Capítulo 15

TERCEIRA PARTE: JESUS, ÚNICO MEDIADOR

CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO: O CULTO DOS SANTOS

366. POR QUE SÓ A BÍBLIA?

Assegurando à SUA IGREJA que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela, Jesus estava garantindo que ela jamais seria invadida pelo êrro, porque seria de fato uma grande vitória do poder das trevas, se conseguisse transformar a Igreja de Deus Vivo de mestra infalível da verdade em propagadora do êrro, ainda que fôsse num só ponto de sua doutrina. As heresias de todos os tempos foram sempre fomentadas pelas potestades infernais, para ver se conseguiam realizar êste ideal satânico. E entre as heresias que têm lutado contra a Igreja ocupa um lugar muito importante o Protestantismo.

Na ânsia de justificar a sua atitude, aparecendo no século XVI, a ensinar uma doutrina muitíssimo diversa daquela que a Igreja vinha ensinando desde muitos séculos, esforçam-se os protestantes por demonstrar que essa Igreja errou, ou melhor, encheu-se de erros, o que é o mesmo que dizer, esforçam-se por demonstrar que falhou miseràvelmente A PROMESSA DE JESUS.

Nesta pretensa demonstração, êles recorrem a argumentos que não poderiam deixar de ser falhos e improcedentes.

Um dêles é o seguinte: A Igreja está errada em tais e tais pontos que ela ensina, porque SÃO COISAS QUE NÃO ESTÃO NA BÍBLIA.

Êste argumento é falso, porquanto se baseia numa falsa suposição: a de que a Bíblia tenha sido escrita para ser a nossa única regra de fé.

Cristo disse aos Apóstolos: PREGAI O EVANGELHO A TODA A CRIATURA (Marcos XVI-15), não disse que o meio para conhecerem os homens a verdade religiosa era só e exclusivamente a leitura da Bíblia. Mandou-lhes ENSINAR A TODAS AS GENTES, prometeu-lhes a sua assistência neste ensino. E a idéia que fazem os protestantes é esta: Os Apóstolos pensaram assim: Cristo nos mandou ensinar, quer dizer que nós pregamos enquanto estamos nesta terra. E também escrevemos o Novo Testamento e o deixamos, para que cada um aprenda a doutrina cristã, após a nossa morte.

Mas esta idéia é errônea. O Novo Testamento não foi escrito segundo êste plano. Começa logo por não ter sido escrito só pelos Apóstolos: Marcos que escreveu o 2.º Evangelho e Lucas que escreveu o 3.º e os Atos dos Apóstolos, não haviam recebido a missão de ensinar a todos os povos. E vários Apóstolos, como S. Tomé, S. Filipe, S. Bartolomeu, S. André, S. Simão Cananeu, que foram para bem longe, pregar a povos de línguas diversas, aos quais não seria fácil manusear o grego do Novo Testamento, no entanto NENHUM LIVRO DA BÍBLIA DEIXARAM ESCRITO. Não foi composto o Novo Testamento com a preocupação de ensinar a doutrina e tôda a doutrina; neste caso deveria ter seguido o método adequado, apresentando ordenadamente a matéria ponto por ponto e em linguagem clara e accessível todos, afim de que não se deixasse margem alguma para a dúvida; não teria tantos trechos de interpretação bem difícil. Conforme já explicámos (n.º 259), foram escritos os seus livros ocasionalmente, de acôrdo com as necessidades do momento. Deus os inspirou e de certo são êles a palavra escrita infalível que CONSOLIDA o ensino da Igreja e que lhe serve de

orientação proveitosíssima neste ensino; são também os documentos, pelos quais a Igreja prova contra os hereges a sua legitimidade, a sua origem divina. Mas não há nenhuma palavra de Jesus, o qual deixou a Igreja com a missão de ENSINAR e num tempo em que não havia sido escrito nenhum livro do Novo Testamento, não há nenhum texto sagrado que nos indique que só devemos aceitar o ensino da Igreja, se êle estiver contido EXPLICITAMENTE na Bíblia. Antes, o que ela ensina, está também implicitamente recomendado pela Escritura Sagrada que a apresenta como COLUNA E FIRMAMENTO DA VERDADE (1.ª Timóteo III-15) e como detentora das divinas promessas, E muitas discussões, hesitações e controvérsias que há entre os próprios protestantes, por exemplo, a respeito do Batismo, do pecado original, do número dos sacramentos etc., nascem precisamente disto: a Bíblia não oferece elementos suficientes para se resolverem definitivamente estas questões; e os protestantes, surgindo no século XVI e rejeitando tôda a tradição, querem resolvê-las exclusivamente pelos dados da Bíblia, ao passo que a Igreja Católica, vindo dos tempos apostólicos, está firme e segura na sua doutrina, porque sabe, pela tradição, qual foi o verdadeiro ensino que os Apóstolos legaram à Cristandade.

367. AS DECISÕES DOS CONCÍLIOS.

Queremos chamar a atenção também para um TRUQUE muito usual entre os protestantes, com o qual aquêles que conhecem mais um pouquinho de história da Igreja procuram enganar os incautos e inexperientes.

Quando vê AS SUAS DOUTRINAS serem negadas pelos hereges ou serem mal interpretadas, ou aparecem questões sôbre os verdadeiros têrmos em que devem ser propostas e defendidas, a Igreja Católica nos seus concílios ecumênicos, isto é, universais, faz as solenes definições para esclarecer, eliminando qualquer dúvida, afim de que se preserve A UNIDADE DA FÉ. Aproveitam-se disto os protestantes para dizerem que nesta ocasião foi a doutrina INTRODUZIDA na Igreja, o que é inteiramente falso. Foi o que se deu, para dar um exemplo, com o dogma da presença real de Cristo na Eucaristia. Está clarissimamente ensinado na Bíblia, sempre foi admitido pelos católicos, era um dogma que fazia parte da vida dos cristãos, que comungavam, ouviam a Santa Missa, etc. Até o século XI nunca foi negado diretamente, nem mesmo pelos hereges. Quando aparecem seitas heréticas combatendo êste dogma, a Igreja solenemente o define, como o fêz no 4.º Concílio de Latrão, em 1215. Dizer que só aí é que a doutrina foi introduzida na Igreja é uma enorme falsidade histórica; como é também inexato pensar que só é de fé para nós, católicos, o que é definido nos Concílios, pois é de fé para nós tudo quanto ensina a Bíblia, e a Igreja não vai definir os ensinos da Bíblia versículo por versículo.

368. USOS E QUESTÕES DISCIPLINARES.

Outra observação que temos a fazer é a seguinte: Uma coisa é a DOUTRINA; e outra são as questões disciplinares, os usos e costumes e devoções, que podem variar de um século para outro, conservando-se inalterada a parte doutrinária. A Igreja é autônoma, tem o direito de impor leis que não sejam contrárias às leis divinas, tem o direito de governar-se a si mesma: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus, e tudo o que desatares sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19), foi dito por Jesus Cristo a Pedro, o chefe da Igreja. E mesmo poder de ligar e desligar foi também concedido ao colégio apostólico (Mateus XVIII-18). estes poderes persistem no sucessor de Pedro naqueles que ocupam o lugar dos Apóstolos aqui na terra, como legítimos continuadores de sua missão.

A Igreja vai durar até o fim do mundo, em circunstâncias as mais diversas, no meio das mais diversas raças. Tem que conservar intacto, inalterado o depósito da fé, da sua DOUTRINA. Mas as leis disciplinares, pelas quais internamente se governa têm que variar de acôrdo com as circunstâncias. Os métodos de ensino, as devoções especiais, os meios de apostolado vão sendo pouco a pouco inspirados pelo Divino Espírito Santo que vela sempre sôbre ela.

Querer, portanto, que por todos os séculos a Igreja tenha que restringir-se a fazer exclusivamente o que fizeram os Apóstolos, naqueles primeiros dias de sua história, dias, aliás, extraordinários, em que havia certos dons e carismas que seriam limitados àqueles primórdios, seria evidentemente um absurdo.

Põem-se então muitos protestantes a "demonstrar" que a Igreja Católica não é mais a Igreja de Cristo, porque em tal época impôs a obrigação do jejum na Quaresma, ou em tal época os padres começaram a usar vestuário diferente dos seculares, ou começaram a usar tonsura na cabeça, porque em tal época se começou a recitar o Rosário, a fazer procissão com o Santíssimo Saciamento ou a usar campainhas na celebração da Missa ou a acender velas nas igrejas, ou a canonizar os santos ou a usar o latim como língua litúrgica — e nada disto havia no tempo dos Apóstolos... Os Pentecostais acham que a Igreja Católica não é a mesma Igreja de Cristo, porque nela os fiéis não recebem mais o Espírito Santo com o DOM DAS LÍNGUAS, como acontecia algumas vêzes nos tempos primitivos... E uma das provas mais evidentes que os protestantes vêem de que a Igreja não é mais a Igreja de Cristo é o celibato eclesiástico. Já tivemos oportunidade de falar sôbre êste assunto (n.° 211). Permitia-se no tempo dos Apóstolos que os presbíteros, também chamados bispos, fôssem casados e já explicamos por quê. Nestas circunstâncias, S. Paulo recomenda que só seja escolhido para bispo um homem que tenha sido esposo duma só mulher (V Timóteo III-2), não servindo para o cargo aquêles que já andaram às voltas com muitas mulheres. E S. Paulo, note-se bem, afirma claramente que prática o celibato e além disto o aconselha (ta Coríntios VII-7 e 8), bem como ensina A DOUTRINA das vantagens da continência perfeita sôbre o estado de matrimônio (1.ª Coríntios VII-25 a 35). Isto era doutrina do próprio Jesus, que alude àqueles que sacrificam seus instintos carnais POR AMOR DO REINO DOS CÉUS (Mateus XIX-12). Pois bem, quando a Igreja resolveu só aceitar para sacerdotes aquêles que espontânea-mente queiram fazer o voto de castidade perfeita, deixou por isto de ser a Igreja Verdadeira de Jesus Cristo?... Agora repare bem o leitor A LÓGICA PROTESTANTE. Os Apóstolos proibiram aos cristãos comer do sangue das carnes sufocadas (Atos XV-29). Tinham os cristãos que fazer como faziam os judeus: matar o animal, fazer escorrer todo o sangue para depois comer. NA BÍBLIA NÃO CONSTA A REVOGAÇÃO DÉSTE DECRETO. Mais tarde a Igreja, com o seu poder de ligar e desligar, uma vez que não havia mais as razões pelas quais esta proibição tinha sido feita, resolveu revogar tal MEDIDA DISCIPLINAR imposta pelos Apóstolos. E no entanto os protestantes que acham que a Igreja tem que se limitar a fazer exclusivamente o que está na Bíblia, que só admitem aquilo que se vê em letra de fôrma no Livro Sagrado, comem a carne dos animais com o sangue, comem as carnes sufocadas, sem nenhum remorso, autorizados exclusivamente pela Igreja!

E durma-se com um barulho dêstes!

369. DESAFIO.

Caros amigos protestantes:

Vocês querem provar que a Igreja Católica se deixou contaminar pelo êrro e que é falsa a promessa de Jesus Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Sentem absoluta necessidade disto, porque precisam justificar a sua inegável posição de HEREGES, surgidos no século XVI, afastados da Igreja fundada por Cristo, a Igreja Católica, e combatendo doutrinas que a mesma vinha e vem ensinando desde muitos séculos, em tôda a história do Cristianismo. Não é assim? Pois bem, argumentem com a DOUTRINA. Provem que a Igreja ensina DOUTRINAS CONTRÁRIAS ÀS DOUTRINAS ENSINADAS NA SAGRADA ESCRITURA.

Dirão os protestantes:

Pois bem, está aceito o desafio. Vamos argumentar com a DOUTRINA da Igreja e mostrar que ela é contrária à doutrina do Evangelho. A Igreja presta culto aos anjos e aos santos, os considera como MEDIADORES entre Deus e os homens, pois faz orações aos anjos e aos santos, para que intercedam por nós. Ora, isto é doutrina condenada pela Bíblia que diz assim: SÓ HÁ UM MEDIADOR ENTRE DEUS E OS HOMENS, QUE É JESUS CRISTO HOMEM (1.ª Timóteo II-5). Além disto, S. Paulo na sua Epístola aos Colossenses previne os fiéis contra o culto dos anjos (Colossenses II-18).

o Apocalipse nos narra duas vêzes que S. João quis adorar o anjo, mas o anjo expressamente se recusou dizendo: Vê não faças tal: eu sou servo contigo e com teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. ADORA A DEUS (Apocalipse XIX-10; cfr. XXII-9). Logo, só Deus deve ser cultuado; só Jesus é Mediador e, portanto, é contrário às Escrituras o culto dos anjos dos santos. E, não contente com isto, a Igreja presta culto às imagens, adora-as, praticando uma idolatria que é tão insistentemente condenada pela Bíblia, a qual também proíbe fazer imagens e prestar-lhes culto, mas-mo que não seja de adoração: Não farás para ti imagem de escultura... Não as adorarás, NEM LHES DARÁS CULTO (Êxodo XX-4 e 5). Logo, a Igreja está em completo desacôrdo com a Bíblia.

— Primeiro responderemos às objeções sôbre o culto dos anjos; depois falaremos sôbre Jesus Mediador, o que requer uma exposição um pouco mais extensa. E no capítulo seguinte falaremos então sôbre o culto das imagens.

E verão Vocês, protestantes, como estão completamente enganados em todos êstes pontos.

370. NA EPISTOLA AOS COLOSSENSES.

Na Epístola aos Colossenses, S. Paulo está prevenindo os destinatários da sua carta contra certos VISIONÁRIOS que ensinam doutrinas errôneas, alegando tê-las aprendido VENDO anjos, a quem cultuam. Vejamos o texto: Ninguém vos desencaminhe, afetando parecer humilde e dar culto aos anjos QUE NUNCA VIU no estado de viador, inchado vãmente no sentido da sua carne, e sem estar unido com a cabeça, da qual todo o corpo, fornido e organizado pelas suas ligaduras e juntas, cresce em aumento de Deus (Colossenses II-18 e 19).

O texto grego que usamos (edição de Nestle) diz assim: Ninguém vos seduza, querendo, com a mortificação e o culto dos anjos, perscrutando o que vim; sendo que há certos códices que trazem: perscrutando o que NÃO VIU; o que, por mais estranho que pareça, não altera o sentido:

Perscrutando o que NÃO VIU - quer dizer que êstes homens de fato não receberam visão alguma;

Perscrutando o que viu — quer dizer que êstes homens alegam ter visto alguma coisa (quando de fato não viram nada).

Trata-se apenas de hereges que sustentam teorias condenáveis e, para justificá-las, alegam que fazem mortificações e com isto conseguem ter visões de anjos, que os favorecem com revelações, quando na realidade não viram coisa alguma. S. Paulo mostra que êstes estão inchados na sua soberba, na sua presunção e estão separados do corpo místico da Igreja, cuja cabeça é Cristo.

Concluir destas advertências feitas pelos Apóstolos contra certos e determinados hereges, visionários e enganadores, que não nos seja lícito fazer uma súplica aos anjos, é querer identificar duas coisas que nada têm que ver, uma com a outra.

371. ADORA A DEUS!

Vejamos agora o episódio que se passou entre S. João Evangelista e o anjo que lhe fêz as revelações. S. João quis ADORARo anjo, e o anjo se recusou dizendo: Não faças tal... adora a Deus!

Primeiramente, temos que prevenir o leitor de que, como explicaremos mais adiante (n.º 382) a palavra ADORAR é freqüentemente empregada nas Escrituras para significar, não a adoração que se deve exclusivamente a Deus, mas um ato de saudação, em que uma pessoa se prostra em terra para reverenciar a outra, como era costume entre os orientais. S. João não iria cometer um ato de idolatria ou de adoração indébita, porque era um Apóstolo, iluminado pelo Espírito Santo. Quis apenas expressar ao anjo a sua profunda reverência.

Pois é; diz o protestante. Quis expressar ao anjo a sua profunda reverência, quis PRESTAR-LHE CULTO e o anjo não permitiu.

Quer dizer que os anjos não permitem aos homens que lhes expressem a sua reverência para com êles? Como se explica então que, como narram as mesmas Sagradas Escrituras, Lot viu dois anjos, fêz-lhes a reverência, prostrou-se diante dêles e os anjos não fizeram nenhum sinal de protesto (Gênesis XIX-1 e 2)? Josué viu um anjo em figura de homem, prostrou-se diante dêle e o anjo não reclamou coisa alguma. Lê-se, com efeito, no' livro de Josué: Estando Josué no campo da cidade de Jericó, levantou os olhos e viu um homem pôsto em pé diante dêle, que tinha uma espada nua e foi ter com êle e disse-lhe: Tu és dos nossos ou dos inimigos? O qual lhe respondeu: Não, mas sou o PRÍNCIPE DO EXÉRCITO DO SENHOR, e agora venho. Josué se lançou com o rosto em terra e ADORANDO-O, disse: Que diz meu Senhor ao seu servo? Tira, lhe disse êle, o calçado de teus pés, porque o lugar em que estás é santo. E Josué fêz como se lhe havia mandado (Josué V-13 a 16). O mesmo aconteceu com Balaão: viu o anjo, prostrou-se diante dêle, e fêz a saudação que se chamava naquele tempo adoração e o anjo aceitou esta homenagem, não protestou coisa alguma: No mesmo ponto abriu o Senhor os olhos de Balaão, e êle viu o anjo parado no caminho com a espada desembainhada e, prostrado por terra, O ADOROU. Ao qual disse o anjo: Por que castigas tu terceira vez a tua jumenta? (Números XXII-31 e 32). O anjo repreende a Balaão por ter castigado em demasia a jumenta, mas não reclama por se ter prostrado diante dêle.

Há, portanto, uma razão especial, pela qual o anjo que fêz as revelações a S. João Evangelista se recusa a receber as suas homenagens. E esta razão, o anjo a declara abertamente. Quer mostrar com isto o aprêço em que tem a S. João, a quem está tratando de igual para igual, porque S. João é também um profeta, pertence a uma classe privilegiada por Deus: Vê não faças tal: eu sou servo contigo e COM TEUS IRMÃOS QUE TÊM O TESTEMUNHO DE JESUS. Adora a Deus; porque O TESTEMUNHO DE JESUS É O ESPÍRITO DE PROFECIA (Apocalipse XIX-10).

E a prova de que o anjo, recusando aquela homenagem, não está absolutamente censurando a S. João Evangelista de querer fazer uma coisa ilícita ou pecaminosa, é que, no fim do Apocalipse, S. João nos narra que quis novamente prostrar-se diante dêle, e o anjo mais outra vez não quis consentir. Não se trata, portanto, de uma teimosia em fazer o que não era direito, isto seria inconcebível num Apóstolo; trata-se de uma insistência em prestar ao anjo uma homenagem que êle merece, e insistência outra vez da parte do anjo em declinar desta homenagem. E a razão que o anjo dá nesta segunda tentativa é igualmente a mesma: S. João é um profeta. E eu, João, sou o que ouvi e o que vi estas coisas; e depois de as ter ouvido e visto, me lancei aos pés do anjo que mas mostrava, para o ADORAR; e êle me disse: Vê não faças tal, porque eu servo sou contigo e com TEUS IRMÃOS, OS PROFETAS e com aquêles que guardam as palavras da profecia dêste livro. Adora a Deus (Apocalipse XXII-8 e 9).

O anjo está falando com um Apóstolo e Evangelista, com um Profeta, um Santo, um Homem de Deus, um Pregador do Evangelho, o Discípulo Virgem, predileto de Jesus, não quer receber homenagem clêste homem, a quem quer tratar como a seu semelhante.

Só falta agora a caturrice do protestante alegar: Mas Balaão também era profeta. A alegação vem fora de propósito: 1.º — porque o anjo, assim como recusou a homenagem do Apóstolo, bem poderia tê-la aceitado. Jacó é irmão de Esaú, em nada lhe é inferior e no entanto se prostra 7 vêzes diante dêle, ao receber a sua visita (Gênesis XXXIII-3); 2.º — porque Balaão tinha sido colhido em falta naquele mesmo momento, e nada mais natural do que fazer um ato de submissão ao anjo e submeter-se a uma penitênciazinha; 3.º — porque foi claramente anunciada no Evangelho a maior dignidade, a superioridade dos personagens do Novo Testamento, com relação aos do Antigo: Na verdade vos digo que entre os nascidos de mulheres não se levantou outro maior que João Batista; mas o que é menor no reino dos Céus é maior do que êle (Mateus XI-11).

372. BONS E MAUS TROCADILHOS.

Finalmente chegamos à expressão: ÚNICO MEDIADOR.

Os protestantes dizem enfàticamente: É um crime pedir aos santos que sejam mediadores, que intercedam por nós, porque S. Paulo nos diz claramente que Jesus é O "ÚNICO MEDIADOR entre Deus e os homens (1.ª Timóteo II-5).

— Eis aí um grandíssimo e notabilíssimo SOFISMA BASEADO NUM JOGO DE PALAVRAS.

A coisa mais conhecida dêste mundo é que muitas e muitas vêzes uma palavra pode ter mais de um sentido. Isto acontece com quase tôdas as palavras. Já tivemos ocasião de mostrar ao leitor que S. Paulo, nesta 1.ª Epístola a Timóteo, diz a êste seu amigo e companheiro que êle tem por missão SALVAR a si mesmo e SALVAR os outros (fazendo isto, te SALVARÁS tanto a ti mesmo, como AOS QUE TE OUVEM — IV-16), quando todos sabem que Único Salvador é Jesus. É porque, como já explicamos (n.º 265), isto depende do sentido em que se tome a palavra: SALVAR.

Às vêzes até se observa na Escritura que numa pequenina frase a mesma palavra toma 2 sentidos diversos, dando lugar a um trocadilho: Segue-me e deixa que os MORTOS sepultem os seus MORTOS (Mateus VII{-22). Ora, um defunto não pode ir ao entêrro de outro defunto. A frase significa: Deixa que aquêles que estão MORTOS ESPIRITUALMENTE sepultem os que estão CORPORALMENTE MORTOS. Outra frase em que se mostra um trocadilho assim, é aquela de S. Paulo, que diz a respeito de Deus com relação a Jesus Cristo: Àquele que não havia conhecido PECADO, o fêz PECADO por nós (2.ª Coríntios V-21). Chamava-se pecado o ato mau cometido pelo homem; e chamava-se também pecado a vítima que se oferecia a Deus pelos pecados nos sacrifícios antigos: Êles comerão dos PECADOS do meu povo (Oséias IV-8) e assim, segundo a frase de S. Paulo: Jesus não conhecia pecado, era santo e inocente e por isto Deus o tornou pecado, isto é, vítima pelo pecado para nos salvar.

A objeção dos protestantes é também um trocadilho, mas não como o de Jesus ou o de Paulo que só diziam a verdade, que não eram capazes de enganar, mas um trocadilho da pior espécie, feito manhosamente para iludir o povo rude e inexperiente.

Não; caros amigos protestantes. Deixemo-nos de brigas e cavilações por uma mera questão de nomes.

Os anjos e OS santos são MEDIADORES. E Jesus Cristo á O ÚNICO MEDIADOR. Não existe aí nenhuma contradição; PORQUE TÔDA A QUESTÃO ESTÁ EM SABER EM QUE SENTIDO JESUS CRISTO É O ÚNICO MEDIADOR E EM QUE SENTIDO OS ANJOS E OS SANTOS SÃO MEDIADORES TAMBÉM.

373. MEDIAÇÃO E SUAS FINALIDADES.

A palavra MEDIADOR (no grego MESÍTES) significa simplesmente isto: INTERMEDIÁRIO.

Esta função de intermediário varia de acôrdo com a finalidade com que é exercida.

Um homem pode ser mediador ou intermediário — PARA FAZER A RECONCILIAÇÃO ENTRE 2 PESSOAS;

pode ser mediador OU intermediário — PARA TRANSMITIR A MENSAGEM DE UMA PESSOA PARA OUTRAS, servindo, por exemplo, de intérprete;

pode ser mediador ou intermediário — PARA JULGAR UMA QUESTÃO QUE HÁ ENTRE DUAS PESSOAS OU DOIS GRUPOS, servindo de árbitro;

pode ser mediador ou intermediário — PARA PEDIR UMA COISA EM NOME DE OUTRO.

Precisamos saber em que sentido Jesus é apresentado na Escritura como ÚNICO MEDIADOR, porque a própria Escritura dá êste nome também a Moisés. Desde que no Antigo Testamento a lei divina foi entregue ao povo, servindo MOISÉS de INTERMEDIÁRIO para transmitir a mensagem celeste (portanto no segundo sentido que apontámos acima), Moisés neste sentido foi um MEDIADOR. E é por isto que S. Paulo chama a Jesus MEDIADOR DUM NOVO TESTAMENTO (Hebreus IX-15; XII-24), dando a entender claramente que Moisés o era do Antigo. E realmente faz o contraste entre Moisés e Jesus, chegando à conclusão de que Jesus é MEDIADOR DE UM MELHOR TESTAMENTO: Os quais servissem de modêlo e sombra das coisas celestiais, como foi respondido a MOISÉS, quando estava para acabar o tabernáculo: Olha (disse), faze tôdas as coisas conforme o modêlo que te foi mostrado no monte. Mas agora AQUÊLE alcançou tanto melhor ministério, quanto é MEDIADOR ainda de MELHOR TESTAMENTO, O qual está estabelecido em melhores promessas (Hebreus VIII-5 e 6). Aí já a palavra MEDIADOR é tomada noutro sentido, pois Jesus, sendo o ÚNICO MEDIADOR entre Deus e os homens, o é para todos os homens, desde o princípio do mundo, homens do Antigo e do Novo Testamento: não entrou para se oferecer muitas vêzes a si mesmo... doutra maneira lhe seria necessário padecer muitas vêzes desde o princípio do mundo (Hebreus IX-25 e 26).

Moisés podia muito bem no seu tempo qualificar-se de mediador entre Deus e os homens, mas mediador em um certo sentido, no de transmitir aos homens as palavras de Deus: Então eu fui o que intervim como MEDIADOR ENTRE O SENHOR E VÓS PARA VOS ANUNCIAR AS SUAS PALAVRAS (Deuteronômio V-5). (5" Ora, se tomamos a palavra MEDIADOR neste sentido, já todos os profetas são MEDIADORES, porque servem de intermediários para transmitir aos homens os avisos e ensinamentos divinos. E o próprio S. Paulo era também MEDIADOR, porque era intermediário entre Deus e os homens. Que é um embaixador senão um intermediário? Nós fazemos o ofício de embaixadores em nome de Cristo, como que Deus vos admoesta por nós outros. Por Cristo vos rogamos que vos reconcilieis com Deus (2.ª Coríntios V-20).

A questão está, portanto, em saber EM QUE SENTIDO JESUS É O ÚNICO MEDIADOR, O ÚNICO INTERMEDIÁRIO ENTRE DEUS E OS HOMENS. E para isto é indispensável examinar o contexto da célebre frase de S. Paulo, porque o forte dos protestantes, nesta matéria de sofismas, consiste em separar as palavras do seu verdadeiro contexto.

374. O CONTEXTO.

S. Paulo começa recomendando a Timóteo que se façam orações por todos os homens: Eu te rogo, pois, antes de tudo, que SE FAÇAM SÚPLICAS, ORAÇÕES, PETIÇÕES, ações de graças POR TODOS OS HOMENS, pelos reis e por todos os que estão elevados em dignidade, para que vivamos uma vida sossegada è tranqüila em tôda a sorte de piedade e de honestidade, porque isto é bom e agradável diante de Deus-, nosso Salvador (1.ª Timóteo II-1 a 3). Repare bem o leitor: S. Paulo quer que os cristãos INTERCEDAM A DEUS, FAZENDO SÚPLICAS, ORAÇÕES E PETIÇÕES POR TODOS OS HOMENS e recomenda de modo especial que se reze por aquêles que governam.

Aconselhando que se reze POR TODOS OS HOMENS e apresentando isto como agradável aos olhos de Deus, S. Paulo dá o motivo:

Isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que TODOS OS HOMENS SE SALVEM e que cheguem a ter o conhecimento da verdade (1.º Timóteo II-3 e 4).

Digamos, entre parênteses, que à primeira vista parece haver aí um contra-senso. Devemos rezar por todos, porque Deus quer que todos se salvem. Mas se Deus quer que todos se salvem, Êle que pode tudo e que tem tôdas as graças nas suas mãos, que necessidade há de que rezemos?

Não há nenhum contra-senso, desde que se considerem os desígnios sapientíssimos de Deus. Deus dá a todos a graça suficiente para a salvação. Se o homem rejeita esta graça, está necessitando de graças maiores e mais abundantes. Estas graças, Deus não está obrigado a conceder, mas quis, na sua imensa sabedoria e benevolência, subordiná-las aos nossos pedidos e orações. Rezemos, e graças maiores e mais abundantes cairão do Céu, tanto para nós, como também para os outros. E será maior o número dos que se salvam.

Continuando a ilustrar a sua tese de que devemos rezar por todos os homens, S. Paulo acrescenta uma nova razão: Porque só HÁ UM DEUS E SÓ HÁ UM MEDIADOR ENTRE DEUS E OS HOMENS, que é Jesus Cristo homem, QUE SE DEU A SI MESMO PARA REDENÇÃO DE TODOS (V Timóteo II-5 e 6).

Eis aí por que havemos de rezar por todos: somos todos irmãos, uma vez que há um só Deus, Deus é o Pai de todos; somos todos irmãos, porque fomos todos remidos pelo sangue de Jesus Cristo. Jesus não morreu só pelos cristãos ou só pelos eleitos, como têm ensinado muitos protestantes, mas morreu por todos. Se muitos não se salvam, a culpa é dêles; pois a morte de Cristo alcançou a graça suficiente para dar a salvação a todos, mesmo àqueles que, sem culpa sua, nunca ouviram falar no Divino Salvador. De modo que S. Paulo mesmo se encarrega de dizer em que sentido Éle chama Jesus ÚNICO MEDIADOR; é neste sentido de que SE DEU A SI MESMO PARA REDENÇÃO DE TODOS (V Timóteo II-6).

Ora, isto é claramente o que ensina a Igreja Católica. Jesus é o Único Salvador, porque só file podia oferecer a Deus uma reparação suficiente pelos nossos pecados e assim se pôs como UM MEDIADOR, como UM INTERMEDIÁRIO entre Deus e os homens, afim de operar a nossa reconciliação com Deus. Para efetuar esta reconciliação, era preciso que Êle fôsse homem e ao mesmo tempo Deus, pois como diz S. Anselmo: "Os homens eram mortais e pecadores e Deus, com quem haviam de reconciliar-se para serem salvos, era imortal e sem pecado. Era preciso que O MEDIADOR ENTRE DEUS E OS HOMENS, tivesse algo de igual a Deus e de igual aos homens, porque sendo só igual a Deus estaria longe dos homens e sendo igual aos homens estaria longe de Deus, e assim não seria MEDIADOR. De modo que entre os mortais pecadores e o Justo Imortal, apareceu Aquêle que era mortal como os homens e justo como Deus."

Se chamamos os 'santos MEDIADORES no sentido de que êles oram a Deus por nós, então já é outro assunto, porque não dizemos absolutamente que Maria SS.ma, nem que nenhum santo DEU A SUA VIDA PELA NOSSA REDENÇÃO. E a prova de que S. Paulo chamando Cristo "ÚNICO MEDIADOR, estava tomando esta palavra no sentido de SALVADOR e não no de INTERCESSOR, é que exatamente neste mesmo momento, neste mesmo trecho, êle estava aconselhando Timóteo a rezar por todos os homens, portanto a INTERCEDER por êles; estava aconselhando que os cristãos rezassem por todos os homens, portanto fôssem INTERCESSORES perante Deus em favor de todos êles. E se aqui na terra, podemos rezar pelos homens, sem que isto seja uma injúria a Nosso Senhor Jesus Cristo, Único Salvador, Único Mediador, por que motivo então os santos não podem rezar também por êles lá na glória celeste? Se Jesus Cristo, como entendem os protestantes, quer ser o Único Intercessor, não quer que ninguém reze pelos outros, então S. Paulo estaria errado, pedindo aos fiéis que rezassem por todos os homens, S. Paulo estaria errado recomendando-se tantas vêzes às orações dos fiéis.

Com efeito pede aos Efésios que rezem por todos os fiéis e POR ELE: Tomai outrossim o capacete da salvação e a espada do espírito (que é a palavra de Deus) orando em todo o tempo... E ROGANDO POR TODOS OS SANTOS E POR MIM, para que me seja dada no abrir da minha bôca palavra com confiança, para fazer conhecer o mistério do Evangelho (Efésios VI-17 a 19). Aos Romanos pede também o auxílio das orações: Rogo-vos, pois, ó irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito Santo, que ME AJUDEIS COM AS VOSSAS ORAÇÕES POR MIM A DEUS, para que eu seja livre dos infiéis que há na Judéia, e seja grata aos santos de Jerusalém a ()frenda do meu serviço (Romanos XV-30 e 31).

Em ambas as epístolas aos Tessalonicenses pede orações: Irmãos, ORAI POR NÓS (1.ª Tessalonicenses V-25). Irmãos, ORAI POR NÓS, para que a palavra de Deus se propague e seja glorificada como também no é entre vós, e para que sejamos livres de homens importunos e maus, porque a fé não é de todos (2.ª Tessalonicenses III-1 e 2). Aos Hebreus diz: ORAI POR NÓS, porque temos a confiança de dizer que em nenhuma coisa nos acusa a consciência, desejando em tudo portar-nos bem. E com mais instancia vos rogo que façais isto, para que eu vos seja mais depressa restituído (Hebreus XIII-18 e 19). Aos Colossenses diz, em seu nome e no de Timóteo, que oram sempre por êles: Graças damos ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, ORANDO SEMPRE POR VÓS (Colossenses 1-3).

Quando Pedro é encarcerado, a Igreja em pêso se põe a orar por êle: E Pedro estava guardado na prisão a bom recado. Entretanto PELA IGREJA se fazia sem cessar ORAÇÃO A DEUS POR ELE (Atos XII-5).

Se Cristo é o Único Mediador, neste sentido de que só Éle é que pode interceder a Deus pelos homens, não se explicam absolutamente estas orações que devem ser feitas de uns pelos outros.

Vendo êstes exemplos das Escrituras, todos os protestantes costumam pedir reciprocamente, dentro da sua seita, o auxílio das orações. E aí é que se mostra tôda a sua falta de lógica. Se êles pedem as orações dos outros, se S. Paulo dizia aos fiéis que ainda estavam aqui na terra: ORAI POR NÓS (1.ª Tessalonicenses V-25; 2.ª Tessalonicenses III-1; Hebreus XIII-18), por que é, então, que não podemos dizer: ORAI POR Nós, àqueles que já se encontram na glória, na presença de Deus? Era já o argumento que o grande Doutor da Igreja, S. Jerônimo empregava contra o herege Vigilâncio: "Dizes no teu libelo que, enquanto vivemos, podemos orar por nós reciprocamente; depois que morrermos, não há de ser ouvida a, oração de ninguém por outro, apesar de que os mártires não cessam de pedir a vingança do seu sangue (Apocalipse VI-10). Se os Apóstolos e os mártires, ainda quando estão em seu corpo, ainda quando devem estar solícitos a respeito de si próprios, podem rezar pelos outros, quanto mais depois das coroas, das vitórias e dos triunfos!... Depois que começaram a estar com Cristo, valerão menos? Será que Paulo Apóstolo... não poderá nem tugir e mugir em favor daqueles que em todo o mundo creram no Evangelho que êle pregou?... Tu vigilando dormes e dormindo escreves" (Contra Vigilâncio n.º 6).

375. A CIÊNCIA DOS SANTOS NA VISÃO BEATIFICA.

Diante dêste argumento, os protestantes respondem: Depois de mortos é diferente: êles não podem saber o que se passa na terra.

Quer dizer então que a coisa mudou completamente de figura. Os santos não podem rezar por nós e isto já não é pelo fato de ser Cristo o único Mediador, é pelo fato de não podermos ter comunicação com êles; a ligação está interrompida. Mas esta afirmação é por sua vez completamente gratuita e quem vai responder aos protestantes é outro protestante, o célebre escritor holandês Grotius. Quando Calvino e Vossius alegam que não podem admitir o culto dos santos, porque êstes não podem ter conhecimento das nossas preces, Grotius discorda inteiramente dêles, dizendo: "Os profetas, enquanto estavam na terra, tiveram conhecimento daquilo que se passava em lugares onde êles não estavam presentes... Os anjos assistem a nossas assembléias e se empenham por tornar agradáveis a Deus as nossas orações; é assim que não somente os cristãos, mas também os judeus creram em todos os tempos. Depois dêstes exemplos, um leitor sem preconceito deve crer que é mais razoável admitir nos mártires um conhecimento das preces que nós lhes dirigimos, do que negá-lo." (Grotius. Votum pro pace).

É o caso de dizermos aos protestantes: Expliquem-se, por favor... A Escritura não diz em parte alguma que aquêles que se encontram no Céu estão completamente alheios ao que se passa na terra. Qual o argumento, a prova que Vocês apresentam, para afirmar com tanta segurança que os santos não podem ter conhecimento das nossas súplicas?

  • É porque, dizem êles, os santos gozam diante de Deus de uma felicidade imperturbável; ora, se soubessem o que se passa aqui na terra, já não seria mais felicidade e sim uma série de preocupações. Além disto, era preciso que fôssem oniscientes, onipresentes, onipotentes (Maria SS.ma, sobretudo, que tem milhões e milhões de devotos em tôda a terra) para poderem estar atendendo a tôdas as orações que se fazem a êles nos mais variados lugares da terra e a cada instante.

Tôda esta objeção se baseia, desde logo, numa frustrada tentativa para fazer uma idéia exata daquilo que se passa com os bem-aventurados lá no Céu, quando isto ESTÁ MUITO ACIMA DE TUDO QUANTO POSSAMOS IMAGINAR.

A felicidade do Céu é uma felicidade SOBRENATURAL, é a visão beatífica de Deus, da qual a nossa natureza por si não é capaz, mas vai recebê-la por um dom especial do Criador. É inútil fazer cálculos tirando conclusões daquilo que se passa aqui na terra, dentro do nosso conhecimento natural. Uma pessoa aqui na terra não pode ter conhecimento de tudo o que se passa no mundo; mas suponhamos que o tivesse; não se seguiria daí que fôsse onisciente, nem onipresente nem onipotente, porque o próprio mundo é por sua natureza limitado; e êste limitado conhecimento não seria coisa alguma em comparação com A CIÊNCIA INFINITA que só existe em Deus.

Ninguém pode tornar-se igual a Deus, mas uma criatura pode tornar-se mais ou menos semelhante a Ele, participar mais ou menos das suas perfeições de ciência, santidade, felicidade etc., e aí existe uma graduação infinita. Desde que no Céu esta penetração nas grandezas de Deus tem graus, porque nem todos têm os mesmos merecimentos e na casa de meu Pai há muitas moradas (João XIV-2), não há nenhum absurdo em dizer-se que Maria SS.ma, mesmo continuando criatura e permanecendo limitada, tem maior semelhança com Deus, recebeu no Céu maiores perfeições do que qualquer outra criatura humana.

E se no Céu a felicidade consiste em nos tornarmos em grau muito mais elevado do que aqui na terra participantes da natureza divina (2.ª Pedro 1-4), a alegação de que o conhecimento das coisas da terra acabaria com a felicidade não tem nenhum fundamento. Deus não vê tudo o que se passa neste mundo e em todos os mundos? Não vê praticar-se aqui na terra tanta coisa que não é do seu agrado? Nem por isto sofre a mínima alteração a sua eterna, imensa, infinita, imperturbável felicidade.

Os anjos também são imperturbàvelmente felizes. Mas a Escritura no-los apresenta interessados pelas coisas humanas. Jacó abençoa os filhos de José dizendo: o ANJO QUE ME LIVROU DE TODOS OS MALES abençoe êstes meninos (Gênesis XLVIII-16). Nos Salmos se lê: o ANJO do Senhor ANDARÁ A RODA dos que O temem e os LIVRARA (Salmos XXXIII-8). Mandou aos seus anjos acêrca de ti, que TE GUARDEM EM TODOS OS TEUS CAMINHOS (Salmos XC-11). No livro de Zacarias se mostra a súplica do anjo pelo povo hebreu: E respondeu o ANJO do Senhor e disse: Senhor dos exércitos, até quando diferirás tu o compadecer-te de Jerusalém e das cidades de Jitdá, contra as quais te iraste? Êste é já o ano setuagésimo. Então o Senhor, dirigindo-se ao anjo que falava em mim, lhe disse boas palavras, palavras de consolação (Zacarias 1-12 e 13). No Novo Testamento, Jesus diz claramente que as criancinhas têm os seus anjos: Vêde não deprezeis algum dêstes pequeninos; porque eu vos declaro que os SEUS ANJOS nos Céus incessantemente estão vendo a face de meu Pai que está no Céus (Mateus XVIII-10). E S. Paulo, falando a Timóteo, invoca a presença dos anjos: Eu te esconjuro diante de Deus e de Jesus Cristo e dos seus ANJOS escolhidos que guardes estas coisas sem preocupação (1.ª Timóteo V-21).

Está mais do que provado que os anjos' sabem o que se passa na terra, êles vêem a Deus e em Deus vêem tôdas as coisas e não é isto que os impede de serem felizes. Assim também os santos. Por isto disse com razão o protestante Leibnitz: "Como os espíritos bem-aventurados estão presentes a nossas vicissitudes muito mais agora do que quando viviam na terra... e sua caridade e desejo de nos socorrer são muito mais vivos, como, enfim, as suas preces são muito mais eficazes dagora por diante; como vemos por outro lado tudo o que Deus concedia às intercessões dos santos vivos, bem como a utilidade de ajuntar às nossas preces as de nossos irmãos, não vejo por que motivo se haveria de considerar um crime o invocar uma alma bem-aventurada ou um santo anjo. (Leibnitz. Systema Theologicum).

376. VELHA EXPERIÊNCIA.

E a quem é que os protestantes vêm dizer que os santos não sabem do que se passa na terra e não têm conhecimento dos nossos pedidos? Logo a nós, católicos, que conhecemos a fundo esta questão! Temos vinte séculos de existência; desde o princípio, como veremos daqui a pouco, começámos a invocar os santos. Não existe, nunca existiu nenhum dogma, nenhum ensino, nenhuma determinação da Igreja no sentido de que as nossas orações só pudessem ser feitas a Deus por intermédio dos santos. O próprio Concílio de Trento, que teve que definir contra os protestantes a legitimidade da invocação dos santos, apresenta-a, não como necessária ou imprescindível, mas como boa e útil: "É BOM E ÚTIL invocá-los humildemente, para pedirmos benefícios a Deus por meio de seu Filho Jesus Cristo Senhor Nosso, que é o nosso único Redentor e Salvador, bem como recorrer a suas orações, auxílio e proteção" (Concílio de Trento. Sessão XXV). É claro que, se os santos não nos ouvissem, não tivessem nenhuma comunicação conosco, já o teríamos percebido, já teríamos desistido de nos comunicar com êles há muito tempo. Mas a nossa experiência de 2.000 anos, a nossa experiência de cada dia nos mostra precisamente o contrário. É muito raro o católico que não tenha a relatar na sua vida graças extraordinárias, algumas das quais, se não são autênticos milagres, pelo menos dêles muito se aproximam, favores chegados exatamente no tempo oportuno, tudo isto alcançado não porque se tenha feito o pedido diretamente a Deus, mas porque se encarregou Maria SS.ma ou outro santo qualquer de fazer a Deus êste pedido em nosso lugar. Os exemplos são incontáveis em todos os lugares e em tôdas as épocas. É o caso de fazermos aos protestantes a mesma observação que Hamlet fazia a Horácio, na tragédia de Shakespeare: "Há muito mais coisas no céu e na terra do que pode calcular a tua vã filosofia!"

dizer-se que há católicos que depois de receberem tais prodígios do Céu por intermédio dos santos, ainda vão iludir-se com os sofismas arquitetados pelos protestantes que pretendem substituir as realidades da vida cristã pelas invencionices da sua própria cabeça!

377. A PROMESSA SÔBRE A EFICÁCIA DA ORAÇÃO.

Finalmente os protestantes alegam êstes textos:

Tudo o que pedirdes ao Pai EM MEU NOME, EU VO-LO FAREI, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, essa vos farei (João XIV-13 e 14).

Se vós permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, PEDIREIS TUDO O QUE QUISERDES e SER-VOS-Á FEITO (João XV-7).

Pedro estava guardado na prisão a bom recado. Entretanto pela Igreja se fazia sem cessar oração A DEUS por êle (Atos XII-5).

tudo quanto nós Lhe pedirmos, receberemos dÊle, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é do seu agrado (V João III-22).

daí concluem:

1.º — Logo, tôda oração deve ser feita EM NOME DE JESUS e não em nome dos santos, portanto estão errados os católicos;

2.º — Tôda oração deve ser feita diretamente a Deus ou a Jesus, porque é tudo quanto basta para ser, com tôda certeza, atendida.

— Vejamos a primeira parte. Que quer dizer a oração feita EM NOME DE JESUS? Quer dizer apresentando a Deus os merecimentos infinitos de Jesus Cristo. Quando pedimos aos santos que por sua vez peçam a Deus por nós, é claro que êles sabem, melhor do que nós, que a sua súplica deve ser feita em nome de Jesus, isto é, baseada nos merecimentos do Redentor, que se tornou na Cruz a fonte de onde dimanam tôdas as graças. A súplica EM NOME DE JESUS tanto pode ser feita por nós como por êles. Dizer que nós, católicos, oramos a Deus em nome dos santos e não em nome de Jesus, como se dissessem que rezamos a Deus alegando os merecimentos dos santos, com exclusão dos merecimentos de Jesus, é criar um fantasma para combatê-lo, porque nós não fazemos isto.

Vejamos a segunda parte: tôda oração deve ser feita diretamente a Deus ou a Jesus, porque é quanto basta para ser infalivelmente atendida.

Antes de tudo, queremos observar que aquelas 2 primeiras citações (Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, eu vo-lo farei — João XIV-13. Pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á feito — João XV-7), são palavras de Jesus ditas aos seus Apóstolos, na intimidade com êles, pois fazem parte de uma longa palestra que com seus Apóstolos teve Jesus após a última Ceia, depois da saída de Judas, e que se estende desde João XIII-31 até o fim do capítulo XVII do mesmo Evangelho.

E no versículo anterior à primeira citação, Jesus tinha anunciado os grandes prodígios que haviam de realizar os Apóstolos, prodígios de uma certa maneira maiores do que os feitos pelo próprio Jesus. É verdade que nenhum dêles faria um milagre que se pudesse comparar com o da Ressurreição; mas já a propagação do Evangelho pelos Apóstolos se faria de maneira mais prodigiosa do que foi feita em vida de Cristo, não porque o Divino Mestre tivesse menos poder ou menos habilidade, mas porque Éle iria para o Pai e de lá enviaria o Espírito Santo, que seria encarregado mais especialmente da propagação da Igreja, como Cristo foi encarregado de sofrer e morrer por nós e alcançar-nos a Redenção; Cristo iria para o Pai e de lá auxiliaria os seus discípulos: Em verdade, em verdade vos digo que aquêle que crê em mim, êsse fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores; porque eu vou para o Pai (João XIV-12).

Mas vamos mesmo aceitar as palavras de Cristo: Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, eu vo-lo farei (João XIV-13), como sendo ditas igualmente a todos os fiéis, porque em outra ocasião Cristo nos fêz promessas, embora não tão enfàticamente, de que as nossas orações seriam atendidas: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo o que pede recebe e o que busca acha e a quem bate abrir-se-á... Pois, se vós outros, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quando mais vosso Pai, que está nós Céus, dará bens aos que lhos pedirem! (Mateus VII-7 e 8; 11).

Ora, acontece, conforme já explicámos n.° 82), que numas partes da Bíblia estão as promessas e noutras partes estão as condições para que a promessa tenha o seu efeito. A oração, para ser atendida, precisa revestir-se de umas tantas condições: humildade, confiança, perseverança etc. Há orações bem feitas e orações mal feitas. O católico, quando pede a Maria SS.ma ou a algum santo que reze em seu lugar (e pede-o não porque só possa ser assim, êle poderia também pedir diretamente a Deus) pede-o com êste humilde pensamento de que Maria SS.ma ou os santos sabem orar muito melhor do que êle. Deus não vai ficar ofendido com êste gesto de humildade. Nem Maria SS.ma e os santos se vão aborrecer ou ficar incomodados, uma vez que estão no seio de Deus e sabem assim, da melhor maneira, praticar a caridade para conosco.

Além disto, a própria frase da 1.ª Epístola de S. João acima citada na objeção protestante: Tudo quanto Lhe pedirmos, receberemos dÊle, PORQUE GUARDAMOS OS SEUS MANDAMENTOS E FAZEMOS O QUE É DO SEU AGRADO (1.ª João III-22), nos mostra muito bem a importância da santidade, do cumprimento exato da vontade divina, para melhor se obterem as graças de Deus. Jesus podia dizer de si mesmo, referindo-se ao seu Eterno Pai: Eu sempre faço o que é dó seu agrado (João VIII-29). S. João Evangelista, que escreveu aquela frase, ainda podia dizer o mesmo, mas já não no mesmo grau como Jesus. E nós, pecadores, podemos dizê-lo com a mesma exatidão e segurança? Não fazemos tantas coisas, grandes e pequenas, que não são do agrado do Pai Celeste? É justo, portanto, que peçamos aos santos que estão no Céu, os quais absolutamente não fazem mais coisa alguma que possa cair no desagrado divino, que também nos

ajudem, fazendo a Deus os nossos pedidos, como se fôssem para êles.

Prometendo atender às nossas orações, Deus não prometeu fazer milagres e prodígios a torto e a direito para todo aquêle que os pedisse. Seria transtornar completamente as leis da natureza, e a natureza tem que seguir o seu curso. É verdade que seria êrro pensar, como o cego de nascença, que Deus não ouve a pecadores (João IX-31), mas seria outro êrro pensar que Deus em todos os casos ouve exatamente da mesma forma, coroa com os mesmos prodígios a oração do justo e a do pecador. Se os milagres e favores extraordinários não se dão, a tôda hora, Deus os reserva quase sempre para os seus servos fiéis. A Escritura está cheia de exemplos disto. Deus diz a Abimeleque: Entrega, pois, já desde agora esta mulher a seu marido, porque êle é profeta e ROGARÁ POR TI e TU VIVERÁS; se, porém, tu lha não quiseres restituir, sabe que morrerás de morte, tu e tudo o que é teu (Gênesis XX-7), bem como diz aos amigos de Jó: Tomai, pois, sete' touros e sete carneiros; ide ao meu servo Jó e oferecei holocausto por vós; O MEU SERVO Jó, porém, ORARÁ POR VOS; ADMITIREI PROPÍCIO A SUA FACE, PARA QUE SE VOS NÃO IMPUTE ESTA ESTULTÍCIA, porque vós não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó (Jó XLII-8). Deus resolve exterminar o povo hebreu por causa da sua rebeldia (Números XIV-12), mas Moisés intercede e o Senhor lhe diz: Eu lhe perdoei, CONFORME TU ME PEDISTE (Números XIV-20). É claro que Deus podia favorecer a Abimeleque, aos amigos de Jó, ao povo de Israel, sem que Abraão, nem Jó, nem Moisés o pedissem; mas quis ser invocado pelos seus eleitos primeiro, para depois conceder a graça. É por isto que os filhos de Israel pedem a Samuel que rogue por êles: Não cesses de clamar por nós ao Senhor nosso Deus, para que nos salve da mão dos filisteus. (1.º Reis VII-8).

Nem se venha dizer que se trata aí apenas de exemplos do Antigo Testamento e que no Novo a coisa é muito diversa, que não há diferença de eficácia na oração do justo e na do pecador, pois é exatamente no Novo Testamento que S. Tiago nos vem dizer que PODE MUITO A ORAÇÃO DO JUSTO e o ilustra com o exemplo de Mias: A ORAÇÃO DO JUSTO, SENDO FERVOROSA, PODE MUITO. Elias era um homem semelhante a nós outros, sujeito a padecer; e fôz oração para que não chovesse sôbre a terra e por três anos e seis meses não choveu. E orou de novo e o céu deu chuva e a terra deu seu fruto (Tiago V-16 a 18).

É muito natural, portanto, que nós, católicos, que não nos temos na conta de justos, mas sim de pecadores, peçamos aos justos que estão no Céu, na mansão de Deus, que orem a Deus por nós e em nosso lugar, porque a oração dêles é muito mais valiosa do que a nossa. E se nisto fazemos injúria a Deus que prometeu de modo geral atender a nossas orações, então fazia injúria também o Apóstolo S. Paulo, ao pedir aos outros que rezassem por êle, quando, na hipótese protestante, êle sózinho pedindo era o suficiente para alcançar de Deus tôdas as graças e na exata proporção em que as quisesse; e por conseguinte, dentro da mesma mentalidade protestante, não tinha nada que andar pedindo aos outros um refôrço para as suas próprias orações.

378. VEM DE LONGE A INVOCAÇÃO DOS SANTOS.

A devoção aos santos é tão lógica e natural, que ela não surgiu por um decreto ou ensino da Igreja, a qual nunca disse que a devoção a êste ou àquele santo, mesmo a Maria SS.rna, fôsse condição sine qua non para a salvação, como é o caso da fé, da observância dos mandamentos, da recepção dos sacramentos, pelo menos em voto. Surgiu espontâneamente, como um expediente que os fiéis, na sua intuição guiada pelo Espírito Santo, que está sempre orientando a Igreja, logo consideraram vantajoso e utilíssimo; e surgiu desde os primeiros tempos da Igreja, porque vem do tempo dos m4rtires. Naqueles três primeiros séculos de tremendas perseguições, era natural a honra, o carinho, a admiração com que os cristãos cercavam aquêles heróis que derramavam o seu sangue, davam a sua vida pela fé. Chamavam o dia de sua morte DIES NATALIS, o dia do nascimento, porque era naquele dia que êles tinham começado em. Cristo a verdadeira vida, que não se perde jamais. Celebravam anualmente a data aniversária do martírio, ficando a vida e os feitos admiráveis do mártir como um exemplo, um estímulo que não havia de ser esquecido pelos cristãos. E logo espontâneamente êstes se encomendavam às suas orações.

É muito interessante notar nas inscrições feitas nas catacumbas daqüeles primeiros tempos da Igreja que, enquanto umas se referiam a mortos comuns, por quem os fiéis faziam súplicas, numa confirmação de que existia entre êles a crença no purgatório, como, por exemplo, há inscrições como estas:

Ó CRISTO, TEM PRESENTES A MARCELINO PECADOR E A JOVINO ! QUE SEMPRE VIVAIS EM DEUS (cemitério de S. Pedro), DE AGÁCIO, SUBDIÁCONO PECADOR, TEM MISERICÓRDIA, Ó DEUS! (em S. Hermes);

FLÁVIA PRIMA AMERÂNIA, FILHA DE AURELINO SÊNIO. O SENHOR REFRIGERE O TEU ESPÍRITO, CARA POMBINHA (cemitério de S. Pânfilo);

outras inscrições eram, ao contrário, pedidos de orações feitos aos mortos, aos mártires, aos heróis da fé:

ÁTICO, DORME EM PAZ, SEGURO DE TUA SALVAÇÃO E PEDE SOLÍCITO POR NOSSOS PECADOS (Museu capitulino);

VIGÊNCIA, PEDE EM CRISTO POR FEBE E POR SEU ESPOSO (cemitério de S. Calisto);

SABÁCIO, DOCE ALMA, PEDE E ROGA PELOS IRMÃOS E COMPANHEIROS TEUS (cemitério de Gordiano).

GENCIANO, FIEL, EM PAZ, QUE VIVEU 21 ANOS, 8 MESES, 16 DIAS. QUE EM TUAS ORAÇÕES ROGUES POR NÓS, PORQUE TE SABEMOS EM CRISTO (Via Salária).

E às vêzes se reuniam as 2 coisas: súplica aos mártires em favor de um falecido:

MÁRTIRES SANTOS, BONS, BENDITOS, AJUDAI A CIRIACO (mosaico no cemitério de S. Pánfilo);

SANTOS MÁRTIRES, TENDE EM MENTE MARIA (Corp . inscr. lat. t V n.° 1636).

Outras vêzes o pedido de orações não era dirigido a um mártir, mas a uma criancinha inocente falecida:

PEDE POR TEUS PAIS, MATRONATA MATRONA. ELA VIVEU DOIS ANOS, CINQÜENTA E DOIS DIAS (museu de Latrão);

LUCERNIO, ANTES DE TEMPO VIESTE EM PAZ. TEM PRESENTES A NÓS, TEUS PAIS (cemitério de Viale Margarita);

ANATÓLIO O FÊZ AO FILHO BENEMERENTE QUE VIVEU SETE ANOS, SETE MESES E VINTE DIAS. TEU ESPÍRITO DESCANSE BEM EM DEUS. PEDE POR TUA MÃE (Cemitério de Priscila).

As mais autênticas relações dos martírios nos mostram no 3.° século, os fiéis, já no Momento do suplício, rogando ao mártir que não os esqueça, quando estiver no reino da glória. S. Potamiana, em Alexandria, promete ao soldado Basílides interceder em seu favor, quando estiver junto de Deus (Eusébio Hist. Eccl. L. VI c. 2). Em Tiro, S. Teodósia suplica aos mártires que se lembrem dela, quando tiverem recebido a recompensa. Em Tarragona, o bispo mártir S. Frutuoso é cercado de tôda a comunidade cristã e quando um cristão, na hora do suplício, se aproxima dêle para pedir que não o esqueça, o santo diz em voz alta, de modo que todos ouçam: "Eu devo ter em mente tôda a Igreja Católica espalhada do Oriente ao Ocidente" (Acta Fructuosi c. 1, VII).

Transcorrido o tempo das perseguições, se passou naturalmente a cultuar a memória daqueles que, embora não tivessem mais ocasião de mostrar o heroísmo do martírio, contudo praticaram o heroísmo da santidade e da virtude, num martírio por vêzes mais lento e prolongado, se bem que menos vistoso.

Não é nosso propósito aqui fazer um histórico dêste assunto do culto dos santos, mas o que dissemos já é bastante para que se veja que êle provém dos primeiros tempos da Igreja, sendo constante a sua prática, o seu uso desde os primeiros séculos até os dias de hoje.

379. CORPO MÍSTICO DE CRISTO.

E desde que êste culto assuma as suas devidas proporções, nisto não há nenhum crime da nossa parte, nem diminuição de glória para o Criador. Ao contrário, êle nos excita à piedade e nos une mais intimamente com Deus. A Igreja tem o cuidado de fazer a distinção entre o culto de LATRIA, ou de adoração prôpriamente dita, que é devido Unicamente a Deus, Nosso Senhor Supremo, a quem devemos a homenagem de todo o nosso ser; e o culto de DULIA, ou de veneração e de respeito que devemos aos santos, o qual, em lugar de roubar alguma coisa a Deus, ao contrário reverte em maior glória para Êle.

Somos, todos, membros de um só corpo, cuja cabeça é Cristo: Vós outros, pois, sois CORPO DE CRISTO e membros uns dos outros (1.ª Coríntios XII-27). Cristo é a cabeça do corpo da Igreja (Colossenses 1-18). Todo ato de virtude sobrenatural que o homem pratica é sob um certo aspecto, ato de Cristo, porque nada se pode fazer sem a graça de Deus, a qual nos foi merecida por Cristo na cruz e é, portanto, graça de Cristo; e por outro lado ato do homem, porque para haver virtude, é preciso que haja a livre cooperação e esfôrço da criatura humana. Membros de um só corpo, cuja cabeça é Cristo, corre de um certo modo nos que estão em graça santificante, a mesma seiva, o mesmo sangue, a mesma graça que havia em Cristo, e assim todo santo pode dizer, como dizia o Apóstolo S. Paulo: Para mim o viver é Cristo (Filipenses 1-21). Não sou eu jd o que vivo; mas Cristo é que vive em mim (Gálatas II-20). Rogo-vos, pois, que sejais meus imitadores, como também eu o sou de Cristo (1.ª Coríntios

Além disto, se Cristo é a cabeça da Igreja, porque o cristão em estado de graça está em íntima união com Êle, não se podem excluir dêste número aquêles que estão gozando da visão beatifica no Céu; êstes são os que mais intimamente do que nós aqui na terra, estão unidos a Cristo e para sempre, êstes fazem parte da Igreja de Cristo ainda melhor do que nós, porque são a própria Igreja que já atingiu a sua meta final, a sua glorificação.

Ora, se a Bíblia nos diz que Cristo é a cabeça e nós somos os membros, aí se salienta muito bem a solidariedade que há entre nós e Cristo, qual se sente perseguido, se nós o somos (Saulo, Saulo, por que ME persegues? — Atos IX-4), se sente objeto de carinho, quando o recebemos (quantas vêzes vós fizestes isto a um dêstes irmãos mais pequeninos, A MIM é que o fizestes — Mateus XXV-40).

Logo, Cristo se sente honrado e venerado, quando são honrados e venerados os seus santos. Nem se venha dizer que não podemos honrar e venerar os santos, pois se podemos honrar e venerar as pessoas aqui na terra, se a própria Bíblia nos diz que devemos HONRAR pai e mãe (Mateus XV-4) e que a GLÓRIA, a HONRA e a paz seja dada a todo ~dor do bem (Romanos II-10), por que motivo então não podemos honrar e venerar os santos, que por Deus mesmo já estão sendo honrados e glorificados nos Céus?

Cristo não pode de maneira alguma sentir-se ofendido, quando relembramos a vida dos santos e a propomos para a nossa imitação. Imitar a Paulo, imitar aos santos, é imitar a Cristo. E aí então o exemplo do Divino Mestre aparece sob um novo aspecto, ainda mais interessante. Muitos costumam dizer: Sim, Cristo sofreu pacientemente, e foi tão bom! mas Êle era Deus e eu sou um pecador de carne e osso, não posso fazer tudo aquilo que Ele fêz. Apresentando os santos que foram uma cópia, quanto possível, fiel, das virtudes de Cristo, que cooperando com A GRAÇA DE CRISTO, puderam dar a esta graça a oportunidade de realizar nêles verdadeiros prodígios de virtude, nós provamos não só que se deve imitar a Cristo, mas que também um pecador de carne e osso pode fazê-lo. Sob êste aspecto a cópia se mostra de certo modo mais convincente do que o original; porque o original poderia parecer-nos inatingível.

Pedimos aos santos que por sua vez peçam a Deus por nós. E a Igreja tem todo cuidado em separar as 2 fórmulas de oração. A Deus, à SS.ma Trindade, a Jesus Cristo dizemos: Tende piedade de nós. A Maria SS.ma, aos anjos e aos santos, dizemos simplesmente: orai por nós. Se Cristo não se sente ofendido, como reconhecem os próprios protestantes, quando pedimos aqui na terra uns as orações dos outros, não se sentirá também ofendido, se por um ato de humildade, convictos de que não sabemos orar com a perfeição como convém, pedirmos aos santos que orem em nosso lugar e supliquem a Deus por nós.

Amamos aos Santos, sim, e quem nos proíbe amá-los? Não temos obrigação de amar aqui na terra o próximo como a nós mesmos? (Mateus XIX-19) Os pais amam muito aos seus filhos, e os bons filhos, a seus pais; os noivos e esposos sinceros se amam muito, reciprocamente; há, entre os verdadeiros amigos, fortes e doces laços de afeição e de estima; isto em si não impede nem prejudica o amor de Deus, que deve estar acima de todos os amôres. Por que motivo então não podemos amar os santos? Será um amor ilícito e pecaminoso?

Entre os santos, amamos de maneira especial a Maria SS.ma. E se nos perguntarem o motivo, a resposta de todos os católicos do mundo inteiro é uma só: É porque é a mãe de Jesus e para ser a mãe de Jesus tinha que ser espiritualmente a mais bela das criaturas. Por que motivo, então, os protestantes imaginam um Jesus tão mesquinho de caráter, tão ciumento, tão ignorante, que vai ficar ofendido, porque amamos muito a Maria SS.ma e a amamos precisamente porque foi a sua mãe? Os protestantes agem com tanta lógica como aquêles que julgassem que o melhor expediente para agradar ao rei fôsse nã6 prestar nenhuma homenagem, não dar a mínima atenção, antes olhar com Uma certa antipatia e desprêzo àquela que é nada mais nada menos que a própria mãe do soberano.

Quando Jesus veio ao mundo, donde é que a Humanidade O recebeu, senão dos braços da SS.ma Virgem? São inseparáveis, portanto, a glória da mãe e a do Filho, a primeira é uma conseqüência inevitável da segunda.

Por isto, o próprio Lutero reconhecia que a Bíblia não precisava gastar muitas palavras para exaltar a grandeza de Maria, para isto bastava simplesmente dizer, como disse, que Maria era a mãe de Jesus (João II-1; Atos 1-14). (52) Tão natural, tão espontânea é esta homenagem prestada à mãe de tão grande Filho, que a Bíblia, em vez de condená-la, a profetiza como prestada por tôdas as gerações. Assim profetizou Maria, na sua visita a S. Isabel: Eis aí de hoje em diante me chamarão bem-aventurada tôdas as gerações (Lucas 1-48). Quem é que tem prestado a Maria esta homenagem de TODAS AS GERAÇÕES, senão a Igreja Católica? Por certo que não são os protestantes: 1.º — porque são do século XVI, não representam tôdas as gerações; 2.º — porque podem de hoje em diante mudar de atitude, mas até agora a sua grande maioria não tem feito outra coisa, neste sentido, senão protestar veementemente contra o carinho e a veneração com que cercamos a excelsa mãe de Deus. E como é que os protestantes ousam apontar a devoção a Maria, como uma das provas de que a Igreja se afastou da Bíblia, se com ela a Igreja está cumprindo uma das profecias consignadas no Livro Sagrado?

A devoção aos santos significa simplesmente que a mesma convivência que temos com as pessoas daqui da terra, a quem amamos, honramos, pedimos orações e enaltecemos, a mesma convivência queremos ter com Maria SS.ma e os santos, que são membros da nossa Igreja e membros ainda mais poderosos e mais elevados do que aquêles que nos cercam, porque estão mais perfeitamente identificados com Cristo lá no Céu. Há algum crime nisto? Não nos diz S. Paulo que a nossa conversação está nos Céus (Filipenses III-20)?

De modo que os protestantes estão completamente enganados. Querem provar que falhou a promessa de Cristo, quando disse: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei A MINHA IGREJA; E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA (Mateus XVI-18). Querem provar que a Igreja não é a COLUNA E FIRMAMENTO DA VERDADE (1.i' Timóteo III-15). Alegam para isto que a Igreja mergulhou no êrro; e para demonstrá-lo apresentam a nossa devoção à Maria SS.ma e aos santos. Procuram iludir os incautos com uma interpretação das palavras "ÚNICO MEDIADOR, interpretação esta que já demonstrámos ser completamente errônea. E se põem a balbuciar alguns argumentos infantis e extrabíblicos, para dizer que os santos não têm nenhum conhecimento do que se passa neste mundo. Mas os fatos contra os quais não há argumentos, mostram precisamente o contrário.

Logo, nem a Igreja caiu no êrro; nem falhou a promessa de Cristo, que aliás nunca poderia acontecer, porque Cristo é infalível.