Capítulo 17

QUARTA PARTE: OS IRMÃOS DE JESUS

CAPÍTULO DÉCIMO SÉTIMO: A VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA SANTÍSSIMA

393. O QUE PENSAVAM OS SANTOS PADRES.

Maria SS.ma, a mãe de Jesus, foi perpètuamente virgem ou não foi? Maria terá tido outros filhos além de Jesus?

Teremos naturalmente que examinar todos os textos da Bíblia que giram em tôrno desta questão. Antes disto, porém, temos uma pergunta a fazer: Quem está mais autorizado a nos dar uma segura informação a êste respeito, a nos dizer o que se deve pensar sôbre a virgindade de Maria: a Igreja Católica, que vem dos tempos de Cristo, que recebeu, portanto, na sua fonte, o ensino dos Apóstolos, ou os protestantes que só vieram a aparecer no século XVI? a Igreja Católica, que jamais teve a mínima dúvida sôbre êste assunto ou o Protestantismo em cujo seio, como vimos (n.° 238), têm .aparecido sôbre esta própria matéria, como sôbre tantas outras, opiniões bastante desencontradas?

O único fundamento em que se baseiam os adversários para duvidar da virgindade de Maria SS.ma, é a interpretação que dão a certas passagens do Evangelho. Mas êste mesmo Evangelho que os protestantes hoje lêem e comentam, não era também lido, manuseado, estudado cuidadosamente pelos Santos Padres? Se os protestantes vêem tão claro nos Evangelhos que Maria perdeu um dia a sua virgindade, seriam os Santos Padres tão cegos, tão loucos e ignorantes que não o tivessem visto?

Quando aparece no século 5.º um tal Helvídio "homem rústico e mal conhecedor das primeiras letras", como diz S. Jerônimo, querendo negar que Maria SS.ma tivesse sido virgem depois do parto, S. Jerônimo, além do exame que faz dos textos alegados, apresenta como argumento a unanimidade dos Santos Padres a respeito da virgindade perpétua de Maria. E quando lhe alegam Tertuliano que teria escrito alguma coisa neste sentido, admitindo que Maria não foi virgem depois do parto, S. Jerônimo observa muito bem que, contra o testemunho dos Santos Padres, o de Tertuliano nada vale, porque êle não foi um "homem da Igreja". De fato Tertuliano era cristão, era um grande escritor, mas afastou-se da Igreja, abraçando a doutrina do montanismo.

Mais ainda: hoje, quando um pastor protestante tem a ousadia de falar de público atacando a virgindade de Maria SS.ma, o povo católico se toma de indignação e o obriga a calar-se. Os protestantes vêem nisto apenas um sinal de ignorância, de pieguice e de sentimentalismo.

Pois bem, esta mesma indignação aparece igualmente bem clara nos escritos dos Santos Padres e de grandes escritores dos primeiros tempos da Igreja, o que é sinal de que não se trata de ignorância, mas de bom senso.

S. Ambrósio diz ássim: "Houve quem negasse que ela (Maria) tivesse permanecido virgem. Desde muito tempo temos preferido não falar sôbre ESTE TÃO GRANDE SACRILÉGIO. Maria não broma; não broma aquela que é mestra da virgindade; nem podia acontecer que aquela que em si tinha trazido Deus resolvesse andar às voltas com um homem. Nem José, varão justo, cairia nesta loucura de querer misturar-se com a mãe do Senhor em relação carnal" (De Inst. virgin. c 5, 6).

S. Hilário não só afirma que Maria permaneceu sempre virgem, mas também observa que os que pensam de maneira diversa são "IRRELIGIOSOS E ALHEIOS À DOUTRINA ESPIRITUAL" (Commentaria in Math. I, 3).

S. Epifânio exclama: "Donde é que surgiu esta PERVERSIDADE? Donde é que irrompeu tamanha AUDÁCIA? Porventura o próprio nome não é suficiente atestado? Quem houve jamais em tempo algum que ousasse proferir o nome de Maria e espontâneamente não acrescentasse a palavra VIRGEM?. . . O nome de virgem foi dado a Santa Maria, nem se mudará nunca, ela sempre permaneceu ilibada" (Adversus haereses Panarium).

Genádio diz o seguinte: "Com fé íntegra se deve crer que a bem-aventurada Maria, mãe de Cristo Deus, não só gerou como virgem, mas permaneceu virgem depois do parto e não se há de concordar com a BLASFÊMIA de Helvídio que disse: Virgem antes do parto, mas não virgem depois do parto" (Liber ecclesiasticorum dogmatum 35).

E é com veemência que S. Jerônimo se lança contra êste Helvídio que, embora admitindo a virgindade de Maria antes do parto e no parto, afirmava que ela tivera outros filhos depois. Após citar os vários textos em que se baseia a sua argumentação para provar que aquêles "irmãos" de Jesus não são filhos de Maria, S. Jerônimo acrescenta: "Ó o mais imperito dos homens, não tinhas lido estas coisas; e lançaste no pélago das Escrituras a tua raiva para injúria da Virgem, a exemplo daquele que. segundo contam, sendo desconhecido do povo e nada de bom podendo fazer, imaginou um crime para se tornar famoso: incendiou o templo de Diana. E não tendo dado resultado o sacrilégio, êle próprio saiu a público, afirmando aos gritos que Rira êle o autor do incêndio. E perguntando os magistrados de Éfeso por que motivo teria querido fazer isto, respondeu: para que, se não por bem, ao menos por mal me tornasse de todos conhecido. É, pelo menos, o que nos narra a história grega. Tu incendiaste o templo do corpo do Senhor; contaminaste o santuário do Espírito Santo, do qual pretendes ter saído uma quadra de irmãos e um montão de irmãs. Argumentas com o que dizem os judeus: Porventura não é êste o filho do oficial? Não se chamava sua mãe Maria e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? E suas irmãs, não vivem elas TUAS entre nós?.. (Mateus XIII-55 e 56). Tonos só se diz de uma multidão. Pergunto: quem te ensinou semelhante BLASFÉMIA? Quem é que te levava em conta? Mas agora conseguiste o que querias; tu te tornaste famoso no crime" (Adversus Helvidium).

Por aí se vê que o fato de indignar-se o povo cristão e católico, quando alguém nega ou põe em dúvida a virgindade da mãe de Deus, não é sinal de ignorância das Sagradas Letras, pois gente muito bem entendida nelas também mostrou a mesma indignação e revolta contra tão ousada blasfêmia. E a virgindade perpétua de Maria é doutrina comum e unânime dos Santos Padres.

Para não falarmos mais nos já citados:

Assim diz S. Efrém: "ó Virgem Senhora, imaculada deípara, senhora minha gloriosíssima, mais sublime que os Céus, muito mais pura que os esplendores, raios e fulgores solares... vara de Arão que germina, apareceste como verdadeira vara e a flor foi o teu filho verdadeiro, nosso Cristo Deus e Criador meu; tu segundo a carne geraste Aquêle que é Deus e Verbo, CONSERVANDO A VIRGINDADE ANTES DO PARTO, VIRGEM DEPOIS DO PARTO, e fomos reconciliados com Deus, teu Filho (Opera graeca. Apud Journel 745).

Referindo-se a Maria, diz S. Agostinho: "Virgem que concebe, virgem que dá à luz, virgem grávida, virgem que traz o feto, virgem perpétua" (Sermones 186, 1, 1).

"Virgem concebeu, virgem deu à luz, virgem permaneceu" — é uma fórmula usual referente a Maria SS.ma, empregada, não só nos escritos de S. Agostinho (Sermones LI, 8; CXC, 2; CXCVI,1) mas também nos de outros Santos Padres, como S. Pedro Crisólogo (Sermones 117), S. Leão Magno (Sermones 2,2) por exemplo.

Esta sempre foi desde o comêço a doutrina firme e universal da Igreja. Nein se venha dizer que esta opinião dos Santos Padres é motivada pelo fato de ser a virgindade perpétua de Maria definida pela Igreja como dogma de fé, pois esta definição só veio a dar-se no século 7.º, no Concílio de Latrão e tôdas estas citações aqui apresentadas não ultrapassam o século 5.° (54)

Portanto, está o leitor diante de 2 fatos: 1.° Há muitos protestantes que lêem a Bíblia e querem apresentar como certo, certíssimo, que Maria SS.ma não conservou a sua virgindade. 2.º Os Santos Padres tinham também à mão a mesma Bíblia e a seguiam fielmente e achavam que ela era infalível e já desde o princípio vêm afirmando como certo, certíssimo, muito antes que isto fôsse definido pela Igreja, que Maria SS.ma concebeu como virgem, deu à luz como virgem e como virgem permaneceu até o fim de sua vida.

É o caso de dizer o leitor: Deve haver qualquer engano nesta afirmativa dos protestantes, tanto mais que êles próprios já não estão de acôrdo entre si. Seria interessante examinar atentamente se têm valor ou não as alegações protestantes, comentando os textos bíblicos que êles nos apresentam.

— É o que vamos fazer, leitor amigo. E veremos se êsses protestantes que se mostram tão anchos com seu conhecimento superficial da Bíblia e que por isto mesmo tacham de ignorantes os que afirmam a virgindade perpétua de Maria SS.ma, veremos se êles conseguem realmente passar aos Santos Padres da Igreja êste atestado de burrice e ignorância.

394. NOIVA OU CASADA?

A Bíblia não nos diz com estas mesmas palavras que Maria SS.ma foi virgem antes do parto, no parto e depois do parto. Mas nos dá UM SINAL BEM CLARO, BEM EVIDENTE DA VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA

SANTÍSSIMA. É na cena da Anunciação do Anjo, narrada por S. Lucas.

Mas, antes de comentarmos esta cena e as palavras da Virgem nela proferidas, temos que fazer o leitor ficar ao par de uma pequena controvérsia que existe entre os intérpretes da Bíblia.

Narra-nos S. Lucas, descrevendo a anunciação, que foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem DESPOSADA com um varão que se chamava José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria (Lucas 1-26 e 27).

Que significa esta palavra DESPOSADA?

O têrmo correspondente no texto grego é o particípio passado passivo do verbo MNESTÉUO que tem 2 sentidos:

MNESTÉUO = casar, adquirir para si uma espôsa. MNESTÉUO = dar em casamento, prometer em casamento.

Assim o particípio EMNESTEUMÉNE, aí empregado em referência a Maria, pode ter 2 sentidos.

EMNESTEUMÉNE = que já se casou, que já está casada;

EMNESTEUMÉNE = cjue já noivou, que já foi dada ou prometida em casamento.

Não se sabe pelo texto se Maria, ao receber a anunciação do Anjo estava já casada com S. José, habitando com êle na mesma casa ou se era apenas uma noiva, prometida em casamento e aguardando o dia em que iria com êle habitar em conjunto. Mais adiante, ao relatar o nascimento, S. Lucas, dizendo que José foi à cidade de Davi, para se alistar com a .sua ESPOSA Maria (Lucas II-5) emprega a mesma palavra (EMNESTEUMÉNE) e aí evidentemente já estão casados, morando na mesma casa. Mas disto não se conclui que na hora da anunciação, esta palavra tenha o mesmo sentido, uma vez que servia para designar uma coisa ou outra: ou noiva ou casada.

Os melhores intérpretes se dividem nesta questão: S. Hilário, S. Basílio, Orígenes são de opinião que Maria era, então, simplesmente noiva; S. Ambrósio, S. João Crisóstomo, S. Pedro Crisólogo, S. Bernardo, Suarez são de opinião que ela já era casada, quando recebeu a visita do Anjo.

Os modernos também se dividem neste particular.

Não nos compete emitir parecer numa questão em que os grandes mestres discutem. Apenas queremos fazer menção de uma dúvida que logo ocorre ao espírito do leitor: Como podia Maria ser apenas uma simples noiva no momento da anunciação, se desde êsse momento ela vai conceber e depois vai mostrar sinais de gravidez? Os partidários da opinião de que se tratava apenas de simples noivado, apelam para a diferença entre os nossos costumes, os dos tempos de hoje e os costumes dos judeus de outrora, em que o noivado era já um contrato firmado dando aos noivos plenos direitos matrimoniais, tendo menor importância a cerimônia da realização do casamento, em que a noiva era introduzida na casa do noivo. Demos a palavra ao P.e Denis Buzy: "Todo o mundo reconhece hoje que os noivos judeus gozavam &o mesmos direitos matrimoniais que os esposos própriamente ditos. As provas se tornaram clássicas: a noiva infiel era punida com o apedrejamento, do mesmo modo que a espôsa culpada; a noiva que perdia seu noivo era assemelhada a uma viúva; a noiva, como a espôsa, não podia ser desprezada senão por uma carta de divórcio; o filho concebido no tempo do noivado era olhado como legítimo. Segundo a palavra de Calmet, o noivado, quase igualmente como o casamento, era uma COBERTURA suficiente para a reputação da mãe e do filho. Além disto, não precisamos que nos venham persuadir que Deus não podia prejudicar a honra daquela que Ële dava por mãe a seu Filho."

Mencionamos esta questão, porque ela vai influir na compreensão de certos textos.

Vejamos agora

395. A CENA DA ANUNCIAÇÃO.

Aparecendo a esta VIRGEM DESPOSADA com um varão que se chamava José (Lucas 1-27), a esta virgem chamada Maria, o anjo a saúda: Deus te salve, cheia de graça: o Senhor é contigo (Lucas 1-28). (55)

Diante da saudação do anjo, a Virgem se perturba; na sua humildade profunda não pode compreender tão alto elogio, tão honrosa saudação feita por um Anjo, admira-se como o Senhor podia assim pôr os olhos na baixeza de sua escrava (Lucas 1-48); em vez de envaidecer-se, confunde-se ante a mensagem que vem do Céu, tão longe está de se julgar em tão privilegiada situação perante Deus: Ela, como o ouviu, turbou-se do seu falar e discorria pensativa que saudação seria esta (Lucas 1-29).

O anjo então a tranqüiliza e aproveita a ocasião para lhe dar a grande notícia: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis conceberás no teu ventre e DARÁS À Luz um filho e por-Lhe-ás o nome de Jesus. Êste será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim (Lucas 1-30 a 33).

O grande ideal das filhas de Israel era ser mãe; que se dirá então dêste ideal mil vêzes mais elevado de ser mãe do Messias Prometido, daquele que iria reinar eternamente na casa de Jacó? Qual a moça judia que pensaria em opor dificuldades a esta perspectiva de se tornar mãe de uma maneira tão gloriosa?

Maria SS.ma, entretanto, vê uma grande dificuldade diante de si: Como se fará isso, pois EU NÃO CONHEÇO VARÃO? (Lucas 1-34).

Ora, estas palavras revelam claramente uma resolução decidida de CONSERVAR PERPÈTUAMENTE A SUA VIRGINDADE.

Maria SS.ma que já está casada ou, no mínimo, que já é noiva de S. José, fica sem compreender como pode ter um filho, se não conhece varão. É evidente que ela não se refere ao fato de não ter conhecido varão até a data presente, pois isto de maneira alguma representaria um impecilho ou uma impossibilidade. Pois não estava ela já casada com José? Ou, na hipótese de um simples noivado, não estava ela de contrato firmado com José para se casar dentro de pouco tempo? O Anjo não diz que ela já concebeu, nem que ela vai conceber naquele mesmo dia ou naquela mesma semana, apenas fala, sem determinação de tempo, numa coisa que irá acontecer para o futuro: CONCEBERÁS. Para uma noiva, esta revelação é o que há de mais natural; nenhuma noiva, em circunstâncias normais, acharia impossível êste acontecimento. Como bem observa Cornélio Alápide, ela diz: Mo CONHEÇO VARÃO assim como dizem os abstêmios NÃO BEBO VINHO, querendo significar com isto, não só que não bebem vinho presentemente, mas que não pretendem bebê-lo. Está Maria não diante de uma impossibilidade física, mas sim de uma impotência moral; se ela vê aí que é um problema tão difícil o nascimento de um filho, é porque está ligada a Deus pelo VOTO DE VIRGINDADE. E se existe êste voto de virgindade nela que está comprometida com S. José, é sinal de que houve entre ambos um pacto de perfeita continência.

E a prova de que a dificuldade que vê Maria SS.ma para ser a mãe do Messias é a sua inabalável resolução de conservar-se virgem, está na resposta dada pelo Anjo. Maria deve tranqüilizar-se a êste respeito, porque o Filho nascerá por um prodígio, sem quebra absolutamente de sua virgindade: O ESPÍRITO SANTO DESCERÁ SÔBRE TI e a virtude do Altíssimo te cobrirá da sua sombra. E por isso mesmo O SANTO QUE HÁ DE NASCER DE TI SERÁ CHAMADO FILHO DE DEUS. Que aí tens tu a Isabel, tua parenta, que até concebeu um filho na sua velhice; e êste é o sexto mês da que se diz estéril, PORQUE A DEUS NADA á IMPOSSÍVEL (Lucas 1-35 a 37)

Resolvida a dificuldade, explicado pelo anjo como se podem conciliar as 2 coisas, a virgindade e a maternidade (Deus, a quem nada é impossível, é que se encarregará de conciliá-las), só então é que Maria SS.ma dá o seu sim: Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lucas 1-38).

Uma pergunta naturalmente nos há de fazer o leitor: Tendo Maria SS.ma esta inabalável resolução de conservar a sua virgindade, como se explica que a vemos espôsa ou, pelo menos, noiva de S. José? Se ela queria permanecer virgem, não pareceria, humanamente falando, mais seguro ficar em casa sem ser noiva ou sem casar-se, do que procurar um casamento com pacto de continência?

— Nas circunstâncias em que estava Maria, dados os costumes e a mentalidade do povo judaico, o mais seguro para ela era casar-se com pacto de continência, tanto mais que na sua intuição tinha bem compreendido a castidade admirável de S. José. E explicaremos por quê.

Entre os judeus daquele tempo não se concebia que uma moça ficasse solteira. Quando a mulher chegava à idade de casar-se, os pais, os parentes lhe arranjavam um casamento e a moça tinha que submeter-se. O povo judeu, pequeno povo no mundo, mas povo eleito do Senhor, que cultuava o Deus Verdadeiro, sentia-se na necessidade absoluta de propagar-se.

Pelo seu casamento com S. José, Maria SS.ma não só satisfazia à imposição de seus parentes, como também ficava livre das possíveis importunações dos pretendentes à sua mão, ao mesmo tempo que realizava o seu ideal de virgindade.

E Deus que inspirara em ambos, em Maria e José êste alto ideal de castidade, preparava admiràvelmente a realização de seus desígnios. Queria que o Messias Prometido nascesse de uma virgem, mas era preciso que fôsse uma VIRGEM CASADA, para que se salvaguardasse perante o público o bom nome, a reputação da mãe e do filho. E no meio de tantas filhas de Israel que ambicionavam a glória de ser mãe do Messias, foi premiar justamente aquela que em tal preço punha a sua virgindade que renunciaria de bom grado a pretensão de ser a mãe do Salvador. Nem Maria nem José podiam ter a mínima idéia de que do seu lar abençoado e casto haveria de sair o Redentor do mundo; o seu desprendimento, a sua renúncia haviam conquistado o coração de Deus.

Voltemos, porém, à nossa argumentação.

Pelo colóquio entre Maria e o anjo Gabriel se vê claramente que MARIA CONSERVAVA UMA RESOLUÇÃO INABALÁVEL DE CONSERVAR A SUA VIRGINDADE; tão firme era esta resolução que Maria, ao receber a comunicação do Anjo, se lembra logo do seu voto feito a Deus, prestando mais atenção a êste seu compromisso do que à mensagem do Anjo, por mais tentadora que esta seja. Daí se conclui com tôda lógica que Maria foi virgem antes do parto, no parto e depois do parto.

1.º — VIRGEM ANTES DO PARTO. Isto não necessita de grandes demonstrações. Nem os protestantes entram em discussão sôbre êste ponto. Tanto as palavras do Anjo ditas a Maria na Anunciação, como a declaração explícita do Evangelista S. Mateus, segundo veremos daqui a pouco (n.º 399) são claras em afirmar que Jesus nasceu sem intervenção humana e que Maria estava intacta por ocasião de seu nascimento.

2.° — VIRGEM NO PARTO. Uma vez manifestado o desejo de Maria de conservar a sua virgindade, não seria o seu próprio Filho, Êle que nos ensina a honrar pai e mãe, que haveria de destruir no nascimento esta virgindade, da qual ela fazia tanta questão.

Além disto, o Evangelista S. Mateus apresenta o nascimento de Jesus como a realização da profecia de Isaías: Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que falou o Senhor pelo profeta que diz: Eis uma VIRGEM CONCEBERÁ e DARÁ À LUZ um filho e apelidá-lo-ão pelo nome de Emanuel que quer dizer: Deus conosco (Mateus 1-22 e 23).

Ora, esta profecia anunciava um GRANDE PRODÍGIO, pois Isaías tinha dito a Acaz: Pede para ti ao Senhor teu Deus algum sinal que chegue ao profundo do inferno ou ao mais alto do Céu (Isaías VII-11) e Acaz se recusara a pedi-lo: Não pedirei tal, nem tentarei ao Senhor (Isaías VII-12). Deus vai anunciar o grande prodígio, prodígio que Acaz não entenderá, como bem o merece a sua incredulidade; mas que S. Mateus mostra cumprido no nascimento de Jesus: Eis que uma VIRGEM CONCEBERÁ E DARÁ À LUZ um filho e será chamado o seu nome Emanuel (Isaías VII-14). É claro que ESTE GRANDE PRODÍGIO ficaria incompleto, se Maria pudesse conceber, permanecendo virgem e não pudesse dar à luz sem perda de sua integridade. E o texto afirma uma coisa e outra; diz: Eis que uma VIRGEM CONCEBERÁ e acrescenta: E DARÁ À LUZ.

Ir perguntar aos médicos como isto pode acontecer, quais são as suas explicações sôbre o caso, seria muito fora de propósito: seria o caso também de perguntar aos sábios como pôde Jesus entrar numa casa estando as portas fechadas (João XX-19) ou como pode um morto ressuscitar no terceiro dia.

3.º — VIRGEM DEPOIS DO PARTO. Se Maria SS.ma manifestou diante do Anjo aquêle firmíssimo propósito de conservar-se virgem, não se pode conceber que aquela que S. Isabel, inspirada pelo Espírito Santo, chamou bendita entre as mulheres (Lucas 1-42) tivesse a fraqueza de quebrar o seu voto. Se diante da própria perspectiva de ser a mãe do Messias, se diante da própria mensagem do Céu ela vê, no seu empenho de permanecer virgem, um obstáculo muito grande para aceitar a grande missão que lhe era confiada e só dá o seu consentimento quando o Anjo a tranqüiliza a respeito, como é que depois do nascimento de Jesus ela não se contentaria com um Filho tão nobre e tão sublime e procuraria ter outros? O mesmo se diga de S. José que a Escritura abertamente chama um homem justo (Mateus I-19). Não se concebe que, após o nascimento do Redentor, quisesse forçar ou induzir a sua espôsa a quebrar a sua inabalável resolução, quando a segurança com que Maria declara que não conhece varão (ela que demonstra assim conhecer as leis do matrimônio) mostra claramente que S. José estava de pleno acôrdo com o seu propósito, e voto de virgindade. Bem como seria grande presunção de sua parte querer violar o corpo virginal de Maria, que servira de templo ao Redentor.

Para quem sabe tirar lõgicamente as conclusões de um fato, para quem lê os Evangelhos com o desejo sincero de conhecer a verdade e não com a idéia preconcebida de contradizer a Igreja, para quem considera a Mãe de Deus como ela o era realmente, uma criatura santa e fiel aos seus compromissos assumidos para com Deus, o diálogo entre Maria e o Arcanjo S. Gabriel é uma prova cabal de sua PERPÉTUA VIRGINDADE.

396. ANTES DE COABITAREM.

Vejamos agora os textos do Evangelho, sôbre os quais se enganam redondamente os protestantes, julgando ver nêles uma prova de que Maria não foi virgem depois do parto.

dêles é o seguinte: Estando já Maria, sua mãe, desposada com José, ANTES DE COABITAREM, se achou ter ela concebido por obra do Espírito Santo (Mateus 1-18).

Tanto a palavra portuguêsa COABITAR, como a palavra grega a ela correspondente no texto, isto é, o verbo SYNÉRCHOMAI, têm 2 sentidos, um inocente e outro não.

SYNÉRCHOMAI = reunir-se em um mesmo lugar, habitar junto. SYNÉRCHOMAI = ter relações carnais.

Se modernamente no português o verbo COABITAR já começa a ser empregado mais neste 2.º sentido, isto nada tem que ver com a questão.

Não deixa de haver em português o 1.º sentido; consulte-se para isto qualquer dicionário. Além disto a Bíblia não foi escrita em português;

o texto do P.e Pereira que aí damos não é mais que a tradução da Vulgata, que por sua vez traduz o texto grego, e no grego há os 2 sentidos.

Fica, portanto, a questão: ANTES DE COABITAREM aí no caso quer dizer: ANTES DE MORAREM JUNTOS ou quer dizer ANTES DE TEREM RELAÇÕES CARNAIS?

Para se resolver esta questão, seria preciso, porém, resolver a outra, a qual não ficou devidamente elucidado: DESPOSADA no texto da Anunciação quer dizer CASADA ou quer dizer apenas NOIVA, DADA EM CASAMENTO?

Se DESPOSADA quer dizer simplesmente NOIVA, como opinam muitos bons intérpretes, então ANTES DE COABITAREM significa simplesmente: antes que o noivo José tivesse levado Maria para a sua casa e começassem a morar juntos sob o mesmo tecto. Não há, portanto, nenhuma prova contra a virgindade de Maria SS.ma.

Mas dirão os protestantes: O Sr. mesmo disse que também são muitos os bons intérpretes que afirmam que quando o Anjo anunciou a Maria, ela já estava casada, morando com José na mesma casa. Nesta hipótese então ANTES DE COABITAREM quer dizer evidentemente ANTES DE TEREM RELAÇÕES SEXUAIS. Ora, dizendo isto, o Evangelista mostra que de fato tiveram estas relações depois.

Quer dizer então que a objeção de Vocês vale somente sob condição. Está de pé a objeção somente no caso em que DESPOSADA queira dizer CASADA e MORANDO NA MESMA CASA.

Mas vamos supor mesmo como certo o que é discutido. Vamos supor como assentado de pedra e cal que Maria recebeu a mensagem do Anjo, quando já estava morando com S. José na mesma casa e que, portanto, ANTES DE COABITAREM quer dizer ANTES DE TEREM RELAÇÕES CARNAIS.

Mesmo assim, é inteiramente falha a argumentação de Vocês.

Daí não se segue forçosamente que houve tais relações depois. O fito do Evangelista é apenas frisar que não houve intervenção humana no nascimento de Jesus; e êle podia muito bem ter dito isto, mesmo sem cogitar de maneira alguma no que sucedeu ou podia ter sucedido depois. Nem sempre quando se diz: ANTES DE FAZER uma coisa, se segue que a coisa depois foi feita.

Podemos citar inúmeros exemplos.

Já S. Jerônimo, argumentando contra Helvídio, apresentava as seguintes frases:

ANTES DE ALMOÇAR NAQUELE PÔRTO, embarquei para a África. Paulo Apóstolo, ANTES DE CHEGAR À ESPANHA, foi prêso. Helvídio, ANTES DE FAZER PENITÊNCIA, morreu.

Daí não se segue que depois voltei àquele pôrto para almoçar. Não se segue que Paulo tivesse chegado à Espanha, nem que Helvídio, depois de morto, tivesse feito penitência.

Cornélio Alápide lembra as seguintes frases:

Êle, ANTES DE ENVELHECER, estava cheio de cabelos brancos.

Êste menino, ANTES DE ATINGIR A IDADE VIRIL, já é um Sábio.

Daí não sé conclui que êle tenha envelhecido, pode até ter morrido antes disto, mas o fato é que teve cabelos brancos antes de envelhecer. Nem se conclui que o menino tenha que atingir a idade viril para a frase ser verdadeira: a frase exprime apenas o que o menino é de inteligência precoce, pode muito bem morrer antes de tornar-se homem, como muitas vêzes acontece com os precoces.

Observa Calmet:

"Diz-se todos os dias que: Um homem morreu ANTES DE EXECUTAR SEUS PROJETOS. Segue-se daí que os tenha executado depois da morte? que: Um juiz condenou o réu, ANTES DE OUVI-LO. Segue-se que o tenha ouvido, depois de condená-lo?"

Realmente, caros amigos, nós dizemos:

Os alunos, ANTES DE PRESTAREM O EXAME, foram aprovados e diplomados;

O trem espatifou-se, ANTES DE CHEGAR À ESTAÇÃO DE TAL CIDADE;

quando é claro que, depois de diplomados, os alunos não prestarão mais exames e que o trem espatifado não chegou ao seu destino.

E quando dizemos: Os protestantes, ANTES DE ESTUDAREM A FUNDO AS QUESTÕES BÍBLICAS, se põem a doutrinar; não cogitamos se no caso êles irão depois estudar a fundo ou não estas questões bíblicas.

Em todos êstes casos ANTES DE FAZER equivale apenas a SEM FAZER:

Embarquei para a África SEM ALMOÇAR; Paulo foi prêso SEM TER CHEGADO à Espanha, Helvídio morreu SEM FAZER PENITÊNCIA; êle, SEM ENVELHECER, estava COM cabelos brancos; o menino, SEM SER HOMEM FEITO, já é um Sábio; O homem morreu SEM EXECUTAR OS seus projetos; O juiz condenou o réu SEM OUVI-LO; OS alunos foram diplomados SEM PRESTAREM EXAME; o trem espatifou-se SEM CIIEGAR àquela estação e os protestantes se põem a doutrinar SEM ESTUDAREM A FUNDO AS QUESTÕES BÍBLICAS.

A frase do Evangelho quer dizer apenas: Estando já Maria, sua mãe, desposada com José, SEM COABITAREM, se achou ter ela concebido do Espírito Santo. Seja qual fôr o sentido que se queira dar à palavra COABITAR, isto em nada atinge no caso a virgindade de Maria SS.ma.

397. NÃO TEMAS RECEBER MARIA, TUA MULHER.

Uma vez averiguado por S. José o estado de gravidez de Maria SS.ma, isto não deixou de ser um caso doloroso para êle. Não tinha nenhuma dúvida sôbre a virtude de Maria e por outro lado aparecia aquêle fenômeno tão estranho. Observa Calmet: "Êle creu que o que via nela, provinha antes de alguma violência que ela teria sofrido ou de alguma outra causa que lhe era desconhecida". Maria, por sua vez, guardava o segrêdo da revelação do Anjo, entregando-se confiantemente à Divina Providência que tudo solucionaria.

Nesta situação angustiosa, resolve José deixá-la secretamente. Foi a atitude que se lhe afigurou mais prudente e acertada. Um anjo, então, em sonhos lhe explica o ocorrido. É a melhor solução e a que não podia faltar; o papel de José como preservador da reputação de Maria é indispensável; e por outro lado a revelação feita pelo Céu torna-se mais honrosa para a Santíssima Virgem.

O Anjo diz a José: Não temas RECEBER a Maria, tua mulher, porque o que nela se gerou é obra do Espirito Santo (Mateus 1-20). E diz o Evangelho que despertando José do sono, fêz como o anjo do Senhor lhe havia mandado e RECEBEU a sua mulher (Mateus 1-24).

Que significa êste verbo RECEBER aí expresso duas vêzes? Corresponde ao verbo grego:

PARALAMBÁNO — receber ao pé de si ou consigo (como mulher ou companheira, como filho adotivo ou como auxiliar ou aliado); acolher, dar hospitalidade; tomar a seu cargo; aceitar, admitir.

Na hipótese de que S. José, ao receber o aviso em sonhos, estivesse simplesmente noivo, a palavra do Anjo quer dizer: Não temas realizar com Maria a cerimônia do casamento e levá-la para tua casa.

Na hipótese de que já estivessem casados, quer dizer: Não temas aceitá-la como tua mulher, não a abandones.

Talvez o protestante queira tirar desta palavra TUA MULHER, uma conclusão contra a virgindade de Maria SS.ma. Tudo é possível na cabeça de um leitor malicioso. Mas chamando-a TUA MULHER, o Evangelista quer referir-se apenas ao que ela é LEGALMENTE, ou melhor, perante a lei, perante o público, sem cogitar daquilo que se passa na intimidade conjugal. E é assim que sempre procedem os Evangelhos. O próprio S. Mateus, neste mesmo capítulo, começa o seu Evangelho fazendo a genealogia de Jesus Cristo pelo lado de S. José, embora sabendo perfeitamente que êle não é o pai de Jesus. Quando o Menino é apresentado no templo, José e Maria ficam encantados com as palavras de Simeão, e o Evangelista os chama de pai e mãe do Menino: E seu PAI e mãe estavam admirados daquelas coisas que dÊle se diziam (Lucas II-33).(56)

E a própria Maria SS.ma chamou a José de PAI do Menino, quando êle se perdeu, com doze anos e foi achado no templo de Jerusalém: Sabe que teu PAI e eu te andávamos buscando cheios de aflição (Lucas II-48). Alguns querem tirar daí argumento para dizer que José foi pai verdadeiro de Jesus, e não pai adotivo. Mas os próprios protestantes não concordam com isto, porque está evidente nos Evangelhos que a concepção de Cristo foi virginal. Faz-se a genealogia de José, chama-se a José de pai, porque perante a lei êle é o pai do Menino.

Assim também, perante a lei Maria é a mulher de José; se há entre êles um pacto de continência, se ambos espontâneamente renunciam na intimidade os seus direitos matrimoniais, não é por isto que Maria deixa de ser realmente a mulher de José.

398. O PRIMOGÊNITO.

Outro argumento que os adversários da virgindade perpétua de Maria acham fortíssimo, mas que na realidade não prova coisa alguma, é o fato de Jesus ser chamado PRIMOGÊNITO.

Isto acontece 2 vêzes no texto da Vulgata: em S. Mateus e em S. Lucas.

E êle não na conheceu enquanto ela não deu à luz ao seu PRIMOGÊNITO; e Lhe pôs por nome Jesus (Mateus 1-25).

....E deu à luz o seu filho PRIMOGÊNITO e O enfaixou e O reclinou em uma manjedoura (Lucas II-7).

Queremos notar, não para nos descartarmos desta palavra PRIMOGÊNITO, o que não é possível, pois aparece em S. Lucas (nem há necessidade disto, como veremos), mas por simples informação ao leitor, que a palavra PRIMOGÊNITO não aparece no texto grego de S. Mateus.

OUK (não) EGÍNOSKEN AUTEN (a conhecia) HÉUS (até que) ETEKEN (deu à luz) HYIÓN (um filho) KAI (e) EKÁLESEN (chamou) TÓ ÓNOMA AUTÓU (o nome dËle) IESÓUN (Jesus).

A palavra deve ter sido acrescentada por distração de algum copista influenciado pelo fato de aparecer a mesma em S. Lucas. Como testemunho insuspeito, temos a tradução da Sociedade Bíblica do Brasil, a qual não traz aí no texto de S. Mateus esta palavra: E não a conheceu, enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus (Mateus 1-25).

O fato, porém, é que no Evangelho de S. Lucas se diz que Maria deu à luz seu filho PRIMOGÊNITO.

Ora, dizem os protestantes, PRIMOGÊNITO quer dizer o primeiro que foi gerado; logo, nasceram outros. Além disto, S. Lucas escreveu o seu Evangelho não no tempo em que o Menino nasceu, porém muitos anos depois da morte de Cristo; se o Evangelho diz PRIMOGÊNITO e não Unigênito, isto é sinal de que o Evangelista sabia da existência de outros filhos. Logo, Maria não foi virgem depois do parto.

— Tôda esta argumentação se baseia num falso fundamento: o protestante, no caso, não tem uma idéia exata do que quer dizer PRIMOGÊNITO.

E a questão não está em saber qual a impressão que vai produzir esta palavra no espírito de um herege que está ansioso por encontrar argumentos afim de provar que Maria SS.ma perdeu um dia a sua virgindade. A questão está em saber qual o significado que davam os hebreus à palavra PRIMOGÊNITO, pois é neste sentido que a empregam os Evangelhos.

PRIMOGÊNITO era simplesmente isto: aquêle antes do qual não tinha nascido outro. Nascessem outros depois ou não, isto não importava no caso; o primeiro que nascia era PRIMOGÊNITO sempre e, como tal, tinha uma especialidade, era consagrado a Deus: Falou mais o Senhor a Moisés e lhe disse: Consagra-me todos os PRIMOGÊNITOS que abrem o útero de sua mãe entre os filhos de Israel, assim de homens como de animais, porque TODOS ÊLES SÃO MEUS (Êxodo XIII-1 e 2). Todo o macho que abre o útero de sua mãe será meu; os de todos os animais, assim de vacas como de ovelhas, serão meus (Êxodo XXXIV-19).

E é precisamente porque vai descrever depois a apresentação do Menino no templo, na sua qualidade de primogênito, que Lucas, ao relatar o nascimento de Jesus, O chama dêste modo: E depois que foram concluídos os dias da purificação de Maria, segundo a lei de Moisés, O levaram a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o filho macho que fôr PRIMOGÊNITO será consagrado ao Senhor (Lucas II-22 e 23).

Quanto a S. Mateus, como vimos, o texto grego não traz esta palavra, mas ainda mesmo que a trouxesse, isto em nada afetaria o caso. Se primogênito é o PRIMEIRO QUE É GERADO, como a própria palavra está dizendo, se primogênito era uma classe especial de homens consagrados a Deus, pouco importa que depois dêle tenham nascido outros ou não, aquêle que antes de si não teve nenhum irmão é eternamente e para todos os efeitos o primogênito. Quando Deus, como se conta no Êxodo (XII-29 e 30) fêz morrer no Egito todos os PRIMOGÊNITOS, é claro que mesmo aquêles que já eram homens feitos e não tinham tido mais nenhum irmão ou irmã, e mesmo que os não pudessem ter mais, por haverem morrido seus país, ainda assim entravam no rol: se eram os primeiros filhos, se antes dêles não tinha nascido nenhum, era o quanto bastava para serem irrevogàvelmente primogênitos e, como tais, condenados à exterminação.

Esta era a significação da palavra BeKOR ou primogênito entre os hebreus: o primeiro que nasce, independentemente da consideração se depois dêle nascem outros ou não. Uma antiga inscrição judia encontrada em Tell-el-Yedouhieh, fala-nos de uma jovem mulher chamada Arsinoé que morreu "entre as dores do parto do seu filho PRIMOGÊNITO". Aliás, c mesmo se podia dizer em nossa língua, sem que nisto houvesse nenhuma falta de lógica, uma vez que não repugna que haja PRIMEIRO SEM SEGUNDO, porque alguém pode dizer, por exemplo: Este foi o meu primeiro discurso, aliás PRIMEIRO E ÚLTIMO, porque não falarei mais em público. Como se vê, a noção de PRIMEIRO e a noção de ÚLTIMO não implicam necessàriamente uma contradição.

E fazendo ressaltar em Jesus a sua qualidade de PRIMOGÊNITO, o Evangelista quer relembrar apenas que, pela lei mosaica, Êle era, como todos os primogênitos, consagrado a Deus.

399. O USO DE ENQUANTO E ATÉ QUE ENTRE OS HEBREUS.

Mas onde se mostra bem claramente um modo bem diverso de expressar-se, entre o nosso idioma e a linguagem usada antigamente entre os hebreus, é na frase empregada por S. Mateus, referindo-se a S. José:

E êle não na conhecia ENQUANTO ela não DEU À LUZ o seu primogênito; e Lhe pôs por nome Jesus (Mateus I-25).

Ferreira de Almeida e Pe. Matos Soares apresentam a conjunção subordinativa de um modo ainda mais conforme ao texto grego e ao latim da Vulgata:

Ferreira de Almeida: E não a conheceu ATÉ QUE deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus (Mateus 1-25).

Pe Matos Soares: E não a conhecia ATÉ QUE deu à luz seu filho primogênito; e pôs-Lhe o nome de Jesus (Mateus 1-25).

Não há dúvida que isto dito assim em nossa língua parece dar a entender que José a conheceu depois; mas a questão está em saber se no modo de falar dos HEBREUS DAQUELE TEMPO, SE NO MODO DE FALAR DA BÍBLIA se tira esta conclusão. E aí se vê o perigo de pôr-se a Bíblia, um livro escrito há tantos séculos e apresentando uma linguagem bem diversa da nossa, nas mãos de qualquer pessoa, com o direito de interpretá-la como lhe vem à cabeça, sem ter o conhecimento da índole das línguas antigas.

Segundo o modo de falar dos hebreus (e S. Mateus é um hebreu da gema e aliás_ escreveu o Evangelho na sua própria língua, sendo o texto grego uma tradução e-quem traduz a Escritura, o faz palavra por palavra, para respeitar o texto sagrado, além disto é certo que o grego do Novo Testamento está repleto de hebraísmos), segundo o modo de falar das línguas semíticas:

não a conheceu ENQUANTO ela não deu à luz;

não a conheceu ATÉ QUE ela deu à luz;

quer dizer simplesmente isto: sem que a tivesse conhecido, ela deu à luz — sem nenhuma preocupação com o que aconteceu ou não aconteceu depois.

O leitor naturalmente exige provas, quer que se apresentem frases semelhantes nas Escrituras.

Pois bem, não será difícil apresentá-las.

Vejamos o Gênesis.

Houve o dilúvio em que caiu a chuva sôbre a terra quarenta dias e quarenta noites (Gênesis VII-12). As águas cresceram e engrossaram prodigiosamente por cima da terra, e todos os mais elevados montes que há debaixo do Céu ficaram cobertos; tendo a água chegado ao cume dos montes, elevou-se ainda por cima dêles quinze côvados (Gênesis VII-19 e 20). E as águas tiveram a terra coberta cento e cinqüenta dias (Gênesis VII-24).

Noé e os seus estão na arca. Depois dos 150 dias começam as águas a diminuir: E as águas... começaram a diminuir-se depois de cento e cinqüenta dias (Gênesis VIII-3). É natural agora, portanto, a curiosidade de Noé em saber a marcha em que se vai processando esta diminuição das águas e quanto tempo mais ou menos irá durar aquela moradia dentro da arca, que por certo não deve ser lá muito cômoda.

Solta então um corvo que não volta mais (Gênesis VIII-7);

solta depois uma pomba que, não achando onde pousar, volta bem depressa para a arca (Gênesis VIII-9);

sete dias depois, solta outra pomba e esta volta para Noé sôbre a tarde, trazendo no seu bico um ramo de oliveira com as fôlhas verdes (Gênesis VIII-11). É já um bom sinal;

espera Noé mais sete dias e solta outra pomba que não torna mais a êle (Gênesis VIII-12).

O corvo não se mostrou bom mensageiro; enrascou-se no meio das águas e não acertou o caminho para voltar. Daí o ditado entre os hebreus de se chamar corvo mensageiro ao portador que não dá conta de seu recado.

Pois bem, em lugar de dizer, como nós diríamos, que a arca pousou em terra, SEM QUE o corvo tivesse voltado, a Escritura diz da seguinte maneira: abriu Noé a janela que tinha feito na arca e soltou um corvo, o qual saiu e não tornou mais, ATÉ QUE AS ÁGUAS QUE ESTAVAM SÔBRE A TERRA SE SECARAM (Gênesis VIII-6 e 7). (57)

Ora, é evidente que o corvo não voltou mais à arca, depois que ela pousou em terra; nem isto interessa mais ao narrador, que quis mostrar apenas a marcha dos acontecimentos enquanto estavam na arca. Mas é o modo de falar dêles naquele tempo. Assim também, em vez de dizer: Maria deu à luz, sem que José a tivesse conhecido, S. Mateus diz que José não a conheceu, ATÉ QUE ela deu à luz. O que interessa ao narrador no caso é simplesmente mostrar que a concepção de Jesus foi virginal.

Mas vamos a outros exemplos.

Em vez de dizer: Reduzirás a pó os reis, SEM QUE NINGUÉM TE POSSA RESISTIR, a Bíblia diz: Entregar-te-á nas tuas mãos os seus reis, e fará que não fique memória de seus nomes debaixo do Céu; ninguém te poderá resistir, ATÉ QUE OS TENHAS FEITO EM PÓ (Deuteronômio VII-24). É claro que, depois de reduzidos a pó os reis, com maioria de razão ninguém poderá resistir. Mas êste é o modo de falar dos antigos: ninguém resistirá ATÉ QUE os tenhas feito em pó.

Em vez de dizer: Micol, filha de Saul, morreu SEM TER TIDO FILHOS, a Bíblia diz: Micol, filha de Saul, não teve filhos ATÉ O DIA DA SUA MORTE (2.º Reis VI-23).

Em vez de dizer: Morrereis, SEM QUE esta iniqüidade vos seja perdoada, Isaías diz: Não se vos perdoará por certo esta iniqüidade ATÉ QUE MORRAIS, diz o Senhor Deus dos exércitos (Isaías XXII-14). Vê-se muito bem que Deus não quer dizer aí que, depois de mortos, vai dar-lhes o perdão; mas sim que morrerão sem alcançá-lo. E no mesmo profeta Isaías, em vez de se dizer: Estabelecerá a justiça sôbre a terra, SEM PRECISAR SER TRISTE NEM TURBULENTO, se diz assim: Não -será triste nem turbulento, ATÉ QUE estabeleça na terra a justiça (Isaías XLII-4). É evidente que, se o libertador de Israel não foi triste nem turbulento antes do estabelecimento da justiça, muito menos o será depois de estabelecê-la. Mas êste é o estilo da Bíblia, O ATÉ QUE, e o ENQUANTO NÃO, não têm na Bíblia o mesmo sentido que têm na nossa linguagem comum, não exprimem absolutamente uma restrição. Não há, portanto, restrição à virgindade de Maria naquela frase de S. Mateus.

Outros exemplos em que o ATÉ QUE não exprime nenhuma restrição, temos nos Salmos:

Corno os olhos da escrava nas nulos de sua senhora, assim os nossos olhos estão fitos no Senhor nosso Deus, ATÉ QUE tenha misericórdia de nós (Salmos CXXII-2). Quer dizer então que, depois que Deus tiver misericórdia, não olharemos mais para Êle e nÊle não teremos mais os olhos fitos? Não é êste absolutamente o sentido do Salmista.

Diz o Salmo 109: Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha mão direita, ATÉ QUE PONHA a teus inimigos por escabelo de teus pés (Salmos CIX-1). Quer dizer que depois de ter os inimigos debaixo de seus pés, aquêle Triunfador não estará mais sentado à direita do Senhor? Absolutamente não; porque aí é que vai começar a época melhor de reinar, de sentar-se glorioso, com os inimigos vencidos e subjugados a seus pés.

Mas é êste o estilo da Bíblia.

Não podemos, portanto, tomar uma frase bíblica e querer à fina fôrça interpretá-la de acôrdo com o nosso modo de falar de hoje, dentro da nossa língua; ela tem que ser vista como realmente é, uma palavra da Escritura que tem o seu estilo próprio, a sua linguagem peculiar.

E argumentar, muito entusiasmado, com estas frases que enganam à primeira vista, é mostrar apenas falta de conhecimento do que é a Bíblia.

José não conheceu a Maria, até que ela deu à luz o seu filho, quer dizer simplesmente, segundo o modo de falar das Escrituras, a afirmação de que Maria era virgem por ocasião de seu abençoado parto; esta afirmação absolutamente não é destruída por esta outra que também é verdadeira: Maria continuou virgem a sua vida inteira, ATÉ QUE morreu, o que por sua vez também não quer dizer que ela tenha perdido a virgindade depois da morte.

400. OS IRMÃOS DE JESUS.

Diante da frase de S. Mateus vista no número anterior, o leitor ainda poderá compreender como se tenham equivocado os protestantes, iludindo-se com as aparências.

Mas agora vai pasmar ao ver a malícia, a precipitação com que êsses enfatuados intérpretes da Bíblia que a lêem continuamente e procuram aprendê-la de cor, ainda vão tirar da expressão IRMÃOS DE JESUS uma conclusão contra a virgindade perpétua de Maria SS.ma. Senão, vejamos.

Sabemos que a Escritura não somente designa com o nome de irmãos aquêles que são filhos do mesmo pai ou da mesma mãe, como eram Caim e Abel, Esaú e Jacó, S. Tiago Maior e S. João Evangelista (que eram filhos de Zebedeu) etc.; mas também aquêles que são parentes próximos, como tios e primos.

A Escritura está cheia dêstes exemplos.

Abraão chama de irmão a Lot: Peço-te que não haja reixas entre mim e ti, nem entre os meus pastôres e os teus, porque somos IRMÃOS (Gênesis XIII-8). Mais adiante a própria Bíblia o chama assim: Abraão, tendo ouvido que Lot, seu IRMÃO, ficara prisioneiro... (Gênesis XIV-14). Pois bem, Lot era apenas sobrinho de Abraão, pois já antes disto se lê no Gênesis: Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã. E êle levou consigo a Sarai, sua mulher, a Lot, FILHO DE SEU IRMÃO, e todos os bens que possuíam (Gênesis XII-4 e 5).

Labão diz a Jacó: Acaso, porque tu és meu IRMÃO, deves tu servir-me de graça? (Gênesis XXIX-15). E no entanto Jacó era SOBRINHO de Labão: Isaque chamou a Jacó e o abençoou e lhe pôs por preceito dizendo: Não tomes mulher da geração de Calma; mas vai e parte para Mesopotâmia .... e desposa-te com uma das filhas de Labão, TEU TIO (Gênesis XXVIII-1 e 2). Realmente Jacó era filho de Isaque com Rebeca (Gênesis XXV-21 a 25) e Rebeca era irmã de Labão: Rebeca, porém, tinha um irmão chamado Labão (Gênesis XXIV-29). E no entanto não só, como vimos acima, seu tio o chama IRMÃO, mas também quando Jacó se encontra com Raquel, que é filha de Labão (Gênesis XXIX-5 e 6), diz à moça que é IRMÃO de Labão: E lhe manifestou que era IRMÃO de seu pai e filho de Rebeca (Gênesis XXIX-12).

Lê-se no Levítico que Nadab e Abiu, FILHOS de ARÃO (Levítico X-1) são mortos por castigo, por terem oferecido um fogo estranho nos seus turíbulos. Moisés chama os primos dos que faleceram: Misael e Elisafél, FILHOS de Oziel, TIO DE ARÃO (Levítico X-4) e lhes diz: Ide, tirai vossos IRMÃOS de diante do santuário e levai-os para fora do campo (Levítico X-4).

Lê-se no livro de Paralipômenos que Eleazar e Cis são filhos de Moholi: FILHOS DE MOHOLI : Eleazar e (xis (1.° Paralipômenos XXIII-21), portanto irmãos no verdadeiro sentido da palavra. Eleazar só teve filhas e não filhos; as filhas dêle se casaram com os filhos de Cis. Espera-se que a Escritura diga: casaram-se com os filhos de Cis, que eram seus primos; mas ela diz: com os filhos de Cis, seus IRMÃOS. E Eleazar morreu e não teve filhos, senão filhas; e casaram com os filhos de Cis, SEUS IRMÃOS (1.º Paralipômenos XXIII-22).

É dentro dêste costume hebreu de designar com o nome de IRMÃOS, não só os que têm os mesmos pais, senão também os parentes próximos como tios, primos e sobrinhos, pois o hebraico não possuía palavras próprias para designar êsses parentescos, que o Novo Testamento fala em IRMÃOS DE JESUS e é o próprio Novo Testamento QUE SE ENCARREGA DE DEMONSTRÁ-LO.

Querem ter a PROVA os nossos amigos protestantes?

Dá alguma vez o Evangelho os nomes dêsses irmãos de Jesus, para que possamos identificá-los?

Sim, dá. Sabe-se dos nomes, pelo menos de '4: Tiago, José, Judas e Simão: Não é êste o oficial, filho de Maria, IRMÃO de TIAGO e de JosÉ e de JUDAS e de Sisdo? não vivem aqui entre nós também suas irmãs? (Marcos VI-3). Porventura não é êste o filho do oficial? Não se chamava sua mãe Maria, e seus irmãos TIAGO E JOSÉ E SIMÃO E JUDAS? E suas irmãs não vivem elas tôdas entre nós? (Mateus XIII-55 e 56).

Pois bem, êste TIAGO que encabeça a lista é um Apóstolo, pois diz S. Paulo na Epístola aos Gálatas: E dos outros APÓSTOLOS não vi a nenhum, senão a TIAGO, IRMÃO DO SENHOR (Gálatas 1-19).

Quer dizer então que, segundo a opinião dêsses protestantes, êste Tiago Apóstolo era filho de Maria, mãe de Jesus; e de Maria e de José, porque, como os próprios protestantes reconhecem, Maria nunca teve filhos antes de seu casamento com José. E não se casou com outro depois da morte de José, pois na hora da morte de Cristo, ela está sôzinha, sem marido e Cristo a entrega a S. João Evangelista; além disto se Maria tivesse casado outra vez, seus filhos estariam pequenos, não estariam em idade de ser Apóstolos.

Temos 2 Apóstolos com o nome de Tiago: Tiago Maior e Tiago Menor. Vamos ver se algum dêles era filho de José com Maria.

S. Tiago Maior era irmão de S. João Evangelista, e ambos FILHOS DE ZEBEDEU: Da mesma sorte havia deixado atônitos a TIAGO e a JoÃo, FILHOS DE ZEBEDEU (Lucas V-I0).

S. Tiago Menor, que era irmão de Judas, era filho de ALFEU. Entre os Apóstolos, que são enumerados por S. Mateus, estão: Tiago, FILHO DE ZEBEDEU e Tiago FILHO DE ALFEU (Mateus X-3). Que tem que ver Maria SS.ma com êste Alfeu ou com êste Zebedeu? logo, êste Tiago, IRMÃO DO SENHOR, não é seu filho.

Além disto, comparando-se os Evangelhos, se vê claramente que êste Tiago e êste José que encabeçam a lista são PRIMOS de Jesus, e o Tiago é o Apóstolo Tiago Menor. Enumerando as mulheres que estavam juntamente com Maria ao pé da cruz, Mateus, Marcos e João as identificam da seguinte maneira:

dados da tabela:

MATEUS XXVII-56: Maria, mãe de Tiago e de José; Maria Madalena; a mãe dos filhos de Zebedeu.

MARCOS XV-40: Maria, mãe de Tiago Menor e de José; Maria Madalena; Salomé.

JOÃO XIX-25: a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleofas: Maria Madalena.


Por aí se vê que a mesma Maria que é apresentada por S. João como tia de Jesus (irmã de sua mãe) é apresentada por S. Mateus e S. Marcos como mãe de TIAGO MENOR e de José. E é claro que não se trata de Maria Salomé, que é a mãe dos filhos de Zebedeu e, portanto, é mãe de Tiago Maior.

Tiago Menor e José são, portanto, PRIMOS de Jesus, e são os primeiros que encabeçam aquela lista:

TIAGO, JOSÉ, JUDAS E SIMÃO

E de fato o Apóstolo S. Judas Tadeu era irmão de S. Tiago Menor, pois êle diz no comêço de sua Epistola: Judas, servo de Jesus Cristo e IRMÃO de Tiago (vers. 1.º). Tanto o Evangelho de S. Lucas (VI-16) como os Atos dos Apóstolos (I-13) para diferençarem Judas Tadeu de Judas Iscariotes, chamam a Judas Tadeu: Judas, irmão de Tiago.

E assim cai por terra fragorosamente a alegação dos protestantes de que Maria teve outros filhos além do Divino Salvador, alegação baseada em que o Evangelho fala em IRMÃOS DE JESUS. Não só provámos que entre os hebreus se chamavam IRMÃOS os parentes próximos, mas também mostrámos que a lista dos nomes apresentados como sendo dêstes IRMÃOS é logo encabeçada por DOIS PRIMOS, filhos da irmã da mãe de JesUs. Logo, não tem nenhum valor a alegação.

A única dificuldade, esta agora já sem importância, que pode fazer protestante é que Tiago Menor é filho de ALFEU, e sua mãe é apresentada COMO MULHER DE CLEOFAS.

Sem precisar recorrer a nenhum argumento de tradição (porque talvez os protestantes não gostem disto) temos que observar o seguinte:

1.º — o texto original não diz MULHER DE CLEOFAS, mas diz simplesmente: a irmã de sua mãe, Maria, a do Cleofas (texto grego de João XIX-25); podia chamar-se Maria, a do Cleofas, por causa do pai ou por outro qualquer motivo;

2.º — não repugna que a mesma Maria se tenha casado com Alfeu e dêle tenha tido S. Tiago Menor e depois se tenha casado com Cleofas e tido outros filhos ou mesmo deixado de ter. Tiago é o único que é apontado nos Evangelhos como filho dêste Alfeu, pois o Alfeu, pai de S. Mateus (Marcos II-14) já deve ser outro;

3.º — não repugna que o próprio Alfeu seja o mesmo Cleofas. É muito comum nas Escrituras uma pessoa ser conhecida por 2 nomes diversos: O sogro de Moisés é chamado Raguel (Êxodo II-18 a 21) e logo depois é chamado Jetro (Êxodo III-1). Gedeão, depois de ter derribado o altar de Baal é chamado também Jerobaal (Juízes VI-32). Osias, rei de Judá é chamado também Azarias (4.º Reis XV-32; 1.º Paralipômenos III-12). E no Novo Testamento o mesmo Mateus é chamado Levi: Viu um homem, que estava assentado no telônio, chamado Mateus (Mateus IX-9) viu a Levi, filho de Alfeu, assentado no telônio (Marcos II-14). O mesmo que é chamado José é chamado Barsabas (Atos 1-23).

Ainda hoje mesmo, entre nós, nas nossas localidades do interior principalmente, é muito comum esta duplicidade de nomes.

Seja Alfeu o mesmo Cleofas ou não seja, isto pouco importa. O que é fato é que Maria de Cleofas é irmã de Maria, mãe de Jesus e é ao mesmo tempo mãe de Tiago e de José, que são chamados IRMÃOS do Senhor.

Queremos ainda chamar a atenção do leitor para o seguinte: êsses hereges que negam a virgindade perpétua de Maria SS.ma e que dizem que IRMÃOS de Jesus quer dizer FILHOS DE MARIA, atribuem à SS.ma Virgem Uma filharada enorme.

Além de Tiago, José, Judas e Simão, estão as IRMÃS DE JESUS, sôbre as quais S. Mateus apresenta os judeus dizendo: E suas irmãs não vivem elas TÔDAS entre nós? (Mateus XIII-56). Ora, para se dizer assim TÔDAS, é preciso que sejam de 3 para cima.

Além disto Tiago e Judas eram Apóstolos. Mas S. João no seu Evangelho já fala em IRMÃOS que são hostis a Jesus e Lhe dizem: Sai daqui e vai para a Judéia, para que também teus discípulos vejam as obras que tu fazes (João VII-3). Ali na Galiléia o ambiente não estava de todo favorável ao Divino Mestre, porque nem ainda seus IRMÃOS criam nÊle (João VII-5). É, portanto, mais outra tropa de irmãos a engrossar a fileira dos filhos de Maria.... (58)

E no entanto o Evangelho, descrevendo a vida de família em Nazaré, relatando a ida de Jesus ao templo de Jerusalém, quando o Menino Deus já tinha doze anos (Lucas II-42), não faz a mínima referência a irmão nenhum que Jesus tivesse. Se Maria teve assim tantos filhos, nessa ocasião já deveria ter alguns.

Os Evangelhos só vêm a falar em IRMÃOS de Jesus, quando Êle aparece na sua vida pública.

Mais ainda: na hora de sua morte, é a S. João Evangelista, filho de Zebedeu e de Salomé, que Êle encarrega de ficar tomando conta de sua Mãe SS.ma: Jesus, pois, tendo visto sua mãe e ao discípulo que Êle amava, o qual estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desta hora em diante a tomou o discípulo para sua casa (João XIX-26 e 27).

Se Maria teve tantos filhos e filhas, como se explica que ela tenha sido entregue aos cuidados de S. João Evangelista e que êste a tenha levado para sua casa? Dizer que êsses irmãos do Senhor tenham morrido dentro daqueles três anos da vida pública do Mestre, não é possível, pois S. Paulo continua falar em irmãos do Senhor que ainda estão vivos depois da morte de Jesus (1.ª Coríntios IX-5; Gálatas I-19).

É inqualificável esta AUDÁCIA, esta TEMERIDADE com que um protestante lê a sua Bíblia, assim tão às pressas, tão descuidadamente e sai depois, sem o menor escrúpulo, a blasfemar daquilo que ignora.

E é assim que se faz a interpretação protestante.

Uma interpretação superficial, que não aprofunda o sentido dos textos, que se ilude facilmente com as aparências, que não é baseada em nenhum princípio de lógica, que não se dá ao trabalho de confrontar

e harmonizar uma passagem com outra, e que usa freqüentemente de truques, de estéril jogo de palavras. Não estamos falando sem provas; o leitor já teve ocasião de sobra para apreciar tudo isto no decurso dêste livro: já vimos quanto valem os seus argumentos, quando querem estabelecer a tese de que a fé salva sem as obras, quando querem derrubar as teses do primado de Pedro, do poder e autoridade da Igreja, dos efeitos do Batismo, do Sacramento da Penitência, da presença de Jesus na Eucaristia, ou quando querem apresentar a Igreja como idólatra, por causa de suas imagens etc., etc.

É com esta interpretação superficial que êles se armam para procurar atingir o seu objetivo, que é combater a Igreja Católica, fundada por Jesus Cristo para ser a coluna e firmamento da verdade (1.° Timóteo III-15) e que tem a seu favor as divinas promessas de que jamais falhará, por mais encarniçadas que sejam as guerras desencadeadas contra ela pelas potestades infernais.

Nesta ânsia de combater a Igreja, pouco lhes importa o valor ou a qualidade das objeções; a quantidade, sim, é o que lhes interessa. Acumular objeções sempre mais e mais; se forem bem resolvidas, êles não cessarão a luta, terão sempre novas objeções a apresentar; estas nunca lhes faltarão, pois se a Bíblia apresenta dúvidas e dificuldades mesmo para os verdadeiros, sinceros e preparados intérpretes, quanto mais para quem vai manuseá-la sem a necessária sinceridade ou sem a devida competência.

E enquanto a razão humana se mostra assim tão fraca diante da Bíblia — mais fraca ainda, é claro, quando é perturbada pelo ódio sectário e pela ânsia de querer forçar os textos sagrados para amoldá-los aos interêsses de religiões inventadas pelos homens — a Igreja continua firme e serena no seu posto; só ela é que recebeu a missão divina de ensinar a todos os povos e por isto só ela é que possui a chave da legítima interpretação da Bíblia.