PRIMEIRA PARTE: A SALVAÇÃO PELA FÉ

CAPÍTULO V: A CERTEZA DA SALVAÇÃO

85. DOUTRINA DE S. PAULO.

A doutrina do Apóstolo S. Paulo não é, nem podia ser diversa da doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se, por conseguinte, Jesus mostra a caridade, ou seja, o amor de Deus e do próximo, e não somente a fé, como necessária para a salvação, isto mesmo é o que S. Paulo nos ensina, mostrando-nos que a fé sem a caridade nada vale: Se eu tiver o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios e quanto se pode saber, e se tiver tôda a fé, até o ponto de transportar montes, e não tiver caridade, NÃO SOU NADA (1.ª Coríntios XIII-2). A hipótese apresentada por S. Paulo é muito expressiva, pois êle figura o caso de um homem que tem a fé em sumo grau: uma fé tão grande, que é capaz de dizer a ua montanha que saia de seu lugar e se transporte para outro, e Deus fará o milagre em atenção à pureza e à perfeição de sua fé. Mesmo assim, não é nada aquêle que a tem, se não tem a caridade. A caridade é, portanto, na doutrina paulina, a maior das virtudes: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém A MAIOR delas é a caridade (1.ª Coríntios XIII-13). No final da mesma Epístola, êle nos diz: Tôdas as vossas obras sejam feitas EM CARIDADE (1.ª Coríntios XVI-14). Se algum não AMA a Nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema (1.ª Coríntios XVI-22).

Se Nosso Senhor, descrevendo o julgamento de Deus, nos faz ver que seremos julgados de acôrdo com as boas ou más obras, êste também é o ensinamento de S. Paulo. Já citámos mais de uma vez a sua frase na Epístola aos Romanos em que êle nos fala no justo juízo de Deus que há de retribuir a cada um SEGUNDO AS SUAS OBRAS (Romanos 11-5 e 6). E isto é o que êle ensina constantemente nas suas Epístolas: Cada um receberá do Senhor a PAGA do BEM que tiver FEITO, ou seja escravo ou livre (Efésios VI-8). Importa que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o GALARDÃO segundo o que tem FEITO, OU BOM OU MAU, estando no próprio corpo (2.$ Coríntios V-10). Deus não é injusto, para que se esqueça da vossa OBRA e da CARIDADE que mostrastes em seu nome, os que haveis subministrado o necessário aos santos e ainda o subministrais (Hebreus VI-10). 'E diz a Timóteo que mande que os ricos dêste mundo se façam ricos em boas obras, afim de ajuntarem para si um tesouro e alcançarem a verdadeira vida: Manda aos ricos dêste mundo... que façam bem, que se façam ricos em BOAS OBRAS, que dêem, que repartam francamente, que façam para si um TESOURO, como um fundamento sólido para o futuro, AFIM DE ALCANÇAREM A VERDADEIRA VIDA (1.ª Timóteo VI-17 a 19).

É sempre a mesma doutrina do Mestre: julgamento de Deus de acôrdo com as boas ou más obras de cada um, salientando-se entre estas obras boas a prática da caridade.

Se Jesus nos fala da necessidade da observância dos mandamentos para conseguir o Céu, esta necessidade é também ensinada por S. Paulo: A circuncisão nada vale, e o prepúcio na' da vale, senão A GUARDA DOS MANDAMENTOS DE DEUS (1.° Coríntios VII-19). Não vos enganeis: nem os fornicários, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão a bebedices, nem os maldizentes, nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus (1.ª Coríntios VI-10).

E, se Nosso Senhor nos adverte: Nem todo o que me diz, Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus, mas sim o que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus (Mateus VII-21), S. Paulo se encarrega de nos mostrar qual é esta vontade de Deus: Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação (1.° Tessalonicenses IV-3), porque para S. Paulo não é somente a fé que nos torna aptos para entrar na bem-aventurança, indo ver a Deus, mas também a santidade de vida: Segui a paz com todos e A SANTIDADE, SEM A QUAL NINGUÉM VERÁ A DEUS (Hebreus XII-14).

86. NÃO HÁ CONDENAÇÃO.

Por tôdas estas passagens do Apóstolo das Gentes se vê muito bem que êle absolutamente não é adepto da salvação pela fé sem as obras. Se os protestantes aparecem com textos de S. Paulo para provar semelhante teoria, é porque não lhe assimilaram bem o pensamento, e S. Paulo não é fácil de se entender; é o que nos diz a própria Bíblia Sagrada (2.ª Pedro III-15 e 16).

Examinaremos êstes textos, começando por um que, aliás, nada tem de difícil e serve apenas para mostrar como se ilude facilmente quem já vai ler a Bíblia com uma idéia preconcebida. Tomamos em primeiro lugar êste texto, porque dêle se servem os protestantes com dois objetivos: um, provar que a fé salva sem as obras; outro, sugestionar-se a si próprios de que JÁ ESTÃO SALVOS. E é justamente sôbre esta estranha CERTEZA DA SALVAÇÃO, que pretendemos fazer um comentário neste capítulo.

Vejamos o texto: Agora, pois, nada de condenação têm os que estão em Jesus Cristo, os quais não andam segundo a carne (Romanos VIII-1).

Ingênuamente vêem aí muitos protestantes a afirmação de que não se condena absolutamente quem crê em Jesus Cristo; logo, a fé salva sem as obras.

Mas a questão é que S. Paulo não disse que não havia condenação para os que CRÉEM em Jesus Cristo, porém para os que ESTÃO EM Jesus Cristo, o que já é diferente. Podemos crer em Jesus, invocá-Lo com muita freqüência, louvá-Lo a cada instante e estar, não em Jesus Cristo, mas muito longe dÊle, se se tratar de uma fé que não desabrochou em caridade, ou seja, o amor de Deus e do próximo. Estar em Jesus Cristo é estar em graça santificante, com a alma reconciliada com Deus, sem mancha de pecado mortal; para isto é necessária a guarda dos mandamentos. Como se prova? Pela própria Bíblia. Diz S. João, falando a respeito de Jesus Cristo: Aquêle que diz que O conhece e não guarda os seus mandamentos, é um mentiroso e não há nêle a verdade, mas se algum guarda a sua palavra, é nêle verdadeiramente perfeito o amor de Deus e por aqui é que conhecemos que ESTAMOS NÊLE. Aquêle que diz que ESTÁ NÊLE, DEVE também êle mesmo ANDAR como ÊLE ANDOU (1.ª João 11-4 a 6). Para estar em Cristo não basta a fé, é preciso guardar os seus mandamentos, guardar a sua palavra, andar como Cristo andou, isto é, imitá-Lo pela santidade de vida.

Nem era necessário ir procurar a explicação em outra parte. O próprio texto de S. Paulo, ora comentado, nos mostra quais são os que estão em Cristo: São OS que NÃO ANDAM SEGUNDO A CARNE (Romanos VIII-1). E justamente no decurso dêste mesmo capítulo 8.o da Epístola aos Romanos, S. Paulo traça o contraste entre os que vivem segundo a carne e os que vivem segundo o espírito:

Os que são segundo a carne gostam das coisas que são da carne; mas os que são segundo o espírito percebem as coisas que são do espírito. Ora a prudência da carne é morte; mas a prudência do espírito é vida e paz; porque a sabedoria da carne é inimiga de Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem tão pouco o pode ser. Os que vivem, pois, segundo a carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, SE É QUE O ESPÍRITO DE DEUS HABITA EM VÓS; MAS SE ALGUM NXO TEM O ESPÍRITO DE CRISTO, ÊSTE TAL NÃO É D'ÉLE (Romanos VIII-5 a 9). Se vós viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se vós pelo espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis (Romanos VIII-13).

O que é que S. Paulo entende por OBRAS DA CARNE?

Ninguém melhor do que êle nos poderá esclarecer; vejamos, portanto, o que diz o próprio S. Paulo:

As OBRAS DA CARNE estão patentes, como são a fornicação, a impureza, a desonestidade, a luxúria, a idolatria, os empeçonhamentos, as inimizades, as contendas, os zelos, as iras, as brigas, as discórdias, AS SEITAS, as invejas, os homicídios, as bebedices, as glutonerias e outras coisas semelhantes, das quais eu vos declaro, como já vos disse, que os que tais coisas cometem não possuirão o reino de Deus (Gálatas V-19 a 21).

Os que fazem as obras da carne NÃO POSSUIRÃO O REINO DE DEUS, portanto, não estão no número daqueles para os quais NÃO HÁ CONDENAÇÃO.

S. Paulo enumera aí vícios que são contra a castidade, como a fornicação, a impureza, a desonestidade e a luxúria;

um pecado que é contra a virtude da religião: a idolatria;

pecados que são contra a caridade: os empeçonhamentos, as inimizades, as contendas, os zelos, as iras, as brigas, as discórdias, as invejas, os homicídios; ou que são contra a temperança: as bebedices e as glutonerias.

E entre estas OBRAS DA CARNE, S. Paulo aponta aí um fenômeno que é ao mesmo tempo contra a fé e contra o espírito de união: AS SEITAS.

Ninguém pode falar em SEITAS, sem se lembrar imediatamente do PROTESTANTISMO. A Igreja, na sua longa história de 20 séculos, se tem defrontado com um grande número de seitas. Às vêzes de umas têm nascido outras, como é natural.

Mas o Protestantismo se apresentou, logo desde os seus inícios, como algo inteiramente novo: não como uma seita simplesmente, mas COMO UMA FÁBRICA DE SEITAS EM LARGA ESCALA. Dizendo a tôdas as pessoas do mundo, sem exceção, mesmo às mais rudes e ignorantes, mesmo àqueles que gostam de ter opiniões bem originais e extravagantes, mesmo aos que são desequilibrados, mesmo aos que têm a mania de serem líderes religiosos, de se apresentarem como enviados de Deus, de fundarem religiões novas, mesmo aos "indoutos e inconstantes que gostam de adulterar as Escrituras, para ruína de si mesmos", dizendo a todos êstes: a Bíblia é um livro muito fácil de interpretar, Vocês têm o direito de comentá-la, como acharem mais razoável — o Protestantismo renunciou ao gôsto que tiveram as outras heresias de ter uma doutrina SUA, um credo próprio, para se tornar uma heresia industrializada e variadíssima, uma fonte imensa de heresias, as mais desencontradas.(7) Mais adiante (n.o 225 a 243) daremos uma amostra das profundas divergências que existem entre as seitas protestantes.

Por enquanto, basta dizer que, se S. Paulo, como vimos (Romanos VIII-9), estabelece o contraste entre o espírito de Cristo e as obras da carne, as seitas são contrárias ao espírito de Cristo. Porque Cristo nos ensinou a Verdade, Êle é a própria VERDADE e a verdade é uma só; O ideal de Cristo é que haja UM REBANHO E UM PASTOR (João X-16); o espírito de Cristo é, como Êle disse ao Padre Eterno, que os que crêem na sua palavra sejam todos UM, como tu, Pai, o és em mim e eu em ti; para que também êles sejam um em nós e creia o mundo que tu me enviaste (João XVII-21), o ideal de Cristo é aquêle que traça S. Paulo: a unidade da fé (Efésios IV-13) a unidade de espírito pelo vínculo da paz, sendo um mesmo corpo e um mesmo espírito... assim como não há senão um Senhor, uma fé, um Batismo (Efésios IV-3 a 5).

Depois de mostrar quais são as obras da carne, S. Paulo nos aponta as obras do espírito: Mas o fruto do espírito é a caridade, o gôzo, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade, a mansidão, a fidelidade, a modéstia, a continência, a castidade. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com seus vícios e concupiscências (Gálatas V-22 a 24).

Sim, não há nenhuma condenação para aquêles que ESTÃO EM CRISTO; mas os que estão em Cristo não andam segundo a carne. Enquanto estiverem assim neste bom caminho, não há nenhuma condenação para êles. Se dêste bom caminho se afastam, a coisa então já mudou de figura. Mas isto não é a doutrina luterana de salvação só pela fé sem as obras. É a verdadeira doutrina católica de que as obras são necessárias para a salvação.

87. SALVAÇÃO EM MARCHA E SALVAÇÃO CONSUMADA.

Os protestantes, como dissemos, se iludem com êste texto de S. Paulo — nada de condenação têm os que estão em Jesus Cristo —vendo aí a certeza absoluta de que já estão salvos. A simples exposição do sentido do texto mostrou claramente que daí absolutamente não se pode tirar esta conclusão, desde que tudo está condicionado a uma cláusula: não andar segundo a carne.

Mas há outros textos ainda, que fazem confusão na cabeça dos protestantes. O leitor vai-nos permitir esta digressão, pois o nosso livro tem por fim sobretudo, analisando a mentalidade protestante, esclarecer pacientemente muitas de suas confusões. E não podíamos deixar de falar sôbre esta idéia de certeza absoluta da salvação, que os protestantes ingênuamente alimentam.

Para isto, antes de tudo, figuremos uma hipótese. Um homem vivia em deplorável estado de pecado; se morresse nesse estado, certamente se condenaria. Se quisermos dar um nome a êsse homem, demos-lhe um qualquer: chamemo-lo Agostinho por exemplo. Deus por muitos anos perseguiu amorosamente com sua graça o coração dêsse nossa Agostinho. E um dia êle cooperou plenamente com a graça: voltou-se de todo o coração para Deus. Houve um feliz momento em que se operou uma transformação radical em sua alma: esta que estava em pecado mortal passou a tornar-se revestida da graça santificante. Suponhamos que êsse homem ainda viveu por muitos anos, mas sempre fiel à graça.

Podia ter acontecido com êle que se perdesse, voltando aos pecados antigos e morrendo impenitente em estado de pecado mortal, podia também ter acontecido que retornasse ao pecado, até mais de uma vez, e no entanto Deus o convertesse de novo e o regenerasse pelo arrependimento, porque êle conservava o livre arbítrio, uma vez que a graça não destrói a liberdade. Mas isto não aconteceu: cooperou com a graça até o fim, nunca perdeu a graça santificante. Um dia morre o nosso herói e comparece ao tribunal de Deus. A sentença divina é esta: SALVAÇÃO. Não irá para o inferno; será um glorioso habitante do Céu por tôda a eternidade.

Agora perguntamos: em que ocasião êsse homem se salvou? Podemos dizer que foi naquele momento inicial em que sua alma passou do estado de pecado para o de graça santificante. Segue-se daí que êle tinha certeza absoluta, nesse momento, de que iria para o Céu? Não, porque o homem não pode garantir, com absoluta certeza, que sempre há de cooperar com a graça. Sua vontade firme pode ser esta; no entanto o espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca (Mateus XXVI-41). O coração do homem está sujeito a muitas mudanças; uma pequena resistência à graça pode depois paulatinamente acarretar resistências maiores; hasta, por exemplo, uma inclinação ao orgulho, à presunção para fazê-lo cair deploravelmente, porque Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes (1.ª Pedro V-5).

No decorrer de todos os anos que se seguiram à sua conversão, êle sempre podia dizer: Estou salvo. Mas que sentido teria esta frase? quereria dizer que tinha certeza absoluta da salvação? Não; porque êle podia pecar e afastar-se do bom caminho. A frase seria verdadeira neste sentido: Estou no caminho da salvação, porque estou na graça de Deus; se morrer neste mesmo instante, alcançarei a vida eterna. Assim, tanto êle podia dizer: — Estou salvo — como: Espero que hei de salvar-me, conforme considerasse A SALVAÇÃO EM MARCHA ou A SALVAÇÃO CONSUMADA.

Mas quanto a esta salvação consumada, à salvação futura, no dia do julgamento de Deus, êle não podia ter certeza absoluta (pois não era impecável) podia, sim, ter a esperança, uma firme e bem fundada esperança.

Neste dia do julgamento de Deus, quando Deus proferiu a sentença em seu favor, aí então se pode dizer que se salvou com certeza absoluta.

88. O VERBO SALVAR EM TRÊS TEMPOS.

Ora, a Bíblia fala em salvação, usando tanto o passado, como o presente, como o futuro; e uma vez até usando o passado e o futuro ao mesmo tempo.

1.º no passado: DEUS NOS SALVOU.

S. Paulo, falando a Tito, relembra os pecados cometidos pelos cristãos antes de sua conversão: Também nós algum tempo éramos insensatos, incrédulos, metidos no êrro, escravos de várias paixões e deleites, vivendo em malícia e em inveja, dignos de ódio, aborrecendo-nos uns aos outros (Tito III-3). Imediatamente depois de ter descrito esta miséria e depravação, êste estado deplorável em que se encontravam, S. Paulo mostra como Deus os SALVOU daquela desgraceira, os colocou no caminho da salvação. Vejamos os versículos seguintes: Mas quando apareceu a bondade do Salvador nosso Deus e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feitos nós outros, mas segundo a sua misericórdia, NOS SALVOU pelo batismo de regeneração e renovação do Espírito Santo, o qual Êle difundiu sôbre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, sejamos herdeiros segundo a esperança da vida eterna (Tito III-4 a 7).

S. Paulo finda falando na esperança da vida eterna. Esperança não é o mesmo que certeza absoluta. Se Deus os salvou da perdição, segue-se que se salvarão com absoluta certeza? S. Paulo absolutamente não afirma que êles são imaculáveis, ou que é impossível voltar ao estado antigo. Mostraremos, daqui a pouco, pelos próprios textos da Bíblia, que esta não considera impecáveis, nem completamente seguros aquêles que estão no bom caminho e que, portanto, a salvação adquirida nesta vida ainda pode perder-se.

E é por isto que S. Paulo adverte os Coríntios: Acaso não sabeis que os iníquos não hão de possuir o reino de Deus? NXo vos ENGANEIS: nem os fornicários, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão a bebedices, nem os maldizentes, nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus. E tais haveis sido alguns; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, haveis sido justificados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus (1.º Coríntios VI-9 a 11).

A advertência de S. Paulo — Não vos enganeis — mostra muito bem que apesar de lavados, santificados e justificados em nome de Jesus Cristo, em outras palavras, apesar de salvos, devem ter cuidado porque, se voltarem ao estado antigo, não possuirão o reino de Deus.

A salvação é assim apresentada no passado, porque foi começada por Deus, que deseja levá-la a bom têrmo.

2.º no presente: SOIS SALVOS.

Na 1.ª Epístola aos Coríntios, S. Paulo diz o seguinte: Ponho-vos, pois, presente, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual também vós recebestes e nêle ainda perseverais, pelo qual é certo que SOIS SALVOS, se todavia o conservais, como eu vo-lo preguei, salvo se em vão crestes (1.º Coríntios XV-1 e 2). S. Paulo diz aos Coríntios que êles estão no caminho da salvação, estão salvos pelo Evangelho, se é que não crêem em vão; e é claro que, se não obedecem ao que manda o Evangelho, é vã a sua crença e não se salvam.

Na Epístola aos Efésios, exatamente como fizera no trecho da Epístola a Tito acima transcrito, S. Paulo fala primeiramente nos graves pecados de que os cristãos eram culpados, antes de abraçarem o Cristianismo: Vivemos também todos nós em outro tempo segundo os desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos seus pensamentos e éramos por natureza filhos da ira, como também os outros (Efésios II-3), para logo em seguida acrescentar: Mas Deus que é rico em misericórdia, pela sua extremada caridade, com que nos amou, ainda quando estávamos mortos pelos pecados, nos deu vida juntamente em Cristo, por cuja graça SOIS SALVOS (Efésios II-4 e 5). S. Paulo, portanto, lhes diz: Estais salvos daquele estado de pecado e corrução em que vos encontráveis, estais no caminho da salvação eterna e isto foi obra da graça que tocou o vosso coração. Mas segue-se daí que S. Paulo os julgasse impecáveis, incapazes de voltar ao antigo estado? Segue-se daí que S. Paulo esteja dizendo que todos os fiéis de Éfeso, a quem escreve, irão para o Céu com tôda certeza ou que não pode perder-se nenhum dêles por consideração alguma? Absolutamente não, porque Apóstolo, nesta mesmíssima Epístola aos Efésios, sente a necessidade de fazer várias exortações PARA QUE NÃO VOLTEM À DEGENERESCÊNCIA DE OUTRORA, PORQUE ISTO OS LEVARIA Á CONDENAÇÃO: Não andeis já como andam também os gentios na vaidade do seu sentido (Efésios IV-17). Renunciando a mentira, fale cada um a seu próximo a verdade, porque somos membros uns dos outros. Se vos irardes, seja sem pecar... Não deis lugar ao diabo. Aquêle que furtava não furte mais... Nenhuma palavra saia da vossa bôca (Efésios IV-25 a 29). Tôda a amargura ira e indignação e gritaria e blasfêmia, com tôda a malícia, seja desterrada dentre vós outros (Efésios IV-31). A fornicação e tôda a impureza ou avareza, nem sequer se nomeie entre vós outros, como convém aos santos, nem palavras torpes, nem loucas, nem chocarrices que são impertinentes, mas antes ações de graças, porque HAVEIS DE SABER ENTENDER QUE NENHUM FORNICÁRIO OU IMUNDO OU AVARO, O que é culto de ídolos, NÁO TEM HERANÇA NO REINO DE CRISTO E DE DEUS (Efésios V-3 a 5).

É um estado de salvação em que se encontram os Efésios, mas um estado que PRECISA SER CONSERVADO por meio de um bom procedimento, para que cheguem a gozar da herança do reino de Cristo lá no Céu.

3.o no futuro: SEREMOS SALVOS.

As vêzes a Bíblia apresenta a salvação, não como uma coisa que já se adquiriu, mas que ainda vai ser adquirida para o futuro.

Se, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus, pela morte de seu Filho; muito mais, estando já reconciliados, SEREMOS SALVOS por sua vida (Romanos V-10). E em outro capítulo da mesma Epístola aos Romanos, S. Paulo fala da salvação, como a meta para a qual se marcha, o ideal que se procura conseguir: Agora está MAIS PERTO a nossa salvação que quando recebemos a fé (Romanos XIII-11).

4.o No passado e no futuro ao mesmo tempo.

Há finalmente um texto curioso da Epístola aos Romanos em que S. Paulo nos diz: NA ESPERANÇA é que TEMOS SIDO SALVOS. Ora, a esperança que se vê não é esperança; porque o que qualquer vê, como o espera? E se o que não vemos esperamos, por paciência o esperamos (Romanos VIII-24 e 25). Fomos salvos, não na realidade que se goza imediatamente, mas na esperança (no grego TÉ ELPÍDI — dativo modal), isto é, temos êste bem da salvação em nossa esperança.

89. DUPLO CONCEITO DE VIDA ETERNA.

O que se dá com o verbo SALVAR, também se dá nas Escrituras com a expressão REINO DOS CÉUS, que, como veremos mais adiante (n.° 179), tanto pode designar o reino dos bem-aventurados lá no Céu, na glória da eternidade, como pode designar aqui na terra a Igreja, que prepara os homens para êste reino.

E o mesmo se dá também com a expressão VIDA ETERNA.

Muitas vêzes aparece VIDA ETERNA na Bíblia designando a glória do Céu, a vida sem fim que os justos gozarão após a morte:

Ninguém há que, uma vez que deixou pelo reino de Deus a casa, ou os pais, ou os irmãos, ou a mulher, ou os filhos, logo neste mundo não receba muito mais, e NO SÉCULO FUTURO A VIDA ETERNA (Lucas XVIII-29 30). Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo... Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... E irão êstes para o suplício eterno; e os justos para a VIDA ETERNA (Mateus XXV-34, 41 e 46). O que sega recebe galardão e ajunta fruto para a VIDA ETERNA (João IV-36). Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até à VIDA ETERNA (João VI-27). O que ama a sua vida perdê-la-á, e o que aborrece a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a VIDA ETERNA (João XII-25). Aquilo que semear o homem, isso também segará... e o que semeia no espírito, do espírito segará a VIDA ETERNA (Gálatas VI-8). Para a esperança da VIDA ETERNA (Tito 1-2).

Às vêzes por abreviação esta VIDA ETERNA, que consiste na glória celeste, é chamada simplesmente VIDA, porque em comparação com a nossa vida terrena ela, sim, é que é a verdadeira vida: Todos os que se acham nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que obraram bem sairão para a ressurreição da VIDA (João V-28 e 29). Que estreita é a porta e que apertado o caminho que guia para a VIDA (Mateus III-14). Melhor te é entrar na VIDA com um só ôlho do que tendo dons, ser lançado no fogo do inferno (Mateus XVIII-9). Se tu queres entrar na VIDA, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17).

Como a vida eterna do Céu vai ser a felicidade de uma íntima união com Deus e esta felicidade já se pode gozar aqui na terra pela VIDA DA GRAÇA, como só pode entrar no Céu aquêle que já daqui da terra leva em sua lma esta vida sobrenatural, a qual assim vai continuar no outro mundo e continuar muito mais esplendorosa e feliz, a Escritura, em outras passagens, já chama VIDA ETERNA a vida sobrenatural da graça, que possuem neste mundo aquêles que estão unidos a Deus, por estarem com a consciência limpa de qualquer pecado grave: Quem ouve a minha palavra e crê nAquele que me enviou, TEM A VIDA ETERNA não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida (João V-24). O que come a minha carne e bebe o meu sangue TEM A VIDA ETERNA, e eu o ressuscitarei no último dia (João VI-55). Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho... tu Lhe deste poder sôbre todos os homens, afim de que Êle dê a vida eterna a todos aquêles que tu Lhe deste. A VIDA ETERNA, porém, consiste em que êles conheçam por um só verdadeiro Deus a ti, e a Jesus Cristo, que tu enviaste (João XVII-1 a 3). A graça de Deus é a VIDA PERDURÁVEL em Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos VI-23). O que crê no Filho de Deus tem em si o testemunho de Deus... E êste é o testemunho, que Deus nos deu a VIDA ETERNA, esta vida está em seu Filho. O que tem ao Filho tem a vida; o que não tem ao Filho não tem a vida. Eu vos escrevo estas coisas, para que saibais que TENDES A VIDA ETERNA, os que credes no nome do Filho de Deus (1.º João V-10 a 13).

– Aqui dirão os protestantes: Se nós temos já neste mundo a VIDA ETERNA, quer dizer que não podemos perdê-la. Se é eterna, é porque vai durar eternamente.

– Não há dúvida que a vida da graça, a vida de que goza aquêle que está em união com Cristo pela graça santificante é eterna, no sentido de que ela por si não se extingue. Vem a morte corporal, mas aquêle que estava unido a Cristo continuará vivendo a sua vida de união com Deus. Porém esta vida é incompatível com o pecado grave; e aquêle que o comete se afasta de Jesus Cristo que é a Vida Eterna; aquêle que o comete. renuncia a êste Dom ETERNO. É como se nos dessem um objeto de ouro ou um livro sedidamente. encadernado e nos dissessem que se trata de um presente QUE NÃO TEM FIM; de fato não terá fim, se nós mesmos não resolvermos destruí-lo ou metê-lo no fogo.

O que nos vale é que, pela misericórdia divina, se perdemos a vida eterna pelo pecado mortal, podemos readquiri-la, sendo para isto indispensável o arrependimento.

Que esta VIDA ETERNA, que já possuímos aqui na terra pela graça santificante, é incompatível com o pecado grave e se perde, se o cometemos, isto se mostra claramente na Bíblia: Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o abstrai e alicia. Depois, quando a concupiscência concebeu, pare ela o pecado; e o pecado, quando tiver sido consumado, GERA A MORTE (Tiago 1-14 e 15). A alma que pecar, essa MORRERÁ (Ezequiel XVIII-4 e 20). Todo que tem ódio a seu irmão é um homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a VIDA ETERNA permanente em si mesmo (1.ª João III-15). Aquêle que comete o pecado é filho do diabo, porque o diabo peca desde o princípio... Nisto se conhece quais são os filhos de Deus e os filhos do diabo. Todo o que não é justo não é filho de Deus, e o que não ama a seu irmão; porque esta é a doutrina que tendes ouvido desde o princípio, que vos ameis uns aos outros (1.ª João III-8, 10 e 11). A que verdadeiramente é viúva e desamparada, espere em Deus e esteja perseverante em rogar e orar de noite e de dia; porque a que vive em deleites vivendo ESTÁ MORTA (1.; Timóteo V-5 e 6). Eu sei AS TUAS OBRAS; que tens a reputação de que vives e tu ESTÁS MORTO (Apocalipse III-1). Muitos dos judeus e prosélitos tementes a Deus seguiram a Paulo e a Barnabé, os quais com as suas razões os exortavam a que PERSEVERASSEM NA GRAÇA DE DEUS (Atos XIII-43).

Vimos há pouco esta VIDA ETERNA, ou seja, a graça de Deus em nós, ser apresentada como anexa à fé em Cristo ou à recepção do seu corpo e sangue.

Não precisamos mais repetir o que já dissemos: que esta fé se entende a fé viva, que não é contradita pelas obras, a fé que tem aquêle que guarda a palavra de Jesus (n.o 75) e que esta recepção do corpo e do sangue do Senhor há de ser com a alma contrita e com as necessárias disposições, sob pena de se comer e beber a própria condenação, como diz S. Paulo (1.º Coríntios XI-29). Queremos lembrar apenas, a respeito do ensino de Jesus, apresentado pelo Evangelista S. João, de que a VIDA ETERNA consiste em CONHECER A DEUS E A JESUS CRISTO (João XVII-3), esta palavra do mesmo S. João Apóstolo a respeito do Divino Mestre: Nisto sabemos que o CONHECEMOS, SE GUARDAMOS OS SEUS MANDAMENTOS. Aquêle que diz que O conhece e não guarda os seus mandamentos é um mentiroso e não há nêle a verdade (1.ª João 11-3 e 4). Não pode, portanto, ter a VIDA ETERNA, ou seja, a graça santificante, aquêle que não obedece aos mandamentos.

90. OVELHAS QUE NÃO PERECERÃO.

Vejamos agora um trecho do Evangelho de S. João muito citado pelos protestantes. Diz Jesus: As minhas ovelhas OUVEM A MINHA VOZ, e eu conheço-as e elas ME SEGUEM; e eu lhes dou a VIDA ETERNA, e elas nunca jamais hão de perecer; e ninguém as há de arrebatar da minha mão (João X-27 e 28).

Em que sentido aí se toma a expressão VIDA ETERNA?

Pode-se tomar num e noutro sentido. Às suas ovelhas fiéis, Jesus dá neste mundo a VIDA ETERNA, ou seja, a vida sobrenatural da graça e no outro a VIDA ETERNA, ou seja, a glória celeste, a visão beatífica.

– Mas o Mestre diz que elas NÃO PERECERÃO JAMAIS.

– É claro, pois o Mestre se refere a ovelhas que OUVEM A SUA voz e que O SEGUEM. Como podem perecer as ovelhas que estão ouvindo a voz do seu Divino Pastor, que O estão seguindo? Se um dia entenderem de não ouvir mais esta voz que lhes fala ao coração, primeiro que tudo, pela voz da consciência, se um dia resolverem não seguir mais a Jesus, observando a sua lei, cumprindo os seus mandamentos, então a coisa já muda de figura. Quer dizer que a ovelha de Jesus tem que ser impecável? Não. A ovelha que costuma ouvir fielmente a voz de seu Pastor ainda mesmo quando por fraqueza comete um pecado grave, atende logo à voz de Jesus que procura atraí-la com o remorso, com as inspirações de sua graça, com o sincero arrependimento. É o caso da ovelha desgarrada, que o Bom Pastor vai buscar e traz docemente sôbre os seus ombros; não traz, porém, a pulso e violentamente, mas sim quando ela, atraída pela graça, se entrega espontânea-mente em seus braços. Se, porém, extraviando-se no pecado, a ovelha persiste em emaranhar-se no vício e em não atender às inspirações da graça, neste caso pode perecer. Mas já não está no número daquelas que SEGUEM A JESUS CRISTO E OUVEM A SUA VOZ.

– Mas Jesus diz que ninguém arrebatará estas ovelhas de sua mão.

– E quem foi que disse que, quando a ovelha voluntariamente abandona o rebanho e se afasta de Jesus pelo pecado, foi arrebatada violentamente das mãos de Jesus? Afastou-se porque quis, pois um ato, para ser pecaminoso, precisa ser voluntário e livre. Quando Jesus diz que ninguém arrebatará as ovelhas de sua mão, se refere às fôrças estranhas, às potestades infernais, ao torvelinho do mundo, aos inimigos de nossa salvação. As almas fiéis estão sob o abrigo da divina graça. Mas esta graça não força nem violenta a liberdade. A alma serve a Deus livremente e assim pode abandoná-Lo.

Um tipo de OVELHAS muito especialmente confiadas à proteção, ao amparo, à vigilância de Jesus foram os Apóstolos. Entretanto o Mestre, apesar de todo o seu empenho, não pôde CONSERVÁ-LOS todos; um se perdeu. Por quê? Porque faltasse poder a Jesus? Não; mas porque Jesus respeitava a liberdade de cada um. O Divino Mestre, na sua oração sacerdotal proferida depois da Última Ceia, diz, dirigindo-se ao seu Eterno Pai e falando a respeito dos Apóstolos: Eu conservei os que tu me deste, e nenhum dêles se perdeu, mas somente o que era filho de perdição, para se cumprir a Escritura (João XVII-12)

Ah!, dirá o adversário, mas Judas se perdeu para se cumprir a profecia: O homem da minha paz, em que eu confiei, o que comia o meu pão, engrandeceu sôbre mim a sua traição (Salmos XL-10).

Mas que idéia faz Você, caro amigo, a respeito da palavra da Escritura, que é a própria palavra de Deus? Acha que a Escritura profetiza assim de oitiva, e depois se há de arranjar um pobre diabo para cumprir de qualquer maneira a palavra sagrada? A Escritura prediz aquilo que Deus prevê na sua CIÊNCIA INFINITA; e Deus prevê tudo, mesmo aquilo que cada um dos homens vai fazer LIVREMENTE. Judas perdeu-se, porque não correspondeu à graça, porque usou mal de sua liberdade, porque não quis ser daquelas ovelhas que, até o fim, seguem a Jesus e ouvem a sua voz. E isto aconteceu a despeito de todo o empenho de Jesus em salvá-lo, porque Deus não quer a morte do ímpio, mas sim que o ímpio se converta do seu caminho e viva (Ezequiel XXXIII-11)

O homem só pode salvar-se livremente, e é livremente que se perde. Dizer o contrário seria destruir tôda a noção da bondade, da justiça e da sabedoria de Deus.

Isto, porém, não impede que Deus daquilo que os homens fazem livremente se aproveite para realização de seus grandes desígnios; e assim a traição de Judas e o deicídio dos judeus foram meios de que Deus se serviu para operar a nossa Redenção.

91. QUALQUER PESSOA PODE PERDER-SE.

Vimos, portanto, que a Bíblia fala na salvação e na vida eterna como um bem que já se adquiriu ou que ainda se vai possuir. Resta-nos saber se êste bem que já foi adquirido pode ou não pode perder-se, se o indivíduo que aqui na terra foi salvo pode depois perder esta salvação. É uma salvação definitiva que se realiza infalivelmente, ou é uma salvação que se vai realizando debaixo de uma condição: a de manter-se o homem neste bom caminho? Pode o homem decair dêste estado de graça, que a Escritura chama VIDA ETERNA?

Ora, ao contrário do que ensinou Calvino, a Bíblia nos mostra que se pode perder a fé. Se a fé é necessária para a salvação, segue-se que a salvação adquirida nesta vida pode perder-se.

Vejamos. Nosso Senhor, na parábola do Semeador, explicando qual é a semente que cai no pedregulho, diz: Quanto à que cai em pedregulho, significa os que recebem com gôsto a palavra, quando a ouviram; e êstes não têm raízes, porque até certo tempo CRÊEM e no tempo da tentação VOLTAM ATRÁS (Lucas VIII-13). S. Paulo fala em alguns que perderam a fé, porque não souberam conservar a boa consciência, ou porque se deixaram levar pela cobiça: Consertando a fé e a boa consciência, a qual porque alguns repeliram, NAUFRAGARAM NA FÉ; dêste número é Himeneu e Alexandre, os quais eu entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar (1.ª Timóteo 1-19 e 20). A raiz de todos Os males é a avareza, a qual cobiçando alguns SE DESENCAMINHARAM DA FÉ (1.ª Timóteo VI-10). No fim da mesma Epístola, S. Paulo fala de alguns que também descaíram da fé (1.ª Timóteo VI-21) já por outro motivo: enredaram-se com as profanas novidades de palavras e uma ciência de falso nome (VI-20).

Na 2.ª Epístola aos Coríntios, o Apóstolo fala na fé pela qual Deus resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo (2.ª Coríntios IV-6) mas, logo após, acrescenta: Temos, porém, êste tesouro em vasos de barro, para que a sublimidade seja da virtude de Deus, e não de nós (2.ª Coríntios IV-7). O que mostra muito bem que fàcilmente podemos perder a fé, porque vasos de barro se podem quebrar com facilidade.

Assim como se pode perder a salvação, perdendo-se a fé, pode-se perder também pelos pecados que são contrários às demais virtudes.

Lê-se na Epístola aos Hebreus: É impossível que os que foram uma vez iluminados, que tomaram já o gôsto ao dom celestial e que foram feitos participantes do Espírito Santo, que gostaram igualmente a boa palavra de Deus e as virtudes do século vindouro, E DEPOIS DISTO CAÍRAM, é impossível, digo, que êles tornem a ser renovados pela penitência, pois crucificam de novo ao Filho de Deus em si mesmos e O expõem ao ludíbrio (Hebreus VI-4 a 6). Trata-se aí de apóstatas que tinham recebido graças especialíssimas, como por exemplo, um sacerdote; trata-se de uma impossibilidade moral e não absoluta; o que é moralmente impossível pode realizar-se por um milagre e a graça de Deus também faz os seus milagres. Mas as palavras do Apóstolo mostram muito bem que nem mesmo aquêles que já foram iluminados, que já foram feitos participantes do Espírito Santo estão livres de cair, e caindo de tão alto, não se lhes torna nada fácil levantar-se.

É por isto que o próprio S. Paulo que se confessa atormentado na sua carne — permitiu Deus que eu sentisse na minha carne um estímulo, que é o anjo de Satanás para me esbofetear (2.ª Coríntios XII-7) —fala nas mortificações e penitências que faz no seu próprio corpo para não cair no número dos réprobos: Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que não suceda que, havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado (1.ª Coríntios IX-27). O perigo que êle vê para si, também o vê nos fiéis: Aquêle, pois, que crê estar em pé veja não caia (1.ª Coríntios X-12) Nesta palavra de S. Paulo deveriam meditar muito sèriamente os protestantes que julgam estar em pé e que com tanta presunção e arrogância garantem que infalivelmente, certissimamente serão levados para o Céu, no próprio momento da morte. Falando sôbre a rejeição dos judeus, diz S. Paulo ao cristão que está FIRME NA FÉ, ao cristão leal e fervoroso: Tu PELA FÉ ESTÁS FIRME; pois, não te ensoberbeças por isso, mas TEME; porque, se Deus não perdoou aos ramos naturais, deves tu temer que Êle te não perdoe a ti. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: a severidade, por certo, para com aquêles que caíram, e a bondade de Deus para contigo, SE PERMANECERES NA BONDADE; DOUTRA MANEIRA também tu SERÁS CORTADO (Romanos XI-20 a 22). E em vez de procurar incutir uma ilusória segurança, aconselha o temor: Obrai a vossa salvação COM RECEIO e COM TREMOR (Filipenses II-12).

É o que nos ensina também S. Pedro: E se invocais como Pai Aquêle que sem acepção de pessoas julga segundo a obra de cada um, vivei EM TEMOR durante o tempo da vossa peregrinação (1.ª Pedro 1-17). É um temor baseado na consideração do julgamento de Deus, que é Pai, mas é também Juiz Justíssimo, sem fazer acepção de pessoas. Porque, segundo a doutrina de S. Pedro, é deplorável o estado daqueles que tendo seguido o bom caminho, dêle se desviaram: Se depois de se terem retirado das corruções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador, se deixam delas vencer, enredando-se de novo, é o seu último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes era não ter conhecido o caminho da justiça do que, depois de o ter conhecido, tornar para trás, deixando aquêle mandamento santo que lhes fôra dado. Porque lhes sucedeu o que diz aquêle verdadeiro provérbio: Voltou o cão ao que havia vomitado; e: A porca lavada tornou a revolver-se no lamaçal (2.ª Pedro 11-20 a 22). Por isto S. Pedro aconselha a mortificação e a contínua vigilância: Sêde sóbrios e vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda ao derredor de vós, como um leão que ruge, buscando a quem possa tragar (1.ª Pedro V-8).

Esta doutrina dos Apóstolos de que aquêle que está no bom caminho pode perder-se, desviando-se dêle, é confirmada ainda pelo ensino do Antigo Testamento e pelas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ouçamos o que diz o profeta Ezequiel: Se o justo se apartar da sua justiça e vier a cometer a iniqüidade, segundo tôdas as abominações que o ímpio costuma obrar, acaso viverá êle? De nenhuma das obras de justiça que tiver feito se fará memória: na prevaricação com que prevaricou e no seu pecado que cometeu, nestas mesmas circunstâncias morrerá (Ezequiel XVIII-24).

E Nosso Senhor Jesus Cristo diz aos Apóstolos: Vós já estais puros em virtude da palavra que eu vos disse. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós (João XV-3 e 4) para dizer, dois versículos mais adiante: Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora como a vara, e secará; e enfeixá-lo-ão e lançá-lo-ão no fogo, e ali arderá (João XV-6).

De tudo isto se conclui que, se a Bíblia usa algumas vêzes esta expressão — estarmos salvos — isto quer dizer: estarmos no caminho da salvação (e estão no caminho da salvação aquêles que possuem a graça santificante pela VERDADEIRA FÉ e pela OBSERVÂNCIA DOS MANDAMENTOS DE JESUS), mas daí não se segue que seja a salvação definitiva, sem perigo algum de perder-se. Também do doente que, depois de encontrar-se em estado grave, conseguiu a cura, se diz que ESTÁ SALVO, e no entanto êle ainda pode recair na sua enfermidade mortal.

Salvação definitiva para o fiel, de tal forma que êle não possa jamais perder-se, virá na hora da morte, se êle perseverar até o fim: O que, porém, perseverar até o fim, Asse é que será salvo (Mateus X-22).

92. SEI EM QUEM TENHO CRIDO.

É próprio da Humanidade interpretar as palavras que ouve sempre de acôrdo com os seus próprios sonhos ou com o seu particular interesse. Por isto, tendo-se encasquetado no cérebro de muitos protestantes a idéia de que não podem mais perder-se de maneira alguma, alimentando êles continuamente êste sonho de uma segurança absoluta aqui na terra, em matéria de salvação, vivem querendo firmar-se, para sustentar esta teoria tão estranha, em textos do Novo Testamento que nada têm que ver com o caso.

Tomemos, por exemplo, esta palavra de S. Paulo a Timóteo: Sei a quem tenho crido e estou certo de que Êle é poderoso para guardar o meu depósito para aquêle dia (2.ª Timóteo I-12).

Consideram tais protestantes estas palavras como um hino em que S. Paulo canta e em que todo cristão deve cantar também a sua CERTEZA ABSOLUTA DA SALVAÇÃO. Mas é preciso perguntar: É dêste assunto que está falando S. Paulo? Que quer dizer o Apóstolo, quando assevera a sua confiança de que Cristo conservará o seu depósito? Que significa neste caso a palavra DEPÓSITO (no grego PARATHÉKE)? Esta palavra aparece mais 2 vêzes no Novo Testamento, sempre empregada por S. Paulo e sempre nas suas epístolas a Timóteo. Uma delas é logo dois versículos mais adiante. S. Paulo diz ao seu discípulo: Guarda o bom DEPÓSITO pelo Espírito Santo que habita em nós outros (2.ª Timóteo 1-14). E a outra, ao terminar a 1.ª Epístola ao mesmo discípulo: ó Timóteo, guarda o DEPÓSITO, evitando as profanas novidades de palavras e as contradições duma ciência de falso nome, da qual fazendo alguns profissão, descaíram da fé (1.ª Timóteo VI-20 e 21).

Vê-se aí claramente nesta última citação que o que S. Paulo chama DEPÓSITO é a doutrina de Cristo, a doutrina do Evangelho que êle, Paulo, juntamente com os demais Apóstolos DEPOSITARAM no mundo, aos cuidados da Igreja docente que tem de conservá-la fielmente e, portanto, aos cuidados do próprio Timóteo, que é também um insigne pregador da Igreja e dêste mesmo Evangelho.

Este mesmo sentido, DEPÓSITO = DOUTRINA DO EVANGELHO cabe perfeitamente naquelas duas outras frases em que esta palavra se encontra, como se vê evidentemente pelo contexto. Paulo está prêso (2.ª Timóteo 1-8) por causa do Evangelho, no qual, diz êle, eu fui constituído pregador e apóstolo e mestre das gentes (2.ª Timóteo .1-11). Sofrendo perseguições por causa do Evangelho, S. Paulo não se envergonha por isto, nem se considera derrotado, porque sabe que Cristo é Todo-Poderoso e pode conservar no mundo perpêtuamente o depósito dêle, Paulo, isto é, a doutrina sublime do Evangelho que êle ensinou. Por cuja causa também padeço isto, mas não me envergonho; porque- sei a quem tenho crido e que Êle é poderoso para guardar o meu DEPÓSITO para aquêle dia (2.ª Timóteo I-12). É com êste pensamento de que Cristo vela pela conservação da doutrina do Evangelho, que S. Paulo exorta a Timóteo a continuar fiel em conservar esta doutrina, êste bom DEPÓSITO, COM o auxílio do Divino Espírito pois diz LOGO EM SEGUIDA: Guarda a forma das sãs palavras que me tens ouvido na fé e no amor em Jesus Cristo. Guarda o BOM DEPÓSITO pelo Espírito Santo que habita em nós outros (2.ª Timóteo 1-13 e 14).

Como é que podem ver aí os protestantes um argumento de que hão de salvar-se, dê no que der, e com infalível certeza?

93. O PODER SALVADOR DE CRISTO.

Vejamos agora outro trecho de S. Paulo, na sua Epístola aos Hebreus:

Depois de dizer que Jesus porque permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno (Hebreus VII-24), diz S. Paulo que por isto PODE SALVAR PERPETUAMENTE aos que por Êle mesmo se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por nós (Hebreus VII-25). Daí concluem muitos protestantes que já possuem uma SALVAÇÃO PERPÉTUA que é dada por Jesus.

Primeiro que tudo, o Autor da Epístola não diz que Jesus SALVA infalivelmente a todos os crentes, mas que PODE SALVAR os que por Êle mesmo se chegam a Deus. Quer ressaltar aí o poder salvador do Eterno Sacerdote Jesus Cristo que PERPETUAMENTE, isto é, até o fim do mundo, até a consumação dos séculos, através de tôdas as gerações, exerce a sua missão redentora. O fito de S. Paulo é estabelecer o contraste entre os sacerdotes da Antiga Lei que morriam e depois de mortos, não podiam exercer a sua missão (a morte não permitia que durassem (Hebreus VII-23); e Jesus Cristo que não morre e por isto exerce eternamente a sua missão de Sacerdote e Mediador.

Mas desta palavra de S. Paulo não se segue que Cristo nos salve sem a cooperação da nossa parte, ao contrário supõe o Apóstolo esta cooperação, pois Cristo pode salvar perpetuamente AOS QUE POR ÊLE MESMO SE CHEGAM A DEUS (Hebreus VII-25). E esta cooperação, segundo o ensino desta mesma Epístola aos Hebreus, não consiste somente na fé, mas também na OBEDIÊNCIA a Cristo que é o AUTOR da salvação eterna para TODOS OS QUE LHE OBEDECEM (Hebreus V-9).

Nem quer dizer absolutamente que Cristo dê a salvação àqueles que se chegaram a Deus, que se converteram e depois voluntariamente se afastaram dEle e voltaram aos pecados de outrora, àqueles que no começo obedeciam a Cristo e hoje já Lhe não obedecem mais.

94. CRESCIA O NÚMERO DOS QUE SE SALVAM.

Vêem ainda muitos protestantes uma certeza absoluta de sua salvação pessoal, nesta palavra dos Atos, em que se fala do crescimento da Igreja: E o Senhor aumentava cada dia mais o número dos QUE SE HAVIAM DE SALVAR, encaminhando-os à unidade da sua mesma corporação (Atos II-47).

É claro que, estando o mundo todo mergulhado no pecado, como estava, quando veio Jesus, estando o próprio povo judeu tão corrompido, se aumentava o número daqueles que com tanta sinceridade e fervor abraçavam a religião de Cristo, aumentava também necessàriamente o número dos eleitos, o número daqueles que iriam povoar o Céu. Ninguém podia afirmar isto com mais segurança do que o Divino Espírito Santo, inspirador e principal autor da Bíblia e que sonda os segredos de todos os corações.

Mas segue-se daí que aquêles que entrassem na Religião Cristã e não perseverassem no bem ou se tornassem depois traidores da sua fé, se salvariam também?

95. OS QUE SE SALVAM, ISTO É, NÓS.

Dirão os protestantes: Nós temos um texto mais claro. S. Paulo diz aos Coríntios: A palavra da cruz é na verdade uma estultícia para os que se perdem; mas para os QUE SE SALVAM QUE SOMOS NÓS, é ela a virtude de Deus (1.ª Coríntios I-18). Logo, os que salvam somos nós, os que seguimos a Cristo. Não há perigo de nos perdermos.

— Uma coisa é dizer: Os que se salvam somos Nós. E outra coisa é dizer: SALVAM-SE TODOS E CADA UM DE NÓS.

É muito comum o sacerdote católico dizer, no fim de seus sermões, mais ou menos isto: "E NÓS, quando estivermos no reino da glória, meus caros irmãos, gozaremos eternamente de tôda felicidade no seio de Deus etc, etc". Ninguém vai concluir que, faça o que fizer, estará neste caso; o padre está falando daquilo que acontece normalmente, se se cumpre aquilo que é necessário cumprir-se.

Uma cidade é invadida pelos inimigos da pátria. Na sua resistência ao invasor, a maioria se porta bravamente, mas neste meio há também alguns cobardes que fogem ou alguns traidores que favorecem ao inimigo. Vencida a batalha, isto não impede que os habitantes desta cidade digam com tôda segurança: Nós resistimos heròicamente e vencemos o adversário. Porque dizer Nós é uma coisa; e dizer TODOS E CADA UM DE NÓS já é coisa bem diferente.

A Bíblia não nos diz tudo o que se passava entre os primeiros cristãos. Mas pelo que ela nos diz, nós sabemos que os cristãos EM GERAL estavam no caminho da salvação; e que o mesmo já não se pode dizer de todos, sem exceção. Os Atos nos mostram S. Paulo despedindo-se dos presbíteros, que são seguidores de Cristo de especial categoria, encarregados de apascentar a Igreja de Deus; recomenda-lhes que vigiem sôbre o rebanho cristão (Atendei por vós e por todo o rebanho (Atos XX-28), avisa que surgirão lôbos arrebatadores que não hão de perdoar ao rebanho (Atos XX-29) e faz então uma revelação surpreendente: do seio dêstes mesmos presbíteros, encarregados de vigiar sôbre as ovelhas, hão de sair também lôbos vorazes: DENTRE VÓS MESMOS hão de sair homens que hão de publicar DOUTRINAS PERVERSAS, com o intento de levarem após si muitos discípulos (Atos XX-30). Será que os protestantes irão colocar no número daqueles que têm a salvação infalivelmente certa êstes presbíteros que mais tarde haveriam de bromar, ensinando DOUTRINAS PERVERSAS?

S. Paulo fala aos Coríntios dizendo: Temo que talvez, quando eu vier, vos não ache quais eu vos quero e que vós me 'acheis qual não quereis; que por desgraça não haja entre vós contendas, invejas, reixas, dissensões, detrações, mexericos, altivezas, parcialidades; para que não suceda que, quando eu vier outra vez, me humilhe Deus entre vós e que chore a muitos daqueles que ANTES PECARAM E NÃO FIZERAM PENITÊNCIA DA IMUNDÍCIA E FORNICAÇÃO E DESONESTIDADE QUE COMETERAM (2.ª Coríntios XII-20 e 21).

Os protestantes de hoje afirmam que para a salvação é necessário o arrependimento. estes cristãos que haviam caído na IMUNDÍCIA E FORNICAÇÃO E DESONESTIDADE (2.ª Coríntios XII-21) e que, COMO diz S. Paulo, não se arrependeram de tais pecados, morrendo nesse estado, podiam salvar-se? Se podiam, então esta salvação "definitiva" daqueles que aceitam a Cristo como Salvador, vem a ser uma licença para tôdas as desonestidades e imundícias.

Vejamos agora o que S. Paulo diz aos cristãos na sua Epístola aos Hebreus: Vêde, irmãos, que se não ache talvez nalgum de vós um CORAÇÃO CORROMPIDO DA INCREDULIDADE QUE SE APARTE DO DEUS VIVO, mas admoestai-vos vós mesmos uns aos outros CADA DIA, durante o tempo que a Escritura chama Hoje, por não acontecer que ALGUM DE VÓS, SEDUZIDO PELO PECADO, CAIA NA OBDURAÇÃO; porque é verdade que nós somos incorporados com Cristo; mas ISTO É DEBAIXO DA CONDIÇÃO que nós conservemos ATÉ AO FIM o novo ser que começámos a ter nÊle (Hebreus III-12 a 14).

Não podia haver condenação mais clara desta doutrina de que o cristão tem certeza infalível, absoluta de sua salvação; esta certeza é condicionada a sua união com Cristo, porque mesmo um seguidor do Divino Mestre pode por um coração corrompido apartar-se de Deus Vivo e cair no endurecimento, seduzido pelo pecado; e êste estado é evidentemente incompatível com a salvação eterna.

96. OUTRA ILUSÃO PROTESTANTE.

Outra ilusão protestante é julgar que, para estarmos na graça de Deus, é preciso primeiro que disto estejamos convencidos. Já o próprio Leibnitz, filósofo protestante, chamava a atenção para o contra-senso em que os reformados caem neste ponto: "Se o crer-se justificado se requer para a justificação e conseqüentemente precede a justificação, neste caso deve crer-se justificado quem não está justificado ainda; deve, portanto, crer uma coisa falsa" (Sistema teológico; Mogúncia; 2.ª edição, pág. 62).

Nós valemos diante de Deus o que valemos realmente; não o que pensamos que valemos. Não é o fato de me julgar justo que me torna justo, nem o fato de me ter na conta de um pecador que me faz mais pecador do que sou realmente.

Não foi enchendo-se da convicção de que estava salvo, que o publicano da parábola (Lucas XVIII-10 a 14) conseguiu a purificação de sualma, mas apenas humilhando-se e tendo-se na conta de um desprezível pecador; e não consta do Evangelho que êle tivesse a certeza, nem ao menos a mínima idéia, de que estava em graça de Deus naquela hora. Se havia certeza, era no outro, no fariseu que voltou para casa ainda mais pecador do que dantes. Mas a certeza que êle tinha era diferente da nossa, porque era baseada nas obras, dirão os protestantes.

Perfeitamente de acôrdo. A dêle era certeza baseada nas obras que praticava sem ter a virtude interior, mas sim com verdadeiro espírito de ostentação. Mas ou certeza por causa das obras feitas com orgulho e presunção, ou certeza porque alguém não se julga obrigado às obras para salvar-se, o que é fato é que a parábola mostra que a gente pode fàcilmente enganar-se nesta matéria.

E o que lemos no Evangelho é que muitos que crêem firmemente em Jesus Cristo, que chegam mesmo a profetizar e a fazer prodígios em seu nome e que por isto estão certos, certíssimos da salvação, sofrerão uma decepção tremenda no dia das contas, serão rejeitados por causa de suas OBRAS que não agradaram a Deus: Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não é assim que profetizámos em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, e em teu nome obrámos muitos prodígios? E eu então lhes direi em voz bem inteligível: Pois eu não vos conheci; apartai-vos de mim, os que obrais a iniqüidade (Mateus VII-22 e 23).

Suponhamos que um homem tem dois criados: ambos o servem com boa vontade; mas um está sempre cheio de si, convencido de que o patrão está bem satisfeito com êle e de que receberá com tôda a certeza a recompensa prometida pelo amo aos servos que façam bem o seu trabalho; o outro está sempre desconfiado, sempre temeroso de que o patrão tenha alguma coisa a reclamar sôbre o seu serviço, ou de que talvez não mereça a recompensa almejada. Isto faz com que êste último valha menos perante o patrão ou perca o seu direito à recompensa? Ao contrário, com êste receio sôbre o valor do seu trabalho, está mais apto a caprichar, a fazer tudo com perfeição do que o outro que está convencido de que tudo quanto faz é uma maravilha que agrada imensamente ao seu patrão. Isto se dá com maioria de razão na vida espiritual, onde a humildade é a virtude mais apta para conquistar as graças de Deus.

Perguntaram um dia a uma santa se ela estava na graça de Deus. Ela respondeu o seguinte: "Se eu estou na graça de Deus, que Deus me conserve neste estado; se não estou, que Deus me ponha nêle". Deixou, por acaso, de ser o que realmente era diante de Deus por ter falado desta maneira?

O matuto, movido por aquela fé viva e inabalável que caracteriza o camponês, se arrepende profundamente de seus pecados; faz o firme propósito de jamais cometê-los, ajudado pela graça divina e com aquela fôrça de vontade com que tantas vêzes os homens do campo superam os da cidade. Confessa humildemente os seus pecados ao sacerdote no Sacramento da Penitência, e quantas vêzes não andou a pé léguas e léguas para fazer. esta confissão! Depois recebe a sua comunhão com viva fé e santo recolhimento. Mas se lhe perguntarmos: Sua confisSão foi bem feita?, êle responderá: Para mim, foi; para Deus, eu não sei. Na sua simplicidade, inspirado por Deus que revela aos pequeninos o que oculta aos sábios e prudentes, demonstra, sem saber disto, um mesmo sentimento de humildade, de desconfiança de si próprio, que demonstrou o Apóstolo S. Paulo. Se todo o cristão para se salvar, para estar bem com Deus, deve ter forçosamente a certeza de que está em graça, ninguém deveria tê-la melhor do que S. Paulo. Entretanto S. Paulo/fala assim: Nem ainda eu me julgo a mim mesmo; porque DE NADA ME ARGÚI A CONSCIÊNCIA; mas NEM POR ISSO ME DOU POR JUSTIFICADO; pois o Senhor é quem me julga. Pelo que, não julgueis antes de tempo, até que venha o Senhor, o qual não só porá às claras que se acha escondido nas mais profundas trevas, mas descobrirá ainda o que há de mais secreto nos corações; e então cada um receberá de Deus o louvor (1.ª Coríntios IV-3 a 5).

Pelas palavras do Apóstolo se vê que o importante é servir a Deus, fazer o bem, conservar a fé e a boa consciência. Quanto ao julgamento, pertence a Deus. E enquanto nós estamos sujeitos a enganos ao julgarmos a nós mesmos (pois ninguém é juiz em causa própria) Deus é quem conhece, como diz o Apóstolo: o que há de mais secreto nos corações. Êle penetra as mais íntimas profundezas das nossas almas, infinitamente melhor do que nós mesmos. E os seus julgamentos são diversos dos nossos: Senhor... os teus juízos são um abismo profundo (Salmos XXXV-6 e 7). ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! (Romanos XI-33).

Não devemos, portanto, inverter a ordem das coisas, nem querer precipitar os acontecimentos. Tenhamos a preocupação de servir a Deus, com a maior perfeição que fôr possível; o testemunho da boa consciência virá naturalmente depois. Não é o fato de nos julgarmos bem com Deus que fará com que realmente o estejamos; ao contrário, é do fato de estarmos realmente bem com Deus, que nascerá a doce tranqüilidade da consciência, a suave sensação de que Deus habita em nós.

97. TESTEMUNHO DO ESPÍRITO SANTO.

Um exemplo manifesto do perigo desta inversão, nós o temos no modo como encaram muitos protestantes uma frase de S. Paulo na sua Epístola aos Romanos (VIII-16).

Os Romanos, a quem escreve S. Paulo, estão abatidos pelos sofrimentos com que se têm defrontado após a sua conversão. Na sua inexperiência, ficam desanimados com a idéia de que talvez Deus não esteja satisfeito com êles, uma vez que lhes aparecem estas tribulações e contratempos.

S. Paulo procura soerguer-lhes o ânimo, fazendo-lhes ver que, se sofremos com Cristo, é para sermos glorificados com Êle; o sofrer é antes um sinal de que somos filhos de Deus; e o próprio Espírito Santo se encarrega de nos atestar que somos filhos de Deus (QUANDO DE FATO O SOMOS, é claro); e êstes sofrimentos daqui da terra não são nada em comparação com a glória que Deus reserva para nós: O mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também herdeiros; herdeiros verdadeiramente de Deus e co-herdeiros de Cristo, SE É QUE TODAVIA NÓS PADECEMOS COM ÊLE, PARA QUE SEJAMOS TAMBÉM COM ÊLE GLORIFICADOS. Porque eu tenho para mim que as penalidades da presente vida não têm proporção alguma com a glória vindoura que se manifestará em nós (Romanos VIII-16 a 18).

O texto grego traz SYMMARTYRÉI = COATESTA. O Espírito Santo COATESTA, ¡St() é, atesta juntamente com o nosso espírito, confirma o que o nosso próprio entendimento ou o testemunho da boa consciência já nos vem atestando.

Tudo isto, porém, todo êste testemunho do Espírito Santo supõe que os destinatários da carta estejam LIBERTOS DO PECADO, o que não é o mesmo que dizer IMPECÁVEIS, mas sim regenerados depois de uma conversão sincera: Libertados do pecado, haveis sido feitos servos da justiça (Romanos VI-18). Estais livres do pecado e... haveis sido feitos servos de Deus (Romanos VI-22).

Dizendo LIBERTOS DO PECADO, o Apóstolo não os está considerando impecáveis. Isto se vê pela insistência do mesmo em aconselhá-los a que continuem livrando-se do pecado, pois do contrário ,estão perdidos: Se vós viverdes segundo a carne, MORREREIS, mas se vós pelo espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis (Romanos VIII-13). Não há dúvida que se trata aí de morte eterna, pois morrer, todos morrem de qualquer maneira. Permaneceremos no pecado, para que abunde a graça? Deus nos livre; porque uma vez que ficámos mortos ao pecado, como viveremos ainda nêle? (Romanos VI-1 e 2). Não reine, pois, o pecado no vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais aos seus apetites. Nem tão pouco ofereçais os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade, mas oferecei-vos a Deus como ressuscitados dos mortos, e os vossos membros a Deus como instrumentos de justiça; porque o pecado vos não dominará, pois já não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Pois quê? pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? Deus tal não permita (Romanos VI-12 a 15). O pecado não vos dominará — é a confiança de S. Paulo de que os fiéis saberão corresponder à graça abundante que lhes vem na Nova Lei. Mas Deus tal não permita — exprime sempre o receio de que os cristãos queiram entregar-se voluntariamente ao pecado.

Mais adiante, nesta mesma Epístola aos Romanos, falando sôbre os judeus que rejeitaram a Cristo, S. Paulo os considera como ramos que foram quebrados da árvore do povo de Deus, sendo em seu lugar enxertados os cristãos. Mas vem sempre a advertência para que êstes não se ensoberbeçam com isto, pois se Deus não perdoou aos ramos naturais, também os enxertados devem temer que Deus não lhes perdoe (Romanos XI-18 a 21). Se o cristão não permanece na bondade, também será cortado (Romanos XI-22). E o próprio Deus tem poder para enxertar de novo os judeus na sua própria árvore (Romanos XI-23 e 24).

Não há motivo, portanto, para que o cristão se ensoberbeça com a idéia de uma SEGURANÇA ABSOLUTA, a qual de fato não existe, sendo a soberba, ao contrário, o caminho para cair na reprovação divina.

E não precisamos mais repetir aqui aquelas advertências bem claras, que já expusemos há pouco, de que os que fazem tais e tais coisas NÃO POSSUIRÃO O REINO DE DEUS (1.° Coríntios VI-9 e 10; Gálatas V-19 a 21).

Diante disto, qual é o papel dà Verdadeira Igreja que quer realmente ensinar a doutrina de S. Paulo, que é exatamente a mesma doutrina de Jesus?

É exortar aos seus fiéis para que SE LIBERTEM DO PECADO, de todo o pecado. Ouvindo a sua exortação, os fiéis, uma vez que gozam do livre arbítrio (e uns cooperam com a graça, e outros não) ou se libertarão do pecado, com o auxílio da graça de Deus ou continuarão a êle escravizados, por sua própria culpa.

Os que se libertarem realmente do pecado serão filhos e herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo. E A ESTES naturalmente o Espírito Santo lhes infundirá paz e tranqüilidade, juntamente com o testemunho da boa consciência. Não é necessária, para isto, nenhuma insinuação da nossa parte. Se, por acaso, alguém que procede irrepreensivelmente, que cumpre exatamente o seu dever, que segue sempre os ditames da própria consciência, que tem de seus pecados passados um arrependimento SINCERO, ainda se mostra receoso e cheio de temor, é o caso de lhe dizermos que expulse tais temores infundados, e que o próprio Espírito Santo se encarregará de lhe atestar que é realmente um filho de Deus.

Mas os que continuarem presos aos seus vícios, aos seus pecados, sem a necessária emenda, sem o arrependimento, êstes, enquanto permanecerem assim, não são filhos de Deus neste sentido especial em que S. Paulo toma aí esta expressão, no de herdeiros do Céu; e portanto o Espírito Santo não lhes poderá atestar isto, pois seria uma mentira, e o Espírito Santo não mente. Realmente o mesmo Divino Mestre que nos diz: Todo o que comete pecado é escravo do pecado (João VIII-34) nos diz também: Ninguém pode servir a doas senhores (Mateus VI-24).

O que é que procuram fazer algumas seitas protestantes? Exatamente o inverso. Convencidas de que para alguém estar em graça de Deus, é preciso, primeiro que tudo, estar plenamente certificado disto, procuram incutir no espírito de todos os seus adeptos a idéia de que são filhos de Deus e que o Divino Espírito Santo lhes está atestando isto: que são realmente co-herdeiros de Cristo e herdeiros do Céu.

Ora, a coisa mais fácil dêste mundo é um pecador que está aferrado ao pecado convencer-se de que é filho de Deus e de que irá para o Céu com tôda a certeza, se êste pecador vem sendo trabalhado por uma seita que já o convenceu de que nem a observância da lei divina, nem as boas obras contribuem para justificação do homem, nem são necessárias para a salvação e que o vai sempre acostumando a ver em Jesus Cristo EXCLUSIVAMENTE um Advogado que temos para com o Padre (1.°. João II-1) e nunca isto: um Justo Juiz que há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então DARÁ A CADA UM A PAGA SEGUNDO AS SUAS OBRAS (Mateus XVI-27).

Tanto mais que êste crente está acostumado a olhar para o que se passa neste mundo e a ver como freqüentemente os advogados conseguem pôr no ôlho da rua muitos que deveriam permanecer sob as grades da prisão... E pode fàcilmente esquecer que o Advogado que temos para com o Pai é, como diz o próprio S. João, Jesus Cristo JUSTO (1.ª João II-1) e, sendo justo, só pode advogar a causa daqueles que realmente são dignos de receber o perdão, por se acharem sinceramente arrependidos.

Não venham os protestantes dizer que se distingue fàcilmente a voz do Espírito Santo e a voz do nosso próprio orgulho e presunção. Pois podemos logo dar uma amostra bem clara do contrário. Tôdas as seitas protestantes, ao mesmo tempo que vão imbuindo da sua própria interpretação os seus adeptos, vão incutindo também nêles a idéia de que O DIVINO ESPÍRITO SANTO ILUMINA, ESCLARECE A INTELIGÊNCIA DE CADA UM PARA BEM PENETRAR O SENTIDO DAS ESCRITURAS. O resultado é que, COMO veremos, (n.08 225 a 243) as interpretações da Escritura são as mais disparatadas e contraditórias, mas todos os protestantes, desde Lutero até o mais recente nova-seita, estiveram e estão plenamente convencidos de que a sua interpretação, foi o Divino Espírito Santo quem lhes inspirou! Nunca foi tão caluniado o Espírito Santo como nestes últimos tempos, desde o nascimento do Protestantismo até os dias de hoje! O Espírito Santo é infalível, não há dúvida alguma; a questão está apenas em saber quando é que o Espírito Santo nos fala e quando é que nos está falando no nosso íntimo o nosso próprio EU instigado por uma secreta vaidade.

98. ENSINO DAS EPISTOLAS.

Erram lamentàvelmente os protestantes em muitas passagens das Epístolas por uma razão bem compreensível: muitas e muitas frases dos Apóstolos são escritas de acôrdo com as necessidades dos seus destinatários, de conformidade com a correção de que precisam no momento. Mas os protestantes as querem aplicar indistintamente a todos os casos, a tôdas as pessoas. E como nem sempre é possível fazê-lo com tôdas as exortações, escolhem, para isto, as frases que mais lhes agradem, de acôrdo com a sua ideologia.

S. Paulo, por exemplo, diz aos Romanos: Vós não recebestes o espirito de escravidão para estardes outra vez COM TEMOR; mas recebestes espírito de adoção de filhos, segundo o qual clamamos, dizendo: Pai, Pai (Romanos VIII-15). É precisamente o versículo que antecede àquele em que S. Paulo se refere ao testemunho do Espírito e que já comentámos no número anterior.

Já S. Pedro, na sua 1.ª Epístola, diz o seguinte: E se invocais como Pai Aquêle que sem acepção de pessoas julga segundo a obra de cada um, VIVEI EM TEMOR durante o tempo da vossa peregrinação (1.ª Pedro 1-17).

Eis aí S. Paulo aconselhando que não se tenha temor, mas sim uma confiança filial; S. Pedro, ao contrário, dizendo que se deve TEMER e durante tôda a vida. Há alguma contradição nisto? Não há. Deus é Pai e é Juiz Justíssimo. Deve-se ter confiança na sua misericórdia, que é infinita e temer a sua justiça, que é inexorável. S. Paulo fala aos Romanos que estão invadidos pelo temor, dominados pelo pessimismo e é preciso lembrar-lhes que Deus é Pai e havemos de estar tranqüilos e ter confiança nÉle. Os que vivem na graça de Deus, se sofrem, isto não é sinal de que estejam incorrendo no desagrado divino. Já aos Filipenses, a quem S. Paulo é obrigado a advertir: Nada façais por porfia NEM POR VANGLÓRIA, mas COM HUMILDADE (Filipenses 11-3), mesmo Apóstolo das Gentes exorta a trabalhar na obra da salvação COM RECEIO E COM TREMOR (Filipenses 11-12). S. Pedro, por sua vez, fala a cristãos que estão muito confiados em que Deus é Pai e estão se esquecendo de que êste mesmo Pai é também Juiz Justíssimo que julga segundo as obras de cada um, sem fazer acepção de pessoas, e por isto estão arriscados a caírem no pecado e no relaxamento e, conseqüentemente, na condenação eterna. Todos indistintamente, cristãos e pagãos, católicos e protestantes, judeus e gentios, santos e pecadores têm que passar pelo seu tribunal de uma justiça perfeita e aí prestarão contas de tudo o que fizeram, ou de bom ou de mau (2.ª Coríntios V-10). É certo que se levará em conta naturalmente o perdão que receberam aquêles que FIZERAM o que era necessário para obter êste perdão.

Por isto havemos de ter em tôda a nossa vida A CONFIANÇA em Deus, que é nosso Pai, que nos quer salvar, que vela sôbre todos os nossos passos, que está sempre pronto a nos ajudar com a sua graça. E havemos de ter em tôda a nossa vida (ou, como diz S. Pedro, durante o tempo da nossa peregrinação) o TEMOR por causa da nossa miséria, da nossa inconstância e fragilidade, uma vez que é necessário que correspondamos à graça e não podemos garantir que sempre seremos fiéis a ela. Ostentar certeza absoluta disto seria desconhecer a nós mesmos e nutrir uma presunção que nos privaria desta mesma graça. É por isto que S. Filipe de Néri, um santo muito engraçado, apesar da sua resolução inabalável de servir a Deus e jamais ofendê-Lo, dizia sempre nas suas orações a Jesus Sacramentado: "Jesus, cuidado com Filipe! Éle pode atraiçoar-vos". E no mesmo sentido dizia o virtuoso sacerdote cearense Mons. Antônio Tabosa: "Eu não tenho tanto mêdo do demônio, nem dos homens; eu tenho mêdo é do Tabosa".

Confiar plenamente em Deus; desconfiar de nós mesmos, é o equilíbrio da ascese católica, que é a única ascese legítima, pois constrói o edifício da nossa esperança sôbre os alicerces da virtude da humildade.

99. VÍCIO DE ORIGEM.

A mentalidade protestante tem sido diversa da mentalidade católica neste ponto, porque o Protestantismo nasceu precisamente disto: da pretensão de Lutero de querer ter, e sem grande trabalho, a certeza absoluta de que era um predestinado para o Céu. Para isto, alargou monstruosamente o caminho da salvação. Fêz, pode-se dizer, desta certeza absoluta da salvação, o único requisito para alcançá-la. Segundo a doutrina de Lutero, para alguém se salvar certamente, não precisa observar os mandamentos (porque, segundo êle, o homem não pode observá-los, uma vez que não é livre), não precisa mais do que crer que já está salvo.

O Evangelho, na doutrina de Lutero, se tornou uma boa nova, não no sentido que lhe deu Jesus Cristo, mas uma boa nova para todos os criminosos, todos os ímpios, todos os crápulas, todos os devassos, os quais, de queixos caídos, ouvem Lutero explicar-lhes, que também para êles é facílima a salvação, uma vez que não se exige o arrependimento, uma vez que os pecados que cometeram, ou cometerão ainda para o futuro, não os impedirão de entrar no Céu; Cristo cobrirá com o seu manto todos êstes pecados; basta ficarem certos, certíssimos, convencidos inteiramente de que se salvarão pelo sangue redentor de Cristo, que fêz tudo por nós, que já pagou, que já observou a lei de Deus por todos êles, para que êles ficassem dispensados de observá-la.

Assim a certeza absoluta da salvação era uma conseqüência da doutrina de Lutero, mas de uma doutrina ímpia, perversa e monstruosa. Realmente se para entrar no Céu o pecador não precisa emendar-se nem arrepender-se, entra com os pecados e tudo, porque Jesus acoberta êstes pecados debaixo do seu manto, se só o pecado que condena o homem ao inferno é o pecado de não crer, isto é, de não confiar em Cristo, é fácil ao homem que confia em Cristo ficar com a convicção absoluta de que se salva.

Mas todo êste sistema é, debaixo das aparências de piedade, de adesão a Cristo, um sistema diabólico. Nem Deus, nem o Evangelho, nem homem algum de bom senso pode estar de acôrdo com isto, porque é fazer do Evangelho a porta aberta para todos os crimes, tôdas as misérias e degradações.

100. UM QUADRO MARAVILHOSO...

Os protestantes de hoje não concordam, nem podiam concordar com semelhante teoria. Foram obrigados a fazer uma notável alteração no sistema luterano: o homem é livre e para salvar-se precisa arrepender-se, emendar de vida, deixar o pecado, o que é o mesmo que reconhecer que o pecado que não foi convenientemente retratado impede de entrar no Céu. Mas onde se mostra tôda a inexperiência dos protestantes é em querer conciliar esta nova doutrina com a idéia de certeza absoluta da salvação. Dizer ao crente que êle tem certeza absoluta de salvar-se é, no caso, garantir que êle não pecará jamais.

— Exatamente, dizem os protestantes. O crente está completamente liberto do pecado: Se algum, pois, é de Cristo (ou mais de acôrdo COM O texto grego: se algum está EM CRISTO) é uma NOVA CRIATURA (2.. Coríntios V-17). Desde que o homem se arrepende sinceramente e faz profissão de fé em Cristo, Único e Suficiente Salvador, torna-se regenerado pelo Espírito Santo e assim não peca mais. É a maravilhosa transformação que o Evangelho realiza no coração do homem.

E como os protestantes não admitem nenhuma distinção entre pecado mortal e pecado venial, porque estas expressões não se encontram na Bíblia, segue-se que o crente não comete pecado de espécie alguma, nem grave nem leve; se o cometesse e não se arrependesse, iria para o inferno. Mas não vai, porque não peca.

E uma amostra, que pode estar à vista do público, de que êstes crentes já estão completamente regenerados e santificados pelo Espírito Santo, pode-se ver em muitas seitas: o crente já não fuma, não toca absolutamente em bebidas alcoólicas, não dança e não joga.

A Igreja dos crentes é constituída exclusivamente de puros e perfeitos... E enquanto os católicos apresentam o cristão subindo penosamente a montanha da perfeição, em peleja contra as intempéries, contra os animais ferozes, sujeito às vêzes a cair ferido nesta luta, embora depois possa levantar-se, no Protestantismo -é como se o cristão subisse sentado e conduzido docemente por Jesus, dentro de um carrinho de mão e carrinho fechado, coberto e... blindado, para não sofrer nada com os ataques adversos.

Daí se vê, portanto, a superioridade do Protestantismo sôbre a Religião Católica: aquêle promete aos seus adeptos a salvação com tôda certeza, enquanto esta não dá a ninguém a certeza absoluta da salvação, por conseguinte não traz a paz e a tranqüilidade às consciências...

O quadro é assim traçado com uma ingenuidade espantosa.

101. DA TEORIA PARA OS FATOS.

Primeiro que tudo, ainda não é o fato de um indivíduo não fumar, não beber, não dançar, nem jogar, que prova que êle está completamente liberto do pecado. Ser irrepreensível aos olhos dos homens, é uma coisa; estar inteiramente isento de culpa aos olhos de Deus, é outra bem diferente. Um mau pensamento, um desejo impuro, um movimento interior de orgulho, de presunção, de ódio ou de juízo temerário podem passar com rapidez na alma do cristão e deixá-lo manchado e culpável aos olhos divinos, sem que isto transpareça diante das criaturas. São pecados que não se podem averiguar. Mas há outros ainda que podem chegar ao nosso conhecimento: não repugna que um indivíduo que não fuma, não bebe, não dança e não joga seja capaz de caluniar, de cometer um adultério, de enlear-se em amizades perigosas, de pregar uma mentira, de agir com falsidade, de se mostrar grosseiro e intratável com a família, de detratar da vida alheia, de passar um calote etc, etc. E aí se vê a responsabilidade tremenda de cada um dêstes crentes que se apresentam como perfeitíssimos e de cujo procedimento fica a depender a verdade de sua própria religião: a cada falta que cometem, surge uma pessoa para observar: Então a sua doutrina está errada! Você não diz que aquêle que aceitou a Cristo como Salvador está salvo, porque está completamente liberto do pecado? Isto é falso, porque Você agora mesmo foi pilhado numa transgressão.

E quando se mostram a um protestante os casos de pecados cometidos por crentes e "regenerados", a saída é esta:

– É porque êles não tinham a fé verdadeira ou não tinham o verdadeiro arrependimento.

– Quer dizer então que aquilo que a princípio se apresentava como o que havia de mais simples neste mundo, agora de um momento para outro, se transformou no que há de mais difícil e complicado.

Porque, antes de se converter o pecador, o infiel ou o descrente, como Vocês queiram chamar, o que Vocês diziam a êle era que a salvação é coisa muito fácil. Arrependeu-se o homem, aceitou a Cristo como seu Único e Suficiente Salvador, como seu Salvador Pessoal, já está salvo, completamente regenerado, não peca, não pode perder-se jamais.

Agora que o homem pecou, vem a ter notícia do seguinte: Seu arrependimento, que o seu coração lhe dizia ser sincero, sua aceitação de Cristo que êle fêz de tão boa vontade, não valiam, não eram verdadeiros, porque para isto era preciso que SE PUDESSE GARANTIR QUE ÊLE JAMAIS VOLTARIA A COMETER NENHUM PECADO, NEM GRAVE NEM LEVE, EM TÔDA A SUA VIDA.

Ora, isto não se pode garantir de pessoa alguma!

102. OS BATISTAS E A CERTEZA DA SALVAÇÃO.

Dêste jeito, a tal garantia absoluta de que se está salvo definitivamente já neste mundo, se evapora completamente.

É precisamente o que se dá com os Batistas. Se, por acaso, o leitor é protestante e pertence a alguma outra seita, pode muito bem confrontar com o que se passa lá nos seus arraiais, dentro da doutrina de sua denominação.

Como já tivemos ocasião de observar, o Protestantismo teve origem no cérebro de um homem que estava preocupado com êste problema: COMO HAVIA DE TER CERTEZA ABSOLUTA DA SUA SALVAÇÃO.

Encontrou uma doutrina que lhe "fornecesse" esta certeza absoluta: O homem não é livre. Deus é quem faz em nós o bem e o mal; é Êle quem guia os passos de uns para a salvação e os de outros para a condenação eterna, porque a observância dos mandamentos é impossível. O pecado, mesmo existente na alma, não impede o homem de entrar no Céu, porque, se êle tem fé, isto é, confiança em Jesus Cristo está salvo, mesmo que tenha muitos pecados e dêles não se arrependa (porque arrependimento seria uma hipocrisia, uma vez que não é livre), Deus não olha para êstes pecados, não lhe são imputados. Assim ensinou Lutero e daí nasceu a doutrina de Calvino: a predestinação de uns para o Céu e de outros para o inferno.

Dentro desta horrorosa doutrina, é natural que um homem se julgue com a salvação garantida: se eu acho que estou no número dos predestinados para o Céu, penso que dê no que der, faça o que fizer, chegarei lá sempre. Pobrezinhos daqueles que estão predestinados para o inferno; mas isto é lá com êles, não me interessa, nem tenho jeito a dar.

Foi assim que começou o Protestantismo.

Ora, os Batistas no princípio seguiram esta doutrina calvinista da predestinação de uns para o Céu e outros para o inferno. E a proclamaram solenemente na Confissão de Fé de Filadélfia, no ano de 1742, a qual esposou as idéias da Confissão de Westminster (1641-1648) francamente calvinista, acrescentando-lhe os princípios batistas: independência de cada igreja, batismo dos adultos etc.

Mas acontece que pouco a pouco foram os protestantes sentindo horror a esta doutrina calvinista. E, como não é de admirar, os Batistas resolveram abandoná-la. Foi o que fizeram na Confissão de New Hampshire, em 1833, na qual se diz no Artigo 6.°: "Cremos que a salvação é concedida gratuitamente A TODOS, segundo o Evangelho, que é o dever imediato de todos aceitá-la por meio de uma fé sincera, ardente e obediente; que não há impecilho algum à salvação do maior pecador que existe sôbre a terra, a não ser a sua própria perversidade e rejeição voluntária do Evangelho."

Ficaram alguns Batistas apegados à doutrina calvinista, porque há várias subdivisões entre os Batistas ("há vinte e seis denominações batistas nos Estados Unidos agora" é o que nos informa o pastor batista William Carey Taylor no seu livro "É possível a perda da Salvação?" pág. 31), mas a grande maioria dos Batistas segue a Confissão de New Hampshire. E esta é a doutrina comumente ensinada pelos pastôres batistas na América do Sul.

Entretanto êstes mesmos pastôres batistas pregam abertamente A CERTEZA ABSOLUTA DA SALVAÇÃO. COMO pode ser isto?

Que os Batistas calvinistas, admitindo que Deus já DECRETOU desde tôda a eternidade e de uma maneira irrevogável, que uns irão para o Céu e outros para o inferno, isto independentemente das obras de cada um, nutram em si esta ilusão da CERTEZA ABSOLUTA DE SUA SALVAÇÃO, se compreende muito bem.

Mas homens que admitem:

1.º que somos livres e podemos pecar a cada instante;

2.º que a graça não violenta a nossa liberdade, mas é preciso que cooperemos com ela;

3.o que um pecado cometido, seja êle qual fôr, se não fôr retratado pelo arrependimento, nos põe em estado de condenação AO INFERNO, pois nem ao menos os Batistas fazem distinção entre pecado mortal e pecado venial; como é que êstes homens podem pregar uma CERTEZA ABSOLUTA DA SALVAÇÃO?

Isto é o que naturalmente aguça a nossa curiosidade.

Vejamos, portanto, a doutrina dos Batistas.

O homem é salvo pela FÉ, não pelas obras. A salvação é dada gratuitamente àquele que tem a verdadeira fé e o verdadeiro arrependimento.

Mas a fé verdadeira é aquela que SE MANIFESTA PELAS OBRAS, pelo reto procedimento do homem, que assim DÁ TESTEMUNHO DE SUA FÉ, quando age em tudo como uma criatura regenerada e liberta do pecado. Se o homem procede mal, é sinal de que não tem a verdadeira fé.

O homem que peda mostra que não alcançou a salvação, que, portanto, não é um verdadeiro crente, pois "se é um crente verdadeiro, os frutos de sua fé manifestar-se-ão NA SUA VIDA, pois que tal homem não deixará de agir como um herdeiro da salvação. Pretender ser um dos eleitos e agir como um incrédulo, seria fazer o papel de hipócrita ou de néscio" (O Que Crêem os Batistas. O.C.S. Wallace. 1945. pág. 71).

Há, por conseguinte, duas espécies de crentes: uns que são crentes verdadeiros e outros que são crentes nominais, ou seja, são crentes SóMENTE DE NOME. Só SE SALVAM AQUÊLES QUE SÃO CRENTES VERDADEIROS.

Daí se conclui, é claro, que para eu ter a certeza de que já estou salvo, não basta que eu seja membro da Igreja Batista. É preciso, além disto, que seja UM CRENTE VERDADEIRO.

Desejoso, como me acho, de saber realmente se já estou salvo ou não, é natural que eu pergunte: Quando é que posso saber se sou ou não um verdadeiro crente?

Vamos reproduzir a resposta que dão os Batistas a esta pergunta.

Mas repare bem o leitor. Não vamos citar êste ou aquêle pastor, porque assim os Batistas se descartarão, dizendo que se trata aí apenas de uma opinião pessoal. Vamos citar um livro que expõe OFICIALMENTE o pensamento dos Batistas em geral. É o livro o QUE CRÊEM OS BATISTAS, editado pela Casa Publicadora .Batista e vendido em tôdas as livrarias desta denominação. Está já na 4.' edição brasileira, portanto não é um livro que os Batistas tivessem rejeitado depois de um certo tempo, ao contrário tem sido mais do que aprovado por êles, uma vez que vem tendo edições sucessivas. Dizemos: 4.a edição BRASILEIRA, porque se trata de tradução de uma obra norte-americana do Sr. O.C.S. Wallace, muito conhecida dos Batistas em várias partes do mundo. É, além disto, como diz no Prefácio "um comentário aos 18 artigos de fé que constituem a Confissão de Fé de New Hampshire. Foi formulada e adotada pelos Batistas do Estado de New Hampshire em 1833 e é atualmente aceita pelos batistas em geral. Não se trata de um credo, porque os batistas não o possuem. É apenas uma síntese daquilo que cremos".

Pois bem, se eu pergunto QUANDO É QUE SEI QUE SOU UM CRENTE VERDADEIRO, que é o mesmo que dizer, quando é que sei que já estou salvo, eis aí a resposta dêste livro, que é destinado a "prestar seus bons serviços na orientação doutrinária do povo batista":

"A DEMONSTRAÇÃO DE SER ALGUÉM UM CRENTE VERDADEIRO SÓ É COMPLETA NO FIM DA VIDA. A corrente da âncora não terá sido provada satisfatoriamente, enquanto cada elo não tiver sido provado. Assim também o crente não terá dado prova suficiente da REALIDADE DA SUA FÉ, até que essa fé tenha sido provada, quer na mocidade, quer na velhice, desde o princípio ATÉ O FIM DA JORNADA. Um homem pode enganar os outros durante muitos anos, até que uma circunstância inesperada venha pôr a descoberto seu verdadeiro caráter. ÉLE MESMO PODE ESTAR ILUDIDO e recusar-se a uma submissão completa a Cristo, como o Evangelho exige, crendo ser possível obter a vida eterna PELO MENOR PREÇO. Neste caso fica convencido de que realmente alcançou a vida e animado por essa esperança passa a executar os deveres cristãos sem, por muito tempo, ter de enfrentar uma provação a que não possa resistir. Como conseqüência de sua própria ILUSÃO, o homem deixa-se descansar numa SEGURANÇA FALSA, e será despertado só quando sobrevier alguma prova imprevista ou tentação para a qual não esteja preparado. Então se revela o fato de que sua vida anterior apresentava apenas UMA TRANSFORMAÇÃO EXTERNA NÃO ERA O RESULTADO DE UMA MUDANÇA INTERIOR" (O Que_Crêem os Batistas. O.C.S. Wallace edição 1945 pág. 84).

Mas direi eu: Passei muitos anos, santificando-me, sem cometer nenhum pecado, será que eu ainda não sou crente verdadeiro, será que não tenho a verdadeira fé?

Vejamos o que diz o mesmo citado livro:

"Uma experiência passada, EMBORA EXTRAORDINÁRIA, não é motivo que justifique a esperança do céu. ANOS gastos na fiel observância das obrigações religiosas NÃO PODEM GARANTIR A SEGURANÇA ETERNA do homem que já deixou de andar em conformidade com a vontade de Deus. Se o presente é caracterizado pela impiedade, mundanismo e indiferença, falta a prova da fé e A EVIDÊNCIA DA REGENERAÇÃO DESAPARECEU; em tal caso SERÁ TOLICE da parte do homem esperar um lugar entre os santos" (O Que Crêem os Batistas. O.C.S. Wallace. 1945 pág. 87).

Como se vê pelas palavras acima citadas, esta EXPERIÊNCIA DA SALVAção, em que tanto falam os Batistas, ou seja — a convicção no homem de que está. agindo bem, só faz o que é reto e por isto já está sentindo que Deus está satisfeito com êle, que o Espírito Santo lhe está dando o testemunho de que já fêz dêle um filho de Deus, co-herdeiro de Cristo herdeiro do Céu — esta experiência, ainda que se prolongue DURANTE ANOS SEGUIDOS, mesmo assim não pode dar ao homem A SEGURANÇA ETERNA. 'Me pode, ainda depois disto, cair na IMPIEDADE, MUNDANISMO E INDIFERENÇA.

Não se alegue que isto é apenas uma opinião do comentarista O.C.S. Wallace. É a própria Confissão de Fé de New Hampshire que diz no Artigo 11.º: "Cremos que SÓ SÃO CRENTES VERDADEIROS AQUÊLES QUE PERSEVERAM ATÉ O FIM".

Depois de ler tudo isto, lembre-se agora o leitor do seguinte: quantas pessoas, por não terem sólida instrução religiosa, foram atraídas a ingressar na seita dos Batistas e nela ingressaram, porque ficaram encantadas com esta seita que dizia GARANTIR AOS CRENTES a salvação COM TÔDA A CERTEZA e pretendia provar isto COM PALAVRAS DA BÍBLIA ! Uma verdadeira maravilha! Quem é que não quer ter a certeza de que, morrendo, irá direitinho para o Céu?

E assim se foram engrossando as fileiras dos Batistas! Mas basta que o batista estude realmente qual é a doutrina de sua seita, para ver como está sendo vítima de um deplorabilíssimo engano e ENGANO REDOBRADO: 1.º porque, se estudar CONSCIENCIOSAMENTE a Bíblia, comparando uns versículos com os outros, pois tudo ali é palavra de Deus, verá que ela não promete a ninguém esta regalia de ficar descansado, absolutamente certo de que irá para o Céu, mas a entrada no Céu é sempre apresentada sob certas condições: se o homem crer (João III-18), se observar os mandamentos (Mateus XIX-17), se amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo (Lucas X-25 a 27), se cumprir a vontade do Pai Celeste (Mateus VII-21), se souber evitar a impureza, a idolatria, as invejas, os homicídios, a embriaguez e outras coisas semelhantes (Gálatas V-19 a 21) etc, etc;

2.º porque NEM A PRÓPRIA DOUTRINA BATISTA, pelo menos, a seguida pela grande maioria da seita, a qual rejeita o Calvinismo com as suas idéias sôbre a predestinação, NEM A PRÓPRIA DOUTRINA BATISTA autoriza ninguém a se julgar salvo assim COM ESTA CERTEZA ABSOLUTA.

– Sim, meu amigo, deverá dizer o outro batista. Os crentes vão para o Céu com tôda certeza. São palavras da Bíblia. Mas há uma coisa: quando se diz que os crentes são salvos definitivamente já neste mundo, aí se entende dos CRENTES VERDADEIROS. VOCê, DURANTE TÔDA SUA VIDA, não saberá nunca se é crente verdadeiro ou não, porque só se sabe com certeza se alguém é crente verdadeiro, quando praticou a virtude até o fim da vida. Pois se deixou de praticar a virtude em algum tempo, mesmo que por longos anos a tenha praticado, isto é sinal de que o indivíduo nunca teve nem fé, nem salvação, nem regeneração, nem coisa alguma.

o caso de dizer: Que me adianta a mim, desejoso, como estou, de ter certeza absoluta de MINHA salvação, o saber que os crentes verdadeiros vão para o Céu, porque se salvam já neste mundo, se eu não sei nunca se sou crente verdadeiro ou não, se isto é um segrêdo de Deus, só ÉIe conhece os verdadeiros crentes?

E é interessante observar qual o remédio que usam os Batistas para acalmar esta dúvida, quando assalta o espírito de seus adeptos.

Diz o mesmo livro: "Como posso saber se sou um dos eleitos? é em geral a inquirição de uma alma mórbida" (O Que Crêem os Batistas. O.C.S. Wallace. 1945 pág. 71). Aqui paramos para apreciar êste verdadeiro contraste: uma seita cujos pastôres e fiéis tanto falam na certeza absoluta da salvação, é ela mesma a nos dizer que esta indagação sôbre se iremos para o Céu ou não é a preocupação de uma alma doentia. Outra observação que vem bem a propósito é esta: donde é, que nasceu o Protestantismo, senão da idéia fixa que se meteu na cabeça de Frei Martinho Lutero sôbre a certeza ou não de sua salvação? É o mesmo que confessar que as seitas evangélicas tiveram origem de uma preocupação mórbida... Se a pergunta: Como posso saber se sou um dos eleitos? dominando insistentemente o espírito de uma pessoa, é sinal de uma doença mental, neste caso aquêles médicos, psicólogos e historiadores que, estudando a fundo a vida de Lutero, viram nêle um indivíduo anormal, se nos apresentam cobertos de tôda razão.

Mas vejamos o livro: "Como posso saber se sou um dos eleitos? é em geral a inquirição de uma alma mórbida. Tôdas as vêzes que surgir a dúvida, volte-se a alma para Jesus. Em vez de alimentar dúvidas, esta grande doutrina da Palavra de Deus dá maior certeza" (O Que Crêem os Batistas. O.C.S. Wallace. 1945 pág. 71).

De modo que o crente batista, assaltado pela dúvida se já está salvo ou não, abre a sua Bíblia e nela vai encontrar o remédio para suas inquietações, vai buscar o confôrto naqueles grandes ensinamentos: Quem crê no Filho, tem a vida eterna; Crê em Jesus, e serás salvo; Quem crer, não será confundido etc, etc. E aquieta-se completamente sob o efeito destas sublimes palavras.

Sim, aquieta-se completamente... se quiser realmente iludir-se a si mesmo. Porque, se quiser REFLETIR um pouquinho que seja, logo perguntará: Quando a Bíblia diz: O que crê no Filho tem a vida eterna; Crê em Jesus, e serás salvo; Quem crer, não será confundido etc, ela se refere ao crente verdadeiro ou ao crente só de nome?

– Refere-se só ao CRENTE VERDADEIRO.

– E eu? Sou crente verdadeiro ou só de nome?

– Isto não sabes agora. Porque crente verdadeiro é aquêle que se conserva regenerado, que se mantém liberto do pecado até o fim da sua vida.

E assim fica o homem exatamente na mesma dúvida.

Nesta matéria de certeza da salvação, a situação do batismo é, de acôrdo com a sua própria doutrina, a mesma situação em que se encontra o católico.

O católico, ainda que se encontre em estado de graça, mesmo que sinta que Deus está habitando no seu coração, porque a sua consciência não o acusa de falta grave, e de todos os pecados passados está arrependido e perdoado, ainda assim NÃO PODE GARANTIR COM CERTEZA QUE IRÁ PARA O CÉU; seria uma presunção da sua parte, porque seria o mesmo que garantir que na hora da morte estará conservando esta mesma graça santificante; garantir pela própria fidelidade é confiar demais em si mesmo. Pode, sim, ter uma FIRME ESPERANÇA, porque a graça de Deus jamais lhe faltará; se tiver sempre boa vontade em cooperar com ela, se salvará com tôda a certeza.

O batista, ainda mesmo que esteja de boa fé, que esteja procedendo bem, que sinta o bom testemunho de sua consciência, porque, na hipótese, sua conduta é em todos os pontos irrepreensível e ainda mesmo que esta boa situação, já a tenha conservado durante anos seguidos, mesmo assim NÃO PODE GARANTIR COM CERTEZA QUE IRÁ PARA O CÉU, porque no Céu só poderão entrar aquêles que são crentes verdadeiros, e êle não sabe ainda se é crente verdadeiro, pois "A DEMONSTRAÇÃO DE SER ALGUÉM UM CRENTE VERDADEIRO SÓ É COMPLETA NO FIM DA: VIDA". ( O Que Crêem os Batistas. O.C.S. Wallace. 1945 pág. 84).

A condição única da salvação, a seu ver, é a verdadeira fé, mas passa a vida inteira sem saber se possui esta verdadeira fé, porque ela se manifesta pelas OBRAS, obras estas que êle pratica livremente e nelas pode falhar.

E assim estamos diante de um fato bastante estranho.

Ésses Batistas que nós vemos tão freqüentemente acusarem os católicos de serem heréticos e antibíblicos pelo fato de não ensinarem a certeza absoluta, individual, da salvação, são êles próprios que mostram claramente que, na prática, esta certeza absoluta não pode existir.

É o caso de perguntar: encontra o leitor nesta estranha atitude algum vestígio daquela SINCERIDADE com que se há de aceitar e transmitir a verdadeira doutrina do Evangelho?

Amigos Batistas: depois que apareceu o Protestantismo, várias seitas têm pregado no mundo esta CERTEZA ABSOLUTA DA SALVAÇÃO, mas para chegar até aí sempre seguiram um caminho errado e escabroso. Se Vocês querem também chegar a esta conclusão, enveredem por algum dêsses maus caminhos.

Querem pregar a certeza absoluta da salvação, não é assim?

Então preguem como Lutero e os primeiros luteranos que o homem não é livre, Deus é quem faz em cada um o bem e o mal, que para alcançar o Céu não se precisa de arrependimento, que lá se entra com pecados e tudo, porque Cristo cobre êstes pecados debaixo do seu, manto. — Mas isto é a destruição de tôda a moral.

Ou então preguem, como Calvino, que Deus por um decreto firme e irrevogável já predestinou desde tôda a eternidade alguns homens e anjos para o Céu e outros para o inferno, isto independentemente de qualquer consideração das obras ou do procedimento de cada um. —Mas, isto é uma doutrina HORROROSA, que se choca evidentemente com a nossa RAZÃO e que destrói qualquer idéia da JUSTIÇA e da BONDADE de DEUS.

Ou então preguem, como os Universalistas, que não existe inferno, que todos nós, sem distinção alguma, justos e pecadores, chegaremos ao Céu. — Mas isto vai de encontro abertamente ao ensino das Escrituras.

Bem, se não querem seguir nenhum dêsses caminhos, se querem pregar o LIVRE ARBÍTRIO, a doutrina de que o pecado que não foi retratado pelo arrependimento impede de entrar no Céu, se querem exaltar, como deve ser, a bondade e a justiça divinas, se querem admitir, com a Bíblia, além de um Céu eterno para os bons, um inferno também eterno para os maus, neste caso não há outro jeito senão desistirem desta idéia de andar pregando aos crentes a promessa de uma segurança absoluta no que diz respeito à salvação. Sim, porque há um fenômeno que ninguém jamais poderá negar, pois está à vista de todos: a fragilidade da nossa natureza, a inconstância do coração humano.

103. A DESIGUALDADE DAS GRAÇAS.

Todo o mal dos Batistas neste ponto (e é também o mal de muitas outras seitas protestantes) é embalar-se com um SONHO e não encarar a REALIDADE: é imaginar que a todos são concedidos os FENÔMENOS EXTRAORDINÁRIOS que são limitados a algumas pessoas. Fazem como a criança que, vendo a firmeza com que os equilibristas fazem em cima do arame as mais incríveis acrobacias, ficasse pensando que isto era um sinal de que ela mesma podia fazê-las também, esquecida de que para aquilo se faz mister um dom especial.

Não há dúvida que nós vemos os PRODÍGIOS operados pela graça nos grandes santos: uns desde a mais tenra infância, outros desde o momento de sua conversão, entraram de cheio no serviço de Deus com uma firmeza inquebrantável, agigantaram-se cada vez mais na vida sobrenatural, e seguiram para o Céu num caminho direto, sem cometerem nenhuma falta, nem mesmo venial, ao menos deliberada. Aos olhos dos homens podiam parecer impecáveis, mas era uma ação tão abundante do Espírito Santo que lhes infundia, além das virtudes, um horror muito grande ao pecado, que êste, fôsse qual fôsse, se lhes afigurava o que havia de mais inconcebível, e assim era livremente que êles realizavam em si o ideal da perfeição. E o realizavam, apesar das tentações, por vêzes bem acerbas, que tiveram de suportar.

É fácil notar pelas Escrituras a transformação extraordinária que, a partir do dia de Pentecostes, se verificou no espírito dos Apóstolos, os quais de ignorantes passaram a mostrar-se altamente iluminados, de cobardes se fizeram intrépidos, de mesquinhos em certas atitudes logo se tornaram generosos e santos. Então antes de Pentecostes não tinham a fé verdadeira? Tinham, sim. Mas era tão importante a missão que êles haviam de exercer, lançando, depois de Cristo, as bases da verdadeira Igreja, que era preciso se realizasse na sua inteligência, no seu coração, em tôda sua alma, uma ação superabundante e eficacíssima do Divino Espírito Santo, em grau muito mais elevado do que no comum dos fiéis. E esta operação maravilhosa se verificou precisamente no dia em que lhes chegou a vez de saírem pelo mundo, substituindo a Cristo na obra evangelizadora.

Mas agora perguntamos: estas transformações extraordinárias se têm que operar necessàriamente em todos?

Não, porque Deus não quer levar tôdas as almas pelo mesmo caminho.

Não, porque as graças do Espírito Santo não são distribuídas a todos da mesma maneira, nem na mesma proporção: A cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida do dom de Cristo (Efésios IV-7).

Não, porque além de não serem iguais as graças concedidas, também é certo que nem todos cooperam com a graça da mesma forma.

Haverá injustiça nesta distribuição desigual das graças? Nenhuma; porque, se Deus dá a todos uma GRAÇA SUFICIENTE para a salvação, cada um trate de salvar-se com esta graça que recebeu, nada tem que ver com a maior liberalidade que Deus usa para com outros, pois Deus dá os seus dons a cada um da maneira que bem Lhe apraz.

Ora, acontece que estas seitas, apegadas à idéia de CERTEZA ABSOLUTA DA SALVAÇÃO dada já neste mundo, e não sabendo explicar exatamente em que sentido a salvação é um DOM GRATUITO DE DEUS, imaginam o seguinte sistema: A salvação é dada DE GRAÇA pelo Divino Espírito Santo a todo aquêle que tem FÉ, e é dada quando o Espírito Santo regenera o indivíduo. Regenerar o indivíduo é libertá-lo completamente do pecado, êle já não peca, não porque se tornou impecável, mas porque VOLUNTARIAMENTE se mostra em tudo obediente a Cristo. É uma operação misteriosa e inefável do Divino Espírito Santo.

Aquêle que peca, é porque ainda não foi SALVO, não foi REGENERADO, o que é sinal de que ainda não tem a verdadeira fé.

E assim julgam conciliar a realidade da liberdade humana com o sonho da CERTEZA ABSOLUTA DA SALVAÇÃO PARA TODOS OS CRENTES.

ficam a zombar dos católicos que se põem a rezar, a fazer penitências, a ouvir missas, a receber sacramentos etc, para obter maiores graças de Deus e assim garantir ainda melhor a sua própria salvação, quando a salvação êles a julgam ter recebido INTEIRAMENTE DE GRAÇA, já estão salvos definitivamente desde êste mundo; foi o Espírito Santo que num momento transformou a sua alma e êles se tornaram regenerados e purificados para sempre... E isto é um dom concedido a todo verdadeiro crente, a todo aquêle que tem a verdadeira fé...

O protestante, portanto, considera a FÉ, a SALVAÇÃO e a REGENERAÇÃO, como sendo uma peça inteiriça que não se quebra nunca e que nunca se perde, como um presente que, ou se dá para sempre, ou então não se deu ainda de forma alguma.

Tudo isto vai muito bem, ENQUANTO O PROTESTANTE NÃO PECA.

é tão fácil um homem pecar! Mais fácil ainda, quando se julga superior a outra pessoa, seja ela qual fôr, porque isto é o mesmo que privar-se da graça: Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes (1.ª Pedro V-5).

Os próprios Batistas reconhecem que, mesmo depois de ter levado ANOS de vida santa e frutuosa, o homem ainda pode pecar.

E o protestante que peca está numa situação lamentabilíssima. Caiu fragorosamente das grandes alturas, a que se julgava elevado, na sua presunção.

Embalado, como esteve até agora, com a pretensão de que JÁ ESTÁ SALVO, JÁ ESTÁ REGENERADO, ou por cegueira não leva em consideração os pecados que vai cometendo e dêles, portanto, não se arrepende, e neste caso é o maior dos infelizes, julgando-se salvo quando está fora do caminho da salvação: vai morrer sorrindo, pensando que o Céu se lhe vai abrir de par em par, mas não sabe a surprêsa que o espera no outro mundo, porque LHE FALTA O ARREPENDIMENTO e porque Deus o julga SEGUNDO AS SUAS OBRAS (Mateus XVI-27; Romanos II-6) e não de acôrdo com as suas ilusões;

ou então sente o remorso do pecado cometido, e uma decepção tremenda se abate sôbre o seu espírito: Passei tanto tempo, tendo-me na conta de salvo, de regenerado, pensando que possuía a verdadeira fé; agora cheguei à conclusão de que eu NUNCA TIVE nem fé, nem salvação, nem regeneração, nem coisa alguma. Uma verdadeira lástima!

como está convencido de que a salvação não a alcança por seu próprio esfôrço, ajudado embora com a graça de Deus, como ensinam OS católicos; mas é apenas um dom de Deus, dado INTEIRAMENTE DE GRAÇA, em vez de acusar a si próprio de ter perdido a salvação, a que até agora teria o direito, êle se volta para o Divino Espírito Santo, afim de perguntar-Lhe por que motivo ainda não lhe concedeu ESTE DOM DA SALVAÇÃO, DA REGENERAÇÃO COMPLETA.

Não culpes assim o Divino Espírito Santo, lhe dirá o "irmão na fé", o outro nova-seita. Se não estás salvo ainda, é porque não tinhas a verdadeira fé, isto é, a confiança absoluta de que Jesus é que te salva.

Mas esta fé, esta confiança de que Jesus me salva, vem só do meu esfôrço ou é, por sua vez, também um dom de Deus? Se vem só do meu esfôrço, não sei mais o que possa fazer, porque confiança de que Jesus é que me salva, acho que a tenho e muita, pois passei todo êste tempo absolutamente convencido disto e cada vez me convencendo mais. Se é, por sua vez, um dom de Deus, por que é que Deus não me dá êste dom?

E assim vai o homem fazer fôrça novamente para ver se tem fé, até que um novo pecado o faz cair outra vez na mesma situação de desespêro. Dêste modo, êle está a poucos passos da terrível teoria calvinista de que Deus é quem predestina uns para o Céu, e outros para a perdição.

Como é, então, que esta doutrina de que a salvação é dada por Deus, como um presente inteiramente gratuito e só é possuída por aquêles que se acham confirmados em graça, isto é, de pé para nunca mais cair, como é que esta doutrina pode ser consoladora para nós, que somos todos, mais ou menos, pecadores?

Entre os católicos as coisas se passam de maneira bem diferente. Suponhamos que um católico se achava em estado de graça, que passou mesmo muitos anos levando uma vida santa e agora caiu num pecado grave. Éle não se sente privado da fé, como se fôra um incrédulo, porque a fé consiste em aceitar tôda a doutrina de Cristo, a qual nos é proposta pela sua Igreja Infalível. Êle continua a ver em Jesus o seu Salvador: sabe que Deus quer salvá-lo e não lhe negará a graça do arrependimento, nem o seu perdão, a ser adquirido pelos meios competentes, porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim, que êle se converta e viva (Ezequiel XXXIII-11). Não se trata aqui absolutamente de pecar alguém com a esperança de alcançar o perdão. Porque, para haver perdão, é preciso haver um PROPÓSITO EFICAZ (isto é, pronto a empregar todos os meios), FIRME E SINCERO de não mais afastar-se de Jesus por todo o resto da vida. (8) Mesmo quem quisesse abusar da misericórdia divina, pecando com a esperança dês te perdão, se arriscaria a cair no endurecimento e a não receber A GRAÇA da contrição, que Deus pode por justiça negar àqueles que querem ludibriar de sua benevolência. É por isto que diz S. Paulo: Obrai a vossa salvação COM RECEIO E COM TREMOR . . . PORQUE DEUS É O QUE OBRA EM VÓS O QUERER E O PERFAZER, SEGUNDO O SEU BENEPLÁCITO (Filipenses II-12).

Trata-se, sim, de soerguer-se, pela misericórdia divina, aquêle que ia seguindo o bom caminho, mas pagou o seu tributo à fragilidade humana. E o mesmo Deus que obrigava S. Pedro a perdoar 70 vêzes 7 vêzes (Mateus XVIII-21 e 22) saberá ser rico em misericórdia para com a alma que quer seguir a Cristo de todo o coração, mas se encontra muitas vêzes a braços com a sua própria fraqueza. Assim faz o Bom Pastor que corre, pressuroso, em busca da ovelha perdida.

E agora chamamos a atenção do leitor para uma circunstância que não pode ser esquecida: O católico que se achava em estado de graça e caiu num pecado mortal UNICAMENTE A SI PRÓPRIO vai atribuir a causa de sua desgraça. Uma vez que não tem esta idéia de que a salvação é dada por Deus INTEIRAMENTE DE GRAÇA e de uma vez para sempre, mas sim a de que a salvação deve ser conseguida palmo a palmo por êle, ajudado com a indispensável graça de Deus, uma vez que está convencido, de acôrdo com a doutrina católica, de que "àquele que faz e que está ao seu alcance, Deus não nega a sua graça, e mesmo para êle fazer o que está ao seu alcance, Deus ainda o ajuda com a sua graça", a sua conclusão é esta: Existem, na salvação, a parte de Deus e a minha. Deus sempre faz maravilhosamente a sua parte, o seu desejo de salvar-me é muito maior do que o meu próprio desejo. Mas fracassei, não soube perseverar na minha cooperação com a graça. Da-gora por diante hei de esforçar-me por cooperar melhor, ajudado com a graça de Deus, pois SEM ELA NADA POSSO FAZER e pedirei ao próprio Deus que me ajude a me tornar melhor daqui por diante.

Não é difícil verificar, destas duas concepções a respeito da nossa salvação, qual a que se mostra mais adequada à nossa natureza humana, que nada tem de imutável. Trata-se aí de um assunto que a TODOS se refere, pois todos precisam ser salvos, todos têm obrigação de TER FÉ na mensagem do Evangelho.

Segundo a teoria protestante, TODOS AQUÉLES que sinceramente crêem no Evangelho, são por uma operação do Espírito Santo transformados AUTOMÀTICAMENTE em regenerados, que não pecam mais e assim recebem a salvação dada tôda de presente.

Segundo a teoria católica, o homem precisa CONQUISTAR a salvação, cooperando livremente com a graça, dia a dia; e se fraqueja, se cai no meio do caminho, se perde esta salvação em cuja posse se encontrava, ainda pode recuperá-la com o arrependimento e com o perdão divino. Deus amorosamente o ajudará a levantar-se da queda, a não ser que o pecador prefira continuar no deplorável estado em que caiu. Não se negam as transformações maravilhosas que o Divino Espírito Santo tem realizado em certas almas que se guindaram bem depressa às mais belas culminâncias da santidade. Mas também estas almas só chegaram a tal ponto, só conquistaram o grau mais elevado de glória celeste porque por sua vez souberam dia a dia ir cooperando heròicamente com a graça.

Medite bem o leitor, olhe para si e para os outros, e para tôda a história do homem, inclusive nesses 2.000 anos de Cristianismo e veja qual destas duas concepções reflete com exatidão o que é a marcha da Humanidade sôbre a face da terra. E observe também qual delas está mais conforme com a palavra da Bíblia: Aquêle, pois, que crê estar em pé VEJA NÃO CAIA (1.ª Coríntios X-12).

104. DEUS É IMUTÁVEL; MAS NÓS?!

O homem é fraco e o seu coração está sujeito a mudanças. Pode ter hoje as melhores disposições e amanhã começar a nutrir sentimentos bem diversos.

Entre os próprios que CRÊEM, isto pode verificar-se. Há uns que CRÊEM E NO TEMPO DA TENTAÇÃO VOLTAM ATRÁS, como disse Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho. E a experiência de cada dia nos mostra que aquêle que é hoje filho dócil, obediente e amoroso pode amanhã, atraído pelo vício ou pelos maus companheiros, tornar-se um filho rebelde; aquêle que foi durante muitos anos um espôso inteiramente dedicado à sua espôsa e que jamais pensou em infidelidade pode, de uma hora para outra, ceder à tentação de adultério. A moça que. sempre resistiu bravamente às insinuações do sedutor, pode algum dia fraquejar.

O empregado que foi correto e fidelíssimo durante longo tempo, pode afinal cair em falta. E assim por diante, para só falarmos em pecados graves. Isto se pode dar com qualquer pessoa, seja qual fôr a sua religião. Nisto não há fatalidade, nem influência do destino, como querem alguns; mas apenas a liberdade humana, que pode a cada momento ceder à tentação do mal, a inconstância do coração humano, a fragilidade da nossa pobre natureza, fragilidade esta que trouxemos do berço e levamos ao túmulo.

105. A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM.

A transformação no coração humano, o Evangelho a realiza por si só ou somente pode realizá-la mediante o esfôrço e a cooperação do homem? Se a realizasse por si só, nenhum de nós poderia ser melhor transformado do que Judas Iscariotes: êle tinha conhecimento da doutrina e dos prodígios do Divino Mestre, não pelos livros como nós o temos, mas ouvindo as palavras da própria bôca do Salvador e presenciando pessoalmente os milagres evangélicos. E no entanto, em vez de santificar-se, mergulhou no endurecimento.

O mesmo Deus que diz ao seu povo, por intermédio do profeta Ezequiel: Dar-vos-ei UM coRAçXo NOVO e porei UM NOVO ESPÍRITO no meio de vós, e tirarei da vossa carne o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne (Ezequiel XXXVI-26) é também Aquêle que igualmente pelo profeta Ezequiel manda a êste mesmo povo que CRIE EM SI UM CORAÇÃO NOVO E UM ESPÍRITO NOVO: Convertei-vos e fazei penitência de tôdas as vossas iniqüidades, e a iniqüidade vos não trará ruína. Lançai para muito longe de vós tôdas as vossas prevaricações, de que vos fizestes culpáveis E FAZEI-VOS UM CORAÇÃO E UM ESPÍRITO NOVO (Ezequiel XVIII-30 e 31). Não é possível a santificação, se não se realizam conjuntamente A AçXo DE DEUS E A NOSSA; ambas são indispensáveis. Faça o homem o que está ao seu alcance e Deus não lhe negará a sua graça; a graça, pode, então, realizar maravilhas.

Imaginar que vamos para o Céu carregados docemente por Jesus, sem nenhum esfôrço de nossa parte, não passa de um sonho ditado pelo nosso velho comodismo: o cristão tem que lutar como um bom SOLDADO de Jesus Cristo (2.° Timóteo 11-3) e se dá no Reino de Deus o mesmo que acontece nos jogos públicos: o homem não é coroado senão depois que COMBATEU segundo a lei (2.° Timóteo 11-55).

106. A NOVA CRIATURA.

Quando S. Paulo noz diz que aquêle que está em Cristo é uma nova criatura, não é no sentido de que êste homem deixou de ser livre para fazer o mal; nem que ficou nêle extinto o fogo das paixões e das más inclinações da nossa natureza. Quer dizer que êste homem se tornou outro diante de Deus pela graça santificante, que o torna agradável aos olhos do seu Criador; e se tornou outro aos olhos dos homens, pelo seu modo de proceder que todos vêem ser proceder de um verdadeiro cristão, muito diferente do modo de agir dos pagãos que viviam mergulhados na corrução, ou dos judeus que eram cheios de maldade e de hipocrisia. Mas S. Paulo não diz com esta frase que esta situação é inamissível.

Se está em Cristo, é uma nova criatura; mas, homem como é, fraco, sujeito a tentações, se não coopera com a graça e cai no pecado mortal, enquanto permanecer neste triste estado, já não está mais em Cristo, porque Me se afastou pelo pecado; e já não é mais a nova criatura, porque está privado da graça santificante e está agindo à maneira do velho homem.

O mesmo S. Paulo, na sua Epístola aos Efésios, exorta os cristãos a se despojarem do homem velho (Efésios IV-22) e a se revestirem do novo: VESTI-VOS DO HOMEM NOVO, que foi criado segundo Deus em justiça e em santidade de verdade (Efésios IV-24). Como poderão revestir-se dêste homem novo? O Apóstolo o mostra em seguida com uma série de exortações: PELO QUE, renunciando a mentira, fale cada um a seu próximo a verdade... Se vos irardes, seja sem pecar... Não deis lugar ao diabo. Aquêle que furtava não furte mais... Nenhuma palavra saia da vossa bôca... Não entristeçais ao Espírito Santo... Tôda a amargura e ira e indignação e gritaria e blasfêmia, com tôda a malícia, seja desterrada dentre vós outros... Sêde uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros (Efésios IV-25 a 32). E nos dois capítulos seguintes continuam as exortações. É, portanto, PELAS SUAS OBRAS, PELO SEU MODO DE PROCEDER que o cristão se vai tornar um homem novo. Se fôsse por uma operação miraculosa em que o homem automàticamente fica transformado em impecável, entrando crisálida e saindo borboleta, não eram necessárias tantas recomendações: bastava mandar CRER em Cristo.

Aquelas exortações mostram muito bem que quem não proceder segundo a norma traçada pelo Apóstolo, já não estará agindo como o NOVO, mas sim como o VELHO HOMEM.

Não admitindo nenhuma distinção entre pecado mortal e pecado venial, reconhecendo também que com o pecado na alma ninguém pode entrar no Céu, o protestante tem que admitir que a NOVA CRIATURA se tem a certeza absoluta da salvação, é porque não comete nenhum pecado nem grave, nem leve.

Entretanto, a Bíblia nos diz que todo homem cai em pecados (o que se há de entender: pelo menos em pecados leves); vejamos esta palavra de S. Tiago: TODOS NÓS tropeçamos em muitas coisas (Tiago III-2). Tropeçar aí quer dizer pecar, pois logo em seguida o Apóstolo mostra que uma destas coisas em que tropeçamos fàcilmente é no que diz respeito à língua: Se algum não tropeça em qualquer palavra, êste é varão perfeito (Tiago III-2).

E Nosso Senhor ensinou-nos a orar dizendo sempre: Perdoa-nos as nossas dívidas (Mateus VI-12), o que mostra que todos os cristãos, ainda mesmo os mais justos e santos, têm sempre alguma coisa de que se penitenciar perante Deus.

107. HÁ CERTEZA DO ARREPENDIMENTO?

Alguém poderá dizer: Concordo com o Sr. em dizer que ninguém pode ter a certeza de que nunca pecará na sua vida. Mas há uma coisa: o homem que peca, ainda pode salvar-se pelo arrependimento. Assim posso ter a certeza absoluta da salvação, porque tenho a certeza de que, se pecar, hei de arrepender-me e conseguir o perdão de Deus e, por conseguinte, a vida eterna.

— E quem lhe dá esta CERTEZA ABSOLUTA do arrependimento?

Primeiro que tudo: como disse S. Paulo, não somos capazes nem de um pensamento bom, sem a graça de Deus (2.ª Coríntios III-5). O arrependimento é, portanto, uma graça divina.

Esta graça, Deus não a nega ao coração bem disposto. Aquêle que procura seguir sempre o bom caminho, aperfeiçoar-se em pensamentos, palavras e obras, portar-se santamente na Igreja de Deus, a qualquer falta, embora mínima que cometa, vê surgir espontâneamente, inquietadoramente, o arrependimento no seu coração. Arrependimento, porque caiu numa falta, a que o seu bom espírito não estava habituado; arrependimento mandado misericordiosamente por Deus, que quer logo perseguir com a sua graça, fazer soerguer-se o seu servo fiel que teve a infelicidade de cair na tentação.

Mas o indivíduo que começa a recair muito freqüentemente no pecado grave, sem fazer o esfôrço necessário para dêle se emendar, vai pouco a pouco se tornando menos apto a receber a graça do arrependimento. À proporção que êle vai abusando das graças de Deus, o arrependimento vai escasseando e, depois de um certo tempo, pode desaparecer por completo. É o endurecimento do pecador, cuja consciência já emudeceu ou só faz ouvir mui fracamente a sua voz.

Além disto, para ser verdadeiro, o arrependimento tem que incluir um propósito firme de deixar o pecado, custe o que custar, e não por um dia ou dois, mas por todo o resto da vida. Ora, há certos pecados que não podem ser deixados sem uma renúncia heróica. É o caso, por exemplo, das amizades pecaminosas, que prendem o coração; do vício da impureza, que tão freqüentemente envolve as criaturas, do vício do roubo ou da embriaguez. Às vêzes é também o ódio que se enraizou no coração e ao qual o cristão nem sempre renuncia fàcilmente. Há casos, portanto, em que Deus exige do cristão um sacrifício doloroso: Se o teu ôlho te escandaliza, lança-o fora: melhor te é entrar no reino de Deus sem um ôlho do que, tendo doas, ser lançado no fogo do inferno (Marcos IX-46).

Garantir que sempre se terá o arrependimento, seria garantir que nunca se abusará da graça de Deus e que também sempre se tomará a resolução heróica, por mais que ela nos custe, sejam quais forem as tentações que se nos depararem no futuro; e seria sempre uma certeza bàseada na presunção, no desconhecimento da nossa inata fragilidade humana.

E é o caso ainda de perguntar: há sempre a certeza de que é sincera a contrição?

Muitas vêzes o cristão se julga arrependido e de fato não está. Há no fundo do seu coração ainda uns restos de apêgo ao pecado e só Deus, que conhece perfeitissimamente a alma nas suas mais íntimas profundezas, é que bem pode saber se o arrependimento é deveras sincero. Porque a sinceridade do arrependimento não está própriamente na comoção que se sente em determinado momento; pode haver até lágrimas e soluços sem haver o arrependimento sincero, o qual consiste na firmeza da vontade em detestar o pecado de tal modo que não se queira, por hipótese alguma, cometê-lo jamais. É por isto que podemos ter dúvida sôbre se estamos ou não na graça de Deus, sem que isto envolva absolutamente dúvida sôbre o poder reparador da morte de Cristo, o qual bem sabemos ser infinito, mas dúvida, sim, sôbre as disposições da nossa própria alma, as quais também são necessárias para a justificação. Bem-aventurado o homem que sempre está com temor (Provérbios XXVIII-14). Às vêzes a falta de arrependimento é tão evidente que não é somente Deus que a percebe, qualquer observador imparcial pode percebê-la também; só a alma se ilude a si própria, tendo-se na conta de contrita, sem o estar de fato. Quantas vêzes no confessionário acontece que o penitente vem confessar-se na suposição de que está contrito; e o confessor percebe claramente, pelas próprias declarações do penitente, que êle não possui a contrição verdadeira! Diz-se arrependido, mas não quer tomar as providências necessárias para fugir às ocasiões do pecado; adquiriu bens ilicitamente, mas sente repugnância em fazer a restituição; está empolgado pela paixão, mas não quer afastar-se de vez da criatura que desta paixão é causadora; diz perdoar, mas não quer nem ver a pessoa que o ofendeu etc, etc.

Se uma criatura nestas condições estiver no Protestantismo, está completamente atolada. Em vez de encontrar alguém que a advirta do perigo de condenação em que se encontra, vai deparar-se com um pastor a sugestioná-la de que já está salva, uma vez que tem a fé em Cristo e o arrependimento; a ensiná-la a sentir a "experiência da salvação", ou seja, a doce sensação de que Cristo já a salvou; a decantar as belezas de uma religião tão agradável, tão consoladora que já nos faz gozar neste mundo a certeza absoluta da recompensa celeste…

108. TRANQÜILIDADE DA FIRME ESPERANÇA.

Se a Igreja Católica não acena aos seus adeptos com uma CERTEZA ABSOLUTA da salvação, é por uma razão muito simples: porque se trata de um assunto que, segundo os desígnios de Deus, não depende somente de Cristo, depende também de cada um de nós: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). Se vós viverdes segundo a carne, morrereis; mas se vós pelo espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis (Romanos VIII-13). Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus; mas sim o que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus, êsse entrará no reino dos Céus (Mateus VII-21). Temos CERTEZA DA SALVAÇÃO, sim, mas uma CERTEZA CONDICIONADA: se cooperarmos com a graça, nos salvaremos COM TÔDA CERTEZA. Porque, como disse o Grande Doutor S. Agostinho: "Deus nos criou sem nós, mas sem nós não nos pode salvar."

Isto, porém, não impede absolutamente a paz e a tranqüilidade das nossas almas; porque, se nas várias vicissitudes da nossa vida, só pudéssemos ter paz quando soubéssemos com plena certeza qual o RESULTADO FINAL das nossas emprêsas, das nossas aspirações, então esta paz seria sempre impossível ou seria preciso que Deus nos desse primeiro o dom da profecia. Para tudo isto há um remédio: a doce e humilde confiança em Deus que é o Pai das Misericórdias. Se para tantos e tantos empreendimentos, cujo resultado de nós não depende, havemos de ter plena confiança na Divina Providência, quanto mais no que diz respeito ao negócio de nossa salvação; porque isto é um assunto cujo resultado depende de nós: somos nós que com a graça de Deus construiremos a nossa sorte na eternidade. Deus é infinitamente bom, é Pai, nada quer mais do que a nossa salvação, deseja-a mais do que nós mesmos; se por nosso turno nos queremos salvar, e trabalhamos para isto com a ajuda divina que nunca nos falta quando a pedimos, se detestamos de todo o coração o pecado, fiquemos tranqüilos e peçamos a Deus que nos conserve nestas santas disposições; porque neste caso nos salvaremos com tôda certeza. Esta é a nossa FIRME ESPERANÇA.

109. DIANTE DA REALIDADE.

Não se trata aqui de saber se a certeza absoluta de salvação adquirida já nesta vida seria ou não mais agradável para nós; o que interessa à Sabedoria e à Providência de Deus é o que vem a ser para nós mais útil e proveitoso. Se não temos segurança absoluta neste sentido, isto nos conserva mais humildes, mais desconfiados de nossas próprias fôrças, mais necessitados de implorar o socorro divino, mais ativos e vigilantes no serviço de Deus, porque o soldado, tendo certeza absoluta da vitória, perderia muito de seu estímulo para a luta contra o inimigo.

Nem se trata de uma religião procurar atrair adeptos prometendo uma segurança absoluta, porém imaginária e sem fundamento, assim como os candidatos caçam votos, fazendo promessas ilusórias, às vésperas das eleições.

Trata-se de encarar a realidade, tal qual nos é apresentada pelos textos da Escritura, os quais não nos mostram os que crêem em Cristo como imutáveis, mas ao contrário como sujeitos a perder a fé ou a recair na escravidão do pecado, o que é confirmado pela experiência pessoal da nossa própria fraqueza: Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca (Mateus XXVI-41).

E se S. Paulo nos ensina que não há condenação para os que estão em Jesus Cristo, os quais não andam segundo a carne (Romanos

em vez de querermos antecipar em nosso favor a sentença definitiva que só pode ser dada depois da nossa morte pelo Supremo Juiz, todo o nosso empenho deve ser viver EM CRISTO, não só pela verdadeira fé (e verdadeira fé consiste em sujeitarmos o nosso modo de ver aos ensinos de Cristo e não em torcê-los com a torquês do livre exame, para que se acomodem ao nosso modo de ver e ao nosso pensamento), não só pela verdadeira fé, como dizíamos, mas também pela prática da caridade, da castidade e das demais virtudes, evitando as obras da carne. Deus não nos faltará jamais com ajuda de sua graça para nos conservar no bom caminho, cooperemos com a sua graça até o fim, porque só no fim é que nos poderemos julgar definitivamente possuidores do prêmio eterno da glória celeste: Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida (Apocalipse II-10).