreja (Efésios V-23) e disse aos Coríntios: Os vossos membros saÃo templo do Espírito Santo (1.ª Coríntios VI-19). No Apocalipse se põem nos lábios de Cristo estas palavras: Eu sou o alfa e o omega (Apocalipse XXII-13) e ,também se diz dÊle: Eis aqui o leão da tribo de Judá (Apocalipse V-5). E assim por diante.

Quer isto dizer que Jesus é fisicamente uma videira, um caminho, uma luz, uma porta, um cordeiro, uma cabeça, duas letras do alfabeto ou um leão? Quer dizer que sejamos materialmente luz, sal, templo? ou que Herodes tenha sido no sentido próprio uma rapôsa? Não. Pois é o que se dá com as palavras da Ceia; elas devem ser tomadas em sentido figurado.

— Há nesta argumentação um verdadeiro TRUQUE. Tôdas estas frases e uma infinidade de outras que igualmente se pudessem alegar (pois é comum chamar-se aos homens de rato, lêsma, gavião, tigre, burro, timbu etc.) nada têm que ver com o caso. Pois o que é que querem provar os protestantes? Simplesmente isto: que nas frases: Isto É o meu corpo, isto É o meu sangue — o verbo SER tem o significado de REPRESENTAR, SIMBOLIZAR; e portanto as palavras do Mestre querem dizer: Isto REPRESENTA (OU SIMBOLIZA) o meu corpo; isto REPRESENTA (OU SIMBOLIZA) O meu sangue.

Ora, em tôdas as frases acima citadas, o verbo SER conserva o seu verdadeiro significado, exprimindo uma afirmação segura, uma realidade. Jesus não diz que Éle representa ou simboliza o caminho, mas que É realmente o caminho. Afirma que É na realidade para nós o que é a videira para os seus ramos. Éle É realmente a luz que espanca as trevas, o cordeiro imolado por nós, a cabeça donde parte a vida para a Igreja, o princípio e o fim de tôdas as coisas, o leão pela sua fortaleza. Os seus discípulos não irão simbolizar ou representar, serão realmente para o mundo o que o sal é para a comida que está sujeita a apodrecer. E Herodes não simbolizava ou representava apenas uma rapôsa, ERA realmente uma rapôsa pela sua astúcia. O que acontece nestas frases é que o sentido figurado não está no verbo SER (isto é, SER = SIMBOLIZAR, REPRESENTAR); o sentido figurado está na palavra que se segue ao verbo SER. Jesus é o caminho, a porta, porque só se pode ir por Éle. É a luz pela sua doutrina, é o cordeiro pela sua mansidão etc, etc.

Para se argumentar com estas frases, o que é preciso provar agora é que nas afirmações de Jesus: Isto É o meu CORPO; isto É o meu SANGUE; estas palavras o MEU CORPO, O MEU SANGUE são tomadas em sentido figurado; aí, sim, haverá a semelhança com as frases citadas na argumentação.

Mas acontece que Jesus FECHOU COMPLETAMENTE o caminho para êste sentido figurado. As palavras o MEU CORPO, O MEU SANGUE só podem ser tomadas em sentido próprio, pois Éle mesmo se encarregou de dizer claramente: Éste é O MEU CORPO que SERÁ ENTREGUE POR AMOR DE VÓS (1.ª Coríntios XI-24). Éste é O MEU SANGUE do nOVO testamento QUE SERÁ DERRAMADO POR MUITOS PARA REMISSÃO DE PECADOS (Mateus XXVI-28). Ora, não foi pão, foi o seu próprio corpo no sentido exato, material da palavra, que Jesus entregou por nosso amor na sua Paixão; e não foi o vinho, mas o seu próprio sangue, que Éle derramou por nós, para nos dar a salvação. Não há margem, portanto, para o sentido figurado.

Um argumento completamente louco e sem sentido é o que empregam os protestantes, quando dizem: S. Lucas e S. Paulo trazem assim as palavras da consagração do vinho: Éste cálix É o novo testamento em meu sangue (Lucas XXII-20; 1.ª Coríntios XI-25). Ora, Jesus emprega aí uma metáfora com a palavra CÁLICE; logo, a frase tem um sentido metafórico.

— É muito usual empregar-se esta figura (o continente pelo conteúdo) dizendo-se: beber um COPO dágua, tomar um CÁLICE àS refeições etc. Mas do fato de se empregar esta figura, completamente compreensível, não se segue que a frase tôda tome um sentido metafórico. Por exemplo, se alguém diz à mesa: Éste copo aqui É guaraná; êste outro copo É vinho;

êste outro copo É champanha, não se segue daí que as palavras guaraná, vinho, champanha se tomem também neste sentido figurado.

Jesus disse: Éste cálix é o novo testamento EM MEU SANGUE (Lucas XXII-20; 1.º Coríntios XI-25). Como provam agora os protestantes que a palavra SANGUE está tomada em sentido figurado? Como provam que na frase: Éste é o meu CORPO, a palavra CORPO está em sentido metafórico?

Mas dirão os protestantes:

— O Sr. quer frases em que o verbo SER tem o sentido de simbolizar, representar. Pois bem, nós podemos dar exemplos, tirados não só da nossa linguagem comum, mas também da própria Bíblia:

1.º — É muito comum dizer-se, diante de um retrato ou de uma estátua: Éste É Napoleão, êste É César, êste É Hitler. Ora, aí evidentemente o verbo SER tem o sentido de REPRESENTAR, e as frases equivalem a: Isto representa Napoleão, isto representa César, isto representa Hitler.

2.º — Na própria Bíblia se encontram também exemplos: As sete vacas formosas e a& sete espigas gradas sÃo sete anos de abundância (Gênesis XLI-26). Os dez cornos dêste mesmo reino SERÃO dez reis (Daniel VII-24). A semente É a palavra de Deus (Lucas VIII-11). Esta pedra ERA Cristo (1.º Corintios X-4). Ora, nestas frases se vê claramente o verbo SER com o sentido de simbolizar e representar: As vacas formosas REPRESENTAM sete anos de abundância. Os dez cornos SIMBOLIZAM dez reis. A semente REPRESENTA a palavra de Deus. Esta pedra REPRESENTAVA ou SIMBOLIZAVA Cristo.

É isto justamente o que Jesus quis dizer: Isto representa ou simboliza o meu corpo. Isto representa ou simboliza o meu sangue.

— Não há verbo que mais exprima a realidade de uma coisa do que o verbo SER: uma coisa ou É ou NÃO É. É dêste verbo que nos servimos quando queremos asseverar com a maior firmeza. Se em alguns casos especiais o verbo SER aparece com o sentido de representar ou simbolizar, isto não me dá o direito de em qualquer momento interpretar o verbo SER neste sentido. Assim cairiam por terra as mais seguras afirmações.

A seguir êste método, qualquer herege poderia diante de afirmações como estas: Jesus É o Cristo, Filho de Deus (João XX-31), Êle É a propiciação pelos nossos pecados (1.° João II-2) dizer: "Não; Jesus representa, simboliza o Filho de Deus; simboliza, representa a propiciação pelos nossos pecados. E provo-o com frases em que o verbo SER significa representar".

Tem que haver, portanto, regras, sinais para se conhecer QUANDO é que o verbo SER significa simbolizar e quando é o que o verbo SER significa SER mesmo de verdade.

Vejamos estas regras.

Emprega-se o verbo SER no sentido de representar, quando o objeto é feito especialmente, é por sua natureza destinado a êste fim: simbolizar ou representar alguma pessoa ou alguma coisa. É claro que uma estátua, um retrato são feitos exclusivamente para esta finalidade: representar a pessoa. É muito natural, portanto, que diante da estátua ou do retrato de Napoleão, de César ou de Hitler, estátua ou retrato que reproduz fielmente as suas feições, alguém diga: Éste é Napoleão ou — Éste é César ou — Êste é Hitler. Todos entendem perfeitamente esta linguagem. Basta, porém, que a estátua esteja mal feita, reproduza algumas, porém não tôdas as feições da pessoa em aprêço para logo se protestar, dizendo: Não, ,êste não é Napoleão. Não; êste não é César. Êste não é Hitler.

Ora, um pão ou um pedaço de pão não foi feito para isto: foi feito para se comer, não para representar ou simbolizar alguém. Não reproduz as feições de quem quer que seja. Se alguém tomasse um pedaço de pão e dissesse: Êste é César ou êste é Hitler, se tomaria esta palavra apenas como uma troça e nada mais. E Jesus nunca troçou. Se Êle toma um pedaço de pão e podendo dizer: Isto representa, isto simboliza o meu corpo, isto é uma figura de meu corpo, diz abertamente: Isto É o meu corpo, Êle que, sabiam os Apóstolos, tinha e tem um poder infinito; é porque queria dizer que na realidade aquilo ERA o seu corpo.

Emprega-se o verbo SER no sentido de representar, simbolizar, quando se está explicando a significação de cada uma das personagens ou coisas que fazem parte de uma parábola, de uma história simbólica, de uma alegoria ou de um sonho. Porque estas personagens ou coisas foram imaginadas, inventadas ou escolhidas precisamente para isto: para que cada uma delas REPRESENTASSE ou SIMBOLIZASSE outra pessoa ou outra coisa.

É o caso, portanto, do sonho do Faraó. Deus lhe mandou aquêle sonho para que tudo aquilo que ali se via tivesse uma significação especial, fôsse um símbolo adequado. Por isto José, ao explicá-lo, diz: As sete vacas formosas e as sete espigas gradas sÃo sete anos de abundância (Gênesis XLI-26) — isto é representam, simbolizam.

É o caso do sonho de Daniel, relatado em todo o capítulo VII do livro do mesmo nome; aquêle que lhe explica o sonho dá a significação dos dez cornos.

É o caso da parábola do semeador, uma história que Nosso Senhor imaginou para daí tirar um ensino moral. Tudo ali tem a função de um símbolo. E explicando a parábola, Êle diz: A semente É a palavra -de Deus (Lucas VIII-11). Todos percebem claramente que Êle não quer dizer que é a semente que se planta no chão que é a palavra de Deus, mas que NA SUA HISTÓRIA, NA SUA PARÁBOLA, a semente É a palavra de Deus, isto é, simboliza-a, representa-a, porque foi imaginada tôda a história precisamente para isto: para concretizar o mecanismo da pregação.

É o caso, finalmente, da alegoria empregada por S. Paulo, como já tivemos ocasião de explicar (n.º 160). Daquilo que aconteceu com os judeus no deserto, S. Paulo tira uma alegoria, na qual cada elemento da história passada com os judeus é figura ou representação de alguma coisa. Assim a passagem do Mar Vermelho, Moisés, a nuvem, o maná, cada qual é um símbolo. E nesta distribuição a pedra ERA Cristo, isto ,é simbolizava ou representava Cristo.

Ora, Jesus na Última Ceia não contou nenhuma parábola, nenhuma história, não fêz nenhuma alegoria cuja significação estivesse explicando. Simplesmente tomou o pão e disse: Isto É o meu corpo, Êle que tinha meios no seu poder infinito para mudar o pão no seu próprio corpo. Tomou o cálice e disse: Isto É o meu sangue, Êle que, sendo Deus tinha o poder de realizar os maiores prodígios, e portanto podia converter o vinho em seu próprio sangue.

Além disto, há uma grande diferença entre as frases: As sete vacas formosas são sete anos de abundância, os dez cornos serão dez reis, a semente é a palavra de Deus, esta pedra era Cristo — e estas outras: Isto é o meu corpo ou Êste é o meu corpo.

É que aquelas frases têm um sujeito de sentido claro e determinado. Uma vez que o verbo SER aí identifica noções tão disparatadas como VACAS e ANOS, CHIFRES e REIS, SEMENTE e PALAVRA, PEDRA e CRISTO, a gente logo percebe que se trata de um símbolo, de uma representação.

Mas na frase: Isto é o meu corpo ou Êste é o meu corpo, o sujeito da oração ISTO ou ÊSTE não tem nenhum sentido determinado. Pode significar qualquer coisa. Quem vai determinar o seu sentido é justamente a palavra que se segue ao verbo SER: Isto é o MEU CORPO — ou — Êste é O MEU CORPO.

E para tomar aí o verbo SER no sentido de representar, não encontram nenhuma brecha os protestantes, porque o próprio Divino Mestre tinha dito clarissimamente diante dos judeus estupefactos: A minha carne VERDADEIRAMENTE é comida; e o meu sangue VERDADEIRAMENTE é bebida (João VI-56).

323. MEMORIAL DA PAIXÃO.

Mas insistem os protestantes:

Jesus disse, referindo-se à sua Ceia e ordenando aos seus discípulos que também a fizessem: Fazei isto em MEMÓRIA de mim (Lucas XXII-19). Ora, celebra-se a MEMÓRIA de uma pessoa que está ausente, não de uma pessoa que está presente. Logo, Cristo não está presente na Hóstia, e a Eucaristia não passa de um memorial.

Que a Eucaristia é um memorial, que é realizada em memória de Cristo, não temos nenhuma dúvida. Que seja EXCLUSIVAMENTE um memorial, é falso; neste ponto estão enganados redondamente os protestantes.

que é que comemoramos na Eucaristia? A paixão e a morte de Jesus Cristo: Tôdas as vêzes que comerdes êste pão e beberdes êste cãlice, A MORTE DO SENHOR, até que Ele venha (1.ª Coríntios XI-26). É, portanto, o grande acontecimento da morte redentora de Cristo, que rememoramos na Eucaristia. Isto não obsta a que esta recordação seja feita com o próprio Cristo invisivelmente presente em nossos altares. Ao contrário, esta comemoração se faz muito mais naturalmente, de maneira mais viva e com muito menos esfôrço do que se faz entre os protestantes. Vemos no altar realmente presente o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou melhor, o discernimos pelos olhos da nossa fé. Vemos igualmente no altar, pelos olhos da nossa fé, o seu Preciosíssimo Sangue. E logo nos lembramos do Sacrifício do Calvário, onde êste mesmo sangue se separou dêste mesmo corpo, porque foi derramado por nós. Ao passo que é preciso muito esfôrço para que eu, pelo simples fato de comer um pedaço de pão (que é pão e nada mais) beber um pouco de vinho (que é vinho e nada mais), me lembre da Paixão de Jesus Cristo. Os judeus, imolando o cordeiro na sua festa de Páscoa, faziam uma representação mais viva da Paixão do Redentor do que fazem os protestantes comendo pão e bebendo vinho.

E quem foi que disse que só se pode COMEMORAR um fato, estando ausente o seu personagem principal, o autor dêste feito? D. Pedro I.° proclamou a 7 de setembro de 1822 a independência do Brasil, que foi a nossa libertação. Não podiam muitos brasileiros nos anos seguintes fazer grandes festas em comemoração do acontecimento, com A PRESENÇA DO PRÓPRIO D. PEDRO 1.º, louvando-o, enaltecendo-o e dando-lhe graças pelo que fêz outrora? Não se podia fazer isto indefinidamente, porque D. Pedro I. havia de morrer, ou havia, antes disto, de retirar-se do Brasil. Mas com Jesus é diferente: Êle foi para os Céus, mas tem poder sem limites para se tornar realmente presente nos nossos altares, quantas vêzes quiser, na Santa Missa, em que comemoramos a sua Paixão e Morte Redentora.

A Eucaristia é, portanto, símbolo e ao mesmo tempo realidade. A memória da paixão do Mestre nos vem através da realidade sacramental.

324. DISPOSIÇÕES PARA BEM COMUNGAR.

E a prova de que a Eucaristia não é apenas uma simples recordação, mas contém o próprio corpo e sangue de Jesus Cristo, está nas palavras de S. Paulo, ao indicar as disposições com que o cristão há de recebê-la. Tem que ser com a alma contrita, com a consciência limpa, porque, se assim não fizer, será culpado de crime contra o corpo e o sangue do Salvador, como tendo maltratado êste corpo, conculcado, profanado êste sangue: Todo aquêle que comer êste pão ou beber o cálix do Senhor indignamente SERÁ RÉU DO CORPO E DO SANGUE DO SENHOR. EXAMINE-SE, POIS, A SI MESMO O HOMEM, e assim coma dêste pão e beba dêste cálix. Porque todo aquêle que o come e bebe indignamente, come e bebe para Si a condenação, NÃO DISCERNINDO O CORPO DO SENHOR (1.ª Coríntios XI-27 a 29).

Não se podia pintar com côres mais vivas o sacrilégio daquele que, com o pecado mortal na sua alma, ousa aproximar-se da mesa eucarística para receber o próprio Jesus. Mas, se na Eucaristia está somente pão e vinho, que crime haverá para o pecador que não está contrito, em comer pão e beber vinho? Se a Eucaristia é uma recordação da paixão de Cristo e nada mais, que crime haverá para aquêle que se acha em estado de pecado, em lembrar-se daquela morte redentora? Ao contrário, em vez de ser um crime, seria uma lembrança salutar para melhor convertê-lo, excitá-lo à confiança e aproximá-lo de Deus. Nisto não haveria nunca uma ofensa ao próprio corpo e sangue de Jesus.

A imagem de Jesus Crucificado, que possuímos nas nossas igrejas, em que se representa o Divino Salvador em sua agonia, todo coberto de chagas e ensangüentado, traz imediatamente àquele que a contempla uma lembrança viva da Paixão do Redentor, excitando a contrição em muitas almas; e no entanto, segundo a mentalidade dos protestantes, não merece nenhuma veneração da nossa parte. Como é, então, que um simples pedaço de pão e um pouco de vinho, servindo apenas de SÍMBOLOS da Paixão do Senhor (porque nem imagens poderiam ser), hão de ser considerados tão sagrados, tão sublimes, que quem os recebe com respeito e acatamento, mas com a alma ainda manchada pelo pecado, se torna ipso facto um réu do corpo e do sangue do Salvador?

A palavra DISCERNIR, que vem neste trecho de S. Paulo, corresponde no texto grego ao verbo DIAKRINO que quer dizer distinguir, separar, discriminar. Aquêle que recebe indignamente a Eucaristia não distingue o CORPO DO SENHOR do pão vulgar. O pão vulgar, qualquer pessoa o pode receber em estado de pecado. Não, porém, o CORPO DO SENHOR.

É, portanto, mais um TEXTO CLARÍSSIMO a ajuntar-se àqueles outros versículos que já vimos no Capítulo VI de S. João (João VI-52 a 58) e às palavras tão formais, tão decisivas do Divino Mestre na sua última Ceia.

325. A SEGUNDA VINDA DE CRISTO.

Diante dêste texto tão evidente, se percebe como é fraéa e insustentável a objeção tirada pelos protestantes desta mesma 1.ª Epístola aos Coríntios: Tôdas as vêzes que comerdes êste pão e beberdes êste cálix, anunciareis a morte do Senhor, até que ÊLE VENHA (1.ª Coríntios XI-25). Logo, dizem os protestantes, Jesus não vem aos altares católicos; virá, sim, ao mundo no último dia.

— Sabemos pelas Escrituras que Jesus virá no último dia visivELMENTE aos olhos de todos, os que creram e os que não creram e com grande poder e majestade (Lucas XXI-27), para julgar a todos os homens. Quando fala nesta segunda vinda de Cristo, a Bíblia não precisa usar de tôdas as minúcias, diz simplesmente A VINDA DO SENHOR, JESUS VIRÁ e todos entendem de que vinda ela está falando, é a vinda visível aos olhos de todo o mundo, a vinda à Humanidade tôda reunida no final dos tempos: Nós outros que vivemos, que temos ficado aqui para a VINDA DO SENHOR, não preveniremos aquêles que dormiram (1.ª Tessalonicenses IV-14) está reservada a coroa de justiça que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não só a mim, senão também àqueles que amam a sua VINDA (2.ª Timóteo IV-8). Permanecei nÊle para que, quando Êle aparecer, tenhamos confiança e não sejamos confundidos por Êle na sua VINDA (1.ª João II-28). Êste Jesus que, separando-se de vós, foi assunto aos Céus, assim VIRÁ, do mesmo modo que O haveis visto ir ao Céu (Atos I-11).

Jesus Cristo VIRÁ - é uma frase muito simples e curta que exprime, de modo que todos entendem, a sua segunda vinda a esta terra, no dia do juízo final. Mas que se segue daí? Segue-se que Jesus não está presente aqui na terra? Êle está presente, porque é Deus, é a Segunda Pessoa da SS.ma Trindade, e Deus está em tôda a parte. Segue-se daí que Êle não VENHA misticamente à alma do justo? Não; porque disse Jesus: Se algum me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará; e NOS VIREMOS a êle e faremos nêle morada (João XIV-23). Segue-se daí que Êle esteja proibido de aparecer a alguma pessoa? Não; porque- Êle apareceu a Saulo, depois da Ceia Larga, depois de sua subida aos Céus: Eu sou Jesus, a quem tu persegues (Atos XXVI-15). Logo, esta segunda VINDA não impede absolutamente a sua presença eucarística.

As palavras — anunciareis a morte do Senhor até que ÊLE VENHA -- exprimem, apenas, que a Eucaristia perdurará até o fim dos séculos, quando se dará a vinda do Senhor com todo seu esplendor e majestade e daí por diante os verdadeiros seguidores de Cristo não precisarão mais da Eucaristia, porque terão outra maneira celestial e mais perfeita de se unirem perpêtuamente com Êle.

326. TERIA CRISTO COMUNGADO?

Para armar efeito, os protestantes aparecem ainda com a seguinte objeção: Jesus Cristo participou da última Ceia. Ora, seria absurdo que Jesus Cristo tivesse comido seu próprio corpo e bebido o seu próprio sangue. Não se concebe que uma pessoa coma a si mesma. Logo, ali não estava o corpo nem o sangue de Jesus, mas apenas um símbolo.

— Primeiro que tudo, NÃO HÁ NENHUMA PASSAGEM DA ESCRITURA PELA QUAL SE PROVE QUE JESUS TENHA COMUNGADO, NEM SOB A ESPÉCIE DO PÃO NEM SOB A ESPÉCIE DO VINHO.

E uma coisa é dizer que Jesus participou da Última Ceia; outra coisa muito diferente é dizer que Jesus COMUNGOU na última Ceia. Porque, como já dissemos, houve ali 2 ceias: a legal e a eucarística; como provam os protestantes que Jesus participou da ceia eucarística? Apresentam esta palavra do Mestre: Não beberei jamais dêste fruto da vide, até chegar aquêle dia em que o beba novo no reino de Deus (Marcos XIV-25). Logo, dizem êles, Jesus participou do cálice da Eucaristia.

Mas, como já dissemos (n.º 318), faziam-se na Ceia Legal, pelo menos 3 distribuições de vinho, a primeira no comêço de tudo e acompanhada destas palavras: Bendito seja o Senhor que criou o FRUTO DA VINHA.

5. Lucas apresenta estas palavras: Não tornarei a beber do fruto da vide, enquanto não chegar o reino de Deus (Lucas XXII-18) como ditas por Jesus ANTES DA CONSAGRAÇÃO DO PÃO E DO VINHO, que êle descreve nos dois versículos seguintes (19 e 20). E estas palavras são uma alusão muito clara à fórmula com que se benzia o primeiro cálice distribuído na ceia judaica: Bendito seja o Senhor que criou o FRUTO DA VINHA. Portanto aí se prova que Jesus bebeu o vinho com seus discípulos, naquela ceia pascoal, mas não que tenha bebido do vinho consagrado.

"É verdade que os outros dois evangelistas S. Mateus e S. Marcos põem estas palavras: Não beberei mais dêste fruto da vide etc, depois da consagração do pão e do vinho.

Mas é preciso notar o seguinte:

1.º Os Evangelistas nem sempre costumam seguir exatamente a ordem cronológica. E não é preciso ir muito longe para provar isto. Aí mesmo na descrição da última Ceia, S. Lucas põe depois da consagração do pão e do vinho estas palavras de Cristo: Eis aí a mão de quem me há de. entregar, está à mesa comigo (Lucas XXII-21) ao passo que S. Mateus e S. Marcos as colocam antes (Mateus XXVI-23; Marcos XIV-18). Há contradição nisto? Não. Apenas a ordem cronológica não é seguida. E agora perguntamos: Quem está mais autorizado a nos dizer em que ocasião Jesus disse: Não beberei mais do fruto da vide, ou seja, se foi antes ou depois da ceia eucarística — S. Lucas, que é o único a relatar de uma certa maneira as 2 ceias, ou S. Mateus e S. Marcos que falam exclusivamente da ceia eucarística?

2.º — Ainda mesmo supondo que Jesus tenha dito estas palavras depois de tudo, quando terminou a Ceia, imaginemos agora que também Êle só participou da ceia legal, só bebeu o vinho antes da consagração. Não podia Êle no fim de tudo ter dito: Não beberei mais dêste fruto da vide. referindo-se à ceia pascoal, que de fato Êle não celebraria mais com os seus discípulos? As palavras de Jesus são uma simples palavra de despedida, às vésperas de sua morte.

O outro argumento apresentado é também muito fraco, ou melhor, é um argumento nulo. S. Lucas, ao descrever a consagração do cálice, diz que Jesus tomou também da mesma sorte o cálix DEPOIS DE CEAR, dizendo: Êste cálix é o novo testamento em meu sangue (Lucas XXII-20). O mesmo diz S. Paulo: Por semelhante modo, DEPOIS DE HAVER CEADO, tomou também o cálix dizendo: Êste cálix é o novo testamento no meu sangue (1.º Coríntios XI-25). Ora, dizem os protestantes, se na consagração do vinho se diz que Jesus a fiz DEPOIS DE HAVER CEADO é sinal que Êle participou do pão consagrado. Logo, Jesus tomou a Eucaristia.

— Mas as palavras DEPOIS DE CEAR indicam apenas que Jesus participou da ceia legal, comendo o cordeiro, pois também descrevendo a consagração do pão, o Evangelho nos diz que nesta hora Jk ESTAVAM CEANDO. ESTANDO êles, porém, CEANDO, tomou Jesus o pão e o benzeu e partiu-o e deu-o a seus. discípulos e disse: Tomai, e comei; êste é o meu corpo (Mateus XXVI-26) E QUANDO PLES ESTAVAM COMENDO, tomou Jesus o pão e depois de o benzer, partiu-o e deu-lho e disse: Tomai, êste é o meu corpo (Marcos XIV-22). S. Lucas mostra primeiro uma distribuição do cálice entre os discípulos (XXII-17) para depois mostrar a consagração do vinho (XXII-19), sinal, portanto de que já estavam CEANDO (ceia legal), quando se deu a consagração.

S. Lucas e S. Paulo, frisando que a consagração do vinho foi feita por Jesus DEPOIS DE HAVER CEADO, quererão, quando muito, significar que, en quanto a consagração do pão foi feita no decorrer da ceia legal ou comum, a consagração do vinho foi feita depois de tudo. Jesus CEOU, sim, com seus discípulos, mas o que se sabe ao certo é que Êle participou da ceia legal; de que Êle tenha participado da ceia eucarística, não há nenhum indício na Bíblia.

Quanto ao outro argumento que apresentam é também fraquíssimo. Diz S. Marcos: E tendo tomado o cálix, depois que deu graças, lho deu e TODOS BEBERAM DELE (Marcos XIV-23).. Ora, dizem OS protestantes, TODOS beberam; logo também Jesus bebeu.

— Mas daí se segue apenas que TODOS OS DISCÍPULOS beberam, não que Jesus bebeu, pois S. Marcos acabara de dizer que Jesus dera o cálice a seus discípulos DEU-LHO (no grego: ÁDOKEN AUTÓIS = deu a êles).

S. Mateus nos mostra Jesus dizendo aos seus discípulos, a respeito da cálice: BEBEI DELE TODOS (Mateus XXVI-27), assim como também dissera a respeito do pão consagrado: TOMAI E COMEI (Mateus XXVI-26). Jesus nunca disse: Bebamos dêle todos; nem: tomemos e comamos. É sempre uma ordem para que seus discípulos comam e bebam o alimento e bebida eucarística.

TODOS BEBERAM DELE (Marcos XIV-23) refere-se evidentemente aos discípulos, a quem Jesus ofereceu o cálice, dizendo: BEBEI DELE TODOS (Mateus XXVI-27), êstes mesmos discípulos que tinham recebido a ordem: TOMAI E COMEI (Mateus XXVI-26).

Um inexperiente leitor da Bíblia que só conheça o texto em português ainda pode atrapalhar-se, pois se diz em vários textos sôbre a Ceia que Jesus TOMOU o pão, TOMOU o cálice, antes de dar a seus discípulos.

E o verbo TOMAR tem dois sentidos em português:

TOMAR = agarrar, segurar, suspender: tomou o livro e leu.

TOMAR = engulir, beber, absorver: tomar água, tomar a refeição.

Mas pelo texto grego se vê claramente que se trata do primeiro sentido, pois invariàvelmente em todos êstes versículos sôbre a ceia o verbo TOMAR corresponde ao verbo grego LAMBÁNO que nunca significa comer ou beber, mas sempre tomar entre as mãos, segurar, recolher, apoderar-se de alguma coisa etc.

Nada há de certo, de positivo, portanto, quanto a Jesus ter participado da comunhão na Última Ceia.

Mas suponhamos mesmo que Jesus tenha recebido a Eucaristia e sob as duas espécies. Não há motivo para tamanho espanto e escarcéu a respeito disto. A Eucaristia é um mistério; é o efeito de um poder infinito que assombra a nossa razão. E não é o fato de Jesus ter participado ou não da ceia eucarística que vai aumentar ou diminuir o mistério.

Todo o mal dos protestantes no caso é querer materializar por demais as coisas, exatamente como faziam os judeus de outrora, quando o Mestre lhes disse que daria a sua carne para comer e o seu sangue para beber. Querem argumentar como se se tratasse de nutrir-se do corpo de Cristo MATERIALMENTE, assim como se devora a carne de porco ou de cabrito ou como se engole a carne que é comprada nos açougues. De fato, se se tratasse de uma nutrição assim material, Jesus não poderia comer TODO o SEU CORPO, mas (mesmo dentro desta hipótese grosseira) já não seria impossível que comesse uma boa parte. Não é impossível que um homem esteja com fome e chegue a comer uma boa parte de seu braço ou de sua perna, ou chegue a beber uma boa parte de seu próprio sangue. Isto se se tratasse de uma refeição carnal. Mas aqui se trata de alimentar-se do corpo de Cristo, não MATERIALMENTE, como quem come pedaços de carne ou bebe um bocado de sangue, mas de uma maneira ESPIRITUAL E SACRAMENTAL.

Não há absurdo, portanto, em que assim como milhões e milhões de pessoas podem abrir a bôca e receber aquêle pão celeste ou beber aquêle Sangue Preciosíssimo, o próprio Cristo também o fizesse.

A única objeção que se poderia fazer era que Cristo não necessitava dêste alimento. Mas onde é que se prova que Cristo só fêz aquilo que para si era necessário? Tinha, por acaso, necessidade de receber o batismo de penitência ministrado por João? Mas não quis ser batizado por êle, para dar o exemplo aos seus contemporâneos? Tinha Êle, porventura, necessidade de jejuar quarenta dias e quarenta noites? Entretanto Jesus jejuou, para nos dar o exemplo: Jesus começou a FAZER e a ensinar (Atos I-1).

Recebendo sacramentalmente o seu próprio corpo e o seu próprio sangue, Jesus não teria com isto um aumento de graça santificante, mas uma certa consolação por sentir naquela comunhão os efeitos de união íntima com as almas que êste grande sacramento iria produzir, e assim se alegraria com o bem imenso que na Eucaristia iria produzir em muitos corações, pois coisa mais bem-aventurada é dar que receber (Atos XX-35).

Assim pensa, entre outros, S. Tomás que, apesar de não ver no Evangelho nenhuma prova de que Jesus tivesse comungado, tão longe estava de ver nisto um absurdo, que achava (apenas como uma opinião pessoal) que Cristo haveria de ter comungado. É esta a opinião também de S. Jerônimo, de S. Agostinho e de S. João Crisóstomo, contrária à opinião de S. Hilário e de outros exegetas. Não se vê nenhuma prova; mas uns acham que sim, porque opinam que o Mestre se adiantaria a dar o exemplo; outros acham que não, porque não vêem nenhuma necessidade disto.

Não é de admirar que os protestantes queiram ver aí um absurdo; para os protestantes tudo, na presença real, é um ABSURDO; para nós, católicos, tudo na Eucaristia é MISTÉRIO INEFÁVEL.

327. O PÃO CELESTIAL.

Finalmente alegam os protestantes que a Eucaristia é chamada PÃO. O PÃO que partimos não é a participação do corpo do Senhor? (1.° Coríntios X-16). Todo aquêle que comer êste PÃO ou beber o cálix do Senhor indignamente será réu do corpo' e do sangue do Senhor (ta Coríntios XI-27). Tôdas as vêzes que comerdes êste PÃO e beberdes êste cálix, anunciareis a morte do Senhor até que Êle venha (1.º Coríntios XI-26).

— Primeiro que tudo, a palavra PÃO, conforme já tivemos ocasião de explicar (n.º 312), não só designa um alimento especial feito com trigo ou centeio etc, mas é também um têrmo genérico para designar qualquer alimento. Pedimos a Deus: O PÃO nosso de cada dia nos dá hoje (Lucas XI-3) e é claro que não nos queremos alimentar de pão somente. Nosso Senhor vai fazer refeição em casa de um dos principais fariseus (Lucas XIV-1) e o texto original diz que Êle foi lá comer pão (PHAGÉIN ÁRTON). Nesta mesma refeição, um dos convivas diz a Jesus: Bem-aventurado o que comer o PÃO no reino de Deus (Lucas XIV-15). S. Paulo diz: Nem comemos de graça o PÃO de algum (2.º Tessalonicenses III-8). Jesus diz à cananéia.: Não é bom tomar o PÃO dos filhos e lançá-lo aos cães (Mateus XV-26). Diz a Escritura: O que come o PÃO comigo levantará contra mim o calcanhar (João XIII-18). Vê-se claramente nestes textos a palavra PÃO no sentido geral de alimento.

Também nós, católicos, dizemos na liturgia o PÃO SANTO DA VIDA ETERNA, O PÃO ANGÉLICO, sem duvidarmos absolutamente que ali esteja Jesus Cristo realmente presente. E é bem significativo o cuidado que tem S. Paulo na sua epístola em dizer: comer o pão e beber o cálice. Êle não diz: comer o pão e beber o vinho. Porque PÃO todos entendem que é um alimento qualquer. O pão eucarístico deixou de ser pão no sentido específico, (pão de trigo), mas continuou a ser pão no sentido genérico, porque é o nosso ALIMENTO espiritual.

Mas, ainda que se dissesse: comer o pão e beber o vinho, mesmo assim não ficava provado que Jesus não estivesse ali realmente presente. Porque é costume na linguagem das Escrituras, quando uma coisa se muda em outra, conservar, ainda mesmo depois de mudada, o nome antigo. Por exemplo: Quando Arão diante de Faraó converteu em cobra a sua vara e depois compareceram os sábios e mágicos que transformaram suas varas em dragões, mesmo depois de transformadas, a Bíblia continua a chamá-las VARAS : E lançaram cada um dêles a sua vara, as quais se converteram em dragões, mas a VARA de Areio devorou AS VARAS dêles (Êxodo VII-12). E o cego de nascença, mesmo depois de curado, ainda é chamado CEGO: Perguntaram, pois, ainda ao CEGO: Tu que dizes daquele que te abriu os olhos? (João IX-17).

328. O FRUTO DA VINHA.

Por aí se vê ainda que as palavras de Jesus: Não beberei mais deste fruto da vinha, as quais, já vimos, podem perfeitamente referir-se apenas à ceia pascoal, ainda mesmo que se referissem à ceia eucarística, não indicariam com isto que o sangue de Jesus não estava ali no cálice. Dar-se-ia, neste caso, a designação daquilo que era dantes. E mesmo, assim como Jesus que é Deus, que é a 2.ª Pessoa da Santíssima Trindade é chamado fruto do ventre de Maria SS.ma simplesmente porque esta contribuiu, como mãe, para formação de seu corpo (bento é O FRUTO do teu ventre — Lucas 1-42), assim também Jesus Eucarístico bem pode ser chamado o fruto da vinha, porque é da vinha que se produz a Eucaristia; a vinha contribui com os acidentes — a côr, o gôsto, o sabor, a aparência etc, sob os quais se oculta Jesus, em uma das espécies, no Santíssimo Sacramento.

329. BAGATELAS.

Por isto tinha razão Lutero, quando classificava da seguinte maneira os argumentos dos outros protestantes contra a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia: "São bagatelas, zombarias, argumentos frívolos e que não valem nada, razões tolas e pueris".

Realmente, se não se quer acreditar no mistério, isto é outra coisa. Mas que êste mistério eucarístico, diante do qual se têm curvado tôdas as gerações católicas, incluindo homens de todos os graus de intelectualidade, desde os mais rudes até os geniais como S. Tomás de Aquino, que êste mistério está ensinado na Bíblia, de maneira bem clara, bem decisiva e insofismável, não há dúvida alguma.

A MISSA E A CRUZ

330. A ORDEM DADA AOS APÓSTOLOS.

Realizando aquela ceia eucarística, Jesus ordenou aos seus Apóstolos que a repetissem e realizassem no decorrer de sua vida: FAZEI ISTO em memória de mim (Lucas XXII-19). Não quis somente que houvesse êste rito durante a vida dos Apóstolos, mas que se celebrasse perpètuamente até o fim do mundo: Tôdas as vezes que comerdes êste pão e beberdes êste cálix anunciareis a morte do Senhor, ATÉ QUE ÊLE VENHA (1.ª Coríntios XI-26). E mesmo, como provaremos no capítulo seguinte, os Apóstolos haviam de ter e de fato providenciaram SUCESSORES para continuar a sua missão.

Ora, como já provamos, o que Jesus realizou naquela ceia eucarística não foi uma cerimônia banal de comer pão e beber vinho. Mudou o pão no seu próprio corpo e o vinho no seu próprio sangue. Daí se vê o poder extraordinário que foi concedido aos Apóstolos e seus sucessores, ou seja, aos Apóstolos e àqueles a quem êles transmitissem os seus poderes.

Mas ainda há outro ponto muito interessante a considerar na ceia eucarística. É que ela foi também um verdadeiro e real sacrifício. E assim a ordem: Fazei isto em memória de mim inclui a determinação de renovar êste sacrifício perpetuamente.

Por que motivo seja necessária esta renovação, o que tanto intriga os protestantes, nós explicaremos claramente daqui a pouco (n.° 336 a 338).

Antes, porém, para bem esclarecer o assunto, temos que dar uma noção geral do que seja SACRIFÍCIO.

331. NOÇÃO DE SACRIFÍCIO.

Tratamos aqui do SACRIFÍCIO LITÚRGICO. Porque é claro que qualquer pessoa pode oferecer a Deus um sacrifício, no sentido de um ato interno, pelo qual se priva de alguma coisa ou faz uma mortificação de seus desejos, de suas paixões, de suas inclinações; e ninguém pode desconhecer quanto isto é agradável aos olhos de Deus, mas não é dêsses sacrifícios que vamos falar.

Trata-se aqui de um ato externo da Religião, de um ato do culto público. E êste é privativo dos sacerdotes que para isto foram constituídos: Faze também chegar a ti Ardo, teu irmão, com seus filhos, SEPARADOS DO MEIO D3S FILHOS DE ISRAEL, para que êles exerçam diante de mim as funções do SACERDÓCIO: Ardo, Nadab, Abiu, Eleazar e Itamar (Êxodo XXVIII-1). A ti, Osias, não é que pertence o queimar incenso ao Senhor, mas aos sacerdotes, isto é, aos filhos de Ardo que foram consagrados para êste ministério (2.° Paralipômenos XXVI-18). Todo o pontífice assunto dentre os homens é constituído a favor dos homens naquelas coisas que tocam a Deus, para que ofereça dons e SACRIFÍCIOS pelos pecados... E nenhum usurpa para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Ardo (Hebreus V-1 e 5).

Em que consiste êste SACRIFÍCIO LITÚRGICO?

É um ato de culto externo e público, em que o sacerdote em nome do povo oferece a Deus (e isto se chama ormação) uma coisa sensível. Oferecida a Deus, ela se torna assim uma coisa sagrada, porque é consagrada ao Senhor. O fim dêste oferecimento é manifestar o homem a sua dependência com relação a Deus, os sentimentos de seu coração para com Êle, unir-se mais estreitamente à Divindade, aplacar a sua ira, granjear os divinos favores. É um PRESENTE que se faz a Deus, renunciando à propriedade de alguma coisa numa homenagem em que se procura conquistar para nós a benevolência divina.

O que é que se oferecia a Deus? Às vêzes se ofereciam os produtos agrícolas. E aí temos os sacrifícios incruentos, ou seja, sem haver morte nem ferimentos.

Lemos no Gênesis que Cairia ofereceu ao Senhor os seus dons dos frutos da terra (Gênesis IV-3). Vemos determinações sôbre êstes sacrifícios incruentos, por exemplo, no livro do Levítico: Quando qualquer pessoa fizer ao Senhor alguma oferta de sacrifício, a sua oblação será da FLOR DA FARINHA e derramará sôbre ela azeite e porá incenso e a levará aos sacerdotes, filhos de Areio e um dêles tomará um punhado da flor de farinha com azeite e todo o incenso e fá-la-á queimar sôbre o altar por memória, em suavíssimo cheiro para o Senhor. E o que ficar do sacrifício será para Areio e para seus filhos e será uma coisa santíssima das ofertas do Senhor. Mas, quando tu ofereceres um sacrifício de coisa cozida no forno, serão pães asmos de flor de farinha amassados com azeite e filhoses asmas untadas com azeite... Se, porém, fizeres ao Senhor oferta dos teus próprios frutos, que seja de espigas ainda verdes, torrá-las-ás ao fogo e quebrá-las-ás à maneira de Tarro (Levítico II -1 a 4, 14).

Outras vêzes se ofereciam sacrifícios ou de gado graúdo como bois, ou de gado miúdo como bodes e carneiros. Matava-se a vítima. Faziam-se com o sangue do animal aspersões sôbre o altar. E se queimava o animal, ou totalmente (e neste caso o sacrifício se chamava HOLOCAUSTO), ou parcialmente, reservando-se outra parte para ser comida. O animal a ser sacrificado chamava-se HÓSTIA.

É importante observar que o comer a vítima sacrificada a Deus, que era, portanto, uma coisa sagrada, trazia também consigo a idéia de uma maior união, de uma certa comunhão com a Divindade.

332. QUATRO FINALIDADES DOS SACRIFÍCIOS.

Os sacrifícios eram oferecidos para quatro fins.

Um dêles era a ADORAÇÃO e aí temos o sacrifício LATREUTICO. Era o holocausto o que melhor exprimia esta adoração, pois a vítima se consumia inteiramente, havendo para isto um fogo de muitas horas: Esta é a lei do holocausto: O holocausto queimar-se-á no altar tôda a noite até pela manhã; o fogo tomar-se-á do mesmo altar; o sacerdote se vestirá de túnica e da roupa interior de linho e tomará as cinzas que o fogo voraz fêz e pondo-as junto ao altar, se despojará dos seus primeiros vestidos e, vestido doutros, as levará para fora do campo e fará que num lugar bem limpo se consuma inteiramente tudo (Levítico VI-9 a 11). Esta total destruição era um sinal de reconhecimento do domínio absoluto de Deus sôbre tudo e também sôbre a vida e a morte.

Às vêzes era A AÇÃO DE GRAÇAS: Se a oferta fôr por ação de graças, oferecer-se-ão pães sem fermento amassados em azeite e tortas asmas untadas de azeite e flor de farinha cozida e filhoses amassadas com mistura de azeite (Levítico VII-12).

Outras vêzes era a EXPIAÇÃO PELOS PECADOS. E o Levítico traz várias determinações, por exemplo, nos capítulos 4.º, 5.º e 6. º sôbre as diversas maneiras de oferecer êstes sacrifícios de acôrdo com os pecados e com as pessoas que os tivessem cometido.

Finalmente o sacrifício podia também revestir-se do aspecto de uma SÚPLICA: Se alguém oferecer uma hóstia por voto ou ESPONTANEAMENTE, também esta será comida no mesmo dia (Levítico VII-16).

333. O VALOR DOS SACRIFÍCIOS ANTIGOS.

Mas que valor tinham diante de Deus um animal que se matava ou os frutos da terra que se Lhe ofereciam?

Tinham valor, enquanto eram a manifestação externa do sentimento íntimo de cada um. Para que os sacrifícios fôssem agradáveis aos Céus na Lei Antiga, era preciso que na realidade correspondessem à sinceridade das disposições do povo que os oferecia a Deus. Daí vemos a crítica que faziam os profetas sôbre êstes sacrifícios, quando êles não eram a expressão verdadeira de um sentimento sincero. Não que êles fôssem adversários do sacrifício, o qual era prescrito, determinado, regulamentado pelo próprio Deus, mas reclamavam, quando os viam serem oferecidos sem o VERDADEIRO ESPÍRITO com que se deviam oferecer, e assim perderem todo o seu valor. É por isto que diz Samuel: Porventura quer o Senhor os holocaustos e as vítimas e não quer que antes se obedeça à voz do Senhor? A obediência é, pois, melhor do que as vítimas, e mais vale obedecer do que oferecer a gordura dos carneiros (1.º Reis XV-22). Assim falam também os outros profetas: De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? diz o Senhor. estou farto delas; não quero mais holocaustos de carneiros, nem gordura de animais nédios, nem sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes... Lavai-vos, purificai-vos, tirai de diante de meus olhos a malignidade de vossos pensamentos, cessai de obrar perversamente, aprendei a fazer bem, procurai o que é justo, socorrei ao oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a viúva (Isaías I-11, 16 e 17). Eis aí farei eu vir calamidades sôbre êste povo, fruto dos seus pensamentos; porque não ouviram as minhas palavras e rejeitaram a minha lei... Os vossos holocaustos não me são aceitos, nem as vossas vítimas me agradaram (Jeremias VI-19 e 20). Eu conheço as vossas muitas maldades e os vossos fortes pecados: inimigos do justo, que aceitais dédivas e oprimis os pobres na porta... Se vós me oferecerdes os vossos holocaustos e os vossos presentes, eu os não aceitarei; e não porei os olhos nos sacrifícios das hóstias pingües que me oferecerdes em cumprimento dos vossos votos (Amós V-12 e 22). Que oferecerei eu ao Senhor que seja digno dEle? encurvarei eu o joelho diante do Deus excelso? oferecer-Lhe-ei porventura holocaustos e novilhos dum ano? Pode-se acaso aplacar o Senhor sacrificando-se-Lhe mil carneiros ou muitos milhares de bodes gordos?... Eu te mostrarei, ó homem, o que te é bom e o que o Senhor requer de ti: é sem dúvida que obres segundo a justiça e que ames a misericórdia, e que andes solícito com o teu Deus (Miquéias VI-6 a 8). A mesma idéia se encontra nos Salmos: Não receberei de tua casa bezerros, nem cabritos dos teus rebanhos, porque minhas são tôdas as feras das selvas e os animais nos montes e os bois. Conheço tôdas as aves do céu e a formosura do campo comigo está. Se tiver fome, não to direi a ti, porque minha é a redondeza da terra e a sua plenidão. Porventura comerei carnes de touros? ou beberei sangue de cabritos? Oferece a Deus sacrifício de louvor e paga ao Altíssimo os teus votos. E invoca-me no dia da tribulação: livrar-te-ei e honrar-me-ás (Salmo XLIX 9 a 15).

Vê-se claramente aí que havia no sacrifício a idéia de um PRESENTE oferecido a Deus. Aquêle presente simbolizava a alma do homem oferecendo-se ao seu Criador; por isto se exigia, por exemplo, um animal SEM DEFEITO (Levítico I-10; XIV-10; XXII-20), afim de que melhor representasse a pureza de sentimentos de quem o oferecia. É o que se dá também com os presentes que nos oferecem, no nosso aniversário ou nas nossas grandes datas; embora a oferta seja pequena, procura-se providenciar para que seja limpa e sem defeito, com o cuidado de frisar bem que aquêle presente, embora insignificante em si, vale pelo que êle representa, isto é, o afeto sincero, a estima, a gratidão etc. Mas suponhamos que nós tivéssemos o dom de conhecer perfeitamente aquilo que se passa no coração dos outros; e víssemos que, embora nos oferecessem aquêles presentes, o coração daquelas pessoas estava cheio de maldade e má vontade contra nós. Aborreceríamos êstes presentes, não é assim? É o que acontecia com Deus. Conhecendo perfeitíssimamente o coração dos homens, enchia-se de indignação perante sacrifícios externos que eram, não a manifestação de um coração sincero, de uma alma que realmente se entregava a. Deus, através de suas ofertas, mas sim a prova bem patente de uma detestável hipocrisia.

334. OS SACRIFÍCIOS EXPIATÓRIOS.

A esta idéia de um PRESENTE oferecido a Deus, seja para manifestar um sentimento profundo de ADORAÇÃO ou completa submissão a Ele, ou de AÇÃO DE GRAÇAS pelos benefícios recebidos, ou o desejo de agradar-Lhe, de atrair a sua benevolência afim de Lhe PEDIR FAVORES, se acrescentava também outra finalidade: nós vemos que havia sacrifícios na Lei Antiga que tinham COMO fim A EXPIAÇÃO PELOS PECADOS.

E uma pergunta logo nos ocorre: Será que aquêles sacrifícios produziam realmente A COMPLETA EXPIAÇÃO DOS PECADOS?

É claro que NÃO. O pecado é uma ofensa feita a Deus, mas uma ofensa infinita, em vista da infinita distância que medeia entre Deus e a criatura. Porque nós sabemos que a ofensa aumenta na proporção desta distância entre o ofendido e o ofensor. Por maior que fôsse o número de bois ou de bodes ou de cordeiros imolados, por maior que fôsse a contrição, a dor, o arrependimento daqueles que os ofereciam, Deus não recebia uma REPARAÇÃO SUFICIENTE por um só pecado de um só homem que fôsse, quanto mais pelos muitos pecados de todos os homens: É impossível que com sangue de touros e de bodes se tirem os pecados (Hebreus X-4).

Quer dizer então que antes de Cristo ninguém era perdoado de seus pecados? Não; não quer dizer isto. Deus perdoava, em atenção ao que ia realizar-se no futuro; Deus aceitava aquêles sacrifícios, não que tivessem em si um valor suficiente, mas porque eram figura e representação de UM SACRIFÍCIO SUFICIENTÍSSIMO E PERFEITÍSSIMO que um dia havia de ser oferecido por Jesus Cristo na cruz; sacrifício de um VALOR INFINITO, pela morte de um Homem-Deus cujos atos eram de infinito valor; sacrifício em que se derramaria o sangue, não de um bode ou de um touro, mas o sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aí então se ofereceu um DESAGRAVO SUFICIENTE por todos os pecados de todos os homens de todos os tempos. O que não quer dizer que êstes pecados ficassem ipso facto perdoados, más sim que a Humanidade, coletivamente falando, ficou reconciliada com Deus. Satisfeita a justiça divina que exigiu uma satisfação condigna, abriu-se o caminho para a imensa misericórdia do Criador. Desde que o pecador faça o que é necessário da sua parte, encontra Deus disposto a perdoar-lhe os pecados, por maiores e por mais numerosos que êles sejam, e isto em atenção ao sangue purificador de Jesus Cristo.

Neste Augusto Sacrifício da Cruz, Jesus Cristo foi ao mesmo tempo SACERDOTE E VÍTIMA.

S. Paulo faz então o confronto entre os sacrifícios da Lei Antiga e o sacrifício de Cristo na Cruz.

Na Antiga Lei se oferecia o sangue de bodes, de bezerros etc, na Cruz Jesus oferece ao seu próprio sangue; na Antiga Lei se ofereciam muitos sacrifícios e sacrifícios insuficientes que não podiam purificar a consciência do que sacrificava (Hebreus IX-9), Jesus com um -ÚNICO SACRIFÍCIO alcançou uma Redenção eterna; na Antiga Lei o sumo sacerdote entrava cada ano em um tabernáculo construído por mãos de homens, Jesus Cristo, depois de operar a nossa Redenção, entrou no Céu para ser lá o nosso Sumo e Eterno Sacerdote: Estando Cristo já presente, pontífice dos bens vindouros, por outro mais excelente e perfeito tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação, nem por sangue de bodes ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue entrou uma só vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna. Porque, se o sangue dos bodes e dos touros e a cinza espalhada duma novilha, santifica aos imundos para purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus, alimpará a nossa consciência das obras da morte, para servir ao Deus vivo? (Hebreus IX-11 a 14).

Na Antiga Lei, o sacrifício era oferecido por sacerdotes que, sendo também pecadores, tinham que oferecer sacrifícios primeiro pelos seus pecados próprios, depois pelos do povo; Cristo é o sacerdote santo, inocente, impoluto que se ofereceu uma vez a si mesmo: UMA VEZ, por que os sacerdotes da Antiga Lei eram em grande número e a morte não permitia que durassem para sempre; Cristo, porém, permanece eternamente e tem um eterno sacerdócio: E na verdade os outros foram feitos sacerdotes em maior número, porquanto a morte não permitia que durassem; mas Êste, porque permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno. E por isto pode salvar perpétuamente aos que por Êle mesmo se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por nós. Porque tal pontífice convinha que nós tivéssemos, santo, inocente, imaculado, segregado dos pecadores e mais elevado que os Céus; que não tem necessidade, como os outros sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiramente pelos seus pecados, depois pelos do povo; porque isto o fêz uma vez oferecendo-se a si mesmo. Porque a lei constituiu sacerdotes a homens que têm enfermidade; mas a palavra do juramento que é depois da lei, constitui ao Filho perfeito eternamente (Hebreus VII-23 a 28).

Finalmente, como acabámos de ver, os sacrifícios antigos, sendo imolação de animais (bois, cabritos, cordeiros etc.), os quais eram irracionais e não podiam ter nenhum sentimento para com Deus, muitas e muitas vêzes Lhe eram desagradáveis, porquanto valiam apenas enquanto eram a expressão dos sentimentos do povo que os oferecia. Na Cruz se oferece uma vítima que, sendo perfeitíssima, Deus e Homem, vitima consciente, livre, inteligente, capaz de atos de virtude e de amor de valor infinito, ela mesma oferecia a Deus a homenagem que Lhe era mais agradável. Assim êste sacrifício não podia de forma alguma desmerecer aos olhos divinos: O Filho de Deus, entrando no mundo diz: Tu não quiseste hóstia nem oblação; mas tu me formaste um corpo; os holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então disse eu: Eis aqui venho; no princípio do livro está escrito de mim: Para fazer, ó Deus, a tua vontade (Hebreus X-5 a 7).

Os protestantes se servem desta exposição do Apóstolo das gentes, em que êle estabelece o contraste entre o sacrifício de Cristo e os SACRIFÍCIOS DA LEI ANTIGA, para se lançarem contra o Santo Sacrifício da Missa, que, segundo nos ensina a Igreja Católica e mais adiante iremos provar, é o Sacrifício da Nova Lei e não é outro substancialmente senão o próprio sacrifício de Cristo feito outrora no Calvário.

Dizem êles: Vê-se assim pelas palavras da Bíblia:

1.° — que o sacrifício de Cristo foi SACRIFÍCIO ÚNICO, portanto não há 2 sacrifícios: o Sacrifício da Cruz e o Sacrifício da Missa;

2.° — que o sacrifício de Cristo alcançou Redenção Eterna; logo, não tem necessidade de ser renovado; querer renová-lo é fazer-lhe uma injúria, como se êle não fôsse suficientíssimo e perfeitíssimo;

3.º — que nós temos na Nova Lei um "ÚNICO SACERDOTE que é Cristo, e não muitos sacerdotes que são fracos e pecadores, porque são homens, como vemos na Igreja Católica;

4.° — Cristo se ofereceu só uma vez, pois diz S. Paulo que Cristo NÃO ENTROU no santuário para se oferecer muitas vêzes a si mesmo (Hebreus IX-25) e que nós somos santificados pela ofrenda do corpo de Jesus Cristo, feita UMA VEZ (Hebreus X-10). Logo, não é exato que Êle se ofereça milhares de vêzes no Sacrifício da Missa.

Vejamos uma por uma estas alegações protestantes.

335. SACRIFÍCIO ÚNICO.

1.ª objeção: O sacrifício de Cristo foi SACRIFÍCIO ÚNICO, portanto não há 2 sacrifícios: o Sacrifício da Cruz e o Sacrifício da Missa.

S. Paulo faz o confronto entre o sacrifício da Cruz e os sacrifícios da Antiga Lei, em que eram oferecidas muitas e muitas vítimas. Um dia era um touro ou um novilho; outro dia um bode; outro dia um cordeiro; outro dia mais outro touro ou novilho etc. E assim por diante.

E assim muitas e muitas vítimas eram sacrificadas sem que se alcançasse A TOTAL E SUFICIENTE EXPIAÇÃO pelos pecados dos homens.

Além disto, eram oferecidas por muitos sacerdotes, os QUAIS AGIAM INDEPENDENTEMENTE UNS DOS OUTROS, NUNCA UM SACERDOTE AGIA EM FUNÇÃO DE OUTRO SACERDOTE.

Ora, o Sacrifício da Missa e o Sacrifício da Cruz são um ÚNICO E MESMO SACRIFÍCIO, porque a vítima é UMA SÓ: Nosso SENHOR JESUS CRISTO. O Corpo e o Sangue de Jesus que estão no altar são o mesmo Corpo e Sangue de Jesus que estavam lá no Calvário. Não se trata de uma vítima diferente.

O Sacerdote que oferece também é o mesmo, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo que é O PRINCIPAL OFERENTE.

  • homem que celebra a Santa Missa, o sacerdote católico é um representante, um ministro de Cristo, que age apenas em nome de Cristo: Os homens devem-nos considerar como uns MINISTROS DE CRISTO e como uns DISPENSEIROS dos mistérios de Deus (1.ª Coríntios IV-1). Nós fazemos o. oficio de EMBAIXADORES em nome de Cristo (2.ª Coríntios V-20).

Quando alguém escreve um discurso e manda outro ler, quem é o AUTOR do discurso, é quem o escreveu ou quem o lê? De certo que é quem o escreveu. Quando o rei manda um embaixador assinar um tratado de paz, quem o está assinando: é o embaixador em seu nome particular ou é o próprio, rei? É claro que é o rei. Quando o patrão manda o servo levar um presente a alguém, quem é que está dando o presente? É o patrão.

Os ministros de Cristo receberam esta ordem: FAZEI ISTO em memória de mim (Lucas XXII-19).

Quando o sacerdote batiza, diz: Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Mas quem está batizando é Cristo, pois o batismo é realizado em nome de Jesus Cristo (Atos II-38) que foi quem mandou batizar.

Quando o sacerdote absolve os pecados, diz Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Mas quem está perdoando é Cristo, porque só Deus pode perdoar pecados; é Cristo, que foi quem lhe delegou êste poder: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23).

Assim também, quando o sacerdote celebra a Santa Missa, não diz: Isto é o corpo de Cristo ou Isto é o cálix do sangue de Cristo — mas Isto É O MEU CORPO, isto é O Cálix DO MEU SANGUE, porque êle está agindo apenas em nome de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote. "O sacerdote no altar faz as vêzes de Cristo e oferece a Deus Pai um verdadeiro e pleno sacrifício" dizia S. Cipriano no século 3.º (Epístola 63). "Quando virdes o sacerdote oferecendo, não o consideres fazendo isto, mas considera a mão de Cristo invisivelmente estendida" dizia S. João Crisóstomo no século 4.º (Homil. L-3 in Math). "O próprio Cristo que é o oferente, Êle mesmo é a oblação e quis que êste mistério fôsse o quotidiano sacrifício da Igreja" dizia S. Agostinho no século 5.º (De Civitate Dei IX e. 20).

  • esta dependência absoluta entre o sacerdote e Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual o sacerdote é um mero instrumento é que não havia entre os sacerdotes da Lei Antiga: eram independentes uns dos outros.

A diferença que há entre o Sacrifício da Cruz e o Sacrifício da Missa é esta: o Sacrifício da Cruz foi cruento, com a morte física da vítima; o Sacrifício da Missa é incruento e aí Cristo se mostra sob a forma de alimento. E se há esta diferença é precisamente por isto: porque aquela imolação real e sangrenta de Cristo só se deu UMA VEZ:

Cristo foi UMA Só VEZ imolado para esgotar os pecados de muitos (Hebreus IX-28). Enquanto a Êle morrer pelo pecado, Êle morreu UMA SÓ VEZ (Romanos VI-10).

É claro que NÃO ABRIMOS CHAGAS EM CRISTO, NÃO O MATAMOS outra vez, quando se celebra o Santo Sacrifício da Missa.

Se a imaginação do leitor não se aquietou ainda, procurando descobrir como o Sacrifício da Missa, tantas vêzes celebrado, pode ser um ÚNICO E O MESMO SACRIFÍCIO com aquêle que foi realizado na cruz, ao contrário dos sacrifícios antigos que eram muitos, vamos fazer uma comparação. Suponhamos que houve, durante muito tempo em certo reino, um problema verdadeiramente angustiante: como é que haviam de debelar uma doença muito propagada e considerada incurável?

Vários sábios procuraram resolvê-lo: publicaram muitas obras sôbre o assunto, porém inutilmente. Eram paliativos, não davam a chave da solução do problema.

Apareceu, afinal, um GRANDE SÁBIO que resolveu a questão para sempre: fêz uma exposição diante do rei, demonstrando as causas da doença, estudando profundamente o assunto e mostrando o meio certo e seguro de combatê-la e evitá-la.

Suas palavras foram apanhadas pelos taquígrafos, depois publicadas em livro e se foram tirando muitas e muitas edições. Cáda vez que sai uma nova edição, É A MESMA OBRA ou outra diferente? Claro que é a mesma, porque é o mesmo autor e são as mesmas idéias. Pouco importa que as edições não sejam impressas com os mesmos tipos, nem tenham a mesma capa.

Já o mesmo não se dá com aquelas outras obras publicadas antes de se resolver o problema: eram obras diversas, de diversos autores e nenhuma encontrou A SOLUÇÃO DEFINITIVA. É o que se deu com os sacrifícios da Lei Antiga: vítimas diversas, sacerdotes diversos. Ao passo que a Santa Missa é apenas a renovação do Sacrifício do Calvário, sendo a mesma vítima e o mesmo sacerdote. De modo que o padre que celebra não passa, no caso, de um humilde tipógrafo que vai reeditar a grande OBRA DE CRISTO; não vai resolver um problema que por Cristo já foi resolvido.

336. O SACRIFÍCIO DA MISSA E A REDENÇÃO ETERNA.

E agora ocorre naturalmente a segunda objeção protestante: Por que motivo, então, se renova o Sacrifício da Cruz? Êste alcançou Redenção Eterna. Querer renová-lo seria proclamar a sua insuficiência, quando o Sacrifício da Cruz foi perfeitíssimo.

— Não há nenhuma dúvida que o Sacrifício da Cruz alcançou Eterna Redenção. Mas não é para nos dar a Redenção, que o Sacrifício da Missa é celebrado.

Vejamos os efeitos da Redenção operada por Cristo. Jesus Cristo, morrendo na cruz:

1.º — Reconciliou-nos com Deus, oferecendo uma reparação suficiente pelo ultraje feito a Deus por todos os pecados da Humanidade; quando se celebra a Santa Missa, a Humanidade já está reconciliada com Deus; o nosso resgate já está pago; não é para isto que se celebra a Santa Missa.

2.º — Reconciliando-nos com Deus, restaurou a Humanidade no plano sobrenatural, ficando os homens novamente com o poder de se fazerem filhos de Deus (João 1-12) pela graça santificante que nos faz participantes da natureza divina (2.° Pedro 1-4); mas não é para isto que a Missa é celebrada, pois já nos encontramos neste plano sobrenatural.

3.º — Abriu o Céu, que para os homens estava fechado; mas não é para abrir o Céu que o Sacrifício da Missa é oferecido, pois o Céu já está aberto, desde a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo que foi o primeiro homem a entrar nêle, na sua Ascensão gloriosa.

E no entanto a instituição do Sacrifício da Missa tem a sua finalidade.

Como explicamos há pouco, havia 2 espécies de sacrifícios: uns em que se destruía completamente a vítima reduzindo a cinzas o animal sacrificado, como eram os holocautos; e outros em que se destruía uma parte da vítima e se reservava para ser comida pelos sacerdotes e às vêzes também pelo povo.

Não só entre os judeus, como entre os pagãos, o comer aquilo que tinha sido sacrificado, oferecido a Deus, que se havia tornado assim uma coisa sagrada, era considerado como uma participação, uma comunhão, um contacto mais íntimo com a divindade.

Daí é que vem a questão da carne sacrificada aos ídolos, a qual os Apóstolos proibiram aos primeiros cristãos (Atos XV-29). Em si era uma carne como outra qualquer, pois, como diz S. Paulo, sabemos que os ídolos não são nada no mundo e que não há outro Deus senão um só (1.º Coríntios VIII-4). Mas, desde 'que o comer estas carnes era considerado um meio de unir-se ao deus a quem eram oferecidas, os cristãos deviam abster-se disto, para não parecer que queriam entrar em comunhão também com as divindades pagãs.

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo quis, não somente que o seu divino Sacrifício, oferecido na cruz, tivesse o valor de perfeita expiação e servisse ao mesmo tempo como o melhor dos holocautos que porventura se pudesse oferecer, mas ainda que todos pudessem participar de sua carne e de seu sangue, oferecidos a Deus, entrando assim numa íntima comunhão não só com uma coisa sagrada, a Deus oferecida, mas com o próprio Deus.

Por isto, quando Êle disse: A minha carne VERDADEIRAMENTE é comida; e o meu sangue VERDADEIRAMENTE é bebida... Assim COMO o Pai, que é vivo, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim o que me COME A MIM, êsse mesmo também viverá por mim (João VI-56 e 58), ninguém podia no momento perceber todo o alcance de suas divinas palavras, embora que todos tinham de aceitá-las, porque Êle já havia provado a sua divindade.

Èle sabia que tinha RECURSOS INFINITOS no seu divino poder para realizar, na Eucaristia, aquilo que nenhum homem no mundo seria capaz de imaginar: aquela carne que foi oferecida na cruz, aquêle sangue que ali foi derramado para a nossa salvação, podiam ser ingeridos realmente pelos homens, iam tornar-se o alimento da nossa alma, para robustecer em nós a vida da graça.

Mas, para receber com fruto êste divino alimento, já uma condição é exigida, antes de qualquer outra: A FÉ. Não esta fé protestante que se arroga o direito, pelo livre exame, de interpretar as palavras de Cristo como bem entende e de ler REPRESENTA, SIMBOLIZA onde o Mestre diz categõricamente: É. Mas a fé viva, que não vacila, fé com que se aceita de coração aberto e de olhos fechados tudo o que Jesus nos ensinou, por mais impenetrável que seja o mistério. E aí vêem os protestantes como A FÉ é importantíssima para podermos participar do Sacrifício Regenerador do Divino Mestre. S. Paulo dizia, na Epístola aos Hebreus, falando a respeito dos judeus com relação à Eucaristia, como adiante veremos: Nós temos um ALTAR, do qual os ministros do tabernáculo não têm faculdade de COMER (Hebreus XIII-10). O mesmo podemos nós dizer com referência aos protestantes: Nós temos um ALTAR, do qual não podem COMER aquêles que não têm fé no mistério eucarístico tão claramente ensinado pelo Divino Mestre nas páginas do Evangelho. E é neste altar que se renova o Sacrifício de Jesus, para que nos possamos alimentar espiritualmente da mesma vítima sacrificada no Calvário.

337. A MISSA, ORAÇÃO OFICIAL DA IGREJA.

Há outro aspecto ainda em que o Sacrifício da Cruz precisa prolongar-se no sacrifício da Missa.

Morrendo na cruz por nós, dando por nós o seu próprio sangue, Jesus mereceu para nós A GRAÇA, em qualquer sentido em que se considere: ou Graça Habitual, isto é, o estado de graça santificante, em que o homem fica na amizade de Deus e com o direito de herdar o Céu; ou Graça Atual, isto é, tudo o que vem a ser um favor, um auxílio ou proteção, uma boa inspiração ou bom pensamento, um confôrto que procede de Deus na ordem sobrenatural.

De modo que TUAS AS GRAÇAS, recebidas por TODOS OS HOMENS, desde princípio do mundo, após o pecado de Adão, foram, são e serão concedidas em virtude dos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, na sua Morte Redentora. Há no Sacrifício da Cruz, portanto, um MAR IMENSO DE GRAÇAS para a Humanidade. Mas para nos banharmos no mar, não é o mar que vem ã nossa casa, somos nós que para êle nos encaminhamos.

Já vimos que, quando não possuímos a graça santificante, o meio estabelecido por Cristo para. adquiri-la, para recebê-la, são os Sacramentos do Batismo e da Penitência; é aí que recebemos o banho purificador no mar imenso de graças que Jesus Cristo deixou à nossa disposição no Calvário.

Os outros sacramentos servem para aumentarmos em nós esta graça santificante, porque ela é susceptível de aumento: Crescei na graça (2.ª Pedro III-18), dizia o Apóstolo S. Pedro. E acontece que, enquanto a Confirmação só se recebe uma vez, a Extrema-Unção fica para o fim da nossa vida, a Ordem é privativa dos ministros do altar, não é para todos os fiéis e o Matrimônio só se pode repetir na hipótese de morrer e consorte; a Eucaristia é um sacramento que pode ser recebido até todos os dias, pela comunhão do corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja presença a Santa Missa está continuamente renovando no altar.

Mas ainda não é aí que queremos chegar; pois êste aspecto da renovação da presença aqui na terra do corpo de Jesus, para participarmos do Sacrifício da Cruz, comendo da própria vítima ali oferecida, foi o que acabámos de apresentar no número anterior.

O que queremos frisar agora é que o Sacrifício do Calvário não só é a fonte da graça santificante, mas também de GRAÇAS ATUAIS. Os próprios protestantes reconhecem que não é pelo simples fato de Jesus Cristo ter morrido na Cruz, que nós recebemos infalivelmente tôdas as graças. Nem é possível um homem receber tôdas as graças ao mesmo tempo. Portanto os próprios protestantes se sentem na necessidade de fazer alguma coisa: REZAR, por exemplo, para alcançar as graças de Deus. Muitas graças que o homem não alcançaria nunca se não orasse, as alcança pela ORAÇÃO. Esta oração não é forçosamente limitada a um simples PEDIDO, ela pode ser também ato de ADORAÇÃO a Deus, ou de AÇÃO DE GRAÇAS pelos benefícios recebidos. E com esta adoração e ação de graças melhor se conquista a benevolência de Deus para conosco; compreende-se como é justo que Deus abra ainda mais os tesouros de sua riqueza infinita para aquêle que sabe ADORÁ-LO de todo o coração, reconhecendo o seu supremo domínio, que sabe sinceramente AGRADECER-LHE os benefícios que já recebeu.

Ora, o que acontecia na Antiga Lei? Bem podia alguém orar a Deus, adorá-Lo, mostrar-se-Lhe agradecido, ou fazer-Lhe súplicas, sem que Visse preciso oferecer-Lhe um SACRIFÍCIO: sacrifícios de bois, de cabritos, de flor da farinha, de frutos da terra etc.

Mas, quando se oferecia o sacrifício na Antiga Lei, era A ORAÇÃO OFICIAL E PÚBLICA DO POVO DE DEUS, que aos Jus sentimentos de adoração, ação de graças, contrição ou aos seus pedidos acrescentava um PRESENTE, uma OBLAÇÃO, uma OFERTA feita a Deus para melhor granjear a divina benevolência. E aí então se fazia o sacrifício do boi, do bode ou dos frutos da terra etc.

Jesus, instituindo o Santo Sacrifício da Missa, quis dar também ao povo cristão esta oportunidade de fazer uma oferta, uma oblação a Deus, juntando esta oferta a suas próprias orações e sentimentos, de modo que a missa passou a ser A ORAÇÃO PÚBLICA E OFICIAL DO POVO DE DEUS na Nova Lei, assim como os sacrifícios antigos o eram para os judeus, antes da vinda do Redentor.

O que agora acontece, porém, é que não precisamos sair à cata de bodes ou carneiros ou novilhos para oferecer a Deus um sacrifício, e êste sumamente agradável aos seus divinos olhos. Basta-nos um pouco de pão e de vinho. E graças ao maravilhoso poder de Jesus Cristo, temos sôbre OS nossos altares O PRÓPRIO CORPO E O PRÓPRIO SANGUE DO SALVADOR QUE FORAM OFERECIDOS NA CRUZ. Éste PRESENTE que ofertamos a Deus é infinitamente mais valioso do que aquêles que os judeus ofereciam. Esta VÍTIMA que Lhe oferecemos é, ela mesma, inteligente, consciente, livre, de merecimento infinito; faz, ela mesma, no altar A MELHOR DE TÔDAS AS ADORAÇÕES, DE TÔDAS AS SÚPLICAS, DE TÔDAS AS AÇÕES DE GRAÇAS e aí nós ajuntamos, dentro da nossa insuficiência, os nossos próprios sentimentos. Falaremos daqui a pouco sôbre a necessidade de acompanharmos o Sacrifício da Missa com o nosso próprio sacrifício íntimo, com a nossa própria oferta de todo o nosso ser. Se não o fizermos, pior será para nós. Mas não há perigo de ser o nosso sacrifício (o sacrifício da Missa) desagradável aos olhos de Deus, como às vêzes acontecia com os sacrifícios antigos; não há perigo, porque a vítima que oferecemos é o próprio Filho de Deus.

Jesus é a cabeça do corpo da Igreja (Colossenses 1-18). Formamos com Êle um todo inseparável. Na Missa Êle não só se oferece a si mesmo, mas dá também à Igreja o Osto, a satisfação, o privilégio de oferecê-Lo ao Eterno Pai, bem como de oferecer-se a si mesma juntamente com Êle. A nossa adoração sobe -aos Céus unida com a adoração infinitamente perfeita de Jesus; o nosso reconhecimento, com a sua perfeitíssima ação de graças; a nossa contrição juntamente com o poder expiador do seu sangue; a nossa súplica, com a súplica sumamente eficaz do nosso Divino Redentor.

338. A PROPICIAÇÃO NA SANTA MISSA.

E aqui ocorre naturalmente uma pergunta: Compreendemos muito bem que Jesus no Sacrifício da Missa ADORE a seu Eterno Pai, LITE DÊ GRAÇAS pelos benefícios que nós recebemos, pelo próprio benefício, da Redenção e FAÇA SÚPLICAS por nós. Mas em que sentido o Sacrifício, da Missa pode ser chamado propiciatório, se a propiciação, a expiação pelos nossos pecados já foi oferecida suficientemente no Sacrifício da Cruz?

— Há na nossa salvação, na expiação dos nossos pecados A PARTE DE CRISTO e A NOSSA PARTE. Cristo na cruz ofereceu o resgate que nos reconciliou com o seu Eterno Pai, abriu para nós o caminho da salvação, tornou Deus propício a nos perdoar. Mas a remissão dos pecados exige também que façamos alguma coisa por nossa vez. Não se trata de Cristo pagar por nós e ficarmos mergulhados no pecado, sem fazer coisa alguma e mesmo assim alcançarmos a salvação. A remissão dos pecados não é possível, por exemplo, sem o NOSSO ARREPENDIMENTO. Êste arrependimento exige muitas vêzes de nós um sacrifício heróico, porque é preciso uma resolução de deixar o pecado, custe o que custar, para que o arrependimento seja verdadeiro. "Deus nos criou sem nós, mas não nos salva sem nós", como diz S. Agostinho. Por isto, cada um de nós tem que fazer de sua parte o seu sacrifício íntimo, para tornar eficaz a nosso respeito o sacrifício de Jesus. Por outro lado, êste arrependimento só é possível com o auxílio da graça de Deus: Sem, mim não podeis fazer nada (João XV-5). Todos recebem de Deus a graça suficiente para a salvação. Mas quantos e quantos pecadores desperdiçam horrivelmente as graças divinas, se afundam cada vez mais no lodaçal do pecado, tornam cada vez mais difícil a sua conversão, precisam, portanto, de uma graça cada vez maior e mais abundante! A conversão de um pecador empedernido já se pode considerar um grande milagre da graça.

Estará Deus obrigado a conceder estas graças tão grandes, tão extraordinárias a um pecador que não fêz outra coisa, se assim se pode dizer, senão malbaratar as graças celestes, recusando-se sempre a converter-se? É o caso parecido, por exemplo, com o do homem rico que prometeu fornecer dinheiro a outro para equilibrar-se na vida. Éste vai sempre complicando-se, adquirindo dívidas e são necessários novos fornecimentos, sempre maiores. Depois de um certo tempo, está obrigado o fornecedor que jamais viu boa vontade nem esfôrço da parte de seu protegido, a continuar fazendo os seus empréstimos ou as suas dádivas em proporção cada vez maior? O mesmo acontece com Deus. E quanto mais o homem se afunda no pecado, maior graça necessita para libertar-se.

Aí então entra a súplica infinitamente valiosa de Jesus no Sacrifício do altar. Pedindo a Deus mesmo pelos pecadores mais endurecidos, suplicando ao Eterno Pai que abra cada vez mais os tesouros da sua misericórdia para conversão daqueles que se acham engolfados na podridão do vício, a Igreja Lhe apresenta, para aplacar a sua justa cólera contra aquêles que tão loucamente desprezam os benefícios da Redenção, o corpo e o sangue de Jesus que se levantam aos Céus numa SI'TPLICA, para que se distribuam sempre mais e mais entre os homens as graças divinas que tiveram sua nascente no Calvário.

Jesus na cruz fêz a sua parte; no altar vem ajudar-nos a fazer a nossa, porque a nossa também só pode ser feita com a graça de Deus; e esta graça, cuja fonte inesgotável é a sua própria Morte Redentora,. Éle está sempre pedindo para nós, mesmo quando a desprezamos e nos tornamos indignos de recebê-la. (45)

CONFUSÕES PROTESTANTES SOBRE OS SUFRÁGIOS.

Entre as graças que a Igreja pede a Deus, apresentando-Lhe o Cordeiro Imaculado sôbre os nossos altares, entre as graças que Jesus na Santa Missa pede ao seu Eterno Pai em nosso favor, inclui-se esta também: um alívio, um refrigério para as almas que se encontram no purgatório, para aquêles que morreram, mas não estão ainda totalmente purificados para entrar no Céu.

E aqui vêm os protestantes com uma série de confusões.

Uma delas é a seguinte: mostram-se escandalizados porque, dizem, assim a Missa vai SALVAR pecadores no outro mundo; ora, isto é fazer injúria ao Sacrifício da Cruz que não precisa ser renovado para nos dar suficiente salvação. Jesus já nos SALVOU na sua cruz.

— O engano dos protestantes reside precisamente nisto: o sufrágio da Missa NÃO VAI SALVAR o pecador. Só aproveita o Sacrifício da Missa àqueles que JÁ ESTÃO SALVOS. Para aquêles que morreram em estado de pecado mortal, que foram condenados à perdição eterna, a Missa não aproveita coisa alguma; podem-se celebrar milhões de missas e êles serão sempre réprobos no inferno, porque a sentença de Deus é irrevogável e definitiva.

A Missa vai levar o refrigério somente àqueles que morreram na graça de Deus e, portanto, se salvaram.

Mesmo quando se explica isto, os protestantes caem noutro engano: imaginam que nós ensinamos que a alma só sai do purgatório, se alguma missa fôr celebrada por ela.

— Também não é exato isto. Tôdas as almas do purgatório têm a certeza de que sairão de lá um dia e irão gozar de Deus eternamente. Têm, sim, que pagar à Justiça Divina, até a completa purificação. E quando se celebra a Santa Missa, esta vem trazer-lhes um alívio nas suas penas ou uma abreviação dêstes seus padecimentos, juntando-se assim ao efeito da justiça divina o favor da divina misericórdia, em atenção à súplica infinitamente valiosa de Jesus.

340. O PURGATÓRIO.

Finalmente os protestantes se mostram admirados em pensar como é que uma alma que já foi SALVA, que já foi PERDOADA, por quem Cristo já PAGOU, tem ainda alguma coisa que pagar perante Deus, após a sua morte. Se já está salva, tem que ir diretamente para o Céu.

— E aqui entra a questão da existência do purgatório, claramente afirmada na Bíblia, no 2.º Livro dos Macabeus: É, logo, um santo e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados (2.º Macabeus XII-46). Acontece, porém, que os livros dos Macabeus estão no rol daqueles que os protestantes excluem da sua Bíblia. Entretanto isto não impede que demonstremos com algumas considerações, dentro dos textos bíblicos, como é ilógica a negação feita pelos "evangélicos", da existência de um lugar de purificação no outro mundo.

Antes de tudo, o que a Bíblia nos ensina é que há em Deus, entre outros, dois grandes atributos: A SUA MISERICÓRDIA E A SUA JUSTIÇA. Não se pode enaltecer a primeira sacrificando a segunda. Deus que é rico em misericórdia (Efésios II-4) é o mesmo JUSTO JUIZ (2.ª Timóteo IV-8), a cujo tribunal havemos todos de comparecer, para que cada um receba o galardão segundo o que tem feito, ou bom ou mau, estando no próprio corpo (2.° Coríntios V-10).

O pecador, por maiores que sejam os seus delitos e por mais anos que tenha vivido no pecado, se se arrepende sinceramente, encontra Deus pronto para lhe perdoar, para fazê-lo um filho seu pela graça santificante e um dia também herdeiro do seu reino, GOZANDO NO CÉU ETERNAMENTE, apesar de muitas e muitas vêzes ter feito atos que mereciam a condenação eterna. Éste perdão, êle recebe graças ao SACRIFÍCIO DE CRISTO na cruz, pois Cristo ofereceu aí uma satisfação condigna pela ofensa infinita feita a Deus. Se esta condigna satisfação foi oferecida, é porque A JUSTIÇA DE DEUS a exigiu, não estando nós em condições de apresentá-la.

E assim se conciliaram A JUSTIÇA E A MISERICÓRDIA.

Mas o Sacrifício de Cristo não foi realizado para anular a JUSTIÇA DIVINA, e sim afim de abrir um caminho para o perdão, caminho êste que estava fechado pela impossibilidade, em que se encontrava o homem, de oferecer a Deus uma reparação suficiente pelos seus pecados.

Por Isto A JUSTIÇA DIVINA continua de pé. Até êste próprio PERDÃO que Deus dá ao homem, é concedido, de certo modo, segundo um critério de JUSTIÇA; só são perdoados aquêles que, cooperando com a graça, se arrependem sinceramente e fazem um firme propósito de emenda. Os que não se arrependem são condenados.

Ora, tivemos ocasião de apresentar muitos textos da Bíblia (5 do Antigo e 5 do Novo Testamento; veja-se n.º 35) em que se diz claramente que Deus RETRIBUIRÁ A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS. Isto O protestante não pode negar, porque é um ensino insistente das Escrituras.

Daí já se segue que aquêles que entrarem no Céu terão uma glória maior ou menor, de acôrdo com as súas obras, com sua vida, com seu grau de virtude, com seu procedimento. É claro que aquêle que viveu muitos e muitos anos no pecado e se converteu pouco tempo antes de sua morte, não pode ter o mesmo grau de felicidade como aquêle que durante tôda sua vida, entre sacrifícios, mortificações e renúncias e vitórias sôbre as tentações, serviu a Deus com tôda a fidelidade. É possível que os protestantes, contra tôda lógica, contra tôda noção da justiça de Deus, achem que isto está muito certo, que o quinhão é o mesmo para todos, baseando-se na sua estranha doutrina de que as nossas boas obras não influem nem direta nem indiretamente na salvação, mas já refutámos suficientemente esta teoria e basta esta afirmação tão insistente de que Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras para mostrar que esta teoria, além de ilógica, é antibíblica.

Por outro lado, é claro que aquêles que recusando o perdão divino, não querendo converter-se, entrarem no inferno, receberão o castigo maior ou menor na proporção das más obras que fizeram, das iniqüidades que cometeram.

Mas acontece também que muitos e muitos morrem, comparecem diante do TRIBUNAL JUSTÍSSIMO DE DEUS e estão em tais condições que nem poderão ser condenados ao inferno, uma vez que não se trata de almas em estado de pecado mortal, impiamente afastadas de Deus; nem também estão suficientemente puros para entrarem imediatamente na glória do Céu. A alegação protestante de que o sangue de Cristo nos purifica de todo pecado, não vem ao caso, porque, segundo confessam os próprios protestantes, para haver perdão é preciso haver ARREPENDIMENTO. Os que negam isto ensinam uma doutrina imoral e absurda que afundaria a Humanidade na mais grosseira corrução. E há muitos pecados, dos quais a alma, por exemplo, não se arrepende, não faz propósito de emenda, mas que não são pecados graves, pelos quais Deus condene ao inferno, à perdição eterna.

Os protestantes, rejeitando a distinção entre pecado mortal e pecado venial, aberram contra tôda a lógica e mais ainda supõem para êles mesmos dificílima a salvação.

A própria Bíblia nos fala de uns pecados MAIORES do que outros. Jesus diz a Pilatos: O que me entregou a ti tem MAIOR pecado (João XIX-11). Ora, se entre duas faltas tão graves, como eram a cobardia de Pilatos e a traição de Judas, se estabelece uma diferença, quanto mais entre aquêles pecados que são faltas graves por sua natureza e aquêles que todo o mundo está vendo serem faltas leves.

Nosso Senhor mesmo no Evangelho repreende os judeus que na sua cegueira, no seu egoísmo, enxergam faltas leves nos outros, ao mesmo tempo que não enxergam faltas muito graves em si próprios, dizendo que êstes judeus vêem utn argueiro no ôlho do próximo e não vêem uma TRAVE no seu: Por que vês tu, pois, a ARESTA no ôlho de teu irmão, e não vês a TRAVE no teu ôlho? (Mateus VII-3). Em outra ocasião, depois de censurar os hipócritas escribas e fariseus, porque se esforçam por observar preceitos pequeninos, e não cuidam de cumprir com os grandes preceitos da lei de Deus, depois de dizer que êles deviam observar êstes últimos SEM OMITIR aquêles outros, Nosso Senhor acrescenta: Condutores cegos, que coais um MOSQUITO e engolis um CAMELO (Mateus XXIII-24).

Portanto, segundo o ensino do Divino Mestre, pode haver diferença muito grande de pecado para pecado, diferença tão grande como a que há de um MOSQUITO para um CAMELO, de um ARGUEIRO para uma TRAVE.

A própria razão nos está indicando a diferença entre pecados mortais e pecados veniais.

Tôda mentira é pecado, porque faltar à verdade é ofender a Deus. Mas uma coisa é a mentira inocente, de mera desculpa, para ocultar algum fato desagradável, e outra coisa é a mentira que encerra em si uma calúnia que vai manchar miseràvelmente a reputação do próximo.

A censura feita aos outros é sempre um pecado, porque é faltar com a caridade. Mas não se pode comparar a censura bem fundamentada sôbre falta leve, feita com moderação, e a censura maliciosa sôbre faltas graves de que não se tem certeza. Uma coisa é a raiva ligeira, a leve impaciência, e outra coisa é o ódio que fervilha no coração, com desejos de vingança. Não se pode comparar uma simples palavra dita por imprudência com uma blasfêmia premeditada, nem o roubo de um cavalo com o furto de uma caixa de fósforos. A mesma ação e o mesmo pecado podem variar no grau de culpabilidade, conforme se tenham cometido com maior ou menor advertência ou consentimento da vontade, que também admitem graus.

Não querer fazer distinção alguma entre pecados mortais e veniais é mostrar-nos um Deus excessivamente rigoroso que condena o homem ao fogo eterno mesmo por faltas muito leves, porque estas faltas, é certo que Deus não faz vista grossa sôbre elas, temos que prestar contas sôbre as mesmas diante do tribunal justíssimo de Deus, onde havemos de ser chamados à ,responsabilidade até por uma palavra inútil: E digo-vos que de TÔDA A PALAVRA OCIOSA que falarem os homens, darão conta dela no dia do juízo; porque pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado (Mateus XII-36 e 37). Sêde vós, logo, perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito (Mateus V-48). Não ver nenhuma diferença entre pecados graves e pecados leves, considerar qualquer peçado como merecedor da condenação eterna, e ao mesmo tempo exigir o arrependimento para se obter o perdão, arrependimento êste que implica necessàriamente um sério propósito de emenda (do contrário não é arrependimento sincero) é o mesmo que colocar-nos numa situação sumamente angustiante, em que são raríssimos os que escapam aos tormentos do inferno.

Se é certíssimo, portanto, porque o diz a Escritura, que DEUS RETRIBUIRÁ A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS, é certíssima também a existência do purgatório.

Além disto, não são sômente os pecados veniais que não foram perdoados que exigem um castigo da parte de Deus, castigo temporário, é claro, porque êstes pecados não implicam na condenação eterna. São os próprios pecados mortais perdoados, porque vemos pela Sagrada Bíblia que Deus, mesmo depois de absolver o pecado, exige ainda do pecador perdoado uma pena, uma expiação de seu êrro. Da pena eterna, êle se livra, está apto para gozar ainda da eterna herança do Céu; antes, porém, tem que submeter-se a uma penitência. E assim mais uma vez se conciliam A JUSTIÇA E A MISERICÓRDIA.

O protestante naturalmente pede exemplos disto. E os podemos dar.

No capítulo XIV do livro dos Números vemos Deus dizendo a Moisés: Até quando murmurará de min êste povo? Até quando não me acreditará depois de todos os prodígios que tenho feito diante dêles? Eu, pois, os ferirei com peste e os consumirei, e a ti far-te-ei príncipe duma gente grande e mais forte do que esta é (Números XIV-11 e 12). Moisés intercede pelo povo: Perdoa, te suplico, o pecado dêste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia, assim como tu lhe fôste propício desde a saída do Egito até êste lugar (Números XIV-19). Deus perdoa, de acôrdo com a súplica de Moisés, mas exige sempre um castigo, embora) menor: Eus LHE PERDOEI, conforme tu me pediste. Por minha vida, que tôda a terra será cheia da glória do Senhor. Mas entretanto TODOS OS HOMENS que viram o resplendor da minha majestade e as maravilhas que fiz no Egito e no deserto e que me tentaram dez vazes e que não obedeceram à minha voz NÃO VERÃO A TERRA que eu prometi a seus pais com juramento; nenhum dos que detraíram de mim a verá (Números XIV-20 a 23).

O próprio Moisés que num gesto de impaciência bateu duas vêzes na pedra, duvidando não do poder mas da bondade de Deus, achando que Deus falara irônicamente e não iria atender àquele povo rebelde, recebe o castigo divino, embora, é claro, seja perdoado de sua falta: E o Senhor disse a Moisés e a Arão: Porque vós me não crestes para me santificardes diante dos filhos de Israel, não introduzireis êstes povos na terra que tenho para lhes dar (Números XX-12). E assim morreu Moisés avistando a Terra Prometida, mas sem ter o gôsto de nela entrar (Deuteronômio XXXIV-1 a 5).

Davi, depois de cometido o seu grave pecado (2.º Reis XI-2 a 17) recebe a advertência de Natã. E reconhece o seu êrro: Pequei contra o Senhor (2.º Reis XII-13). Natã lhe faz ver que Deus lhe perdoou, mas que nem por isto deixará de lhe ser imposta uma pena: Também o SENHOR TRANSFERIU O TEU PECADO: não morrerás. Todavia, como tu pelo que fizeste deste lugar a que os inimigos do Senhor blasfemem, MORRERÁ CERTAMENTE O FILHO que te nasceu (2.º Reis XII-13 e 14). E apesar da oração e do jejum rigoroso e do retiro de Davi, a sentença se cumpriu.

Vemos nos profetas a exortação não só para o arrependimento, mas também para as obras de penitência: Agora, pois, diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, EM JEJUM e em lágrimas e em gemidos (Joel II-12).

Por tudo isto se vê que o perdão dado por Deus não exclui necessàriamente o castigo infligido ao pecador. Éste recebe uma pená sem comparação menor do que merecia, pois, se mereceu um castigo eterno, receberá uma pena passageira; aí se mostra ao mesmo tempo a bondade de Deus PERDOANDO, e a sua justiça RETRIBUINDO A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS.

Nem se venha dizer que êstes são exemplos do Antigo Testamento que na Nova Lei é diferente. O perdão dado por Deus aos antigos é o mesmo perdão que nos é concedido hoje, pois também antigamente êle era dado em virtude dos merecimentos de Jesus Cristo que antecipadamente se levavam em conta em benefício do pecador. A nossa responsabilidade perante Deus é ainda maior depois da vinda de Cristo, pois muito maiores são as graças por nós recebidas: a todo aquêle a quem muito foi dado, muito lhe será pedido (Lucas XII-48). S. Paulo escreve sua epístola aos Colossenses que vai dirigida aos santos e fiéis • irmãos em Jesus Cristo que habitam em Colossos (Colossenses 1-2) escolhidos de Deus, santos e amados (Colossenses III-12), mas não deixa de adverti-los: Servi a Cristo o Senhor; porque o que faz injustiça receberá o pago do que Fez injustamente, porque não há acepção de pessoas em Deus (Colossenses III-24 e 25).

Não se fala em purgatório sem que o protestante se lembre imediatamente do trecho de Isaías que êle tanto vive a citar: Se os vossos pecados forem como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; se forem roxos como o carmesim, ficarão alvos como a branca lã (Isaías 1-18) para tentar provar com isto que os convertidos não precisam mais de purificação alguma. Mas é sempre a mesma história da frase separada de seu contexto. Leia-se êste primeiro capítulo de Isaías desde seu comêço. Nos 15 versículos iniciais, Deus faz, por intermédio do profeta, as mais amargas queixas sare as ingratidões do seu povo. Depois, exorta OS ingratos israelitas A REALIZAREM ÊLES MESMOS A SUA PURIFICAÇÃO, A SUA EMENDA E REABILITAÇÃO. Eis O que diz Isaías: LAVAI-VOS, PURIFICAI-VOS, TIRAI de diante de meus olhos a malignidade de vossos pensamentos, CESSAI de obrar perversamente, APRENDEI a fazer o bem, PROCURAI O que é justo, SOCORREI ao oprimido, FAZEI JUSTIÇA ao órfão, DEFENDEI a viúva (Isaías 1-16 e 17). Não é irremediável o caso de Israel; se os iníquos judeus deixam o mau caminho e se esforçam pela sua reparação, podem chegar até a mais completa purificação, podem passar da mais negra situação de pecado até à mais límpida pureza dalma: E vinde e argüi-me, diz o Senhor: se os vossos pecados forem como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; e se forem roxos como carmesim, ficarão alvos como a branca lã (Isaías 1-18).

O mal dos protestantes é que, tôdas as vêzes que se fala em justificação, êles, tomando uma posição muito cômoda, pensam Unicamente na ação misericordiosa de Deus (como se Deus fizesse TUDO e a ação do homem fôsse apenas a de CONFIAR) quando esta ação purificadora é obra de Deus e do homem ao mesmo tempo: Deus entra com a sua graça, mas é preciso que o homem entre também com o seu esfôrço, a sua colaboração, o seu sacrifício. O que o profeta Isaías nos mostra aí no trecho é o homem cooperando na purificação com as suas OBRAS, e não apenas com a sua confiança. O mal dos protestantes é também imaginar que o homem, uma vez tornado puro como a branca neve, não possa mais chamuscar-se de escarlata outra vez, caindo em várias im perfeições porque todos nós tropeçamos em muitas coisas (Tiago III-2).

Se Cristo expiou por nós na cruz, não foi para dispensar o homem de fazer também a sua REPARAÇÃO por si mesmo, foi para melhor ajudar o homem a realizá-la e para torná-la eficaz e meritória, porque é levada a efeito com a graça de Cristo: RIME OS TEUS PECADOS COM ESMOLAS e as tuas iniqüidades com obras de misericórdia para com os pobres (Daniel IV-24) (Nas Bíblias protestantes procure-se o versículo 27; assim o traz Ferreira de Almeida: DESFAZE OS TEUS PECADOS PELA JUSTIÇA; e as TUAS INIQÜIDADES USANDO DE MISERICÓRDIA para com os pobres — Daniel IV-27). Perdoados lhe são seus muitos pecados, PORQUE AMOU MUITO (Lucas VII-47). A caridade COBRE A MULTIDÃO DOS PECADOS (1.ª Pedro IV-8).

Quando o homem, mesmo convertido, não realiza completamente esta reparação, de molde a satisfazer à JUSTIÇA DE DEUS (a qual não desapareceu com a morte de Cristo) tem que haver necessàriamente a purificação no outro mundo.

O caso do bom ladrão, a quem Jesus disse: Hoje serás comigo no paraíso (Lucas XXIII-43) não encerra em si nenhuma prova de que não exista purgatório. Porque não dizemos que tôda pessoa infalivelmente tenha que passar por êle. Admitimos que haja muitas pessoas que dêle se livram por morrerem totalmente quites com a justiça divina, pelo fato de terem pago já neste mundo a sua dívida pelos pecados. Êste foi de certo, de acôrdo com os desígnios divinos, o caso do bom ladrão. Os horrorosos suplícios da crucifixão eram um castigo de suas culpas. E êle os aceitou com tanta boa vontade, com tão profundo e sincero arrependimento, com uma dor tão viva em sualma, que o Divino Mestre achou que o purgatório para êle já havia sido cumprido aqui na terra. Cada um pode livrar-se, ou em parte ou totalmente, dessas penas futuras com os sofrimentos desta vida, principalmente quando os aceita com o ânimo heróico e penitente com que soube padecer o bom ladrão.

E quanto à parábola do rico e do pobre Lázaro que, morrendo foi levado, sem mais demora, ao seio de Abraão, desde que, como dissemos, há pessoas que não passam pelo purgatório por terem sofrido suficientemente neste mundo as penas pelos seus pecados, Jesus que queria frisar na sua parábola a diferença de sorte que vão ter eternamente o bom e o mau, especialmente o mau que viveu entre delícias e o bom que viveu no maior sofrimento, Jesus escolheu precisamente um caso dêstes, de pessoa que já sai daqui inteiramente quites por muito ter sofrido, para melhor realçar o contraste. Escolher o caso de um que ainda tivesse que sofrer no purgatório, por pouco tempo que fôsse, seria estragar o efeito da parábola. Nem também quis o Divino Mestre descrever nesta história como é que se faz o julgamento de todos os homens; êste julgamento varia muito de acôrdo com as circunstâncias especiais de vida e com o grau de virtude de cada pessoa. Quis apenas mostrar que tanto o gôzo dos maus como o sofrimento dos bons são passageiros e transitórios, não sendo nada em comparação com a eternidade.

Encerramos, portanto, estas considerações com a conclusão de que o Sacrifício da Missa, em lugar de diminuir o valor do Sacrifício da Cruz, é ao contrário o próprio Sacrifício da Cruz, como uma Árvore da Vida, estendendo os seus ramos ainda mais ao nosso alcance, para que melhor possamos aproveitar-nos dos seus frutos. A remissão dos pecados não é possível sem a nossa cooperação, sem o nosso arrependimento, e êste arrependimento não é possível sem a graça, de Deus. Cristo que ria cruz fêz suficientissimamente o que era de sua parte, oferecendo o preço do nosso resgate que nós mesmos nunca podíamos oferecer, Cristo na Missa vem ajudar-nos a fazer a nossa, interpondo-se mais uma vez entre Deus e os homens para nos conseguir a graça do arrependimento, mesmo quando dela já nos tornámos indignos por nossas reiteradas ingratidões. E como, uma vez perdoados, ainda nos resta uma dívida para com Deus, ainda estamos sujeitos a uma pena temporal, na qual foi comutada a pena eterna; como nem sempre recebemos o perdão de TODOS OS PECADOS aqui na terra, pois há pecados leves de que nem sempre temos o necessário arrependimento, a súplica de Cristo na Santa Missa vem alcançar também um alívio e refrigério ou mesmo uma abreviação para aquêles que no outro mundo se estão purificando perante a Justiça Divina, afim de se tornarem aptos para alcançarem o prêmio eterno, a eterna felicidade lá no Céu, onde não entra nada contaminado.

341. CRISTO, ÚNICO SACERDOTE.

Passamos à terceira objeção:

Nós temos na Nova Lei um ÚNICO SACERDOTE que é Cristo, e não muitos sacerdotes que são fracos e pecadores, porque são homens, como vemos na Igreja Católica.

— A Bíblia compara Cristo com o Sumo Sacerdote da Antiga Lei (Hebreus IX-6 e 7; 11 e 12) e diz que o seu sacerdócio permanece para sempre (Hebreus VII-24). Mas, embora a Bíblia não use esta expressão ÚNICO SACERDOTE, vamos aceitá-la sem discutir e assim encurtaremos o caminho para a resposta.

Temos que observar o mesmo que já dissemos a respeito da questão: Cristo = pedra, Pedro = pedra (n.º 161). A mesma palavra atribuída a Deus e atribuída aos homens tem um sentido diverso. Atribuída a Deus, tem um sentido absoluto, perfeitíssimo; atribuída aos homens, tem um sentido relativo, pois tudo quanto o homem tem, tudo quanto o homem faz, é na dependência de Deus.

Cristo é o ÚNICO SACERDOTE, sacerdote com letra maiúscula, isto não impede que haja sacerdotes com letra minúscula.

Deus é o único PAI (A NINGUÉM chameis PAI vosso sôbre a terra; porque um só é o vosso PAI que está nos Céus — Mateus XXIII-9) e no entanto a mesma Bíblia nos manda honrar pai e mãe. Deus é quem tem a si a paternidade; os pais da terra a recebem de Deus. Jesus é O ÚNICO MESTRE (Nem vos intituleis mestres; porque UM Só é O VOSSO MESTRE, o CRISTO — Mateus XXIII-10). E no entanto os Apóstolos e seus sucessores são mandados, como mestres, a ENSINAR a todos os povos. São mestres também, mas não no sentido absoluto em que o é Cristo; ensinam aos outros o que o próprio Cristo lhes ensinou. Só Deus é BOM (NINGUÉM É BOM senão SÓ DEUS — Marcos X-18). E no entanto há pessoas boas, a própria Bíblia dá o nome de Bom a homens como vimos (n.º 161), mas a bondade dêstes vem de Deus, por isto só Deus é bom no sentido absoluto. Ensina-nos S. Paulo que só DEUS possui a imortalidade (1.ª Timóteo VI-16) e no entanto a nossa alma também é imortal, porque RECEBEU de Deus a imortalidade, a qual só Deus possui por uma exigência de sua própria natureza, o homem a possui por participação, como um dom que lhe veio do Autor de tôdas as coisas. E assim por diante.

Dêste modo Cristo é o ÚNICO SACERDOTE, o que não impede que haja outros sacerdotes, que são ministros de Cristo, que agem em nome de Cristo, que de Cristo receberam os poderes de que estão revestidos.

33. A OBLAÇÃO CONSTANTE DE CRISTO.

Finalmente chegamos à última objeção protestante. S. Paulo diz que Cristo NÃO ENTROU no santuário do Céu para se oferecer MUITAS VEZES a si mesmo (Hebreus IX-25) e que nós somos santificados pela ofrenda do corpo de Jesus Cristo feita UMA VEZ (Hebreus X-10). Logo, Cristo não se oferece milhares de vêzes no Sacrifício da Missa, como querem os católicos.

— A oblação ou o oferecimento de si próprio a Deus sempre existiu na alma 'de Jesus Cristo e era bastante por si só para remir o mundo inteiro. Bastava uma oração, um ato de amor, um suspiro de Cristo para realizar a nossa Redenção, pois qualquer ato de Cristo, que era Homem-Deus, tinha um valor infinito. E que êste oferecimento havia sempre na alma do Salvador, nós o sabemos não só pela perfeição desta mesma alma, senão também pela própria Bíblia, que nos apresenta o Filho de Deus, dizendo logo desde a sua entrada neste mundo: Não quiseste hóstia nem oblação, mas tu me formaste um corpo; os holocautos pelo pecado não te agradaram. Então disse eu: Eis aqui venho; no princípio do livro está escrito de mim; para fazer, ó Deus, a tua vontade (Hebreus X-5 a 7).

Êste oferecimento total de si mesmo ao Eterno Pai não só existiu em tôda a vida de Cristo, antes e depois da sua Paixão, como existe eternamente no Céu, onde a alma de Cristo continua a gozar, como sempre gozou, da VISÃO BEATIFICA. A OBLAÇÃO é uma só, porém eterna, sem interrupção na alma de Cristo, oblação total de si mesmo ao seu Pai Eterno.

Mas acontece que, embora bastasse esta oblação, num só instante que fôsse, para remir tôda a Humanidade, Deus Pai, nos decretos insondáveis de sua JUSTIÇA, exigiu que a redenção da Humanidade não fôsse realizada sem o derramamento de sangue, sem a morte de Jesus. Sem efusão de sangue não há remissão (Hebreus IX-22). De modo que o preço do resgate da Humanidade só seria oferecido a Deus, quando à oblação, que era permanente na alma de Cristo, se juntasse um fato que era passageiro, que se daria UMA SÓ VEZ, isto é, quando Cristo derramasse o seu sangue e morresse por amor de nós. No Calvário se juntaram as duas coisas: a oblação de Cristo e a sua MORTE. Nesta hora se operou a nossa Eterna Redenção, ficámos livres da escravidão do demônio, ficámos com o direito à GRAÇA SOBRENATURAL, O Céu se abriu etc.

Mas dai não se segue que a oblação cessasse na alma de Cristo.

Os protestantes se atrapalham com os textos da Epístola aos Hebreus, principalmente nos capítulos VII, VIII, IX e X, porque o fito que tem o Apóstolo S. Paulo é o seguinte: demonstrar aos judeus convertidos a quem escreve, a imensa superioridade do sacrifício de Cristo feito na cruz, sôbre os da Lei Antiga, na qual se faziam muitos e muitos sacrifícios, se imolavam muitos touros e novilhos e bodes e carneiros, entravam em ação muitos sacerdotes e não se conseguia resolver o problema da remissão dos pecados, porque é impossível que com sangue de touros e de bodes se tirem os pecados (Hebreus X4). Deus aceitava aquêles sacrifícios, porque prefiguravam o único Sacrifício completamente satisfatório, aquêle que Jesus Cristo haveria de oferecer na cruz; af é que somos santificados pela ofrenda do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez (Hebreus X-10).

S. Paulo refere-se então ao costume de entrar o Sumo Sacerdote, uma vez cada ano, no Santo dos Santos, que estava fechado para simbolizar o Céu que também estava fechado para nós, e entrava não sem sangue que oferecesse pelas suas próprias ignorâncias e pelas do povo (Hebreus IX-7), mas com sangue alheio (Hebreus IX-25), sangue de bodes ou de bezerros (Hebreus IX-12), ao passo que Cristo entrou em santuário que era mais excelente e perfeito tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação (Hebreus IX-11), entrou no Céu, do qual o Santo dos Santos era apenas um símbolo, com o seu próprio sangue (Hebreus IX-12) e entrou uma só vez havendo achado uma redenção eterna (Hebreus IX-12).

Mas, como a comparação que S. Paulo está fazendo é entre a chegada de Cristo no Céu e a entrada do Sumo Sacerdote no Santo dos Santos, entrada esta que se realizava todos os anos e que era feita para oferecimento de um sacrifício que anualmente se repetia, S. Paulo, com receio de que os hebreus não entendessem bem a comparação e ficassem pensando que o nosso Sumo Sacerdote Cristo necessitasse estar sempre repetindo o seu Sacrifício no Céu, S. Paulo, não contente com dizer que Cristo entrou no santuário celeste UMA SÓ VEZ (Hebreus IX-12), acrescenta que Cristo não entrou naquele santuário para realizar aí muitas vêzes o seu Sacrifício Redentor, o qual aliás já tinha sido realizado na cruz: E não entrou para oferecer muitas vêzes a si mesmo, como o pontífice cada ano entra no santuário com sangue alheio, doutra maneira Lhe seria necessário padecer muitas vêzes desde o princípio do mundo (Hebreus IX-25 e 26). O sacrifício redentor de Cristo foi UM só, o da Cruz, e com êste Êle ofereceu condigna satisfação por todos os pecados passados, presentes e futuros.

Há alguns protestantes que aí fazem confusão, entendendo mal as palavras de Cristo e tiram a conclusão de que o sacrifício de Cristo foi oferecido no Céu e não na cruz. Não é isto o que S. Paulo quis dizer, quis apenas fazer uma comparação da ENTRADA de Cristo no Céu feita UMA SÓ VEZ e definitivamente, com a entrada que todos os anos precisava fazer o Sumo Sacerdote judaico no segundo tabernáculo.

Que se conclui de tudo isto? Que a OBLAÇÃO REDENTORA só foi feita uma vez. Cristo não oferece mais o seu corpo e o seu sangue PARA REMIR A HUMANIDADE, porque a Humanidade já foi REMIDA no Sacrifício da Cruz. Mas segue-se daí que Cristo não possa mais OFERECER O SEU CORPO E O SEU SANGUE para alcançar certas e determinadas graças para nós? Segue-se daí que Cristo não possa mais oferecer-se a Deus Pai para adorá-Lo e render-Lhe graças?

Ora, a OBLAÇÃO que faz Cristo no Santo Sacrifício da Missa não é uma OBLAÇÃO REDENTORA, neste sentido de que a Missa seja celebrada para remir a Humanidade, como se esta não tivesse alcançado ainda a Redenção; a Humanidade já está remida, o preço do resgate já foi pago, o Céu já está aberto, a Humanidade já foi restaurada no plano sobrenatural.

Os protestantes nos advertem que a Eucaristia é realizada em comemoração do Senhor, em memória de sua Paixão e Morte. Ora, quando se comemora um fato, argumentam êles, êste fato não se repete: quando comemoramos a Independência do Brasil, não quer dizer que o Brasil se torne independente outra vez.

Estamos perfeitamente de acôrdo. Nós comemoramos no Sacrifício da Missa A MORTE de Cristo; e não matamos a Cristo outra vez, quando a Missa é celebrada.

Mas o Sacrifício da Missa é UMA REPRESENTAÇÃO DO DRAMA DO CALVÁRIO, em que temos rio altar o próprio Corpo e o próprio Sangue que Cristo ofereceu na Cruz. Cristo na Missa faz o seu OFERECIMENTO, a sua OBLAÇÃO, não já para nos remir, mas para suplicar a Deus muitas graças para nós, que Deus absolutamente não está obrigado a nos conceder e para adorá-Lo e render-Lhe graças em nosso lugar. Assim temos a felicidade de assistir pessoalmente ao Sacrifício da Cruz, pois o Sacrifício da Missa é o mesmo Sacrifício do Calvário, embora levado a efeito de maneira diversa, pois a Vítima é a mesma, e mesmo é o Sacerdote Cristo que é o PRINCIPAL OFERENTE. E nós que assistimos à REPRESENTAÇÃO do Sacrifício da Cruz, levamos uma vantagem sôbre aquêles que assistiram no Calvário à sua CRUENTA REALIzAçÃo: é que a Missa é o próprio Sacrifício do Gólgota desdobrado num banquete, em que nós podemos participar da própria Vítima oferecida, alimentando-nos do seu próprio Corpo, que nos é dado como nutrição especial para mantermos em nós a vida da graça.

Não há dúvida que Cristo podia ter providenciado de outro modo o aumento da GRAÇA SANTIFICANTE e a nossa permanência nela, mas o modo como itle quis fazer e o fêz, demonstra o seu imenso amor para conosco, eternizando a sua presença na terra, unindo-se intimamente, na comunhão, com aquêles que crêem na sua palavra, no seu mistério eucarístico e dando-nos o privilégio de juntar a nossa oblação, o oferecimento a Deus de todo o nosso ser, com aquela oblação, aquêle oferecimento que são eternos na sua Alma Puríssima de Redentor.

343. A NOSSA OBLAÇÃO.

E assim entramos noutro aspecto da doutrina do sacrifício. Deus se aborrecia com os sacrifícios antigos, porque êles eram feitos como um SINAL dos sentimentos que o povo tinha para com Deus, e muitas e muitas vêzes êste sinal era falho e inexpressivo, não correspondia à realidade.

Na Nova Aliança, a Vítima oferecida é em si mesma agradabilíssima aos olhos de Deus, porque é o seu próprio Divino Filho. Mas disto não se segue que estejamos dispensados de juntar à oblação desta Vítima infinitamente preciosa, a nossa própria oblação; ao sacrifício de Jesus, os nossos próprios sacrifícios pessoais. Sem esta submissão íntima do nosso coração a Deus não nos salvamos.

E daí vêm as exortações da Bíblia a acompanharmos o sacrifício de Cristo com a nossa própria consagração a Deus: Tendo um grande sacerdote sôbre a casa de Deus, cheguemo-nos a Êle com VERDADEIRO CORAÇÃO, revestidos duma COMPLETA FE, tendo os CORAÇÕES PURIFICADOS de consciência

má, e lavados os corpos com água limpa, conservemos firme a profissão da NOSSA ESPERANÇA (porque fiel é o que fêz a promessa) e consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos à CARIDADE e às BOAS OBRAS (Hebreus X-21 a 24).

344. O SACERDÓCIO DOS FIÉIS.

Desde que o papel do sacerdote é oferecer a Deus PRESENTES e SACRIFÍCIOS em nome do povo, o cristão que faz suas ofertas a Deus, que a Deus oferece seus SACRIFÍCIOS, está também de um certo modo exercendo um SACERDÓCIO. Por isto nos diz S. Pedro, falando sôbre Cristo: Chegai-vos para Êle, como para a pedra viva que os homens tinham sim rejeitado, mas que Deus escolheu e honrou; também sôbre ela vós mesmos, como pedras vivas, sêde edificados em casa espiritual, em SACERDÓCIO SANTO, para oferecer SACRIFÍCIOS ESPIRITUAIS, que sejam aceitos a Deus por Jesus Cristo… Vós sois A GERAÇÃO ESCOLHIDA, O SACERDÓCIO REAL, A GENTE SANTA, O povo de aquisição, para que publiqueis as grandezas dAquele que das trevas vos chamou à sua maravilhosa luz (1.ª Pedro II-4 e 5, 9).

Os mesmos protestantes que usam o argumento de que, sendo Cristo o ÚNICO SACERDOTE, não há sacerdotes na Nova Lei, se servem agora dêste texto para querer com isto demonstrar que todos os fiéis SÃO SACERDOTES (!).

Entretanto S. Pedro fala aí de um sacerdócio, não no sentido próprio, em tôda a extensão da palavra, mas num sentido lato, assim como Cristo disse que a Escritura chama DEUSES àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a ESCRITURA não pode falhar (João X-35). Também se diz do bom médico, do bom professor, que exercem um sacerdócio.

Uma coisa logo atrapalha aquêle que só tem em mãos o texto em português (e é um exemplo, entre muitos, que mostra como para entender bem a Bíblia é preciso saber o grego e o hebraico, línguas originais em que foi escrita), é que S. Pedro diz: Vós sois... O SACERDÓCIO REAL, mas a palavra REAL tem 2 sentidos em português:

REAL = que existe de fato; que não é ideal, mas é efetivo, verdadeiro.

REAL = relativo ao rei; digno ou próprio de rei; magnificente, régio.

Ora, a palavra grega que aí corresponde a REAL (BASILEION) tem Unicamente êste segundo sentido.

Quem lê o latim da Vulgata não tem perigo de fazer confusão, pois o texto não é REALE SACERDOTIUM, mas REGALE SACERDOTIUM.

Que vem a ser um sacerdócio real, na expressão de S. Pedro?

Equivale a UM CORPO RÉGIO DE SACERDOTES; equivale a REINO SACERDOTAL. POIS S. Pedro, neste versículo 9.º de sua 1.ª Epístola, faz apenas reproduzir, aplicando aos cristãos, aquilo que já havia sido dito aos judeus no livi40 do Êxodo, no qual lemos o seguinte: Se, portanto, ouvirdes a minha voz e observardes o pacto que eu fiz convosco, sereis para mim a PORÇÃO ESCOLHIDA dentre todos os povos, porque minha é tôda a terra; e vós sereis o meu REINO SACERDOTAL e uma NAÇÃO SANTA (Êxodo XIX-5 e 6).

Vê-se bem claramente o paralelismo entre as expressões usadas no Êxodo e as palavras de S. Pedro:

Êxodo XIX-5 e 6 : PORÇÃO ESCOLHIDA, REINO SACERDOTAL , NAÇÃO SANTA

1.ª Pedro II-9: GERAÇÃO ESCOLHIDA, REAL SACERDÓCIO, GENTE SANTA

Deus chamou aos judeus um REINO SACERDOTAL. Que se segue daí? Que entre os judeus todos eram sacerdotes? Não. Porque êste sacerdócio efetivo da lei judaica era privativo dos descendentes de Arão: Faze também chegar a ti Arão, teu irmão, com seus filhos, SEPARADOS do meio dos filhos de Israel, para que êles exercitem diante de mim as funções do SACERDÓCIO: Arão, Nadab, Abiu, Eleazar e Itamar (Êxodo XXVIII4). O livro dos Números nos mostra Moisés dizendo a Coré: Foi acaso para isso que êle chamou para junto de si a ti e a todos teus irmãos, filhos de Levi, AFIM DE USURPARDES para vós também O SACERDÓCIO e para tôda a tua tropa se sublevar contra o Senhor? (Números XVI-10 e 11). E, depois de realizado o grande castigo, se diz que o sacerdote Eleazar tirou os turíbulos de metal, nos quais tinham oferecido os que foram consumidos pelo incêndio e os converteu em lâminas, pregando-os no altar, para que os filhos de Israel tivessem ao depois em que escarmentar, a fim de que nenhum estrangeiro NEM ALGUM QUE NÃO SEJA DA LINHAGEM DE Ardo se chegue para oferecer incenso ao Senhor e padeça a mesma pena que padeceu Coré e tôda a sua tropa, conforme o Senhor tinha dito a Moisés (Números XVI-39 e 40). O 2.ª livro dos Paralipômenos nos narra o castigo sofrido pelo rei Osias, que queria oferecer incenso sôbre o altar dos perfumes. E entrou logo após êle o pontífice Azarias, e com êle oitenta sacerdotes do Senhor, homens da maior firmeza e se opuseram ao rei e disseram: A ti, Osias, não é que pertence o queimar incenso ao Senhor, MAS AOS SACERDOTES, isto é, aos filhos de Arão, QUE FORAM CONSAGRADOS PARA ESTE MINISTÉRIO; sai do santuário, não queiras fazer êste desprêzo, porque esta ação não te será reputada em glória pelo Senhor Deus. E Osias, irado, tendo na mão o turíbulo para oferecer incenso, ameaçou os sacerdotes. E no mesmo ponto lhe nasceu lepra na testa... e ele mesmo, passado de mêdo, deu pressa a sair, porque logo sentiu a praga com que o Senhor o tinha ferido (2.ª Paralipômenos XXVI-17 a 20).

Uma NAÇÃO SACERDOTAL, portanto, não quer dizer uma nação em que todos são sacerdotes, no sentido rigoroso da palavra, mas uma nação que é tôda consagrada a Deus, assim como os sacerdotes são a Êle consagrados, e é neste sentido que S. Pedro chama um REAL SACERDÓCIO o povo cristão.

Esta perfeita igualdade entre todos os cristãos, a qual pretendem pregar os protestantes, vai de encontro ao ensino bíblico que nos mostra Cristo separando do meio do povo os seus Apóstolos, educando-os carinhosamente, revelando só a êles os mistérios do reino de Deus (Mateus XIII-11), dando-lhes só a êles na intimidade da Ceia Larga o poder de realizar o mistério eucarístico (Lucas XXII-19), o qual provaremos daqui a pouco (n.º 345 a 348) ser um real e verdadeiro sacrifício, dando a êles em uma casa, de portas fechadas, o poder de perdoar pecados (João XX-23), enviando-os só a êles a ENSINAR e a batizar (Mateus XXVIII-19), fazendo dêles uns ministros de Cristo e dispenseiros dos mistérios de Deus (1.ª Coríntios IV-1).

Vai de encontro a tôda a história do Cristianismo, como bem observa D. Charue, e ao próprio ensino desta mesma 1.ª Epístola de S. Pedro que faz a distinção entre pastôres e ovelhas: Apascentai o rebanho de Deus que está, entre vós... e quando aparecer o Príncipe dos pastôres, recebereis a coroa de glória que nunca se poderá murchar (1.ª Pedro V-2 e 4).

Querer provar que os Apóstolos não eram os SACERDOTES da Nova Lei, não formavam uma CLASSE SACERDOTAL distinta do povo, pelo simples fato de que a Bíblia não lhes atribui a palavra SACERDOTES, é querer fazer uma interpretação da Bíblia muito pouco inteligente, baseada apenas num JÔGO DE PALAVRAS, é querer ver na Bíblia somente palavras escritas materialmente e não o que elas exprimem e significam. Se a Escritura os chama APÓSTOLOS ou enviados de Cristo, esta palavra é bastante ampla para encerrar em si um grande número de prerrogativas, pois designa aquêles a quem Cristo transmitiu os seus poderes: se são Apóstolos são mestres, pastôres, bispos, dirigentes da Igreja, e são também sacerdotes.

A massa protestante, que, apesar de rude e ignorante, se põe a ler e interpretar, por sua própria cabeça, as Sagradas Escrituras, se aferra de unhas e dentes a êste sistema absurdo de escravidão às palavras. E Os pastôres protestantes, aquêles que têm ou, pelo menos, deveriam ter um pouco mais de cultura, em vez de orientar os ignorantes nesta matéria, muitas vêzes fomen,tam esta interpretação puramente verbal, para se servirem disto como de uma arma contra a Igreja.

  1. inútil provar a certos protestantes que S. Pedro foi o chefe da Igreja e que o Papa é o sucessor de S. Pedro; êles dirão que não obedecem ao Papa, porque esta palavra PAPA não se encontra na Bíblia.
  • inútil explicar a certos protestantes o que é que nós chamamos hoje um SACRAMENTO, isto é, um sinal sensível, como é, por exemplo, a água, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, como foi por exemplo o Batismo (Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes, BATIZANDO-AS em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo — Mateus XXVIII-19), para conferir a graça: Cada um de vós seja BATIZADO em nome de Jesus Cristo PARA REMISSÃO DE VOSSOS PECADOS; e recebereis O DOM DO ESPÍRITO SANTO (Atos II-38). Se o protestante tiver em mãos a Bíblia na tradução do P.e Antônio Pereira de Figueiredo, fica convencido de que EXISTE SACRAMENTO na Nova Lei; pois aí se lê a respeito cio Matrimônio: Êste SACRAMENTO é grande; mas eu digo em Cristo e na Igreja (Efésios V-32).

Mas se tiver em mãos a Bíblia de Ferreira de Almeida, que não traz esta palavra SACRAMENTO, fica convencido de que sacramento não existe.

Cristo mudou o pão no seu próprio corpo, o vinho no seu próprio sangue, como já provámos. Ao cabo de vários séculos, alguém formou uma palavra que, dentro da teoria filosófica sôbre substância e acidentes, (46) exprime exatamente o que se passa, tanto na consagração do pão, como na do vinho. E passou-se a chamar com o nome de TRANSUBSTANCIAÇÃO, a conversão realizada na Santa Missa, exprimindo-se economicamente COM UMA SÓ PALAVRA, uma REALIDADE que já era muito antiga, pois vinha dos tempos de Cristo, mas que antes precisava de muitas palavras para ser expressa. Pois bem, os protestantes se insurgem contra o dogma da Transubstanciação, porque ESTA PALAVRA NÃO ESTÁ NA BÍBLIA. (47) Como se do fato de alguém ter formado a palavra TRANSATLÂNTICO para exprimir a idéia de navio grande que faz regularmente a travessia do Atlântico, se seguisse que antes disto não havia êstes navios. Ou como se do fato de alguém ter inventado uma palavra só — CEFALALGIA — para exprimir a dor de cabeça, se seguisse que a dor de cabeça só começou a existir desta data em diante.

Segundo êstes métodos "importantíssimos" e "inteligentíssimos" de interpretar as Santas Escrituras, ao perguntarmos aos protestantes se êles acreditam na Santíssima TRINDADE, na ENCARNAÇÃO do Verbo, na ONISCIÊNCIA de Cristo, êles são capazes de dizer que não acreditam em nada disto, porque estas PALAVRAS não estão na Bíblia. E não sabemos como se arranjam êles, dentro dêste sistema tão "bonito" de interpretação, para provar a sua doutrina básica de que para ai salvação é preciso aceitar a Cristo como nosso Salvador PESSOAL, se esta palavra PESSOAL também não se encontra na Bíblia. Ou como conseguem convencer-se de que existe no Cristianismo O LIVRE EXAME, de que a seita PRESBITERIANA OU LUTERANA OU PENTECOSTAL etc, etc, é a Igreja Verdadeira de Jesus Cristo, se êstes têrmos não se encontram nas Sagradas Escrituras.

Os Apóstolos eram SACERDOTES, sem ser necessário para isto que a Bíblia lhes aplique êste nome, assim como é certíssimo que a nossa alma é IMORTAL, segundo reconhece a grande maioria dos protestantes, os quais Entretanto lêem. a Bíblia do princípio ao fim, sem que nem uma só vez encontrem esta palavra IMORTAL aplicada à alma humana.

Êste sacerdócio da Nova Lei, transmitido por Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, aos seus Apóstolos e por êstes a outros a quem êles, para perpetuidade da Igreja, acharam necessário transmiti-lo, é um sacerdócio verdadeiro e efetivo.

Mas os simples fiéis precisam convencer-se de que podem DE UMA CERTA FORMA, por uma certa analogia, exercer também esta função de sacerdotes. Podem e devem. Não é ofício do sacerdote oferecer em nome do povo PRESENTES E SACRIFÍCIOS a Deus? Pois bem, o fiel deve fazer doação de i mesmo, oferecer SACRIFÍCIOS ESPIRITUAIS, como disse S. Pedro (1.ª Pedro II-5). O sacrifício de Cristo foi infinitamente precioso, mas não nos aproveitaremos dêle, se não soubermos fazer por nossa parte o SACRIFÍCIO das nossas paixões, das desordenadas inclinações da nossa carne; é preciso trazer o corpo limpo, sem mancha de pecado, para podermos, por nossa vez, como se fôssemos sacerdotes, ofedecê-lo a Deus como uma hóstia agradável aos seus olhos: Pela misericórdia de Deus vos rogo, irmãos, que OFEREÇAIS OS VOSSOS CORPOS, COMO uma HÓSTIA VIVA, SANTA, AGRADÁVEL A DEUS (Romanos XII-1). Alguns são chamados até a imolar esta hóstia, numa semelhança ainda maior com Cristo, porque têm que sofrer o martírio em defesa de sua fé.

Além da santidade de vida (Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova nas minhas entranhas um espírito reto — Salmos L-12), outro sacrifício que os fiéis podem oferecer é a prece. Por isto já o Salmista nos apresentava Deus a dizer: Porventura comerei carnes de touros? ou beberei sangue de cabritos? Oferece a Deus SACRIFÍCIO DE LOUVOR e paga ao Altíssimo os teus votos (Salmos XLIX-13 e 14). Senhor, abrirás os meus lábios e a minha bôca anunciará o teu louvor (Salmos L-17). E é nesta mesma linha de considerações que S. Paulo nos diz: Ofereçamos, pois, por Êle, a Deus sem cessar SACRIFÍCIO DE LOUVOR, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome (Hebreus XIII-15). E, como a oração não basta sem a caridade, êle acrescenta: E não vos esqueçais de fazer bem e de repartir dos vossos bens com os outros; porque com tais OFERENDAS é que Deus se dá por obrigado (Hebreus XIII-16). E nem é preciso relembrar aqui a palavra de Cristo: Quantas vêzes vós fizestes isto a um dêstes meus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fizestes (Mateus XXV-40).

Assim, enquanto Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote, se oferece a si mesmo, por intermédio do padre católico que participa do sacerdócio de Cristo, como ministro dÊle e dispenseiro dos mistérios de Deus, também os fiéis, embora em grau menos elevado, participam do sacerdócio, OFERECENDO suas lutas, suas mortificações, seus sacrifícios, suas orações, suas caridades e sobretudo a sinceridade do seu coração, para subir ao Céu, como a nossa contribuição humana, juntamente com a contribuição divina, ou seja, aquela Hóstia pura, santa e imaculada, que se oferece quotidianamente sôbre o altar do sacrifício.

A MISSA É VERDADEIRO E REAL SACRIFÍCIO

345. A PROFECIA DE MALAQUIAS.

Resolvidas as objeções protestantes, provado que a Missa em nada vem ofuscar a eficácia do Sacrifício da Cruz, passamos agora à demonstração da nossa tese: A Missa é um verdadeiro e real Sacrifício.

Para haver Sacrifício, não é preciso haver MORTE, pois havia os sacrifícios incruentos, em que se ofereciam a Deus os produtos agrícolas. Sem precisar morrer mais que uma vez, Cristo toma as aparências dos produtos agrícolas, ou no caso, do pão e do vinho, para então ser oferecido constantemente a Deus, novamente como no Calvário, numa OBLAÇÃO PURA. É a expressão do Profeta Malaquias.

Várias coisas a respeito do reino messiânico foram preditas pelos Profetas. E uma delas é o Sacrifício da Missa que se havia de oferecer em tôda a terra.

O Profeta Malaquias nos mostra Deus irritado com as negligências e as provas de má vontade postas em prática pelos sacerdotes da Antiga Lei, ao oferecer os seus sacrifícios: O filho honra a seu pai, e o servo reverencia a seu senhor; se eu, pois, sou vosso pai, onde está a minha honra? e se eu sou vosso senhor, onde está o temor que se me deve? diz o Senhor dos exércitos. Convosco falo, ó sacerdotes que desprezais o meu nome e dissestes: Em que desprezámos nós o teu nome? Vós ofereceis sôbre o meu altar um pão imundo e dizeis: Em que te profanámos nós? Niáso que dizeis: A mesa do Senhor está desprezada. Se vós ofereceis uma hóstia cega para ser imolada, não é isto mau? e se ofereceis uma que é coxa e doente, não é isto mau? Oferece êstes animais ao teu governador, a ver se êles lhe agradarão ou se êle te receberá com agrado, diz o Senhor dos exércitos (Malaquias 1-6 a 8).

Diante disto, Deus se mostra resolvido a rejeitar e abolir os sacrifícios antigos: O meu afeto não está em vós, diz o Senhor dos exércitos; NEM EU RECEBEREI ALGUM DONATIVO DA VOSSA MÃO (Malaquias I-10). passa a anunciar um Sacrifício Novo, oferecido em tôda a terra: Porque desde o nascente do sol até o poente é o meu nome grande entre as gentes, e EM TODO O LUGAR SE SACRIFICA E SE OFERECE AO MEU NOME UMA OBLAÇÃO PURA (Malaquias 1-11).

Desde o nascimento do sol até o poente é o meu nome grande entre as gentes.

A expressão — do nascente do sol até o poente — é usada nas Escrituras para significar o MUNDO INTEIRO: O Deus dos deuses, o Senhor falou e convocou A TERRA, desde o oriente do sol até ao seu ocaso (Salmos XLIX-1). Para que saibam os que há desde o nascimento do sol e os que habitam desde o seu ocaso, que o não há fora de mim: eu sou o Senhor e não há outro (Isaías XLV-6). E os que demoram da parte do ocidente temerão o nome do Senhor, e os que ficam da banda donde nasce o sol respeitarão a sua glória (Isaías LIX-19).

A palavra GENTES (no hebraico HAGOIM) é sempre empregada na Bíblia para significar os gentios, os outros povos que não são o povo Israelita.

os profetas costumam apresentar como um sinal do reino do Messias, o ser Deus cultuado por todos os povos: E sairá uma vara do tronco de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz. E descansará sôbre êle o espírito do Senhor... A TERRA ESTÁ CHEIA DA CIÊNCIA DO SENHOR, assim como as águas do mar que a cobrem (Isaías XI-1, 2 e 9). As ilhas me estão esperando, e as naus do mar desde o princípio para eu trazer de longe os teus filhos, com êles a sua prata e o seu ouro, para ser consagrado ao nome do Senhor teu Deus, e ao Santo de Israel que te glorificou (Isaías LX-9). E acontecerá isto: no último dos dias o monte da casa do Senhor será preparado no alto dos montes e se elevará sôbre os outeiros; e OS POVOS CONCORRERÃO a êle E AS NAÇÕES EM TURMAS se darão pressa por lá chegar e dirão: Vinde, subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó; e Êle nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas varedas; porque A LEI SAIRÁ DE SIÃO, e A PALAVRA DO SENHOR, DE JERUSALÉM (Miquéias IV-1 e 2). Lembrar-se-ão e converter-se-ão ao Senhor todos os limites da terra, e adorarão na sua presença tôdas as famílias das gentes (Salmos XXI-8), diz Davi num salmo evidentemente messiânico, o Salmo XXI (2. Deus, Deus meu, olha para mim. Por que me desamparaste? 17 e 18 Êles traspassaram as minhas mãos e meus pés, contaram todos os meus ossos).

É, portanto, ao tempo messiânico que se está referindo Malaquias e assim acrescenta: Em todo o lugar se sacrifica e se oferece ao meu nome uma oblação pura (Malaquias I-11).

Esta OBLAÇÃO, a que êle se refere, não é tomada no sentido metafórico de oração ou sacrifício espiritual ou esmola; ela vem SUBSTITUIR os sacrifícios dos sacerdotes da Antiga Lei; e na Antiga Lei também já se ofereciam orações e esmolas e sacrifícios espirituais. E além disto é expressa no hebraico pela palavra MINCHAH, que mais de cento e cinqüenta vêzes é empregada na Bíblia para indicar verdadeiro sacrifício no sentido litúrgico da palavra. As vêzes exprime a idéia de sacrifício litúrgico, independentemente da consideração se é incruento ou não; mais freqüentemente, porém, indica o sacrifício incruento.

Por aí se vê claramente que Malaquias não fala do tempo para êle presente, mas dos tempos da Nova Lei, pois no seu tempo, portanto antes de Cristo, havia sacrifícios entre os gentios, mas sacrifícios completamente desagradáveis a Deus, oferecidos aos ídolos: as coisas que sacrificam os gentios, as sacrificam aos demônios, e não a Deus (1.° Coríntios X-20). Nem se trata de sacrifícios oferecidos pelos judeus dispersos entre as outras nações. Êstes judeus eram poucos, não estavam espalhados em tôda a terra, nem tinham prestígio nem número suficiente para tornar o nome de Deus grande entre os gentios, quando ao contrário se sabe que o mundo inteiro estava mergulhado na idolatria, antes da vinda de Cristo. E além disto êste sacrifício judaico era oferecido apenas no templo de Jerusalém.

Malaquias refere-se, portanto, a um sacrifício novo, oferecido nos tempos messiânicos. E não se refere diretamente ao Sacrifício da Cruz, pois êste foi oferecido EM UM SÓ LUGAR, uma só vez, no monte Calvário, ao passo que aqui se trata de um sacrifício oferecido EM TODO O LUGAR, de modo que torne o nome do Senhor engrandecido entre as gentes.

É fraquíssima a objeção protestante de que Malaquias fala no tempo presente: SE SACRIFICA, SE OFERECE; portanto não se trataria de coisa futura. Pois é sabido como os profetas perdem completamente nas suas predições a noção de tempo; êles vêem como presentes, ou como passadas, as coisas futuras. Assim diz Isaías a respeito do nascimento do Messias: Porquanto já uni pequenino SE ACHA NASCIDO para nós, e um filho NOS FOI DADO a nós e FOI PÓSTO o principado sôbre o seu ombro (Isaías IX-6). E a respeito da Paixão do Senhor: Êle não TEM beleza nem formosura e VIMO-LO e não TINHA parecença do que era; e por isso nós O ESTRANHÁMOS, feito um objeto de desprêzo e o último dos homens, um varão de dores e experimentado nos trabalhos; e o seu rosto SE ACHAVA como encoberto e parecia desprezível; por onde nenhum caso FIZEMOS dEle. Verdadeiramente Ele FOI o que TOMOU sôbre si as nossas fraquezas, e Ele mesmo CARREGOU com as nossas dores; e nós O REPUTÁMOS como um leproso, e ferido por Deus e humilhado. Mas Ele FOI FERIDO pelas nossas iniqüidades, roi QUEBRANTADO pelos nossos crimes; e o castigo que nos devia trazer a paz CAIU sôbre Ele e nós FOMOS SARADOS pelas suas pisaduras (Isaías LIII-2 a 5). Escreve Davi num salmo profético sôbre o Messias: DISSE o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha mão direita (Salmos CIX-1).

Tanto mais que, como provámos, mostrando Deus o seu desagrado diante dos próprios sacrifícios judaicos, oferecidos no seio do único povo que cultuava o Deus verdadeiro, em nenhunía parte da terra, muito menos EM TODO LUGAR se estava oferecendo a Deus naquele tempo um sacrifício puro e aceitável.

Portanto, ou a Bíblia falhou completamente nesta profecia (e a Bíblia não pode falhar) ou então há UM SACRIFÍCIO oferecido a Deus em todo lugar e êste sacrifício não é outro senão o Sacrifício da Missa, em que novamente se levanta aos Céus, realmente presente sob as espécies de pão e de vinho, aquela mesma Vítima Adorável que se ofereceu no Calvário.

E a doutrina que recebeu a Igreja DESDE O TEMPO DOS APÓSTOLOS é que a Santa Missa é um _ verdadeiro sacrifício e que a profecia de Malaquias a ela se refere, pois é assim que fala sôbre a Eucaristia o DIDAQUE ou Doutrina dos 12 Apóstolos, livro antiquíssimo que pertence ao 1.º século, sendo provàvelmente anterior ao ano 70:

"Reunidos cada dia do Senhor, parti o pão e dai graças, depois de haver confessado vossos pecados, afim de que o vosso SACRIFÍCIO seja puro. Todo aquêle, porém, que tiver contenda com seu companheiro, não se junte convosco enquanto não se reconciliarem, para que não se profane o vosso SACRIFÍCIO. Porque êste é o sacrifício do qual disse o Senhor: Em todo lugar e em todo tempo se me oferece um SACRIFÍCIO puro; porque eu sou rei grande e meu nome é admirável entre as nações." (Didaqué XIV-1 a 3).

O texto se refere evidentemente à Eucaristia, chamada o partir do pão, celebrada no dia do Senhor, sem lhe faltar como preparação a confissão dos pecados; chama-o repetidamente SACRIFÍCIO (HE THYSÍA, no original grego) e aplica-lhe com tôda clareza a profecia de Malaquias.

Se os protestantes crêem na Bíblia e dizem querer professar o Cristianismo primitivo, êles não podem recusar nem o texto de Malaquias, nem êste documento tão valioso que nos vem da mais remota antigüidade cristã.

346. A PRIMEIRA MISSA NA ÚLTIMA CEIA.

As palavras de Cristo na instituição da Eucaristia nos mostram muito bem que aquela Ceia teve o caráter de um verdadeiro sacrifício.

Já provámos que ali sob a espécie de PTio estava realmente o corpo de Jesus; e sob a espécie de vinho, o seu preciosíssimo Sangue.

Agora é preciso notar também que Jesus, ao entregar o pão e o vinho consagrados, frisa que êste seu corpo É DADO, que êste seu sangue É DERRAMADO por nós. Mas em que sentido? No sentido de que o sangue que está no cálice é derramado ali na ceia? ou no sentido de que será derramado na sua Paixão? No sentido de que o corpo é entregue ali na ceia, ou no sentido de que na sua Paixão será entregue?

Se examinarmos o texto original grego, veremos que o que êle exprime é o seguinte: o sangue de Cristo é derramado também ali na Ceia.

Assim diz literalmente o texto grego do Evangelho de S. Lucas (XXII-20): TÓUTO TO POTERION (Êste o cálice) HE KAINE DIATHEKE (O Novo Testamento) EN TO HÁIMATI MIOU (no meu sangue) TO HYPER HYMON (O por vós) EKCHYNNÓMENON (derramado).

Qualquer pessoa que tenha algum conhecimento de grego vê no texto que a palavra DERRAMADO que está em nominativo, não se refere absolutamente a SANGUE que está em dativo, mas a CÁLICE que está em nominativo (Tó POTERION . . TO EKCHYNNÓMENON).

Aí existe uma figura muito conhecida: metonímia, empregando o continente pelo conteúdo. Derramar o cálice é derramar aquilo que nêle se contém.

O sangue é chamado cálice, porque está dentro dêle. E o sangue que Cristo derramou na cruz não foi derramado em cálice.

Ao ver Cristo falar aí na Ceia em sangue derramado ninguém pode pensar, é claro, que Cristo tenha derramado o seu sangue no chão. -Mas é derramado numa efusão mística e sacramental; pois aparece aos nossos olhos separado do seu corpo como vai ser separado na cruz; aparece como tendo sido derramado e como que recolhido no cálice.

Os outros Evangelistas S. Mateus e S. Marcos no texto grego trazem literalmente assim:

Marcos XIV-24: Êste é o meu sangue do Testamento, O DERRAMADO por muitos.

Mateus XXVI-28: Êste com efeito é o meu sangue do Testamento, o por muitos DERRAMADO para remissão de pecados.

É preciso notar que tanto em S. Lucas, como em S. Mateus e S. Marcos, o têrmo DERRAMADO é expresso pelo particípio presente passivo (EKCHYNNÓMENON) e no grego o particípio presente não se refere a coisas futuras, mas só a presentes. Além disto, o texto de S. Mateus e de S. Marcos são as palavras de Jesus ditas na consagração do cálice e têm exatamente, portanto, o mesmo sentido que em S. Lucas, o qual, falando do cálice derramado, fala de uma efusão de sangue ATUAL, naquela hora, e não futura.

Já no texto da Vulgata, as palavras de Jesus vêm se referindo a um derramamento de sangue que ainda se vai realizar:

Êste cálix é o Novo Testamento em meu sangue, que SERÁ DERRAMADO por vós (Lucas XXII-20).

Êste é o meu sangue do Novo Testamento, que SERÁ DERRAMADO por muitos (Marcos XIV-24).

Êste é- o meu sangue do Novo Testamento, que SERÁ DERRAMADO por muitos, para remissão de pecados (Mateus XXVI-28).

Quanto à consagração do pão, enquanto S. Mateus e S. Marcos dizem apenas: Êste é o meu corpo (Mateus XXVI-26; Marcos XIV-22), S. Lucas traz mais algumas palavras.

No texto grego vem:

Lucas XXII-19: Êste é o meu corpo o por vós dado (DIDÓMENON). Na Vulgata.:

Lucas XXII-19: Êste é o meu corpo que SE DÁ por vós.

Aí estão perfeitamente iguais os dois textos (grego e Vulgata), pois no grego está o particípio presente passivo (DIDÓMENON) que traz sempre a idéia de uma ação presente; e na Vulgata se diz no presente que o corpo de Cristo SE DÁ por nós (naquele momento).

E a mesma Vulgata traz assim a consagração do pão narrada por S. Paulo:

Coríntios XI-24: Êste é o meu corpo que SERÁ ENTREGUE por amor de vós. (48)

Como se vê, no texto grego, em todos os versículos que referem a consagração do pão é do vinho, vem sempre a idéia de um ato que se realiza no presente: o sangue é agora DERRAMADO; o corpo de Cristo SE DÁ presentemente. Ao passo que na Vulgata, na consagração do vinho se traz a idéia de apresentação de uma coisa que se vai realizar: o sangue irá ser derramado; na consagração do pão se trazem as 2 idéias: em S. Mateus, o corpo de Cristo SE DÁ agora na Ceia; no texto de S. Paulo o corpo ainda VAI SER ENTREGUE.

Dada a relação muito íntima que há entre o Sacrifício eucarístico e Sacrifício do Calvário que são um só e o mesmo sacrifício, sendo o primeiro uma viva representação do segundo, não há contradição absolutamente entre as 2 maneiras de ver: o corpo de Cristo que SE DÁ na Ceia, é o mesmo que SERÁ ENTREGUE na Cruz; o sangue que ali no Cálice já se apresenta como DERRAMADO é o mesmo que SERÁ DERRAMADO por nós na Paixão do Salvador.

Mas dirá alguém: Se o Sr. toma o texto da Vulgata que fala assim no futuro: SERÁ DERRAMADO, SERÁ ENTREGUE, pode provar que Cristo está anunciando um sacrifício futuro, o da Cruz; como pode provar, então, que o que se passou na Ceia foi um verdadeiro e real sacrifício?

— Pode-se provar muito bem, ou as palavras de Cristo se tomem no sentido presente ou no sentido futuro.

Tomemos, por exemplo, o sentido futuro.

Primeiro que tudo, como já vimos, para haver SACRIFÍCIO não é necessário que haja MORTE, nem derramamento REAL e FÍSICO de sangue, pois havia também sacrifícios incruentos, de produtos agrícolas, dos frutos da terra, que não deixavam de ser reais e verdadeiros sacrifícios.

Sabemos, por outro lado, que O SACRIFÍCIO SÓ podia ser realizado pelos sacerdotes. Porém, mesmo nos sacrifícios cruentos, não era necessário que o sacerdote, êle próprio, matasse a vítima; a vítima podia ser abatida ou morta por outros; o papel do sacerdote, ao realizar a ação do sacrifício, era fazer o oferecimento, a oblação da vítima sacrificada. Se para haver SACRIFÍCIO fôsse necessário que o sacerdote matasse a vítima, então no sacrifício da Cruz, em que Jesus é ao mesmo tempo Vítima e Sacerdote, seria preciso que Cristo se suicidasse, se matasse a si mesmo. r.le foi morto pelos judeus, mas como sacerdote, tinha feito a oblação de si mesmo.

Mas esta oblação de si mesmo a Deus, que Cristo fêz no seu íntimo, ou melhor que, como vimos, Cristo nunca deixou de fazer um só instante, desde que foi concebido e continua a fazer eternamente nos Céus, Cristo quis fazê-la de uma maneira RITUAL, expressando-a por palavras na sua última Ceia. É aí que Êle declara solenemente, já bem próximo à sua Paixão que seu sangue será derramado POR VÓS (Lucas XXII-20), POR MUITOS (Marcos XIV-24), POR MUITOS PARA REMISSÃO DE PECADOS (Mateus XXVI-26); que seu corpo SE DÁ POR vós (Lucas XXII-19) — Êle não diz SE DÁ A vós, mas SE DÁ POR vós, a Deus, é claro — que seu corpo POR VÓS será entregue (1.° Coríntios XI-24).

Estas palavras mostram evidentemente uma OBLAÇÃO.

Mas a oblação que se fazia nos sacrifícios não era de uma vítima distante ou de uma vítima futura, mas sim daquela que estava presente ali no altar.

Aí é que entra em ação o poder infinito de Jesus. Para que a vítima estivesse ali presente no altar, que era A MESA da Última Ceia, e presente NO ESTADO MESMO DE VÍTIMA, é que Êle fêz a consagração do pão e do vinho. Ali está, graças às palavras da consagração, realmente presente o seu corpo, o mesmo corpo que se oferecerá na Cruz. Ali está, graças às palavras da consagração, realmente presente o seu sangue, o mesmo sangue que será derramado para nos remir. E se mostram separados um do outro, para significar o ESTADO DE VÍTIMA, em que estará Jesus na Cruz; no mesmo estado se encontram ali realmente presentes, na mesa da Última Ceia. De modo que a Ceia é a representação viva do Sacrifício do Calvário, é a oblação dêste mesmo sacrifício; e é ao mesmo tempo um verdadeiro sacrifício, sacrifício incruento, em que o seu corpo e o seu sangue se apresentam sob as aparências de produtos vegetais, sob as espécies de pão e de vinho.

Mas dirá alguém: se Cristo ofereceu um sacrifício de seu corpo e de seu sangue, por nós, na -última Ceia, quer dizer então que foi ali na Ceia que Êle nos remiu.

Não. Porque, conforme já temos explicado, embora bastasse um simples suspiro de Jesus para nos remir, estava decretado por Deus que o preço do resgate seria a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua morte na cruz. Sõmente com esta Paixão e Morte é que a Humanidade se reconciliou com Deus, o Céu se abriu para nós; e uma satisfação condigna superabundante foi apresentada a Deus pelos ultrajes presentes, passados e futuros.

Se tomamos as palavras SANGUE DERRAMADO, CORPO DADO, no sentido presente, sangue derramado no cálice, corpo dado na Eucaristia por nós, continua sempre de pé, e com maioria de razão, a noção de sacrifício, pois não só se mostra a OBLAÇÃO, suficiente para haver sacrifício, mas também misticamente a ação do sacerdote de derramar o sangue da vítimá (Veja-se Levítico XVII-6).

De modo que Cristo realizou ali na Ceia um real e verdadeiro sacrifício. E não é só isto; dizendo aos Apóstolos: FAZEI ISTO em memória de mim (Lucas XXII-19) o que é o mesmo que dizer, em memória de minha Paixão e Morte (anunciareis a morte do Senhor, até que Êle venha — 1.ª Coríntios XI-26), Êle mandou que se repetisse até o fim do mundo aquela oblação de seu corpo e de seu sangue, aquela representação viva de sua Paixão e Morte, que ali se realizaram na Última Ceia.

347. SACERDOTE SEGUNDO A ORDEM DE MELQUISEDEQUE.

É na Última Ceia, portanto, que se compreende ainda mais claramente o fato de ser o Cristo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, o que está dito no Salmo 109, evidentemente messiânico, pois Jesus Cristo o aplica a si próprio (Mateus XXII-42 a 45) e vem confirmado na Epístola aos Hebreus.

De Melquisedeque se sabe apenas o que está escrito no livro do Gênesis: Melquisedeque, rei de Salém, OFERECENDO PÃO E VINHO (porque era sacerdote do Deus Altíssimo) abençoou a Abrão, dizendo: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o Céu e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, por cuja proteção os inimigos estão nas tuas mãos. E Abrão lhe deu o dízimo de tudo (Gênesis XIV-18 a 20).

Já não queremos entrar em discussão sôbre se Melquisedeque, OFERECENDO PÃO E VINHO, ofereceu ou não Em real e verdadeiro sacrifício.

Nem também influi no caso o fato de falar a Epístola aos Hebreus sôbre o sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque e não fazer menção da Eucaristia a êste respeito. Porque a própria Epístola declara que há outros aspectos interessantes do sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque, sôbre os quais ela não vai falar, porque os destinatários não têm ainda a capacidade necessária para entender: Chamado por Deus pontífice segundo a ordem de Melquisedeque. Do qual TEMOS MUITAS COISAS que dizer e DIFÍCEIS DE DECLARAR, porque SOIS FRACOS PARA OUVIR. Porque, devendo vós ser já mestres pelo tempo, tendes ainda necessidade de que vos ensinem quais são os elementos do princípio das palavras de Deus, E VOS TENDES TORNADO TAIS, QUE HAVEIS MISTER LEITE E NÃO MANTIMENTO SÓLIDO (Hebreus V-10 a 12). Querendo mostrar a superioridade do sacerdócio de Melquisedeque sare o sacerdócio de Arão, S. Paulo se baseia no argumento de que Abrão pagou dízimos a Melquisedeque e por êle foi abençoado (Hebreus VII-4 a 10), não quer fazer alusão a um sacrifício incruento que entre os hebreus era considerado como de menor importância do que os sacrifícios cruentos, oferecidos também êstes pelos sacerdotes da linhagem de Arão.

O que é inegável é que Melquisedeque é figura de Cristo e do seu SACERDÓCIO, e não foi sem razão que o Espírito Santo o mostrou OFERECENDO O PÃO E O VINHO.

Oferecendo na última Ceia o seu corpo e o seu sangue sob as espécies de PÃO e de VINHO e mais ainda ordenando aos Apóstolos e seus sucessores que fizessem o mesmo que Êle fêz, Cristo se mostra em tôda a sua plenitude SACERDOTE ETERNAMENTE SEGUNDO A ORDEM DE MELQUISEDEQUE Salmos CIX-4), eternamente no Céu onde está assentado à direita de Deus Padre (Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita — Salmos CIX-1) e perpètuamente aqui na terra, onde por intermédio dos sacerdotes da Nova Lei, Êle continua a apresentar a sua oblação sob as espécies do PÃO e do VINHO.

348. NÓS TEMOS UM ALTAR.

A noção do sacrifício eucarístico se vê ainda claramente na Epístola aos Hebreus.

S. Paulo aproveita o capítulo XIII, que é o último desta Epístola, para fazer muitas exortações, das mais variadas: Não vos esqueçais da hospitalidade (vers. 2.º); lembrai-vos dos presos (vers. 3.º); seja por todos tratado com honra o matrimônio e o leito sem mácula (vers. 4.º); sejam os vossos costumes sem avareza (vers. 5.º); lembrai-vos dos vossos prelados (vers. 7.º); ofereçamos, pois, por Êle a Deus sem cessar sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome (vers. 15); não vos esqueçais de fazer bem e de repartir dos vossos bens com os outros (vers. 16); obedecei a vossos superiores (vers. 17); orai por nós (vers. 18).

Entre estas exortações está também a de se premunirem os hebreus convertidos contra as doutrinas judaizantes; de não voltarem a práticas do judaísmo, não comerem das carnes oferecidas nos sacrifícios judaicos: Não vos deixeis tirar do caminho por doutrinas várias e estranhas. Porque é muito bom fortificar o coração com a graça, não com VIANDAS QUE NÃO APROVEITARAM AOS QUE ANDARAM NELAS (Hebreus XIII-9).

Não devem os judeus que abraçaram o Cristianismo voltar a tomar parte nos banquetes do cordeiro pascoal ou das vítimas legais oferecidas nos sacrifícios judaicos, porque o judaísmo já passou. E aquêles sacrifícios, como já provara S. Paulo, não podiam purificar a consciência do que sacrificava, por meio somente de manjares e de bebidas e de diversas abluções (Hebreus IX-9 e 10).

Nem devem os judeus convertidos ter inveja dos que participam de tais banquetes, porque, acrescenta S. Paulo: nós temos um ALTAR, do qual os ministros do tabernáculo não têm faculdade de COMER (Hebreus XIII-10).

A palavra ALTAR vem, no grego, expressa pelo têrmo THYSIASTÉRION, ou seja, SACRIFICATÓRIO, lugar destinado para o SACRIFÍCIO. Os cristãos têm um ALTAR, que é o altar da Eucaristia, isto se vê claramente também pelas palavras de S. Inácio Mártir, que foi contemporâneo dos Apóstolos: "Procurai, portanto, usar da Eucaristia UNA: uma, com efeito, é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e um o cálix na unidade do seu sangue, um O ALTAR, assim como um é o Bispo com os presbíteros e diáconos, meus conservos; afim de que tudo o que fazeis, o façais segundo Deus" (Filadelfos, 4). Aí no texto original de S. Inácio Mártir é a mesma palavra grega que se vê no texto da Epístola aos Hebreus: THYSIASTÉRION.

Agora perguntamos: Onde está O ALTAR, o sacrificatório ou lugar de sacrifício das igrejas protestantes? Se querem seguir o Cristianismo primitivo, é preciso que digam também com S. Paulo: Nós temos um ALTAR (Hebreus XIII-10).

Mas dirão os protestantes: O altar a que se refere aí a Bíblia é a cruz, onde Jesus morreu; e comer é ter fé em Jesus, comer é participar dos frutos da Redenção.

— A interpretação é forçada e descabida.

Em primeiro lugar, esta mesma palavra ALTAR (THYSIASTáRION no grego) aparece freqüentemente na Bíblia Sagrada e jamais designa a cruz de Cristo, sempre tem a significação de altar litúrgico, altar em que os sacerdotes humanos oferecem seus sacrifícios ou diante do qual fazem os fiéis as suas ofertas. Nesta Epístola aos Hebreus é empregada duas vêzes: uma neste texto que ora comentamos e a outra no capítulo 7.º: Mudado que seja o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança da lei, porque Aquêle de quem isto se diz é doutra tribo, da qual nenhum serviu ao ALTAR (Hebreus VII-12 e 13).

O mesmo se pode verificar através de todo o Novo Testamento, em tôdas as passagens em que aparece esta palavra ALTAR (no grego THYSIASTáRION): Se tu estás fazendo a tua oferta diante do ALTAR, e te lembrar aí que teu irmão tem contra ti alguma coisa... (Mateus V-23). Aquêle, pois, que jura pelo ALTAR jura por êle e por tudo quanto sôbre êle está (Mateus XXIII-20) ...Zacarias, filho de Baraquias, a quem vós destes a morte entre o templo e o ALTAR (Mateus XXIII-35; cfr. Lucas XI-51). Apareceu a Zacarias um anjo do Senhor, pôsto em pé da parte direita do ALTAR do incenso (Lucas I-11). Senhor, mataram os teus profetas, derribaram os teus ALTARES (Romanos XI-3). Não sabeis... que os que servem ao ALTAR participam justamente do ALTAR? (1.° Coríntios IX-13). Os que comem as vítimas porventura não têm parte com o ALTAR? (V Coríntios X-18). Não é assim que nosso pai Abraão foi justificado pelas obras, oferecendo a seu filho Isaque sôbre O ALTAR? (Tiago 11-21). Vi debaixo do ALTAR as almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus (Apocalipse VI-9). Veio outro anjo e parou diante do ALTAR, tendo um turíbulo de ouro (Apocalipse VIII-3). Ouvi uma voz que saía dos quatro cantos do ALTAR de ouro (Apocalipse IX-13). Mede o templo de Deus e o ALTAR, e os que nêle fazem as suas adorações (Apocalipse XI-1). Saiu mais do ALTAR outro anjo (Apocalipse XIV-18). Ouvi a outro que dizia do ALTAR: Certamente, Senhor Deus Todo-Poderoso, verdadeiros e justos são os teus juízos (Apocalipse XVI-7).

Desde que na Bíblia esta palavra ALTAR, NUNCA designa a cruz de Cristo e sim um altar litúrgico, era preciso que houvesse no contexto um indício muito forte para nos convencer de que a referência era feita agora à cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo no Calvário. Muito pelo contrário... pois a frase é esta: Nós temos um ALTAR, do qual os ministros do tabernáculo não têm faculdade de COMER (Hebreus XIII-10). Se S. Paulo acabou de advertir aos judeus cristãos que não devem participar das COMIDAS que são próprios do judaísmo e, para afastá-los, para consolá-los, relembra que nós temos um altar, do qual os ministros do tabernáculo, isto é, aquêles que servem nas funções litúrgicas do judaísmo, não podem COMER, é claro que se trata aí de COMER na realidade, e não de uma metáfora. Para os judeus acostumados a ver que se COMIA realmente das vítimas sacrificadas nos altares judaicos, a metáfora seria não só estranha, insólita, desusada; mas também incompreensível. A referência é evidentemente feita à Santíssima Eucaristia, sôbre a qual nós lemos na Escritura: Tomai e COMEI; êste é o meu corpo (Mateus XXVI-26). Minha carne VERDADEIRAMENTE É COMIDA (João VI-56). Todo aquêle que COMER êste pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor (1.ª Coríntios XI-27).

Dirão os protestantes: Mas aí se está advertindo que havemos de fortificar o coração com a graça (Hebreus XIII-9).

— Sim; mas quem foi que disse que a Eucaristia não foi instituída para nos fortificar com a graça? Se não COMERDES a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, NÃO TEREIS VIDA em vós (João VI-54).

Na Eucaristia se recebe a graça, e com especialidade, porque nela se recebe Aquêle que é o próprio Autor da Graça.

S. Paulo, portanto, está advertindo os judeus convertidos que ainda andavam comendo da carne das vítimas dos sacrifícios legais, de que êles têm também um ALTAR, donde podem COMER, para se fortificarem com a graça, e donde os ministros do tabernáculo não podem; não há nenhum motivo para irem atrás daquelas viandas que não aproveitaram aos que andaram nelas (Hebreus XIII-9). Onde existe ALTAR, existe também SACRIFÍCIO. E o sacrifício cristão, do qual SE COME, é a Eucaristia, o Santo Sacrifício da Missa.

349. O SACRIFÍCIO DOS CRISTÃOS E OS SACRIFÍCIOS PAGÃOS.

Mas, se havia esta tendência entre os judeus convertidos para voltarem a comungar das carnes sacrificadas no judaísmo, mais grave ainda era o perigo, entre os cristãos que tinham vindo do paganismo, de voltarem a comer das carnes sacrificadas aos ídolos. Se, por acaso, iam comprar a carne no mercado, ou eram convidados a alguma refeição em casa particular de alguém, não era preciso andar indagando se a carne era ou não sacrificáda aos ídolos: De tudo o que se vende na praça comei, sem perguntar nada por causa da consciência; porque do Senhor é a terra e tudo quanto há nela. Se algum dos infiéis vos convida e quereis ir, comei de tudo o que se vos põe diante, não perguntando nada por causa da consciência (1.ª Coríntios X-25 a 27).

Mas participar daqueles banquetes que os pagãos consideravam sagrados, porque aí se comia das carnes sacrificadas nos seus altares e onde os pagãos comiam com a intenção de entrar em comunhão com as divindades a quem sacrificavam, isto não era lícito, porque era querer entrar em comunhão com os próprios demônios: As coisas que sacrificam os gentios, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que vós tenhais sociedade com os demônios (1.ª Coríntios X-20).

Ora, os cristãos deviam se lembrar de que na Eucaristia êles entravam em comunhão com o próprio corpo e o próprio sangue de Cristo: O cálix de bênção que benzemos não é a comunhão do sangue de Cristo?

  • o pão que partimos não é a participação do corpo do Senhor? (1.° Coríntios X-16).

São palavras estas que nós podemos acrescentar àqueles outros argumentos que já demos (n.as 298 a 324) de que Jesus Cristo está realmente presente na SS.ma Eucaristia. S. Paulo não diz que a Eucaristia simboliza, representa ou significa uma participação com o corpo de Cristo, mas que É realmente esta participação; nós PARTICIPAMOS do corpo de Cristo; não diz que ela representa, simboliza ou significa uma comunhão com o sangue de Cristo, mas que É realmente esta comunhão.

Portanto, não podem os cristãos comer das vítimas sacrificadas nos altares pagãos e, ao mesmo tempo, comer da Eucaristia: Não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios (1.° Coríntios X-21).

Ora, nós vemos na Sagrada Escritura a palavra MESA ter o significado de ALTAR e ser aplicada, tanto ao altar dos pagãos, como ao altar do Deus verdadeiro.

MESA = altar dos pagãos: Quanto a vós que deixastes o Senhor, que vos esquecestes do meu santo nome, que pondes uma MESA à Fortuna, e derramais libações sôbre ela, eu vos farei passar por conta ao fio da espada (Isaías LXV-11 e 12).

MESA = altar do Deus verdadeiro: Vós ofereceis sôbre o meu altar um pão imundo e dizeis: Em que te profanámos nós? Nisso que dizeis: A MESA do Senhor está desprezada (Malaquias 1-7). Mas os sacerdotes levitas... estarão na minha presença para me oferecerem a gordura o sangue, diz o Senhor Deus. Êles mesmos entrarão no meu santuário êles se chegarão à minha MESA, para me servirem e guardarem as minhas cerimônias (Ezequiel XLIV-15 e 16).

E aí se vê perfeitamente o raciocínio de S. Paulo.

Existe um altar dos cristãos e um altar dos pagãos; um é a mesa do Senhor e o outro, a mesa dos demônios; numa o fiel participa do corpo de Cristo, comunga do sangue de Cristo, noutra participa dos demônios, a quem são oferecidos os sacrifícios do paganismo. Como é que se pode participar das duas coisas ao mesmo tempo? O paralelismo em que o Apóstolo põe as 2 coisas tão diversas, mostra evidentemente que êle considera A CARNE e o SANGUE de Cristo como também oferecidos a Deus em sacrifício sôbre o altar ou, como êle o diz, sôbre a mesa do Senhor.

350. PROFUNDA SIGNIFICAÇÃO DA EUCARISTIA.

Ao finalizarmos o capítulo sôbre o Batismo, fizemos ver o esvaziamento de sentido que a maioria dos protestantes realizaram com relação a êste Sacramento.

Fizeram dêle um simples banho de água e nada mais e acham que Cristo fêz de um simples banho um testemunho de fé. O mesmo se dá com respeito à Eucaristia. Fizeram dela um simples lanche. Come-se pão e bebe-se vinho. E assim se comemora a Paixão do Salvador!

No entanto, as palavras da Bíblia são claríssimas para dar à Eucaristia uma significação muito mais profunda.

É aí que Cristo põe em prática o seu poder infinito, para nos mostrar as finezas de um amor sem limites. E é aí também que Êle mostra a sua imensa sabedoria, conciliando coisas que à primeira vista podiam parecer inconciliáveis.

Realizou na Cruz, dando a sua vida por nós, um Sacrifício Único que não se repete, porque a sua morte, a sua imolação real e sangrenta, só se deu UMA VEZ; e no entanto êste Sacrifício se renova todos os dias, a cada instante, numa representação viva de sua Paixão, numa imolação mística, de modo que todos nós podemos assistir ao seu Sacrifício da Cruz, como se estivéssemos presentes no Calvário.

Não era praxe entre os judeus que o povo comesse as carnes das vítimas oferecidas em EXPIAÇÃO. Cristo, porém, renova representativamente o seu sacrifício expiatório da Cruz, para que êle se desdobre num imenso banquete, em que podemos comungar, participar realmente, para nosso alimento espiritual, da própria Vítima que se ofereceu na Cruz, Vítima que o seu poder infinito nos traz outra vez realmente presente sôbre os nossos altares.

A nossa Redenção foi completa no Calvário; mas com esta Redenção adquirimos riquezas que na Missa Êle vem distribuir.

Na Cruz fêz A SUA PARTE na obra redentora; não contente com isto, na Missa nos vem ajudar a fazermos A NOSSA, implorando para os vivos a graça do arrependimento, mesmo quando depois de tanto abuso dos divinos favores, dela nos tornamos indignos, e para os mortos um alívio e refrigério nas penas que ainda têm que sofrer perante a Justiça Divina.

Subiu aos Céus para voltar no fim do mundo; e entretanto ficou entre nós oculto sob os véus sacramentais, visível apenas aos olhos da nossa fé, esta fé que é a base de todo o Cristianismo e que atinge o seu ponto culminante na humildade e cega submissão com que aceitamos o mistério eucarístico.

Só Éle é quem podia OFERECER-SE para remir a Humanidade; e no entanto dá-nos, depois da Redenção, o privilégio de nos oferecermos a Deus juntamente com Éle, apresentando-Lhe as nossas lágrimas, as nossas dores, os nossos sacrifícios, a nossa vida, em união com aquêle Corpo e Sangue Preciosíssimo que foram oferecidos na Cruz. E assim desde o nascente do sol até o poente... em todo o lugar sobe aos Céus uma oblação pura, tornando o nome de Deus grande entre as gentes (Malaquias I-11).