Capítulo 14

CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO: OS APÓSTOLOS TIVERAM SUCESSORES

351. A MISSÃO DOS APÓSTOLOS EXIGIA SUCESSORES.

Basta considerar a missão de que Jesus encarregou os seus Apóstolos, os poderes de que o Divino Mestre os revestiu, ao constituir A SUA IGREJA, para logo se chegar à evidência de que os Apóstolos haveriam de ter sucessores.

Já vimos que Cristo fêz de Pedro a pedra sôbre a qual A SUA IGREJA ia ser construída. Um homem que em si não é nada, mas que sustentado por Deus, pela Providência com que Cristo vela pela sua instituição deixada neste mundo, pode muito, pode arrostar vitoriosamente tôdas as tempestades, havia de ser a garantia de unidade para a Igreja de Deus. Mas, se esta Igreja havia de durar até o fim dos séculos, a pedra em que ela se sustenta havia de durar também. Pedro tem que continuar atuando sôbre a Igreja na pessoa de seus sucessores, e os tem havido sem interrupção desde Lino, que foi o seu sucessor imediato, até os dias de hoje. Ninguém pode negar que sem o Papa, sem a proteção especialíssima com que Cristo tem sustentado o Papado, por Éle mesmo instituído, não se teria mantido a unidade da Igreja.

Cristo mandou aos Apóstolos que ENSINASSEM a verdadeira doutrina. Constituiu mestra desta doutrina legítima a Igreja, coluna e firmamento da verdade (1.ª Timóteo III-15). Mortos os Apóstolos, haveriam de ser substituídos na sua missão de ensinar, por homens fiéis, que fôssem, capazes de instruir também os outros (2.ª Timóteo II-12); fiéis à doutrina da Igreja e nela verdadeiramente preparados, para que esta doutrina não sofresse alteração. Dar a qualquer homem o direito de sacar de uma Bíblia e sair ensinando aos outros a sua interpretação pessoal, quando há tantas interpretações diferentes, quando tantos são os falsificadores da palavra de Deus (2.ª Coríntios II-17), quando são tantos os indoutos e inconstantes que adulteram as Escrituras para ruína de si mesmos (2.ª Pedro III-16), seria introduzir na Igreja de Cristo a mesma anarquia doutrinária que se observa no Protestantismo. Por isto dizia S. Paulo, na sua Epístola aos Romanos: Como pregarão êles, SE NÃO 0 FOREM ENVIADOS? (Romanos X-15).

Foi aos Apóstolos que Cristo deu a ordem de batizar. Mas o Batismo é necessário para os homens de todos os tempos, pois quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus (João III-5); é no Batismo que pela vez primeira se recebe a graça santificante com a remissão dos pecados (pelo menos do pecado original, com que todos nascemos) e o dom do Espírito Santo (Atos II-38). É o Batismo que nos introduz, como membros, na Igreja de Jesus Cristo. Portanto, os Apóstolos haveriam de transmitir a outrem o poder de batizar.

Foi aos Apóstolos que Cristo deu o poder de perdoar pecados e retê-los (João XX-23). Mas não seriam somente os contemporâneos dos Apóstolos que haveriam de ter êste direito de receber a remissão dos pecados cometidos após o Batismo. Nesta base do poder das chaves, Cristo instituiu na Igreja o MEIO ORDINÁRIO para obtermos o perdão de nossos pecados. E, se os primeiros cristãos precisavam recorrer ao poder das chaves, é claro que, depois de mortos os Apóstolos, outros necessitariam de recorrer também.

Aos Apóstolos é que foi dado, no recesso do Cenáculo, o poder de realizar o mistério eucarístico, mudando o pão e o vinho no corpo e no sangue de Jesus e oferecendo a OBLAÇÃO da Nova Lei, predita por Malaquias. Mas a Eucaristia havia de perdurar até o fim do mundo:- anunciareis a morte do Senhor, ATÉ QUE ÉLE VENHA (1.ª Coríntios XI-26). E nenhum cristão podia, por si mesmo, julgar-se com o poder de fazer aquilo que fôra ordenado exclusivamente aos Apóstolos na Última Ceia: Fazei isto em memória de mim (Lucas XXII-19).

352. CRISTO FALA AOS APÓSTOLOS E SEUS SUCESSORES.

Na hora solene em que Jesus Cristo envia os seus Apóstolos, dirige-se sõmente aos onze (Partiram, pois, os onze discípulos para Galiléia, para cima de um monte, onde Jesus lhes havia ordenado que se achassem — Mateus XXVIII-16), mas falando a êles, está falando também aos seus sucessores, porque os encarrega de uma missão que onze pessoas apenas não estão absolutamente em condições de realizar (tanto mais que os Apóstolos já são, quase todos, homens maduros e morrerão dentro de alguns anos), a missão de ensinar a todos os povos: Ide, pois, e ensinai TUAS AS GENTES, batizando-as em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tôdas as coisas que vos tenho mandado (Mateus XXVIII-19 e 20). Por mais que andassem os Apóstolos naquela época de tão escassos meios de transporte, não poderiam sozinhos ENSINAR e BATIZAR TODOS OS POVOS. S. Lucas nos Atos igualmente nos mostra Jesus falando exclusivamente aos Apóstolos, dando preceitos pelo Espírito Santo aos APÓSTOLOS que elegeu (Atos I-2), anunciando-lhes que dentro de poucos dias receberiam a abundância do Espírito Santo: vós sereis batizados no Espírito Santo não muito depois dêstes dias (Atos I-5) e acrescentando: Recebereis a virtude do Espírito Santo que descerá sôbre vós e me sereis testemunhas em Jerusalém e em tôda a Judéia e Samaria e ATÉ ÀS EXTREMIDADES DA TERRA (Atos I-8). Ir até os confins da terra era impossível àqueles homens. E mesmo a difusão do Evangelho por todo o mundo haveria de durar muitos séculos, sendo a sua consumação um prenúncio do fim: E será pregado êste Evangelho do reino por todo o inundo, em testemunho a tôdas as gentes; e ENTÃO CHEGARÁ O FIM (Mateus XXIV-14). Só ao cabo de muitos séculos se descobriria a América para começar então a evangelização desta parte do mundo.

É por isto que, enviando os seus Apóstolos a ensinar e batizar todos os povos, a ensinar a êstes tudo aquilo que lhes fôra transmitido, Jesus declara que estará com êles, Apóstolos,. ATE O FIM DO MUNDO: E estai certos de que estou convosco todos os dias ATE A CONSUMAÇÃO DO SÉCULO (Mateus XXVIII-20). Com êles como, se não estariam vivos até o fim do mundo? Com êles, sim, porque os Apóstolos teriam outros que continuassem a sua missão e assim permaneceriam atuando na pessoa de seus sucessores.

353. ARGUMENTO DOS FATOS.

Vejamos agora o que nos diz a Bíblia sôbre a questão de fato: os Apóstolos deixaram realmente sucessores? É claro que sim.

É verdade que a Bíblia não nos conta coisa alguma da atuação de muitos dos Apóstolos, depois que se separaram para a conquista do mundo. Que nos diz o Livro Sagrado sôbre o apostolado exercido por S. Filipe, S. Bartolomeu, S. Tomé, S. Mateus, S. Simão Cananeu ou S. Matias? Nada. De S. Judas Tadeu conhecemos apenas pela Bíblia uma pequenina Epístola, com capítulo único.

Os Atos nos mostram até o fim do capítulo 12 a atuação dos Apóstolos e, de modo especial, de Pedro, Tiago e João nos dias iniciais da Igreja, para do capítulo 13 em diante dedicar-se exclusivamente às viagens e ao apostolado de S. Paulo. Pescamos mais alguma coisa sôbre a organização da Igreja e as atividades dos Apóstolos, nas 21 Epístolas, das quais 14 as mais extensas são de S. Paulo.

Mas pelo que aí vemos, nos Atos e nas Epístolas, já sabemos o suficiente para chegarmos à evidência de que os Apóstolos foram logo tratando de arregimentar homens escolhidos que os ajudassem no apostolado que lhes sucedessem na sua obra, quando morressem. E é claro que só podia ser assim, desde que se considere o modo como Jesus, revestindo os Apóstolos de poderes especiais, organizou a sua Igreja, a qual havia de durar até a consumação do século.

354. A ELEIÇÃO DE S. MATIAS.

Depois da Ascensão de Jesus, o primeiro cuidado de S. Pedro, chefe da Igreja, é providenciar para que Judas seja substituído (Atos I-15 a 22). Podia muito bem escolher êste substituto, como observa S. João Crisóstomo; mas não quis fazê-lo, para dar um exemplo de modéstia no governar a Igreja, para mais ainda honrar o novo Apóstolo, que haveria de ser escolhido assim com o sufrágio e a simpatia do povo e para melhor conhecer a vontade de Deus, que se manifestaria pela eleição e pela sorte. Não é o fato de consultar o Superior a opinião de seus subalternos, sôbre qual seja o mais digno, quando quer fazer uma nomeação, não é êste fato que mostra estar o Superior privado de fazer a nomeação por si mesmo.

A escolha recai sôbre Matias.

E assim já vai um que não foi escolhido, que não foi designado por Jesus Cristo, tomar, de igual para igual, a sua cadeira com os demais Apóstolos e receber com êles o Divino Espírito Santo.

Agiu mal S. Pedro em promover esta substituição? Desagradou a Cristo neste particular? Absolutamente não, uma vez que do próprio Cristo, havia êle recebido plenos poderes para governar a Igreja: Eu te darei as chaves do reino dos Céus; e tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus, e tudo o que desatares sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19). Êstes mesmos plenos poderes, esta mesma autorização de atar e desatar como bem entendessem, possuíam os demais Apóstolos (Mateus XVIII-18), mas sob a dependência de Pedro, pedra fundamental da Igreja (Mateus XVI-18) e Pastor de todo o rebanho de Cristo (João XXI-15, 16 e 17).

Com estas amplas faculdades no govêrno e na organização da Igreja, bem podiam os Apóstolos transmitir aos outros, ou no todo ou em parte, como bem lhes aprouvesse, os seus poderes sacerdotais e o seu poder de governar, assim como não só podiam, mas deviam providenciar para que tais poderes não faltassem em sucessores seus, após a sua morte.

No exercício de sua missão, necessitavam, logo desde o princípio, de quem os ajudasse. E, como é bem lógico e compreensível, acharam que não era conveniente chamar uns homens e transmitir-lhes os seus próprios poderes integralmente, torná-los iguais a êles em tudo no govêrno da Igreja. Daí nasceriam muitas confusões. E precisavam, para usarmos a linguagem de hoje, CONTROLAR INTEIRAMENTE, êles próprios, pelo menos no princípio, a organização da Igreja nascente.

Por isto os seus próprios poderes, êles os transmitiam EM PARTE, mais a uns, menos a outros. Sim, não se espante o leitor; mais a uns, menos a outros; porque estabeleceram os Apóstolos uma certa hierarquia, na qual o lugar mais modesto é ocupado pelos

355. DIÁCONOS.

Os Atos nos narram que, crescendo o número dos discípulos (Atos VI-1), resolveram os Apóstolos escolher a homens que os ajudassem e para isto pediram ao povo que lhes indicasse sete varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria (Atos VI-3). E assim são escolhidos os primeiros DIÁCONOS, entre os quais estão Estêvão e Filipe. Não se trata apenas de homens destinados a servir às mesas, mas de ministros sagrados, com alguns poderes espirituais, pois nós vemos os Apóstolos ordená-los, impor a mão sôbre êles: A êstes apresentaram diante dos Apóstolos, e orando puseram as mãos sôbre êles (Atos VI-6). Houve no texto uma certa negligência gramatical, mudando-se de repente o sujeito da oração. Os fiéis apresentaram sete varões aos Apóstolos e os Apóstolos orando puseram as mãos sôbre êles. Pois se vê por um versículo anterior (o 3.º) que os Apóstolos apenas pediram que os fiéis os indicassem; êles, Apóstolos, então se encarregariam de conferir-lhes a missão: Irmãos, escolhei dentre vós a sete varões, de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais ENCARREGUEMOS desta obra (Atos VI-3).

A imposição das mãos já era usada no Antigo Testamento como sinal de consagração ao ministério ou de transmissão de poderes. Assim é que vemos Moisés transmitir, a mandado de Deus, uma parte de seus poderes a Josué, por meio da imposição das mãos: E o Senhor lhe disse: Lança mão de Josué, filho de Nun, varão no qual reside o Espírito e IMPÕE-LHE AS MÃOS, o qual se presentará diante do sacerdote Eleazar e de tôda a multidão, e tu lhe darás os preceitos à vista de todos e UMA PARTE DA TUA GLÓRIA, para que tôda a congregação dos filhos de Israel o ouça (Números XXVII-18 a 20). E o Deuteronômio afirma que Josué ficou cheio de espírito de sabedoria em virtude da imposição das mãos feita por Moisés: E Josué, pois, filho de Nun, foi cheio do espírito de sabedoria, porque Moisés lhe tinha impôsto as suas mãos (Deuteronômio XXXIV-9).

Embora os Atos não chamem diretamente de DIÁCONOS àqueles varões, se vê claramente, pelo texto grego, que é de diáconos que se trata. Os gregos murmuram (Atos VI-1) porque suas viúvas são desprezadas no SERVIÇO de cada dia (serviço, no texto grego = DIACONÍA). Os sete terão a seu cargo (Atos VI-2) SERVIR às mesas (servir, no texto grego = DIACONÉIN ).

Nós vemos logo em seguida (cap. VII dos Atos) Estêvão pregar a palavra de Deus, diante dos juízes, cheio do Espírito Santo e como faria qualquer Apóstolo. Vemos mais adiante Filipe batizar o eunuco: E desceram os doas à água, Filipe e o eunuco, e o batizou (Atos VIII-38). E vemos o mesmo Filipe pregar o Evangelho em uma cidade de Somaria (Atos VIII-5).

356. PRESBÍTEROS OU BISPOS.

Numa ordem mais elevada na hierarquia estão os PRESBÍTEROS. No início da Igreja eram chamados indiferentemente PRESBÍTEROS ou BISPOS. De acôrdo com a etimologia destas palavras, PRESBÍTERO é uma alusão à idade e quer dizer mais velho, maior na idade; BISPO é uma alusão ao cargo, à função e quer dizer: vigilante, que inspeciona, que dirige.

São homens que os Apóstolos já começam a associar a si no govêrno da Igreja e, desde que são escolhidos pelos Apóstolos, são considerados escolhidos pelo Espírito Santo. É assim que S. Paulo, falando aos presbíteros em Éfeso diz: Atendei por vós e por todo o rebanho sôbre que o Espírito Santo vos constituiu BISPOS para GOVERNARDES a Igreja de Deus, que Êle adquiriu pelo seu próprio sangue (Atos XX-28). GOVERNAR aí no texto grego é expresso pelo verbo POIMÁINO = apascentar.

E continua S. Paulo: Eu sei que, depois da minha despedida, hão de entrar a vós certos lôbos arrebatadores, que não hão de perdoar ao rebanho; e que dentre vós mesmos hão de sair homens que hão de publicar doutrinas perversas, com o intento de levarem após si muitos discípulos. Por cuja causa VIGIAI (Atos XX-29 a 31).

Estes presbíteros eram designados para cada igreja ou cidade onde havia cristãos, eram escolhidos pelos Apóstolos ou por seus delegados, não eram forçosamente apontados por eleição do povo, o que mostra que a escolha de Matias e dos diáconos foi feita por eleição dos irmãos porque os Apóstolos espontâneamente quiseram fazer dêste modo. Assim é que lemos nos Atos que Paulo e Barnabé, tendo-lhes ORDENADO em cada igreja SEUS PRESBÍTEROS e feito orações com jejuns os deixaram encomendados ao Senhor, em quem tinham crido (Atos XIV-22). (49)

Uma vez que tenham sua igreja, sua cidade para cuidar, devem apascentar desveladamente o seu rebanho: Esta é, pois, a rogativa que eu faço aos presbíteros... Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dêle, não por fôrça, mas espontaneamente segundo Deus, nem por amor de lucro vergonhoso, mas de boa vontade; não como que quereis ter domínio sôbre a clerezia, mas feitos exemplares do rebanho com uma virtude sincera (1.a Pedro V-1 a 4).

Sua missão é, entre outras, presidir e ensinar: Os presbíteros que governam bem sejam honrados com estipêndio dobrado, principalmente os que trabalham em pregar e ensinar (V Timóteo V-17).

Cabe-lhes também a administração dos sacramentos. E assim é que vemos S. Tiago dizer que os enfermos mandem chamar os presbíteros, afim de ministrar-lhes a Extrema-Unção: Está entre vós algum enfêrmo? chame os PRESBÍTEROS da Igreja, e êstes façam oração sôbre êle, ungindo-o com óleo em nome do Senhor (Tiago V-14). Trata-se aí evidentemente de um sacramento; a unção é feita em nome do Senhor, isto é, porque Jesus assim o ordenou, assim como o Batismo é ministrado em nome de Jesus Cristo (Atos II-38). Não vem ao caso que o óleo tenha por si uma virtude terapêutica; precisamente por isto é que é escolhido o óleo como sinal sensível para indicar o efeito dêste sacramento, assim como a água já tem materialmente o dom de lavar, de purificar e por isso mesmo foi escolhida para significar e representar a purificação espiritual operada pelo Batismo. E o fato é que, como o Batismo é ministrado para remissão dos pecados (Atos II-38), também o é, embora noutro gênero, a Extrema Unção: e se estiver em alguns pecados, ser-lhe-ão perdoados (Tiago V-15), pois se dá aí mais um retoque na purificação espiritual do indivíduo, curando as indisposições deixadas na alma pelo pecado e se supre a confissão, no caso em que não é possível realizá-la, desde que haja no paciente as necessárias disposições.

É claro que ninguém vai concluir que o único sacramento ministrado pelos presbíteros era a Extrema-Unção; a Bíblia em nenhuma parte se propõe diretamente a nos ensinar como era a organização da Igreja primitiva, nem quais eram, uma por uma, as atribuições dos presbíteros; apenas colhemos parceladamente aqui e acolá o que nos dizem os Atos, na sua narração dos primeiros dias da Igreja e das viagens de S. Paulo e o que dizem as Epístolas ocasionalmente nas suas exortações. Assim é que vemos pela 1.ª Epístola de S. Paulo a Timóteo os presbíteros associados também à cerimônia da ordenação, como faz ainda hoje a Igreja Católica na ordenação de seus sacerdotes, em que todos os presbíteros presentes impõem também as mãos sôbre o ordinando: Não desprezes a GRAÇA que há em ti, que te foi dada por profecia pela IMPOSIÇÃO DAS MÃOS DO PRESBITÉRIO (1.ª Timóteo IV-14). Esta imposição das mãos feita pelos presbíteros acompanhou a mesma imposição feita por S. Paulo: Admoesto que tornes a acender o fogo da GRAÇA de Deus, que recebeste pela IMPOSIÇÃO DAS MINHAS MÃOS (2.ª Timóteo I-6).

Que êstes presbíteros ou bispos formam uma classe distinta da dos diáconos, não há dúvida alguma. S. Paulo, ao começar a Epístola aos Filipenses, os distingue perfeitamente: Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo a todos os santos em Jesus Cristo que se acham em Filipos, com os BISPOS e DIÁCONOS (Filipenses 14). E na 1.ª Epístola a Timóteo fala separadamente nas qualidades que devem ter os bispos (1.ª Timóteo III-2 a 7) os diáconos (1.ª Timóteo III-8 a 10);

357. OS APÓSTOLOS.

Não há dúvida também que num plano ainda mais elevado do que os presbíteros, igualmente chamados bispos, estão os Apóstolos. É claro que a direção suprema da Igreja estava nas mãos dos Apóstolos, e os presbíteros a êles estão sujeitos. Se, como veremos daqui a pouco, já o próprio Timóteo tinha autoridade e mando sôbre os presbíteros, com maioria de razão tinham os Apóstolos. E embora sejam os Apóstolos também pastôres da Igreja, êles formam uma classe superior à dos outros pastôres comuns: E Êle mesmo fêz a uns certamente APÓSTOLOS, e a outros profetas, e a outros evangelistas e a outros PASTORES e doutôres (Efésios (IV-11).

Do fato de S. Pedro dizer: Esta é, pois, a rogativa que eu faço aos presbíteros que há entre vós, eu, PRESBÍTERO COMO ELES (1.ª Pedro V-1), não se segue que os presbíteros estivessem no mesmo plano de S. Pedro. S. Pedro podia muito bem chamar-se presbítero e por uma dupla razão: presbítero no sentido etimológico da palavra, porque já era um ancião, um homem provecto na idade; e presbítero, porque era também sacerdote e pastor de almas. Da mesma forma êle poderia ter dito: Esta é a rogativa que faço aos cristãos eu, cristão como êles — sem que daí se concluísse que os cristãos tinham uma autoridade igual à de S. Pedro.

E, como estamos falando sôbre S. Pedro, é preciso relembrar que já provámos sobejamente no capítulo 9 que êle exercia a primazia sôbre os outros Apóstolos, a qual lhe foi dada diretamente por Jesus Cristo que o fêz pedra fundamental da Igreja, Pastor de todo o seu rebanho, confiando-lhe as chaves do reino dos Céus, com o poder de ligar e desligar que a êle foi dado primeiro pessoalmente, para depois ser dado aos demais Apóstolos em conjunto.

Assim vemos claramente estabelecida a hierarquia nos primeiros dias da Igreja e assim constituída:

1.º — Pedro, o PRIMEIRO dos Apóstolos e chefe da Igreja;

2.º — Os Apóstolos;

3.º — Os presbíteros, também chamados bispos;

4.º — Os diáconos.

Ora, temos que distinguir nos Apóstolos duas espécies de prerrogativas. Umas eram os carismas especiais que receberam, carismas êstes que foram necessários para aquêles tempos de fundação e consolidação da Igreja. Receberam em abundância o Espírito Santo com o dom das línguas e se tornaram pessoalmente infalíveis, pois haviam de lançar as bases da propagação da doutrina cristã. Os cristãos haveriam de ser edificados sôbre o fundamento dos Apóstolos e dos profetas (Efésios II-20). Receberam outrossim o dom dos milagres, os quais eram necessários para prestigiar a sua pregação e acelerar inicialmente a difusão do Cristianismo. De S. Pedro se conta nos Atos que fazia tantos milagres que traziam os doentes para as ruas e os punham em leitos e enxergões afim de que, ao passar Pedro, cobrisse sequer a sua sombra alguns deles e ficassem livres das suas enfermidades. Assim mesmo concorriam enxames deles das cidades vizinhas a Jerusalém, trazendo os seus enfermos e os vexados dos espíritos imundos; os quais todos eram curados (Atos V-15 e 16). De S. Paulo, por sua vez, se narra nos Atos: Deus fazia milagres não quaisquer por mão de Paulo; chegando estes a tal extremo que até sendo aplicados aos enfermos os lençóis e aventais que tinham tocado no corpo de Paulo, não só fugiam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam (Atos XIX-11 e 12).

Vê-se, desde logo, que êsses dons extraordinários, necessários a princípio, não continuariam a existir em tôda a história da Igreja. Inúmeros pregadores espalhados por tôda a parte com o dom da infalibilidade seria um carisma desnecessário, porque bastaria que se seguisse fielmente a doutrina da Igreja recebida dos Apóstolos, pois a Igreja é a coluna e firmamento da verdade (1.º Timóteo III-15). Freqüência de milagres eternamente para confirmar a pregação seria contraproducente, pois seria tirar todo o merecimento da nossa fé.

Mas há outro elemento a considerar nos Apóstolos: é o seu poder exercido sôbre a Igreja, o seu direito e dever de governá-la. Espalhavam-se presbíteros para apascentar o rebanho de Cristo em tôdas as cidades. E êstes presbíteros necessitavam também de que houvesse uma categoria superior que os escolhesse, que os ordenasse, que vigiasse sôbre êles, sôbre seu comportamento e especialmente sôbre a doutrina que estavam propagando. Tal necessidade haveria de existir sempre na Igreja, do contrário se esfacelaria a sua unidade. E era precisamente neste ponto que os Apóstolos necessitavam de quem ficasse no seu lugar, e exatamente no mesmo plano em que êles se haviam colocado no govêrno da Igreja.

358. HOMENS DESTINADOS A UM PLANO SUPERIOR AO DOS PRESBITEROS.

Por isto os Apóstolos foram logo escolhendo alguns homens, de especiais qualidades, que haveriam de ficar em seu lugar, com autoridade também sôbre os demais presbíteros. E já em vida dos próprios Apóstolos começavam a exercer esta autoridade.

Como já dissemos, a Bíblia só nos conta mais detidamente a vida e as atividades de S. Paulo. Mas é o bastante para vermos como já começam a trabalhar com S. Paulo homens que são mais do que simples presbíteros e que já se vão adestrando para ocupar a posição dos próprios Apóstolos, após a morte dêstes.

Um dêles é Barnabé, aliás escolhido para a sua missão especial pelo Espírito Santo: Separai-me a Saldo e a Barnabé para a obra a que eu os hei destinado (Atos XIII-2). Os Atos dão a ambos o nome de apóstolos: Os Apóstolos Barnabé e Paulo (Atos XIV-13) e mostram a ambos escolhendo os presbíteros para cada igreja: Tendo-lhes ordenado em cada igreja seus presbíteros, e feito orações com jejuns, os deixaram encomendados ao Senhor em quem tinham crido (Atos XIV-22).

Outro é Tito, a quem S. Paulo já deixa em Creta encarregado de uma supervisão sôbre algumas igrejas e também de escolher os presbíteros: Eu pelo motivo que vou a dizer é que te deixei em Creta, para que regulasses o que falta e ESTABELECESSES PRESBÍTEROS nas cidades, como também eu to mandei (Tito I-5).

Vê-se aí já uma certa autoridade de Tito sôbre os presbíteros. E, se S. Paulo o encarrega de escolhê-los, isto é sinal de que está errada a doutrina de muitos protestantes de que todos são iguais na Igreja, de que a Igreja é regida democràticamente e os fiéis é que escolhem e nomeiam os seus pastôres. Se para a eleição de S. Matias, S. Pedro consultou a multidão (Atos I-16), se para a escolha dos diáconos os Apóstolos houveram por bem pedir a opinião dos fiéis (Atos VI-3), o fizeram espontânea-mente, mas daí não se segue que o direito da escolha era do povo e não dêles. Aqui já se mostra Tito encarregado de estabelecer presbíteros e logo em seguida (Tito I-6 a 9) instruído a respeito das qualidades que devem ter êstes presbíteros ou bispos, o que prova que êle é que tinha a responsabilidade da escolha.

Outro, afinal, que, como se vê bem claramente, S. Paulo está preparando para assumir o apostolado no mesmo plano do Apóstolo quando êle morrer, é Timóteo. S. Paulo o diz abertamente: Tu, porém, vigia; trabalha em tôdas as coisas; faze a obra dum evangelista; cumpre com o teu ministério; sê sóbrio, PORQUE, quanto a mim, estou a ponto de ser sacrificado e O TEMPO DA MINHA MORTE se avizinha (2.ª Timóteo IV-5 e 6). Não havia já tantos presbíteros espalhados pelas igrejas? Por que tantas recomendações especiais a Timóteo, baseadas no FATO de que a morte dêle, Paulo, já se apresenta iminente?

O fato de 3 das 14 epístolas de S. Paulo serem assim escritas cheias de conselhos, avisos e instruções a êstes dois ilustres auxiliares (2 a Timóteo e 1 a Tito) é já por si bastante expressivo, assim como diz bem alto da importância do papel exercido por Timóteo no seio da Igreja, o fato de serem as Epístolas aos Filipenses, aos Colossenses e aos Tessalonicenses enviadas em nome de Paulo e de Timóteo. Veja-se o 1.ª versículo de cada uma destas Epístolas.

Do mesmo modo que Tito foi colocado por S. Paulo na ipla de Creta, Timóteo foi colocado em Éfeso e também com o encargo da supervisão, pois é encarregado de vigiar para que não se preguem, não se ensinem coisas inúteis aos fiéis: Roguei que ficasses em Éfeso quando me parti para Macedônia, para que admoestasses alguns, que não ensinassem de outra maneira, nem se ocupassem em fábulas e genealogias intermináveis, as quais antes ocasionam questões que edificação de Deus, que se funda na fé (1.ª Timóteo I-3 e 4).

E Timóteo já tem evidentemente AUTORIDADE SÔBRE OS PRÓPRIOS PRESBÍTEROS, autoridade, portanto, maior do que a dêles: Não recebas acusação contra presbítero senão com duas ou três testemunhas. Aos que pecarem, repreende-os diante de todos, para que também os outros tenham mêdo (V Timóteo V-19 e 20). E é admoestado a não fazer ordenações sem refletir primeiro, de modo que êle é encarregado de ordenar: A ninguém imponhas ligeiramente as mãos e não te faças participante dos pecados doutrem (V Timóteo V-22). É encarregado de escolher, preparar e distribuir outros pregadores do Evangelho e mestres da doutrina: Guardando o que ouviste DA MINHA BÔCA diante de muitas testemunhas, entrega-o a homens fiéis, que sejam CAPAZES DE INSTRUIR TAMBÉM A OUTROS (2.ª Timóteo II-2). Não basta, portanto, entregar-lhes as Epístolas ou o Evangelho; é preciso instruí-los oralmente sôbre aquilo que o próprio Timóteo OUVIU DA BÔCA DE PAULO.

É claro, por conseguinte, que se já em vida dos Apóstolos havia assim quem tivesse autoridade sôbre os presbíteros, com maioria de razão depois da morte dêles teria de haver necessàriamente os homens escolhidos que tomassem o seu pôsto, exercendo vigilância e autoridade não só sôbre os fiéis, mas também sôbre os presbíteros que os apascentavam. Isto era indispensável para o bom regime da Igreja, que havia de perpetuar-se até o fim dos séculos.

359. TÊRMO BISPOS.

O que aconteceu é que com a morte dos Apóstolos era preciso distinguir com designações diversas as 2 classes de presbíteros, ou seja uma, dos presbíteros comuns e outra, dos presbíteros de ordem superior, que tinham poder e autoridade sôbre os demais. Estes últimos, para melhor diferenciá-los, passaram a ser designados com o nome de BISPOS. E assim se vê a perfeita igualdade que há entre a hierarquia no tempo dos Apóstolos e a hierarquia como tem havido em tôda a história do Cristianismo e como existe ainda hoje na Igreja Católica, havendo apenas uma pequena diferença de nomes:

(Figura)

Esta distinção entre BISPOS e PRESBÍTEROS não é nova, vigora na Igreja desde tempos antiqüíssimos, pois nós a vemos freqüentenlente nas obras de S. Inácio Mártir, bispo de Antioquia, que pertence ao 1.º século da era cristã, à era apostólica.

Já vimos na tese sôbre a Eucaristia a palavra de S. Inácio Mártir: "Procurai usar da Eucaristia una... assim como um é o BISPO com os PRESBÍTEROS e DIÁCONOS, meus conservos" (Filadelfos, IV). Logo no início desta Epístola aos Filadelfos diz que a Igreja de Filadélfia "é regozijo eterno e permanente, mormente quando está unida com seu BISPO, com os PRESBÍTEROS que o rodeiam e com os DIÁCONOS que foram constituídos segundo o sentir de Jesus Cristo". Na Epístola aos Tralianos, advertindo contra os hereges diz: "Alerta, pois, contra os tais! E assim será para que não vos deixeis envolver e vos mantenhais inseparáveis de Jesus Cristo, de vosso bispo e das instruções dos Apóstolos. O que está dentro do altar é puro, mas o que está fora do altar não é puro. Quero dizer, o que faz alguma coisa fora do BISPO, do PRESBITÉRIO e dos DIÁCONOS, êsse não está puro na sua consciência" (Tralianos, VII). E na mesma Epístola aos Tralianos: "Todos haveis de respeitar os DIÁCONOS, como a Jesus Cristo. O mesmo digo do BISPO que é figura do Pai, e dos PRESBÍTEROS que representam o senado de Deus e o Colégio Apostólico" (Tralianos 1II-1).

Querer dizer que a Igreja Católica está errada ou que não é mais a Igreja primitiva, porque hoje, como tem acontecido já desde o 1.º século, se faz distinção entre as palavras BISPOS e PRESBÍTEROS e no tempo dos Apóstolos não se fazia, é querer brigar Unicamente por causa de uma questão de nomes. A seguir êste critério tão "inteligente" no modo de interpretar a Bíblia, êstes nossos grandes exegetas deverão neste caso (se a questão é apenas de nomes) colocar Nosso Senhor Jesus Cristo em segundo plano na hierarquia da Igreja e abaixo dos Apóstolos, porque Jesus Cristo é chamado BISPO por S. Pedro: O qual foi o mesmo que levou os nossos pecados em seu corpo sôbre o madeiro, para que, mortos aos pecados, vivamos à justiça; por cujas chagas fôstes vós sarados; porque vós éreis como ovelhas desgarradas; mas agora vos haveis convertido ao pastor e BISPO das vossas almas (1.ª Pedro II-24 e 25).

Diante do que fica exposto, nós já podemos conhecer qual é a

360. VERDADEIRA IGREJA DE CRISTO.

Jesus Cristo fundou uma Igreja e prometeu que ela jamais seria dominada pelo êrro: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei A MINHA IGREJA, e AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA (Mateus XVI-18). Esta Igreja não pode errar, porque é a COLUNA E FIRMAMENTO DA VERDADE (1.ª Timóteo III-15). Tem a ampará-la sempre a assistência divina: Estai certos de que eu estou convosco todos os dias, até à consumação do século (Mateus XXVIII-20).

Esta Igreja de Jesus Cristo foi fundada à base de poderes especiais concedidos aos Apóstolos, os únicos que Nosso Senhor enviou para governá-la, propagá-la pelo mundo, pregando e administrando os sacramentos. Êstes Apóstolos escolheram homens a quem pela imposição das mãos transmitiram seus poderes e logo se estabeleceu a hierarquia: APÓSTOLOS, PRESBÍTEROS e DIÁCONOS e, depois da morte dos Apóstolos: BISPOS, PRESBÍTEROS e DIÁCONOS.

Portanto, a Igreja Verdadeira de Jesus Cristo tem necessàriamente que vir do tempo dos Apóstolos, porque só assim é que pode ser detentora dos poderes conferidos por Cristo. (50) Organizando a Igreja desta maneira, o Divino Mestre fechou inteiramente o caminho para os HEREGES que haviam de aparecer, inúmeros, em tôda a história da Igreja, os quais haviam de apoderar-se da Bíblia, dando-lhes a interpretação que bem lhes parecesse e gritando aos quatro ventos: Eis aqui a Igreja Verdadeira de Jesus Cristo! — lançando no seio do povo cristão uma confusão tremenda, porque os outros hereges, seus adversários, também não deixariam de dizer o mesmo.

Ora, a única Igreja que vem do tempo dos Apóstolos é a IGREJA CATÓLICA, porque como já provámos (n.o 167), desde o tempo dos Apóstolos a Igreja de Jesus Cristo tem sido denominada a Igreja Católica e a sua doutrina tem sido conservada invariável através dos séculos. Logo, a única Igreja Verdadeira de Jesus Cristo é a Igreja Católica.

361. DUAS CORRENTES.

Êste argumento de que a Igreja de Cristo deve ser Apostólica, isto é, deve provir do tempo dos Apóstolos é como aquêle outro argumento de que a Igreja deve ser UNA, porque a verdade é uma só: pesa como uma terrível mão de ferro sôbre o Protestantismo.

Há sôbre esta matéria duas correntes no seio da Reforma. Uma é daqueles que reconhecem esta necessidade da sucessão apostólica para que a Igreja tenha os seus poderes e seja a Igreja verdadeira de Jesus Cristo. São por exemplo, muitos Anglicanos, que reconhecem que a Igreja Católica é a verdadeira, pois vem dos tempos de Cristo; pretendem, porém, que a Igreja Anglicana e a Igreja Grego-Cismática também o sejam, formando assim 3 ramos do Cristianismo. Esquecem-se, portanto, de que a Igreja também deve ser UNA e de que Cristo construiu a sua Igreja sôbre a rocha de Pedro.

A grande maioria dos protestantes, porém, não se conformam com êste reconhecimento de que seja legítima a Igreja Católica. E como sabem muito bem que as suas Igrejas não vêm absolutamente do tempo dos Apóstolos, afirmam que basta que a Igreja tenha a mesma doutrina de Cristo e dos Apóstolos para ser a Igreja Verdadeira, não precisa remontar aos tempos apostólicos. Para isto então precisam provar que Cristo NÃO DEU AOS APÓSTOLOS PODERES ESPIRITUAIS SÔBRE SEUS SEMELHANTES, NEM SÔBRE O CORPO DE CRISTO, OU REAL NA EUCARISTIA, OU MÍSTICO, ISTO é, A SUA IGREJA.

362. OS PROTESTANTES EM APUROS.

Começa então a devastação. Pedro não foi a pedra da Igreja... O Batismo é apenas um banho em testemunho de fé... Os Apóstolos não tinham o poder de perdoar pecados e retê-los... A Ceia do Senhor consiste apenas em comer pão e beber vinho, recordando a morte de Cristo e nada mais. Em tôda a extensão dos 5 capítulos anteriores nós tivemos ocasião de ver como precisam os protestantes torcer ou desprezar os mais claros textos da Bíblia para chegar a estas conclusões. Aí já mostram que não estão mais de acôrdo com a doutrina de Cristo e dos Apóstolos, mas suas teses, errôneas têm que ser mantidas a todo custo... porque o Protestantismo começou no século XVI.

A esta devastação não escapa a própria Igreja. O Protestantismo aparece no século XVI divergindo inteiramente da doutrina da Igreja que vem do tempo dos Apóstolos, a 'Igreja Católica; esta, portanto, tem que ser destituída, aos olhos dos protestantes, da sua missão de coluna e firmamento da verdade (1.ª Timóteo III-15), não tem o direito de ensinar a doutrina. A doutrina, cada cristão vai encontrá-la na Bíblia. Mas quem lhe abre o entendimento para bem entendê-la? O Divino Espírito Santo. Êste inspira a cada um o sentido das Escrituras... E, digamos entre parêntesis, já tivemos ocasião de ver (n.º 225 a 243) como Êle inspira a cada um de maneira diferente...

Para salvar-se, o cristão não precisa pertencer à Igreja, basta a FÉ EM CRISTO.

Mas esta doutrina exposta aqui não chega a convencer um católico de que é preciso aderir ao Protestantismo. Poderá dizer: Sou católico; se para salvar-me basta crer em Cristo, então eu me salvo também na 'Igreja Católica. E se a Bíblia, posso interpretá-la como quiser, por que não poderei seguir também a interpretação que me dá a Igreja Católica, a qual já vem do tempo dos Apóstolos, interpretação esta que tem em seu abono um longo estudo de homens eminentes, como foram os Santos Padres, durante muitos séculos?

Para excluir da salvação os católicos, é preciso fazer uma nova devastação. É a própria noção de fé que vai ser arrasada. Por isto continuam os protestantes: Para salvar-me, basta a fé em Cristo. Mas em que consiste esta fé? Consiste simplesmente nisto: em ACEITAR A CRISTO COMO MEU ÚNICO SALVADOR, COMO MEU SALVADOR PESSOAL.

Dizendo que é preciso aceitar a Cristo como único Salvador, querem os protestantes lançar uma velada acusação aos católicos, como se êstes, pelo fato de terem devoção a Maria SS.ma e aos santos, os estivessem considerando como seus salvadores, mas todo católico sabe muito bem que isto não é exato. Não é pelo fato de pedirem para mim a Deus, pelos méritos de Jesus Cristo, um favor qualquer, como, segundo os protestantes, os próprios cristãos aqui na terra podem pedir uns para os outros, que Maria SS.ma e os santos se tornam meus salvadores.

Mas o católico tem que ser excluído necessàriamente da salvação, porque, segundo a doutrina de muitos protestantes, é preciso crer em Cristo COMO MEU SALVADOR PESSOAL, OU seja, é preciso crer que JÁ ESTOU SALVO POR JESUS COM TODA CERTEZA DESDE ESTE MUNDO, SEM DEPENDER ISTO DAS MINHAS OBRAS; e o católico não tem esta certeza; logo, não tem fé em Cristo.

363. ABSOLUTA FALTA DE LÓGICA.

Esta doutrina protestante foi assim COMPLETAMENTE ARRANJADA, e por isto, em muitos pontos, aberra contra tôda lógica.

Vejamos as inconseqüências dêste sistema:

1.° — Se Nosso Senhor organizou a sua Igreja na base dêste individualismo, isto é, bastando-se a si mesmo cada cristão, não havendo homens com poderes espirituais sôbre seus semelhantes, nem mesmo o poder de ensinar, porque cada um já tem a sua Bíblia e daí aprende a doutrina iluminado pelo Espírito Santo, que motivo havia então para os Apóstolos organizarem na Igreja esta hierarquia de APÓSTOLOS, PRESBÍTEROS e DIÁCONOS, transmitindo poderes com a imposição das mãos? Por que motivo deixaram os que já creram e portanto já estão "salvos" como ovelhas dirigidas por um pastor humano?

Nós vemos que em grande número de seitas protestantes os fiéis contribuem com uma boa percentagem de TODOS OS SEUS RENDIMENTOS para prover a despesas da Igreja e sustentar o seu pastor. Mas os que já crêem precisam de pastôres para quê? Não é para administrar sacramentos, porque êles mesmos confessam que não têm poderes para isto. Se o Batismo não passa de um simples banho que se toma EM TESTEMUNHO DE FÉ, um banho qualquer pessoa pode dar; e para se dar um testemunho de fé perante os fiéis, não é preciso que um pastor esteja presente. Se a Ceia do Senhor consiste apenas em comer pão e beber vinho em memória da Paixão de Cristo, em casa cada um pode fazer isto com a sua família. Se o Matrimônio não é sacramento, e o casamento que vale é o casamento civil, para êste ser realizado, não é necessária a presença do pastor. Sustenta-se o pastor para quê? Para fazer discursos e conferências sôbre a Bíblia? Não há necessidade disto: cada qual tem em casa a sua Bíblia e tem igualmente a assistência do Divino Espírito Santo, para ajudá-lo em sua interpretação... Que adianta expor o pastor A SUA OPINIÃO PESSOAL sôbre os textos da Bíblia, se os fiéis têm todo o direito de ter também a sua opinião pessoal e podem julgar-se mais entendidos e mais iluminados pelo Espírito Santo do que o próprio pastor? Discursos e conferências sôbre a Bíblia tem o direito de fazer então qualquer fiel, desde que se julgue inteirado do assunto. De modo que os fiéis sustentam o PASTOR exclusivamente para isto: para lhes estar repetindo aquilo que já sabem de cor e salteado, ou de que já estão plenamente convencidos, isto é, que todos estão salvos, que todos irão diretamente para o Céu, uma vez que já aceitaram a Cristo, como seu Único Salvador, como seu Salvador Pessoal e para o homem salvar-se basta apenas isto em matéria de fé e nada mais. Se o pastor é para converter os infiéis, isto pode ser feito também pelos simples membros da Igreja, os quais, aliás, desde que entram no Protestantismo, ficam todos cheios de zêlo para adquirir adeptos e espalhando a Bíblia, perguntando à pessoa que a aceitou, se aceita também a Cristo como Salvador, já puseram aquela alma no caminho da salvação, e com a certeza de não perder-se jamais...

Os protestantes usam PASTORES, porque viram pela Bíblia que os primeiros cristãos também os tinham. Mas, segundo a ideologia protestante do INDIVIDUALISMO, tais pastôres são completamente desnecessários, o que é sinal de que a ideologia protestante não é a mesma dos primeiros cristãos.

Entre os católicos é diferente. Êles têm que prover, desta ou daguela forma, a honesta sustentação de seus sacerdotes, porque o sacerdote tem que se dedicar de corpo e alma ao seu ministério. Êle tem a missão de ENSINAR a grandes e pequenos a doutrina da Igreja Infalível, porque não basta aceitar a Cristo como Salvador, para alcançar a salvação, é preciso CRER TUDO O QUE JESUS ENSINOU. Êle tem a missão de perdoar os pecados, em nome de Cristo, e é preciso que esteja sempre à disposição dos fiéis que queiram vir fazer a sua confissão e receber a absolvição dos pecados, podendo a qualquer hora do dia ou da noite ser chamado a atender, mesmo com léguas de distância, os moribundos que queiram confessar-se e receber a Extrema-Unção. É êle quem tem o poder de realizar o mistério eucarístico, de ministrar os sacramentos, cabe-lhe preparar o processado para a celebração do Matrimônio etc., etc.

Esta organização de OVELHAS e PASTORES que as apascentam é inteiramente alheia ao espírito do Protestantismo, em geral, em que cada um basta a si mesmo para salvar-se, e salvar-se definitivamente desde êste mundo.

2.º — Preocupados, com a sua definição de fé salvadora, em apontar os católicos como afastados do caminho da salvação, os protestantes findam concedendo aos seus adeptos a liberdade de rejeitarem (caso assim o queiram) todos os dogmas do Cristianismo, excetuando-se apenas êste: "Jesus é o meu Salvador". Admitir isto é o quanto basta para se salvarem.

Se queremos ver os protestantes interpretarem as Escrituras com lógica e critério e honestidade, basta apreciá-los a comentar aquelas passagens que constituem assunto pacífico entre católicos e protestantes, em que não há nenhuma controvérsia entre o Protestantismo e a Igreja Romana. Verá o leitor que maravilha, quando êles discorrem sôbre o nascimento, os milagres, as parábolas, os fatos dá Paixão e Morte do nosso Divino Salvador. Chame-os, porém, a examinar aquelas passagens em que o Divino Mestre concedeu poderes e atribuições especiais aos seus Apóstolos: o primado de Pedro (Mateus XVI-18), o Batismo e seus efeitos (Atos II-38), poder de perdoar pecados (João XX-23), a presença real de Jesus na Eucaristia (Lucas XXII-19 e 20) etc. Os homens se transformam por completo. Não há texto, por mais claro, qUe os convença. Não recuam diante de nenhum sofisma, nem se acanham dos mais ridículos argumentos. Um empêrro sem fim, porque se trata aí de uma questão de vida e de morte para o Protestantismo.

E o pior é que depois de ter torcido e retorcido textos claríssimos da Bíblia em que se mostra a transmissão dêstes poderes, fica o protestante COM A CONSCIÊNCIA MAIS TRANQUILA DESTE MUNDO. Porque se põe a pensar consigo mesmo: Creio em Jesus e quem crê em Jesus já está salvo. Ora, crer em Jesus não é, como pensam os católicos, acreditar em tudo o que Jesus disse, e exatamente no sentido em que Êle o disse. Crer em Jesus é aceitá-Lo, com tôda a confiança, como ao meu Salvador Pessoal, como Àquele que me salva com tôda certeza a mim, Fulano de tal. Tenho esta fé em Cristo, portanto irei direitinho para o Céu, quando morrer. Quanto a interpretar as palavras da Bíblia desta ou daquela maneira, pouco importa; é um direito que me assiste, o direito do livre exame.

E é assim, graças à falsificação da noção de fé, que um herege se ilude a si mesmo, julgando poder conciliar as duas coisas: adulterar manhosamente as Escrituras e, ainda por cima, ser premiado eternamente lá no Reino dos Céus.

3.º — A teoria dos protestantes sôbre a fé salvadora torna a sua pregação completamente ineficaz e irrisória para o mundo mau e perverso de hoje.

Não falamos sem conhecimento de causa, podemos dar uma informação segura sôbre o assunto, pois temos ouvido um sem-número de pregações de protestantes, feitas nas estações de rádio, e de seitas diversas. São pregações endereçadas, portanto, não exclusivamente a seus adeptos e iniciados, mas a todos os homens, aos "infiéis" também, àqueles que não aceitam a sua doutrina. Podem modificar de agora por diante seu sistema de pregação, mas até agora se têm limitado a apresentar a salvação como dada "de graça" e de maneira definitiva, para aquêle que crê.

Sôbre a observância dos mandamentos, como condição indispensável para se obter a vida eterna, o que foi ensinado tão claramente por Jesus (Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS - Mateus XIX-17) não se fala absolutamente, seria dar razão à Igreja Católica que ensina a necessidade das obras para a salvação.

Diz-se apenas que é preciso, além de crer, arrepender-se dos pecados, mas em geral nada se explica sôbre as qualidades essenciais dêste arrependimento, não se informa que êste arrependimento só é possível com uma emenda sincera de vida e que esta emenda exige renúncia, mortificação e sacrifício. Acentuar isto seria também estar falando na necessidade das obras, do sacrifício pessoal para a salvação, como ensina a Igreja Romana.

O que se prega, sim, com a maior insistência é a fórmula: ARREPENDE-TE DE TEUS PECADOS E ACEITA AGORA MESMO A JESUS COMO TEU SALVADOR ÚNICO E PESSOAL E ESTÁS SALVO. SALVO DEFINITIVAMENTE, SEM PERIGO ALGUM DE PERDER-TE, conforme ensinam quase tôdas as seitas. E como, segundo a mentalidade protestante, aceitar a Cristo como Salvador é convencer-se alguém de que está salvo por Jesus, segue-se que a salvação pregada pelo Protestantismo é uma salvação adquirida por auto-sugestão.

Os grandes santos, de que se orgulha a Igreja Católica, os católicos sinceros de todos os tempos que por tôda sua vida lutaram, vigiaram, despenderam esforços continuamente para praticar a virtude e vencer as tentações, SEM CONFIAR EM SI MESMOS, buscando não só a graça santificante nos sacramentos, mas também IMPLORANDO INCESSANTEMENTE O AUXÍLIO DA GRAÇA ATUAL DE DEUS, porque estavam convencidos de que só tinham de si mesmos miséria e fragilidade, e NÃO PODERIAM FAZER NADA SEM A GRAÇA DIVINA, mesmo assim se condenaram, foram para o inferno, não alcançaram a salvação. Por quê? Que é que lhes faltou? Faltou, segundo a doutrina protestante, terem tido já aqui na terra A CERTEZA ABSOLUTA de que estavam salvos, definitivamente salvos, infalivelmente salvos desde êste mundo; certeza absoluta, aliás, que êles não tinham, não porque duvidassem do poder de Deus ou da sua vontade de os salvar, mas porque humildemente temiam por sua própria fraqueza e receavam estragar, êles próprios, o plano divino, uma vez que Deus respeita sempre a nossa liberdade.

Para os protestantes, o que bota para a frente em matéria de salvação, o que resolve todos os males morais do mundo, é o indivíduo sugestionar-se de que já está salvo por Jesus... Graças a esta convicção, se torna uma nova criatura, completamente regenerada e liberta do pecado...

Ora, é interessante observar como pode ser desmoralizada fàcilmente esta teoria sôbre a fé salvadora, a qual, como tivemos ocasião de provar (n.º 60 a 69; n.º 139), não tem nenhum fundamento bíblico. É extremamente perigoso apresentarem-se assim os protestantes como homens que foram automàticamente salvos, santificados e regenerados por Jesus PARA SEMPRE, sem perigo jamais de perder-se, porque basta que se apontem, dentro do próprio Protestantismo, elementos maus que não só pecam, mas vivem caindo habitualmente" no pecado, sem nenhuma amostra de arrependimento, para que se desmorone completamente tôda esta doutrina. Expulsá-los da seita, como tantas vêzes se faz entre os protestantes, não é o suficiente para se esconder o fracasso; pois como se expulsam da religião aquêles que já estão "salvos"?...

Entre os católicos também há maus elementos, dirão os protestantes.

Não há dúvida alguma, porque o reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; e enquanto dormiam os homens, veio o seu inimigo e semeou depois cizânia no meio do trigo e foi-se (Mateus XIII-24 e 25). Só no tempo da ceifa, isto é, na consumação do século, é que se fará a depuração, a completa separação entre a cizânia e o trigo. Mas, quando o católico broma e se torna mau, Isto não desmente a doutrina da Igreja, porque esta nunca se apresentou como uma congregação constituída só de puros e perfeitos, nem jamais garantiu a quem quer que seja que lhe era impossível a entrada no inferno. Tudo depende do uso da liberdade de cada um; aquêle, porém, que perseverar até o fim, êsse é que será salvo (Mateus X-22).

Já tivemos ocasião de assistir a um fato muito instrutivo nesta matéria. Um protestante, dêsses líderes sabichões que estão prontos a responder a tôdas as consultas de seus "irmãos na fé" pregava esta doutrina de que aquêle que aceitou a Cristo como seu Salvador Pessoal está salvo, não se pode perder jamais, quando alguém lhe fêz esta pergunta: Diga-me uma coisa. Um homem crê em Jesus, já o aceitou como seu Salvador Único e Pessoal; mas depois disto, vencido pelo demônio, vive se entregando a tôda a sorte de trapaças, traições, mentiras e falsidades. Êste homem se salva?

Por mais incrível que pareça, o líder protestante respondeu: Veja lá o que está escrito no Evangelho de S. João, capítulo 3.º, versículo 36: O que crê no Filho tem a vida eterna. Como vivia pregando que aquêle que crê em Jesus está salvo PARA SEMPRE, não podia dizer, como era lógico e natural, que o tal homem, se não se arrependesse, se não se emendasse, não poderia salvar-se de forma alguma. Por outro lado, não podia afirmar que era impossível que surgisse tal caso: aí está a experiência de cada dia para nos mostrar como pode qualquer homem mudar de sentimentos e perverter-se de uma hora para outra e por fim perseverar no mal. Preferiu colocar no Céu o homem falso, trapaceiro, traidor e mentiroso, contanto que ficasse de pé a sua doutrina. É assim que se sustentam de oitiva certas teorias, sem nenhuma consideração a fatos inegáveis, como são a inconstância do coração humano e a nossa natural inclinação para o mal, que a graça não destrói, porque para resistir a ela o homem conserva sempre a sua liberdade.

Além disto, onde é que está o poder mágico regenerador que tem esta convicção de que já se está salvo, de que não se pode ir para o inferno, se esta convicção pode existir até mesmo num homem mau e perverso que não tem nenhum arrependimento de seus crimes? Pode muito bem existir um homem que não dê crédito a muitos dos mistérios da nossa Santa Religião, que Jesus nos ensinou e que viva cometendo continuamente pecados e misérias de tôda sorte, sem nenhuma contrição, nem nenhum propósito de emenda e que no entanto conserve firme esta convicção: "Sei que sou pecador, vivo pecando e não deixarei de pecar; mas estou certo de que irei para o Céu, pois Cristo é o meu Salvador, Êle pagou por mim, o seu sangue me purifica de todo pecado." Segundo a ideologia protestante, êste homem já possui a FÉ; só lhe falta ter agora o arrependimento. A essência do Cristianismo consiste, para êles, nesta convicção de que se vai para o Céu, estribada EXCLUSIVAMENTE no sacrifício de Jesus e não na doutrina que Êle nos ensinou, a qual nos indica umas tantas condições para conquistar a bem-aventurança. Segundo a doutrina católica, o caso dêste homem não passa de um pecado gravíssimo: a presunção de se salvar sem merecimento, sendo a sua convicção de que já está salvo, mais um perigoso incentivo para o crime.

Jesus morreu por nós, pagou por nós, não há dúvida alguma, neste sentido de que reconciliou a Humanidade com Deus, e nos mereceu A SUA GRAÇA, a qual não alcançaríamos se Ële não tivesse sido imolado, a qual nos é indispensável para conquistar o Céu; mas a salvação não pode ser conseguida senão por aquêle que por sua vez procura cooperar Com a GRAÇA.

364. OS PROTESTANTES NÃO CRÊEM EM JESUS CRISTO.

Mas deixemos os protestantes com a sua extravagante concepção a respeito da fé salvadora.

E em nome do bom senso, que nos ensina claramente que não se pode ter Fé numa pessoa sem acreditar naquilo que ela diz, em nome da própria doutrina de Cristo, o qual exige que se acredite nas suas palavras (Se eu vos digo a verdade, por que me não credes? — João VIII-46), temos que estabelecer êste princípio indiscutível: NÃO TÊM FÉ EM JESUS CRISTO AQUÊLES QUE NÃO ACREDITAM NA SUA PALAVRA.

Ora, segundo o que nestes 6 capítulos últimos temos sobejamente demonstrado:

1.º — Cristo disse: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei A MINHA IGREJA, E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA (Mateus XVI-18). E os protestantes negam que Pedro seja a pedra fundamental da Igreja e aparecem no século XVI, apresentando uma doutrina nova, contrária à que a Igreja fundada por Cristo, a Igreja Católica ensinava até então e ensina ainda hoje, sob o pretexto de que nesta Igreja se tinham introduzido erros durante muitos séculos, portanto afirmam claramente que as portas do inferno prevaleceram contra ela. E quando, são convidados a apresentar a doutrina verdadeira, êles próprios se desmoralizam, apresentando seitas inúmeras que ensinam as teorias mais diversas.

2.º — Cristo nos fala em um renascer da ÁGUA e do Espírito Santo (João 5) indispensável para se entrar no reino de Deus; a grande maioria dos protestantes vêem no Batismo, água somente e não um renascimento espiritual.

3.º — Cristo deu claramente aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados e retê-los (João XX-23); os protestantes o negam abertamente.

4.º — Cristo afirmou da maneira mais clara e insofismável a sua presença real na Eucaristia, tanto no capítulo 6.º de S. João (João VI-52 a 58), como na Última Ceia. Os protestantes se recusam a ACREDITAR, exatamente como os judeus de outrora: Duro é êste discurso, e quem no pode óuvir? (João VI-61).

Logo, os protestantes NÃO TÊM FÊ EM NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

Reduzem a salvação à fé, só à fé, à fé sem as obras. E nem mesma esta fé êles sabem ter.

365. A MINHA IGREJA.

Caro leitor: Cristo fundou uma IGREJA. Ela tem que ser UNA, porque a verdade é uma só. Tem que vir dos tempos de Cristo, porque as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18). Sem querer falar na sua santidade, no caráter santificador de sua doutrina, que tem elevado tantas almas aos mais altos cumes da perfeição, sem querer falar na sua catolicidade, no seu caráter universal, pelo qual em tôdas as épocas vem cumprindo a sua missão de ensinar a todos os povos, só a Igreja Católica reúne estas 2 condições: só ela é ao mesmo tempo UNA e APOSTÓLICA. Que ela é una, está patente aos olhos de todos, pois é de todos conhecida a firmeza de sua doutrina no Universo inteiro. Que vem dos tempos de Cristo, ninguém duvida, os próprios protestantes unanimemente o reconhecem, pois tôdas as outras Igrejas apareceram muito depois e foram fundadas pelos homens.

Foi, portanto, esta Igreja Católica que Cristo chamou A MINHA IGREJA (Mateus XVI-18).

Se Você quer ser um verdadeiro seguidor de Nosso Senhor Jesus Cristo, é esta mesma Igreja Católica que igualmente deverá chamar assim: A MINHA IGREJA.