PRIMEIRA PARTE: A SALVAÇÃO PELA FÉ

CAPÍTULO VI: A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ SEM AS OBRAS DA LEI

110. DOIS TEXTOS DE S. PAULO.

Dizem os protestantes que S. Paulo nos ensina a salvação pela fé sem as obras, nos dois textos seguintes:

Sabemos que o homem, não se justifica pelas OBRAS DA LEI, senão pela fé de Jesus Cristo (Gálatas II-16).

Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé SEM AS OBRAS DA LEI (Romanos III-28).

Tôda a confusão dos protestantes reside precisamente nisto: se S. Paulo aí fala em OBRAS DA LEI, não se refere à lei de Deus, expressa nos 10 mandamentos, os quais fazem parte integrante da lei de Cristo, e seria na realidade um escândalo e uma aberração Paulo mostrar a inutilidade da lei de Cristo para a justificação do homem, dizer que a observância da lei de Cristo não torna ninguém justo diante de Deus. S. Paulo se refere à LEI MOSAICA, a qual foi abolida depois da- morte do Redentor, logo que começou a ser pregado o Evangelho. Fala das OBRAS DA LEI MOSAICA, as quais, como observa Cornely, nenhum católico jamais incluiu entre as disposições necessárias para a justificação.

Lei é um têrmo usado tanto para significar lei civil, como lei divina. Trata-se aqui, é claro, da lei divina.

Neste sentido de lei divina, isto é, lei emanada de Deus, lei que é preciso observar para ganhar a salvação, pode-se tomar esta palavra em 3 sentidos: lei natural, lei mosaica, lei de Cristo.

111. LEI NATURAL.

Lei natural é aquela a que está sujeito todo homem, mesmo que não tenha tido nenhum conhecimento da revelação feita por Deus, nem daquela que foi transmitida aos judeus por intermédio de Moisés, nem da revelação que nos veio por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Todo homem, mesmo que não professe nenhuma religião tem, contudo, a voz de sua consciência que lhe diz que não deve matar, nem furtar, nem levantar falso testemunho, nem desrespeitar pai e mãe, nem cometer adultério, nem atraiçoar o próximo etc. E esta voz da consciência o acusa e enche de remorsos, quando êle falta a êstes preceitos naturais. Além disto, independentemente de qualquer doutrinação religiosa, a própria razão nos demonstra a existência de Deus, de um Ser Supremo que fêz o Universo, pois todo efeito supõe uma causa capaz de produzi-lo.

Antes de Cristo, os gentios, que não conheciam a lei de Moisés, estavam sob êste regime da lei natural, como estão ainda hoje os pagãos que nunca tiveram conhecimento de Jesus Cristo. De todos êstes, tanto se pode dizer que têm a lei de Deus impressa nos seus corações pela voz da consciência, como se pode dizer também que estão sem lei, desde que se tome a palavra — lei — no sentido mais rigoroso do têrmo, ou seja lei escrita nos livros ou nos monumentos, lei promulgada externamente por um legislador. É neste último sentido que S. Paulo assim escreve: Todos os que SE1 LEI pecaram, sem lei perecerão -(Romanos 11-12). Porém um pouco mais adiante, o próprio S. Paulo toma a palavra — lei — num sentido mais largo: Quando os gentios que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, asses tais, não tendo semelhante lei, a si mesmos servem de lei, os quais mostram a obra da LEI ESCRITA NOS SEUS CORAÇÕES, dando testemunho a êles a sua mesma consciência e os pensamentos de dentro que umas vazes os acusam, e outras os defendem, no dia em que Deus, segundo o meu Evangelho, há de julgar as coisas ocultas dos homens por Jesus Cristo (Romanos 11-14 a 16). Fazem naturalmente as coisas que são da lei, quer dizer: fazem sem ter nenhum conhecimento da doutrina revelada, pelo que sabem, de si mesmos, sem revelação divina.

Os pagãos mostravam ter conhecimento da lei natural e dela falavam abertamente. Assim é que Cícero, na sua Oração Pro Milone fala "na lei não escrita, mas inata... que nós recebemos da própria natureza". E numa tragédia de Sófocles, o personagem central Antígono se recusa a desobedecer aos "decretos divinos, que não foram escritos e que são imutáveis, não é de hoje que êles existem, êles são eternos."

112. LEI MOSAICA.

Aos judeus, antes da vinda de Cristo, Deus impôs pela revelação a sua lei. Aquelas obrigações da lei natural (não matarás, não furtarás, honrarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho, não adulterarás etc.) Deus as impõe claramente nos 10 mandamentos.

Mas, além disto, há muitas outras determinações que os judeus tinham que observar, porque lhes foram impostas por Deus. Não vamos aqui citar tôdas estas prescrições, porque seria muito longo, mas daremos alguns exemplos.

A lei foi dada por intermédio de Moisés. Mas já antes de Moisés, desde o tempo de Abraão, Deus havia preceituado a circuncisão ao seu povo: Disse mais Deus a Abraão: ...Eis aqui o meu pacto que haveis de guardar entre mim e vós, e a tua posteridade depois de ti: todos os machos dentre vós serão circuncidados, e vós circuncidareis a. carne do vosso prepúcio, para que seja o sinal do concerto que há entre mim e vós (Gênesis XVII-9 a 11). O macho que não tiver sido circuncidado na carne do seu prepúcio, será aquela alma apagada do seu povo, porque tornou irrito o meu pacto (Gênesis XVII-14).

Havia, na lei mosaica, a proibição de comer certos animais considerados imundos: Não comais o que é imundo. Estes são os animais que deveis comer: o boi, e a ovelha, e a cabra, o veado e a corça, o búfalo, a cabra montês, o unicórnio, o orige, o camelopardo.

Comereis de todo o animal que tem a unha fendida em, duas partes e que remói. Não deveis, porém, comer dos que, sim, remoem, mas não têm a unha fendida como são o camelo, a lebre, o querogrilo; êstes, porque remoem e não têm a unha fendida, serão imundos para vós.

O porco também será para vós imundo, porque, ainda que tem a unha fendida, não remói. Não comereis da carne dêstes animais, nem tocareis nos seus cadáveres.

De todos os animais que vivem nas águas comereis êstes: comei os que têm barbatanas e escamas; mas não comais daqueles que não têm barbatanas nem escamas, porque são imundos.

Comei de tôdas as aves que são limpas; mas não comereis das imundas, quais são a águia, e o grifo, e o esmerilhão, o ixião, e o abutre, e o milhano, segundo o seu gênero; e todo o gênero de corvos, e o avestruz e a coruja e a gaivota e o açor, segundo o seu gênero, a cegonha, e o cisne, e o íbis, e o mérgulo, o porfirião, e o bufo, o onocrótalo, e o caradrio, cada um no seu gênero, a poupa também e o morcêgo. E tudo o que anda de rastos e tem asas será imundo e não se comerá (Deuteronômio XIV-3 a 19).

Havia a proibição de comer o sangue dos animais: Qualquer homem da casa de Israel e dos estrangeiros que peregrinam entre êles, se comer sangue, obstinarei eu o meu rosto contra a sua alma e exterminá-la-ei do seu povo, porque a vida do animal está no sangue (Levítico XVII-10). Qualquer homem dos filhos de Israel e dos estrangeiros que moram entre vós que tomar, em caça ou laço, fera ou ave daquelas que é lícito comer, derrame o seu sangue e cubra-o com terra (Levítico XVII-13).

Eram proibidas as vestes com certas misturas de tecidos: Não te vestirás de coisa que seja tecida de lã e de linho (Deuteronômio XXII-11).

Havia determinações especiais sôbre a purificação da mulher que dá à luz (Levítico cap. XII).

Havia obrigação de celebrar com ritos especiais as solenidades dos Pães Ázimos, das Semanas e dos Tabernáculos (Deuteronômio XVI-1 a 17).

São exemplos de prescrições, dentre muitas, que havia para os judeus, as quais não vigoram mais, agora que estamos sob a

113. LEI DE CRISTO.

Vindo Cristo ao mundo, promulgou a sua lei, que veio substituir e aperfeiçoar a lei mosaica. Éle exige igualmente a observância dos 10 mandamentos: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17), os quais, portanto, estão de pé na Nova Lei, embora não estejam mais em vigor aquelas penas que existiam na Lei Antiga, segundo a qual deviam ser apedrejados o filho contumaz e rebelde (Deuteronômio XXI-18 a 21), a espôsa que não foi encontrada virgem (Deuteronômio XXII-20 e 21), aquêles que cometiam adultério (Deuteronômio XXII-22) etc. O que não exclui naturalmente as penas impostas pela justiça de Deus na outra vida.

A respeito do matrimônio, Cristo se mostra mais rigoroso do que a Lei Antiga, ensinando a unidade e indissolubilidade do casamento (Marcos X-11 e 12), quando na Lei Antiga havia o direito de repudiar o homem à mulher que não fôr agradável a seus olhos por causa dalguma fealdade (Deuteronômio XXIV-1) e casar com outra.

Prescrevendo a prática dos mandamentos, o Divino Mestre insiste na sua parte mais importante: o amor de Deus e o amor do próximo, sem deixar de tornar mais rigorosa a obrigação da castidade (Mateus V-27 e 28).

Além dos mandamentos, Cristo impõe outros preceitos: há os sacramentos da Nova Lei e assim em vez da circuncisão é obrigatório o Batismo: Quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus (João III-5). Outra lei nos impõe Jesus Cristo nestas palavras: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida -em vós (João VI-54).

Em suma Cristo é não só o Salvador, o Mestre da verdade, mas também um Legislador que nos veio apontar, pela sua lei santa e sublime, o caminho da salvação.

114. SEMPRE O DECÁLOGO.

Já demos uma idéia da distinção entre a lei natural, a lei mosaica e a lei cristã. Mas o que não pode passar despercebido nesta exposição é que de uma forma ou de outra, ou seja na lei natural, ou no judaísmo, ou na lei de Cristo, ou mais ou menos rigorosos, ou mais ou menos explícitos, os 10 mandamentos sempre estão de pé. É a lei de Deus eterna que impera no coração do homem, seja qual fôr a época, religião ou raça a que pertença, seja maior ou menor o seu conhecimento da vontade divina.

115. OBRAS DA LEI; DE QUAL LEI?

Durante muitos e muitos séculos, quando na linguagem bíblica se falava na LEI, não se podia entender senão a lei de Moisés.

Na lei de Cristo ninguém pensava, por uma razão muito simples: Jesus Cristo não havia aparecido ainda é não havia, portanto, ensinado a sua lei.

Na lei natural, também não: porque tendo uma lei escrita, expressa com as próprias palavras de Deus, dada com tanta pompa e solenidade no monte Sinai, incluindo, além dos preceitos da lei natural, muitíssimos outros preceitos, não era certamente na lei natural que os judeus pensavam, quando se falava na LEI.

Os Apóstolos e Evangelistas conservam êste modo de falar, que era o usual naquele tempo, pois vinha sendo usado desde mui-tos séculos. Sabem muito bem que existe uma lei de Cristo. Assim diz S. Paulo: Levai as cargas uns dos outros, e desta maneira cumprireis a LEI DE CRISTO (Gálatas VI-2). Mas, quando dizem simplesmente — a lei —entendem a lei de Moisés: A LEI foi dada por Moisés; a graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo (João 1-17). A palavra — lei —continua a designar também no Novo Testamento os 5 primeiros livros da Bíblia, em contraposição com outros livros sagrados, precisamente porque é naqueles que vêm circunstanciadamente descritas as prescrições da lei mosaica: Não tendes lido na LEI que os sacerdotes nos sábados, no templo quebrantam o sábado e ficam sem pecados? (Mateus XII-5). Depois da lição da LEI e dos profetas, mandaram-lhes dizer os chefes da sinagoga (Atos XIII-15). Sirvo eu a meu Pai e Deus, crendo tôdas as coisas que estão escritas na LEI e nos profetas (Atos XXIV-14).

Quando o Evangelho fala em — doutor da lei (Mateus XXII-35; Lucas V-17) — isto não significa um homem entendido na lei civil, na lei natural ou na lei de Cristo, mas um homem que é bom conhecedor da lei de Moisés.

Assim sendo, chamamos a atenção do leitor para o seguinte trecho de S. Paulo na sua 1.ª Epístola aos Coríntios E me fiz para os judeus como judeu, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, COMO se eu estivera debaixo da lei (NÃO ME ACHANDO EU DEBAIXO DA LEI), por ganhar aquêles que estavam debaixo da lei; para os que estavam sem lei, como se eu estivera sem lei (ainda que não estava sem a lei de Deus, mas ESTANDO NA LEI DE CRISTO), por ganhar os que estavam sem lei (1.ª Coríntios IX-20 e 21).

Ora, aí diz o Apóstolo que não está debaixo da lei; porque, quando êle diz simplesmente — a lei — entende a lei de Moisés. Do fato de não estar debaixo da lei, não se segue que não esteja sujeito a lei nenhuma, pois êle diz abertamente estar sujeito à lei de Cristo, portanto, à lei de Deus.

Do mesmo modo, quando o Apóstolo diz que o homem não é justificado pelas obras da lei, entende-se que as obras da lei de Moisés não servem mais para tornar o homem um justo diante de Deus. A lei de Moisés foi abolida. Mas daí não se segue que o homem não se torne justo pelas obras de outra lei: da lei cristã, por exemplo. Muito ao contrário, se S. Paulo diz que a fé em Cristo é que justifica o homem, a fé em Cristo, como provámos no capítulo quarto, nos obriga a obedecer à sua lei, pois Cristo também foi um Legislador e nos impôs mandamentos, cuja observância é indispensável para se conquistar a vida eterna. E a estas obras que nascem da obediência à lei de Cristo, S. Paulo não chama — obras da lei — chama BOAS OBRAS: Esta é uma verdade infalível e quero. que isto afirmes, para que procurem avantajar-se em BOAS OBRAS os que crêem em Deus (Tito III-8). E aprendam também os nossos a serem os primeiros em BOAS OBRAS para as coisas que são necessárias, para que não sejam infrutuosos (Tito III-14). Somos feitura dÊle mesmo, criados em Jesus Cristo para BOAS OBRAS, que Deus preparou, para caminharmos nelas (Efésios II-10).

116. S. TIAGO E S. PAULO.

Somente à luz da distinção entre estas duas noções, é que se podem conciliar o ensino de S. Tiago e o de S. Paulo, CONCILIAÇÃO esta IMPRESCINDÍVEL, pois não pode haver contradição nas Escrituras. Um fala em OBRAS; o outro, em OBRAS DA LEI, o que já vem a ser duas coisas diferentes.

Dizendo: Não vêdes como pelas OBRAS é justificado o homem, e não pela fé somente? (Tiago 11-24), S. Tiago nos mostra claramente que a fé não basta para a salvação, sendo necessárias também as BOAS OBRAS, em cumprimento da lei de Cristo.

Dizendo: O homem é justificado pela fé, sem AS OBRAS DA LEI (Romanos III-28; Gálatas 11-16), S. Paulo nos mostra que para o homem tornar-se justo diante de Deus, o caminho a seguir é a fé em Cristo, a fiel submissão a seus divinos ensinamentos, não sendo mais obrigatórios aquêles ritos, purificações e observâncias da lei mosaica, porque esta não está mais em vigor.

Desprezando completamente o ensino de S. Tiago, que é tão infalível como o de S. Paulo, porque também faz parte da Bíblia, Lutero e Calvino se aproveitaram dêsses textos em que o Apóstolo das Gentes nos diz que o homem é justificado pela fé em Cristo, sem as obras da lei, para afirmar que S. Paulo nos ensina que estamos completamente livres da obrigação de obedecer aos mandamentos, à lei de Deus, estamos livres de tôdas as leis, pois Cristo não é legislador, não nos impôs nenhum preceito, veio apenas oferecer-nos a salvação pela fé( H).

Pelo que foi exposto até aqui, o leitor já percebe claramente a adulteração que se faz assim das palavras de S. Paulo. Mais ainda o perceberá, estudando ambas as frases no seu respectivo contexto. Vale a pena o trabalho, porque conseguiremos mais uma vez desfazer as confusões que fazem os nossos queridos irmãos separados, completamente perdidos naquele intrincado estilo do Apóstolo S. Paulo.

1.ª — NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS

117. A QUESTÃO DOS JUDAIZANTES.

Vamos citar o trecho todo da Epístola aos Gálatas: Nós somos JUDEUS por natureza e não pecadores dentre os gentios, MAS como sabemos que o homem não se justifica pelas obras da lei, senão pela fé de Jesus Cristo, por isso também nós cremos em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei não será justificada tôda a carne (Gálatas II-15 e 16).

Estas palavras se prendem à questão dos judaizantes, assunto sôbre o qual versa TÔDA a Epístola aos Gálatas. Temos, portanto, que fazer o histórico desta questão.

Depois ,,da morte de Jesus Cristo, que em vida obedeceu à lei mosaica, ficou uma dúvida entre os cristãos, que no princípio tinham sido recrutados entre os judeus: estariam êles obrigados ainda a observar a lei de Moisés? A S. Pedro, como chefe da Igreja, é que cabia resolver a questão. Por isto Deus o instruiu com uma visão especial: viu o céu aberto e que descendo um vaso, como uma grande toalha suspensa pelos quatro cantos, era feito baixar do céu à terra, no qual havia de todos os quadrúpedes, e dos reptis da terra, e das aves do céu. E foi dirigida a êle uma voz, que lhe disse: Levanta-te, Pedro; mata e come. E disse Pedro: Não, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum, nem imunda. E a voz lhe tornou segunda vez a dizer: Ao que Deus purificou, não chames tu comum (Atos X-11 a 15). Estava ainda a imaginar no que quereria dizer esta visão, quando lhe batem à porta os enviados de Cornélio, um gentio, um incircunciso, que o mandava chamar à sua casa. Indo Pedro à casa de Cornélio e fazendo a sua pregação diante de Cornélio e dos seus, desceu o Espírito Santo sôbre todos os que ouviam a palavra de Deus. E se espantaram os fiéis que eram da circuncisão, os quais tinham vindo com Pedro, de verem que a graça do Espírito Santo foi também derramada sôbre os gentios (Atos X-45). E S. Pedro mandou que êles fôssem batizados em nome do Senhor Jesus Cristo (Atos X-48). Estava evidente que Deus, para justificar o homem, para dar-lhe a graça do Espírito Santo, não exigia absolutamente a observância dá lei de Moisés.

Mas aconteceu que vindo alguns da Judéia, ensinavam assim aos irmãos: Pois se vos não circuncidais segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos. E tendo-se movido uma disputa não mui pequena de Paulo e Barnabé contra êles, sem os convencer, resolveram que fôssem Paulo e Barnabé e alguns dos outros, aos Apóstolos e aos presbíteros de Jerusalém, sôbre esta questão (Atos XV-1 e 2).

Reunidos os Apóstolos e presbíteros no Concílio de Jerusalém, quando está mais acesa a discussão sôbre o assunto, depois de se fazer sôbre êle um grande exame (Atos XV-7), Pedro levanta-se e mata a questão. Deus não fêz diferença alguma entre os judeus e os gentios, dando também a êstes últimos o Espírito Santo. E com a palavra decisiva de Pedro, acabou-se a discussão: ENTÃO TÔDA A ASSEMBLÉIA SE CALOU (ATOS XV-12). Falam Paulo e Barnabé contando quão grandes milagres e prodígios fizera Deus por intervenção dêles nos gentios (Atos XV-12).

Levanta-se por fim S. Tiago, para mostrar como a decisão de S. Pedro concordava com o que tinham anunciado os profetas e para fazer também uma proposta; proposta que é aprovada, porque pareceu bem aos Apóstolos e aos presbíteros, com tôda a Igrefa (Atos XV-22).

A proposta de S. Tiago é a seguinte:

1.ª Que se mande aos cristãos que se abstenham de comer das carnes sacrificadas aos ídolos.

Era costume entre os gentios separar para os sacerdotes uma parte dos animais que foram sacrificados aos ídolos. Esta carne era vendida nos mercados e às vêzes com elas se faziam banquetes. Aos cristãos convertidos do gentilismo se manda que abstenham de tais banquetes, afim de não escandalizarem os judeus, para quem tais carnes eram abominação e também pelo perigo de recaírem na idolatria ou de parecerem aos idólatras como coniventes com o seu culto.

2.ª Mande-se que se abstenham da fornicação, porque os gentios pensavam erradamente que a simples fornicação (sem adultério) não era pecado, e parece até que juntavam a fornicação a êsses banquetes feitos cbm carnes dos sacrifícios; é, pelo menos, o que se insinua em Números XXV-1 e 2: Neste tempo estava Israel em Setim, e o povo caiu em, fornicação com as filhas de Moab, as quais os chamaram para os seus sacrifícios; e eles comeram e adoraram os deuses delas. É claro que a fornicação é proibida de qualquer maneira na lei cristã.

3.o Mande-se que não comam nem o sangue, nem os animais sufocados.

Os antigos, mesmo os gentios, tinham horror a êste ato de comer sangue; parecia-lhes isto uma demonstração de selvageria, à imitação dos cães que lambem o sangue dos animais.

Depois, com o tempo, feita a verdadeira fusão entre os judeus os gentios no seio da Igreja, desaparecidas aquelas idéias antigas, esta proibição caiu em desuso, uma vez que cessava o motivo pelo qual havia sido feita, isto é, evitar a aversão mútua entre gentios e judeus. É interessante notar neste ponto como os protestantes, que só admitem aquilo que está na Bíblia, deveriam ainda hoje obedecer a esta lei e no entanto comem a carne dos animais sufocados, como é a carne de boi que se vende nos nossos açougues, e comem o sangue dos animais. Deveriam fazer como fazem ainda hoje os judeus: matar as galinhas por um processo todo especial e deixar escorrer todo o seu sangue; pois a Bíblia não fala na revogação desta lei, revogação que foi feita depois pela autoridade da Igreja, pelos sucessores dos Apóstolos, quando esta lei não foi mais julgada necessária.

Fora as restrições propostas por S. Tiago, ficou de pé o princípio de que a lei de Moisés não obrigava mais: os cristãos não estavam mais obrigados a circuncidar-se, nem àquelas purificações e cerimônias da Lei Antiga, nem a abster-se de todos aquêles alimentos considerados imundos na legislação mosaicas como a carne de porco, etc.

Acontecia, porém, que para os judeus nascidos e criados entre aquêles costumes da lei mosaica, embora a lei já ,estivesse morta, para êles não se considerava grande mal que a cumprissem, enterrando-a com honras. Cumpriam uma coisa que não lhes era imposta, não porque se considerassem obrigados a isto, mas por uma questão de hábito ou por um motivo qualquer de conveniência. Isto fêz o próprio S. Paulo, o qual vimos, há pouco, dizer: E me fiz para os judeus, como judeu, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se eu estivera debaixo da lei (não me achando eu debaixo da lei) por ganhar aquêles que estavam debaixo da lei (1.fi Coríntios IX-20 e 21), Assim procedeu S. Paulo, por exemplo, no caso de Timóteo, como vem narrado nos Atos (cap. XVI-1 a 3). Paulo sabia muito bem que a circuncisão não era mais obrigatória, mas querendo utilizar em prol da Igreja os bons serviços de Timóteo, que era filho de pai gentio com mãe judia, tomando o discípulo, o circuncidou por causa dos judeus que havia naqueles lugares (Atos XVI-3); assim Timóteo teria mais prestígio para conquistar os judeus ao reino de Cristo, porque podiam os judeus não lhe dar muita autoridade, sendo um incircunciso a serviço do Evangelho. Outro caso, em que S. Paulo obedece a prescrições da lei mosaica, mesmo sabendo-se não sujeito a ela, se lê nos Atos, capítulos XXI. S. Paulo chega a Jerusalém. Os anciãos o advertem: Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus são os que têm crido e todos são zeladores da lei. E têm ouvido de ti que ensinas aos judeus que estão entre os gentios que deixem a Moisés, dizendo que êles não devem circuncidar a seus filhos, nem andar segundo o seu rito (Atos XXI-20 e 21). Com o pensamento de conquistar as graças dos judeus, S. Paulo concorda em entrar no templo de Jerusalém, juntamente com quatro varões que têm voto sôbre si (Atos XXI-23) e submeter-se com êles a uma cerimônia judaica, embora sabendo que a lei de Moisés não estava mais em vigor: Então Paulo, depois de tomar consigo aquêles varões, purificado com êles, no seguinte dia entrou no templo, fazendo saber o cumprimento dos dias da purificação, até que se fizesse a oferenda por cada um dêles (Atos XXI-26).

Apesar do que foi decidido no Concílio de Jerusalém, obstinam-se alguns judeus convertidos na sua tarefa de induzir os gentios a professar o judaísmo juntamente com a Religião Cristã, ensinando que êles não podiam salvar-se sem a observância da lei mosaica.

A questão vai tomando assim um aspecto mais grave. Que os judeus já acostumados a observar a lei mosaica, embora estivessem agora livres da lei, continuassem temporàriamente a observá-la, para sepultar com honras esta lei que já estava morta, não era tão grande mal. Mas querer obrigar os gentios, que a esta lei nunca estiveram sujeitos, que não eram da raça judaica, a se circuncidarem, a fazerem profissão de judaísmo juntamente com a de Cristianismo, era um êrro muito grave. Equivalia a ensinar que o homem não pode justificar-se diante de Deus sem as obras da lei mosaica, quando a Religião Cristã ensinava que o judaísmo está abolido e não se deve admitir outra religião, a não ser a fé cristã. Assim, se a lei para os judeus estava morta, para os gentios ia tornar-se mortífera. Querer obrigar os gentios à observância da lei, como condição para salvar-se, era o êrro dos HEREGES JUDAIZANTES.

E o pior é que invocavam a autoridade dos Apóstolos que, uma vez ou outra, obedeciam à lei de Moisés, embora soubessem não ser obrigados a isto. Os Apóstolos estavam assim num dilema. Se se mostravam muito intransigentes com os judeus, que já estavam tão habituados a observar a lei mosaica, ofendiam os judeus e os afastavam de si. Se condescendiam com êles, davam margem a que os judaizantes apontassem o seu exemplo para ensinar que a observância da lei mosaica era necessária para a salvação e a prova é que os Apóstolos também a observavam. Foi isto que, deu origem em Antioquia ao

118. INCIDENTE ENTRE S. PAULO E S. PEDRO.

S. Pedro em Antioquia estava convivendo com os gentios, comendo de todos os alimentos que êles comiam, mesmo dos que tinham sido proibidos aos judeus, quando chegaram os judeus que tinham ido falar com S. Tiago. Depois da chegada dêles, S. Pedro começou a retrair-se, a afastar-se dos gentios, temendo ofender aos que eram circuncidados (Gálatas 11-12). No dilema em que se havia colocado, S. Pedro achou que, tendo-se encarregado especialmente da pregação aos judeus, enquanto S. Paulo o era da pregação entre os gentios, cabia-lhe em primeiro lugar evitar o desgôsto da parte dos judeus. Não previu, porém, as conseqüências do seu retraimento. Sendo o chefe da Igreja, tendo tanta autoridade que o próprio Barnabé, apesar de companheiro de S. Paulo, apesar de ser um dos campeões na luta contra os judaizantes (Atos XV-2), começou a seguir-lhe o exemplo, a sua atitude bem podia ser explorada pelos partidários da circuncisão obrigatória. S. Paulo resolveu então adverti-lo do mal que estava fazendo com isto: eu lhe resisti na cara, (9) porque era repreensível (Gálatas II-11) e reclamar contra aquela simulação (Gálatas 11-13). A verdade é que simulação maior do que esta fêz o próprio S. Paulo, entrando no templo de Jerusalém para submeter-se a uma purificação e apresentando-se como uma espécie de padrinho para os quatro nazareus (Atos XXI-26), o que, aliás, não deu resultado, porque os judeus findaram sempre revoltando-se contra êle; maior, porque a atitude de S. Pedro foi apenas negativa: retraiu-se do convívio com os gentios. O que agravava a situação era a exploração que os judaizantes podiam fazer do caso, perigo êste que foi previsto por S. Paulo, antes que S. Pedro o percebesse.

S. Pedro recebeu humildemente a advertência de S. Paulo, achou que êle tinha razão e encerrou-se o incidente. A respeito disto diz S. Gregório Magno: "Calou-se Pedro, para que aquêle que era o primeiro na culminância do apostolado, fôsse também o primeiro na humildade" (Homilia 18 in Ezechielem). E S. Agostinho assim comenta: "Pedro aceitou com santa e piedosa humildade a observação que ùtilmente lhe fizera Paulo, inspirado pela liberdade do amor, deixando assim aos pósteros o raro exemplo de não se dedignarem em ser corrigidos pelos inferiores, onde quer que se desviassem do reto caminho; exemplo mais raro e mais santo que o deixado por Paulo aos inferiores que, por defender a verdade evangélica, ousassem resistir confiadamente, salvando-se, porém, a caridade... Em Paulo louvemos a justa liberdade; em Pedro, a santa humildade" (Epístola 19 ad Hieronymum).

119. A LUTA CONTRA OS JUDAIZANTES NA EPISTOLA AOS GÁLATAS.

Continuando na sua obra dissolvente, os judaizantes procuram induzir os Gálatas à profissão de judaísmo. E como S. Paulo se lhes opõe vivamente, êles procuram diminuir a autoridade do Apóstolo, fazendo ver que êle não era como os outros, não tinha convivido com o Mestre, e assim não tinha o mesmo valor que os outros Apóstolos.

É contra êles que S. Paulo escreve sua Epístola aos Gálatas a qual, do princípio ao fim, se refere a esta questão. Logo no primeiro versículo vai S. Paulo defendendo a sua autoridade que os adversários procuram diminuir: Paulo, Apóstolo, não pelos homens, nem por algum homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Padre, que O ressuscitou dentre os mortos (Gálatas I-1). E logo depois da saudação de costume, êle começa: Eu me espanto de que, deixando aquêle que vos chamou à graça de Cristo, passáveis assim tão depressa a outro Evangelho; porque não há outro, se não é que há alguns que vos perturbam e querem transtornar o Evangelho de Cristo. Mas ainda quando nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja anátema (Gálatas 1-6 a 8).

Êste Evangelho diferente, de que fala S. Paulo, é a doutrina daqueles que queriam obrigar os cristãos convertidos dentre os gentios a serem circuncidados; e um dos argumentos de que usa para mostrar como estão errados, é o seguinte: Êle esteve conferindo a sua doutrina com os outros Apóstolos e levou consigo a Tito, mas nem Tito foi impelido a circuncidar-se: Comuniquei com êles o Evangelho que prego entre os gentios, e particularmente com aquêles que pareciam ser de maior consideração, por temor de não correr em vão, ou de haver corrido. Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi compelido a que SE CIRCUNCIDASSE (Gálatas II-2 e 3).

Basta ler com atenção a Epístola para se ver como o que S. Paulo está condenando aí não é a doutrina católica de que a observância dos mandamentos, ou seja, a caridade para com Deus e com o próximo, seja necessária para a salvação. Esta é também a doutrina de Jesus, como provámos no capítulo 4.º, e, conseqüentemente, a doutrina de S. Paulo.

O que S. Paulo condena é a heresia daqueles que, mesmo depois do que foi decidido pelos Apóstolos no Concílio de Jerusalém, ainda ensinam que para o homem ser um justo perante Deus, é necessária a observância daquelas cerimônias e prescrições da lei mosaica, a começar pela circuncisão.

Vejamos estas passagens da nossa Epístola aos Gálatas: Olhai que eu, Paulo, vos digo que se vos fazeis CIRCUNCIDAR, Cristo vos não aproveitará nada. E de novo protesto a todo homem que se CIRCUNCIDA que está obrigado a guardar TÔDA A LEI. Vazios estais de Cristo os que vos justificais pela LEI: decaístes da graça (Gálatas V-2 a 4).

Todos os que querem agradar na carne, êstes vos obrigam a que vos CIRCUNCIDEIS, só por não padecerem êles a perseguição da cruz de Cristo. Porque êstes mesmos que SE CIRCUNCIDAM não guardam a lei; mas querem que vós vos CIRCUNCIDEIS, para se gloriarem na vossa carne (Gálatas VI-12 e 13).

E a conclusão a que chega S. Paulo é que agora na religião de Cristo não há mais nenhuma distinção entre os que são circuncidados e os que não são, entre os judeus e os gentios: Não há JUDEU NEM GREGO, não há servo, nem livre, não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Jesus Cristo (Gálatas III-28).

S. Paulo continua a considerar a prática dos 10 mandamentos como necessária à salvação, é o que se vê claramente na sua enumeração das obras da carne (Gálatas V-19 a 21) entre as quais êle inclui a impureza (pecado contra o 6.o mandamento), a idolatria (contra o 1.º), os homicídios (contra o 5.o), as contendas, os zelos, as iras, as brigas que são contra a caridade para com o próximo, e finda dizendo: os que tais coisas cometem não possuirão o reino de Deus (Gálatas V-21).

120. O PENSAMENTO PAULINO E A DOUTRINA CATÓLICA.

Finalmente vamos provar a identidade do pensamento de S. Paulo com a doutrina da Igreja. Já mostrámos, no capítulo 2.º, que segundo a doutrina católica, para a nossa salvação, são necessárias três coisas: uma é a FÉ, pois quem não crer será condenado. Outra são as

nossas OBRAS, pela GUARDA DOS MANDAMENTOS. Outra, por fim, é a GRAÇA DE DEUS, que tanto é necessária para têrmos fé, como também é necessária para se fazer qualquer obra boa meritória para a vida eterna, pois sem a graça de Cristo nada podemos fazer.

Vejamos agora êste trecho de S. Paulo nesta Epístola aos Gálatas. Em Jesus Cristo nem a circuncisão vale alguma coisa, nem o prepácio; mas sim a FÉ que obra flor caridade (Gálatas V-6). Sempre a mesma preocupação de mostrar que a circuncisão já não tem valor; o que tem valor é a fé, mas não a fé morta, a fé sem as obras e sim a fé que opera pela caridade.

Vejamos agora mais êste outro versículo desta mesma Epístola aos Gálatas: Em Jesus Cristo nem a circuncisão, nem a incircuncisão valem nada, mas o ser uma NOVA CRIATURA (Gálatas VI-15). S. Paulo, que, no versículo há pouco citado, mostrou o valor da FÉ, mas fé que opera pela caridade, agora mostra o valor da graça. A nova criatura de que êle fala é o homem revestido da graça, o homem elevado a uma grandeza sobrenatural e que assim foi objeto de uma nova criação espiritual feita por Deus. Esta graça nos vem pelos sacramentos, a começar pelo Batismo que produz em nós uma verdadeira renovação espiritual: Todos os que fôstes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo (Gálatas III-27).

Agora confrontemos êstes dois versículos em que S. Paulo nos diz que o que tem valor diante de Deus é a fé, o que tem valor diante de Deus é a graça que faz do homem uma nova criatura, com êste versículo também de S. Paulo, na 1.ª Epístola aos Coríntios: A circuncisão nada vale, e o prepácio nada vale; senão A GUARDA DOS MANDAMENTOS (1.ª Coríntios VII-19).

Assim se completam, segundo o pensamento de S. Paulo, os três elementos indispensáveis para a salvação, de acôrdo com a doutrina católica: a fé, a graça e a guarda dos mandamentos.

Isto não impede o próprio S. Paulo de resumir o problema da nossa salvação numa só palavra: O homem é justificado pela fé em Cristo. A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GRAÇA que nos vem pelos sacramentos, pois a fé é aceitar tôda a doutrina de Cristo e Cristo disse: Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus (João III-5). Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós (João VI-54). Cristo nos mostra como nos vem o perdão dos pecados: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23).

A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GUARDA DOS MANDAMENTOS, pois a fé é aceitar tôda a doutrina de Cristo, e Cristo disse: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17).

2.ª — NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS

121. UMA TRELA DE LUTERO.

Passamos agora ao versículo da Epístola aos Romanos:

Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei (Romanos III-28).

Antes de fazermos o comentário sôbre êste versículo, queremos relembrar um pequeno episódio da vida de Lutero. Lutero fêz a tradução da Bíblia para o alemão, aliás numa linguagem clássica e elegante, que exerceu profunda influência sôbre a língua e literatura alemãs, pois êle era de fato um grande escritor. Mas, na sua tradução, esteve longe de mostrar-se consciencioso. Fêz maliciosas alterações na Bíblia, levado pelo seu sectarismo. Os nomes com que o povo designava os sacerdotes católicos e as suas vestes, Lutero na Bíblia os aplicou aos sacerdotes idólatras. Usou no Antigo Testamento a palavra — Igreja —para designar os lugares em que se adoravam os ídolos, e no Novo Testamento substituiu a palavra Igreja, quando designava a Igreja de Cristo, pela palavra — comunidade.

Onde a Bíblia traz a palavra JUSTO, êle tomou como norma substituí-la pela palavra PIO, explicando que PIO quer dizer aquêle que tem fé, isto para favorecer à sua teoria de que ninguém pode ser justo, apenas podemos ter uma justiça exteriormente imputada, atribuída a nós por Deus que nos considera justos, embora realmente não o sejamos.

Onde se lê: A lei obra ira (Romanos IV-15), êle acrescentou a palavra SÓMENTE: A lei obra somente ira.

Neste versículo de que ora tratamos, Lutero, para ajustá-lo à sua doutrina, acrescentou também a palavra SOMENTE e assim traduziu: Concluímos, pois, que o homem é justificado sem as obras da lei, SOMENTE pela fé.

Um católico reclamou contra o acréscimo desta palavra SOMENTE que não estava no texto. E Lutero assim respondeu numa carta dirigida a Link: "Se o nosso novo papista quiser importunar-nos por causa da palavra SOMENTE, responde-lhe logo: assim o quer o Doutor Martinho Lutero que diz: papista e burro são a mesma coisa. Assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão" (Weimar XXX 2 Abt 635). E a frase de Lutero: Sie volo, sie jubeo, sit pro ratione voluntas —assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão — que, aliás, já era tomada de um escritor pagão, ficou célebre para indicar que uma pessoa se obstina numa opinião ou numa atitude, mesmo sabendo que está errada, como se diz também em português: É de pau, porque eu quero; é de pau, e bem bonito; é de pau, e tenho dito.

122. A ARGUMENTAÇÃO DE S. PAULO.

Mas voltemos ao nosso versículo: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28).

Por esta palavra CONCLUÍMOS, estamos logo vendo que S. Paulo fêz um argumento e chegou a uma conclusão.

S. Paulo, como é natural, quer mostrar a necessidade de se abraçar a Religião de Cristo. O seu argumento para chegar a tal conclusão é o seguinte:

No tempo em que fala S. Paulo, o mundo inteiro está completamente fora do bom caminho, do caminho da salvação.

Aquêles que viviam sob a LEI NATURAL caíram lamentàvelmente nos erros mais deploráveis e nos mais horrendos pecados. É o que, depois de fazer as costumeiras saudações, demonstra o Apóstolo, do versículo 18.º até o fim do capítulo 1.º, descrevendo a depravação em que estavam mergulhados os gentios.

S. Paulo acusa-os por causa da idolatria: mudaram a glória do Deus incorrutível em semelhança de figura de homem corrutível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes (Romanos 1-23); adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito por todos os séculos (Romanos 1-25). E depois de acusá-los de pecados vergonhosos que são, não só contra a castidade, mas também contra a natureza, os descreve como sujeitos a inúmeras perversões: cheios de tôda a iniqüidade, de malícia, de fornicação, de avareza, de maldade, cheios de inveja, de homicídios, de contendas, de engano, de malignidade, mexeriqueiros, murmuradores, aborrecidos de Deus, contumeliosos, soberbos, altivos, inventores de males, desobedientes a seus pais, insipientes, imodestos, sem benevolência, sem palavra, sem misericórdia, os quais tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem semelhantes coisas são dignos de morte; e não somente os que estas coisas fazem, senão também os que consentem aos que as fazem (Romanos 1-29 a 32).

O capítulo 2.º é endereçado aos judeus que estavam sob a LEI MOSAICA. Antes de estudá-lo, porém, precisamos abrir

123. UM PARÊNTESIS.

Para bem entendermos a argumentação de S. Paulo, precisamos fazer um confronto entre o pensamento paulino e a mentalidade dos judeus. Éstes estavam muito envaidecidos, julgando-se superiores aos gentios por causa da LEI, que lhes fôra dada por Deus e também muito confiados em suas próprias fôrças para a prática da virtude. Mas não sabiam êstes judeus de uma coisa muito importante: é que a lei nada adianta como remédio do pecado, se Deus não der a sua graça, sem a qual não é possível observá-la. A lei é na verdade, santa; e o mandamento é santo, e justo, e bom (Romanos VII-12), porque é a expressão da vontade de Deus. Mas a lei, por si só, não resolve o problema do homem, porque o que a lei nos traz é o conhecimento do que é pecado e do que não é: Pela lei é que vem o conhecimento do pecado (Romanos III-20); se a lei que foi dada pudesse VIVIFICAR, a justiça, na verdade, seria pela lei (Gálatas III-21). O problema do homem não é só-mente saber o que é pecado e o que não é, o seu maior problema é êste: quem o vivificará na luta contra o mal? quem lhe dará fôrças para viver santamente, para evitar o pecado? Quem lhe dá fôrças para isto é a graça de Deus. A lei é espiritual, mas eu sou carnal (Romanos VII-14). Eu me deleito na lei de Deus, segundo o homem interior; mas sinto nos meus membros outra lei que repugna à lei do meu espírito e que me faz cativo na lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz homem eu, quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor (Romanos VII-22 a 25).

A graça de Deus, tinham-na os judeus e os gentios e tinham suficiente para a salvação, pois Deus quer que todos os homens se salvem (1.° Timóteo II-4). E não sabiam êles que esta graça que Deus lhes concedia era graça de Cristo (veja-se Atos XV-10 e 11), que Deus lhes dava por antecipação, em virtude dos futuros merecimentos do Salvador.

Mas, apesar de ter sido oferecida a todos esta graça, apesar de terem podido, com o auxílio desta graça, os gentios observar a lei natural, e os judeus, a lei mosaica; na realidade estiveram muitíssimo longe de observá-las como deviam. E a conclusão natural disto é que sejam substituídas a lei natural e a lei mosaica, que pela ingratidão e malícia dos homens vieram a dar num grande fracasso, sejam substituídas pela fé em Cristo, pela Religião de Cristo, que nos vem trazer a graça em muito maior abundância: Onde abundou o pecado, superabundou graça (Romanos V-20). De forma que, segundo os desígnios altíssimos de Deus, a lei mosaica serviu para mostrar aos homens a necessidade imensa em que o mundo se achava de receber a Cristo, a sua doutrina e a sua graça. E é neste sentido que diz S. Paulo: A lei nos serviu de PEDAGOGO que nos conduziu a Cristo, para sermos justificados pela fé. Mas depois que veio a fé, já não estamos debaixo do pedagogo (Gálatas III-24 e 25).

124. REATANDO O FIO DA ARGUMENTAÇÃO.

Fechado o parêntesis, voltamos à argumentação feita nos 3 primeiros capítulos da Epístola aos Romanos. S. Paulo quer demonstrar como não é mais suficiente nem a lei natural, nem a lei mosaica, uma vez que tanto sob o regime de uma como de outra, os homens pecaram da maneira mais desastrosa. Já mostrou, no 1.º capítulo, como os gentios, que estavam sob a lei natural, caíram nos mais abomináveis pecados.

No capítulo 2.° chega a vez dos judeus. Estão êles muito orgulhosos de sua lei, falando com bastante desprêzo a respeito dos gentios que são pecadores, e no entanto são êles, judeus, pecadores da mesma forma: Assim diz o 1.º versículo: És inescusável tu, ó homem qualquer que julgas; porque no mesmo em que julgas a outro, a ti mesmo te condenas, porque fazes essas mesmas coisas que julgas (Romanos II-1).

S. Paulo se baseia neste princípio de que, seja qual fôr a lei sob a qual o homem se encontre, ou lei natural, ou lei mosaica, ou lei de Cristo, o que é fato é que não são justos diante de Deus aquêles que ouvem a lei, ou que lêem as palavras da lei, mas os que cumprem o que a lei manda: Não são justos diante de Deus os que ouvem a lei; mas os que fazem o que manda a lei, serão justificados (Romanos 11-13) porque Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras (Romanos 11-6) e não há para com Deus acepção de pessoas (Romanos II-11). Basta êste princípio estabelecido por S. Paulo para nos mostrar que erram os protestantes atribuindo ao Apóstolo a doutrina de que o homem se justifica pela fé somente.

Estabelecido o princípio de que são justos os que cumprem a lei, não os que a ouvem, S. Paulo tira a conclusão de que os judeus já não são justos, nem agradáveis a Deus, estão fora do caminho da salvação. Êle fala ao judeu de seu tempo: Se tu que tens o sobrenome de judeu e repousas sôbre a lei, e te glorias em Deus, e sabes a sua vontade, e distingues o que é mais proveitoso, instruído pela lei, tu mesmo que presumes ser o guia dos cegos, o farol daqueles que estão em trevas, o doutor dos ignorantes, o mestre das crianças, que tens a regra da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que a outro ensinas, não te ensinas a ti mesmo; tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, o cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras; tu que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei (Romanos II-17 a 24).

Depois de mostrar o fracasso de ambos os lados, da parte dos gentios e dos judeus, depois de resolver uma objeção sôbre as vantagens da circuncisão até aquêle tempo, S. Paulo vai enfeixar, no capítulo 3.º, o seu argumento: Já temos provado que judeus e gentios estão todos debaixo do pecado, assim como está escrito: Não há, pois, nenhum justo; não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis, não há quem faça bem, nem sequer um. A garganta dêles é um sepulcro aberto; com as suas línguas fabricavam enganos; um veneno de áspides se encobre debaixo dos lábios dêles, cuja bôca está cheia de maldição e de amargura; os pés dêles são velozes para derramar sangue. A dor e a infelicidade se acha nos caminhos dêles, e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante dos olhos dêles (Romanos III-9 a 18).

Alguns protestantes de hoje ainda não compreendem êste texto, porque se mostram apegados ao êrro de Lutero, o qual aí enxergava a prova de que a natureza do homem está depravada completamente pelo pecado, de tal modo que não possa haver nenhum homem justo. Aí não se diz que não pode haver justos na terra, mas sim que o mundo tinha degenerado de tal forma, que os justos pràticamente haviam desaparecido, nos tempos que antecederam a vinda de Cristo. Não há nenhum — explica S. Tomás que é um modo de falar por hipérbole, figura pela qual se procura exagerar para encarecer. Desta figura usamos freqüentemente dizendo — não vejo nada — quando o que vemos é muito pouca coisa. Uma hipérbole usou S. João quando disse: Muitas outras, porém, há ainda que fêz Jesus; as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que NEM NO MUNDO TODO PODERIAM CABER os livros que delas se houvessem de escrever (João XXI-25) e os judeus, quando disseram a respeito de Jesus: eis aí vai após êle todo o mundo (João XII-19): todo o mundo, isto é, muita gente.

Que podem existir justos na terra, que havia um ou outro naquele tempo, isto se mostra em outros textos da Escritura: E José, seu espôso, como era JUSTO... (Mateus I-19). Para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o sol sôbre bons e maus, e vir chuva sôbre JUSTOS e injustos (Mateus V-45). Eu não vim a chamar os JUSTOS, mas os pecadores (Mateus IX-13). O que recebe um JUSTO na qualidade de justo receberá a recompensa de justo (Mateus X-41). Herodes temia a João, sabendo que êle era varão JUSTO e santo (Marcos VI-20). Haverá maior júbilo no céu sôbre um pecador que fizer penitência que sôbre noventa e nove JUSTOS que não hão de mister penitência (Lucas XV-7). Havia, então, em Jerusalém um homem chamado Simeão; e êste homem JUSTO e timorato esperava a consolação de Israel (Lucas II-25). O centurião Cornélio, homem JUSTO e temente a Deus... (Atos X-22).

O caso de Cornélio é típico: era um gentio, não era circuncidado, nem observava a lei de Moisés, ainda não conhecia a Religião de Cristo e já é chamado justo. O que mostra que S. Paulo fala de um modo geral. Em regra geral os gentios e os judeus, ou seja, todos os homens, não eram justos diante de Deus, mas esta regra geral tinha exceções. No meio da depravação geral, alguns cooperavam com a graça de Deus e a Êle eram agradáveis.

Falando de maneira geral, a Humanidade tôda está, ao tempo em que fala o Apóstolo S. Paulo, no caminho do vício e da depravação. Nestas circunstâncias todos pecaram e todos estão necessitando de um socorro, de uma intervenção especial de Deus, que redunde na glória divina: Todos pecaram e necessitam da glória de Deus (Romanos III-23). Se todos pecaram, se todos estavam naquele estado de corrução e de miséria, a justificação, a reconciliação que Cristo operou na cruz, não foi merecida pelas obras dos homens, foi realizada gratuitamente por mera bondade divina: tendo sido justificados GRATUITAMENTE por sua graça, pela redenção que tem em Jesus Cristo (Romanos III-24).

E desde que pecaram demasiadamente, tanto os judeus como os gentios, é preciso que se estabeleça uma nova ordem de coisas; não se exige mais a obediência à lei mosaica, ela está morta, Deus quer que se abrace a Religião de Cristo, Deus impõe a fé em Jesus Cristo, sem distinção alguma entre gentios e judeus: Agora SEM A LEI se tem manifestado a justiça de Deus, testificada pela lei e pelos profetas, e a justiça de Deus é infundida pela fé de Jesus Cristo em todos e sôbre todo os que crêem nÊle, porque NÃO HÁ NISTO DISTINÇÃO ALGUMA (Romanos III-21 e 22).

E chegamos então ao texto apresentado pelos protestantes. Mas nada melhor do que fazê-lo acompanhar das palavras que o seguem, para perfeitamente conhecer-lhe o sentido:

Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé SEM AS OBRAS DA LEI. Porventura Deus só o É DOS JUDEUS? não no é Êle também dos gentios? Sim, por certo, Êle o é também dos gentios; porque na verdade não há senão um Deus, que justifica pela fé os circuncidados e que também pela fé JUSTIFICA OS INCIRCUNCIDADOS (Romanos III-28 a 30).

S. Paulo fala aos Romanos, que podem vir a ser trabalhados pelos judaizantes (se é que já não o estão sendo) no sentido de se julgarem obrigados a cumprir a lei de Moisés para poderem salvar-se. Fala a cristãos novos que podem pela leitura da Bíblia, do Antigo Testamento, ficar com a idéia de que a circuncisão, a proibição de certas comidas, tôdas aquelas purificações e cerimônias ordenadas por Deus na Lei Antiga, ainda são obrigatórias. Faz-lhes ver então que em vista do estado geral do mundo, chegou agora o momento de Deus estabelecer um novo caminho para o homem se tornar um justo. A Lei Antiga vai desaparecer para dar lugar à fé em Cristo. Mas a fé em Cristo acarreta, é claro, a obrigação de obedecer à nova lei, à lei de Cristo, na qual se preceituam os 10 mandamentos até com maior rigor do que entre os judeus (em compensação estamos livres daquela escravidão de tantos preceitos, de tantas restrições, como estavam os judeus na lei mosaica). A fé em Cristo conduz à recepção dos sacramentos que Cristo apontar como necessários à salvação. A fé em Cristo leva à obediência a todos os preceitos que por Cristo nos são impostos na doutrina do Evangelho.

125. NÃO É ASSIM A ARGUMENTAÇÃO DE S. PAULO.

A interpretação protestante que quer ver neste texto — o homem é justificado pela fé sem as obras da lei — uma prova de que as nossas obras, a observância dos mandamentos não contribuem para a justificação do homem, está completamente em desacôrdo com a argumentação apresentada por S. Paulo. S. Paulo apresenta a fé em Cristo, a Religião de Cristo, como remédio contra o pecado. Para prová-lo, deplora aquêles crimes cometidos pelos pagãos, principalmente a idolatria que é contra o 1.° mandamento, os pecados de impureza que são contra o 6.º, os homicídios que são contra o 5.°, a desobediência aos pais que é contra o 4º S. Paulo, o que mais deplora nos judeus é a falta de obediência ao 7.°, ao 6.° e ao 1.° mandamento: Tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, e cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras (Romanos II-21 e 22). E se dêstes crimes cometidos pelos gentios e pelos judeus, tira a conclusão de que êles não estão justificados diante de Deus, o que se segue daí é que a observância dos 10 mandamentos é necessária para a justificação do homem. Se êle apresenta, portanto, a fé em Cristo como realizadora da justificação do homem, é claro que não está dispensando o homem de observar êstes mandamentos para viver como um justo diante de Deus; está mostrando a fé em Cristo como o caminho para melhor observá-los. O remédio para a depravação não seria . de forma alguma Deus desobrigar o homem da prática dos 10 mandamentos; isto seria levá-lo a uma depravação ainda maior, a saber: antigamente se fazia o mal, desobedecendo a Deus; agora se faria o mal, sem mêdo algum de desagradar-lhe, porque Éle, dando-se por vencido, teria desistido de exigir do homem a prática do bem, exigindo sómente a fé, e não mais a observância do Decálogo, como meio para obter-se a salvação. Não seria um remédio para o pecado; seria piorar horrivelmente a situação moral do mundo.

A fé em Cristo é o remédio para o pecado, porque, embora Cristo exija a observância dos 10 mandamentos com maior perfeição do que antigamente (Sêde vós, logo, perfeitos, como também vosso Pai Celestial é perfeito — Mateus V-48), Éle nos orienta admiràvelmente para a verdadeira santificação, ensinando-nos a não confiar nas nossas próprias fôrças e a implorar continuamente o auxílio da sua graça (Sem mim não podeis fazer nada — João XV-5); Éle, cheio de graça, de cuja plenitude todos nós recebemos, nos veio distribuir esta vida da graça mais abundantemente: Eu vim para elas terem vida, e para a terem em maior abundância (João X-10).

É neste sentido que o homem é justificado, que a Humanidade toma o caminho da justiça, da santificação, pela fé em Cristo e sem as obras da lei, isto é, sem mais obrigação daquelas cerimônias e prescrições do Antigo Testamento, que serviram apenas de preparação para a justiça cristã que nos foi trazida pelo Evangelho.