PRIMEIRA PARTE: A SALVAÇÃO PELA FÉ

CAPÍTULO TERCEIRO: COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ

39. NOVIDADE DE DOUTRINA.

Como vimos no começo deste livro, o pastorzinho protestante se gloriava de que o Protestantismo é a única religião no mundo a admitir a salvação só pela fé. É o que diz também Lutero: afirma que a sua teoria da justificação pela fé é o ponto "único pelo qual nós nos distinguimos, pelo qual nossa religião se distingue de qualquer outra religião" (Exegética ópera XXIII pág. 140).

Realmente, o Protestantismo só apareceu no século XVI. E até aquêle século, ninguém se tinha lembrado ainda de interpretar a Escritura de semelhante modo. Porque é tão clara na Bíblia a existência da lei de Cristo, na qual se inclui a obrigatoriedade dos mandamentos, a Bíblia fala tantas vêzes na necessidade do amor de Deus e da caridade para com o próximo para conquistar o Céu, a Bíblia, como vimos, insiste tanto em que Deus há de retribuir a cada um SEGUNDO AS SUAS OBRAS, que, até então, em tôda a história do Cristianismo, não se tinha podido conceber semelhante absurdo de que o homem se salva só pela fé. Absurdo, sim, porque é tão lógico e tão razoável que o homem, sendo livre nas suas ações, venha a conquistar o prêmio do Céu, entre outras coisas, pela sua reta maneira de proceder, que era preciso que aparecesse um homem que, embora dizendo-se seguidor de Cristo, negasse o livre arbítrio, a liberdade humana, para que se pudesse pregar semelhante doutrina. Éste homem apareceu e se chamou Martinho Lutero.

Deixando de lado certos aspectos nada edificantes da vida dêste célebre heresiarca, achamos utilíssimo, para fazermos uma idéia do que vale realmente a teoria da salvação só pela fé, estudar o modo como Lutero chegou a fazer esta "grande descoberta". Mas esta novidade de doutrina já nos deixa com uma pulga na orelha. Não parece estranho que Jesus Cristo tivesse fundado uma Igreja, feito propagar o seu Evangelho para ensinar aos homens o caminho do Céu, e por 15 séculos tivesse deixado a Humanidade às tontas, Êle que vela sôbre os homens e principalmente sôbre a Igreja pela sua Divina Providência e só no século XVI fizesse aparecer êsse Martinho Lutero para ensinar "a verdadeira doutrina da salvação"?

40. MARTINHO LUTERO FAZ-SE MONGE.

Martinho Lutero nasceu em Eisleben, na Alemanha, a 10 de novembro de 1483. Jovem católico e piedoso, que mantinha relações de amizade com alguns frades e andava impressionado com as tentações que sentia na convivência com outros estudantes, um dia um acontecimento vem a ser decisivo na sua vida. Estava com 19 anos incompletos, pois foi a 2 de julho de 1502. Surpreendido em viagem por uma violenta tempestade, ficou aterrado com a perspectiva da morte. E fêz uma promessa a S. Ana, a quem se costumava recorrer nesses transes: "Se tu me ajudas, S. Ana, tornar-me-ei frade." Mais tarde êle dirá naquela sua linguagem sempre estabanada: "Tornei-me frade por violência, contra a vontade de meu pai, de minha mãe, de Deus e do diabo... Fiz êste voto para me salvar" (Weimar T. tomo IV n.° 4414).

Digamos, entre parêntesis, que a alegação de Lutero não tem razão de ser. Ou o mêdo lhe transtornara completamente o uso das faculdades, ou não. No primeiro caso, o voto não o obrigava, pois para isto era preciso que se fizesse livremente. No segundo caso, sabia êle, como católico que era naquele tempo, que lhe restava um recurso: pedir a dispensa ao Sumo Pontífice, a quem foi dado o poder de ligar e desligar.

O fato, porém, é que Lutero entra no convento sem a necessária vocação. E, segundo êle próprio confessa, não encontrou a paz interior na vida religiosa.

Muitos autores que estudaram profundamente a personalidade de Lutero, entre os quais o católico H. Grisar (Lutero. 3.a edição. Tomo III págs., 596-673) e o historiador protestante A. Hausrath na sua biografia sôbre Lutero edição. Berlim; tomo II-págs, 31-36), são de opinião que Lutero era um homem doente e anormal. Da mesma opinião é o médico Guilherme Ebstein em obra aparecida em Stuttgart em 1908. Afirmando esta tese, apareceu uma obra em 2 volumes em Copenhague (1937 e 1941) escrita pelo médico P. J. Reiter e intitulada: Ambiente, Caráter e Psicose de Martinho Lutero. A obra, como é natural, desagradou aos luteranos e provocou discussões.

Seja, porém, como fôr, o que é certo é que Martinho Lutero era um sentimental e se preocupava doentiamente com o problema da predestinação, querendo sentir em si à fina fôrça a certeza de que era um predestinado. Queria experimentar claramente a sensação de que seus pecados estavam perdoados e de que se achava na graça de Deus e não sentia êste confôrto, esta certeza, por causa das tentações da nossa natureza corrompida. A acreditarmos nas suas palavras, êle era dominado por escrúpulos, chegando a confundir as tentações com o próprio pecado, que só existe quando as tentações são consentidas. Como êle dirá mais tarde: "Quando eu era monge, acreditava imediatamente que perdia minha salvação, cada vez que experimentava a concupiscência da carne, isto é, um mau movimento de desejo, de cólera, de ódio, de inveja a respeito de um irmão etc. Eu punha em uso muitos remédios, confessava-me diàriamente, mas isto não me servia de nada. Porque sempre a concupiscência da carne reaparecia. Eis por que eu não podia achar a paz, mas estava perpètuamente em suplício pensando: Tu cometeste tal ou tal pecado, estás ainda sujeito à inveja, à impaciência etc. Foi em vão que recebeste as ordens e tôdas as tuas obras são inúteis" (Comentário da E. aos Gálatas 1535. Weimar; tomo XL).

No meio dessas angústias, encontra um confessor e amigo, o Padre Staupitz, que o ajuda e faz o possível para acalmá-lo. Diz Lutero em uma carta dirigida a Jerônimo Weller em julho de 1530: "Nos começos de minha vida religiosa, eu estava sempre triste e não conseguia desembaraçar-me dêste estado dalma. Pedi então a orientação do doutor Staupitz e me confessei com êle. Manifestei-lhe meus pensamentos horríveis e aterradores. E êle me respondeu: Não compreendes, Martinho, que esta tentação te é útil e necessária? Não é em vão que Deus assim te exercita" (Weimar B. t. V.9 pág. 519). Em outra ocasião lhe diz Staupitz: "Por que te torturas com estas subtilezas? Volta o teu olhar para as chagas de Cristo e olha para o sangue que Êle derramou por ti" (Ópera exegética t. VI.9 296 e 297).

41. A "DESCOBERTA" DE LUTERO.

Apesar de todos os conselhos do seu diretor espiritual, a alma de Lutero cada dia mais se lança no desespêro. Está convencido de que o homem não é livre, pois não se liberta nunca do pecado. Um dia, porém, nos seus estudos sôbre a Bíblia, julga ter encontrado na Epístola aos Romanos a solução para o seu problema(4). Interpreta o Apóstolo S. Paulo a seu modo, de acôrdo com suas próprias idéias, de maneira que, como diz o próprio Strohl, autor protestante: "Foi a orientação puramente individualista e a fôrça de sua experiência pessoal que impediram Lutero de assimilar todo o pensamento do Apóstolo".

Se S. Paulo nos lembra que O justo vive da fé (Romanos 1-17), êste mesmo S. Paulo que nos diz: Tôdas as vossas obras sejam feitas em caridade (1.a Coríntios XVI-14) e nos afirma que o homem, mesmo tendo a fé a ponto de transportar montanhas, não é nada sem a caridade (1.a Coríntios XIII-2), Lutero não toma aquela frase no sentido de que tôdas as nossas ações devem ser revestidas de verdadeiro espírito de fé — mas no sentido de que na fé somente se resume tôda a vida do cristão. Se S. Paulo nos ensina que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28) no sentido de que não somos mais obrigados a cumprir tôdas aquelas determinações e cerimônias da lei mosaica, como adiante mostraremos no capítulo 6.9, Lutero toma isto no sentido de que não somos obrigados a obedecer a lei nenhuma, nem mesmo a observar os mandamentos. Se S. Paulo fala na liberdade da glória dos filhos de Deus (Romanos VIII-21) e diz que soltos estamos da lei da morte, na qual estávamos presos, de sorte que sirvamos em novidade do espírito e não na velhice da letra (Romanos VII-6), Lutero toma isto não no sentido de que os cristãos já estão libertos do jugo das prescrições da lei mosaica, mas no sentido de que os cristãos estão livres de tôdas as leis, tendo apenas a obrigação de crer.

Foi assim que nasceu a teoria da salvação só pela fé. Vejamos agora, em linhas gerais, a doutrina de Lutero, usando sempre as suas próprias palavras, pois vai aparecer tanta coisa espantosa que é melhor mesmo que Lutero fale, para que não se diga que estamos exagerando a sua doutrina.

42. NEGAÇÃO DO LIVRE ARBÍTRIO.

Não da leitura da Bíblia, mas da observação do que se passava no seu espírito doentio e tumultuoso, tirou Lutero a conclusão de que o homem não goza de liberdade. Eis as palavras de Lutero: "A vontade humana é como um jumento; se Deus o cavalga, quer e vai onde Deus quer, como diz o salmo: como jumento me tenho feito diante de ti e eu estarei sempre contigo (Salmos LXXII-23). Se Satanás o cavalga, quer e vai para onde vai Satanás, nem está em seu poder correr para outro cavalgador ou procurá-lo, mas os cavalgadores é que lutam entre si para alcançar o jumento e tomar conta dêle" (Weimar XVIII-635).

"Tudo se realiza segundo os decretos imutáveis de Deus. Deus opera em nós o mal e o bem. Tudo o que fazemos, fazemo-lo não livremente, mas por pura necessidade" (Weimar XVIII-709).

"Foi o diabo que introduziu na Igreja o nome de livre arbítrio" (Weimar VII-145).

Houve a êste respeito uma célebre polêmica entre Lutero e Erasmo, na qual Lutero escreveu um livro intitulado "O arbítrio escravo", combatendo a doutrina de que o homem goza de liberdade e Erasmo escreveu outro sob o título "O livre arbítrio", defendendo esta doutrina, embora também Erasmo errasse, caindo no pelagianismo.

Os magistrados começam a inquietar-se, porque o livre arbítrio é a base do direito civil e penal e também pelas péssimas repercussões das idéias de Lutero no seio do povo. Lutero responde: "Estou falando da vontade livre com relação a Deus e às coisas da alma. Pois que necessidade teria eu de disputar tanto sôbre a liberdade do homem no que diz respeito às vacas e aos cavalos, ao dinheiro e aos bens?" (Apud Denifle-Paquier III-267) "Mas no que toca à salvação ou condenação, o homem não tem livre arbítrio; é o cativo, o súdito e o escravo da vontade de Deus ou da vontade de Satanás" (Weimar XVIII-638).

43. O PECADO ORIGINAL.

Para Lutero, o anjo também não é livre, porque "o livre arbítrio é o apanágio exclusivo de Deus" (Weimar XVIII-664). Mas com o homem aconteceu uma grande desgraça. Foi o pecado original que tornou a nossa vontade inteiramente corrompida, completamente dominada pelo mal, segundo a doutrina luterana. E isto por tôda a nossa vida.

Diz Lutero: "Nossa pessoa, nossa natureza, todo o nosso ser está corrompido pela queda de Adão... Nosso pecado não é em nós uma obra ou uma ação; é a nossa natureza e todo o nosso ser" (Apud Doellinger. III-31).

No Comentário à Epístola aos Romanos cap. 5.o, afirma que o pecado original é "não somente a privação de qualidade na vontade, não sómente a privação de luz na inteligência e de poder na memória, mas a completa privação de tôda retidão do homem interior e exterior. É a própria tendência para o mal, náusea para o bem, aversão à luz e à sabedoria, amor ao êrro e às trevas, fuga e abominação das boas obras, corrida para o mal" (Ficker II, 144).

A conseqüência disto é que o homem só pode fazer o mal: "O homem, não sendo senão um tronco apodrecido, não pode produzir senão corrupção, não pode querer e fazer senão o mal" (Ópera latina I, 243 e 350).

"Tudo o que empreenderes, por belo e brilhante que seja, é pecado e continua sendo pecado. Faze o que quiseres, não podes senão pecar" (Apud Denifle-Paquier III-179).

E tudo o que o homem faz é, por sua natureza, pecado mortal: "Todo o pecado, no que diz respeito à substância do fato, é mortal" (Comentário da E. aos Gálatas. Erlangen III-24).

44. LUZ NAS TREVAS E CONSOLO NO DESESPERO...

Diante dêste quadro tenebroso, parece que estamos irremediàvelmente perdidos: não temos liberdade e trazemos, do berço até o túmulo, a natureza tão corrompida pela queda do primeiro homem, que tudo que fazemos é pecado e pecado mortal; como poderemos então salvar-nos?

Muito simples, segundo Lutero; basta crer em Jesus Cristo. Crê e serás salvo.

Que entende Lutero por esta palavra — crer?

Todos sabem que crer em Cristo significa aceitar tôda a sua doutrina. Lutero também admite a fé neste sentido, mas isto para êle não tem grande significação; não é propriamente neste sentido que a fé salva.

Ouçamos as suas palavras: "Cristo tem duas naturezas. Em que isto me interessa? Se Éle traz êste nome de Cristo, magnífico e consolador, é por causa do ministério e da tarefa que Êle tomou sôbre si... Crer em Cristo não quer dizer que Cristo é uma pessoa que é homem e Deus, o que não serve de nada a ninguém; significa que esta pessoa é Cristo, isto é, aquêle que para nós saiu de Deus e veio ao mundo... É dêste ofício que Êle tira o seu nome" (Erlangen XXXV-207). Em resumo, Lutero quer dizer que crer em Cristo significa simplesmente crer que Éle é o Salvador e nada mais.

A fé que salva é a confiança. O homem cheio de temor, de angústia, de horror diante de sua própria miséria, sabendo que não pode fazer outra coisa senão pecar, se lança nos braços de Cristo, seu Salvador e se enche da convicção de que pelo sangue de Cristo está salvo. Crendo que somos salvos por Cristo, estamos salvos.

45. NADA DE ARREPENDIMENTO, NEM DE BOAS OBRAS.

Não se pense, porém, que entre êstes sentimentos que levam o homem aos pés de Cristo, esteja incluído o arrependimento dos pecados. Não! Arrependimento supõe liberdade e o homem não é livre.

Lutero qualifica de "delírio" a atitude dos padres que exigem do penitente a contrição e o arrependimento e diz que "a êsses padres se deveria tirar o poder das chaves e dar-lhes um bastão para conduzir as vacas" (Apud Denifle-Paquier III-352). Porque o arrependimento só torna o homem "mais hipócrita e mais pecador". Ouçamos as suas palavras: "A contrição que se prepara pelo exame, recapitulação e detestação dos pecados, pelos quais alguém relembra os seus anos na amargura de sua alma, ponderando a gravidade, multidão e fealdade dos pecados, a perda da eterna felicidade e a aquisição da condenação eterna, esta contrição o faz hipócrita e até mais pecador" (Weimar VII-113).

Arrependimento supõe que o homem quer salvar-se por suas obras. E as boas obras, Lutero as considera inúteis para a salvação; embora tivesse caído às vêzes em contradição sôbre êste assunto, a doutrina predominante nos seus escritos é a inutilidade das boas obras; algumas vêzes até chegou a chamá-las de nocivas.

Com a nossa natureza corrompida não há boas obras, tudo o que vem de nós é pecado e "as boas obras são más, são pecado como o resto" (Apud Denifle-Paquier III-47).

Diz ainda Lutero: "A lei, as obras, a caridade, os votos não só não resgatam, mas agravam a maldição. Quanto mais obras fizermos, tanto menos poderemos conhecer e apreender a Cristo" (Weimar XL 1 Abt. pág. 447). "Ensinando as boas obras e excitando a fazê-las como necessárias à salvação, se causa maior mal do que a nossa razão humana pode compreender e conceber" (Apud Denifle-Paquier III-101).

Quando Jorge Maior, professor da Universidade de Vitemberga procurou reagir contra esta doutrina e ensinou que as boas obras seriam necessárias à salvação, um grande amigo de Lutero, Nicolau de Amsdorf publicou em contestação um livro, no ano de 1559 e neste livro defendia a seguinte tese: Que a proposição "as boas obras são nocivas à salvação" é justa, verdadeira, cristã, pregada por S. Paulo e S. Lutero. "Não há escândalo maior, diz Lutero, mais perigoso, mais venenoso do que a boa vida exterior, manifestada pelas boas obras e uma conduta piedosa. Isto é a porta de cocheira e o grande caminho que leva à condenação" (Apud Doellinger III-124).

46. A FÉ E A SALVAÇÃO, OBRAS EXCLUSIVAS DE DEUS.

Aqui perguntamos a Lutero: — Mas, se a nossa natureza está tão corrompida assim, que até as boas obras que fazemos são pecados, como é também que podemos crer?

Responde Lutero que a fé é Deus que "opera em nós, sem nós" e às vêzes até "apesar de nós" (Apud Denifle-Paquier III-272, 289).

A Igreja Católica, que admite o livre arbítrio, considera a fé como uma convicção da inteligência, sob o império da vontade livre e sob o influxo da graça divina. A graça de Deus se antecipa à ação humana, mas a fé é obra de Deus e do homem. Para Lutero, que só admite o arbítrio escravo, a fé é obra exclusiva de Deus.

A Igreja, como vimos, ensina que Jesus Cristo é o Único Salvador no sentido de que Cristo, reconciliando-nos com Deus, ofereceu-Lhe a reparação pelo pecado, que só Êle, Cristo, podia oferecer por ser Homem e Deus ao mesmo tempo. A obra de Cristo foi perfeitíssima; falta apenas a nossa contribuição, a qual realizamos juntamente com a graça de Cristo, que Êle mereceu por nós na cruz. Lutero toma Cristo como Único Salvador no sentido de que não existe também a nossa parte na obra da salvação. Êle fêz tudo: a sua parte e a nossa; se Êle nos salvou, não nos resta mais fazer nada: só crer. E esta fé, Êle é quem opera em nós, com exclusividade.

47. PECADO MORTAL E PECADO VENIAL.

Mas, se tudo o que fazemos é pecado, e pecado mortal, como podemos com êsses pecados entrar no céu?

Lutero esclarece: "Aquêle que crê tem tão grandes pecados como o incrédulo, mas lhe são perdoados, não lhe são mais imputados" (Comentário da E. aos Gálatas III-25).

Lutero não admite a justificação do pecador, no sentido católico de que êle se pode tornar realmente um justo, transformado e regenerado interiormente pela graça de Deus, mas no sentido de que Deus externamente o considera justo, embora êle seja realmente o mesmo pecador. O que não crê, tudo o que faz é pecado mortal; o que crê pode fazer as mesmas coisas, mas Deus por um decreto considera veniais todos êstes pecados. Diz Lutero: "Para aquêle que não crê, não sómente todos os pecados são mortais, mas tôdas as suas boas obras são pecados... É, portanto, pernicioso o êrro dos sofistas que distinguem os pecados de acôrdo com os atos e não de acôrdo com as pessoas. Naquele que crê o pecado é venial; é mortal para o que não crê, não que seja diferente, menor num e maior noutro, mas porque as pessoas são diferentes" (Weimar II-410; IV-161).

A razão desta diferença é que Jesus Cristo toma o lugar do pecador que crê. Cristo é "o manto que oculta a nossa vergonha, a cobertura de nossa ignomínia. Êle deixa o pecador pendurar-se nas suas costas e assim o livra da morte e do carcereiro" (Apud Denifle-Paquier III-67, 367) é "a galinha sob cujas asas devemos refugiar-nos, afim de que seu cumprimento da lei se torne o nosso. ó amável galinha! ó felizes pintinhos!" (Weimar I-35).

48. LIVRES DE TÔDAS AS LEIS! ...

Segundo Lutero, Cristo observou a, lei por todos aquêles que crêem, êstes não têm mais obrigação de observar a lei, observância que, segundo êle, é impossível, porque não há liberdade: "A palavra Evangelho significa boa nova, doutrina grata e consoladora para as almas... ouvir que a Lei já foi observada por Cristo, que nós não temos o dever de observá-la, mas só o de unir-nos pela fé Aquele que por nós a observou" (Weimar I-52). "Esta é a nossa doutrina que sabemos eficaz para consolar as consciências. Viveremos sem a lei e nos persuadiremos que os nossos pecados nos foram perdoados" (Weimar XXV-249). "Com propriedade pode definir-se o cristão: o homem livre de tôdas as leis no fôro interno e externo" (Weimar XL. 1 Abt. 235). "Assim vês quão rico é o homem cristão ou batizado que, mesmo querendo, não pode perder a sua salvação, por maiores que sejam os seus pecados, a não ser que não queira crer. Nenhum pecado pode condená-lo, a não ser somente a incredulidade. Todos os outros... se houver fé na promessa divina feita ao batizado são absorvidos pela mesma fé (Weimar VI-529).

Lutero se insurge contra a idéia de que Cristo é um legislador que nos veio ensinar uma moral sublime, promulgada no Evangelho:

"Erasmo e os papistas cuidam que Cristo é um novo legislador; na sua demência nada entendem do Evangelho, representam-no fantasticamente como um código de novas leis, à semelhança do que sonham os turcos do seu Corão" (Weimar XL. 1 Abt. pág. 259).

"O Evangelho não prega o que devemos fazer, não exige nada de nós. Antes, em vez de dizer-nos: faze isto ou aquilo, manda-nos simplesmente estender as vestes e receber; toma, meu caro, eis o que Deus fêz por ti ; por teu amor Êle vestiu de carne humana o próprio Filho... aceita êste dom; crê e serás salvo" (Weimar XXIV-4).

"Não só com as palavras, mas também com as nossas ações e com o nosso procedimento, exercitemo-nos com diligência em separar Cristo de qualquer idéia de legislador, afim de que, apresentando-se-nos o demônio sob a figura de Cristo para molestar-nos em seu nome, saibamos que não é Cristo, mas que é verdadeiramente o diabo" (Weimar XL. 1 Abt. pág. 299).

"A isto se reduz todo o Cristianismo: a sentir que não tens pecado ainda quando pecas, a sentir que teus pecados aderem a Cristo, que é salvador do pecado" (Weimar XXV-331).

Mas, dirá o leitor, como posso seguir uma doutrina destas? E onde está a minha consciência que me acusa quando dou um passo errado?

Ora consciência! Lutero manda abafar a sua voz. Diz êle: "Se a consciência do pecado te acusa, se põe ante os teus olhos a ira de Deus... não deves ouvi-la, mas contra a consciência e contra os teus sentimentos deves julgar que Deus não está irado, que tu não estás condenado" (Weimar XXV-330).

Já identificado agora com o pensamento do fundador do Protestantismo, o leitor pode por si mesmo decidir a seguinte questão: se se pode dar boa interpretação às célebres palavras de Lutero na sua carta a Melanchton, escrita em agôsto de 1521: "Sê pecador, peca fortemente, porém mais fortemente ainda crê e rejubila-te em Cristo!" Vamos citar todo o trecho: "Se pregas a graça, prega uma graça verdadeira e não falsa; se a graça é verdadeira, que o pecado seja verdadeiro e não falso. Deus não pretende salvar falsos pecadores. Sê pecador e peca fortemente, mas confia e rejubila-te mais fortemente ainda no Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Temos que pecar enquanto somos o que somos. Esta vida não é a estância da justiça, mas esperamos, segundo a palavra de S. Pedro, novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça. É o bastante, para nós, haver conhecido, pelas riquezas da glória, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele nos tirará o pecado, ainda quando mil vêzes por dia nos tornássemos fornicários ou assassinos. Considera como nos sai tão barata a redenção de nossos pecados em um tal e tão grande Cordeiro!" (De Wette II-37).

49. CONSEGUIU LUTERO SEU OBJETIVO?

É escusado dizer que nesta doutrina ímpia e absurda Lutero não podia encontrar a paz que almejava para o seu espírito atribulado. Depois do rompimento com a Igreja, continua seu drama interior : remorsos, tentações, inquietações e crises violentas. Ele acusa o demônio como o responsável por tudo isto. E, por mais estranho que pareça, êle aponta, como um dos remédios para estas perturbações interiores, os acessos de cólera contra os seus opositores. "Isto, diz êle, refresca a minha prece, aguça o meu espírito e expulsa todos os pensamentos de desânimo e tôdas as dúvidas" (Walch XXII-1237).

Além disto, a sua doutrina com que forjou para si uma consolação diabólica, apoiando-se na cega confiança em Cristo para se ver tranqüilamente livre de tôdas as leis, trazia uma conseqüência capaz de lançar muitas almas no desespero.

Calvino irá ensinar a sua doutrina de que Deus predestina uns para o Céu e outros para o inferno, por um decreto irrevogável que o próprio Calvino chama DECRETO HORRÍVEL (Instituição Cristã III-23). Lutero não usa esta expressão "predestinação para o inferno", mas isto já está contido claramente na sua doutrina sôbre o arbítrio escravo, em que nos mostra Deus jogando com as criaturas a seu bel-prazer, operando nelas o bem e o mal, encaminhando-as inelutàvelmente para o Céu ou para a perdição. E quando se lhe apresentam os textos da Escritura em que se diz que Deus quer a salvação de todos, ou que não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva, Lutero, do mesmo modo que Calvino, faz a distinção entre a vontade de Deus REVELADA e a sua vontade OCULTA. A vontade revelada é a que Deus nos quer fazer crer nas Escrituras; mas a sua vontade oculta é que muitos se percam e que não haja senão um certo número de eleitos no Céu. Distinção, é claro, perfeitamente absurda (n.° 215).

No seu livro "O arbítrio escravo", diz que Erasmo no livro Diatribe mostra ignorância, porque não distingue "entre o Deus revelado e o Deus oculto, isto é, entre a palavra de Deus e o próprio Deus. Deus faz muitas cousas que não nos mostra na sua palavra. Quer muitas cousas que pela sua palavra não nos mostra querer. Assim não quer a morte, isto é, na palavra; mas quer por aquela sua vontade imperscrutável... É bastante conhecer apenas que existe em Deus uma certa vontade imperscrutável. O que quer esta vontade, por que quer, até onde quer, a nós não é lícito investigar, desejar, procurar ou tocar, mas somente temer e adorar" (Arbítrio escravo I. c. 730).

Mas como é isto? — perguntamos. Deus vai condenar pessoas sem culpa alguma, uma vez que estas pessoas não são livres nas suas ações? Lutero responde que o valor da nossa fé está precisamente nisto: em achar Deus justo, ou Êle coroe indignos, ou condene inocentes. Diz êle: "— Mas quando condena inocentes, porque isto não agrada, se considera iníquo e intolerável, aqui se reclama, aqui se murmura, aqui se blasfema... Ora, se te agrada Deus coroando os indignos, não te deve desagradar Deus condenando os inocentes. Se Êle é justo de uma forma, por que não será de outra? Aqui espalha graça e misericórdia nos indignos, ali espalha ira e severidade nos inocentes; em ambos os casos pode ser iníquo e exagerado aos olhos dos homens, mas é justo e veraz em si mesmo. Como é justo que Êle coroe os indignos, é incompreensível agora; veremos, porém, quando chegarmos ali onde já não se crê, mas se vê face a face. Como é justo que Êle condene os inocentes, é incompreensível agora; contudo se crê, até que seja revelado o Filho do Homem" (Arbítrio Escravo ibidem. I. c. 730 segs).

Aí se apresenta naturalmente uma objeção, e esta Lutero faz a si próprio: se Deus tudo pode, e Êle é quem faz tudo em nós, o bem e o mal (porque é o único. Ser Livre), por que motivo não transforma esta natureza totalmente corrompida do homem, por que motivo não encaminha sempre as nossas ações para o bem e para o Céu? A resposta de Lutero é esta: "É o segrêdo de Sua Majestade" (Weimar XVIII-712).

Para Lutero, Deus "é bom fazendo o mal" (Weimar XVIII pág. 709), assim como o homem é mau fazendo o bem.

Não há doutrina mais adequada do que esta para lançar as almas no desespêro. De modo que a Lutero que procurou, fôsse como fôsse, a certeza da salvação PARA SI, pouco se lhe dá que muitos outros... o diabo os carregue para o inferno... e, o que é pior ainda, sem nenhuma culpa dessas pessoas, pois não gozam de livre arbítrio. Para isto êle não foi sentimental...

50. LUTERANISMO E A RAZÃO.

Muito longo se tornaria êste capítulo, se fôssemos analisar uma por uma, tôdas estas enormidades da teoria luterana; ouçamos, porém, escritor Antonino Eymieu que nos vai dizer muito em poucas palavras:

"Será exagerado dizer que, do princípio ao fim, tudo, neste monstruoso sistema, brada contradição? O homem espoliado pelo pecado de um outro não ~ente, como diz o Catolicismo, dos privilégios sobrenaturais — os quais êste outro, cabeça da raça, lhe teria transmitido, se tivesse' sido fiel — mas espoliado de sua natureza própria; não ~ente de gratificações acessórias, mas do que lhe era devido; perdendo sua liberdade e continuando responsável; aspirando ao Céu e forçado a marchar para o inferno; não podendo salvar-se senão por uma fé-confiança reclamada à sua liberdade aniquilada, à sua vontade arquimorta; conservando, apesar de tudo, por não sei que prodígio, sua consciência moral, mas aconselhado a dela despojar-se, a fugir dela como de uma tentação de Satanás. Em face dêste homem, um Deus veraz que mente sua criatura; um Deus inteligente que se deixa enganar por ela, que já não percebe os mais monstruosos pecados, quando são cobertos com manto de Jesus Cristo e os deixa entrar de contrabando no Céu; um Deus justo que "condena inocentes" com a mesma desenvoltura que o leva a "coroar indignos"; um Deus sábio que faz leis impossíveis, que obriga (ao menos aquêles que não crêem) a observá-las e que força a violá-las; um Deus santo que olha da mesma forma os santos e os pe­cadores, ou, se mostra alguma preferência, a reserva aos pecadores. Tôdas estas palavras se chocam profundamente; tôdas estas idéias são inconcebíveis; diante dêste acêrvo de contradições, a razão se revolta" (Deux Arguments pour le Catholicisme págs. 65 e 66).

Vamos agora procurar a Lutero e protestar contra sua doutrina, dizer que ela é contrária, profundamente contrária à nossa razão. Certamente vamos com mêdo de que "o maior e o mais desbocado escritor do seu tempo" como o chamava Hausrath, que por sinal era protestante, nos vá brindar com um daqueles palavrões que tantas vêzes êle soube dizer. Mas qual é a nossa surprêsa! Lutero concorda conosco. Sua doutrina é mesmo contra a razão. E contra esta razão humana é que se volta; para ela é que reserva as suas injúrias. No seu último sermão proferido em Vitemberga, em 1546, chamou a razão humana: "a concubina do diabo".

Diz êle: "Mesmo a nós que recebemos as primícias do Espírito, é-nos impossível compreender e crer perfeitamente todos êstes pontos, porque êles contradizem no último grau a razão humana" (Apud Denifle-Paquier III-379). "É impossível fazer concordar a fé com a razão... A razão é contrária à fé. Unicamente a Deus pertence dar a fé contra a natureza, contra a razão, em uma palavra, fazer crer" (Apud Denifle-Paquier III-275). "Nas coisas espirituais e divinas, a razão é completamente cega" (Erlangen XLV-336).

Estão de acôrdo com a doutrina de Lutero os protestantes de nossos dias? É o que veremos daqui a pouco.

Antes, porém, não podemos deixar de fazer duas observações que espontâneamente nos ocorrem.

51. ERA ASSIM? ...

O primeiro comentário que não, podemos conter é êste: E era com esta doutrina que Lutero queria reformar a Igreja?!!!

Como sabemos, a Igreja tem o seu lado divino e o seu lado humano. Ela foi fundada por Cristo, cabe-lhe a guarda do depósito da fé; é a coluna e firmamento da verdade (1.a Timóteo III-15). REFORMA DOUTRINÁRIA não pode haver na Igreja, pois Cristo garantiu a firmeza e a estabilidade de sua doutrina, prometendo que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18). É o seu lado divino.

Mas a Igreja é constituída por homens que, como tais, estão sujeitos a pecar, por maior que seja a sua dignidade. Tem produzido grandes santos, muitos de seus membros levam uma vida altamente edificante e piedosa, mas dentro dela há também homens que erram, que são pecadores, porque o reino dos céus é semelhante a uma rêde lançada no mar que tôda a casta de peixes colhe; e depois de estar cheia, a tiram os homens para fora, e, sentados na praia, escolhem os bons para os vasos e deitam fora os maus. Assim será no fim do mundo: sairão os anjos e separarão os maus dentre os justos e lançá-los-ão na fornalha de fogo (Mateus XIII-47 a 50). Se os próprios santos nunca estão satisfeitos consigo mesmos, sempre acham que deveriam amar e servir a Deus muito mais, que se dirá então dos pecadores? Em tôdas as épocas, portanto, os membros da Igreja sentem necessidade de uma REFORMA MORAL, para cuja realização encontram meios na própria Igreja: na sua doutrina e nos seus sacramentos.

E é muito significativo o que nos inícios da Igreja escreve o livro do Apocalipse em repreensão e advertência aos anjos das igrejas de Éfeso (II-4 e 5), de Pérgamo (II-14 a 16), de Tiatira (II-20), de Sardes (III-1 a 3) e de Laodicéia (III-15 e 16). Ou se interprete como sendo censuras feitas diretamente aos bispos destas igrejas ou às comunidades cristãs por êles dirigidas, o fato é que já naqueles tempos do primitivo fervor, aí se prega a reforma de certas fraquezas e se aconselha a penitência. A Igreja, que viveu cêrca de 2.000 anos, passou por várias vicissitudes e teve suas épocas, umas melhores, outras piores. E é possível que no comêço do século XVI os seus membros precisassem de uma reforma moral, mais do que em outra qualquer época de sua história. Mas era com esta doutrina de que o homem não pode fazer outra coisa senão pecar e basta crer em Cristo para salvar-se, de que crendo em Cristo fica livre de tôdas as leis, de que só há um pecado que condena o cristão, o pecado da incredulidade, era com esta doutrina que se podia trazer aos membros da Igreja a reforma moral de que êles necessitavam?

52. BONITO COMEÇO!

A outra observação que vem a talho de foice é esta: Que bonita estréia para a teoria do livre exame!

Os protestantes costumam celebrar o gesto de Lutero rompendo com a interpretação tradicional da Igreja e estabelecendo o princípio do livre exame: cada um tem o direito de fazer também a interpretação da Bíblia — como sendo uma verdadeira libertação. A Igreja estaria querendo monopolizar a interpretação para impor suas teorias errôneas (!!). Lutero então teria aberto o caminho para se chegar à interpretação verdadeira. Esta é a versão protestante.

Vejamos agora como as coisas se passaram.

Lutero, como vimos, tomou como ponto de partida de sua doutrina o princípio de que O HOMEM NÃO É LIVRE NAS SUAS AÇÕES, NÃO POSSUI O LIVRE ARBÍTRIO.

Ora, se há uma verdade que transparece em todos os capítulos da Bíblia Sagrada, desde as primeiras páginas do Gênesis em que Adão e Eva são chamados à responsabilidade pela sua desastrosa desobediência, até a última página, o último capítulo do Apocalipse em que se lê: Eis aqui que depressa virei, e o meu galardão anda comigo para recompensar a cada um segundo as suas obras (XXII-12) — é a noção da liberdade do homem, a idéia de que êle pode dispor de seus atos.

Ao próprio Caim, que a muitos poderia aparecer como sujeito à fatalidade de uma maldição, Deus se mostra dizendo que êle é livre e bem pode vencer suas tentações: Por que andas tu irado? e por que se descaiu a tua face? Porventura, se tu obrares bem, não receberás recompensa? e se obrares mal, não estará logo o pecado à porta? Mas a tua concupiscência estar-te-á sujeita e tu dominarás sôbre ela (Gênesis IV-6 e 7).

São inúmeras as passagens da Bíblia em que Deus nos aparece impondo preceitos aos homens, ameaçando com castigos aos que os transgridem, prometendo galardão aos que lhes obedecem. E se Êle assim o faz, não é para ludibriar dos homens, impondo-lhes mandamentos impossíveis (o que seria indigno da santidade de Deus); se Êle exige, é porque dá graça suficiente para cumpri-los. Se Êle exige, é porque o homem tem à sua mão escolher entre o bem e o mal, entre a recompensa e o castigo.

Assim se lê na Bíblia:

Êste mandamento que eu hoje te intimo, não está sôbre ti, nem está longe de ti, nem está no Céu, de sorte que possas dizer: Qual de nós pode subir ao Céu, para que no-lo traga e o ouçamos e o ponhamos por obra? Também não está da banda dalém do mar, para que te desculpes e digas: Qual de nós poderá passar o mar e trazer-no-lo, para que possamos ouvir e cumprir o que se nos manda? Mas esta palavra está muito perto de ti, na tua bôca está e no teu coração para a cumprires. Considera que eu te pus hoje diante dos olhos a vida e o bem, e ao contrário a morte e o mal, para que tu ames o Senhor teu Deus e andes nos seus caminhos e guardes os seus mandamentos (Deuteronômio XXX-11 a 16).

Josué diz ao seu povo: Temei ao Senhor e servi-0 com um coração perfeito e mui sincero, e tirai os deuses a que vossos pais serviram na Mesopotámia e no Egito e servi ao Senhor. Porém, se vos achais mal com servir ao Senhor, na vossa mão está a escolha: escolhei hoje o que mais vos agradar e a quem principalmente deveis servir, se aos deuses a quem serviram vossos pais na Mesopotámia, ou aos deuses dos amorreus, em, cuja terra habitais; porque eu e minha casa havemos de servir ao Senhor (Josué XXIV-14 e 15).

Do profeta Ezequiel: Quando o justo se apartar da sua justiça e cometer a iniqüidade, morrerá nesse estado; êle morrerá nas obras injustas que cometeu. E quando o ímpio se apartar da sua impiedade que cometeu e obrar conforme a eqüidade e a justiça, êle assim dará a vida à sua alma; porque, considerando o estado em que se acha e apartando-se de todas as suas iniqüidades que obrou, êle certamente viverá e não morrerá. Depois disto dizem ainda os filhos de Israel: O caminho do Senhor não é justo. Acaso os meus caminhos não são justos, casa de Israel, e não são antes os vossos os que são corrompidos? (Ezequiel XVIII-26 a 29). O Deus das Escrituras não é aquêle que é pintado por Lutero e que faz do homem um jumento, cavalgando-o a seu bel-prazer, mas um Deus que, apesar de Todo-Poderoso, respeita a liberdade humana e se queixa amorosamente, amargamente, porque o homem não quis seguir o bom caminho de seus mandamentos, não quis cooperar com a sua graça:

Agora, pois, habitadores de Jerusalém e varões de Judá, sêde vós os juízes entre mim, e a minha vinha. Que cousa há que eu devesse fazer à minha vinha que lhe não tenha feito? Far-lhe-ia acaso injúria em esperar que ela desse boas uvas em lugar das labruscas que só produziu?... Porque a vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel; e o varão de Judá, o seu renôvo deleitável; e esperei que fizesse juízo e eis que só há iniqüidade, e que praticasse justiça, e eis que só há clamor (Isaías V-3, 4 e 7).

Em Jeremias se lê também à queixa de Deus: Pasmai, céus, sôbre isto e ficai em total desolação, portas dêles, diz o Senhor. Porque dons males fêz o meu povo: deixaram-me a mim, fonte dágua viva e cavaram para si cisternas rôtas que não podem reter as águas (Jeremias II-12 e 13). E alguns versículos mais adiante: Também os filhos de Mênfis e de Tafnes te afrontaram até ao alto da cabeça. Porventura não te tem acontecido isto, porque abandonaste ao Senhor teu Deus naquele tempo em que te conduzia pelo teu caminho? (Jeremias II-16 e 17).

Lutero sabia que Jesus Cristo era Deus. E que prova mais espetacular da liberdade do homem do que Jesus chorando sôbre a ingratidão de Jerusalém? É verdade que nessa hora Jesus cavalgava um jumentinho, mas era precisamente porque o homem estava longe de ser como aquêle jumentinho que tão fàcilmente se deixava conduzir, era por causa das resistências do homem às inspirações da divina graça, que Jesus chorava naquele momento.

Será inútil prosseguir nas citações. Negar a liberdade do homem, depois de tais passagens da Bíblia, afirmar depois disto, como Lutero, que Deus "opera em nós o bem e o mal" seria atribuir a Deus uma farsa inominável. Não pode haver, portanto, doutrina mais contrária ao ensino bíblico do que a negação da liberdade humana; qualquer pessoa que tenha um conhecimento, embora mínimo, das Escrituras, sabe muito bem disto.

Sustentando tal doutrina, Lutero sabia que tinha que romper abertamente com a interpretação tradicional da Igreja.

Qual é o defensor de uma tese que, depois de apresentar seus próprios argumentos, não acha vantagem em ampará-la com o testemunho dos sábios que o precederam? Mas, negando o livre arbítrio, êle não podia encontrar apoio nos Santos Padres, nem nos intérpretes de nenhuma época. Não teve outro recurso senão proclamar o livre exame da Bíblia: êle interpretava assim contra a opinião do mundo inteiro, porque cada um tem o direito de interpretá-la como bem entende. E como isto não é argumento capaz de convencer a ninguém, Lutero se declara inspirado por Deus:

"Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu julgamento é o julgamento de Deus" (Weimar X 2 Abt. 107). "Tenho certeza de que meus dogmas vêm do Céu... êles hão de prevalecer e o Papa há de cair, a despeito de todos os poderes dos ares, da terra e do mar" (Weimar X. 2 Abt. 184).

Em 1535, êle declara ao legado do papa: "Somos agora esclarecidos sôbre tôdas as verdades da fé pela luz direta do Espírito Santo" (Apud Janssen III-481).

Foi, portanto, para acobertar uma tese profundamente antibíblica que Lutero recorreu ao livre exame. Hoje a grande maioria dos protestantes estão inteiramente em desacordo com Lutero, pois admitem a liberdade humana e não concordam com aquela teoria ímpia de que o cristão está livre de tôdas as leis. São obrigados, por conseguinte, a confessar que o livre exame foi inaugurado com erros gravíssimos. Que bonita estréia!

Depois de Lutero apareceu uma chusma de intérpretes, todos iluminados diretamente pelo Espírito Santo... e cada um apresentando uma doutrina diferente.

Já Lutero se escandalizava ao ver como Zuínglio e outros podiam negar a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, a qual está baseada em textos tão claros da Bíblia. Mas quem os tinha ensinado a torcer o sentido das Sagradas Letras, senão o próprio Lutero?

E há textos da Bíblia, por mais claros que sejam, que os partidários do livre exame não consigam falsear e torcer? (vejam-se n.o, 215 a 220). Não existe a Santíssima Trindade (n.° 225);

Cristo não é Deus, e portanto a adoração a Êle é uma idolatria (n.o 226);

Cristo nos salvou somente pregando a sua doutrina e dando-nos um belo exemplo (n.o 227);

A graça é apenas um estímulo externo, como é aquêle que recebemos quando ouvimos sábias palavras de exortação (n.o 228);

A alma não é imortal, os maus serão aniquilados (n.o 230); Não existe o inferno (n.o 231) ;

Deus predestinou uns para o Céu e outros para o inferno por um decreto inflexível — ou então — Deus predestinou todos os homens para o Céu e todos lá chegarão (n.o 232);

Não há necessidade do Batismo (n.o 234);

O divórcio é permitido em vários casos (n.o 236) ;

Eis aí algumas teses que para qualquer pessoa que leia imparcialmente a Sagrada Escritura se afiguram como verdadeiras barbaridades antibíblicas e que entretanto têm sido defendidas (às vêzes até através de tenaz e fanática propaganda) pela turma desenfreada do livre exame.

E agora, passados 4 séculos após a revolta de Lutero, agora que os protestantes já tiveram tempo bastante para emendar e corrigir os erros de seu fundador, a êles que se apresentam como os verdadeiros e iluminados intérpretes, nós podemos perguntar: Que tal? como vai a interpretação da Bíblia? vocês acharam a verdadeira doutrina?

Sim, achámos, respondem êles. (E então trezentas e tantas seitas, profundamente divergentes entre si, se apresentam como portadoras da interpretação legítima).

E Já vi tudo, pode responder qualquer um de nós. Esta balbúrdia tôda que há do lado de vocês é um sinal bem evidente de não haverem encontrado a interpretação legítima, a qual é uma só. Nem a encontrarão nunca, porque cada dia se vão multiplicando mais as seitas, e novas extravagâncias aparecem, a confusão se torna cada vez maior nos meios protestantes.

Perdoe-nos o leitor esta digressão que foi necessária, pois as origens da teoria da salvação só pela fé se confundem, têm relação direta com as origens da teoria do livre exame da Bíblia. A primeira explica a segunda. São princípios irmãos e dignos um do outro. Não podíamos deixar de ressaltar esta ligação.

Voltemos agora ao nosso assunto e vejamos em que pé se encontra, entre os protestantes modernos, a teoria da salvação só pela fé.

53. SÓ PODIA DAR NISSO MESMO!

Muitos dos primeiros chefes e adeptos do Protestantismo, embora divergindo em muitas coisas não só de Lutero, mas também entre si, estavam de acôrdo naquele ponto: em que o homem não goza de livre arbítrio. Cristo pagou por todos nós e não nos resta mais fazer nada, a não ser crer em Cristo, etc, etc. Mas a pregação de tais idéias, que vinham dar numa doutrina francamente imoral e escandalosa, não podia deixar de receber as censuras mais acerbas, não só da parte dos católicos, senão também de todos os homens de bom senso. E desde cedo se começaram a ver os tristes efeitos da disseminação de tais idéias no seio do povo, os quais logicamente não podiam ser senão os mais desastrosos. Não há testemunho mais insuspeito sôbre o assunto do que o do próprio Lutero:

"Os evangélicos são sete vêzes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez, e a tôda a espécie de vícios. Expulsámos um demônio e vieram sete piores. Príncipes, senhores, nobres, burgueses e agricultores perderam de todo o temor de Deus" (Weimar XXVIII-763). O demônio que êle dizia ter expulsado era o Papado.

Diz ainda Lutero:

"Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficámos muito mais remissos e frios na prática do bem. É admirável com que fervor nos dávamos às boas obras outrora, quando por meio delas nos esforçávamos por alcançar a justificação. Cada qual porfiava por vencer os outros em piedade e honestidade. E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de cousas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem" (Weimar XXVII-443).

"Quem de nós se teria abalançado a pregar, se pudesse prever que tanta desgraça, tanto escândalo, tanto crime, tanta ingratidão e malvadez seriam o resultado da nossa pregação? Agora, uma vez que chegámos a êste estado, soframos-lhe as conseqüências" (Walch VIII-564).

O leitor nem precisava dêstes comentários feitos tão sinceramente por Lutero para calcular, por si mesmo, os efeitos daquela teoria da salvação só pela fé: se os pregadores, apresentando o Cristianismo como realmente é, um admirável código de moral, e mostrando Deus a impor aos homens a sua lei e querendo que êles se santifiquem (esta é a vontade de Deus: a vossa santificação — 1.a Tessalonicenses IV-3) não podem com isto impedir que haja muitos crimes, escândalos e pecados, muita libertinagem nesta massa humana, tão inclinada para o mal e para a perdição — que não será agora a pregação desta nova doutrina, e isto em nome de Cristo, em nome do Evangelho: que não há mais necessidade de observar os mandamentos, mas só a de confiar em Cristo para conseguir o Céu, porque Cristo já conseguiu o Céu para todos nós?

54. A MÁSCARA.

Os protestantes tiveram, portanto, que rejeitar o êrro de Lutero. Tôda a teoria luterana se baseia no princípio de que o homem não é livre. Mas os protestantes de hoje, na sua quase totalidade, admitem a liberdade humana. Cai assim por terra todo o sistema do Patriarca da Reforma, porque, se o homem é livre, ninguém o dispensa de servir a Deus em seus pensamentos, palavras e obras para conseguir o Céu. E adeus, salvação só pela fé!

Mas os protestantes, embora não admitindo mais a salvação só pela fé, passaram a fingir que a admitiam. Mudaram completamente a doutrina, mas continuam a pôr na fachada o mesmo letreiro de outrora. Por que motivo?

Porque confessar abertamente agora que as obras do indivíduo influem na salvação seria confessar claramente o fracasso doutrinário da Reforma e seria renunciar à vantagem que a apresentação da doutrina da salvação só pela fé trazia e traz, para êles, ou seja, o efeito da propaganda.

Realmente apresentar ao povo frases da Bíblia como estas: Crê no Senhor Jesus e serás salvo (Atos XVI-31);

O que crer e fôr batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-16);

O que crê no Filho tem a vida eterna (João III-36);

Sem apresentar-lhe também outras passagens que "as completam, servindo-lhes de contrapêso", para nos utilizarmos da expressão de Vinet, autor protestante, que daqui a pouco citaremos;

E acrescentar a isto a teoria do livre exame — cada um interpreta a Bíblia como bem entende, pois êste é o nosso direito — é usar a mais perigosa das armas contra a Igreja Católica.

Se basta crer em Cristo para me salvar, e a Bíblia que eu tenho em casa posso interpretá-la como me convier, então não preciso da Igreja Católica, nem dos seus sacramentos, nem da sua doutrina, para coisa alguma.

Arma perigosíssima que, como tôdas as armas dêste gênero, pode voltar-se contra aquêles mesmos que a manejam, ou seja, no caso, os protestantes, os quais costumam organizar-se em igrejas visíveis, com seus templos, reuniões, associações etc. Há algumas seitas protestantes até que arrecadam nada menos que 20% dos rendimentos de seus adeptos. Mas o protestante também pode pensar assim: Se basta crer em Cristo para salvar-me, que necessidade tenho eu de freqüentar esta seita ou de pertencer a ela? Se Cristo prometeu graças especiais quando se acham reunidas 2 ou 3 pessoas em seu nome (Mateus XVIII-20), 2 ou 3 pessoas é fácil reuni-las aqui mesmo dentro de casa. E que necessidade tenho eu de ouvir a pregação do pastor que, pelo livre exame, vai expor suas opiniões pessoais sôbre a Bíblia, se a Bíblia a tenho eu em casa, e também sei interpretá-la, talvez até melhor do que êle?

Tais princípios lógicamente levariam a uma Igreja invisível; e entretanto os protestantes se organizam em igrejas visíveis, porque sabem muito bem que foi uma Igreja Visível que Jesus instituiu.

Esta arma perigosa contra a Igreja Católica, podiam usá-la Lutero e Calvino e os Primeiros Reformadores, mas a que preço? Negando a liberdade humana, base de tôda a Religião, pregando o arbítrio escravo, teoria evidentemente antibíblica e que acarreta as piores conseqüências, como já vimos.

O protestante de hoje, que admite o livre arbítrio, já não pode usá-la por uma razão muito simples: êle não crê mais na salvação só pela fé; ao contrário reconhece que as obras do indivíduo influem na salvação. Não se espante o leitor.

É muito fácil prová-lo.

Chame o leitor qualquer protestante que encontrar por aí e pergunte-lhe:

Um homem crê em Cristo, mas já cometeu muitos pecados graves; que lhe é necessário para salvar-se? basta a fé?

O protestante responderá:

Não. É necessário também o arrependimento dos pecados.

(Êle responderá sempre assim e só assim é que pode responder, porque dispensar do arrependimento os pecadores seria abrir a porta para todos os crimes e tôdas as misérias):

E Já se vê, meu caro amigo protestante, que Você não admite a salvação só pela fé. Admitia-a, sim, o chefe Lutero, o qual não exigia arrependimento para o homem salvar-se; era só a fé e nada mais.

Das duas, uma:

Ou aquelas palavras da Bíblia não têm a significação que Você quer emprestar-lhes, ou então Você já não acredita mais nas palavras da Bíblia, que prega com tanto ardor.

Porque a Bíblia não diz: Crê no Senhor Jesus e arrepende-te dos teus pecados e serás salvo; mas diz: Crê no Senhor Jesus e serás salvo (Atos XVI-31).

A Bíblia não diz: O que crer e fôr batizado e se arrepender de seus pecados será salvo — mas — o que crer e fôr batizado será salvo (Marcos XVI-16).

A Bíblia não diz: O que crê no Filho e se arrepende de seus pecados tem a vida eterna — mas — O que crê no Filho tem a vida eterna (João III-36).

Em parte nenhuma do mundo fé e arrependimento, crer e arrepender-se são sinônimos.

Além disto, caro amigo protestante, Você dizendo que o arrependimento é necessário para o homem salvar-se, está reconhecendo que as nossas obras influem na salvação. E no entanto vive a pregar que elas não influem na salvação nem direta nem indiretamente.

Que é o arrependimento? É o pesar por haver praticado más obras. Supõe, para ser verdadeiro, o firme propósito de daqui por diante não praticá-las mais.

Se, por exemplo, um homem vive em união ilícita com na mulher, se está metido em transações proibidas que dão prejuízo ao próximo, se tem o ódio no seu coração, não basta que êle na igreja ou nas suas orações se mostre compungido. Porque a Deus ninguém engana. É preciso que abandone aquela união pecaminosa, aquelas transações ilegais, aquêle ódio que domina o seu coração. São, portanto, as suas obras, o seu modo de agir, a sua maneira de proceder daqui por diante que vão demonstrar a sinceridade do seu arrependimento. Por que é que Lutero tanto se zangava quando se falava em arrependimento? Era porque arrependimento inclui uma emenda, uma correção, uma alteração em nossas obras, em nossa maneira de proceder; o que já não vem a ser salvação só pela fé.

Você diz que para a salvação é necessário o arrependimento dos pecados. E diz muito bem. Mas em que consiste o pecado? Em não obedecer ao que Deus nos preceituou na sua lei. Só posso arrepender-me de não ter feito uma coisa, quando reconheço que tinha obrigação de fazê-la. Como posso arrepender-me de não ter sido casto, se não reconheço a obrigação da castidade? Como posso arrepender-me de ter feito um roubo, se não reconheço a obrigação de respeitar a propriedade alheia? Como posso arrepender-me de uma grosseria para com meus pais, se não reconheço a obrigação de honrá-los? Afirmando, portanto, a necessidade do arrependimento dos pecados para a salvação, Você está reconhecendo conseqüentemente que é necessária para a salvação a observância dos mandamentos. Logo, não é só a fé.

E não venha dizer-me que o homem que crê em Cristo se torna impecável, já não comete pecados, porque posso dizer-lhe seguramente que é mentira. Primeiro que tudo, temos o exemplo na própria Bíblia. S. Pedro cria em Cristo, fêz as mais belas profissões de fé, e isto não o impediu de cair em pecado. E a experiência de cada dia nos mostra que não é o fato de crerem os homens em Jesus Cristo que os torna incapazes de cometer pecados, pois a fé não tira o livre arbítrio de cada um.

Como vê o leitor, o protestante de nossos dias, embora não admita a teoria da salvação só pela fé, usa de textos da Bíblia fingindo admiti-la: "Não estão vendo os Srs.? A Bíblia afirma que basta crer em Cristo para salvar-se; logo, as nossas obras não influem na salvação."

É a máscara que usam, fazendo-se mais feios do que realmente são. "Os protestantes pessoalmente valem mais do que a sua doutrina" — tem sido reconhecido isto por vários escritores católicos. Se usam máscara, é para fazer a sua propaganda contra a Igreja. A sua atitude admitindo agora o livre arbítrio põe por terra a teoria de Lutero, a qual se baseava no princípio do arbítrio escravo: o homem é um jumento etc. Se o homem não é um jumento, mas um ser livre, precisa arrepender-se de seus malfeitos para salvar-se. Arrepender-se não é só sentir uma dor passageira, é mudar de vida. E mudando de vida, está contribuindo com suas obras para a salvação.

55. A MANHA PROTESTANTE.

E assim o leitor já vai começando a tomar contacto com êste fenômeno tantas vêzes comprovado: A MANHA PROTESTANTE.

Cristo nos veio ensinar a doutrina da salvação. Teve, portanto, que falar muitas vêses sôbre isto, ou melhor, sempre que falava era sôbre êste assunto. Mas não era necessário que cada vez que falasse sôbre a salvação, repetisse enfadonhamente tôdas as coisas que são necessárias para o homem salvar-se. Uma noite em conversa com Nicodemos fala na necessidade do Batismo (João III-5). Em outras ocasiões mostra que o caminho do Céu é a observância dos mandamentos (Mateus XIX-17; Lucas X-25 a 28). Salienta ser imprescindível, para a salvação, a caridade para com o próximo (Mateus VI-15 XXV-31 a 46). Se a salvação não é possível sem a remissão dos pecados, Êle mostra por mãos de quem nos chega esta remissão (João XX-23). Fala-nos da necessidade de recebê-lo eucaristicamente para manter em nós a vida de graça e conseguir a vida eterna (João VI-54). Mostra-nos que no dia de juízo virá retribuir a cada um segundo as suas obras (Mateus XVI-27). Além disto, há um texto bem claro da Bíblia que nos diz abertamente que a fé sem as obras não pode salvar (Tiago II-14).

Por isto, antes de Lutero, já fazia 15 séculos que a Bíblia vinha passando em muitas e muitas mãos; homens santos e sábios tinham-se debruçado sôbre ela por tôda a vida e feito luminosas interpretações, mas nenhum dêles se havia lembrado de ver nas frases — Quem crê em Jesus se salva, quem não crê se condena; Crê em Cristo e serás salvo;

O que crê no Filho tem a vida eterna — a doutrina de que a fé, somente ela, sem as outras condições preceituadas por Cristo era capaz de salvar o homem. Éstes textos estavam todos misturados na Bíblia e cada um sabia que cada trecho da Escritura merece tôda a nossa consideração, e não um mais do que outro, porque todos são palavra de Deus. Além disto, a Igreja sempre teve como norma rejeitar qualquer doutrina, quando esta doutrina logicamente leva à imoralidade e à corrupção dos costumes. Porque, é claro, o Deus que nos ensina a verdade é o mesmo Deus que nos manda praticar as virtudes.

Chega, porém, Lutero e, na ânsia de resolver os problemas do seu espírito atribulado, não recua diante da doutrina ímpia e escandalosa: a fé, só ela é quem salva. Pouco lhe importam os outros textos bem claros, bem evidentes em que se mostra que outras coisas também são necessárias para a salvação. Refuga-os, despreza-os, torce-os, e chega até ao cúmulo de se declarar abertamente contra a própria Bíblia:

"Se os nossos adversários fazem valer a Sagrada Escritura contra Jesus Cristo, nós fazemos valer Jesus Cristo contra a Escritura. Do meu lado, tenho o Senhor; êles têm os servos; nós, a cabeça; êles os pés e os membros, que se devem sujeitar e obedecer à cabeça. Se é mister sacrificar-se a lei ou Jesus Cristo, sacrifique-se a lei, não Jesus Cristo" (Ópera latina I-387-a).

"Tu fazes grande caso da Escritura que é serva de Jesus Cristo; eu, pelo contrário, dela não me importo. À serva liga a importância que quiseres, eu quero valer-me de Jesus Cristo, que é o verdadeiro senhor soberano da Escritura e que mereceu e conquistou, com sua morte e ressurreição, a minha justiça e a minha salvação eterna" (Walch VIII-2140 segs.).

Admite assim Lutero que há contradição entre Jesus Cristo Salvador e as Escrituras, o que equivale a dizer, entre a Escritura e ela própria, pois o que sabemos de Jesus Cristo é pela Escritura. Interpretar a Escritura desta maneira, vendo nela contradições, decidindo-se por uns textos e rejeitando outros, isto não é interpretar, é mostrar claramente que não se encontrou ainda a verdade e se quer apenas lançar a confusão nos espíritos.

A causa de tanta desordem, de tantas seitas no Protestantismo é precisamente esta. Cada qual se aferra a uns textos e despreza outros, procurando tirar da Escritura o que bem entende. Quem vai explicá-lo bem direitinho é o próprio pastor protestante, Alexandre Vinet, que pode falar de cadeira, pois saberá descrever mais perfeitamente do que nós, o que se passa nos arraiais protestantes:

"A palavra de Deus, não há dúvida, só pode ter um sentido em si mesma; mas terá mil sentidos no espírito do leitor... Não se procura com efeito na Bíblia tôda a verdade, mas a verdade que agrade e deleite. Cada qual se lança sôbre sua prêsa; rica e esplêndida prêsa, porque mesmo as verdades parciais têm na Bíblia uma beleza que as transformaria em belos erros, e a autoridade do livro lhes dá uma consagração majestosa. Insiste-se no sentido da verdade que se procurou; excluem-se ou desprezam-se aquelas que a completam, servindo-lhe de contrapeso; não se vê na Bíblia senão o que se quer; de sorte que de fato cada um tem a sua Bíblia, sustenta em seu nome e tira de seu texto os erros mais antibíblicos, e assim os caracteres, as inclinações, os homens que diferem mais profundamente entre si, se valem todos da Bíblia e o mesmo estandarte flutua para exércitos rivais" (L'Eglise et les confessions de foi. pág. 29).

Vê-se aí, pelas palavras do próprio autor protestante, como se pode abusar facilmente do Livro Sagrado. Assim o fez Lutero, apegando-se exclusivamente àqueles textos em que se mostra a fé como necessária à salvação. Os protestantes de hoje reconhecem que Lutero errou, pois não admitem mais aquela teoria absurda, escandalosa e subversiva que foi pregada pelo iniciador da Reforma, ou seja, a salvação pela fé e SEM O ARREPENDIMENTO.

Mas continuam a apegar-se aferradamente aos mesmos textos e, o que é mais grave ainda, em matéria de falsa interpretação, arranjando-os, alterando-os ao seu modo.

Quem crê em Jesus (e se arrepende de seus pecados) se salva — crê em Jesus (e arrepende-te dos teus pecados) e serás salvo — o que crê no Filho (e se arrepende dos pecados) tem a vida eterna.

Não, caros amigos! Já que Vocês se aferram tão obstinadamente a êstes textos e não se dão nem ao trabalho de conferi-los com os outros da mesma Bíblia, numa busca sincera da verdade, como era sua obrigação, pelo menos deveriam ter a lealdade de não mexer neles, de não alterá-los.

— Mas, dirão estes protestantes, nós não estamos alterando; estamos apenas subentendendo uma palavra no texto de Cristo.

— Muito bem! se subentendem juntamente com a palavra CRER, que está no texto, a palavra ARREPENDER-SE, que nêle não se encontra, por que não subentender também tôdas as outras condições que, segundo as palavras claras de Cristo, são igualmente indispensáveis para a salvação? Os textos falam da fé em Cristo, não é verdade? E fé em Cristo não é acreditar em tôdas as palavras que Êle disse?

E que arranjos são êstes com os textos das Escrituras? Como é que os textos que serviam ao Protestantismo no tempo de Lutero, de Calvino e dos Primeiros Reformadores, para provar que só a fé é quem salva, sem o arrependimento ser necessário, estes mesmos textos servem agora ao mesmo Protestantismo para provar que para a salvação é necessária a fé e é necessário também o arrependimento, se estes textos não falam em arrependimento? (5)

56. A FÉ QUE SALVA.

O que se mostra em tudo isto é o que os protestantes não entendem ou fingem não entender o que Cristo disse, quando afirmou que aquêle que nÊle crê se salva, aquêle que não crê se condena. Cristo aí fala da fé. Mas a fé de que aí se faz menção não é um mero sentimento que nasce no nosso íntimo e aí termina. Não. Trata-se de um sentimento que é ao mesmo tempo um princípio de atividade, uma fonte de virtudes e de boas obras. Pela fé é que Abraão ofereceu a Isaque quando foi provado (Hebreus XI-17). Pela fé é que Raab, que era uma prostituta, não pereceu com os incrédulos, recebendo aos espias em paz (Hebreus XI-31). Pela fé conquistaram reinos, obraram ações de justiça, alcançaram as promessas (Hebreus XI-33).

Quando o católico procura, com a graça de Deus, vencer as suas tentações, observar os mandamentos, convencido de que isto é indispensável para a salvação, está fazendo um ATO DE FÉ em Jesus Cristo Legislador que lhe mandou cumprir com os mandamentos; em Jesus Cristo, Justo Juiz que um dia o há de julgar segundo as suas obras. Quando o católico se ajoelha aos pés do seu confessor, faz um ato de fé não naquele homem que ali está, mas um ATO DE FÉ em Jesus Cristo que deu a homens por Êle escolhidos e enviados, o poder de perdoar pecados: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23). Quando o católico purifica a sua consciência e se aproxima da Sagrada Comunhão é que, em vez de fazer como os judeus e os protestantes que dizem: Duro é êste discurso e quem no pode ouvir? (João VI-61), faz um ATO DE FÉ nas palavras de Cristo que disse: Minha carne VERDADEIRAMENTE é comida; e o meu sangue VERDADEIRAMENTE é bebida (João VI-56). Quando o católico se mostra submisso à Igreja, faz um ATO DE FÉ em Cristo que edificou a sua Igreja sôbre a pedra que era Pedro e prometeu que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18). Sim; é a fé que o salva. Não, essa fé ilusória pela qual, alguém pensando ter-se salvado, já por isto está salvo. Não a fé desacompanhada das obras que demonstram a submissão à lei e aos preceitos de Cristo. Mas a fé inspiradora das virtudes e das boas obras; a fé que domine tôda a sua vida, tôda a sua atividade de cristão, pois o meu justo vive da fé (Hebreus X-38).