PRIMEIRA PARTE: A SALVAÇÃO PELA FÉ

CAPÍTULO OITAVO: O EQUÍLIBRIO DA DOUTRINA SANTIFICADORA

137. OS TRÊS ELEMENTOS.

Desde o comêço dêste livro vem sendo focalizado à luz dos textos bíblicos, o problema da nossa salvação eterna e por isto vem tendo o leitor sob suas vistas muitas e muitas passagens das Sagradas Letras. Agora, se quiser sinceramente chegar a uma conclusão ditada pela VISÃO EM CONJUNTO de todos êsses ensinos da palavra de Deus, tem que concordar numa coisa: tem razão a Igreja Católica, quando ensina que a FÉ, a GRAÇA DE DEUS e as nossas OBRAS são 3 elementos indispensáveis para a nossa salvação.

A Igreja conta 20 séculos de existência e já tem lutado com heresias múltiplas e diversas; já está bem acostumada a ver como a tendência dos hereges é ter uma visão PARCIAL do assunto, dar importância a um elemento e não a outro, e assim muitas vêzes querer fazer a salvação mais fácil do que é na realidade, tendência que não é de estranhar naqueles que querem interpretar a seu modo os ensinamentos do Evangelho.

A FÉ

138. NECESSIDADE DA FÉ.

A fé é necessária, como se vê por todos aquêles textos em que Jesus nos mostra que quem crê nÊle se salva, quem não crê se condena.

Jesus não é apenas um filósofo que nos tenha vindo ensinar a sua doutrina sublime. É muito mais do que isto: é o próprio Filho de Deus, igual ao Pai; nenhuma de suas palavras pode ser rejeitada, nem torcida no seu sentido, nem relegada ao esquecimento. Por isto erram aquêles que, como os espiritistas em geral, dão muito realce à doutrina de caridade e de amor ao próximo que Jesus nos apresenta (no que fazem muito bem), mas não dão nenhuma importância à fé, começando logo por negar a divindade de Cristo (no que fazem muito mal). Nisto há um contra-senso, porque a fé é a base de tôda a virtude cristã, e o amor do próximo que não nasce da verdadeira fé, pode chamar-se filantropia, mas não é a verdadeira caridade.

E nesta luta contra as heresias é interessante observar que até aos próprios protestantes que falam tanto em fé e que pretendem resumir só na fé a nossa contribuição para a salvação eterna, a êles próprios, nós, católicos, somos obrigados a lembrar: que A FÉ É NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO. Porque os protestantes adulteraram a noção de fé: fazem dela apenas uma convicção cega de que já estão salvos pela morte de Cristo, quando, como provámos, a fé é aceitar tôda a doutrina do Mestre. Diante das inúmeras divergências (e sôbre pontos da maior importância) que há no Protestantismo, se chega à conclusão de que entre os "evangélicos" a fé não consiste em aceitar a doutrina de Jesus; consiste em DISCUTIR sôbre esta doutrina, como se discute sôbre questões de história, filosofia ou literatura. E, enquanto a Igreja Verdadeira de Jesus Cristo é quem ensina aos seus adeptos a legítima doutrina, pois tem autoridade para isto, uma vez que é a coluna e firmamento da verdade (1.° Timóteo III-15), no Protestantismo, desde o princípio, tem sido o contrário: são os fiéis que ensinam a doutrina às Igrejas, pois são os adeptos mais atilados, mais sabichões que discordam de suas comunidades e vão fundando outras Igrejas, às quais passam a indicar o que elas devem crer. E assim sucessivamente. Por isto é que as seitas são tão numerosas e tão variadas.

139. A CRENÇA VEM DO CORAÇÃO.

Mas dirão os protestantes:

– O Sr. está enganado. Há, de fato, divergências entre nós. Mas não negamos que se deve CRER em tudo o que Jesus ensinou e a prova é que vivemos a citar as palavras da Bíblia. Apenas ensinamos que a fé que salva não é mera credulidade. Não é um ato da inteligência, porque, se fôsse assim, seriam os sábios, seriam os mais inteligentes que mais poderiam ter fé. A fé que salva é aquela que parte do âmago do nosso coração. É a CONFIANÇA em nosso Salvador Jesus Cristo e no seu Sacrifício Redentor.

– Eis aí precisamente o êrro de Vocês. Querem salientar, como condição para nos salvarmos, o papel da CONFIANÇA que é apenas uma conseqüência da nossa FÉ, no sentido de CRENÇA, e procuram obscurecer, relegar para um plano secundário o valor desta mesma CRENÇA. Por isto Vocês se esforçam por desfigurá-la primeiro, para poder desprezá-la.

Quem lhes disse que a nossa CRENÇA em Jesus Cristo, na Bíblia e nos seus ensinos é MERA CREDULIDADE? Credulidade é acreditar numa coisa sem o mínimo fundamento, é dar alguém crédito a uma afirmativa, por ingenuidade, por ser tolo demais. A nossa crença em Deus, em Jesus, no seu Evangelho não é desta natureza, e sim baseada nos mais sólidos argumentos capazes de convencer a razão mais exigente. Crer na veracidade dos Evangelhos não é mera credulidade, é crer num fato que nos é provado com todo o rigor de uma demonstração histórica.

Daí, porém, não se segue que a fé seja um ato puramente da inteligência: tanto pode ter uma FÉ PROFUNDA o mais sábio, o mais erudito dos teólogos, como o mais rude camponês. E são precisamente os simples, os rudes e os pequeninos que se mostram mais esclarecidos na FÉ, do que os sabichões, do que os intelectuais, o que não impede que êstes possam ter também a sua crença: Graças te dou, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as REVELASTE AOS PEQUENINOS. Sim, Padre, porque assim foi do teu agrado (Lucas X-21).

Não é pelo simples fato de se empregar, por vêzes, uma palavra mais difícil, de se chamar a FÉ = CRENÇA no conceito dos católicos com o nome de FÉ INTELECTUAL, e a FÉ = CONFIANÇA no conceito dos protestantes com o nome de FÉ FIDUCIAL, que a CRENÇA se torna um ato só para intelectuais.

A fé é um, ato da inteligência que ACREDITA na palavra de Deus, sendo movida pela VONTADE que se dispõe a crer, e ajudada desde o início pela GRAÇA DIVINA.

Se ela também procede da vontade, é porque tem as suas raízes profundas no coração humano.

Diante de textos como êste: O que crê no Filho tem a vida eterna (João III-36) e alguns outros, os protestantes ainda poderão teimar, querendo fazer prevalecer a sua hipótese sem fundamento, de que aí não se trata de CRENÇA e sim de uma cega CONFIANÇA.

Mas nada melhor para compreender um texto da Escritura do que compará-lo com outro.

E podemos apresentar-lhes um texto que não só prova que a fé que encaminha o homem para a salvação é a CRENÇA (sendo, portanto, a confiança já uma conseqüência desta crença, pois da fé nasce a esperança), mas também que esta crença procede do CORAÇÃO humano, onde tem as suas raízes: Se confessares com a tua bôca ao Senhor Jesus e CRERES NO TEU CORAÇÃO que Deus O ressuscitou dentre os mortos, SERÁS SALVO. Porque com o CORAÇÃO SE CRÊ para alcançar a justiça; mas com a bôca se faz a confissão para conseguir a salvação (Romanos X-9 e 10).

Primeiro que tudo, ninguém pode daí deduzir que basta crer que Jesus ressuscitou dentre os mortos para só por isto ser salvo. Neste caso cairia também tôda a doutrina, tanto católica, como protestante, de que é preciso crer que Jesus é o nosso Salvador. Mas é êste o sistema da Bíblia: ensina-nos a verdade parceladamente, pedacinho por pedacinho. S. Paulo não vai aí nesta simples frase expor minuciosamente todos os artigos de fé; seria escrever um livro e não uma frase. Apresentar dez ou vinte artigos, mas no final das contas, não apresentá-los todos, seria pior ainda do que apresentar um só. Por isto tomou como exemplo a Ressurreição, que é um ponto básico para a DEMONSTRAÇÃO de tôdas as outras verdades da fé: Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé (1.° Coríntios XV-17). S. Paulo, é claro, não podia fazer uma redução naquilo que devemos crer, quando o mesmo Cristo que disse aos Apóstolos, no dia em que os enviou a pregar: Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes... ensinando-as a observar TÔDAS AS coisaS que vos tenho mandado (Mateus XXVIII-19 e 20), disse-lhes também: Pregai o Evangelho a tôda a criatura. O que crer e fôr batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-15 e 16).

Esclarecido isto, para que os protestantes não queiram tirar daí conclusões absurdas, como FAZEM MUITOS, o que se deduz claramente da frase é que a fé salvadora é a crença, e a crença nasce no nosso coração.

Também aos discípulos de Emaús que não ACREDITAVAM que Cristo havia ressuscitado, Nosso Senhor lhes diz: Ó estultos e TARDOS DE CORAÇÃO para CRER tudo o que anunciaram os profetas! (Lucas XXIV-25). Tratava-se de DAR CRÉDITO às profecias e ficar certos da ressurreição do Mestre; mas o coração dêles era duro e ronceiro demais para chegarem até a convicção de que Jesus havia de fato ressuscitado.

E a prova de que a fé se processa na inteligência, mas nasce do coração, nós a temos nos judeus do tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo: mesmo depois de tantos milagres, depois da própria ressurreição do Mestre, NÃO ACREDITARAM. É que o seu coração estava endurecido e cheio de maldade.

Não faltam hereges nos dias de hoje que, apesar de se dizerem cristãos, ainda mesmo que tivessem presenciado, se fôra possível, todos os milagres de Lurdes e de Fátima, verificados desde o princípio até os nossos dias, mesmo assim NÃO -ACREDITARIAM na Igreja Católica, tal é o ódio, a má vontade, a obstinação, a teimosia que anda lá pelo seu coração.

O que é fato, portanto, é que o ponto de partida para a salvação é o ato pelo qual o homem se dispõe, com a graça de Deus, a ACREDITAR tudo o que o Divino Mestre ensinou e que Éle depois encarregou a sua Igreja de transmitir a todos os povos.

140. COMO É PERIGOSO MENOSPREZAR A CRENÇA!

Mas os protestantes, pondo a CRENÇA em segundo plano e reduzindo a fé salvadora apenas à CONFIANÇA de que Jesus nos salva, chegam a uma incrível situação de balbúrdia e de anarquia.

Mesmo quando torcem miseràvelmente, ridiculamente os mais claros textos da Bíblia, já não sentem remorso de injuriar assim a palavra de Deus; acham que não perdem com isto o direito à recompensa do Céu: êles têm a confiança de que se salvam, e é quanto basta...

Além disto, são muitos os protestantes que se mostram ou fingem mostrar-se satisfeitos com esta confusão tremenda de doutrinas, as mais diversas, que se nota no seio da Reforma e que dizem que assim mesmo é que está certo: a palavra de Deus deve ser sujeita à discussão e cada um se manifesta sôbre ela de acôrdo com o seu modo de ver pessoal.

Na América do Norte e na velha Europa, onde a árvore do Protestantismo já amadureceu bastante para produzir os seus verdadeiros frutos, são muitos os protestantes que foram progredindo de negação em negação, até rejeitarem não só a divindade, mas até a infalibilidade do próprio Cristo e a divina autoridade das Escrituras. Com a Bíblia na mão, mas ao mesmo tempo depositando na razão humana uma confiança ilimitada no interpretá-la, o Protestantismo leva naturalmente ao Racionalismo.

Tudo isto tem sido resultado dêste êrro de falsear a noção de fé salvadora.

Não é isto o que quer o Divino Mestre; quer que os homens se santifiquem, mas se santifiquem NA VERDADE, só podendo haver verdade, onde existe a unidade da fé: SANTIFICA-OS NA VERDADE. A tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E eu me santifico a mim mesmo por êles, para que também êles sejam SANTIFICADOS NA VERDADE. E eu não rogo somente por êles, mas rogo também por aquêles que hão de crer em mim por meio da sua palavra; para que ÊLES SEJAM TODOS UM, como tu, Pai, o és em mim e eu em ti (João XVII-17 a 21).

E é aí que nós percebemos claramente a legitimidade, a firmeza da Igreja, sempre zelosa e intransigente em conservar o DEPÓSITO (2.° Timóteo 1-14) da fé, guiada nisto pelo Divino Espírito Santo, mostrando-se inabalável em sustentar tôdas as verdades, todos os dogmas que ela vem ensinando desde o tempo dos Apóstolos e sem admitir os quais não pode haver salvação.

A GRAÇA

141. NECESSIDADE DA GRAÇA.

Firmada em vários textos bíblicos, os quais podem resumir-se nesta palavra de Jesus: Sem mim não podeis fazer nada (João XV-5), a Igreja nos ensina a necessidade da GRAÇA para a salvação. Necessidade absoluta, porque ninguém pode entrar no Céu sem a graça santificante; é preciso possuir a VIDA sobrenatural da GRAÇA, para entrar na VIDA sobrenatural da GLÓRIA CELESTE. E para praticar a virtude, é necessária a ajuda constante da GRAÇA ATUAL, a qual Deus sempre nos oferece, porque quer salvar a todos.

A ninguém, que esteja de boa fé, é negada a possibilidade de conseguir a graça santificante: embora sejam os sacramentos do Batismo e da Penitência os meios ordinários para adquiri-la ou recuperá-la, até os próprios pagãos que nunca tiveram conhecimento de Cristo, dela podem ser revestidos, desde que, crendo em Deus Remunerador, tenham também as disposições necessárias para recebê-la. E para conseguirem ou conservarem esta GRAÇA SANTIFICANTE, Deus lhes dá também A GRAÇA ATUAL suficiente, pois Deus quer a salvação de todos, de ninguém exigindo o que é impossível. Não há, portanto, no ensino da Igreja, nenhum vestígio da revoltante doutrina de que Deus predestina certas almas para o inferno, doutrina esta que é ensinada por muitos protestantes.

E sôbre êste assunto da influência da graça na salvação, nós, católicos, que contra os protestantes sustentamos a necessidade da fé, no legítimo sentido da palavra, nós que sustentamos a necessidade das nossas obras, que uns têm negado de fato e abertamente, e outros apenas fingem negar, nós temos ainda que defender contra MUITOS PROTESTANTES a necessidade da graça, que, antes de tudo, é um DOM SOBRENATURAL. Já dissemos que, no 5.° século, a Igreja teve que condenar a heresia dos pelagianos, os quais afirmavam poder o homem salvar-se por suas próprias fôrças naturais, sem o auxílio sobrenatural da graça. Pois bem, muitos protestantes, indo ao extremo oposto com relação aos demais, têm renovado lamentàvelmente o êrro de Pelágio. São os Socinianos, Unitários e Protestantes Liberais que usam êste nome GRAÇA, mas adulteram de tal forma a sua noção, que na realidade a negam por completo. São protestantes que negam a divindade de Cristo, considerando-O como um simples homem. Para êles a graça consiste apenas em Cristo nos instruir com sua doutrina sublime e nos confortar com seu maravilhoso exemplo. Dêste modo, na doutrina dêles, a graça deixa de ser um dom sobrenatural, uma fôrça interior, para ser apenas um estímulo externo que tanto vem de Cristo como poderia vir de outro homem qualquer que nos ensinasse uma bela doutrina e nos edificasse com um notável exemplo de virtude.

Quantos estragos tem feito o livre exame na doutrina do Evangelho!

AS OBRAS

142. A FÉ SEM AS OBRAS É MORTA.

A necessidade das nossas obras para a salvação é tão lógica e tão evidente, que os próprios protestantes tiveram que retroceder neste ponto. A doutrina de salvação só pela fé, que pregaram os Primeiros Reformadores, era tão perigosa e subversiva, que para cristãos logo se mostrou insustentável. Aquilo já não era Cristianismo, era a confiança cega de que Jesus tudo perdoa conduzindo lógicamente o homem ao mais desenfreado materialismo.

Quando viram os protestantes a devastação tremenda que essas idéias produziam no seio do povo, com a propaganda do desprêzo pelas boas obras como meio para obter a salvação, perceberam claramente que não era possível prosseguir com tais ensinos.

Mas tôda a sua tática tem consistido em recuar até à doutrina católica nesta matéria, mas recuar conservando mais ou menos a mesma linguagem que usavam antigamente, recuar sem querer que se, perceba que estão recuando.

Já vimos que a antiga fórmula: só A FÉ é necessária para a salvação foi substituída pela outra: só A F- E O ARREPENDIMENTO São necessários para a salvação.

Entrando neste terreno, exigindo agora o arrependimento como indispensável para a conquista da vida eterna, entraram na doutrina católica da necessidade das obras para a salvação. Já tivemos ocasião de demonstrá-lo (n.Q 54).

Quaisquer fórmulas que inventem dentro dêste novo sistema, por mais manhosas que elas sejam, mostram desde logo, depois de um pouco de reflexão, que são fórmulas católicas disfarçadas com a máscara de protestantes. Exigir ARREPENDIMENTO é exigir as OBRAS para a salvação; não há para onde correr.

Vejamos, por exemplo, êste modo de argumentar:

— Os católicos afirmam que o homem se salva pela FÉ COM AS OBRAS, ajudado pela GRAÇA DE DEUS. Nós, protestantes, achamos que esta doutrina está errada. O que salva o homem é só a fé, e não as obras. O que acontece é que a fé é manifestada pelas OBRAS. Aquêle que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ, Portanto, é só a fé que salva.

— Ouçam, caros amigos. Dois indivíduos estavam discutindo: um dêles possuía um automóvel e garantia que o seu carro podia andar sem gasolina. O outro apostava que não. Mas acontece que, aproveitando um descuido de seu antagonista, o primeiro colocou a gasolina no seu automóvel e o fêz andar. Ganhou a aposta? Provou que tinha razão? Absolutamente não; porque o outro, como é natural, podia muito bem proceder à verificação no automóvel e, certificando-se de que êste agora estava com GASOLINA, podia muito bem desmascarar o seu opositor.

É o que se dá entre nós.

Como começou o Protestantismo? Afirmando que a FÉ salva sem as obras e dizendo que esta fé consiste apenas em ACEITAR A JESUS COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL. É a confiança de que Jesus nos salva, isto independentemente de obras, de arrependimento da nossa parte.

Já fizemos a refutação desta doutrina. Mostrámos com muitos textos da Bíblia (n.º 65 a 69) que esta noção de fé não é exata, que fé é ACREDITAR nas verdades eternas, ACREDITAR na palavra de Deus. Fizemos ver que esta fé é o PONTO DE PARTIDA para a salvação, porque a aceitação da doutrina de Jesus inclui necessàriamente a aceitação de SUA MORAL, o reconhecimento dos DEVERES impostos por Cristo e que, portanto, a fé que salva é a fé coerente, a fé que não entra em contradição com as obras, a fé que não está morta, mas OPERA PELA CARIDADE (Gálatas V-6), sendo a caridade o amor de Deus sôbre tôdas as coisas e amor ao próximo como a nós mesmos. Mostrámos que se trata de uma promessa de vida eterna, e se Deus promete o Céu àquele que tem fé, é esta mesma fé que o leva a aceitar na própria Bíblia AS CONDIÇÕES em que esta promessa será cumprida (n.° 80 a 84): sem praticar a virtude, sem observar os mandamentos, sem receber os sacramentos que Cristo instituiu para nossa salvação, esta não pode ser alcançada.

Em todo êste sistema de argumentação, estávamos considerando a FÉ como uma virtude especial, distinta das demais virtudes, como distinta das nossas obras, do nosso modo de proceder. Acaso estávamos errados em considerá-la assim? Não é a própria Bíblia que distingue a fé das outras virtudes, quando nos diz: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém a maior delas é a caridade (1.ª Coríntios XIII-13)? Não é o próprio S. Paulo que nos diz: Se tiver tôda a fé, até o ponto de transportar montes E NÃO TIVER CARIDADE, não sou nada (1.ª Coríntios XIII-2)? Não é a própria Bíblia que nos diz que também os demônios CRÊEM (Tiago II-19)?

É, portanto, neste sentido, considerando a fé como uma virtude distinta das outras, que nós dizemos que a fé sõzinha não pode salvar, ela não salva sem as obras, as quais também são necessárias; e dizemos isto, apoiados no ensino claríssimo da Bíblia: Não vêdes como PELAS OBRAS É JUSTIFICADO O HOMEM, E NÃO PELA FÉ SÓMENTE ? (Tiago 11-24). Aqui não há meio de subterfúgio: S. Tiago não diz que o homem é salvo pela fé, mas esta fé só se pode conhecer nas obras etc, etc, como Vocês estão dizendo; mas que o homem é salvo PELAS OBRAS, e não somente pela fé.

Ora, que acontece com quem quer discutir e argumentar com CLAREZA E COM LEALDADE, porque quer realmente defender a VERDADE ou chegar ao conhecimento dela? Quem é sincero na argumentação procura, antes de tudo, explicar, de modo que não deixe margem para nenhuma dúvida, em que sentido está tomando as palavras que emprega na sua exposição. A questão é sôbre A FÉ, não é assim? A obrigação de quem vai sustentar uma tese sôbre a fé, é dizer bem claramente o que é que entende por esta palavra FÉ.

Ora, quando perguntamos a Vocês o que é que entendem por FÉ, Vocês recorrem àquele velho conceito dos primeiros tempos do Protestantismo: FÉ É ACEITAR A JESUS CRISTO COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL.

Agora perguntamos: a fé tomada neste sentido ESTÁ INCLUINDO A OBEDIÊNCIA À LEI DE DEUS? ESTÁ INCLUINDO AS BOAS OBRAS, OS ATOS DAS DEMAIS VIRTUDES?

Não, não está. A fé aí está reduzida apenas à confiança que tenho em que Jesus me salva.

Esta definição não exclui o pecado. A prova é que de acôrdo com esta noção de fé os Primeiros Reformadores ensinavam que o pecador se salva SEM ARREPENDIMENTO. "Sê pecador e peca fortemente, mas confia e rejubila-te mais fortemente ainda no Cristo vencedor do pecado, da morte e do mundo", dizia Lutero na sua carta a Melanchton, em 1521, êste mesmo Lutero que dizia que "a contrição que se prepara pelo exame e recapitulação e detestação dos pecados, pelos quais alguém relembra os seus anos na amargura de sua alma, ponderando a gravidade, multidão e fealdade dos pecados, a perda da eterna felicidade e aquisição da condenação eterna, ESTA CONTRIÇÃO FAZ HIPÓCRITA O HOMEM E ATÉ MAIS PECADOR" (Lutero. Edição Weimar VII-13).

Esta definição de maneira alguma supõe que a fé se manifesta pelas obras. Pois, em que sentido se toma aí a expressão: Jesus é o nosso Único e Suficiente Salvador? Não no reto sentido de que o resgate foi feito por Jesus e só Êle o podia fazer, e o fêz da maneira mais completa e satisfatória para nos alcançar e merecer a graça. Mas é empregada maliciosamente no sentido de que, tendo Cristo feito tudo por nós, o homem não precisa fazer mais nada; não lhe resta, portanto, salvar-se a si mesmo pela prática da virtude, pois só Cristo é quem nos salva sem a nossa cooperação. Ou, em outros têrmos, a cooperação do homem consiste apenas em CONFIAR. Confiando, a salvação lhe é dada de graça.

Seria, por conseguinte, um contra-senso, uma verdadeira contradição, que o homem, afim de DEMONSTRAR que Cristo é o seu Único e Suficiente Salvador, neste mau sentido da expressão, tivesse agora que esforçar-se, obedecendo à lei divina, praticando atos de virtude etc. Assim estaria procurando salvar-se a si mesmo, para demonstrar que não se salva a si mesmo, que Jesus é o seu Único e Suficiente Salvador.

Agora acontece que, enquanto Vocês, protestantes, continuam a sustentar esta mesma definição — Crer é aceitar a Jesus como nosso único e Suficiente Salvador, como nosso Salvador Pessoal — quando a gente menos espera, surgem Vocês mesmos dizendo que a fé se manifesta pelas OBRAS, que aquêle que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ.

Isto quer dizer que de repente passaram a tomar a palavra FÉ noutro sentido bem diferente. Fazem como o homem que às escondidas meteu a gasolina no automóvel.

Bem, fé neste sentido de que todo aquêle que peca está mostrando que não tem fé, quer dizer ADESÃO TOTAL A CRISTO, COM A INTEIRA OBEDIÊNCIA A TUDO QUANTO CRISTO ENSINOU. É não só na nossa mente, mas também no nosso modo de agir, a aceitação de Cristo, não só como Salvador, mas também como nosso Mestre, nosso Legislador e como o Rei que domina tôda a nossa vida.

Se é neste sentido que Vocês querem tomar a palavra FÉ, então nós, católicos, não temos nenhum receio ou dúvida em dizer que BASTA A FÉ para a salvação, porque NÃO BRIGAMOS POR MERAS QUESTÕES DE PALAVRAS; o que nos interessa são as realidades da vida cristã. Mas há uma coisa: aí já não se trata de FÉ SEM AS OBRAS, trata-se de FÉ COM AS OBRAS, porque as obras já estão incluídas neste conceito de fé. Trata-se de fé COM A OBSERVÂNCIA DOS MANDAMENTOS DE CRISTO.

Fica, sempre, de pé que a fé sem as obras não salva, porque a fé sem as obras é morta (Tiago II-26).

143. A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS.

Dirão, porém, os protestantes:

Não nos revoltamos contra os católicos, quando dizem que o homem não pode salvar-se sem obedecer aos mandamentos de Cristo, que o são também de Deus. Não concordamos é com o dizerem que a salvação DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS. Ora, isto é o mesmo que dizer que nós nos salvamos a nós mesmos, quando nosso Único Salvador é Jesus Cristo.

Dizemos que a salvação depende das nossas obras. E onde está o êrro ou a heresia desta afirmação? Não estamos afirmando com isto que ela depende SÓMENTE de nossas obras, mas sim que ela depende TAMBÉM de nossas obras. Sabemos muito bem que sem a graça de Cristo não nos podemos salvar, mas a graça de Cristo não nos salva sem a nossa cooperação. A salvação depende de uma coisa e de outra.

Tôda a repugnância de Vocês em aceitar esta idéia baseava-se principalmente naqueles dois textos de S. Paulo: O homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28) e no outro da Epístola aos Efésios: Pela graça é que sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, porque é um dom de Deus, não vem das nossas obras (Efésios 11-8 e 9). Já explicámos convenientemente êstes textos (capítulo 6.° e n.° 133). Desde que Vocês agora sabem que o primeiro exprime apenas que para nos salvar, não estamos mais obrigados a obedecer à lei de Moisés, como' estavam os judeus antes de Cristo; e o segundo, que a graça da conversão ao Cristianismo, que foi a chave da salvação, não foi concedida por causa de obras que tivessem sido feitas anteriormente a ela, não há mais motivo para tanta repugnância a esta proposição: A SALVAÇÃO DEPENDE TAMBÉM DAS NOSSAS OBRAS.

Quando um homem perguntou a Nosso Senhor o que devia fazer para obter a vida eterna, que foi que o Senhor lhe respondeu? Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). Eis aí claramente a Salvação DEPENDENDO DAS OBRAS.

Quando Nosso Senhor diz: Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo, PORQUE tive fome e destes-me de comer etc, etc. Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... PORQUE tive fome e não me destes de comer etc, etc. (Mateus XXV-34 e 35, 41 e 42) que está dizendo Nosso Senhor, senão que a salvação ou a condenação DEPENDEM da nossa caridade ou falta de caridade?

Quando Nosso Senhor diz: Pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado (Mateus XII-37), que nos está dizendo, senão que tenhamos cuidado com as nossas palavras, porque do nosso modo de falar DEPENDE a nossa salvação ou a nossa condenação?

Não nos podemos salvar sem o perdão, a misericórdia, a benignidade de Deus. Quando Nosso Senhor diz: Perdoai e sereis perdoados (Lucas VI-37), bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (Mateus V-7), não julgueis e não sereis julgados (Lucas VI-37), que nos está ensinando senão que do nosso perdão e benignidade para com o próximo DÉPENDE a misericórdia com que o Senhor nos há de julgar?

É a própria Bíblia, Palavra de Deus Eterna e Infalível, portanto, a nos ensinar que a salvação TAMBÉM DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS.

Quanto à expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO, pode ser errônea ou pode ser admissível, de acôrdo com o sentido em que seja ela empregada. Se dizemos que o homem salva a si mesmo, no sentido de que êle o faz sõzinho, por seu próprio esfôrço e boa vontade, independentemente da graça de Deus, que Cristo nos mereceu na cruz, seria um êrro já desde o comêço condenado pela Igreja: o pelagianismo.

Mas o próprio Protestantismo reconhece que existe, na nossa salvação, a parte de Deus e a nossa. Temos que cooperar com a graça, sem isto não nos salvamos, pois Cristo não nos salva violentando a nossa liberdade, nós cooperamos livremente. Se cooperamos com a graça, estamos salvando a nós mesmos. Se não cooperamos, é a nós mesmos que estamos condenando, a condenação será por nossa culpa.

Mas o protestante só se convence, se ler na Bíblia empregada esta expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO. Neste caso leia o trecho da 1.º Epístola de S. Paulo a Timóteo: OLHA POR TI e pela instrução dos outros, PERSEVERA nestas coisas, porque, fazendo isto, TE SALVARÁS tanto A TI MESMO, como aos que te ouvem (1.ª Timóteo IV-16).

É inútil querer iludir os mais rudes, apelando para o texto grego, porque aí é o verbo sózo, o mesmo verbo grego que S. Paulo emprega, quando diz que Jesus pode SALVAR perpètuamente aquêles que por Ele mesmo se chegam a Deus (Hebreus VII-25), que se lê nas palavras do Anjo, quando anunciou a Maria, referindo-se a Jesus: Ele SALVARÁ o seu povo dos pecados dêles (Mateus I-21) ou, se não quisermos sair desta mesma 1.° Epístola a Timóteo, é o mesmo que o Apóstolo das Gentes empregou no 1.º capítulo: Jesus Cristo veio a êste inundo para SALVAR os pecadores, dos quais o primeiro sou eu (1.° Timóteo 1-15). É o verbo empregado freqüentemente no Novo Testamento para exprimir a salvação eterna.

Se quisermos outro exemplo do mesmo Apóstolo S. Paulo, vejamos êste: OBRAI A VOSSA salvação com receio e com tremor (Filipenses II -12). Ferreira de Almeida diz, num português mais moderno: OPERAI a vossa salvação com temor e tremor (Filipenses 11-12). E a versão da Sociedade Bíblica do Brasil: EFETUAI a vossa salvação com temor e tremor (Filipenses II-12).

Outra vez dizemos: Não adianta querer impressionar os incautos com despropositadas alusões ao texto grego, porque na frase OBRAI a vossa salvação, o verbo OBRAR corresponde ao verbo grego: KATERGÁZOMAI.

Vejamos o dicionário de Bailly:

KATERGÁZOMAI = executar, efetuar, cumprir, acabar, procurar para si, obter, elaborar, trabalhar.

Ainda mesmo que se quisesse escolher a significação ACABAR, não se alteraria o sentido: cabe-nos ACABAR a obra que Deus começou, mas que Êle não quer realizar sem nós. O fato de S. Paulo referir-se logo em seguida à ação de Deus na salvação de nossa alma: Deus é o que obra em vós o querer e o perfazer, segundo o seu beneplácito (Filipenses 11-13) não exclui a nossa parte no obter a salvação, exprime apenas que nada podemos querer, nada podemos fazer sem o auxílio, a moção de Deus, a nossa ação é entrelaçada com a ação divina.

Nas seguintes frases: eu não aprovo o que FAço (Romanos VII-15) o querer o bem eu o acho em mim, mas não acho o meio de o FAZER perfeitamente (Romanos VII-18) a ira do homem não CUMPRE a justiça de Deus (Tiago 1-20) o que aqui é para nós duma tribulação momentânea e ligeira, PRODUZ em nós... um pêso eterno de glória (2.° Coríntios IV-17), os verbos FAZER, CUMPRIR e PRODUZIR correspondem no grego ao mesmo verbo KATERGÁZOMAI.

Os dois textos, em que vemos expressa na Bíblia a idéia de que Jesus é o -ÚNICO SALVADOR, não excluem absolutamente a outra idéia de que, uma vez recebidos de Cristo os meios INDISPENSÁVEIS para a salvação e suposto que sem Cristo a salvação não pode ser realizada, o homem, como criatura livre que é, tenha, por sua vez, que salvar-se a si mesmo.

Para usarmos uma comparação: o náufrago que só encontrou UM HOMEM capaz de lhe fornecer embarcação e bússola e mantimentos, tem neste homem o seu único Salvador, embora precise salvar-se a si mesmo, guiando a embarcação para chegar em terra.

Um dos textos é o dos Atos: Não há salvação em nenhum outro, PORQUE do céu abaixo NENHUM OUTRO NOME FOI DADO aos homens PELO QUAL nós devamos ser salvos (Atos IV-12). O homem que foi batizado em nome de Jesus, que recebeu o perdão de seus pecados em nome de Jesus, e que em nome de Jesus vai recebendo a graça, isto é, em virtude dos merecimentos infinitos do Redentor, uma vez que o Batismo, o perdão dos pecados e a graça são necessários para a salvação, é claro que é em nome de Jesus que está sendo salvo. Mas isto não impede que êle, para salvar-se, TENHA QUE CUMPRIR com os mandamentos (e os cumpre livremente, portanto tem que salvar-se a si mesmo) e só os pode cumprir, ajudado pela graça de Jesus. Até mesmo, portanto, quando está cooperando com a graça, a sua salvação está sendo realizada com Jesus, por meio de Jesus, e, portanto, em nome de Jesus e não em seu próprio nome.

O segundo texto é o de S. Paulo a Timóteo: Só HÁ UM MEDIADOR entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem (1.° Timóteo 11-5). Dizendo que o homem salva a si mesmo, neste sentido de que tem que cooperar livremente com a graça NAS SUAS AÇÕES, NO SEU MODO DE PROCEDER, não se está negando absolutamente que Jesus Cristo foi o Único Mediador que reconciliou os homens com Deus e que nos alcançou a graça, sem a qual ninguém pode salvar-se.

144. A GRATUIDADE DA SALVAÇÃO.

Outro ponto, em que os protestantes ensinam uma doutrina católica, porém disfarçada com a máscara protestante, é a gratuidade da nossa salvação.

Os Primeiros Reformadores ensinavam que A SALVAÇÃO É DADA DE GRAÇA, neste sentido de que o HOMEM NÃO PRECISA OBSERVAR OS MANDAMENTOS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO. Diziam êles que esta observância dos mandamentos é impossível ao homem. Êle se salva pela confiança de que Jesus perdoa os seus pecados.

A Igreja Católica não pode admitir que a salvação seja dada DE GRAÇA neste sentido. Isto é uma doutrina escandalosa, de péssimas conseqüências e que destrói a lei de Deus.

Que a salvação do homem seja dada gratuitamente no sentido de que o perdão de seus pecados, a sua justificação no ponto inicial, isto é, a sua passagem do estado de pecador afastado de Deus para o estado de justo com a graça santificante, seja dada ao homem gratuitamente por pura benevolência de Deus, porque o homem nunca poderia merecer êste DOM SOBRENATURAL, isto admitimos. Mas que a salvação seja dada DISPENSANDO o homem de obedecer a Deus pelas suas obras, isto é que não.

Verificado o seu êrro, compreendendo agora que o homem não pode salvar-se SEM A OBSERVÂNCIA DOS MANDAMENTOS DE CRISTO e querendo ainda continuar pregando, como pregavam antigamente, que a salvação é dada TÔDA DE GRAÇA, que fazem os protestantes? Um arranjo contraditório.

O Artigo 4.° da Confissão de Fé dos Batistas em New Hampshire (1833) diz:

"Cremos que A SALVAÇÃO de pecadores - INTEIRAMENTE DE GRAÇA." E o Artigo 6.o:

"Cremos que a salvação é concedida GRATUITAMENTE a todos, segundo o Evangelho; que é o dever imediato de todos ACEITÁ-LA por meio de uma FÉ sincera, ardente e OBEDIENTE".

Vejamos uma história, para melhor apreciarmos a ironia e desconchavo desta explicação:

Um homem tinha mil palácios abarrotados de riquezas e tinha mil vizinhos

Disse a êles: Tenho riquezas fabulosas que chegam para Vocês todos. Cada um de Vocês vai ter um palácio riquíssimo. E vou dar, a todos e a cada um, êste palácio INTEIRAMENTE DE GRAÇA. Vocês aceitam?

- Aceitamos, sim, respondem todos. Isto é uma verdadeira maravilha. Quem é que não aceita uma pechincha destas? Um palácio cheio de riquezas e dado inteiramente de graça!

- Pois bem, meus amigos, diz o homem riquíssimo. Já que Vocês todos estão dispostos a aceitar a minha oferta, tenho que explicar uma coisa; tenho que ensinar-lhes qual é o modo de ACEITÁ-LA. Aceitar não é só abrir a bôca e dizer: Aceitamos. Para aceitar o palácio, Vocês têm que ser sempre SUBMISSOS, OBEDIENTES à minha vontade por todo o resto da vida, só fazer e dizer o que eu mandar, mesmo que isto lhes custe sacrifícios. Se não fazem assim, perdem o direito ao palácio.

Qual é o comentário que naturalmente farão aquêles homens?

- Sim, o Sr. tem todo o direito. Pode dar o palácio sob as condições que quiser. Mas há uma coisa: se o Sr. exige, em troca do palácio, esta total obediência, então não diga que o palácio foi dado INTEIRAMENTE DE GRAÇA.

Quando dizem os protestantes que é nosso dever aceitar a salvação e só a aceitamos "por meio de uma fé sincera, ardente e OBEDIENTE", estão reconhecendo a verdade da doutrina católica de que NÃO BASTA A FÉ para a salvação, é preciso uma FÉ OBEDIENTE; em outros têrmos, é necessário prestar obediência a tudo o que Cristo ordenou e prescreveu, a tudo o que nos impõe a lei de Cristo, a lei de Deus. Aí não é salvação SÓ PELA FÉ; é salvação pela FÉ E PELAS OBRAS, pois as obras já foram incluídas jeitosamente na fé, por meio desta palavra OBEDIENTE.

Mas, se ensinam os protestantes esta doutrina que é legítima, então não digam que a salvação é conseguida inteiramente de graça.

Em que parte da Bíblia viram os protestantes (que dizem só ensinar o que está na Bíblia) que A SALVAÇÃO, isto é, A NOSSA ENTRADA LÁ NO CÉU nos é dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA?

Será, porventura, êste texto: TODOS PECARAM e necessitam da glória de Deus, TENDO SIDO JUSTIFICADOS GRATUITAMENTE por sua graça, pela redenção que tem em Jesus Cristo (Romanos III-23 e 24)?

O que há de mais comum é a mesma palavra na Bíblia tomar aqui e acolá um sentido diferente; por isto perguntamos: a palavra JUSTIFICADOS aí significa SALVOS, PRONTOS PARA ENTRAR NO CÉU? Não; porque, se S. Paulo acabara de descrever o miserável estado moral em que se encontrava a Humanidade antes de Cristo, tanto entre os gentios, como entre os judeus e, para resumir tudo isto, diz que TODOS PECARAM e logo depois acrescenta que são justificados por meio da Redenção operada por Jesus Cristo — aí justificados não quer dizer salvos, pois S. Paulo não quer dizer absolutamente que TODOS os homens estão salvos, nem muito menos que todos aquêles que pecaram outrora foram para o Céu; S. Paulo aí se refere à reconciliação COLETIVA da Humanidade com Deus, a qual Jesus Cristo deixou para realizar justamente quando a Humanidade, depois de ter pecado tanto, mostrou, e bem claro, que de modo algum merecia esta reconciliação, a qual, portanto, foi realizada generosamente, espontaneamente, GRATUITAMENTE.

SALVAÇÃO INTEIRAMENTE DE GRAÇA

onde é que está isto na doutrina do Evangelho?

Que estreita é a porta e que apertado o caminho que guia para a vida e que poucos são os que acertam com êle! (Mateus VII-14). É esta a salvação dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA?

Se o teu ôlho te escandaliza, lança-o fora: melhor te é entrar no reino de Deus sem um ôlho do que, tendo dous, ser lançado no fogo do inferno (Marcos IX-46). Isto é oferecer a salvação GRATUITAMENTE a todos?

Filhinhos, quão difícil coisa é entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas! Mais fácil é passar um camelo pelo fundo duma agulha do que entrar no reino de Deus um rico (Marcos X-24 e 25). O que ama o pai, ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim (Mateus X-37). Se vos não converterdes e vos não fizerdes como meninos, não haveis de entrar no reino dos Céus (Mateus XVIII-3). Se a vossa justiça não fôr maior e mais perfeita do que a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no reino dos Céus (Mateus V-20). Chama-se a isto salvação dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA?

Não há motivo para desânimo ou desespêro. Se a salvação exige renúncias e sacrifícios, mais nuns e noutros menos, é também verdade certíssima que Deus, sendo justo e bom e sábio, não exige de ninguém o impossível: Deus é fiel, o qual não permitirá que vós sejais teutados mais do que podem as vossas fôrças Coríntios X-13). A cada sacrifício que se exige de nós acompanha também a graça necessária para levá-lo a efeito e a graça BEM CORRESPONDIDA eleva a criatura a um poder sôbre-humano, como se viu nos mártires, como se tem visto em todos os santos. E mesmo quando a alma fraqueja e não corresponde bem à graça divina, ainda resta a misericórdia do Bom Pastor, que corre a buscar a ovelha perdida até que a ache (Lucas XV-4), ainda nos vale a benignidade do nosso Salvador que não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que ainda fumega (Isaías XLII-3).

E depois de tantas vicissitudes, de tantas provas da divina misericórdia, a visão beatífica, que está acima da nossa natureza, vem a ser em última análise uma graça, um benefício de Deus.

Mas pintar a salvação, a conquista do Céu, como sendo dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA, neste sentido de que o homem não precisa também fazer jus a ela pelo seu próprio ESFÔRÇO PESSOAL (ajudado, é claro, pela graça divina) — isto é desvirtuar completamente os ensinos do Evangelho.

145. O SALVO PRATICA A VIRTUDE PARA SER SALVO.

Finalmente aparecem os protestantes com esta sutil distinção: O homem não pratica a virtude, não pratica as boas obras PARA SER SALVO. Mas Sim, PORQUE JÁ ESTÁ SALVO, pratica a virtude e as boas obras. As boas obras são uma conseqüência da salvação.

Não vemos oposição entre uma coisa e outra: O homem pratica a virtude e as boas obras PORQUE ESTÁ SALVO; e também pratica a virtude e as boas obras PARA SER SALVO.

Não estou entendendo nada, dirá o leitor. Não parece haver aí uma contradição?

— Contradição nenhuma.

Como já tivemos ocasião de explicar (n.º 88), a Bíblia toma a palavra SALVO em 2 sentidos. Às vêzes se chama SALVO aquêle que ESTÁ NO CAMINHO DA SALVAÇÃO, porque está com a graça santificante. A criatura que tem a felicidade de se encontrar em estado de graça, a qualquer instante em que falecer permanecendo nesta situação, está com a salvação garantida.

Enquanto estamos aqui na terra, esta situação do homem SALVO, ou seja, HERDEIRO DO CÉU, ainda pode perder-se pelo pecado mortal, por uma razão muito simples: a alma é livre e sendo tentada, ainda pode pecar gravemente. E o pecado, quando tiver sido consumado, GERA A MORTE (Tiago 1-15).

Mas aquêle que morreu em estado de graça, êste está SALVO definitivamente, não pode mais perder êste estado de salvação. E é neste sentido que diz a Escritura: Aquêle, porém, que perseverar até o fim, êsse é que SERÁ SALVO (Mateus X-22).

Assim ambas as proposições são verdadeiras. O homem pratica a virtude e as boas obras, porque ESTÁ SALVO, isto é, porque está na graça santificante, está na amizade de Deus e por isto tem a caridade, o amor de Deus e do próximo em seu coração, e eis aí a fonte para tôdas as boas obras. Além disto, já tivemos ocasião de explicar (n.os 25 e 33) que as nossas obras só TÊM VALOR para o Céu, só são merecedoras da recompensa, na visão beatífica, se forem feitas em estado de graça, ou em outras palavras, se forem feitas quando estamos SALVOS.

O homem pratica a virtude e as boas obras para SER SALVO, porque êle sabe muito bem que só conquistará o Céu, se morrer neste estado de graça. Por isto continua sempre a praticar a virtude, a fazer as boas obras para se manter neste feliz estado. Sabe que pode morrer a qualquer momento e quer comparecer diante do Juiz Supremo, no dia de sua morte, com a veste nupcial da graça, para que possa ter o direito de ser admitido no banquete celeste.

O protestante toma a palavra SALVO somente no sentido de SALVO DEFINITIVAMENTE, de herdeiro do Céu que não pode mais por consideração alguma perder o direito à divina herança. Apresenta também o cristão felicíssimo, convencidíssimo já nesta vida de que TERÁ o CuÊ COM TÔDA A CERTEZA. E nos vem dizer que só porque o homem já está salvo, já está com a heránça no bôlso é que pratica a virtude e as boas obras.

Mas isto não convence a ninguém: a idéia de que já está salva com tôda certeza, sem perigo nenhum de perder-se, não seria para pessoa alguma um incentivo às renúncias e aos sacrifícios exigidos pela virtude e pelas boas obras. Muito pelo contrário... porque nós conhecemos muito bem como é a nossa pobre natureza humana.

146. NOSSOS ADVERSÁRIOS.

A esta altura do livro, o leitor que nos vem acompanhando desde o princípio, já pode fazer uma boa idéia do que é a nossa luta, a luta da Igreja Católica contra o Protestantismo.

Temos, pela nossa frente, adversários matreiros, que não encaram abertamente a verdade, que recorrem freqüentemente a escapatórias e subterfúgios.

Começou o Protestantismo com uma doutrina de salvação só pela fé, muitíssimo errada e de péssimas conseqüências. Após 400 anos de polêmicas com os católicos e de estudos sôbre o assunto, os protestantes vão compreendendo no confronto dos diversos textos da Bíblia e na observação dos péssimos resultados que legicamente resultariam de suas teorias, que aquelas doutrinas que se pretendiam basear em certas passagens da Escritura são claramente refutadas em outras. Mas conservam-se ainda apegados às mesmas fórmulas antigas, porque não querem dar o braço a torcer. As Confissões de Fé protestantes se têm sucedido umas às outras e nunca chegam a um acôrdo, a uma solução definitiva, porque a primeira de tôdas as suas normas tem sido esta: TUDO, MENOS

CONCORDAR COM A IGREJA ROMANA.

E enquanto, ao ajresentar as suas doutrinas, se preocupam demasiadamente com esta idéia de combate à Igreja Católica, se esquecem de uma verdade importantíssima: a doutrina do Evangelho, pregada por Nosso Senhor, não foi ensinada neste mundo para COMBATER a espôsa de Cristo, a Igreja que o Divino Mestre instituiu, foi ensinada para SANTIFICAR O HOMEM.

147. É ASSIM QUE SE SANTIFICAM AS ALMAS?

Uma vez que a Bíblia é tão clara em nos mostrar a necessidade da cooperação do homem para ganhar o Céu, e em nos ensinar quais as virtudes que êle deve praticar para fazer a vontade de Deus e assim tornar-se em herdeiro seu, na vida eterna, não se compreende de forma alguma qual a VANTAGEM PARA A SANTIFICAÇÃO DAS ALMAS, que encontram os protestantes em ensinar ao povo simples e rude, estas doutrinas tão perigosas, tão fáceis de fazer mergulhar o homem no relaxamento e que, ao mesmo tempo, conforme acabámos de provar, são inexatas, diante dos próprios ensinos da Bíblia: O homem se torna justo não pelas suas obras, mas pela confiança de que Cristo o salva —a salvação não depende das nossas obras — uma vez que Cristo é o nosso Único Salvador, o homem não tem que pensar em salvar a si mesmo — a salvação é dada inteiramente de raça.

Existem, na obra da nossa salvação, a parte de Deus E A NOSSA. A nossa não só consiste em crer em Jesus (João III-18), mas também em observar os mandamentos (Mateus XIX-17), em praticar boas obras (Mateus XXV-34 a 36; 41 a 43), em saber perdoar ao nosso próximo (Mateus VI-15), em adquirir a santidade, sem a qual ninguém verá a Deus (Hebreus XII-14) etc, etc; em suma, consiste em mantermos em nós a amizade divina, não só pela fé, mas também pela prática de tôdas as virtudes. Esta nossa parte é feita por nós livremente. O homem não a pode fazer sozinho, por isto precisa PEDIR continuamente a Deus A GRAÇA que o ajude. Por isto, ao mesmo tempo que a Igreja exorta insistentemente o homem a fazer a sua parte, a cooperar com a graça, exorta-o também a pedir a Deus ardentemente a graça de que está necessitado.

A Igreja Católica que todo dia brada ao homem que se santifique a si próprio, é a mesma que o ensina a rezar: Alma de Cristo, SANTIFICAI-ME. A Igreja Católica que exorta o homem a que salve a sua alma, a que se resigne no sofrimento, é a mesma que lhe ensina esta súplica: Corpo de Cristo, SALVAI-ME; Paixão de Cristo, CONFORTAI-ME. A Igreja Católica que nos manda empregar todos os meios para reprimir os ímpetos da cólera e as tentações do orgulho, é esta mesma Igreja que põe nos nossos lábios êste apêlo: Jesus, manso e humilde de coração, FAZEI MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO. Ela exorta o homem a que ame a Jesus de todo o seu coração e ao mesmo tempo o ensina a dizer: Doce Coração de Jesus que tanto nos amais, FAZEI QUE EU VOS AME cada vez mais. O católico que tomou o firme propósito de tudo fazer para ser casto, êle mesmo vai pedir a Deus: Senhor, DAI-1{E A VIRTUDE DA CASTIDADE. É o pensamento de S. Agostinho: "Senhor, ordenas a castidade; dá-nos aquilo que ordenas e ordena o que quiseres !"

Uma coisa não pode existir sem a outra: nem o homem pode praticar a virtude, se Deus não lhe dá a graça; nem Deus vai dar a virtude àquele que não se esforça por consegui-la.

Êste, sim, é o verdadeiro caminho da santificação!

Mas que vantagem há, para a santificação das almas, em se ensinar ao povo que a nossa parte na salvação consiste apenas em CRER em Jesus, se outras virtudes também são claramente exigidas DA NOSSA PARTE pelo Evangelho?

Se, por acaso, em virtude de sua controvérsia com os católicos, os protestantes chegaram à conclusão de que a fé que salva não é uma simples confiança de que Jesus nos salva, mas sim uma FÉ OBEDIENTE, fé que não só inclui a crença nas verdades reveladas por Jesus, mas também A INTEGRAL OBEDIÊNCIA A CRISTO (e obediência não está apenas na nossa intenção, obediência está nos nossos pensamentos, palavras e obras), se chegaram a esta conclusão, neste caso expliquem bem claramente a seus adeptos esta fé salvadora em que consiste. Não se ponham a usar fórmulas antigas, que se vê claramente que são errôneas; não se ponham a dizer que a fé salvadora consiste apenas em ACEITAR A CRISTO COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL. E se, porventura, os seus adeptos lhes perguntarem qual a diferença entre a doutrina protestante e a doutrina católica sôbre êste ponto da NÉCESSIDADE DA FÉ E DAS OBRAS para a salvação, saibam dizer com tôda lealdade que esta diferença não existe ou, se houver, é apenas diferença de nomes. Não continuem a lançar invectivas contra os católicos e a apresentá-los como contrários à Bíblia, pelo fato de ensinarem os católicos aquilo que a própria Bíblia nos declara abertamente, isto é, que PELAS OBRAS É JUSTIFICADO O HOMEM, E NÃO. PELA FÉ SÓMENTE (Tiago 11-24), quando êles próprios, protestantes, exigindo para a salvação uma FÉ OBEDIENTE, estão exigindo também AS OBRAS para a salvação. Isto é o que devem fazer os protestantes, se é que o seu ideal é realmente SANTIFICAR OS HOMENS, e não apenas extravasar todo o seu ódio contra a Igreja Católica.

Que vantagem há, para .a santificação das almas, em chamar a atenção EXCLUSIVAMENTE para a parte realizada por Cristo na nossa salvação, ou seja, o seu sacrifício no Calvário, como se em vez de empregar todo o empenho em realizar A NOSSA PARTE, quiséssemos limitar esta nossa parte à CONFIANÇA NO QUE CRISTO FÊZ POR NÓS?

Antes .da tragédia do Calvário, muitos se salvaram PELA GRAÇA DO SENHOR JESUS CRISTO. Isto foi dito claramente por S. Pedro (Atos XV-11). Não foi à custa de ouvirem longos sermões ou de fazerem profundas meditações sôbre o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz, que êles alcançaram a salvação. Êste sacrifício não se tinha realizado ainda.

Se eram judeus e tinham a fé no Messias Prometido, era um conhecimento vago, não conheciam nem de longe tôda a extensão da obra redentora do Mestre, nem faziam uma idéia exata do verdadeiro caráter do Messias, que esperavam fôsse um Rei temporal, um Rei poderoso na terra. Se eram pagãos (e os pagãos podiam salvar-se seguindo a lei escrita nos seus corações — Romanos 11-15), nenhum conhecimento tinham do Redentor, nem explícito, nem vago.

Como se salvaram então? De uma maneira muito simples: receberam a graça e cooperaram com ela. De Deus, por antecipação, receberam A GRAÇA DE CRISTO, cujo preço ainda 'havia de ser pago no Calvário, sentiram o toque que movia e animava os seus corações, não sabiam esta graça donde vinha, nem qual era a sua natureza, nem que nome tinha, mas foram fiéis a ela e se salvaram.

Que queremos dizer com isto? Que é inútil a meditação na Paixão de Jesus Cristo? Absolutamente não! Mil vêzes não! Ela é de uma utilidade incalculável. Mas é útil esta meditação precisamente para isto: PARA NOS ESTIMULAR E AJUDAR A COOPERAR COM A GRAÇA.

O Crucifixo é o nosso grande livro.

Vendo o amor imenso de Jesus Cristo por nós, o qual Êle manifestou em tôda a sua vida e sobretudo na sua Paixão Dolorosa, nós somos incitados a retribuir-Lhe com o nosso amor (porque amor só com amor se paga); temos que amar a Deus, porque Êle foi o primeiro que nos amou a nós e enviou a seu Filho como vítima de propiciação pelos nossos pecados (1.ª João IV-10). Vendo os exemplós admiráveis de virtude que Cristo nos deixou em tôda a sua vida e sobretudo na sua Paixão: a obediência a seu Eterno Pai até à morte e morte de cruz (Filipenses 11-8), a completa resignação no sofrimento, porque foi levado como uma ovelha ao matadouro (Isaías LIII-7), a sua generosidade em perdoar aos próprios inimigos (Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem — Lucas XXIII-34) etc, etc; nós nos estimulamos à sua imitação: Cristo padeceu também por nós, deixando-vos exemplo para que sigais as suas pisadas (1.ª Pedro 11-21), porque nós somos herdeiros verdadeiramente de Deus e co-herdeiros de Cristo: SE É que todavia PADECEMOS com Ele, para que sejamos também com Ele glorificados (Romanos VIII-17). Por isto dizia S. Paulo: Cumpro na minha carne o que resta a padecer a Jesus Cristo pelo seu corpo que é a Igreja (Colossenses 1-24).

Se S. Paulo dizia: julguei não saber coisa alguma entre vós, senão a Jesus Cristo, e Este crucificado (1.ª Coríntios 11-2) não era senão para tornar-se UM PERFEITO IMITADOR DO DIVINO MESTRE, como êle diz nesta mesma Epístola: Rogo-vos, pois, que sejais meus imitadores, COMO TAMBÉM EU O SOU DE CRISTO (1.ª Coríntios IV-16), não era senão para identificar-se plenamente com Jesus na sua vida: Não sou eu já o que vivo; mas Cristo é que vive em mim (Gálatas 11-20). Mas isto, êle não o conseguiu por uma transformação súbita e automática, e sim à custa de renúncias e sacrifícios: Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que não suceda que, havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado (L' Coríntios IX-27), porque os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com os seus vícios e concupiscências (Gálatas V-24).

Vemos no Calvário uma fonte imensa de GRAÇAS, as quais nós podemos ir buscar, para nossa ajuda, por meio das orações, dos sacramentos do Santo Sacrifício da Missa. Temos, portanto, riquezas abundantíssimas de graças, que os judeus e pagãos não tiveram ou que êles não sabiam adquirir como nós adquirimos. Mas a todo aquêle a quem muito foi dado, muito lhe será pedido; e ao que muito lhe confiaram, mais conta lhe tomarão (Lucas XII-48). Será para nós um motivo evidente de condenação, se por acaso não nos esforçamos por seguir o árduo caminho da vida eterna, o sermos comparados no dia de juízo, com pagãos de qualquer época da História, que, sem terem tido o maravilhoso conhecimento de Cristo, de sua Redenção, no entanto ao receberem a graça suficiente que é dada a todos, mas recebendo-a em muito menor proporção do que nós, souberam, no entanto, corresponder a esta mesma graça e praticar a virtude que nós não praticamos.

A consideração do Calvário tem, portanto, que ser um incentivo para CADA VEZ MELHOR COOPERARMOS COM A GRAÇA DE DEUS. Como também será um remédio para não nos deixarmos dominar pelo desânimo, pois nos infunde a firme convicção de alcançarmos o perdão divino, SE É QUE NOS ACHAMOS SINCERAMENTE ARREPENDIDOS e empregamos os meios que Cristo dispôs para isto.

Porém meditar insistentemente no Calvário e na misericórdia imensa de Cristo aí manifestada, exclusivamente para NOS ESCORARMOS NA PARTE JÁ REALIZADA POR CRISTO e esquecermos A NOSSA, QUE AGORA NOS COMPETE REALIZAR, é querermos obrigar o Divino Salvador a exclamar, como salmista: Que proveito há no meu sangue? (Salmos XIX-10).

Apresentar continuamente ao povo o sofrimento redentor de Jesus, para insistir nestas proposições, tão fáceis de serem pèssimamente interpretadas:

Cristo já pagou por todos nós — ou, pior ainda, como ensinou Lutero (Weimar 1-52): "Cristo já observou a Lei, para que não tenhamos mais o dever de observá-la" — Cristo já sofreu por nós na Cruz os tormentos do inferno, para que não tenhamos mais que passar por êle —etc, etc;

querendo concluir daí que a nossa salvação é TOTALMENTE realizada por Cristo, cabendo-nos apenas confiar nele e nada mais;

é ministrar ao povo uma doutrina que não só é contrária à moral rigorosa do Evangelho, mas também em vez de santificá-lo, vai induzi-lo a negligenciar completamente A SUA PARTE na conquista do Céu.

Não podia haver mais fina cilada do demônio do que esta: levar o homem a descuidar-se da sua salvação, bàseado numa piedosa e entusiástica, porém malfundada confiança no Divino Salvador Jesus Cristo, o qual morreu por nós para nos adquirir meios abundantes que nos ajudem a realizarmos nós mesmos a nossa salvação, a qual sem a sua graça nunca poderia ser realizada, e não para ficarmos com a idéia de .que Êle já nos salvou e, por conseguinte, nada mais nos resta fazer.

Finalmente, nós sabemos como são as criaturas humanas: livres para fazer o bem e o mal, combatidas por tentações e fortemente inclinadas para o pecado e, além disto, FORTEMENTE INCLINADAS À PRESUNÇÃO, A SE DESCULPAREM A SI MESMAS, A SE JULGAREM SANTAS, QUANDO NÃO O SÃO DE MANEIRA ALGUMA. Onde é que aprenderam os protestantes que o melhor meio de santificar essas criaturas é sugestioná-las de que já estão salvas, já sentem em si a experiência da salvação e que não poderão perder-se jamais, quando não sabem êles absolutamente quais dessas criaturas permanecerão fiéis à voz da consciência (se é que já o são), quando sabem muito bem que inúmeras delas irão pecar, e muito?

Eis aí, portanto, um grande êrro do Protestantismo. Preocupado em demasia com a sua polêmica contra a Igreja, deixou introduzir-se a anarquia na doutrina, com a sua falsa idéia de que a fé salvadora era somente a fé-confiança. E com esta mesma falsa noção, deixa também uma confusão tremenda no espírito do crente, a respeito do que é preciso fazer para salvar-se, desviando a atenção do ponto mais importante nesta matéria: a necessidade de sua COOPERAÇÃO com a graça, cooperação esta que não é só confiança de ser salvo, mas ESFÔRÇO CONSTANTE para santificar-se, obedecer à lei, submeter-se totalmente a Cristo.

É precisamente em pregar, de uma maneira clara e insofismável, a necessidade dêste esfôrço pessoal, dêste espírito de renúncia, desta cooperação pela oração e pela vigilância: vigilância que se estende a todos os pensamentos, palavras e obras, e oração que vai pedir a Deus continuamente o auxílio da graça, sem a qual nada se pode fazer no plano sobrenatural, graça, porém, que Deus não nega àqueles que sinceramente desejam alcançá-la — é aí precisamente que se vê o PODER SANTIFICADOR da doutrina da Igreja. Num país onde há muitos milhões de católicos, não se pode deixar de encontrar um grande número de católicos que não se santifiquem. É um assunto que depende da liberdade humana. Os erros provenientes da livre vontade do homem, não há Religião alguma que os possa evitar. Os protestantes que puseram na cabeça a idéia de que a Igreja não é mais a dos tempos primitivos, se para proclamar esta diversidade, querem basear-se no exemplo dos maus católicos, dos que são católicos somente de nome, dos que erram em desobediência a esta mesma Igreja, estão completamente enganados. Também naqueles primeiros tempos, em que os cristãos eram em muito menor número e recebiam, muitos dêles, carismas especiais e em que reinava o fervor característico de qualquer associação nascente, também naqueles tempos lavravam, mesmo no seio da Cristandade, erros, fraquezas e desordens contra os quais surge a severa repreensão na própria Bíblia: Examine-se pois, a si mesmo o homem e assim coma dêste pão e beba dêste cálix. Porque todo aquêle que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não discernindo o corpo do Senhor. ESTA É A RAZÃO por que ENTRE VÓS há muitos enfermos e sem fôrças e muitos que dormem (1.° Coríntios XI-28 a 30). Se vós, porém, vos mordeis e vos devorais uns aos outros, vêde não vos consumais uns aos outros (Gálatas V-15). Donde vêm as guerras e contendas ENTRE vós? Não vêm elas dêste princípio? das vossas concupiscências que combatem em vossos membros? (Tiago IV-1) ... para que não suceda que, quando eu vier outra vez, me humilhe Deus ENTRE vós e que chore a muitos daqueles que antes petaram e não fizeram penitência da imundícia e fornicação e desonestidade que cometeram (2.° Coríntios XII-21). Temos ouvido que andam alguns ENTRE VÓS inquietos, que nada fazem senão indagar o que lhes não importa (2.º Tessalonicenses III-11). Tenho contra ti que deixaste a tua primeira caridade. Lembra-te, pois, donde caíste e arrepende-te e faze as primeiras obras; e se não, eu virei a ti e moverei o teu candieiro do seu lugar, se não fizeres penitência (Apocalipse 11-4 a 5). Eu sei as tuas obras; que tens a reputação de que vives, e estás morto (Apocalipse III-1). Sei as tuas obras; que não és nem frio nem quente. Oxalá que tu foras ou frio ou quente! Mas porque tu és môrno e nem és frio nem quente, começar-te-ei a vomitar da minha bôca (Apocalipse III-15 e 16).

Ua mãe, por melhor educadora que seja, não está livre de ter surprêsas desagradáveis partidas de filhos rebeldes; por isto a Igreja terá sempre o desgôsto de ver no seu seio muitos que não seguem fielmente a sua doutrina. Não os despreza, não lhes mete os pés; porque ela, como o Divino Mestre, está neste mundo para socorrer não os justos e sadios, e sim os enfermos e pecadores. E onde há homens, sempre há erros de procedimento.

Mas desde que a doutrina católica seja fielmente seguida, assimilada e VIVIDA, percebe-se claramente a que culminâncias de virtude e de perfeição podem elevar-se as almas, o que se vê nos GRANDES SANTOS, que só existem na Igreja Católica. Não são fantasmas, nem personagens inventadas pela imaginação de romancistas. Foram criaturas de carne e osso, como todos nós, mas que a Igreja formou e educou com a graça de Cristo e deixaram o seu rastro de luz na História da Humanidade. É um pobrezinho de Assis, perfumando a terra inteira com o seu ardente amor a Deus e seu desprendimento e espírito de pobreza; é um S. Antônio de Pádua, eletrizando as massas com sua santidade, sua eloqüência e seus milagres; é um S. Francisco Xavier, o gigante das Missões, alma abrasada de amor, conquistando para Cristo centenas de milhares de pagãos no Japão e nas Índias; é um S. Luís de Gonzaga, lírio de pureza, que ficou como um exemplo maravilhoso para a juventude; é um S. Vicente de Paulo, tornando-se, aos olhos de todos, a personificação da caridade; é uma Santa Gema Galgâni, uma Santa Rosa de Lima, uma Santa Teresinha do Menino Jesus; são muitas e muitas almas que foram sublimes no amor divino e heróicas no sofrimento. A enumeração seria demasiado longa. É esta a mais rica contribuição da Igreja Católica para a galeria dos heróis, de que se orgulha a Humanidade. Alimentam os protestantes a idéia errônea de que, desde que o homem se convence de que tem de lutar e esforçar-se para salvar a sua alma, a santificação não pode ser alcançada. A grande quantidade de santos admiráveis que a Igreja Católica tem produzido é o mais formal desmentido. a êste estranho preconceito. O que há, sim, é que o esfôrço do homem não deve provir da idéia de salvar-se sozinho pelas suas próprias fôrças, mas de colaborar generosamente com a ação de Deus que é quem trabalha as almas, na obra da santificação.

Enquanto os protestantes vivem a apontar a Igreja como ocupada exclusivamente com ritos e cerimônias (como se os ritos e cerimônias fôssem incompatíveis com a purificação interna), em tôdas as épocas e em todos os países, é uma legião imensa de criaturas de ambos os sexos que, desde a adolescência, se consagram inteiramente a Deus, abandonando o doce aconchêgo do lar, renunciando os prazeres do matrimônio e as amizades do mundo pelo voto de castidade perpétua, para servir ao Senhor, seja na vida contemplativa dos claustros; seja nos hospitais, nos colégios, nos leprosários, nos manicômios, nos orfanatos; seja entre as agruras das terras de Missões ou entre as vicissitudes da vida paroquial. Serenamente, calmamente, muitas vêzes desconhecidas completamente do mundo, se imolam numa vida de disciplina, de silêncio, de oração, de obediência, de serviço ao bem do próximo.

Enquanto os protestantes ingênuamente nos vivem convidando a entrar no Protestantismo, para têrmos "um contacto mais íntimo e pessoal com Jesus Cristo", é precisamente na Igreja Católica que êste contacto se verifica. É em tôrno de Jesus, REALMENTE PRESENTE na SS.ma Eucaristia, centro da nossa vida litúrgica, que gira a espiritualidade católica, desde a criancinha que com todo o ardor de sualma infantil se prepara para receber a Primeira Comunhão, até o moribundo que, no seu leito de dores, recebe o Sagrado Viático, aprovisionando-se para a jornada derradeira. O momento mais sublime para o católico é sempre aquêle em que, purificado até nos mais íntimos pensamentos, recebe no seu peito o Divino Mestre, na SS.ma Eucaristia, preparando-se assim para comparecer um dia, na hora de sua morte, diante do Juiz Supremo, a quem nada é oculto e que vai julgá-lo minuciosamente segundo todos os seus pensamentos, palavras e obras. Sabe que neste exame justíssimo serão considerados um por um todos os seus pecados, mas também por outro lado o esfôrço que despendeu para retratá-los e emendar-se dêles, de acôrdo com os meios que lhe ministrou a divina misericórdia, bem como todos os atos de virtude que praticou, se é que morreu na graça e amizade de Deus. Está decretado aos homens que morram uma só vez e que depois disto SE SIGA O JUÍZO (Hebreus IX-27). Importa que TODOS Nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o galardão segundo o que tem feito, ou bom ou mau, estando no próprio corpo (2.° Coríntios V-10).

A vida, portanto, se lhe apresenta como uma luta contínua contra o mundo, contra o demônio, contra si mesmo, uma busca incessante da perfeição, para um dia lá em cima receber a coroa da bem-aventurança. O estímulo para a virtude é muito diferente daquele que possa sentir o protestante que desde o princípio de sua conversão, já se julga com essa coroa na cabeça; já se tem na conta de completamente purificado e se considera um privilegiado que não vai submeter-se a nenhum julgamento, porque isto de julgamento de Deus fica somente para os que não são protestantes...

148. SACRAMENTALISMO.

Ainda suposto que os protestantes resolvessem ensinar, com todo o equilíbrio, como a Igreja ensina, A VERDADEIRA DOUTRINA DA SANTIFICAÇÃO PELA FÉ, PELA GRAÇA E PELAS OBRAS, mesmo assim faltariam ao Protestantismo outros meios ordinários de santificação: Os SANTOS SACRAMENTOS, que a Bíblia nos aponta como veículos da graça.

Já vem o Sr. com esta antipática doutrina: o sacramentalismo!

Que é que o amigo chama sacramentalismo? É a graça ser conferida por meio de um rito, de uma cerimônia, não é assim? Neste caso a doutrina do sacramentalismo existe na Bíblia. Mais adiante neste livro, Você encontrará um capítulo inteiro sôbre o Batismo, outro sôbre a Confissão, outro sôbre a Eucaristia. São sacramentos que necessitam de um estudo especial, porque são os mais necessários para a salvação.

Mas, se quiser ver ainda na Bíblia mais outros exemplos do que Você chama sacramentalismo, leia por obséquio o seguinte: Então PUNHAM AS MÃOS sôbre êles, E RECEBIAM O ESPÍRITO SANTO (Atos VIII-17); Não desprezes A GRAÇA que há em ti, que te foi dada por profecia PELA IMPOSIÇÃO DAS MÃOS DO PRESBITÉRIO (1.° Timóteo IV-14); Está entre vós algum enfêrmo? Chame os presbíteros da Igreja e êstes façam oração sôbre êle, UNGINDO-O COM ÓLEO EM NOME DO SENHOR; e a oração da fé salvará o enfêrmo e o Senhor o aliviará; E SE ESTIVER EM» ALGUNS PECADOS, SER-LHE-ÃO PERDOADOS (Tiago V-14 e 15).

É isto o que Você chama sacramentalismo. É ou não é? Tanto é, que Você sabe muito bem a que sacramentos da Igreja a sua e nossa Santa Bíblia aí se está referindo.

149. CONCLUSÃO.

Agora já percebemos todo o equilíbrio da doutrina ensinada pela Igreja Católica.

Sustenta a necessidade da FÉ, mas FÉ na legítima significação do têrmo, fé que precisa primeiro aderir à VERDADE para guiar o homem pelo legítimo CAMINHO e assim fazê-lo chegar à verdadeira VIDA.

Sustenta a necessidade da GRAÇA, sem a qual nada podemos no plano da salvação e é aí que se salienta todo o valor do sacrifício expiatório de Cristo, que nos alcançou esta GRAÇA, sem a qual estaríamos irremediavelmente perdidos.

Não suprime, nem subestima, nem esconde com doutrinas mascaradas a necessidade das nossas OBRAS, da nossa cooperação com a graça, embora seja esta cooperação também ajudada pela graça divina.

E assim, sem cair na doutrina escandalosa dos Primeiros Reformadores (o homem salvo com pecados e tudo e sem arrependimento), sem cair também no sonho de muitos protestantes atuais (uma Igreja constituída somente de pessoas confirmadas em graça);

sendo não só depositária da doutrina que recebeu da bôca dos Apóstolos e, por isto, única orientadora infalível na exegese da Bíblia, mas também profunda conhecedora do que é o nosso coração humano, a nossa natureza frágil e decaída;

Só A IGREJA é que vem ensinando desde os tempos de Cristo e continua a ensinar, através dos séculos, A VERDADEIRA DOUTRINA DA SALVAÇÃO