PRIMEIRA PARTE: A SALVAÇÃO PELA FÉ

CAPÍTULO VII: A GRAÇA DADA "DE GRAÇA", SEGUNDO O ENSINO DE S. PAULO

126. GRAÇA ATUAL E GRAÇA SANTIFICANTE.

Segundo a doutrina católica, o homem, para salvar-se, precisa da graça atual e da graça santificante. Qual a diferença entre graça santificante e graça atual?

Graça atual é o AUXÍLIO DE DEUS, pelo qual Êle ilumina a inteligência e ajuda a vontade do homem, para que êste possa vencer as tentações ou praticar as virtudes necessárias para a conquista do Céu. Ela pode visitar o homem, como uma boa inspiração e ser rejeitada, como também ser aceita e produzir o seu bom efeito; neste último caso a tentação é vencida ou a virtude é praticada. É à GRAÇA ATUAL, que se refere S. Paulo quando diz, falando a respeito do Espírito Santo: o Espírito AJUDA também a nossa fraqueza (Romanos VIII-26).

Graça santificante é O ESTADO DA ALMA que, pelo fato de estar livre do pecado original e perdoada de todos os pecados mortais que porventura tenha cometido, é vista com agrado aos olhos de Deus. Com a graça santificante, o homem se torna úm justo, filho adotivo de Deus, templo do Espírito Santo, herdeiro da vida eterna. Já não é Deus visitando-o, auxiliando-o, fortalecendo-o; é mais do que isto: é Deus habitando no seu coração. Assim S. Paulo, falando ainda sôbre o Espírito Santo, chama-o: Espírito que HABITA em vós (Romanos VIII-11). E Nosso Senhor disse no Evangelho: Se algum me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará; e nós viremos a êle e faremos nêle morada (João XIV-23).

O homem que está-neste feliz estado, pode perdê-lo, bastando, para isto, que cometa um pecado mortal; depois de perdido o estado de graça, pode ser recuperado e isto acontece quando lhe são perdoados os pecados mortais cometidos.

127. AMBAS SÃO NECESSÁRIAS.

Conforme o ensino da Igreja, o homem não pode, por suas próprias fôrças naturais, cumprir a lei de Deus, nem fazer nenhum ato meritório para a vida eterna; para a salvação, portanto, necessita continuamente do AUXÍLIO DE DEUS, ou seja, da GRAÇA ATUAL: Não que seja mos capazes, de nós mesmos, de ter algum pensamento, como de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus (2.° Coríntios III-5).

Além disto, para salvar-se, precisa estar na GRAÇA SANTIFICANTE no momento de sua morte: é a veste nupcial, sem a qual ninguém pode ser admitido no banquete da bem-aventurança celeste. A graça santificante é quem nos faz filhos adotivos de Deus e, portanto, herdeiros da vida eterna; os que não estiverem na categoria de filhos não poderão herdá-la.

Finalmente, para fazer qualquer ato merecedor de um prêmio na vida eterna, é preciso que o homem esteja na GRAÇA SANTIFICANTE. A alma que não possui êste estado de graça é ramo que não está enxertado na divina videira que é Cristo; não pode produzir frutos para a eterna bem-aventurança (João XV-4 e 5). Isto é uma verdade tremenda, que encerra séria advertência para aquêles que, afastando-se dos sacramentos da Confissão e da Comunhão, (e aqui nos dirigimos especialmente aos católicos negligentes em aproveitar-se dos tesouros da divina misericórdia que a sua Religião lhes oferece), afastando-se dos sacramentos, ficam por longo tempo em estado de pecado mortal: além do perigo de se condenarem eternamente, em conseqüência de uma morte repentina, tão fácil de acontecer, perdem também todo o fruto de suas boas ações que nenhuma recompensa terão na eternidade. Podem estas boas ações feitas assim por um homem em estado de pecado mover o coração de Deus a lhe conceder mais depressa a graça do arrependimento ou a não lhe faltar com ela no momento mais crítico, mas são infrutuosas para o Céu.

128. PRINCIPIO DO MÉRITO NÃO PODE SER MERECIDO.

O princípio do mérito é, portanto, A GRAÇA SANTIFICANTE. Antes de alcançá-la, não pode o homem ter nenhum MERECIMENTO.

Ora, não é na graça santificante que o homem nasce. Nasce com pecado original que consiste precisamente nisto: na privação da graça santificante. Tem que haver, portanto, um momento na sua vida, em que êle passa do estado de pecado (ou seja pecado original só, ou seja pecado original e mais os pecados mortais que êle já cometeu) para o estado de graça santificante.

Esta passagem se dá SEM MERECIMENTO algum de sua parte, não pode MERECÊ-LA COM AS SUAS OBRAS, dá-se GRATUITAMENTE, por mera misericórdia de Deus, e a razão é muito simples: a graça santificante é um DOM SOBRENATURAL, e enquanto o homem não fôr elevado a um estado sóbrenatural, não pode merecer êste dom que supera a sua própria natureza.

A graça nos torna participantes da natureza divina (2.° Pedro 1-4) já nesta terra, para melhor ainda nos tornarmos participantes da natureza divina lá na glória do Céu. É uma altura a que não podemos chegar por nossas próprias fôrças; é preciso, portanto, que Deus mesmo nos coloque nela.

E quando se dá esta passagem do estado de pecado para o de graça santificante? Dá-se a primeira vez na nossa vida, quando recebemos o Batismo, que apaga na alma o pecado original, com o qual fomos concebidos, bem como perdoa todos os pecados cometidos até aquela hora, desde que seja recebido com as devidas disposições.

Dá-se outras vêzes na vida, quando a alma que, tendo cometido pecado mortal, perdeu a graça santificante, recebe o perdão dos pecados cometidos. Para isto é que foi instituída a Confissão ou o Sacramento da Penitência (João XX-23). O perdão é dado por pura misericórdia, "de graça", não por merecimento das obras humanas, mas o que nos conforta é o que a Escritura nos diz sôbre a misericórdia de Deus que é de muita bondade para perdoar (Isaías LV-7). Êle é misericordioso e clemente, sofredor e de muita compaixão (Êxodo XXXIV-6). Não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que ainda fumega (Isaías XLII-3), diz o profeta Isaías a respeito de Jesus. Êle é o primeiro, portanto, a sair em busca do pecador para lhe oferecer a sua graça, como Bom Pastor que se esforça por reabilitar a ovelha perdida.

129. ESFÔRÇO E MERECIMENTO.

Aqui naturalmente o leitor pede a palavra para fazer uma pergunta: O Sr. disse que a graça santificante, a gente recebe "de graça". Se eu fui batizado, quando não tinha ainda uso de razão, estou perfeitamente de acôrdo: recebi a graça santificante "de graça", pois nada fiz para recebê-la. Mas, se já recebi o Batismo depois de grande, como é que esta graça santificante foi recebida "de graça", se precisei, para isto, instruir-me com os principais conhecimentos da fé, arrepender-me de meus pecados, procurar o Batismo etc? Se eu já me batizei e depois caí no pecado, preciso fazer exame de consciência, arrepender-me sinceramente, fazer um firme propósito, confessar-me etc. Como é que posso dizer nestes casos que recebi "de graça" a justificação, se precisei fazer esforços para consegui-la?

— Você está apenas confundindo duas coisas bem diversas. Esfôrço que se faz para conseguir uma coisa nem sempre é o mesmo que MERECIMENTO. Quantas vêzes Você faz os seus esforços precisamente para isto: para conseguir uma coisa "de graça"? Suponhamos que um amigo lhe telefone: Venha aqui agora mesmo, e eu lhe darei um anel de ouro cravejado de brilhantes ! Você vai com sacrifício, abandonando seus afazeres, dispõe-se a dar muitas passadas, pode até fazer despesas com a condução e no fim de tudo recebeu o anel "de graça". Não foi a .caminhada que Você fêz que lhe deu merecimento para adquirir o anel; Você o recebeu sem o ter merecido, uma vez que não havia pago um preço equivalente, nem feito ação alguma, para a qual fôsse o anel um prêmio adequado; a caminhada foi apenas uma providência necessária para entrar em posse do objeto.

Diga-se o mesmo do homem carregado de crimes e condenado à pena de morte, a quem o rei manda dizer: "Venha a meu palácio, ajoelhe-se aos pés de meu ministro, confesse seus erros e eu assinarei o decreto, libertando-o da morte". Ainda mesmo que êle precise andar algumas léguas para isto, o perdão lhe foi concedido sempre "de graça", sem merecimento seu e por pura misericórdia; pois o que êle merecia era a morte, e não o perdão.

Assim também Deus pode exigir algumas condições, algumas DISPOSIÇÕES nossas, para nos conceder a sua graça, mas não são estas disposições que estão na altura de merecê-la.

130. AÇÕES COM VALOR DIVINO.

Mas, se a graça, o pecador não pode MERECÊ-LA, como é que, depois de receber a graça santificante, pode MERECER a glória do Céu? Não é o mesmo homem fraco, mortal, limitado, imperfeito, como são todos os homens?

— Sim, continua fraco, mortal, imperfeito, limitado, mas já não é o mesmo homem, enquanto perseverar na graça santificante. Se Você visse o seu amigo, inerte, morto, estirado na sala, e depois Deus o ressuscitasse e Você o passasse a ver rindo, conversando, trabalhando, exercendo tôda a sua atividade, Você diria que êste de agora é o mesmo homem? É o que se dá na vida espiritual: quem não está na graça santificante está morto pelo pecado para a vida sobrenatural; o morto não pode merecer; o morto nada pode fazer por si, para sair do estado de morte em que se encontra; é preciso que Deus o ressuscite, o crie espiritualmente, faça dêle uma NOVA CRIATURA (2.ª Coríntios V-17), um HOMEM NOVO (Efésios IV-24), para que possa andar, operar e produzir alguma coisa na vida da graça: Êle é quem vos deu a VIDA, quando vós estáveis MORTOS pelos vossos delitos e pecados (Efésios

Uma vez que esteja a alma com a graça santificante, sendo uma habitação do Espírito Santo, as suas boas obras feitas com reta intenção, as quais são efeito, portanto, não só do livre arbítrio, mas também da graça do Espírito Santo, são ações sobrenaturalizadas, ações divinizadas pela graça. As boas obras feitas pela alma que se tornou participante da natureza divina, tomam assim um valor divino e já merecem, não uma recompensa natural, mas a recompensa da vida eterna, dada por justiça, pois o prometido é devido e Deus assim o prometeu: Irão êstes para o suplício eterno, e OS JUSTOS, PARA A VIDA ETERNA (Mateus XXV-46). Não precisamos mais citar aquêles textos em que a vida eterna nos aparece como uma RECOMPENSA (Mateus XIX-29), um GALARDÃO (Mateus V-11 e 12), uma COROA DE JUSTIÇA (2.° Timóteo IV-8), um TESOURO ACUMULADO NO CÉU (Mateus VI-19 e 20), uma PAGA SEGUNDO AS OBRAS (Mateus XVI-27), e em que Nosso Senhor nos fala num verdadeiro e real MERECIMENTO (Lucas VI-32 a 35).

À proporção que a alma santificada pelo Divino Espírito vai fazendo boas obras e praticando atos de virtude, vai crescendo na graça (2.° Pedro III-18), e aumentando em si esta graça divina, vai aumentando também o seu prêmio no Céu, pois Deus há de retribuir a cada um, segundo as suas obras (Romanos 11-6).

131. A VOCAÇÃO PARA A FÉ.

Fica, portanto, esclarecido, que o merecimento das nossas obras só se começa a contar desde o momento em que começamos a possuir a GRAÇA SANTIFICANTE.

Se é assim, é claro que a nossa passagem do estado de infidelidade ou de descrença para a FÉ, se opera também sem merecimento da nossa parte. Já vimos que a Igreja condenou a doutrina dos semipelagianos, os quais afirmavam que o primeiro movimento do homem para a fé, impulso inicial que o leva a crer, é obra exclusiva do nosso livre arbítrio, quando a Igreja afirma que êste primeiro movimento para a fé é obra da graça de Deus. Assim a vocação PARA A FÉ, a graça atual que vai tocar o coração do homem que ainda não crê, é um dom de Deus, concedido gratuitamente, sem merecimento das obras humanas. Deus, quando chama o homem para a fé, não o faz porque êle o tenha merecido pelas suas obras, pois a fé é também um dom sobrenatural. Éle faz por pura bondade e benevolência, podendo chamar até mesmo os maiores pecadores. E é sôbre êste ponto que S. Paulo fala a Timóteo: Trabalha comigo no Evangelho, segundo a virtude de Deus, que nos livrou e CHAMOU COM A SUA SANTA VOCAÇÃO, NÃO SEGUNDO AS NOSSAS OBRAS, mas segundo o seu propósito e GRAÇA que nos foi dada em Jesus Cristo antes de todos os séculos (2.ª Timóteo 1-8 e 9).

É também à GRAÇA DA VOCAÇÃO PARA A FÉ, que se refere S. Paulo quando diz: E se isto foi por graça, não foi já PELAS OBRAS; doutra sorte a graça já não será graça (Romanos XI-6). Senão, vejamos.

S. Paulo termina o capítulo 10.° referindo-se à incredulidade e rebeldia com que os judeus rejeitaram o Evangelho e citando as palavras de Isaías: Todo o dia abri as minhas mãos a um povo incrédulo,rebelde (Romanos X-21).

E, logo no começo do capítulo XI, êle afirma que não se segue daí que o povo de Israel esteja completamente rejeitado. No meio de tantos judeus obstinados e endurecidos, Deus reservou alguns para lhes dar A GRAÇA DA VOCAÇÃO PARA A FÉ. E um exemplo está nêle próprio, S. Paulo, que é judeu e no entanto foi convertido à Religião Cristã: eu também sou israelita, do sangue de Abraão, da tribo de Benjamim (Romanos XI-1).

E S. Paulo faz uma comparação com o que aconteceu ao profeta Elias, nos tenebrosos tempos do rei Acab e de sua mulher Jezabel, quando parecia que o povo judaico na sua totalidade tinha abandonado a Deus e a sua lei: Porventura não sabeis vós o que a Escritura refere de Elias, de que modo pede êle justiça a Deus contra Israel? Senhor, mataram os teus profetas, derrubaram os teus altares; e eu fiquei sózinho e êles me procuram tirar a vida (Romanos XI-2 e 3).

Naqueles tempos difíceis, em que o povo de Israel estava mergulhado na idolatria, Deus concedeu uma graça especialíssima a 7 mil homens, preservando-os de caírem na adoração a deuses falsos: Mas que lhe disse a resposta de Deus? Eu reservei para mim sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal (Romanos XI-4). Um fato semelhante foi o que aconteceu agora depois da vinda de Cristo. Os judeus rejeitaram a Cristo obstinados na sua incredulidade, soberba e dureza de coração. Mas não foi total esta rebeldia. Deus salvou alguns judeus, livrando-os de cair naquele estado de obstinação e incredulidade, dando-lhes A GRAÇA DA VOCAÇÃO PARA A FÉ, chamando para o Cristianismo muitos dêles, entre os quais o Apóstolo S. Paulo: Do mesmo modo, pois, ainda neste tempo, segundo a eleição da sua graça, salvou Deus a um pequeno número que Me reservou para si (Romanos XI-5).

E por que foi que êsses judeus receberam a graça da conversão? Foi porque tivessem sido melhores do que os outros? Foi porque tivessem merecido a conversão, por meio de suas obras? Não; se esta conversão foi uma GRAÇA, é porque Deus não indagou quais eram as obras praticadas por êsses judeus para concedê-la, Deus os chamou por pura bondade e misericórdia: E se isto foi por graça, não foi já pelas obras; doutra sorte a graça já não será graça (Romanos XI-6).

Os protestantes vêem êste texto em que S. Paulo diz que a graça da conversão não foi merecida pelas obras, mas foi dada "de graça" e daí tiram a conclusão de que a nossa SALVAÇÃO, a nossa ENTRADA PARA O CÉU é dada também "de graça", o que já é bem diferente. Tôda a sua confusão reside nesta palavra SALVOU: Deus os salvou. Mas, como já explicámos no capítulo 5.° (n.° 88), Deus salvou êsses poucos judeus, quer dizer: salvou-os da apostasia, pôs êsses homens no caminho da salvação. S. Paulo aí não está garantindo que todos os judeus que se converteram ao Cristianismo infalivelmente conseguirão o Céu; se querem ir para o Céu, terão que FAZER FôRçA, ajudados pela graça, está claro, como tinha que fazer fôrça o próprio S. Paulo, que era um dêles: Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que não suceda que, havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a SER REPROVADO (1.° Coríntios IX-27). Porque, segundo S. Paulo, a entrada no Céu para ver a Deus face a face não é dada "de graça", ela tem um preço; êste preço se chama SANTIDADE e santidade inclui não só a fé, mas também as boas obras: Segui a paz com todos, e a SANTIDADE, SEM A QUAL NINGUÉM VERÁ A DEUS (Hebreus XII-14).

Para acalmar alguns leitores porventura escrupulosos, temos que esclarecer que o estado de graça já é santidade, pode ser o primeiro grau, o abecê da santidade, mas é santidade sempre; é o estado da alma que goza da amizade de Deus, embora nem sempre seja o grau elevado de união com Deus que se encontrou naqueles que mais própriamente nós chamamos: os santos.

132. NA EPÍSTOLA A TITO.

Outra confusão bem semelhante é a que fazem os protestantes com o trecho da Epístola a Tito, capítulo 3.º, versículos 3 a 8. S. Paulo fala aí evidentemente na PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O DE GRAÇA SANTIFICANTE e diz que esta transição não foi merecida pelas obras, foi efeito da misericórdia de Deus. E daí concluem os protestantes que a salvação, a passagem desta vida para o Céu não depende das nossas obras, o que é muito diferente.

Vejamos as palavras do Apóstolo.

Primeiramente êle descreve a corrupção a que estavam sujeitos os cristãos antes de se converterem ao Cristianismo. Estavam num deplorável ESTADO DE PECADO: Também nós algum tempo éramos insensatos, incrédulos, metidos no êrro, escravos de várias paixões e deleites, vivendo em malícia e em inveja, dignos de ódio, aborrecendo-nos uns aos outros (Tito III-3).

Ora, o Evangelho estava sendo pregado havia pouco tempo. Inúmeros daqueles cristãos ouviram a pregação do Evangelho, quando já tinham mais de 7 anos, e foram batizados como adultos. Assim foi o Batismo que nêles realizou esta passagem do estado de corrupção em que se encontravam para o estado de graça santificante, pois, como dissemos, o Batismo apaga o pecado original e perdoa todos os pecados cometidos antes de se receber este Sacramento, desde que haja as disposições necessárias. Esta graça do Batismo não foi merecida pelas obras de cada um, pois, se estavam no estado de pecado, não podiam MERECER a graça de Deus, como já explicámos. É a esta transformação gratuita, por pura bondade de Deus, e não pelas obras, a transformação de pagãos em cristãos, de pecadores em criaturas justificadas pela graça, que S. Paulo se refere: Mas quando apareceu a bondade do Salvador nosso Deus e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça QUE TIVÉSSEMOS FEITO nós outros, mas segundo a sua misericórdia, NOS SALVOU PELO BATISMO DE REGENERAÇÃO E RENOVAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, (10) O QUAL Êle difundiu sôbre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, sejamos herdeiros segundo a esperança da vida eterna (Tito III-4 a 7).

É interessante notar que o Apóstolo não diz — herdeiros com a certeza da vida eterna — mas — herdeiros segundo a ESPERANÇA da vida eterna, para no versículo seguinte exortar às BOAS OBRAS: Esta é uma verdade infalível e quero que isto afirmes, para que procurem avantajar-se em BOAS OBRAS OS que crêem em Deus (Tito III-8).

Está evidente, portanto, que aquêle NÃO POR OBRAS DE JUSTIÇA QUE TIVÉSSEMOS FEITO, se refere a obras de justiça que tivessem feito os cristãos quando se encontravam em estado de pecado, e isto está de acôrdo com a nossa doutrina católica: estas obras feitas no estado de pecado, não têm MERECIMENTO para os bens da vida eterna, não vogam para a salvação, pois só vogam as obras feitas no estado de graça santificante.

133. NA EPISTOLA AOS EFÉSIOS.

Sobre a PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O DE GRAÇA SANTIFICANTE fala também um versículo da Epístola aos Efésio, muito citado pelos protestantes. É a ressurreição espiritual dos que estavam mortos pelo pecado.

Vejamos as palavras de S. Paulo, referindo-se a Cristo: Êle é quem vos deu a VIDA, quando vós estáveis MORTOS PELOS VOSSOS DELITOS E PECADOS, em que noutro tempo andastes segundo o costume dêste mundo, segundo o príncipe das potestades dêste ar, o príncipe daqueles espíritos que agora exercitam o seu poder sôbre os filhos da infidelidade, entre os quais vivemos também TODOS NÓS em outro tempo SEGUNDO OS DESEJOS DA NOSSA CARNE, FAZENDO A VONTADE DA CARNE E DOS SEUS PENSAMENTOS, E ÉRAMOS POR NATUREZA FILHOS DA IRA, como também os outros (Efésios II-1 a 3).

Tendo descrito o estado deplorável em que se encontravam antes da conversão os Efésios, a quem escreve, S. Paulo mostra que DESTA DEPRAVAÇÃO, DÊSTE HORRENDO E MISERÁVEL ESTADO DE PECADO agora êles ESTÃO SALVOS (pois êste é o sentido da palavra SALVOS empregada pelo Apóstolo, conforme já provámos no n.º 88) e passa a frisar que esta transformação foi realizada pela graça mediante a fé, pois iluminados pela fé que os arrancou das trevas do paganismo, vieram depois a alcançar a graça santificante. Esta transformação não veio como prêmio ou conseqüência DAS OBRAS, pois, antes de se converterem, que faziam êles?

Obras más, como faziam os outros. Não foi porque tivessem realizado melhores obras do que os não-convertidos, que êles se converteram.

Não veio dêles, pois A VOCAÇÃO PARA A FÉ é um DOM DE DEUS.

Assim não podem gloriar-se de sua superioridade moral sobre os gentios, porque sua conversão da gentilidade para o Cristianismo, sua passagem da vida de pecado para o estado de graça foi uma dádiva, um benefício de Deus.

Ninguém pode gloriar-se de suas virtudes, pois a virtude não é possível sem a graça, e a graça não é dada em prémio das obras: a graça é dada "de graça": Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela sua extremada caridade com que nos amou, ainda QUANDO ESTÁVAMOS MORTOS PELOS PECADOS, nos DEU VIDA juntamente EM CRISTO (POR CUJA GRAÇA SOIS SALVOS) e com Êle nos ressuscitou e nos féz assentar nos Céus com Jesus Cristo, para mostrar nos séculos futuros as abundantes riquezas da sua graça, pela sua bondade sôbre nós outros em Jesus Cristo. Por que PELA GRAÇA é que SOIS SALVOS, MEDIANTE A FÉ, e isto não vem de vós, porque é UM DOM DE DEUS; não vem das nossas obras, para que ninguém se glorie (Efésios 11-4 a 9).

Uma vez recebida a graça santificante, a alma que estava morta pelo pecado torna-se uma NOVA CRIATURA, uma criação de Deus, criação maravilhosa, superior a tôda criação material, agora pode produzir frutos para a vida eterna, pois foi sobrenaturalmente criada, justamente para isto, para caminhar pela estrada das boas obras. E assim termina S. Paulo: Porque somos FEITURA DÊLE MESMO, CRIADOS em Jesus Cristo, para BOAS OBRAS que Deus preparou, para caminharmos nelas (Efésios II-10).

Deus prepara as boas obras, pois Êle pela sua Providência é quem encaminha os nossos passos: se nos faz viver em tal época e em tal localidade, conviver com estas e aquelas pessoas, das quais uma necessita de nossa ajuda material, outra nos rouba o sossêgo, outra nos faz um benefício etc, Deus assim nos vai oferecendo ocasião para a esmola, para a paciência, para a gratidão. Deus prepara as nossas obras também oferecendo-nos sempre o auxílio de sua graça, sem a qual não podemos praticá-las. Mas daí não se segue absolutamente que sejam obras exclusivas de Deus: uma vez que somos livres, e está no nosso poder fazer o mal ou fazer o bem, Deus prepara as boas obras afim de nelas caminharmos LIVREMENTE para o Céu. O Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então dará a cada uni a PAGA segundo as suas OBRAS (Mateus XVI-27). Todos os que se acham nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que OBRARAM BEM sairão para a ressurreição da vida; mas os que OBRARAM MAL sairão ressuscitados para a condenação (João V-28 e 29).

134. NA EPISTOLA AOS ROMANOS.

Também à PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O ESTADO DE GRAÇA SANTIFICANTE se refere S. Paulo no seguinte trecho: Ao que obra, não se lhe conta o jornal por graça, mas por dívida, mas ao que não obra crê nAquele que JUSTIFICA o ÍMPIO, a sua fé lhe é imputada a justiça, segundo o decreto da graça de Deus. Como também Davi declara a bem-aventurança do homem a quem Deus atribui justiça sem obras: Bem-aventurados aquêles CUJAS INIQÜIDADES FORAM PERDOADAS e cujos pecados têm sido cobertos (Romanos IV-4 a 7). S. Paulo se refere à justificação do ímpio, ou seja, ao momento em que o homem ímpio passa a tornar-se um justo diante de Deus. Isto não é conquistado pelas suas obras, mas por um DECRETO DA GRAÇA DE DEUS. Exigem-se, apenas, algumas disposições da alma que S. Paulo resume na palavra FÉ, porque a fé é a base, é o ponto de partida para aquelas disposições preparatórias. É claro, por exemplo, que Deus não vai perdoar o pecador que não está contrito e arrependido, mas êste arrependimento já deve nascer da fé; e arrependimento que não nascesse da fé, que fôsse baseado nalgum motivo natural e humano e não sobrenatural (p. ex. o ímpio se arrepende apenas porque perdeu a saúde, o dinheiro ou a liberdade) não seria suficiente para a justificação.

Mas, podem objetar os protestantes, S. Paulo aí não fala nem no Batismo que, segundo os católicos, é necessário para receber a graça santificante pela primeira vez, nem na Confissão Sacramental que, conforme o ensino da Igreja, é necessária para recuperar a graça santificante que já se perdeu. Fala somente na fé.

É fácil explicar por que S. Paulo aí não fala no Batismo, nem na Confissão. S. Paulo aí está falando no homem, seja êle qual fôr e em qualquer época, em que êle viva. A prova é- que acabara de falar em Abraão, que foi justificado quando não havia Confissão, nem Batismo; mais ainda, foi justficado antes que Deus ordenasse a circuncisão (Romanos IV-10) e daí tira S. Paulo um argumento contra os judaizantes, os quais pensavam que para haver justificação tinha que haver necessàriamente a circuncisão, não sabiam separar uma da outra.

Já foi abolida a circuncisão outrora prescrita por Deus; agora em seu lugar Cristo prescreve o Batismo. Aquêle que conhece a doutrina de Cristo, a fé o impele a receber o Batismo (João III-5) se ainda não o recebeu, ou a receber a absolvição sacramental, porque também assim o estabeleceu Cristo (João XX-23). E a própria Igreja ensina que os pagãos que nenhum conhecimento têm da Religião Cristã podem justificar-se sem o Batismo e sem a Confissão Sacramental, pois tudo isto nêles pode ser suprido pelo ato de caridade perfeita; e êste ato de puro amor a Deus ou de caridade perfeita tem que nascer da fé: Sem, fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6). A fé é sempre o PRIMEIRO PASSO para o homem que cometeu pecados (e é o assunto de que trata S. Paulo: JUSTIFICAÇÃO DO ÍMPIO) se aproximar de Deus e conseguir a regeneração.

Falando sôbre o homem, em geral, seja êle qual fôr, desde Adão até o último homem que existir sôbre a terra e não só sôbre os homens que existem agora depois de Cristo haver pregado a sua doutrina (e por isto cita o que já no seu tempo dizia o Profeta Davi), êle não podia falar no Batismo, nem na Confissão. Apresenta uma fórmula geral: a fé. A fé ditará a cada um aquilo que é necessário fazer para alcançar a justificação.

Dadas estas explicações, vamos agora apresentar o exemplo de um homem a quem Deus atribuiu JUSTIÇA SEM OBRAS, a quem Deus concedeu a justificação, não como quem paga um salário por dívida, mas por um decreto da sua graça em vista da fé nAquele que justifica o ímpio, tal qual como descreveu S. Paulo.

Êste foi o bom ladrão que morreu juntamente com Cristo no Calvário. Era um criminoso, seu passado tinha sido deplorável. Mas a graça divina toca o seu coração. Êle é iluminado pela fé: apesar de ver Cristo tão humilhado no suplício da cruz, nÊle enxerga o Rei Divino, cujo reino não é dêste mundo. Da fé nasce a esperança de alcançar a sua complacência: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino (Lucas XXIII-42). Da fé nasce a caridade, o amor a Cristo pelo qual defende o Divino Mestre contra as blasfêmias do seu companheiro, não temendo proclamar abertamente, perante os algozes, a inocência do Salvador, quando os próprios Apóstolos não tiveram coragem de vir assim proclamá-la; da fé nasce o reconhecimento de seus erros, o arrependimento sincero de todos os seus crimes: Nem ainda tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? E nós outros o estamos na verdade justamente, porque recebemos o castigo que merecem as nossas obras; mas êste nenhum mal fêz (Lucas XXIII-40 e 41). -Diante de tais disposições que havia no coração de um homem que tinha sido um ímpio, Cristo não indagou quais eram as suas boas obras passadas para lhe dar a justificação, Cristo não lhe disse que só se tornaria justo se praticasse tais e tais obras, tornou-o um justo imediatamente, fê-lo de um pecador um santo: Em verdade te digo que hoje serás comigo no paraíso (Lucas XXIII-43).

Que se conclui daí? Simplesmente que a graça santificante não nos é dada como prêmio das obras, mas como benefício de Deus, embora se exijam certas disposições para recebê-la: "Nós somos justificados gratuitamente neste sentido de que nada do que precede a justificação, nem a fé, nem as obras, podem merecer a graça da justificação" (Concílio de Trento VI-8).

Uma vez justificado, uma vez tornado um justo, o bom ladrão, se queria ir para o Céu tinha que evitar o pecado mortal, observar a lei divina; aliás o seu arrependimento, para ser sincero, teve que incluir a intenção de nunca mais roubar, de levar outra vida, de proceder como um verdadeiro discípulo de Cristo, se por acaso o livrassem daquele suplício e êle tivesse ainda mais uns dias, ou meses, ou anos de vida. A intenção das obras estava, portanto, incluída no seu arrependimento.

Mais ainda: êle teve, pelo menos, três horas de vida, pois quando o Mestre tão bondosamente lhe perdoou, era, então, quase a hora sexta (Lucas XXIII-44). A hora nona, Cristo ainda estava falando (Marcos XV-34). Ora, Cristo foi dos três crucificados o primeiro a exalar o último suspiro: Vieram, pois, os soldados e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com Ele fôra crucificado. Tendo vindo depois a Jesus, como viram que estará já morto, não Lhe quebraram as pernas (João XIX-32 e 33). Pelo menos durante três horas, o bom ladrão, ajudado pela graça, perseverou nas suas boas disposições, aceitando com resignação as suas dores, por êle mesmo consideradas bem merecidas; isto influiu na sua salvação porque, se depois de justificado por Cristo, caísse no desespêro, não poderia salvar-se. Foi precisamente prevendo na sua ciência infinita que, uma vez recebido o perdão e tornado um justo, êle passaria a agir como um justo, que Cristo lhe disse: Hoje serás comigo no paraíso (Lucas XXIII-43).

Nós, católicos, vemos algumas vêzes êstes casos especialíssimos da misericórdia divina em que um pecador se arrepende e se converte nos últimos momentos. Deus lhe dá a graça santificante e, como não há mais tempo para que êste pecador tornado justo Lhe mostre sua submissão pela observância da lei de Cristo e pelas boas obras, Deus se contenta com a intenção, em que está, de praticar os mandamentos e fazer o bem, pois Deus não é como nós que só vemos as obras, Êle conhece perfeitissimamente os mais profundos segredos dos corações.

Mas tirar daí a conclusão de que as nossas obras são inúteis para a salvação seria um grande absurdo. Bem como seria a maior das loucuras querer deixar o arrependimento para o instante final, porque muitos morrem repentinamente, sem ter tempo para arrepender-se e mesmo porque sendo o arrependimento uma graça de Deus, arrisca-se quase infalivelmente a não recebê-la, quem por malícia e cobardia, só por livrar-se de servir a Deus durante a sua vida, pretendesse deixar a conversão para os momentos finais da existência. Como diz um piedoso autor, a Escritura só fala de um caso de conversão na hora da morte, o do bom ladrão: fala de um, para jamais cairmos no desespêro; fala de um só para não nos iludirmos, caindo na temeridade. Porque a regra geral, com muitos poucas exceções, é esta: Talis vita, finis ita. Assim como é a vida do homem, assim é também o seu fim.

135. DEPOIS DA JUSTIFICAÇÃO

Já vimos, pelos textos estudados, que S. Paulo absolutamente não ensina A SALVAÇÃO SEM AS OBRAS. Ensina, sim, que quando estamos mortos pelo pecado e somos ressuscitados, recebendo a vida da graça, isto se dá não por merecimento das nossas obras e o motivo é muito claro: os mortos não podem merecer. Uma vez recebida A VIDA DA GRAÇA, se esta graça nos tornasse impecáveis, ou se Deus naquele mesmo segundo nos chamasse para a eternidade, então poderíamos dizer que a salvação era obra exclusiva de Deus, nela não influiriam as nossas obras. Mas, depois de justificados pela graça, continuamos a viver.

E continuamos homens livres, sujeitos a fraquezas, assaltados pelas tentações, combatidos pela concupiscência. Não nos falta a graça de Deus para nos ajudar, mas a graça não nos violenta a liberdade. Podemos cooperar com ela, conservando-nos na amizade de Deus, como podemos a ela ser rebeldes pelo pecado mortal; e se êste se torna muito freqüente, vem a degradação do vício que é como uma segunda natureza. Depois de recebida a graça santificante, é que a nossa alma, ramo enxertado na videira que é Cristo, pode produzir frutos para a vida eterna, mas tanto pode abundar em boas obras, como pode tornar-se infrutuosa. Está nas nossas mãos com a graça de Deus, conservar ou não o tesouro com que Deus enriqueceu a nossa alma. É esta a nossa parte, a nossa função, a influência das nossas obras, do nosso esfôrço, da nossa oração, da nossa vigilância, pela qual, sem desconhecer a ação de Deus, que é muito maior do que a nossa, nós contribuímos também para a nossa própria salvação.

Deus fêz tão bem feito o seu plano que, embora o cristão se salve a si mesmo, êle não pode de modo algum orgulhar-se de sua salvação. Só salva a si mesmo, depois que Deus o pôs em condições de fazê-lo; mais ainda, só salva a si mesmo, com a ajuda constante de Deus. E considerando a ação de Deus e a sua, na obra da salvação, vê que a ação de Deus é tão maior, tão mais eficiente, tão mais importante e persistente do que a sua, que seria ridícula qualquer tentativa de presunção. Se os protestantes gostam de pintar aquêles que acham que além da fé e da graça, as suas obras são necessárias para a salvação, como sendo criaturas inevitàvelmente presumidas, vaidosas, que se gloriam em si mesmas:

1.° é porque querem disfarçar a má impressão causada pela doutrina de que — só a fé é que salva, e nossas obras não influem nem direta nem indiretamente na salvação — doutrina esta que, tal qual como é enunciada, se mostra perigosa e indecente, não podendo, fora do Protestantismo, -convencer a ninguém;

2.º é porque não têm ou fingem não ter uma noção exata do que é a verdadeira santidade, a qual é conseguida por meio da ação maravilhosa do Espírito Santo sôbre as almas dóceis à sua graça, pois o Espírito Santo, à proporção que vai enriquecendo a alma com as mais belas virtudes, a vai tornando cada vez mais humilde, mais convicta de sua fraqueza e insuficiência;

3.° é também porque fazem uma idéia parcial e incompleta do verdadeiro mecanismo da salvação, o qual vamos tentar descrever por meio de

136. UMA ALEGORIA.

Suponhamos um homem que vive aqui na terra, sabendo, portanto, que um dia há de morrer. De vez em quando vem à sua procura o Rei dos Céus, que sempre lhe está propondo Uma ótima idéia: deixar esta terra e ir para o Céu, um lugar maravilhoso, onde se tem a vida eterna. Afinal um dia se resolve a aceitar a proposta. Quer ir para o reino deslumbrante de imensas riquezas, onde se vive eternamente a verdadeira vida, a vida bem-aventurada.

Que devo fazer para chegar até o Céu? — pergunta êle.

Bem, diz-lhe o Rei dos Céus, o Céu é lá em cima, Você não pode chegar até lá, se continua a caminhar aqui com seus pés fincados na terra. Tem que subir, tem que tomar um avião.

A emprêsa já se está tornando mais difícil. Onde hei de ir conseguir êste avião?

É muito fácil. Você dá comigo algumas passadas e um pouco mais adiante, eu lhe darei um belo avião de presente, para que Você possa subir aos Céus. Não lhe custa nada; porque êste avião eu já paguei e por muito bom preço. E há também uma coisa: Você é quem vai dirigi-lo.

Paremos aqui um pouco a nossa alegoria para explicar logo os seus símbolos. O homem que vive aqui na terra simboliza aquêle que se acha em estado dé pecado mortal. Enquanto êle está aqui na terra, isto é, enquanto está em pecado, o fim que o está aguardando é a morte que no caso representa a morte da alma, ou seja, a condenação eterna. Aquêles primeiros encontros com o Rei dos Céus simbolizam A GRAÇA ATUAL que procura iluminar, comover e atrair a alma do pecador. O dia em que se resolve a seguir a sua viagem é o dia em que se resolve a següir a Cristo para ganhar o Céu. O avião que êle deve tomar é a GRAÇA SANTIFICANTE, que o eleva a uma grandeza sobrenatural, que faz o homem subir, altear-se acima de sua própria natureza, e só assim com a graça santificante é que o homem está em marcha para o Céu; enquanto não a possui, êle está na terra, ou melhor, no lôdo, está em pecado, não está fazendo nada para a conquista da vida eterna. As poucas passadas que o homem dá até alcançar o avião representam as disposições necessárias para o homem receber a graça como são a fé, o arrependimento, a esperança etc, unidas ao Batismo, se é um adulto que o recebe, ou à absolvição sacramental, se já foi batizado em criança. Éle vai dirigir, porque desde que é livre, êle próprio é que deve encaminhar-se para o Céu. Se é uma criança que o recebe, não precisa dar passada alguma para alcançar o avião; graças ao interêsse dos pais dela, o Rei dos Céus a coloca na GRAÇA SANTIFICANTE e Éle mesmo vai dirigindo, até que um dia a criança desperte à luz da razão e nesta hora a direção lhe é confiada. Se o Rei dos Céus a chama para o seu reino antes disto: eis aí uma pessoa que alcançou o Céu sem as obras, justamente como querem os protestantes. O avião da GRAÇA SANTIFICANTE 110S é dado gratuitamente, porque já foi pago por Cristo na Cruz, o qual por sua morte redentora, mereceu para nós tôda a graça que nos é necessária para a salvação.

Mas continuemos com a nossa história.

O Rei dos Céus dá ao homem tôdas as instruções necessárias para bem conduzir-se na viagem. Avisa-o de que esta não deixará de ter as suas dificuldades. Exigirá uma vigilância contínua, muita fôrça de vontade para não afastar-se do roteiro e para enfrentar as tempestades que não faltarão pelo caminho. Mas não deve desanimar, porque o Rei dos Céus irá com êle, dando-lhe instruções durante tôda a viagem, ajudando-o em todo o seu percurso. Estará ao seu lado para atendê-lo com gôsto, sempre que necessitar de alguma coisa. Dar-lhe-á a alimentação necessária para não desfalecer em meio da sua emprêsa. Mas é preciso obedecer-lhe, do contrário pode suceder um lamentável desastre. Dadas estas explicações, levantam vôo.

O homem, a caminho do Céu, vai seguindo o seu roteiro, mas nem sempre está firme na direção. Comete algumas falhas, que fazem pequenas avarias no avião. Amedronta-se às vêzes com as tempestades, mas junto dêle está sempre o Rei dos Céus, instruindo-o, aconselhando-o, ajudando-o, fortalecendo-o. No entanto, apesar de tôda a assistência de seu guia e protetor, o homem nem sempre se porta com a firmeza e perfeição desejadas. E em dada ocasião, comete uma falta grave, porque teima em desobedecer ao seu guia e zás... o avião se desarranja e despenca daquelas alturas. Só não morre o aviador, porque o Rei dos Céus lhe fornece um PÁRA-QUEDAS. Está novamente na terra e novamente sujeito à morte. Mas está unicamente por culpa sua.

Volta assim ao princípio a nossa história: o Rei dos Céus o convida a subir outra vez. Tem que dar com êle algumas passadas e (maravilhosa bondade do Rei dos Céus!), outro belo avião é oferecido de presente, porque já foi pago por Êle na cruz, uma vez que as riquezas de sua morte redentora são infinitas. Para encurtar a história, raros são os que fazem a viagem para o Céu no primeiro avião que tomaram (a não ser as criancinhas que vão ao Céu sem o uso da razão). Muitos são os que despencam de lá de cima repetidas vêzes. O nosso herói, p. ex., já perdeu a conta das vêzes em que caiu e voltou para a terra.

Paremos mais uma vez para dar a explicação.

As instruções que dá o Rei dos Céus para a viagem são os ensinos de sua doutrina, de sua lei que nos apontam o exato roteiro para o Céu. As tempestades que aparecem no caminho são AS TENTAÇÕES que ameaçam fazer desaparecer da alma do cristão a graça santificante. O Rei dos Céus sempre ao seu lado, ajudando-o, iluminando-o, fortalecendo-o é ainda A GRAÇA ATUAL, da qual precisa o cristão constantemente, para manter-se no seu estado de união com Deus. O alimento que lhe dá o Rei dos Céus é a SANTÍSSIMA EUCARISTIA, sem a qual não tereis vida em vós (João VI-54). As pequenas avarias são os PECADOS VENIAIS. Mas a falha grave que provoca o lastimável desastre é o PECADO MORTAL, que faz desaparecer em nós a graça santificante e nos torna novamente mortos pelo pecado, fora do caminho da salvação. O pára-quedas é a MISERICÓRDIA DIVINA que dá tempo e espaço ao pecador para regenerar-se, porque Deus não quer a morte do pecador, e sim, que êle se converta e viva (Ezequiel XXXIII-11). As passadas que êle dá para conseguir novamente um meio de subir para o Céu são o exame de consciência, a contrição e a confissão pelos quais recebe outra vez a graça santificante, no Sacramento da Penitência.

Agora finalizemos a alegoria.

Afinal, depois de muitas vicissitudes, o Rei dos Céus dá por terminada a viagem.

Bem, — diz ao homem — Você trabalhou e se esforçou para chegar até aqui; também mostrou que confiava na minha palavra. Ora, acontece que aqui na casa de meu Pai há muitas moradas (João XIV-2). Aqui se tem que fazer justiça: Cada uni receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho (1.° Coríntios III-8). Nem todos aqui têm o mesmo grau de felicidade, da mesma forma que há diferença de estrêla a estrêla na claridade (1.° Coríntios XV-41). Você, portanto, vai ter o grau de felicidade que lhe cabe, de acôrdo com o tempo que passou em viagem (pois o que Você passou na terra não se conta) e de acôrdo com o grau de boa vontade, de amor, de obediência, de confiança que mostrou para comigo.

É nesta ocasião que o homem lhe diz:

— O Sr. diz que o lugar que vou ter no Céu é um prêmio pelo que fiz. Eu me acanho até de ouvir falar nisto. Que é o que fiz, em comparação com o que o Sr. fêz comigo? Como eu poderia subir até aqui, se o Sr. não me desse "de graça" aquêle avião que para mim tão generosamente adquiriu por tão alto preço? Como eu poderia chegar até o Céu, se o Sr. não estivesse sempre ao meu lado, indicando-me o caminho, ajudando-me e confortando-me a todos os instantes? Como eu poderia sair vitorioso nesta emprêsa, se tôdas as vêzes que por minha culpa fiz despedaçar-se o avião, o Sr. não me protegesse com o pára-quedas de sua misericórdia e não me desse, mais uma vez gratuitamente, outro avião para subir? O meu lugar nos Céus pode ser prêmio de meus esforços, como o Sr. diz com tanta bondade, porém mais, muitíssimo mais do que isto, deve êle ser considerado um grande benefício do Sr. para comigo.

Não é preciso mais explicar a significação do resto. É assim o prêmio do Céu. É como se a criancinha de 3 anos que escreveu a carta, com sua Mamãe a sustentar por cima a sua mãozinha, ainda recebesse um belo prêmio pela carta enviada, que de um certo modo é também obra sua. Afinal algum merecimento teve, porque não emperrou e se prontificou a colaborar.

Compreenderam agora os nossos prezados amigos protestantes? É por isto que S. Paulo, depois de dizer que o estipêndio, o salário, o preço do pecado é a morte, quando nós esperávamos que êle dissesse que, por sua vez, o prêmio, o estipêndio, a recompensa da virtude é a vida eterna, termina a frase de uma maneira imprevista; êle nos diz que a graça, o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Nosso Senhor Jesus Cristo: O estipêndio do pecado é a morte; mas A GRAÇA DE DEUS é a vida perdurável em Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos VI-23).

A vida eterna, o prêmio do Céu, que está acima da nossa natureza, é uma dádiva que Deus oferece àquele que estava submerso no pecado e que passa, pela misericórdia divina, a revestir-se da graça santificante, gozando da amizade de Deus. E já é vida eterna esta graça que habita no coração do homem, mas vida eterna que precisa ainda ser mantida pela fidelidade, pela cooperação dêste mesmo homem.

Por maior que seja a nossa cooperação, se bem considerarmos tôda a história da salvação de uma alma, desde o comêço até o fim, em última análise o prêmio do Céu é sempre um benefício de Deus, pois Éle nos ajudou em tôda a altura.

O fato de dizermos que as nossas obras influem na salvação não nos impede de considerar a salvação um dom de Deus, dom que Êle misericordiosamente oferece a todos; nem tira o valor do sacrifício oferecido por Jesus Cristo na cruz, pois daí é que nos vieram os meios, que nunca teríamos, de nos elevarmos acima de nós mesmos, afim de conquistar o Céu. Tôda a graça que os homens recebem, desde a queda de Adão até hoje, é graça de Cristo adquirida pelo seu sangue no Calvário; e por isto tôda a glória dos salvos, dos santos, dos eleitos reverte em louvor e glória do próprio Cristo, o qual se fêz para nós sabedoria e justiça e santificação e redenção (1.° Coríntios 1-30) e sem o qual nada poderíamos fazer.

E o fato de têrmos que dizer, em vista do nosso nada, da nossa insuficiência: Somos uns servos inúteis (Lucas XVII-10) não impede a Deus de nos oferecer a sua coroa de justiça: Bem está, servo Bom e FIEL; já que fôste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; ENTRA NO GÔZO DE TEU SENHOR (Mateus XXV-23).