Capítulo 9

SEGUNDA PARTE: A MINHA IGREJA

CAPÍTULO NONO: A IGREJA, SUA PEDRA FUNDAMENTAL E SEU GOVERNO A PRIMAZIA DE S. PEDRO

150. A ENUMERAÇÃO DOS APÓSTOLOS.

Desde que Nosso Senhor Jesus Cristo iniciou a pregação do Evangelho, foi logo cuidando em organizar a sua Igreja. E o primeiro passo para esta organização foi a escolha dos 12 Apóstolos. Ora, um fato que não se pode negar é a primazia exercida por S. Pedro neste colégio apóstolico.

Inúmeros atestados disto nos dá o Novo Testamento; um dêles, por exemplo, é a enumeração completa dos Apóstolos, a qual é apresentada quatro vêzes: em S. Mateus (X-2 a 4), em S. Marcos (III-16 a 19), em S. Lucas (VI-13 a 16) e nos Atos dos Apóstolos (I-13).

Nestas enumerações logo se observa que dois Apóstolos não mudam de lugar: o primeiro é sempre de Pedro, o último é sempre de Judas Iscariotes, o indigno traidor; se êste não vem mencionado nos Atos, é porque no tempo de que fala a história já havia morrido.

Excetuando apenas Filipe que é sempre nomeado em 5.° lugar, e Tiago de Alfeu que é sempre pôsto no 9.º, todos os outros Apóstolos mudam de colocação.

Em segundo lugar: ora vem André; ora vem Tiago, filho de Zebedeu; ora vem João.

Em terceiro lugar: ora João, ora Tiago de Zebedeu.

Em quarto lugar: ora João, ora André.

É evidente a preocupação de pôr Pedro sempre em primeiro lugar.

151. PEDRO, O PRIMEIRO DOS APÓSTOLOS.

O melhor, porém, é que S. Mateus, ao enumerar os Apóstolos, diz assim: Ora os nomes dos doze Apóstolos são êstes: O PRIMEIRO SIMÃO, que se chama Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão Cananeu e Judas Iscariotes que foi o que O entregou (Mateus X-2 a 4).

A palavra grega PRÓTOS, aí traduzida por PRIMEIRO, tal como acontece em português, tanto pode significar o primeiro numèricamente, como pode significar o primeiro na dignidade, na excelência, nas honras, na qualidade.

Assim, quando Cristo diz aos Apóstolos: O que entre vós quiser ser PRIMEIRO, êsse seja vosso servo (Mateus XX-27), aí não se refere a primeiro na enumeração, mas sim a primeiro como superior dos outros; a palavra grega correspondente a esta palavra — primeiro — é PRÓTOS.

Um dos escribas perguntou a Jesus qual era o PRIMEIRO de todos os mandamentos (Marcos XII-28). É claro que êle está perguntando, não qual é o primeiro na ordem, mas qual é o mais importante. E a prova é que Jesus lhe diz qual é o primeiro mandamento, e depois qual é o segundo; e acrescenta: Nenhum outro mandamento há que seja MAIOR do que êstes (Marcos XII-31). Ora, qual é a palavra grega que corresponde a PRIMEIRO em todo êste trecho: o escriba perguntou qual era o PRIMEIRO mandamento e Jesus lhe respondeu que de todos o PRIMEIRO mandamento era êste etc, etc? É sempre a palavra PRÓTOS.

Na parábola do filho pródigo, o pai diz aos seus servos: Tirai depressa o seu PRIMEIRO vestido e vesti-lho, e metei-lhe um anel no dedo, e os sapatos nos pés (Lucas XV-22). Ora, é claro que aí não se trata da roupa mais velha, da primeira (no tempo) que o filho usou, mas sim da mais nobre, da mais rica, da mais excelente. E como é que o grego designa o PRIMEIRO vestido? é com a palavra PRÓTOS.

Lê-se nos Atos dos Apóstolos: Naqueles lugares havia umas terras do PRÍNCIPE da ilha, chamado Públio, o qual, hospedando-nos em sua casa, três dias nos tratou bem (Atos XXVIII-7). Esta palavra — príncipe — é tradução da palavra grega PRÓTOS. O primeiro da ilha era Públio, não porque os habitantes da ilha fôssem numerados como os sentenciados, os condutores de bonde ou os meninos de colégio, mas porque êle era a PRINCIPAL FIGURA entre OS ilhéus.

Nos Atos ainda se lê: Os judeus concitaram a algumas mulheres devotas e nobres e os PRINCIPAIS da cidade (Atos XIII-50) e os príncipes dos sacerdotes e os PRINCIPAIS dos judeus acudiram a êle contra Paulo (Atos XXV-2) passados três dias convocou Paulo os PRINCIPAIS dos judeus (Atos XXVIII-17). Em todos êstes casos a palavra PRINCIPAIS é tradução da palavra grega PRÓTOS.

De tudo isto se conclui que a palavra PRIMEIRO (no grego PRÓTOS) é freqüentemente usada no Novo Testamento para exprimir o primeiro na dignidade, na posição mais elevada, na excelência, embora possa significar também o primeiro numèricamente. Tal qual como acontece na nossa língua. Um professor tanto pode dizer: Éste é o meu PRIMEIRO aluno — e logo se entende que é o aluno melhor da classe, como numerar os seus discípulos numa fila e ir chamando-os a dar a lição: Venha o primeiro; venha o segundo; venha o terceiro, etc.

É o caso agora de se perguntar: Quando S. Mateus diz que Pedro é O PRIMEIRO apóstolo, quer dizer primeiro na dignidade ou primeiro numèricamente?

Para que fôsse primeiro numèricamente, era preciso que êle fôsse nomeando também o segundo, o terceiro, o quarto etc. E no entanto S. Mateus chama a S. Pedro de primeiro e dos outros não diz nada. E nas quatro enumerações os outros variam de colocação, enquanto S. Pedro ocupa invariàvelmente o primeiro lugar, vem sempre à cabeça da lista.

Isto é muito significativo e por aí se verifica como são forçadas, artificiais e improcedentes as alegações dos protestantes procurando explicar por que Pedro aí é chamado O PRIMEIRO dos Apóstolos.

Dizem uns: é chamado PRIMEIRO, quer dizer, o primeiro cronológica-mente a receber o convite do Mestre para segui-Lo. Neste caso, se S. Mateus que apenas quis informar QUAIS ERAM os 12 Apóstolos (Ora os nomes dos doze Apóstolos são êstes etc — Mateus X-2) os considerasse a todos iguais, para chamar de PRIMEIRO a Pedro, precisava avisar prèviamente que ia enumerá-los pela ordem de entrada ao serviço de Cristo, como faria qualquer bom escritor que não quisesse mostrar em Pedro uma primazia.

Além disto, S. Mateus só podia dizer que Pedro era o primeiro a ter sido chamado pelo Mestre, se Pedro tivesse sido chamado SÓZINHO EM PRIMEIRO LUGAR. Ora, o que os Evangelhos nos ensinam é que S. Pedro e S. André foram chamados na mesmíssima ocasião: E passando ao longo do mar de Galiléia, viu a Simão e a André, seu irmão, que lançavam as suas rêdes ao mar (porque eram pescadores). E disse-lhes Jesus: Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens. E no mesmo ponto, deixadas as rêdes, O seguiram (Marcos 1-16 a 18).

Aliás, dos 2 foi André o primeiro a ter contacto e conhecimento com o Mestre. S. João Batista estava com 2 discípulos seus, quando passou Jesus. E vendo a Jesus que ia passando, disse: Eis ali o cordeiro de Deus. Então os dois discípulos, quando isto lhe ouviram dizer, foram logo seguindo a Jesus. E Jesus, olhando para trás e vendo que iam após Êle, disse-lhes: Que buscais vós? Disseram-Lhe êles: Rabi, (que quer dizer mestre) onde assistes tu? Respondeu-lhes Jesus: Vinde e vêde. Foram êles e viram onde assistia e ficaram lá aquêle dia: era então quase a hora décima. E ANDRÉ, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que tinham seguido a Jesus. Êste encontrou primeiro a seu irmão Simão e lhe disse: Temos achado ao Messias (que quer dizer o Cristo). E levou-o a Jesus (João 1-36 a 42).

Se S. Mateus quisesse referir-se à anterioridade na vocação, não teria dito no singular: O Primeiro Pedro, mas no plural: Os primeiros Pedro e André.

Dizem outros protestantes que Pedro é chamado o primeiro por ser o mais velho. É uma afirmação meramente gratuita, porque não há nenhuma passagem da Bíblia que nos assevere ter sido Pedro o mais velho de todos. E se buscamos fora da Bíblia alguma informação a respeito, encontramo-la em S. Epifânio (Haereses 51; n.° 17) que nos diz justamente o contrário, isto é, que André era mais velho do que Pedro. É um autor do 4.° século (n. 315 — m. 403), porém, em todo caso, muito mais apto do que os protestantes de hoje ou do século XVI, para nos transmitir uma informação dos mais antigos. Além disto, se a enumeração dos Apóstolos fôsse feita pelo critério da idade, S. João Evangelista deveria estar lá no fim, pois era o mais moço de todos. Foi o Apóstolo que sobreviveu por longos anos aos seus companheiros, tendo escrito o Apocalipse lá pelos últimos anos do 1.° século.

Dizem outros que S. Pedro figura como primeiro, por ter sido o discípulo predileto do Mestre. Mas, de acôrdo com êste critério, o primeiro lugar caberia a S. João: Voltando Pedro viu que o seguia aquêle discípulo que Jesus amava, que ao tempo da ceia estivera até reclinado sôbre o seu peito (João XXI-20). E sôbre êste discípulo que Jesus amava, S. João mesmo se declara ao findar o seu Evangelho: Êste é aquêle discípulo que dá testemunho destas coisas e que as escreveu (João XXI-24).

Por tudo isto que fica dito, já há autores protestantes como Olshausen, Meyer, de Wette que estão de acôrdo em afirmar que aquêle PRIMEIRO significa o primeiro na dignidade e não só o primeiro na ordem. Reconhecem assim a primazia de Pedro, porque não há outro jeito diante desta afirmação tão clara de S. Mateus.

152. PEDRO FALA PELO COLÉGIO APOSTÓLICO.

Mas não é só pelo fato de ser chamado o PRIMEIRO por S. Mateus, que a primazia de Pedro se nos apresenta na Bíblia.

Vemos sempre S. Pedro falar em nome dos demais Apóstolos, do mesmo modo que é muito comum, num grupo de homens, ter a palavra aquêle que, sendo o chefe ou o mais graduado, pode falar em nome de todos.

Depois de anunciar, no capítulo 6.°, que daria a sua carne para comer, o que deu motivo a muitos discípulos não quererem mais andar com Êle, Jesus fêz uma pergunta aos 12 Apóstolos. Por isso disse Jesus aos doze: Quereis vós outros também retirar-vos? (João VI-68). Não foi preciso que todos respondessem; Pedro respondeu por todos êles: E respondeu-Lhe Simão Pedro: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; E NÓS TEMOS crido e conhecido que tu és o Cristo, Filho de Deus (João VI-69 e 70). É como se diz na linguagem moderna: os Apóstolos falaram por intermédio de seu LÍDER.

Quando Jesus perguntou aos Apóstolos o que pensavam a respeito do Filho do Homem: E vós quem dizeis que sou eu? (Mateus XVI-15), foi outra vez o líder que falou em nome de todos êles: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo (Mateus XVI-16).

Quando Jesus disse: Não é o que entra pela bôca o que faz imundo o homem; mas o que sai da bôca, isso é o que faz imundo o homem (Mateus XV-11), foi S. Pedro quem pediu em nome dos Apóstolos a explicação desta parábola. E respondendo Pedro, Lhe disse: EXPLICA-NOS essa parábola (Mateus XV-15). E Nosso Senhor, em resposta, não se dirigiu somente a Pedro, mas a todos êles, porque em nome de todos é que Pedro tinha falado: Também vós OUTROS estais ainda sem inteligência? (Màteus XV-16).

Quando Jesus afirmou: Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus (Mateus XIX-24), os discípulos, ouvidas, estas palavras, conceberam grande espanto, dizendo: Quem poderá logo salvar-se? Porém Jesus, olhando para êles, disse:. Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível (Mateus XIX-25 e 26). Nesta ocasião, Pedro falou mais uma vez em nome de todos: Eis aqui estamos nós que deixámos tudo e te seguimos; que galardão será o nosso? (Mateus XIX-27). E Jesus, respondendo não a Pedro em particular, mas a todos os Apóstolos, respondendo à pergunta de Pedro que por êles tinha falado, disse: Em verdade vos afirmo, que vós, quando no dia da regeneração estiver o Filho do Homem sentado no trono da sua glória, vós torno a dizer, que me seguistes, também estareis sentados sôbre doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel (Mateus XIX-28).

A posição de Pedro se mostra sempre assim, como a de líder, de chefe, de intérprete dos sentimentos dos seus companheiros.

153. PEDRO E OS QUE COM ELE ESTAVAM.

Mais de uma vez se observa na Bíblia o seguinte: estando o chefe acompanhado de seus subordinados, emprega-se somente o nome do chefe, omitindo-se o nome dos outros: E soube Saul que DAVI tinha aparecido E A GENTE QUE O ACOMPANHAVA (1.° Reis XXII-6). Mas JESUS se retirou COM OS SEUS DISCÍPULOS para a parte do mar (Marcos III-7). Então houve no céu uma grande batalha: MIGUEL E OS SEUS ANJOS pelejavam contra o dragão (Apocalipse XII-7).

O mesmo se usa com S. Pedro com relação aos demais Apóstolos, falando-se só nêle e não nos outros: E levantando-se muito de madrugada, saiu e foi a um lugar deserto, e foram-no seguindo SIMÃO E OS QUE COM ELE ESTAVAM (Marcos I-35 e 36). Entretanto PEDRO E OS QUE COM ELE ESTAVAM se tinham deixado oprimir do sono (Lucas IX-32). Ide dizei a SEUS DISCÍPULOS E A PEDRO que Êle vai adiante esperar-vos em Galiléia (Marcos XVI-7). Porém PEDRO, EM COMPANHIA DOS ONZE, pôsto em pé, levantou a sua voz (Atos II-14). Mas dando PEDRO a sua resposta os APÓSTOLOS, disseram: Importa obedecer mais a Deus do que aos homens (Atos V-29).

154. ATENÇÕES ESPECIAIS A S. PEDRO.

Jesus mostrou sempre para com S. Pedro uma atenção tôda especial. Já não falamos aqui na mudança de seu nome e nas grandes prerrogativas de pedra fundamental da Igreja e seu Pastor Universal, que vão ser assunto dos artigos seguintes.

Não só quando se deu a ressurreição da filha de Jairo (e não permitiu que O acompanhasse nenhum, senão PEDRO e Tiago e João, irmão de Tiago — Marcos V-37), como também no monte Tabor, onde foi glorificado na sua transfiguração (toma Jesus consigo a PEDRO e a Tiago e a João, seu irmão, e os leva à parte a um alto monte e transfigurou-se diante dêles — Mateus XVII-1 e 2), como no jardim de Getsêmani (e tendo tomado consigo a PEDRO e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e angustiar-se — Mateus XXVI-37), Jesus levou somente os 3 discípulos: Pedro, Tiago e João; e os Evangelistas, ao narrarem tais fatos, invariàvelmente nomeiam a Pedro em primeiro lugar.

Na borda do lago de Genesaré, Jesus viu duas barcas, mas deu preferência à barca de Pedro para daí doutrinar as multidões: E entrando em uma destas barcas, QUE ERA DE SIMÃO, lhe rogou que O apartasse um pouco da terra. E estando sentado, ENSINAVA AO POVO DESDE A BARCA (Lucas V-3). Depois deu ordem a Simão, para que conduzisse a barca mais para o alto mar. Disse a Simão: Faze-te mais ao largo (Lucas V-4). A pesca feita nessa ocasião é maravilhosa. E Pedro, espantado com o prodígio, lança-se aos pés de Jesus: Retira-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador (Lucas V-8), porque o espanto o tinha assombrado a êle e a todos os que se achavam com ele, de ver a pesca de peixes que haviam feito (Lucas V-9). Mas, apesar de estarem ali presentes Tiago e João, Jesus diz diretamente a Pedro que êle vai tornar-se pescador de homens: Mas Jesus disse a Simão: Não tenhas mêdo; desta hora em diante SERÁS PESCADOR DE HOMENS (Lucas V-10).

É claro que ninguém vai concluir daí que Tiago e João e os demais Apóstolos não tenham sido também pescadores de homens. Mas, se o próprio Jesus compara aquela pesca maravilhosa com a pesca espiritual que vai ser realizada pela Igreja, não será de forma alguma forçar o sentido desta bela passagem do Evangelho, ver em tudo o que aconteceu naquela hora, um símbolo da Igreja que havia de ser empenhada na conquista das almas. É da barca de Pedro, isto é, da Igreja, que Jesus ensinará ao povo, pois daqui a pouco veremos Jesus dizer que vai construir a sua Igreja sôbre a pedra que é Pedro (Mateus XVI-18), Jesus manda a Pedro que leve a barca até o alto mar, o que simboliza a Igreja sob a direção de Pedro em luta contra os perigos e as tempestades, mas sempre firme, porque as portas do inferno não prevalecerão contra ela. (Mateus XVI-18). A pesca maravilhosa, conforme insinuou o próprio Cristo, simboliza a conversão das almas para o reino de Deus. E se a Pedro somente, na presença dos outros, Cristo diz que será pescador de homens, é que os outros hão de pescar homens sob o seu govêrno, sob a sua direção, pois a Pedro individualmente é que Jesus dirá: Apascenta os meus cordeiros. Apascenta as minhas ovelhas (João XXI-15, 16, 17).

Quando apareceram os cobradores do impôsto das dracmas, Jesus mandou a Pedro que procurasse pagá-lo por Êle, Jesus, e por si próprio, sem mencionar os demais Apóstolos. Isto significa a especial união que há entre Cristo e Pedro, bem como que Pedro representa os seus companheiros. Disse Cristo a Pedro: Vai ao mar e lança o anzol; e o primeiro peixe que subir, toma-o; e abrindo-lhe a bôca, acharás dentro um estáter, tira-o e dá-lho POR MIM E POR TI (Mateus XVII-26). Aí termina o Capítulo XVII de S. Mateus. A distinção dada a Pedro nesta ocasião é tão evidente, que não passou despercebida aos outros Apóstolos. E o Capítulo XVIII começa assim: Naquela hora chegaram-se a Jesus os seus discípulos, dizendo: Quem julgas tu que é MAIOR no reino dos Céus? (Mateus XVIII-1).

155. DEPOIS DA ASCENSÃO.

Depois da subida de Jesus para o Céu, os Apóstolos haviam de reunir-se para receber o Espírito Santo. Mas era preciso procurar um substituto para Judas, que se havia enforcado. Quem tomou a iniciativa dessa substituição? Naturalmente o chefe dos Apóstolos, que era S. Pedro. Naqueles dias levantando-se Pedro no meio dos irmãos (e montava a multidão dos que ali se achavam juntos a quase cento e vinte pessoas) disse: Varões irmãos, é necessário que se cumpra a Escritura que o Espírito Santo predisse por bôca de Davi acêrca de Judas... Porque escrito está no livro dos Salmos: Fique deserta a habitação dêles e não haja quem habite nela; e receba outro o seu bispado (Atos 1-15 e 16; 20). É como o presidente de uma associação providenciando para a eleição de um membro da diretoria.

Com a vinda do Divino Espírito Santo, todos receberam o dom das línguas e isto, chamou logo a atenção dos judeus. Era preciso dirigir a palavra à multidão que se encontrava em Jerusalém. Se os Apóstolos não tivessem um chefe, como se saberia quem haveria de dirigir a palavra, se todos estavam bem capacitados para isto, com as luzes do Espírito Santo? Entretanto, não houve nenhuma dúvida. Naquela hora soleníssima em que ia iniciar-se a propagação da Igreja, PEDRO, em companhia dos onze, pôsto em pé, levantou a sua voz e lhes falou assim: Varões da Judéia e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório e com ouvidos atentos percebei as minhas palavras (Atos II-14). Depois de Pedro falar, ninguém lhes falou. E no fim do discurso, os ouvintes ficaram compungidos no seu coração e disseram a Pedro e aos mais Apóstolos: Que faremos nós, varões irmãos? (Atos II-37). A pergunta é feita aos doze, mas é Pedro quem manda, quem orienta, quem esclarece: PEDRO então lhes respondeu: Fazei penitência e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo (Atos II-38). É Pedro assim que dá início com esta primeira pregação, e de uma Maneira brilhante, à obra vastíssima de conquista das almas, que a Igreja havia de exercer através dos séculos: e ficaram agregadas naquele dia perto de três mil pessoas (Atos II-41).

Pouco tempo depois, foram Pedro e João ao templo de Jerusalém, Pedro curou o homem coxo que mendigava à porta do templo chamada Especiosa. Se houvesse perfeita igualdade entre os Apóstolos, como querem os protestantes, era natural que João desta vez tomasse a palavra. Mas foi ainda Pedro quem falou e fêz uma nova pescaria espiritual: Muitos daqueles que tinham ouvido a pregação creram nela e chegou o seu número a cinco mil pessoas (Atos IV-4).

Tendo Pedro. assim esta parte preponderante na pregação, como a pregação dos Apóstolos nos princípios da Igreja devia ser prestigiada pelos milagres, é nos milagres também que Pedro se sobressai: E cada vez se aumentava mais a multidão dos homens e mulheres que criam no Senhor; de maneira que traziam os doentes para as ruas e os punham em leitos e enxergões, afim de que, ao passar PEDRO, cobrisse sequer a sua sombra alguns dêles e ficassem livres das suas enfermidades. Assim mesmo concorriam enxames deles das cidades vizinhas a Jerusalém, trazendo os seus enfermos e os vexados dos espíritos imundos; os quais todos eram curados (Atos V-14 a 16).

E a ação de Pedro foi considerada de tanta importância para a Igreja que, quando êle foi prêso, caindo assim em perigo de morte, pois Tiago já tinha sido sacrificado à fúria de Herodes, logo a Igreja em pêso se pôs a orar continuamente por êle: E Pedro estava guardado na prisão a bom recado. Entretanto pela Igreja se fazia sem cessar oração a Deus por êle (Atos XII-5).

Foi como chefe da Cristandade, que S. Pedro começou a visitar as várias igrejas: Tinha então paz a Igreja por tôda a Judéia e Galiléia e Samaria; e se propagava caminhando no temor do Senhor e estava cheia da consolação do Espírito Santo. Aconteceu, pois, que andando PEDRO VISITANDO A TODOS, chegou aos santos que habitavam em Lida (Atos IX-31 e 32). Era o que se pode chamar UMA VISITA PASTORAL a tôdas as comunidades cristãs.

Bem se mostra ainda a preeminência de Pedro no episódio de Ananias que com sua mulher Safira, vendeu um campo e com fraude usurpou certa porção do preço do campo, consentindo-o sua mulher; e levando uma parte, a pôs AOS PÉS DOS APÓSTOLOS (Atos V-2). Aos pés dos Apóstolos tinham levado a sua oferta e no entanto quem falou por êles foi S. Pedro: E disse Pedro: Ananias, por que tentou Satanás o teu coração, para que tu mentisses ao Espírito Santo e reservasses parte do preço do campo? (Atos V-3).

Da mesma forma, quando Pedro e João foram a Samaria, e Simão, Mago, lhes ofereceu dinheiro para conseguir o poder de impor as mãos fazendo receber o Espírito Santo, João nada disse, porque a Pedro, como chefe, é que competia decidir. Mas Pedro lhe disse: O teu dinheiro pereça contigo, uma vez que tu te persuadiste que o dom de Deus se podia adquirir com dinheiro. Tu não tens parte nem sorte alguma que pretender neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus (Atos VIII-20 e 21)

156. A ATUAÇÃO NO CONCILIO DE JERUSALÉM.

Foi S. Pedro que recebeu um aviso do Céu (Atos X-9 a 16) para atender ao chamado de Cornélio, fazer sua pregação a êle e a tôda sua família e vê-los receber o Espírito Santo. Êste privilégio lhe foi concedido por 2 razões: 1.º porque competia a êle, como chefe da Igreja, ser o primeiro a anunciar o Evangelho aos gentios, como tinha sido o primeiro a anunciá-lo aos judeus, no dia de Pentecostes; 2.º porque devia ser orientado para decidir, como chefe da Igreja, a questão dos judaizantes que haveria de ser proposta no Concílio de Jerusalém. Aí a sua atuação foi decisiva. Coube-lhe, uma vez que era chefe, a primeira palavra. Sua decisão resolveu a controvérsia, porque, depois que êle falou, se acabou qualquer discussão: ENTÃO TÔDA A ASSEMBLÉIA SE CALOU (Atos XV-12). Se Tiago falou depois, foi para apoiar a palavra do chefe: Simão tem contado como Deus primeiro visitou aos gentios, para tomar dêles um povo para o seu nome. E com isto CONCORDAM as palavras dos profetas (Atos XV-14 e 15). E foi dentro da solução já apresentada por S. Pedro, que S. Tiago fêz a sua proposta sôbre o sacrificado aos ídolos, o sangue e as carnes sufocadas etc (Atos XV-20), proposta esta que foi aceita por todos; e foi em nome de todos os apóstolos e presbíteros que a decisão foi tomada: Os Apóstolos e os Presbíteros irmãos, àqueles irmãos convertidos etc (Atos XV-23). Se pelo simples fato de um sócio, embora graduado, numa reunião qualquer, fazer uma proposta e ser esta aceita por todos, já se torna o presidente daquela sessão, então têm razão os protestantes em teimar que S. Tiago foi o presidente do Concílio de Jerusalém...

157. MAIS PROVAS NAS EPISTOLAS.

São inúmeros, portanto, os indícios da primazia de S. Pedro que nós encontramos nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Mas, como acontece com tôda pessoa que tem má vontade em aceitar aquilo que a gente prova, mesmo com abundância de argumentos, os protestantes se mostram INSACIÁVEIS e notam que não é com a mesma freqüência que as Epístolas trazem provas da prioridade de S. Pedro. Mas isto se explica fàcilmente: os Evangelhos e os Atos são livros históricos; procuram contar mais ou menos, com relação aos fatos principais, tudo quanto se passou e aí aparece freqüentemente a figura do líder ou do chefe. Porém as Epístolas são CARTAS diversas escritas de acôrdo com as necessidades do momento, para corrigir determinados abusos, ou para combater certas heresias; são escritos doutrinários que visam sobretudo instruir os homens quanto à fé em Jesus Cristo; é natural que não precisem estar aludindo à autoridade de Pedro; para ensinar-lhes a doutrina do Evangelho, qualquer Apóstolo, por mais humilde que fôsse, estava ótimamente capacitado, uma vez que todos para isto haviam recebido em abundância o Espírito Santo. Suponhamos, por exemplo, uma nação: é natural que os seus historiadores façam alusão freqüentemente ao nome de seu chefe: rei ou presidente da República. Mas pessoas que escrevem cartas, mesmo que sejam pessoas da alta roda, podem muito bem não precisar fazer referências ao chefe da nação.

Embora não falem com tanta freqüência sôbre S. Pedro, as Epístolas se encarregam de aumentar a coleção de argumentos que já temos nos Evangelhos e nos Atos, sôbre a sua primazia.

Por exemplo: por onde é que sabemos que Nosso Senhor deu a S. Pedro uma distinção tôda especial, depois da ressurreição, reservando uma aparição especialmente para êle, para só depois aparecer aos demais Apóstolos? Sabemos isto por S. Lucas (XXIV-34) e também por S. Paulo que no-lo disse com destaque em uma de suas Epístolas: Desde o princípio eu vos ensinei o mesmo que havia aprendido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado e que ressurgiu ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras; e que foi visto POR CEFAS E, DEPOIS DISTO, PELOS ONZE (1.ª Coríntios XV-3 a 5).

Já apontámos, como uma das amostras da importância de S. Pedro, o fato de se nomear Pedro e não os outros, quando se fala sôbre todos os Apóstolos ou sôbre um grupo dêles. S. Paulo faz o mesmo: Acaso não temos nós poder para levar por tôda a parte uma mulher irmã, assim como também os outros Apóstolos, e os irmãos do Senhor e CEFAS? (1.ª Coríntios IX-5).

Para conhecer ainda a grande consideração do Apóstolo S. Paulo para com S. Pedro, basta observar o que aquêle diz em Gálatas I-18. S. Paulo mostra que não teve contacto com nenhum dos Apóstolos para aprender dêles a sua doutrina, mas revela que fêz uma viagem a Jerusalém exclusivamente para ver a Pedro, demorando-se quinze dias em sua companhia. Não precisava aprender dêle a doutrina do Evangelho, pois Jesus Cristo já o havia iluminado, mas precisava honrar o Príncipe dos Apóstolos e acertar com êle os planos para o seu futuro apostolado. Indo a Jerusalém, para ver a Pedro, naturalmente viu também a Tiago que era bispo daquela cidade: Parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco; dali no fim de três anos, vim a Jerusalém POR VER A PEDRO E FIQUEI COM ELE QUINZE DIAS (Gálatas I-17 e 18).

O próprio incidente entre S. Pedro e S. Paulo, a que já nos referimos (n.º 118), tão invocado pelos protestantes para tentar diminuir a autoridade de S. Pedro, serve, ao contrário, para fazer salientar esta mesma autoridade. Se S. Paulo resistiu a S. Pedro, não foi desobedecendo a nenhuma ordem emanada do chefe, nem também discordando da sua doutrina, pois S. Pedro NADA HAVIA ORDENADO, NADA HAVIA DITO; e a doutrina de ambos era a mesma sôbre o assunto, como o era em tudo o mais. S. Pedro limitara-se apenas a retrair-se do convívio com os gentios, para não chocar os judeus que tinham acabado de chegar. S. Paulo viu que êste retraimento iria dar mau resultado. Teve que chamar-lhe a atenção para êste perigo. Segue-se daí que S. Pedro não tivesse a primazia entre os Apóstolos ou não fôsse o chefe da Igreja? Quando o Papai ou a Mamãe ou um Superior estão seguindo um caminho que não está lá muito certo, quem há de tomar coragem e adverti-los, em falta de; outra pessoa que possa fazê-lo, senão os próprios filhos ou inferiores?

Mas por que êste simples fato de retrair-se daqueles com quem tivera convivência se tornou uma QUESTÃO TÃO AGUDA, a ponto de S. Paulo ver aí um grave prejuízo para a Igreja?

Uma pessoa que não tenha grande valor nem posição muito elevada, ninguém está prestando atenção nem ninguém se está incomodando porque esta pessoa conviva ou deixe de conviver com A ou com B. Mas com Pedro foi diferente: bastou que êle se retraísse do convívio com os gentios, para arrastar muita gente com o seu exemplo, inclusive o próprio Barnabé, no momento tão ligado a S. Paulo e que tanto já se havia sobressaído na luta contra os judaizantes. E é interessante notar como S. Paulo acusa a S. Pedro de estar, pelo simples fato de retrair-se da convivência com os gentios, OBRIGANDO-OS a judaizar: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, por que OBRIGAS tu os gentios a judaizar? (Gálatas II-14). Se S. Pedro obrigava, não era com palavras, pois êle nada disse sôbre êste assunto; estava obrigando indiretamente, porque era grande o pêso de seu exemplo, de sua autoridade, como chefe que era, da Igreja. (11)

Muitas provas demos, até agora, da primazia de S. Pedro. Tudo isto, porém, não é nada em comparação com o que vai dizer, com suas palavras eternas e infalíveis, o próprio Divino Mestre; vamos, portanto, analisar a primazia de Pedro na sua genuína fonte, isto é, nas prerrogativas que lhe foram concedidas diretamente pelo próprio Jesus.

TU ÉS PEDRO E SÔBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA

158. SIMÃO RECEBE UM NOVO NOME.

Um dia Nosso Senhor teve ocasião de frisar o contraste entre o homem sábio que EDIFICOU a sua casa sôbre ROCHA; e veio a chuva e trasbordaram os rios e assopraram os ventos e combateram aquela casa, ela não caiu, porque estava FUNDADA sôbre ROCHA (Mateus VII-24 e 25) o homem sem consideração que edificou a sua casa sôbre areia; e veio a chuva e trasbordaram os rios e assopraram, os ventos e combateram aquela casa, e ela caiu e foi grande a sua ruína (Mateus VII-26 e 27).

Ora, Nosso Senhor mesmo nos ensina que a sua obra, fundando e organizando a Igreja, é semelhante à obra de um homem que levanta um edifício: EDIFICAREI a minha Igreja (Mateus XVI-18).

Foi por isto que Éle, logo quando viu a Pedro pela primeira vez, depois de olhar para o seu futuro Apóstolo de uma maneira tão significativa e profunda, que o Evangelista registrou êste olhar, lhe mudou o nome de Simão para Cefas. E Jesus, depois de OLHAR para êle, disse: Tu és Simão, filho de Jona; tu serás chamado Cefas, que quer dizer Pedro (João 1-42).

Se Jesus fôsse um simples homem, não deixaria de causar estranheza o fato de um homem ver a outro pela primeira vez e ir imediatamente mudando o seu nome. Mas Jesus era Deus. Conhecia perfeitamente todos os segredos das almas e todos os acontecimentos do futuro. Sabia muito bem o que ia fazer. E também não fazia nenhuma ação inútil, nem sem significação.

Nem era a primeira vez, na Bíblia, que Deus mudava o nome de uma pessoa, antes de lhe confiar uma missão importante. O mesmo acontecera com Abraão. A princípio êle se chamava Abrão que quer dizer pai excelso, ou que pensa em coisas excelsas. Deus lhe mudou o nome para Abraão, isto é, pai de uma excelsa multidão, ou pai de muitos excelsos: Daqui em diante não te chamarás mais Abrão; mas chamar-te-ás Abraão, PORQUE EU TE TENHO DESTINADO PARA PAI DE MUITAS GENTES. E farei crescer a tua posteridade infinitamente e te farei chefe das nações e de ti sairão reis (Gênesis XVII-5 e 6). "O nome de Abraão, observa S. João Crisóstomo, é como a coluna em que Deus inscreve para a eternidade a promessa da posteridade e de uma prole fiel e eleita".

Ora, na língua que Nosso Senhor falava, ou seja, o aramaico ou sírio-caldaico, a mesma palavra KEPHA com que Nosso Senhor designou. a Simão, tanto quer dizer Pedro, como quer dizer pedra, sem sofrer a menor alteração. O mesmo acontece na língua francesa em que PIERRE serve para designar um homem chamado Pedro, como serve também para significar pedra. Um caso semelhante acontece na nossa língua, em que um homem pode ser conhecido por Rocha (Sr. Rocha, Dr. Rocha) e a mesma palavra Rocha quer dizer pedra.

Por isto, tanto o Evangelista podia ter dito: tu serás chamado Cefas que quer dizer Pedro, como podia ter dito: tu serás chamado Cefas que quer dizer pedra; porque Cefas significava uma coisa e outra. Preferiu dizer que Cefas significa Pedro, para mostrar a que nome próprio de pessoa correspondia o nome impôsto a Simão.

Jesus não explicou na mesma hora qual o motivo por que fazia aquela mudança de nome; era cedo ainda para isto, deixou para explicá-lo solenemente mais tarde, como verdadeiro prêmio de uma bela profissão de fé.

159. PEDRO, PEDRA FUNDAMENTAL DA IGREJA.

Um dia Jesus faz aos seus discípulos uma pergunta; quer saber o que é que dizem os homens a respeito dÊle: Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? (Mateus XVI-13). E êles responderam: Uns dizem que João Batista, mas outros que Elias, e outros que Jeremias ou algum dos profetas (Mateus XVI-14). Mas Jesus lhes perguntou: E vós quem dizeis que sou eu? (Mateus XVI-16). A questão foi, portanto, apresentada por Jesus de propósito, de ânimo pensado, afim de provocar a confissão de Pedro. Os outros Apóstolos calam e hesitam, com receio de dizer alguma coisa que não seja bem expressiva, que não seja inteiramente exata. Pedro, porém, o mais fervoroso, o mais decidido, o mais ilustrado por Deus, antes que alguém dê uma resposta fraca e inadequada e falando com a convicção de que se reveste o bom aluno quando sabe muito bem qual a resposta que quer o seu mestre, responde por todos êles: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo (Mateus XVI-16). Tu és o Cristo, ou seja, és o Messias Prometido. És mais do que isto: és o Filho de Deus vivo, Segunda Pessoa igual ao Pai, Filho de Deus por natureza.

Cristo gostou imensamente da resposta de Pedro, a qual era um sinal de que Deus iluminava de maneira tôda particular aquêle espírito simples e bem formado de rude pescador. E já que Pedro disse tão brilhantemente quem é Cristo, qual é a sua missão, qual é a sua grandeza, Jesus Cristo vai dizer, em retribuição, quem é Pedro, qual o seu cargo, quais são as suas prerrogativas. Pedro é a pedra sôbre a qual Jesus vai construir a sua Igreja; vai ter nesta Igreja o supremo poder, pois Cristo lhe dará as chaves do Reino dos Céus, com plenos poderes para ligar e desligar.

Desde que, como dissemos, na língua que Jesus falava, a mesma palavra KEPHA quer dizer Pedro e quer dizer pedra, percebe-se perfeitamente o trocadilho usado por Nosso Senhor: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja, trocadilho êste que se exprime exatamente na língua francesa:

Tu és PIERRE et sur cette PIERRE je bâtirai mon Église.

O siríaco é uma língua irmã do sírio-caldaico ou aramaico, que Jesus falou, de modo que diz o comentador M. J. Lagrange: "As versões siríacas têm muito grande importância para a exegese do Novo Testamento, porque de um certo modo nos fornecem a expressão primitiva dos catequistas e sobretudo das palavras de Nosso Senhor." Pois bem, as versões siríacas, tanto a chamada Peshitta que é usada oficialmente pelos cristãos sírios, católicos e acatólicos, como a chamada Cureton pelo nome daquele que a descobriu e divulgou, trazem a mesma forma para as 2 palavras: Pedro e pedra; pois no siríaco (língua, repetimos, muito semelhante àquela que Jesus falou) KIPHA é Pedro e KIPHA é pedra. Na versão persa e na etiópica também é exatamente a mesma palavra para designar Pedro e para designar pedra, mostrando-se assim o trocadilho tão perfeitamente como se mostra no francês.

Embora a nossa língua não exprima com tanta perfeição, como o francês, o trocadilho usado por Nosso Senhor, todavia quem lê o texto português o percebe logo fàcilmente, pois entre nós até as crianças sabem que Pedro quer dizer — pedra. Também no grego o substantivo apelativo PÉTROS quer dizer pedra. Veja-se o dicionário de Bailly que assinala pedra, rochedo (pierre, rocher) como os 2 únicos significados desta palavra. Se o intérprete grego chamou a Pedro PÉTROS e não PÉTRA, é porque no grego os nomes próprios masculinos terminam em regra geral em as, es, is, os, us.

O que se deu na língua falada por Nosso Senhor foi o que se teria dado na nossa língua, p. ex., se um homem tivesse impôsto a outro o nome de Rocha, para depois dizer-lhe abertamente: Tu és ROCHA e sôbre esta ROCHA é que eu vou edificar a associação que quero instituir. Sendo que nos lábios de Nosso Senhor o trocadilho ainda foi mais perfeito, porque em sírio-caldaico ou aramaico a palavra KEPHA é sempre masculina, ou signifique Pedro, ou signifique pedra: Tu és KEPHA e sôbre ESTE KEPHA edificarei a minha Igreja.

É natural a luta dos hereges para tentar desfazer o valor dêste texto, de suma importância para se conhecer qual é a verdadeira Igreja, porque, como diz o teólogo acatólico Palmer: "A doutrina a respeito do primado do Bispo de Roma sôbre a Igreja Universal é o eixo, em tôrno do qual giram tôdas as controvérsias entre a Igreja Romana e as demais Igrejas, porque se Cristo Nosso Senhor instituiu um primado ex-ofício de algum Bispo na Igreja Católica, primado êste que deva perdurar, e se êste primado o herdou o Bispo de Roma, daí se segue que a Igreja Universal se reduz a uma só Igreja, de obediência romana; e os concílios, doutrina e tradições desta Igreja, são revestidos de autoridade para todo o mundo cristão" (p. 7 de Romano Pontífice c. 1).

Nada mais compreensível, portanto, do que o esfôrço dos protestantes, procurando violentar o texto, querendo afirmar que aquelas palavras se referem a todos os Apóstolos, pelo fato de ter falado Pedro em nome de todos êles; — ou que se referem à fé, e não a Pedro; —ou que aquela pedra, de que aí se trata não é Pedro, mas o próprio Cristo.

Mas Nosso Senhor faz tudo sempre bem feito. Êle tomou tantas precauções para mostrar que se referia diretamente e exclusivamente à pessoa de Pedro, que, como observa o Cardeal Mazzella, "os notários, quando fazem documentos públicos e querem designar uma certa e determinada pessoa, não usam de mais minúcias do que usou Jesus Cristo".

Bem-aventurado És SIMÃO, FILHO DE JOÃO (Mateus XVI-17). Cristo lhe dá o nome de nascimento e lhe acrescenta o nome do pai, para não se confundir com outros; porque não foi a carne e sangue quem TE revelou, mais sim meu Pai que está nos Céus — fala numa revelação oculta feita diretamente a Pedro;

Cristo vai fazer também a Pedro uma revelação e continua insistentemente tratando por TU, insistentemente mostrando que fala só a Pedro: Também eu TE digo que TU ÉS Pedro (Mateus XVI-18) — para que ainda não se confunda com nenhum outro, acrescenta-lhe o nome especial que deu a Simão e vai explicar o motivo por que lhe impôs êste nome;

e sôbre ESTA PEDRA edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela — a palavra ESTA mostra claramente que Êle se refere a um têrmo usado anteriormente, que no caso é o têrmo Pedro que quer dizer: Pedra (Pedro e pedra eram a mesmíssima palavra na língua que Jesus estava falando);

e continua Cristo dirigindo-se exclusivamente a Pedro, como se prova pelo contínuo emprêgo de TU: E eu TE darei as chaves do reino dos Céus; e tudo o que LIGARES sôbre a terra será ligado também nos Céus, tudo o que DESATARES sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19).

Os protestantes passaram muito tempo sustentando que na frase —sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja — esta pedra se referia a Cristo e não a Pedro. Depois é que muitos dêles resolveram desistir dessa interpretação, por êles mesmos considerada antigramatical e por demais torcida e ilógica.

No meio de um discurso que se refere, todo êle, a Pedro (Bem-aventurado és... Eu te digo...,Tu és Pedro... Eu te darei... Tudo quanto ligares) aquela expressão — sôbre esta pedra — só podia referir-se a Simão, que por Cristo foi chamado especialmente KEPHA, isto é, pedra. Do contrário Cristo estaria ludibriando a S. Pedro; deu-lhe o nome de pedra, mas Pedro não o seria. Cristo o teria chamado pedra só para levá-lo na troça; na hora de explicar por que motivo lhe dera êste nome, teria dito que a pedra era só Éle, Cristo e ninguém mais.

Além disto, para justificar a sua interpretação, os protestantes são obrigados a inventar uma hipótese que não consta absolutamente do texto, ou seja, que Jesus dizendo — esta pedra — APONTOU COM O DEDO PARA SI PRÓPRIO. Além da falta de nexo, de ilação entre as palavras: Eu te digo que TU és Pedro — e as outras: sôbre esta pedra que sou eu (é claro que devia ser: que és tu) edificarei a minha Igreja; como provam os protestantes, os quais admitem só o que está na Bíblia, que Cristo apontou com o dedo para si próprio?

Respondem êles: Isto não é preciso provar, porque também Cristo disse: Desfazei êste templo e eu o levantarei em três dias (João II-19), certamente apontou para si próprio e o Evangelista não o diz.

— Sim, o Evangelista não disse que Cristo apontou para si próprio, porém fêz ainda melhor: explicou bem claramente a que templo se referia Jesus: Mas Êle falava do templo de seu corpo (João II-21). Se Cristo dizendo — sôbre esta pedra — se referisse a si próprio, S. Mateus deveria explicá-lo claramente, porque dentro daquelas palavras tôdas dirigidas exclusivamente a S. Pedro, não haveria ninguém de bom senso que fôsse capaz de decifrar semelhante enigma.

160. UM TEXTO QUE NÃO VEM AO CASO.

Para confirmar a sua forçadíssima interpretação, surgem vitoriosamente os protestantes com um texto de S. Paulo: E esta pedra era Cristo (1.ª Coríntios X-4).

Eis aí um GRANDESSÍSSIMO TRUQUE, que não honra absolutamente a quem inventou, porque isto é nada mais nada menos do que fazer uma idéia muito baixa da inteligência de seus ouvintes ou de seus leitores. Tratando-se, como se trata, de uma discussão a respeito da frase — sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja — e aparecendo alguém com a solução: esta pedra aí é Cristo, porque o disse S. Paulo — a pessoa que ouça esta explicação pelo rádio ou a encontre num livro qualquer e não tenha à mão o texto completo de S. Paulo (porque o protestante tem o cuidado de não lho apresentar), que é que fica pensando? É que S. Paulo está dizendo aos Coríntios mais ou menos o seguinte: Vocês não se lembram daquele texto de S. Mateus: sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja? Pois bem, aquela pedra era Cristo.

Mas vá ver o texto de S. Paulo. Dará uma bonita gargalhada, vendo a que ponto chega um protestante, quando está incomodado com uma palavra muito clara de Jesus. A mesma gargalhada que dá a professôra, quando vai começando a contar uma história: Era uma vez um rei; êste rei chamava-se Salomão; e o meninozinho interrompe: Não, professôra; o rei chamava-se Alexandre; e muito sério, muito entusiasmado, mostra à professôra um livro no qual êle prova, com letras de fôrma, que Alexandre era o nome do rei.

— Bem, meu filhinho, êsse rei de que fala o seu livro se chamava Alexandre, não há dúvida, mas a história que eu ia contar não é a mesma que está no seu livro, daí a diferença.

É justamente o caso da frase: E esta pedra era Cristo (1.ª Coríntios X-4). A história que S. Paulo estava contando era muito diferente.

Vejamos o texto todo de S. Paulo. Ele faz uma alegoria mostrando que aquilo que aconteceu com os judeus no deserto, sobretudo na passagem do Mar Vermelho (todos passaram o mar — 1.ª Coríntios X-1) era figura dos mistérios do Cristianismo: estas coisas foram feitas em FIGURA de nós outros (1.ª Coríntios X-6).

A passagem do Mar Vermelho, pela qual se salvaram os judeus das garras do exército de Faraó, simbolizava o Batismo, em que ficam submergidos os nossos pecados, assim como ali os egípcios ficaram submersos (todos foram batizados debaixo da conduta de Moisés na nuvem e no mar — 1.ª Coríntios X-2); Moisés neste caso representa aquêle que ministra o batismo. A nuvem miraculosa que os iluminava representava o Espírito Santo. O maná recebido do céu era uma figura da SS.ma Eucaristia (todos comeram dum mesmo manjar espiritual —1.ª Coríntios X-3). A pedra, donde brotou a água era Cristo, golpeado pelos judeus na sua cruz, mas donde jorram as águas da graça: Se alguém tem sêde, venha a mim e beba (João VII-37). O que beber da água que eu lhe hei de dar, nunca jamais terá sêde, mas a água que eu lhe der virá a ser nêle uma fonte dágua que salte para a vida eterna (João IV-13 e 14). Da crença dos rabinos, de que o rochedo donde jorrou a água seguira os judeus no deserto, para dessedentá-los, S. Paulo se aproveita para dizer que a graça de Cristo já os seguia, confortando-os e fortalecendo-os, pois tôda graça recebida pelos homens depois do pecado de Adão, já era graça de Cristo, que havia de ser merecida por Cristo na cruz: E todos beberam duma mesma bebida espiritual, porque todos bebiam da pedra misteriosa que os seguia E ESTA PEDRA ERA CRISTO (1.ª Coríntios X-4).

Desta alegoria se serve S. Paulo para fazer uma exortação. Apesar de terem recebido tão grandes favores do Céu, nem todos os judeus souberam corresponder à graça e por isto muitos foram castigados: de muitos dêles Deus se não agradou, pelo que foram prostrados no deserto (1.ª Coríntios X-5). Assim também os cristãos, que tão excelsos benefícios receberam do Céu, maiores ainda do que os recebidos pelos judeus, os quais eram apenas figura dos mistérios cristãos, devem ter cuidado em não abusar das graças divinas: Mas estas coisas foram feitas em figura de nós outros, porque não sejamos cobiçosos de coisas más, como também êles as cobiçaram (1.ª Coríntios X-6).

Seguem as exortações de S. Paulo: Nem vos façais idólatras como alguns dêles (1.a Coríntios X-7) nem forniquemos, como alguns dêles fornicaram e morreram em um dia vinte e três mil; nem tentemos a Cristo, como alguns dêles O tentaram e pereceram pelas mordeduras das serpentes, nem murmureis, como murmuraram alguns dêles e foram mortos pelo exterminador (1.ª Coríntios X-8 a 10). E S. Paulo termina a sua exortação dizendo: Tôdas estas coisas, porém, lhes aconteciam em figura, mas foram escritas para ESCARMENTO de nós outros (1.° Coríntios X-11) para logo, em seguida, acrescentar: Aquêle, pois, que crê estar em pé veja não caia (1.° Coríntios X-12).

Não pode haver prova mais clara, digamos entre parêntesis, para mostrar que S. Paulo não adotava a teoria protestante de que aquêle que crê em Cristo está salvo infalivelmente, não se pode perder jamais.

Porém, voltando ao nosso assunto: que relação tem tôda esta história com o cargo de chefe da Igreja confiado a S. Pedro? Eis aí uma das "maravilhas" da interpretação protestante. Cristo chamou a Pedro pedra fundamental da Igreja, constituindo-o, portanto, chefe da mesma. Tudo - ia muito bem, até o momento em que S. Paulo se lembrou de dizer que aquela pedra, donde jorrou a água no deserto, era uma FIGURA, uma REPRESENTAÇÃO de Cristo. Desde êste momento S. Pedro tinha que ser destituído de seu cargo, não podia mais ser considerado a pedra fundamental da Igreja que Cristo edificou.

E argumento é verdadeiramente infantil. Se fôsse um meninozinho de escola que assim argumentasse, se perdoaria fàcilmente, seriam coisas de menino. Mas num intérprete das Sagradas Letras, cheio de sabença e de erudição, que quer demonstrar que a Igreja errou durante 20 séculos e ainda erra hoje na interpretação dêste texto, com franqueza, isto é simplesmente imperdoável.

161. CRISTO É PEDRA E PEDRO É PEDRA.

Mas, dirão os protestantes, o Sr. não brinque conosco, porque nós apresentamos textos em que se demonstra que a pedra fundamental da Igreja é o próprio Cristo. E lá vão os textos:

O próprio S. Pedro disse, referindo-se a Cristo: Esta é A PEDRA que foi reprovada por vós, arquitetos, que foi posta pela PRIMEIRA FUNDAMENTAL do ângulo (Atos IV-11). E o mesmo S. Pedro diz na sua 1.ª Epístola, também referindo-se a Jesus: Chegai-vos para Êle como para a PEDRA VIVA que os homens tinham, sim, rejeitado, mas que Deus escolheu e honrou; também SÔBRE ELA vós mesmos, como pedras vivas, SEDE EDIFICADOS em casa espiritual, em sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, que sejam aceitos a Deus por Jesus Cristo. Por cuja causa se acha ,na Escritura: Eis aí ponho eu em Sitio a principal PEDRA DO ÂNGULO, escolhida, preciosa; e O QUE CRER NELA NÃO SERÁ CONFUNDIDO (1.ª Pedro II-4 a 6). S. Pedro não faz mais que repetir o que dissera Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A PEDRA que fôra rejeitada pelos que edificavam, essa foi posta por cabeça do ângulo? Pelo Senhor foi feito isto, e é coisa maravilhosa nos nossos olhos (Mateus XXI-42). E S. Paulo diz na sua Epístola aos Efésios: Sois cidadãos dos santos e domésticos de Deus EDIFICADOS sôbre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas, SENDO O MESMO JESUS CRISTO A PRINCIPAL PEDRA ANGULAR (Efésios II-19 e 20).

— Êstes textos servem, não há dúvida, para armar efeito. Mas quem tenha alguma noção do que é realmente interpretação da Bíblia, da qual NENHUM TEXTO PODE SER DESPREZADO, nota logo a anormalidade que há em tudo isto: como é que, em vez de dar uma explicação correta, lógica, legítima e convincente de um texto tão claro (Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja), o intérprete vai buscar outras passagens da Bíblia para tentar destruir êste texto? A gente estuda um versículo à luz de outras passagens bíblicas PARA MELHOR EXPLICÁ-LO, e não para deixá-lo sem explicação.

Estas citações e mais outras que arranjassem os protestantes não conseguem destruir a palavra de Cristo dita a S. Pedro, pois uma passagem da Bíblia não destrói a outra, serve, sim, para melhor ilustrá-la. Cristo chamando a Pedro pedra da Igreja quis chamar a Pedro o SUSTENTÁCULO DESTA IGREJA. Isto não impede de ser Cristo também O SUSTENTÁCULO DA MESMA IGREJA, pois Pedro, sendo homem, fraco, imperfeito, limitado como todos os homens, precisava por sua vez de um APOIO também, e só Deus, ou por outras palavras, só Jesus Cristo que era Deus, jamais criatura alguma poderia sustentá-lo. Cristo sustenta Pedro e Pedro sustenta a Igreja; logo, Cristo também sustenta a Igreja.

A própria metáfora usada por Cristo obriga a esta conclusão. A gente costuma dizer e Ele também disse que um edifício está sólido quando está construído sôbre a rocha. Mas esta própria rocha necessita de um ponto de apoio: tem que estar encravada na TERRA FIRME; se pusermos esta rocha sustentada por cordas bambas, tudo se desmorona.

Fundando a sua Igreja, Cristo fundou uma sociedade que devia ser constituída por homens, e homens de tôdas as raças, de tôdas as condições sociais, de todos os graus de cultura e também de todos os tempos. Ora, nós sabemos como são os homens, como divergem, como discutem, como têm temperamentos diversos e diversos modos de ver as coisas também. Vemos pelas Escrituras, p. ex., que entre o próprio Paulo e Barnabé houve divergência e findaram separando-se: E houve TAL DESAVENÇA entre êles, que se separaram um do outro; e assim Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre; e Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos irmãos à graça de Deus (Atos XV-39 e 40). É uma pequena amostra do que pode acontecer mesmo entre pessoas muito santas e que professam a mesma fé, a mesma doutrina. A Igreja havia de ser uma grande família, um grande reino, um grande povo; ora, para haver união num povo, num reino, numa família, é preciso que haja um CHEFE, a quem todos atendam, a quem todos obedeçam e 'em tôrno do qual se unam, nos bons e nos maus momentos. Se cada um tem o direito de opinar, de agir, como bem entende, nasce a desunião, a desagregação, a anarquia e tudo vai de água abaixo, pois a união é que faz a fôrça, ou para usarmos as palavras do próprio Jesus: Todo o reino dividido contra si mesmo será desolado, e tôda a cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá (Mateus XII-25). Não podemos ter melhor exemplo da falta que faz um chefe do que o próprio Protestantismo. Não têm todos à mão a mesma Bíblia? Não consideram todos a Jesus Cristo como seu chefe? E entretanto a balbúrdia que há entre os protestantes é verdadeiramente infernal. É pena que não tenhamos espaço para reproduzir aqui todos os desaforos com que se brindavam reciprocamente os Primeiros Reformadores, e tudo quanto as seitas protestantes têm dito, com tão notável acrimônia, urnas das outras. Isto daria muitos e grossos volumes. E o Protestantismo só tem 4 séculos. O simples enunciado das palavras de Cristo: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei A MINHA IGREJA (Mateus XVI-18) contém já em si abertamente a mais formal condenação do Protestantismo. Cristo não disse AS MINHAS IGREJAS, mas a minha Igreja, porque a sua Igreja é UMA SÓ. (12) Uma Igreja firme, sustentada pela rocha havia de ser necessàriamente uma Igreja que não se dividisse em centenas de igrejinhas, distribuindo-se reciprocamente a pecha de heréticas e ensinando as mais desencontradas doutrinas, como é o que acontece entre as seitas protestantes. Todos os nossos irmãos separados dizem que o seu chefe é Jesus Cristo, mas quando Êste lhes fala pelas Escrituras, cada um se julga com pleno direito de torcer a seu modo, de falsear as palavras do Mestre, por mais claras que elas sejam, e não há ninguém entre êles, que tenha autoridade bastante para coibir semelhantes abusos, porque o Protestantismo nasceu precisamente disto: da revolta contra qualquer autoridade religiosa. A discussão estava animada no Concílio de Jerusalém, Pedro falou e logo se calou tôda a assembléia. No Protestantismo a algazarra é cada vez maior, porque falta um Pedro para decidir as suas questões. E mesmo que Jesus Cristo baixasse à terra, em pessoa, visivelmente, para exercer esta função, seria inútil: o livre exame se encarregaria de deturpar novamente as suas palavras, como tantas e tantas vêzes já tem deturpado aquelas que Ele proferiu outrora na Palestina.

Jesus bem conhecia os homens e sabia a que desagregação chegaria a sua única Igreja, se todos fôssem independentes e não tivessem um chefe. Não é que Deus precise das criaturas para fazer as suas obras, absolutamente não!; mas Ele sempre quis dar às criaturas a honra de associá-las à sua ação neste mundo. Não costuma multiplicar os milagres, quando um efeito pode ser conseguido por meios humanos; e se já pode ser considerada um grande milagre na História esta unidade maravilhosa que vem mantendo universalmente, através de 20 séculos, a Igreja Católica, sempre congregada em tôrno de um homem sustentado por Cristo, uma série incalculável de milagres (quase diríamos: um milagre pára cada pessoa) seria a Igreja de Cristo manter a sua unidade, cada um agindo, pensando, interpretando a Bíblia como melhor lhe parecesse.

Quando dizemos, portanto, que Cristo fêz de S. Pedro e seus sucessores o sustentáculo da Igreja, não queremos dizer que o Papa se torna um Deus, nem um super-homem. Continua a ser um homem fraco, imperfeito, sujeito ao pecado, como são todos os homens, mas um homem destinado a exercer uma missão importantíssima na Igreja de Deus, sôbre a qual vela muito particularmente a Divina Providência, pois Deus não faria uma obra que lhe é muito cara, para a relegar ao abandono; se Deus sustenta o Papa afim de que conserve sempre nos momentos decisivos a fé legítima, é porque êsté é o único meio, dentro dos planos divinos, de conservar a Igreja una e fiel à sua missão. (13) E se para tão alto cargo Cristo escolheu a Pedro, um rude pescador, que O havia de negar, que, ao lado de uma vontade firme e de uma fé ardorosa, dava provas também às vêzes de fraqueza e de ignorância, é porque as coisas fracas do mundo escolheu Deus para confundir as fortes; e as coisas vis e desprezíveis do mundo escolheu Deus, e aquelas que não são, para destruir as que são (1.ª Coríntios I-27 e 28).

Cristo fazendo de Pedro o sustentáculo da Igreja, isto não destrói a outra verdade: e é que Cristo é numa ordem ainda mais elevada, o sustentáculo desta mesma Igreja. Tudo quanto de bom, de grande, de honroso possuem as criaturas, Deus o possui de uma maneira eminente; tôda prerrogativa das criaturas é participação das perfeições de Deus.

Por conseguinte, a argumentação dos protestantes neste ponto se mostra por demasiado estreita e ingênua.

Vejamos, por exemplo: Nós sabemos por S. Mateus (Mateus V-1 e 2) que Jesus disse aos seus discípulos: Vós sois A LUZ DO MUNDO (Mateus V-14). Ora, segundo o modo protestante de argumentar, apesar de Nosso Senhor falar tão claramente, êles hão de dizer: Não; não é exato; os discípulos de Cristo não podem ser a luz do mundo. Veja-se, por exemplo, em S. João: E outra vez lhes falou Jesus, dizendo: Eu sou A LUZ DO MUNDO (João VIII-12). Logo, dirão triunfalmente os protestantes, está provado que quem é a luz do mundo não são os seus discípulos, é o próprio Cristo.

— Mas isto é uma verdadeira infantilidade. Se os discípulos de Cristo iluminam o mundo com a sua doutrina, quem foi que os iluminou, quem lhes ensinou esta doutrina luminosa? Não foi o próprio Cristo? Iluminados por Cristo, iluminam o mundo. E assim não há nenhuma contradição em dizer-se que êles são a luz do mundo e dizer-se que Cristo é a luz do mundo também.

Honrarás a teu pai e a tua mãe (Êxodo XX-12; Mateus XIX-19). Ouve a teu pai que te gerou; e não desprezes a tua mãe quando fôr velha (Provérbios XXIII-22). Maldito o que não honra a seu pai e a sua mãe (Deuteronômio XXVII-16). Que se diria do filho que dissesse a seu progenitor: não te reconheço como meu pai? Iria certamente de encontro ao mandamento divino. Entretanto, Nosso Senhor disse no Evangelho: A NINGUÉM CHAMEIS PAI VOSSO sôbre a terra; porque um só é o vosso Pai que está nos Céus (Mateus XXIII-9). Que quer dizer Nosso Senhor com isto? Quer dizer que não devemos pensar como os pagãos e os ateus, que encaram o pai terreno como único autor de seus dias, como se êste pai terreno que os criou, que os alimentou, que lhes deu a educação fôsse a única Providência com que contam aqui na terra. O nosso pai terreno nos gerou, mas a geração só foi possível, porque Deus criou do nada a nossa alma. Os bens que recebemos dos pais nos vieram de Deus, por intermédio dêles. Assim Deus é quem tem em sumo grau e por excelência o privilégio da paternidade; é dÊle que tôda a paternidade toma o nome nos Céus e na terra (Efésios III-15), como diz S. Paulo. O que não impede os pais terrenos de terem direito ao carinho, às homenagens, à submissão e à obediência de seus filhos.

S. Paulo diz a Timóteo que só Deus possui a imortalidade: O Rei dos reis e o Senhor dos senhores, Aquêle que, só, possui a imortalidade (1.º Timóteo VI-15 e 16). Os Adventistas do 7.º dia querem basear-se neste texto para afirmar que a alma humana não é imortal, ensinando que a alma fica adormecida, até a segunda vinda de Cristo. Basta ler a parábola de Lázaro e do mau rico para se ver que êles não têm razão: Ora, sucedeu morrer êste mendigo que foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. E morreu também o rico e foi sepultado no inferno (Lucas XVI-22). E segue a história com um diálogo entre êles. Trata-se de uma parábola, é verdade, mas Nosso Senhor nunca ensinou parábolas para lançar confusão nos espíritos e sim para ensinar com precisão a doutrina verdadeira. O que é certo, portanto, é que do fato de se dizer que só Deus possui a imortalidade não se segue que a nossa alma, nem que os anjos não sejam imortais. Só Deus possui a imortalidade por si mesmo, por uma exigência de sua própria natureza divina. A alma e os anjos possuem a imortalidade, simplesmente porque Deus quis fazê-los imortais; quis fazê-los também participar da imortalidade, que é um de seus divinos atributos.

Um dia, um homem disse a Jesus: Bom mestre, que devo eu fazer para alcançar a vida eterna? (Marcos X-17). Nosso Senhor, numa velada queixa àquele homem que O tinha na conta de mestre, mas ainda não cria na sua divindade, lhe falou assim: Por que me chamas tu bom? NINGUÉM É BOM senão só DEUS (Marcos X-18). Segue-se daí que nenhum homem pode ser chamado bom? Não se segue; porque a própria Bíblia se encarrega de chamar bons a alguns homens: Vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o seu sol sôbre BONS e maus (Mateus V-45). O homem Bom do bom tesouro tira boas coisas (Mateus XII-35). Muito bem, servo Bom e fiel (Mateus XXV-21). Um varão, por nome José, que era senador, varão Bom e justo (Lucas XXIII-50). De Barnabé se diz nos Atos: Era varão BOM e cheio do Espírito Santo (Atos XI-24).

Há contradição aí? Absolutamente não; quando se diz: êste homem é bom, a palavra não tem um sentido tão elevado, tão perfeito, tão absoluto, como quando se diz: Deus é bom. Deus é bom, quer dizer, Deus é a fonte de tôda a bondade, é a própria bondade em si mesmo. Um homem é bom, porque participa, como criatura, da bondade de Deus; tem a bondade que já foi o próprio Senhor quem lhe deu.

S. Paulo diz que só Deus é sábio: A Deus que, só, é sábio, a Ele por meio de Jesus Cristo seja tributada honra e glória por todos os séculos dos séculos (Romanos XVI-27). Assim termina S. Paulo a sua Epístola aos Romanos. Entretanto, oito versículos atrás, ele tinha dito aos fiéis: Quero que vós sejais SÁBIOS no bem (Romanos XVI-19). Os homens podem ser sábios; e no entanto só Deus é sábio, porque tôda sabedoria vem de Deus.

Ainda mais; diz S. Paulo: A Deus só, seja HONRA e GLÓRIA pelos séculos dos séculos (1.ª Timóteo 1-17). Entretanto, o próprio S. Paulo diz na Epístola aos Romanos: A GLÓRIA e a HONRA e a paz será dada a todo obrador do bem, ao Judeu primeiramente e ao Grego (Romanos II-10). Que se conclui daí? Que a honra e a glória que recebem os santos, aquêles que nos deram belos exemplos de virtudes, revertem, em última análise, em honra e glória a Deus, sem cuja graça não teriam conseguido a virtude. Daí se vê, diga-se de passagem, como é estreita a mentalidade dos protestantes, os quais acham que a honra por nós prestada a Maria SS.ma, sublime exemplo de santidade e mãe de Jesus Cristo que é Deus, e aos santos que também realizaram maravilhas em matéria de virtude simplesmente porque Deus os enriqueceu com a sua graça, rouba alguma coisa à honra e à glória que prestamos a Deus, fonte de tôda virtude, de tôda bondade, de tôda perfeição. Como se elogiar e exaltar os quadros belíssimos que vemos numa exposição de arte roubasse alguma coisa ou não fôsse antes uma exaltação ao grande artista que os produziu. E a virtude nos santos é, afinal de contas, obra da graça de Deus; e, se exigiu a cooperação humana, foi esta própria graça que os ajudou a cooperar.

Pelo que vimos, a Bíblia nos diz que só Deus é pai, só Deus possui a imortalidade, só Deus é bom, só Deus é sábio, só a Ele deve ser tributada honra e glória. Isto não impede a própria Bíblia de chamar a um homem de pai, de ensinar a imortalidade da alma, de chamar bons ou sábios os homens, de dizer que alguns dêles merecem honra e glória.

Assim também, se Cristo disse a Pedro (e só a Pedro, não a Tiago, nem a João, nem a Paulo) que ele era a pedra sôbre a qual ia fundar a sua Igreja, isto não obsta a que o próprio Cristo seja apontado, num sentido ainda mais elevado, como a pedra angular desta mesma Igreja. Ninguém seria tão louco a ponto de pensar que um homem pudesse sustentar e manter a Igreja Universal sempre firme, sempre una, sempre livre de cair na heresia, sem um auxílio e proteção especialíssima de Deus; e êste auxílio, Cristo prometeu que o daria até o fim do mundo. E dizer que a Igreja não pode ter um chefe aqui na terra pelo simples fato de dizer a Bíblia que Cristo é a cabeça da Igreja, porque um corpo não pode ter duas cabeças, seria o mesmo disparate que dizer que não podemos ter um pai humano aqui na terra pelo fato de ser Deus o nosso Pai, porque uma pessoa não pode ter dois pais no mesmo tempo.

Existem na Bíblia várias metáforas, várias comparações. Não se pode absolutamente estabelecer um nexo sistemático, uma ligação entre tôdas elas. Seria cair no grave êrro de querer materializar por demais as idéias. A metáfora é um meio, não um fim; serve para realçar, fazer compreender melhor a idéia que se tem em vista naquele momento. Depois noutra ocasião se usa outra metáfora que se considera mais oportuna, porém sem compromisso algum de relacioná-la com as metáforas usadas anteriormente. Seria ridículo, p. ex., se alguém se pusesse a dizer: Não é certo que Cristo é a pedra angular que sustenta o edifício da Igreja? como é que Ele diz: Eu sou a porta (João X-9) ? Nosso Senhor não nos compara com os ramos da árvore (Eu sou a videira e vós outros as varas — João XV-5) ? como é que nos considera também como árvores (tôda a árvore boa dá bons frutos, e a má árvore dá maus frutos — Mateus VII-17) ? Nosso Senhor não é o pastor (Eu sou o bom pastor — João X-11) ? como é que ao mesmo tempo é chamado um cordeiro (Eis aqui o cordeiro de Deus — João I-29)? São diversas metáforas, usadas de acôrdo com a idéia que se quer salientar precisamente naquela ocasião. Foi justamênte o que se deu com esta metáfora: pedra.

Davi nos seus Salmos aplica êste nome de pedra ao Messias Prometido: A PEDRA que desprezaram os edificadores, esta foi posta por cabeça do ângulo. Pelo Senhor foi feito isto, e é coisa admirável nos nossos olhos (Salmos CXVII-22 e 23). O profeta Isaías fala do mesmo modo a respeito do Messias: Eis aqui estou eu que vou a lançar nos fundamentos de Sião uma PEDRA, uma pedra aprovada, ANGULAR, preciosa (Isaías XXVIII-16). Ora, Nosso Senhor mostra no Evangelho que nÊle se cumprem estas palavras. A idéia que se quer frisar aí é a seguinte: pelos escribas e fariseus, que eram os edificadores da sinagoga, Cristo foi rejeitado, como se não passasse de uma pedra inútil, um homem sem valor; entretanto, esta pedra, por êles considerada inútil, era a pedra escolhida de Deus, a pedra fortíssima que havia de desempenhar um papel de ligação entre as 2 paredes, ou as 2 partes do edifício, ou seja, os Judeus e os Gentios, outrora tão separados em matéria de religião, pois o Cristianismo agora vai ligar e unir a todos os povos, num só povo de Deus.

Aproveitando-se desta mesma idéia, S. Paulo, na sua Epístola aos Efésios mostra que êles fazem parte de um edifício, a Igreja de Deus, a qual assenta sôbre o fundamento que são os Apóstolos e Profetas. (1-4) Note-se que fundamento e pedra fundamental são 2 metáforas diversas. Fundamento são os alicerces, os quais podem ser postos sôbre a rocha ou sôbre a areia movediça. Assim Nosso Senhor diz daquele que quis fazer bem firme a sua casa que ele cavou profundamente e pôs o FUNDAMENTO sôbre uma ROCHA (Lucas VI-48). Os alicerces da Igreja foram lançados pela doutrina pregada pelos Apóstolos e pelos Profetas, mas a firmeza de tudo isto está em Cristo, a pedra angular que uniu judeus e gentios e que é a fonte de tôda fôrça, de tôda vitalidade para a Igreja. Se os Apóstolos pregam, é a própria doutrina que Cristo lhes ensinou; se são dispenseiros dos mistérios de Deus (1.ª Coríntios IV-1), é a graça de Cristo que vivifica a tôda a Igreja nestes mistérios. Dentro desta ordem de considerações (Cristo, pedra angular rejeitada; Cristo, fonte de tôda a firmeza da Igreja) é que S. Pedro chama também a Cristo A PEDRA VIVA que os homens tinham, sim, rejeitado (1.° Pedro II-4)-, sôbre a qual os fiéis devem ser edificados.

Mas no trecho de S. Paulo que já vimos: E esta pedra era Cristo (1.ª Coríntios X-4) a metáfora era inteiramente outra. S. Paulo quer salientar a idéia de que Cristo, como a pedra que saciou os judeus no deserto é a fonte donde jorram as águas da graça, e que esta graça já existia para os judeus, como um efeito antecipado da Paixão do Salvador e por isto diz S. Paulo: bebiam da pedra (1.ª Coríntios X-4). Ninguém vai beber de uma pedra que está servindo de esteio a um edifício. É uma comparação inteiramente de outro gênero.

Já S. João, no Apocalipse, querendo salientar apenas a apostolicidade da Igreja, ou seja, a idéia de que os Apóstolos, pregando a doutrina que Cristo lhes ensinou, transmitindo os poderes que Cristo lhes deu, lançaram as bases para a propagação e difusão da Igreja, S. João, depois de comparar a Igreja gloriosa nos Céus com uma cidade (vi a cidade santa, a Jerusalém nova, que da parte de Deus descia do Céu, adornada como uma espôsa ataviada para o seu espôso — Apocalipse XXI-2) afirma simplesmente que os fundamentos desta cidade são os 12 Apóstolos: E o muro da cidade tinha doze fundamentos, e nêles os doze nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro (Apocalipse XXI-14). Não fala em Cristo, porque quer frisar somente o trabalho dos Apóstolos dando início à Igreja, mas ,daí não se segue absolutamente que a base de tudo não seja o próprio Cristo.

No trecho que estamos analisando (Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja) a idéia que Nosso Senhor quer fazer sobressair é outra. Não se está tratando dêste assunto: Cristo rejeitado pelos judeus e tornando-se a base de tôda a Igreja de Deus. Nem dêste: Cristo, uma pedra viva donde jorram as águas da graça, da qual também participaram os judeus. Nem dêste: a glória que terá nos Céus a Igreja que aqui na terra teve como fundamento os 12 Apóstolos que a propagaram. Trata-se do seguinte: Pedro fêz uma bela profissão de fé; Cristo em retribuição quer salientar a missão importante que vai confiar a Pedro. Não é obrigado mais a usar aquela metáfora da pedra angular; nem fala mesmo em pedra angular. Compara a Igreja com um edifício, mas êste edifício vai ser construído por Êle, Cristo, que será o arquiteto (EDIFICAREI), portanto não está pensando neste momento em apresentar-se como pedra, pois é claro que não é o arquiteto que vai servir de pedra para sustentar o edifício; Ele é de opinião, como já antes tinha manifestado, que edifício sólido é aquêle que é construído sôbre a rocha; Pedro é que vai ser a rocha em que vai ser levantado o edifício da Igreja. E assim como da pedra fundamental de um edifício é que vem a sua UNIDADE, a sua COESÃO, a sua ESTABILIDADE, O NÃO ESFACELAR-SE E DESMORONAR-SE, a Pedro, como chefe da Igreja, é que cabe manter esta coesão, esta unidade. Por isto, Pedro precisará de ter autoridade para mandar; de plenos poderes para governar esta Igreja. Cristo lhos dá, entregando-lhe as chaves do Reino dos Céus e dizendo: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus, e tudo que desatares sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19). Por isto, Pedro precisará de uma proteção especial de Cristo; esta não faltará até o fim do mundo: As portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja.

E, como já explicámos, dentro desta mesma metáfora não se defende absolutamente a idéia de que só em Pedro reside tôda a segurança da Igreja, porque, se Pedro é a pedra, sôbre a qual a Igreja se firma, por outro lado, a Providência Divina, ou, em outros têrmos, a ação contínua do Espírito Santo prometido por Cristo (eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco — João XIV-16) pode ser considerada A TERRA FIRME em que a pedra está encravada e que, portanto, sustentando a pedra, sustenta todo o edifício.

Para que tanto barulho, tanto torcimento de textos, tanto suor, tanto artifício afim de provar que Pedro não pode ser a pedra da Igreja, se é o próprio Cristo quem o diz com palavras tão claras? Cristo sustenta a sua Igreja e quis associar um homem a esta missão de sustentá-la. Quem O impedia de assim proceder?

O grande segrêdo, a grande maravilha da Providência é que Deus realiza os seus planos servindo-se dos homens que são LIVRES e no entanto nenhum dêles usa de sua liberdade para fazer uma surprêsa a Deus, pois Deus prevê perfeitissimamente tôdas as ações livres de todos os homens. Apesar da liberdade humana e mesmo contando com ela, Deus encaminha todos os acontecimentos. Desde que quis colocar um homem como sustentáculo da Santa Igreja, Ele que tudo pode, tudo prevê e dirige, bem sabe quais os homens que sucessivamente irá suscitando para exercerem esta missão, (15) bem sabe como há de guiar tôdas as ocorrências de tal modo que a Igreja encontre sempre nesse homem, fortalecido pela proteção divina, a base de sua própria firmeza e estabilidade. Não há nenhuma contradição, portanto, em Cristo = pedra e Pedro = pedra. Cada um é pedra da Igreja, à sua maneira, maneira tão diversa como Deus é diverso do homem. Pedro sustenta a Igreja, porque tem as promessas de Cristo garantindo sustentá-lo. E, no final de tudo, tôda a firmeza da Igreja vem de Cristo.

162. CONFORTA A TEUS IRMÃOS.

A prova de que Cristo quis associar S. Pedro a esta sua missão de ser a PEDRA, a fortaleza, o sustentáculo da Igreja, está nas suas próprias palavras que se lêem em S. Lucas: Simão, Simão, eis aí vos pediu Satanás com instância para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por TI, para que a TUA fé não falte; e TU, em fim, depois de convertido, conforta a TEUS irmãos (Lucas XXII-31 e 32). Um leitor que só conheça o português, pode até querer criticar o tradutor, acusando-o de ter misturado, no mesmo trecho, os 2 tratamentos: TU e vós. Mas o português aí é tradução do latim, como o latim já é por sua vez tradução do grego. E tanto no grego, como no latim, os 2 empregos são separados: só se emprega vós para mais de uma pessoa; e TU para uma pessoa somente.

Quando Nosso Senhor diz: eis aí vos pediu Satanás... para vos joeirar como trigo (Lucas XXII-31), está-se referindo a todos os Apóstolos.

Aliás era a êles todos que o Mestre vinha falando naquela ocasião: Não há de ser, porém, assim entre VÓS OUTROS (Lucas XXII-26). Vós OUTROS sois os que haveis permanecido comigo nas minhas tentações (Lucas XXII-28) eu preparo o reino para VÓS OUTROS (Lucas XXII-29).

Se Nosso Senhor diz: Simão, Simão, eis aí vos pediu Satanás com, instância para vos joeirar como trigo (Lucas XXII-31) é porque o final do período vai referir-se a Simão em particular, e porque Nosso Senhor quer frisar que S. Pedro está também entre êstes que Satanás pediu para tentar com violência; aliás, é o mais visado por Satanás, por ser a discípulo principal.

Que quer dizer joeirar? Joeirar o trigo é agitá-lo sôbre o crivo, sôbre a peneira, para a palha voar e ficarem somente os grãos. É uma metáfora que serve para exprimir a tentação que vem acompanhada de agitação do espírito, tentação que serve para provar os verdadeiros servos de Deus que são os grãos, para distingui-los da palha, sem valor, que logo desaparece. Assim como se lê no 1.° capítulo do livro de Jó, que Satanás sugeriu a Deus as aflições e angústias destinadas a pôr em prova a virtude de Jó, assim também Cristo revela que Satanás instou para que lhe fôsse permitido tentar fortemente os Apóstolos, nos transes dolorosos da Paixão. E de fato todos os Apóstolos passaram por tentação muito forte naquelas circunstâncias, como se vê pelas palavras de Jesus: A todos vós serei esta noite uma ocasião de escândalo. Está, pois, escrito Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se porão em desarranjo (Mateus XXVI-31).

Ora, apesar de serem todos tentados, apesar de ser geral o perigo,. Cristo orou especialmente por Pedro, para que a fé não lhe faltasse e ele servisse para robustecer os demais Apóstolos: Mas eu roguei por TI, para que a TUA fé não falte; e TU, em fim, depois de convertido, cONFORTA OS TEUS IRMÃOS (Lucas XXII-31 e 32). O que mostra que S. Pedra era o chefe, o Apóstolo principal, que havia de fortalecer os outros e no qual os outros haveriam de encontrar apoio.

Mas, dirão os protestantes, S. Pedro se mostrou fraco e negou o Mestr e Se S. Pedro se mostrou fraco e negou o Mestre, e no entanto estava com a missão de confortar e robustecer os outros Apóstolos, isto ajuda ainda mais a demonstração da nossa tese. É mais uma prova de que êle, e não outro, era o chefe de todos; é sinal de que todos não eram iguais.

Se Jesus fôsse um simples homem, sujeito, portanto, a enganar-se, se Jesus não previsse todos os acontecimentos, então alguém poderia dizer que o seu plano teria fracassado; teria imaginado pôr S. Pedro como o apoio dos Apóstolos e S. Pedro teria sido o mais fraco de todos. Mas Jesus era Deus, bem sabia que Pedro iria negá-Lo. Mais ainda: profetizou-o abertamente. O próprio S. Lucas, trazendo-nos êste texto em que Jesus encarrega a S. Pedro de confortar os Apóstolos, logo em seguida nos mostra Jesus profetizando a tríplice negação: Declaro-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, sem que tu por três vêzes não hajas negado que me conheces (Lucas XXII-34).

Cristo orou por Pedro, para que a fé não faltasse a êle; e a oração de Cristo não foi inútil. Pedro não pecou contra a fé. A fé em Cristo, Messias Prometido e na sua divindade estava firme no espírito de Pedro, que pecou por mentira, por simulação, por cobardia. A criada de palácio afirmou que ele era um dos discípulos de Cristo; e ele não teve a coragem de sustentar que sim; disse que não, que nem conhecia a Jesus (mas estava convicto, é mais do que evidente, de que era discípulo de Cristo e de que O conhecia). Feita a terceira negação, imediatamente cantou o galo. E Pedro se lembrou da palavra que lhe havia dito Jesus: Antes de cantar o galo, três vêzes me negarás. E tendo saído para fora, chorou amargamente (Mateus XXVI-74 e 75).

Foi uma conversão rápida e decisiva, que mostrou o bom espírito de Pedro e que marcaria uma nova fase na sua vida: daí por diante mais fervor, mais humildade, menos confiança em si mesmo. Mas tudo isto não ressalta admiràvelmente a autoridade de Pedro? Se João, o Apóstolo amado, um dos principais discípulos de Jesus (Pedro, Tiago e João é uma seqüência bem conhecida nos Evangelhos), João que se portou irrepreensivelmente durante a Paixão e estaria firme ao pé da cruz, não recebeu a incumbência de fortalecer os outros, é porque tal incumbência competia ao chefe; e o chefe, convertido logo após o seu êrro, estava apto para dar aos outros Apóstolos o robustecimento, o confôrto que lhes era necessário.

Cristo reza especialmente por Pedro PARA QUE A FÉ NÃO LHE FALTE; porque não faltando a fé a Pedro, não faltará àqueles que lhe devem obediência e que nêle se apoiam como no seu chefe. É o que sempre sucederá à Igreja, na luta incessante contra as heresias. Por isto diz S. Francisco de Sales: "O jardineiro, quando vê sêcas e mirradas as suas plantas, não irriga todos os ramos, mas só a raiz, para que da raiz vá a umidade invadir a todos e cada um dos ramos; assim o Senhor, depois que plantou a árvore da Igreja, orou por aquêle que era Cabeça e Raiz, para que não faltasse a água, isto é, a fé, que devia fortalecer os outros, de modo que sob o influxo da cabeça a fé sempre subsistisse na Igreja."

163. NINGUÉM PODE POR OUTRO FUNDAMENTO.

Finalmente vamos examinar outro texto que os protestantes apresentam, com ares de vitória, tentando destruir a própria palavra de Cristo de que Pedro é a pedra sôbre a qual é edificada a Igreja: Ninguém pode pôr outro FUNDAMENTO senão o que foi pôsto, que é JESUS CRISTO (14 Coríntios III-11).

Eis aí o tipo da objeção protestante. A frase é separada do seu contexto, e assim serve exclusivamente para impressionar o ouvinte. Mas o efeito é fugaz e passageiro. Basta examinar-se o contexto para se ver logo que a frase foi dita NOUTRO SENTIDO. A objeção é, portanto, irmãzinha daquela outra que já vimos: E a pedra era Cristo (1.ª Coríntios X-4).

Querem ver Vocês, caros amigos protestantes, como a frase de S. Paulo não vem absolutamente ao caso? Digam-nos uma coisa: De que assunto estamos tratando? Trata-se do seguinte: compara-se a organização da Igreja com a construção de um edifício (Edificarei a minha Igreja). Está-se discutindo se Pedro pode ou não ser chamado pedra fundamental dêste edifício e Vocês, protestantes, se servem do texto de Coríntios III-11 para provar que o FUNDAMENTO dêste edifício que é a Igreja só pode ser Jesus Cristo, não é assim?

Pois bem, é bastante ver o versículo anterior a êste da objeção, para qualquer pessoa se inteirar do absurdo que Vocês estão insinuando. No versículo anterior disse S. Paulo: Segundo a graça de Deus que me foi dada, LANCEI O FUNDAMENTO, COMO SÁBIO ARQUITETO, mas outro edifica sôbre êle, porém veja cada um como edifica sôbre ele Coríntios III-X).

Desde que estamos tratando do EDIFÍCIO DA IGREJA, querem então Vocês dizer que S. Paulo foi o sábio arquiteto que construiu êste edifício e que colocou (LANCEI) Jesus Cristo como fundamento do mesmo? S. Paulo não podia ter lançado as bases dêste edifício da Igreja Universal, porque, quando a Igreja foi fundada, S. Paulo era simplesmente um judeu ainda não convertido, que depois se fêz um perseguidor desta mesma Igreja, para por fim tornar-se um brilhante e excelente Apóstolo de Jesus Cristo. Dizer que foi S. Paulo que, como sábio arquiteto, colocou Jesus Cristo como fundamento do edifício da Igreja seria atribuir a S. Paulo um poder superior ao do próprio Cristo, o qual não passaria de um instrumento nas mãos do Apóstolo das Gentes.

É sempre a mania de querer encadear tôdas as metáforas usadas na Bíblia, como se elas tivessem que obedecer a um plano sistemático e de querer fazer sempre um JôGO DE PALAVRAS, como se a mesma palavra só pudesse ter forçosamente um sentido em tôdas as frases onde ela é empregada.

De que assunto fala aí S. Paulo? Foi ele quem primeiro pregou o Evangelho aos Coríntios. Sabe-se o carinho ou, por assim dizer, o SANTO CIÚME que nutria S. Paulo a respeito das comunidades que ele tinha convertido para Cristo. Precisamente a êstes mesmos Coríntios, ele dirá no capítulo seguinte: Ainda que tenhais dez mil mestres em Cristo, não teríeis todavia muitos pais: pois eu sou o que vos gerei em Jesus Cristo pelo Evangelho (1.° Coríntios IV-15). Ele tinha como norma não pregar o Evangelho naquelas igrejas que tinham sido fundadas por outros: Tenho anunciado êste Evangelho, não onde se havia feito já menção de Cristo, por não edificar sôbre FUNDAMENTO de outro (Romanos XV-20).

Ao ver que não só chegou lá em Corinto um propagador do Evangelho, chamado Apolo, pregando com eloqüência (o que era ótimo), mas também (o que era mau) se estabeleciam divisões e contendas entre os Coríntios, S. Paulo fica bastante incomodado. Porque dizendo um: Eu certamente sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo; não se está vendo nisto que sois homens? (1.ª Coríntios III-4). S. Paulo mostra que não há motivo para tais partidarismos e rivalidades: Que é logo Apoio? e que é Paulo? São uns ministros dAquele a quem crestes e segundo o que o Senhor deu a cada um (1.ª Coríntios III-4 e 5). Não há razão de ser para estas diferenças, porque a base de tôda a pregação é uma só: Jesus Cristo.

Está-se vendo bem claramente que a metáfora usada por Jesus não é a mesma que a usada por S. Paulo.

Jesus apresenta-se como arquiteto de um grande edifício, o qual vai ser sólido, porque Ele resolveu construí-lo sôbre a rocha que é Pedro. Êle, arquiteto, garante que êste edifício resistirá a tôdas as tempestades.

E êste edifício é a IGREJA UNIVERSAL S. Paulo está-se referindo ao APOSTOLADO EXERCIDO ENTRE OS CORÍNTIOS.

Primeiro comparou-o com um plantio: Eu plantei; Apolo regou; mas Deus é o que deu o crescimento (1.º Coríntios III-6). Depois, comparou-o com um edifício, do qual êle, Paulo, como arquiteto, lançou as bases ou fundamento, outros também estão acabando de construí-lo com partes douro, de prata, de pedras preciosas, de madeira, de feno, de palha (1.ª Coríntios III-12), o fogo da justiça de Deus se encarregará de mostrar o que tem valor e o que não tem na construção dêste edifício; mas, ponha cada um o que quiser, ele só pode ser construído, isto é, o apostolado entre os Coríntios só pode ser exercido na base que Paulo já colocou; e esta base, êste fundamento é Jesus Cristo, é a doutrina do Divino Mestre.

Então, pelo fato de dizer S. Paulo que a base de sua pregação é a doutrina de Jesus Cristo, fica o mesmo Jesus Cristo proibido de dizer que o esteio em que se firma a sua Igreja e que lhe dá coesão e unidade é a instituição que ele pôs nesta Igreja, isto é, o primado de Pedro e seus sucessores? Ao contrário: se a base de tudo é a doutrina de Cristo, então nenhuma palavra do Mestre deve ser torcida nem desprezada, nem mesmo esta que tanto desagrada aos protestantes: Tu és Pedro sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja (Mateus XVI-18).

164. OS SUCESSORES DE PEDRO.

Cristo chamou Pedro a pedra sôbre a qual é construída a sua Igreja. Ora, se a pedra sôbre a qual se constrói um edifício tem por finalidade dar-lhe a solidez (e é por isto que Jesus Cristo logo acrescenta: e as portas do inferno não prevalecerão contra ela — Mateus XVI-18), é claro que ela deve durar tanto tempo quanto durar o edifício. Se a pedra que sustenta desaparece, a casa está sujeita à ruína.

Dêste modo, a função confiada a S. Pedro não podia de forma alguma limitar-se a êste Apóstolo. Como poderia êle por sua atuação passageira e transitória, como é a vida de qualquer homem, sustentar a Igreja de tal modo que ela permanecesse firme e estável durante milhares e milhares de anos? Se Jesus que ia confiar a 12 Apóstolos, iluminados e robustecidos abundantemente pelo Espírito Santo, a propagação da Igreja, achou necessário colocar a Pedro como traço de união entre êles, com maioria de razão precisaria a Igreja desta fonte de coesão quando não houvesse mais aquêles carismas extraordinários dos primeiros tempos e quando a Igreja estivesse espalhada por todo o mundo, para homens de tôdas as raças, de todos os graus de cultura, de tôdas as condições sociais. Se todos os Apóstolos haviam de ter sucessores, porque a Igreja havia de prolongar-se até o fim do mundo (eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século — Mateus XXVIII-20), também S. Pedro, chefe da Igreja, havia de ter quem ficasse em seu lugar, continuando a sua missão.

Seu sucessor imediato foi Lino, um nome que não é estranho àqueles que lêem a Bíblia, pois vem mencionado na 2.° Epístola a Timóteo: Saúdam-te Êubulo e Pudente e LINO e Cláudia e todos os irmãos (2.ª Timóteo IV-21).

Temos em abono desta afirmativa uma autoridade valiosíssima: o historiador Eusébio de Cesaréia (nascido em 265), que foi chamado o Herôdoto cristão, o Pai da História Eclesiástica e que fêz pacientes estudos à base de documentos antigos, muitos dos quais ele livrou de caírem no esquecimento, pois os reproduziu na íntegra. No seu livro Chrónicon, Eusébio fala na viagem de Pedro a Roma, onde Pedro "prega o Evangelho, perseverando 25 anos como bispo da mesma cidade." E mais adiante diz: "Depois de Pedro, o primeiro a governar a igreja romana foi Lino." Chrónicon L. IP (Migne XIX. 539, 543). Em outro livro seu, a História Eclesiástica, ele diz a mesma coisa abertamente: "Depois do martírio de Paulo e de Pedro, Lino foi o primeiro a receber o episcopado da igreja romana" (História Eclesiástica 3, 2). Afirma ainda Eusébio no mesmo livro (3, 15) que Lino, depois de 12 anos de administração, morreu no segundo ano do império de Tito. Fala também nos outros sucessores de Pedro, segundo a ordem cronológica, de modo que, segundo o testemunho de Eusébio, a ordem dos sucessores de Pedro foi esta: Lino, Anacleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero e Eleutério. (Em apêndice, no final dêste livro, damos o catálogo de todos os papas, desde S. Pedro até os nossos dias).

Que Eusébio se baseia em outros documentos mais antigos, se vê claramente por duas razões:

1.ª O próprio Eusébio cita o testemunho de Hegesipo, que depois de visitar a igreja de Corinto, tendo conversado com Primo, bispo daquela cidade, partiu para Roma e aí organizou o catálogo dos bispos romanos até Aniceto, acrescentando que depois da morte de Aniceto, sucedeu a êste Sotero e depois Eleutério. E a conclusão a que chega Hegesipo de suas viagens a várias igrejas é a seguinte, segundo suas próprias palavras: "Em cada uma das sucessões dos Bispos e por tôdas as partes permanecem as mesmas coisas que foram pregadas por intermédio dos profetas e pelo Senhor". A respeito dêste mesmo Hegesipo, dirá mais tarde S. Jerônimo: "Afirma ter vindo a Roma sob Aniceto, que foi o décimo bispo depois de Pedro" Ora, o govêrno de Aniceto foi em meados do século segundo.

2.ª Temos outro testemunho anterior ao de Eusébio e também de grande valor. É o de S. Irineu, bispo de Lião, escritor do século 2.º, discípulo de S. Policarpo, que o foi de S. João Apóstolo. S. Irineu diz que os Apóstolos "Pedro e Paulo, tendo fundado e instruído a igreja de Roma, transmitiram o episcopado a Lino e lhe sucedeu Anacleto e depois dêste, Clemente tem em terceiro lugar o episcopado que vem dos Apóstolos." (Adversus Haereses III-3 Migne VII-849). Falando nos outros sucessores, S. Irineu os cita com os mesmos nomes e na mesma ordem que citou Eusébio, terminando a lista com Eleutério em 12.º lugar.

Depois de S. Irineu e Eusébio chovem os testemunhos da antigüidade.

Não estamos neste livro fazendo um estudo histórico; o nosso principal objetivo é mostrar a legítima interpretação de vários textos da Bíblia. Apresentamos, porém, êstes testemunhos para mostrar que, se a existência, na Igreja, de um chefe com plenos poderes, a quem todos devem acatar, seguir e obedecer, é uma conseqüência lógica das palavras de Cristo a S. Pedro, desde os inícios da Igreja. S. Pedro sempre teve sucessores no cargo elevadíssimo que lhe foi confiado.

E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA

165. PROFECIA E PROMESSA.

Depois das palavras de Cristo mostrando que a sua Igreja se apoia sôbre Pedro, alguém poderia perguntar como pode uma tão vasta instituição firmar-se num só homem. Mas quem está falando é Cristo que prevê e dirige todos os acontecimentos e que é depositário de todo o poder: Tem-se-me dado todo o poder no Céu e na Terra (Mateus XXVIII-18) "JeSus trata aqui a S. Pedro como seu Pai havia tratado a Jeremias, quando lhe disse que o tornaria como uma cidade fortificada, e como uma coluna de ferro, e como um muro de bronze (Jeremias I-18)" observa S. João Crisóstomo, acrescentando que há aí apenas uma diferença: Jeremias teria que lutar com um só povo e Pedro "seria forte contra o mundo inteiro." Pedro continuaria vivo na pessoa de seus sucessores. E as palavras do Mestre são uma profecia do que vai acontecer com a Igreja, sempre em luta com as portas do inferno, isto é, com os poderes infernais e sempre vitoriosa contra elas.

Entre os orientais se designava com o nome de PORTAS a cidade e principalmente o poder que nela se exercia, não só porque nas portas estava a segurança da cidade, a qual, tomadas as portas, ficava abertamente à mercê do inimigo, como também porque era nas portas da cidade que os magistrados exerciam o seu poder. E até os nossos dias o poder imperial dos turcos tem sido designado com o nome de Sublime Porta.

Éste emprêgo de PORTAS = CIDADE, PORTAS = CIDADELA, SITUAÇÃO FORTIFICADA, nós o vemos freqüentemente na Bíblia: A tua descendência possuirá AS PORTAS de seus inimigos (Gênesis XXII-17). És nossa irmã, cresce em milhares de milhares, e a tua posteridade possua AS PORTAS de seus inimigos (Gênesis XXIV-60). Quando forem achados na tua cidade, dentro dalguma das tuas PORTAS que o Senhor te tiver dado, homem ou mulher que cometam o mal... (Deuteronômio XVII-2) O Senhor escolheu novas guerras e Ele mesmo derribou AS PORTAS dos inimigos (Juízes V-8). Saíram os filhos de Benjamim com ímpeto das PORTAS de Gábaa e, vindo a seu encontro fizeram tão grande mortandade que derrubaram dezoito mil guerreiros (Juízes XX-25). Ama o Senhor AS PORTAS de Sião (Salmos LXXXVI-2).

E assim, na palavra do Mestre, se mostra o combate entre a cidade do diabo e o edifício construído por Jesus sôbre a pedra, que é Pedro.

166. PORTAS DO HÁDES = PODER DAS TREVAS.

A palavra INFERNO aí no texto é expressa no grego pelo têrmo HÁDES, que é equivalente à palavra hebraica XEOL, muito usada no Antigo Testamento para exprimir a região dos mortos. Daí concluem alguns que a expressão PORTAS do inferno, ou seja PORTAS DO HÁDES designa a MORTE. Jesus neste caso estaria dizendo que a morte não prevaleceria contra a Igreja, isto é, a Igreja não morreria, seria perene, seria imortal.

Que dizer desta interpretação?

— Temos que dizer simplesmente que esta significação da palavra HÁDES não cabe aí no texto.

Realmente a Igreja será perene, será imortal e Jesus o diz aí no texto; mas o texto exprime muito mais do que isto: se ela será perene, é porque sairá sempre vitoriosa contra o poder das trevas, pois aí não se trata de HÁDES = morte, mas sim de HÁDES = inferno, no sentido de região onde imperam os demônios.

Não há dúvida que esta palavra HÁDES aparece muito freqüentemente na versão dos Setenta, que também (é claro) a palavra XEOL a ela correspondente aparece freqüentemente no texto hebraico para exprimir vagamente no ANTIGO TESTAMENTO a região dos mortos. Mas não é o Antigo Testamento que vai resolver a nossa questão.

Senão, vejamos:

Antes de Cristo entrar no Céu, ninguém entrou lá. Portanto, antes de Cristo, no Antigo Testamento, não podia haver êste conceito que há hoje entre os cristãos: há uns que morrem e vão ser recompensados no Céu, vendo a Deus face a face; há outros que morrem e serão castigados eternamente no inferno. Dois lugares, portanto, completamente opostos. Havia o conceito, muitas vêzes expresso na Bíblia, de que a pessoa depois da vida terrena, iria para a vasta região dos mortos.

Esta região é apresentada como sendo LÁ EM BAIXO, ou seja, num lugar profundo, e é por isto que S. Jerônimo traduz o XEOL de hebraico (que é o mesmo HÁDES do grego) pela palavra latina INFERNUS, inferno em português. Inferno, isto é, um lugar que está em baixo, um lugar situado nas regiões inferiores. É natural, portanto, que o leitor de hoje se espante ao ver, na Bíblia, Jacó dizendo, ao receber a notícia da pretensa morte de José, seu filho querido: Chorando descerei para meu filho ao INFERNO (Gênesis XXXVII-35). Aos seus ouvidos, acostumados a tomar a palavra INFERNO no sentido de lugar dos réprobos, parece que Jaco está dizendo que José está na casa do diabo e ele quer ir para lá também encontrar-se com êle; quando Jacó quer dizer simplesmente que irá encontrar-se com seu filho na vasta região dos mortos. (16)

Nos primeiros livros da Bíblia (desde o Gênesis até os livros dos Reis) não se fala na região dos mortos senão de um modo vago, de um modo geral, sem se distinguir aí um lugar bom ou um lugar ruim; e a respeito de uma pessoa que morreu se diz apenas que foi reunir-se a seus pais (Gênesis XV-15; Deuteronômio XXXI-16) ou que foi reunir-se ao seu povo (Gênesis XXV-17; XXXV-29; XLIX-32; Números XX-24; Deuteronômio XXXII-50); não se especificam diversos lugares na região dos mortos.

Os livros poéticos de Jó e dos Salmos continuam a falar vagamente neste HÁDES, nesta região dos mortos, a qual é considerada uma terra tenebrosa e coberta da escuridade da morte (Jó X-21), a terra do esquecimento (Salmos LXXXVII-13), um lugar profundíssimo, pois se diz a respeito de Deus: Ele é mais elevado do que o Céu e que farás tu? é mais profundo do que o INFERNO e como O conhecerás? (Jó XI-8), lugar do qual não se volta: aquêle que descer aos INFERNOS não subirá, nem tornará mais à sua casa, nem o lugar onde estava o conhecerá jamais (Jó VII-9 e 10), onde há casa estabelecida para todo o vivente (Jó XXX-23), onde os ímpios cessaram de tumultos e ali acharam descanso os cansados de fôrças (Jó III-17).

É sempre uma maneira geral de encarar a vida de além-túmulo, sem discriminar prôpriamente a idéia de castigo ou de recompensa, sendo digna de nota esta última citação, na qual se fala nos ímpios, mas não se revela a sua punição, apenas se diz que ali deixaram de provocar barulho.

Entretanto o Salmista já descerra uma pontinha do véu que encobre os mistérios do além, manifestando a esperança de que Deus não o deixará para sempre no HÁDES: Deus na verdade resgatará a minha alma do poder do INFERNO, quando me tomar (Salmos XLVIII-16). (17)

medida que se aproximam dos tempos de Jesus Cristo, os judeus vão tendo uma notícia mais circunstanciada, vão fazendo uma idéia mais exata a respeito da vida futura.

Já para diante os livros proféticos começam a dar uma idéia mais clara dos castigos reservados aos ímpios nesta região dos mortos: Verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim, o seu BICHO NÃO MORRERÁ e O SEU FOGO NÃO SE EXTINGUIRÁ (Isaías LXVI-24). Tôda esta multidão dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, e outros para UM OPRÓBRIO QUE ÉLES TERÃO SEMPRE DIANTE DOS OLHOS (Daniel XII-2).

Os livros escritos em época ainda mais próxima de Jesus Cristo, (18) além desta idéia do castigo dos ímpios (Humilha profundamente o teu espírito, porque a vingança da carne do ímpio será o fogo e o bicho — Eclesiástico VII-19), acrescentam a idéia de felicidade além-túmulo, para os bons e justos, mesmo antes da ressurreição da carne: O justo, ainda que fôr colhido de uma apressada morte, estará EM REFRIGÉRIO... Porque a sua alma era agradável a Deus, por isso Êle se apressou a tirá-lo do meio das iniqüidades (Sabedoria IV-7 e 14). Aquêle que teme ao Senhor será feliz no fim e será abençoado no dia da sua morte (Eclesiástico 1-13). As almas dos justos estão na mão de Deus e não os tocará o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam, e o seu trânsito foi reputado por aflição, e a jornada que fazem, separando-se de nós, extermínio; mas êles estão EM PAZ. E se êles sofreram tormentos diante dos homens, A SUA ESPERANÇA ESTÁ CHEIA DE IMORTALIDADE (Sabedoria III-1 a 4).

E o 2.º Livro dos Macabeus já fala de sacrifícios oferecidos a Deus em sufrágio de alguns que haviam bravamente morrido em combate, mas em cujo poder foram encontrados certos objetos consagrados aos ídolos, os quais êles conservavam, digamos entre parêntesis, ou por superstição ou por apêgo ao seu valor material. E acrescenta: É logo um santo e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados (2.º Macabeus XII-46).

Não precisam os nossos amigos protestantes fazer caretas porque citamos o livro dos Macabeus ou porque citamos a Sabedoria e o Eclesiástico. Apenas estamos fazendo uma demonstração da evolução que houve entre os judeus a respeito da idéia da vida futura. Considerem ou não os protestantes êstes últimos livros como inspirados, pouco importa; o seu testemunho é sempre valiosíssimo para demonstrar as idéias que vigoravam entre os judeus, nas derradeiras épocas anteriores a Cristo. Judas Macabeu, que constituía com seus combatentes uma parte seleta e fiel do povo judaico em luta contra os inimigos da Pátria, não teria pensado naquele sufrágio pelos mortos, se não houvesse entre os judeus a crença na existência de um lugar de purificação no outro mundo.

Como observa Vigouroux: "Os judeus desta época distinguiam três classes de mortos, que habitavam todos o HÁDES: justos que como Jeremias estavam num estado feliz e podiam socorrer os vivos por suas preces; (19) outros justos, como os soldados de Judas Macabeu, culpados de faltas leves que não os impediriam de tomar parte na ressurreição gloriosa; enfim criminosos que mereceram a pena do fogo... Vê-se que as crenças expressas no Antigo Testamento relativas à morada dos mortos se desenvolveram de uma maneira sensível, à medida que se aproximaram os tempos messiânicos. Os antigos hebreus não entreviam no inferno quase senão o seu lado temível, porque a seus olhos a morte era sempre o castigo do pecado. Os judeus dos últimos tempos, melhor instruídos sôbre as normas da justiça de Deus, aprenderam que, mesmo antes da ressurreição, havia uma diferença profunda entre o estado dos maus e o dos santos" (Dictionnaire de la Bible. D-F. col. 1795).

Passemos agora ao Novo Testamento.

Quando Nosso Senhor apareceu, já tinham os judeus, como vimos, a idéia de três lugares diferentes no HÁDES ou região dos mortos, chamada na Vulgata INFERNO: um bom para os justos, um de eterna perdição para os maus, e outro em que as almas estavam sujeitas à purificação.

E uma prova de que admitiam êste último, nós vemos, por exemplo, no cuidado que teve Nosso Senhor em dizer aos judeus que todo o que disser alguma palavra contra o Filho do Homem, perdoar-se-lhe-á; porém o que a disser contra o Espírito Santo, não se lhe perdoará, nem neste mundo, NEM NO OUTRO (Mateus XII-32). Outro indício nós temos na alusão que faz S. Paulo àqueles que se batizam PELOS MORTOS (1.º Coríntios XV-29). Sôbre êste assunto, falaremos um pouco mais adiante (n.º 221).

Com esta idéia a respeito das sortes diferentes que têm as almas no HÁDES, já os judeus podem compreender perfeitamente a parábola do rico e do pobre Lázaro (Lucas XVI-19 a 31). A parábola se reporta a um fato que aconteceu ou que se imagina que aconteceu no passado, portanto numa época em que os bem-aventurados não tinham ido ainda para o Céu. O mau rico está no HÁDES, na região dos mortos, porém está no lugar ruim, de eterna perdição, pois não só está no meio dos tormentos, mas para êle não há alívio nem remédio de forma alguma.

De longe ele avista a Abraão que está no bom lugar e vê a Lázaro no seu seio (Lucas XVI-23). Faz então a súplica que não é atendida, porque entre o lugar em que está Abraão e o lugar em que está o mau rico não há passagem, não se pode ir de um para outro, o que não impede que houvesse no HÁDES outro lugar, cujos moradores, culpados de faltas menos graves do que as do mau rico, pudessem após a necessária purificação passar para o bom lugar, onde se achavam Abraão e Lázaro.

Porque o fim que teve Nosso Senhor ao propor esta parábola, não foi ensinar quantos lugares existem no outro mundo; mas sim mostrar a transformação extraordinária, a completa mudança de sorte que vão ter nas regiões de além-túmulo o mau que passou a sua vida engolfado nos prazeres e o justo que aqui na terra conheceu acerbamente as agruras da existência. E temos que dizer. aqui também entre parêntesis: os protestantes se revoltam contra a Igreja, quando esta ensina que as crianças mortas sem batismo vão para o LIMBO, porque, dizem, esta palavra não se encontra na Bíblia. Pois vejam aí na parábola onde é que fica o limbo: o lugar havia de ter um nome e SEIO DE ABRAÃO não podemos chamá-lo, porque Abraão já não se encontra nêle, e sim no Céu, para onde foi após a Ascensão do Senhor. É a êste bom lugar do HÁDES que desce a alma de Jesus após a morte, para esperar a ressurreição que se verificaria na manhã do domingo e assim nÊle se cumpre a profecia de Davi que é relembrada em Atos II-27: Não deixarás a minha alma no INFERNO, nem permitirás que o teu santo experimente corrução. Inferno aí como sempre = HÁDES = região dos mortos. Mas aí num bom lugar desta região. Muitos protestantes, interpretando a Bíblia pela própria cabeça, se têm atrapalhado com êste texto, garantindo que Jesus desceu mesmo ao inferno dos réprobos, o que é inconcebível.

A esta noção que já possuíam os judeus sôbre as variadas regiões do HÁDES, o Novo Testamento vem acrescentar uma nova idéia. Os ímpios estão no mau lugar do HÁDES, mas êste é também o MESMO LUGAR: DO DIABO e dos seus anjos: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está aparelhado para O DIABO e para SEUS ANJOS (Mateus XXV-41). Não é de admirar que estejam assim associados os réprobos e os demônios no mesmo lugar de suplício, uma vez que pertencem à mesma família: Vós sois FILHOS DO DIABO e quereis cumprir os desejos de vosso pai... Quando êle diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (João VIII-44). Aquêle que comete o pecado é FILHO DO DIABO, porque o diabo peca desde o princípio (1.° João III-8).

E assim se foi progredindo consideràvelmente no conhecimento do HÁDES, esta vasta região dos mortos.

Mas acontece que depois da Ascensão do Senhor, o significado de HÁDES teve que sofrer uma substancial alteração.

Depois que Jesus entrou no Céu, na bem-aventurança, subiram do bom lugar do HÁDES para o Céu todos os justos devidamente purificados que houve desde o princípio do mundo até aquela data. E os que estivessem nas mesmas condições daí por diante iriam para o Céu e não para O HÁDES.

De modo que HÁDES continua a designar o lugar de todos os mortos que não estão na bem-aventurança. Mas a diferença é muito grande: antes de Cristo todos os mortos sem exceção estavam neste caso. Não havia nenhum no Céu. Hoje o HÁDES já não é o lugar de todos os mortos. Por conseguinte, se Jesus tivesse dito: — As portas do HÁDES não prevalecerão contra a Igreja — naqueles tempos de Isaque, de Jacó, de Josué, de Jó etc, ainda se podia entender que HÁDES aí significava A MORTE, pois se tinha apenas uma vaga idéia de que o HÁDES era o lugar de todos os mortos, não se fazia nem uma idéia bem clara da diferença entre bons e maus nesta vasta região.

Mas Jesus veio a dizer isto NA ERA CRISTÃ. Mais ainda, está falando sôbre a luta que a Igreja terá com O HÁDES, ATRAVÉS DOS SÉCULOS e até o fim do mundo.

Se perguntarmos a um protestante (que em geral não admite nem o limbo nem o purgatório): quem está neste HÁDES para combater a Igreja? êle terá que responder: Homem, neste HÁDES SÓ EXISTE O INFERNO, no sentido rigoroso da palavra. São os réprobos e os demônios. É daí que vem o combate à Igreja. Terá que reconhecer, portanto, com um de seus corifeus, Zuínglio, que "por inferno aí se deve entender tôda fôrça contrária e satânica, todo ímpeto do inimigo" (in Mateus 16-18. Opera VI.1. Schuler et Schulthess. 1836 pág. 322). E é interessante notar que a versão protestante de Ferreira de Almeida, a qual em outros lugares não traz a palavra INFERNO como tradução de HÁDES, mas sim a palavra HÁDES mesmo em português (Atos II-27; Lucas XVI-23), neste passo sem nenhuma hesitação apresenta a palavra INFERNO: E as portas do INFERNO não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18).

Um católico sabe que no HÁDES, ou seja, na região dos mortos que fica lá em baixo, dos mortos que não estão na bem-aventurança, está o inferno, onde são atormentados os demônios e os réprobos, está também o purgatório, onde estacionam as almas salvas que ainda precisam purificar-se para entrar no Céu, e está o limbo, onde se encontram as crianças que morreram sem batismo. Mas sabe por outro lado que o combate contra a Igreja não pode absolutamente partir das almas do purgatório que, ao contrário, só podem ajudar a Igreja no que estiver a seu alcance, pois são almas justas e precisam de nossas preces para que Deus lhes dê um refrigério nos seus padecimentos. Nem pode partir das criancinhas inocentes que morreram sem batismo, as quais quase que podemos garantir de antemão: nada sabem do que se passa neste mundo. A luta, portanto, do HÁDES contra a Igreja só pode provir das profundas do inferno, ou seja, de Satanás e seus anjos e dos réprobos que estão sob o seu poder.

É inútil, por conseguinte, apresentar textos e mais textos do Antigo Testamento para nos explicar que a idéia de HÁDES se identifica com a idéia de MORTE. A idéia de HÁDES é hoje muito diferente.

Além disto, esta interpretação supõe que Cristo considera aí a MORTE como uma entidade que está ocupada em destruir coletivamente reinos, instituições, impérios e nações e que procura também levar de vencida a Igreja, como instituição. Mas onde é que na Bíblia se encontra êste conceito? A morte sempre se apresenta como o desaparecimento do INDIVÍDUO daqui da face da terra. É temida, é um castigo do pecado, a ela se submeteu por nosso amor o próprio Cristo, que dela se serviu como de meio para realizar a sua obra redentora: para destruir PELA SUA MORTE ao que tinha o império da morte, isto é, ao DIABO e para livrar aquêles que pelo temor da morte estavam em escravidão tôda a vida (Hebreus II-14 e 15). Por aquêles que estão bem integrados no reino de Deus, praticando a virtude, ela deixa de ser encarada como uma inimiga, antes muitas vêzes é desejada ardentemente, pois é considerada uma libertação: Pois me vejo em apêrto por duas partes: TENDO DESEJO DE SER DESATADO DA CARNE e estar com Cristo, que é sem comparação muito melhor; mas o permanecer em carne é necessário por amor de vós (Filipenses 1-23 e 24), diz aos fiéis o Apóstolo S. Paulo, porque, segundo o mesmo Apóstolo, sabemos que se a nossa casa terrestre desta morada fôr desfeita (é claro que é ao nosso corpo que êle se refere) temos de Deus um edifício, casa não feita por mãos humanas, que durará para sempre nos Céus. E por isto também, gememos, DESEJANDO ser revestidos da nossa habitação que é do Céu (2.ª Coríntios V-1 e 2). Ansiosos QUEREMOS MAIS ausentar-nos do corpo e estar presentes ao Senhor (2.ª Coríntios V-8). É PRECIOSA aos olhos do Senhor a MORTE dos seus santos (Salmos CXV-15). Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor (Apocalipse XIV-13).

Luta, sim, tremenda e sem tréguas, é a que a Bíblia nos apresenta entre a Igreja, o reino de Deus e o demônio, o inferno, as potestades diabólicas: A cizânia são os maus filhos e o inimigo que a semeou é o DIABO (Mateus XIII-38 e 39). Vem o DIABO e tira a palavra do coração dêles, para que não se salvem crendo (Lucas VIII-12). Se pelo dedo de Deus lanço os DEMÔNIOS, é certo que chegou a vós o reino de Deus (Lucas XI-20). Eis aí vos pediu SATANÁS com instância para vos joeirar como trigo (Lucas XXII-31). Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as ciladas do DIABO; porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os PRINCIPADOS E POTESTADES, contra OS GOVERNADORES DESTAS TREVAS DO MUNDO, contra OS ESPÍRITOS DE MALÍCIA espalhados por êsses ares... embraçando sobretudo o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do MAIS QUE MALIGNO (Efésios VI-11 e 12; 16). Sêde logo sujeitos a Deus e resisti ao DIABO, e êle fugirá de vós (Tiago IV-7) O DIABO, vosso ADVERSÁRIO, anda ao derredor de vós, como um leão que ruge, buscando a quem possa tragar; resisti-lhe fortes na fé, sabendo que os vossos IRMÃOS QUE ESTÃO ESPALHADOS PELO MUNDO SOFREM A MESMA TRIBULAÇÃO (1.ª Pedro V-8 e 9). Para destruir as obras do DIABO é que o Filho de Deus veio ao mundo (1.° João III-8).

A luta, portanto, a que Jesus se refere, é a luta contra as potestades infernais. PORTAS DO HÁDES equivale ao que Jesus chamou em outra ocasião o PODER DAS TREVAS (Lucas XXII-53). É a luta da Igreja contra os satânicos perseguidores que procuram oprimi-la pela fôrça e afogá-la no sangue dos seus adeptos; é a luta contra a cizânia, os maus filhos que o demônio, com suas tentações, procura introduzir no meio do trigo, no meio dos filhos fiéis; é a luta contra tôdas as heresias de todos os tempos, que procuram disseminar o êrro, instigadas pelo demônio, que é o pai da mentira (João VIII-44).

167. A IGREJA DE CRISTO É A IGREJA CATÓLICA.

Agora perguntamos: Quando Cristo diz: edificarei A MINHA IGREJA e as portas do inferno não prevalecerão contra ELA (Mateus XVI-18) a que Igreja se refere? Não é ao Protestantismo, nem a nenhuma Igreja protestante em particular, porque as Igrejas protestantes só começaram a existir no século XVI.

Refere-se, sem dúvida alguma, à Igreja Católica; é fácil demonstrá-lo.

Logo nos inícios da Igreja, os seguidores de Cristo foram designados com o nome de cristãos. Assim podiam distinguir-se dos filósofos pagãos e dos judeus ou seguidores da sinagoga. Êste nome de cristãos, como se sabe, já vem na própria Bíblia, e tal denominação começou em Antioquia: em Antioquia foram primeiro os discípulos denominados CRISTÃOS (Atos XI-26). Então Agripa disse a Paulo: Por pouco me não persuades a fazer-me CRISTÃO (Atos XXVI-28) se êle, porém, padece como CRISTÃO, não se envergonhe (1. Pedro IV-16).

Aconteceu, porém, que, logo que a Igreja começou a propagar-se, começaram a aparecer os hereges, seguindo doutrinas diversas daquela que tinha sido recebida dos Apóstolos, mas tomando o nome de cristãos, pois também criam em Cristo e dÊle se diziam discípulos. Era preciso, portanto, um novo nome para designar a verdadeira Igreja, distinguindo-a dos hereges. E desde tempos antiqüíssimos, desde os tempos dos Apóstolos, a Igreja começou a ser designada como IGREJA CATÓLICA, isto é, Universal, a Igreja que está espalhada por tôda a parte, para diferençá-la dos hereges, pertencentes a igrejinhas isoladas que existiam aqui e acolá. Assim é que já S. Inácio Mártir, que foi contemporâneo dos Apóstolos, pois nasceu mais ou menos no ano 35 da era cristã e, segundo Eusébio de Cesaréia no seu Chrónicon, foi bispo de Antioquia entre os anos de 70 a 107, já S. Inácio nos fala abertamente da Igreja Católica, na sua Epístola aos Esmirnenses: "Onde comparecer o Bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que, onde estiver Cristo Jesus, aí está a IGREJA CATÓLICA" (Epístola aos Esmirnenses c. 8, 2).

Outro contemporâneo dos Apóstolos foi S. Policarpo, bispo de Esmirna, que nasceu no ano de 69 e foi discípulo de S. João Evangelista.

Quando S. Policarpo recebeu a palma do martírio, a Igreja de Esmirna escreveu uma carta que é assim endereçada: "A Igreja de Deus que peregrina em Esmirna à Igreja de Deus que peregrina em Filomélio e a tôdas as paróquias da IGREJA Santa e CATÓLICA em todo o mundo". Nessa mesma Epístola se fala de uma oração feita por S. Policarpo, na qual êle "fêz menção de todos quantos em sua vida tiveram trato com êle, pequenos e grandes, ilustres e humildes, e especialmente de tôda a IGREJA CATÓLICA, espalhada por tôda a terra" (c.8).

O Fragmento Muratoriano que é uma lista, feita no 2.º século, dos livros do Cânon do Novo Testamento, fala em livros apócrifos que "não podem ser recebidos na IGREJA CATÓLICA".

S. Clemente de Alexandria (também do século 2.º) responde à objeção dos infiéis que perguntam: "como se pode crer, se há tanta divergência de heresias, e assim a própria verdade nos distrai e fatiga, pois outros estabelecem outros dogmas?" Depois de mostrar vários sinais pelos quais se distingue das heresias a verdadeira Igreja, assim conclui S. Clemente: "Não só pela essência, mas também pela opinião, pelo princípio, pela excelência, só há uma igreja antiga e é a IGREJA CATÓLICA. Das heresias, umas se chamam pelo nome de um homem, como as que são chamadas por Valentino, Marcião e Basílides; outras, pelo lugar donde vieram, como os Peráticos; outras, do povo, como a heresia dos Frígios; outras, de alguma operação, como os Encratistas; outras, de seus próprios ensinos, como os Docetas e Hematistas." (Stromata 1.7.c.15). Digamos de passagem: o mesmo argumento podemos formular hoje contra os protestantes. Há uma só Igreja que vem do princípio: é a Igreja Católica. As seitas protestantes, umas são chamadas pelos nomes dos homens que as fundaram, ou cujas opiniões seguem, como: Luteranos (de Lutero), Calvinistas (de Calvino), Zuinglianos (de Zuínglio), Arminianos (de Armínio), Svedenborgianos (de Svedenborg), Socinianos (de Socin), Russelitas (de Russel), Valdenses (de Valdo), Menonitas (de Menno);

outras, do lugar donde vieram: Igreja Livre Evangélica Sueca, Irmãos de Plymouth;

outras, de um povo: Anglicanos (da Inglaterra), Irmãos Moravos (da Morávia);

outras, do modo pelo qual se governam, como os Presbiterianos, os Congregacionalistas;

outras, de alguma doutrina que professam, como os Batistas (20) (que rebatizam os que foram batizados em criança ou por infusão), os Adventistas (que anunciam a próxima vinda ou advento do Senhor), os Pentecostais (que pretendem receber os mesmos carismas do dia de Pentecostes), os Ubiqüitários (que dizem que o corpo de Cristo está em tôda a parte), os Universalistas (que dizem que a predestinação e a salvação são universais);

outras, de algum apelido que foi impôsto aos seus adeptos, como os Metodistas, porque os estudantes reunidos em Oxford por Carlos Wesley, para iniciar a seita, levavam uma vida bastante metódica, ou como os Quacres, de uma palavra inglêsa que quer dizer TREMEDORES, designação que lhes veio por causa da palavra dita pelo fundador Jorge Fox diante do juiz Bennet: "Treme, diante da palavra de Deus".

No século 3.º, Firmiliano, bispo de Capadócia, diz assim: "Há uma só espôsa de Cristo, que é a IGREJA CATÓLICA" (Ep. de Firmiliano n.º 14).

Na história do martírio de S. Piônio (morto em 251) se lê que Polemon o interroga:

  • – Como és chamado?
  • – Cristão.
  • – De que igreja?
  • – Católica. (Ruinart. Acta martyrum pág. 122 n.º 9)

S. Frutuoso, martirizado no ano de 259, diz: "É necessário que eu tenha em mente a IGREJA CATÓLICA, difundida desde o Oriente até o Ocidente" (Ruinart. Acta martyrum pág. 192 n.º 3).

Lactâncio, convertido ao Cristianismo no ano 300, diz: "Só a IGREJA CATÓLICA é que conserva o verdadeiro culto. Esta é a fonte da verdade; êste o domicílio da fé, o templo de Deus, no qual se alguém não entrar, do qual se alguém sair, está privado da esperança de vida e salvação eterna" (livro 4.º cap. 3.º).

S. Paciano de Barcelona (morto no ano de 392) escreve na sua epístola a Simprônio: "Como, depois dos Apóstolos, apareceram as heresias e com nomes diversos procuraram cindir e dilacerar em partes aquela que é a rainha, a pomba de Deus, não exigia um sobrenome o povo apóstólico, para que se distinguisse a unidade do povo que não se corrompeu pelo êrro?... Portanto, entrando por acaso hoje numa cidade populosa e encontrando marcionistas, apolinarianos, catafrígios, novacianos e outros dêste gênero, que se chamam cristãos, com que sobrenome eu reconheceria a congregação de meu povo, se não se chamasse CATÓLICA?" (Epístola a Simprônio n.º 3). E mais adiante, na mesma epístola: "Cristão é o meu nome; CATÓLICO, o sobrenome" (ibidem n.º 4).

S. Cirilo de Jerusalém (do mesmo século 4.º) assim instrui os catecúmenos: "Se algum dia peregrinares pelas cidades, não indagues simplesmente onde está a casa do Senhor, porque também as outras seitas de ímpios e as heresias querem coonestar com o nome de casas do Senhor as suas espeluncas; nem perguntes simplesmente onde está a igreja, mas onde está a igreja CATÓLICA; êste é o nome próprio desta santa mãe de todos nós, que é também a espôsa de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Instrução Catequética c.18; n.º 26).

S. Agostinho (do século 5.º) dizia: "Deve ser seguida por nós aquela religião cristã, a comunhão daquela Igreja que é CATÓLICA, e CATÓLICA é chamada não só pelos seus, mas também por todos os inimigos" (Verdadeira Religião c.7; n.º 12).

E quando o Concílio de Constantinopla, no ano de 381, colocou, no seu símbolo estas palavras: "Cremos na Igreja Una, Santa, CATÓLICA e Apóstolica", isto não constituía novidade alguma, pois já desde tempos antiqüíssimos, se vinha recitando no Credo ou Símbolo dos Apóstolos: Creio na Santa Igreja CATÓLICA.

168. ONDE ESTÁ A PROMESSA DE CRISTO?

Vemos, portanto, na história do Cristianismo, o contraste evidente entre aquela Igreja que veio desde o princípio e logo se espalhou por tôda a parte (Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes (Mateus XXVIII-19) e que desde o comêço foi chamada CATÓLICA, segundo o que acabámos de demonstrar, e as outras heresias que foram aparecendo no decorrer dos séculos, discordando dêste ou daquele ponto, inventadas por um homem qualquer, mas tôdas levadas de vencida pela Igreja, pois ou desapareceram por completo ou ficaram tão reduzidas em número de adeptos que logo mergulharam no esquecimento: como são ebionitas, marcionistas, apolinarianos, sabelianos, arianos, monofisitas, nestorianos, pelagianos, monotelitas etc, etc. Nenhuma conseguiu quebrar-lhe a unidade, nem fazê-la afastar-se de sua doutrina ensinada desde o princípio.

Chega esta Igreja ao século XVI. Aparece então Martinho Lutero, pretendendo afirmar que esta Igreja está completamente afogada no êrro e é preciso fazer a sua reforma doutrinária. A doutrina que êle apresenta é aquela "beleza" que já vimos no capítulo 3.°, uma monstruosidade que aberra contra tôda a lógica. Surgem outros Reformadores, às centenas, cada um apresentando uma doutrina diferente. Se querem, quase todos, basear-se na salvação pela fé sem as obras, já demonstrámos cabalmente que essa teoria vai de encontro a palavras claras da própria Bíblia. Se negam o primado de Pedro, a eficácia do Batismo, a presença real de Cristo na Eucaristia, o poder de perdoar pecados concedido aos Apóstolos, estamos demonstrando neste Livro que tôdas estas negações são contrárias a ensinos evidentes da Sagrada Escritura. Aliás, os protestantes negam êstes pontos da doutrina católica, não porque um estudo consciencioso da Bíblia os leve a tal conclusão, mas sim, porque são forçados pela necessidade; não há outro jeito senão negá-los, uma vez que vindo do século XVI, não têm êles a sucessão apostólica; transmissão de poderes desde os tempos de Cristo é coisa que de forma alguma pode haver agora entre êles, se querem continuar ostentando uma completa independência da Igreja Católica.

Queremos aqui apenas fazer uma pergunta aos protestantes: como é que Cristo deixou durante tantos séculos a sua Igreja mergulhada completamente no êrro, e só no século XVI fêz aparecerem os "inspirados" e "esclarecidos" doutrinadores da verdade? Onde está a Providência Divina com relação à obra de Deus que é a sua Igreja?

Se tal desastre se tivesse verificado, então teria falhado completamente a promessa de Cristo: E as portas do inferno não prevalecerão CONTRA ELA (Mateus XVI-18).

E EU TE DAREI AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS; E

TUDO O QUE LIGARES SOBRE A TERRA SERÁ LIGADO

TAMBÉM NOS CÉUS, E TUDO O QUE DESATARES SOBRE

A TERRA SERÁ DESATADO TAMBÉM NOS CÉUS.

169. A ENTREGA DAS CHAVES.

Depois de chamar a Pedro de pedra fundamental de sua Igreja, depois de prometer que esta Igreja estaria sempre firme, sempre vitoriosa na luta contra os poderes do inferno, Jesus Cristo passa a falar nos plenos poderes que confere ao principal Apóstolo sôbre esta mesma Igreja. A Pedro, só a êle, mais a ninguém, Cristo declara solenemente que lhe vai entregar as chaves do reino dos Céus. Esta expressão —reino dos Céus — tanto pode significar, no Evangelho, a côrte celestial, como pode designar a Igreja: é o que veremos daqui a pouco (n.° 179).

Aqui se trata evidentemente de poderes a serem exercidos na Igreja, porque é sôbre a Igreja que Cristo acabou de falar (edificarei a minha IGREJA) e sôbre a Igreja daqui da terra, que Êle continuará falando (Tudo o que ligares sôbre A TERRA etc.). E trata-se de plenos poderes, porque esta metáfora — entregar as chaves — era usada entre os povos antigos, principalmente entre os orientais, como símbolo de poder. Se um superior entregava a seu súdito as chaves de uma fortaleza ou de uma cidade, isto significava o poder que êle havia de exercer naquela cidade ou naquela fortaleza. Se era o inferior que entregava as chaves ao seu superior, queria indicar com isto que dêle dependia e a êle estava sujeito. A razão de ser desta cerimônia é que antigamente a defesa da cidade estava principalmente nas suas portas. Aquêle que tinha as chaves da cidade, que tomava as suas portas, a possuía virtualmente em suas mãos.

Ainda hoje, mesmo entre nós, aquêle que vende uma casa confere solenemente o pleno domínio de propriedade sôbre esta casa, quando faz a entrega das chaves. O mesmo acontece quando uma casa é alugada: entregar as chaves é transmitir o domínio útil sôbre a mesma; o locatário desde êsse momento tem a casa à sua disposição. Do mesmo modo a Igreja está sob o domínio de Pedro, que recebe plenos poderes sôbre

Os protestantes, querendo diminuir o alcance destas palavras de Jesus, afirmam que S. Pedro recebeu as chaves do reino dos Céus, porque êle foi o primeiro a abrir o reino dos Céus pela pregação no dia de Pentecostes. Mas é a própria Bíblia que se encarrega de desautorizar a mesquinhez desta interpretação. Porque o que vemos na própria Bíblia é a posse das chaves significando um pleno domínio por parte daquele que as recebe.

No livro de Isaías se lê que Deus manda dizer a Sobna, prefeito do templo: E te deitarei fora do teu pôsto e te deporei do teu ministério. E acontecerá isto naquele dia: Chamarei ao meu servo Eliacim, filho de Helcias, e vesti-lo-ei da tua túnica e confortá-lo-ei com o teu cinto e POREI NA SUA MÃO O TEU PODER; E SERÁ COMO PAI PARA OS HABITANTES DE JERUSALÉM e PARA A CASA DE JUDÁ. E POREI A CHAVE DA CASA DE DAVI SÔBRE OS SEUS OMBROS; E ÊLE ABRIRÁ E NÃO HAVERÁ QUEM FECHE; E FECHARÁ E NÃO HAVERÁ QUEM ABRA. E fincá-lo-ei como estaca em lugar firme; e êle será como um trono de glória para a casa de seu pai. E deitarão pendentes dêle tôda a glória da casa de seu pai, diversas castas de vasos, todo o vaso pequenino, desde os vasos de beber até todo o instrumento músico (Isaías XXII-19 a 24).

Também no Apocalipse se põem nos lábios de Cristo estas palavras em que se exprime o seu supremo poder sôbre a morte e o inferno: Eu sou o primeiro e o último, e o que vivo e fui morto; mas eis aqui estou eu vivo por séculos dos séculos e tenho AS CHAVES da morte e do inferno (Apocalipse 1-17 e 18). Éste mesmo poder supremo de Cristo é expresso em outra passagem do mesmo livro: Isto diz o Santo e o Verdadeiro, que tem A CHAVE de Davi, que ABRE E NINGUÉM FECHA, QUE FECHA E NINGUÉM ABRE (Apocalipse III-7).

170. LIGAR E DESLIGAR.

E dentro da própria Bíblia, não é preciso ir tão longe para demonstrar que as chaves aí significam pleno domínio, poder e autoridade, quando é o próprio Jesus Cristo que nos vem ilustrar esta interpretação com as palavras que se seguem no contexto: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus; e tudo o que desatares sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19).

É um poder amplo e universal: TUDO, estende-se a tôdas as pessoas, a tôdas as coisas que digam respeito à natureza da Igreja. QUE LIGARES : é claro que não se trata de amarrar com cordas, nem com cadarços, nem com laços de fita, mas sim de ligar moralmente e o que moralmente nos liga e nos amarra é a obrigação. Trata-se aí, portanto, de impor leis, de instituir obrigações. S. Pedro recebe o poder de legislar na Igreja de Cristo e como a lei tem a sua sanção, o poder de legislar inclui naturalmente o poder de admoestar e de punir. Éle pode excluir do Reino dos Céus, ou da Igreja, aquêles que cometerem certos crimes, porque as chaves dêste reino estão nas suas mãos.

E o que êle fizer no govêrno da Igreja será ratificado nos Céus. As palavras ligar e desligar tinham entre os rabinos o sentido de proibir ou permitir, declarar ilícita ou lícita alguma coisa. Encontram-se no Talmud frases como esta: "Os escribas diziam: na Judéia se trabalha até o meio-dia na véspera de Páscoa; na Galiléia não se trabalha. No que concerne à noite (precedente) a escola de Chammai o liga aos galileus; enquanto a escola de Hillel o desliga até o nascer do sol" (Strack-Billerbeck págs. 739-740).

Alguns protestantes se pegam somente com esta segunda acepção: cabe a Pedro somente declarar lícita ou ilícita uma coisa. Mas ainda mesmo dado e não concedido que ligar e desligar só tivesse entre os rabinos esta significação, vê-se pelas próprias palavras de Cristo quão grande é o poder conferido a S. Pedro: não se trata de declarar lícito ou ilícito aqui na terra aquilo que já fui como tal declarado nos Céus. Mas do inverso. Pedro pode declarar lícita ou ilícita qualquer coisa aqui na terra, que isto será confirmado no próprio Céu, onde passará a ser considerado lícito ou ilícito.

Mas, dirão os protestantes, assim está o chefe da Igreja com o direito de acabar com aquilo que é da própria lei natural ou de preceito divino.

Não há motivo para receio neste ponto. Quando há 2 poderes, um maior, o outro menor, se houvesse nalgum caso contradição entre os dois poderes, o maior prevaleceria. É o que se dá, por exemplo, com a obediência a nossos pais: devemos obedecer a Deus, devemos obedecer aos pais. Mas, se os pais ordenam alguma coisa que é proibida por Deus, cessa o dever de obediência filial. É claro, portanto, que o poder de S. Pedro e de seus sucessores não se estendem àquilo que é contrário ao direito divino.

Do chefe de repartição, do presidente de uma sociedade qualquer que nada decide, nada resolve, se diz vulgarmente que êle não ata nem desata. Não foi para fazer essa figura de papelão, para exercer um papel meramente figurativo, que Cristo fêz de S. Pedro e seus sucessores a PEDRA que havia de sustentar a sua Igreja. Para exercer esta missão era preciso que S. Pedro tivesse plenos poderes no govêrno eclesiástico. Por isto lhe são entregues as chaves do Reino dos Céus. E é por isto também que Cristo lhe diz:

APASCENTA OS MEUS CORDEIROS; APASCENTA AS MINHAS OVELHAS.

171. O PASTOR DO GRANDE REBANHO.

Cristo que orou ao Pai para que os seus seguidores fôssem todos UM, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti (João XVII-21) e que um dia profetizou a realização de seu ideal na Igreja, que Éle havia de fundar: haverá UM REBANHO E UM PASTOR (João X-16), antes de subir aos Céus, resolveu entregar a um homem a missão de pastorear o seu rebanho.

Depois do que pacientemente expusemos (n.º 161) sôbre as prerrogativas dos homens e os atributos de Deus, ninguém vai mais ter o espírito tão estreito que chegue a dizer: Cristo não é o nosso Bom Pastor (João X-11)? Como é que um homem vai ser o pastor de tôda a sua Igreja? É o caso de dizer: Deus não é o Pai dos Céus que cuida de todos nós, de quem todos somos filhos, a quem devemos tôda a submissão? Isto não O impede de nos dar aqui na terra um pai que também cuida de nós e a quem também devemos respeito, amor, sujeição e obediência.

Qual foi o homem, a quem Cristo constituiu pastor de todo o seu rebanho? Foi S. Pedro, o mesmo S. Pedro que o Divino Mestre chamou a pedra, sôbre a qual ia edificar a sua Igreja.

172. O AMOR DE PEDRO.

Vejamos como tudo se passou.

Estavam reunidos alguns Apóstolos com outros discípulos, quando lhes apareceu Jesus: Depois tornou Jesus a mostrar-se a seus discípulos junto do mar de Tiberíades; e mostrou-se-lhes desta sorte: Estavam juntos Simão Pedro e Tomé chamado Dídimo, e Natanael que era de Caná de Galiléia, e os filhos de Zebedeu, e outros dois de seus discípulos (João XXI-1 e 2). É diante dêstes Apóstolos e discípulos, que Jesus faz uma pergunta a Pedro. Tendo êles, pois, jantado, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, tu amas-me mais do que êstes? (João XXI-15).

Nota-se outra vez em Jesus a preocupação de identificar perfeitamente a S. Pedro, para que não se confunda com outro, pois o chama pelo nome de nascimento, acrescentando-lhe o nome do pai: Simão, filho de João. É a Pedro exclusivamente que se dirige.

A pergunta que lhe faz Jesus é bem significativa e, ao mesmo tempo, embaraçosa para S. Pedro. Significativa, porque Jesus mostra muito bem que lhe vai dar uma missão à parte, superior à de seus companheiros, uma vez que para isto se exige que Pedro O ame mais do que os outros. Embaraçosa para S. Pedro, que acabara de colher uma amarga experiência de sua presunção: julgara-se superior aos outros Apóstolos na firmeza e dedicação ao Mestre: Ainda quando todos se escandalizarem a teu respeito, eu nunca me escandalizarei (Mateus XXVI-33). E o resultado de tal presunção havia sido bastante funesto. S. Pedro agora não ousa dizer que ama a Jesus Cristo mais do que os seus companheiros, porque já aprendeu, de sua própria fraqueza, do fracasso de sua negação, a não se julgar superior a ninguém. Sua resposta é firme, sincera e ao mesmo tempo modesta: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo (João XXI-15).

Alguns protestantes, querendo diminuir a significação das palavras ditas a S. Pedro nesta passagem do Evangelho, interpretam assim as palavras de Jesus: Perguntando a Pedro — amas-me mais do que ,êstes? — Nosso Senhor lhe perguntou apenas se o amor que Pedro tinha a Cristo era maior do que o amor que Pedro tinha aos outros Apóstolos e companheiros: amas-me mais do que amas a êstes?

Outros vão mais além. Como a palavra ÊSTES, tanto no grego (TÓUTON), como no latim (HIS) é expressa por uma forma que é igual para o masculino, o feminino e o neutro, dizem que aí se trata do gênero neutro, isto é, Cristo perguntou a Pedro se tinha mais amor a Éle, Cristo, do que àquelas coisas que ali estavam: como eram as barcas, as rêdes, os peixes etc. Interpretação verdadeiramente ridícula, que bem mostra até que ponto pode chegar o partidarismo dos protestantes em matéria de exegese.

Nenhuma das duas interpretações tem fundamento. Se Cristo tivesse perguntado a S. Pedro se êle amava ao Mestre mais do que aos outros discípulos, ou se amava ao Mestre mais do que às rêdes e barcas e pescados, S. Pedro não teria hesitado um só instante, nem de maneira alguma em responder. Éle bem sabia o que se passava no seu coração; sabia perfeitamente que o seu amor ao Mestre superava todos os outros amôres. Nem os seus colegas podiam ficar ofendidos com a resposta afirmativa, pois é nossa obrigação amar a Deus, Fonte de todo o Bem, e amá-Lo de todo o coração e sôbre tôdas as coisas. A hesitação de S. Pedro nascia precisamente disto: Cristo lhe perguntava se o seu amor era maior do que o amor que tinham os outros; Pedro não sabia bem o que ia pelo coração alheio, nem devia julgar-se superior a ninguém (a tríplice negação o havia ensinado nesse ponto), por isto limita-se a dizer: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo (João XXI-15). Não havia motivo algum para Cristo duvidar do amor e da afeição que Pedro Lhe dedicava, a ponto de pensar que Pedro amasse aos próprios companheiros mais do que a Éle. Primeiro que tudo, isto demonstraria uma preocupação, um ciúme que não condizem bem com a pessoa de Cristo. Além disto, Pedro já havia dado ao Divino Mestre, mais do que qualquer outro, provas especiais de amor e de terna afeição.

Basta ver a sinceridade, a veemência com que êle disse: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna (João VI-69). Foi o amor, a consideração que tinha ao seu Mestre que o fêz recusar-se a vê-Lo lavar os pés: Senhor, tu a mim me lavas os pés? (João XIII-6) e foi êste mesmo amor que o levou a dizer, diante da ameaça de Jesus de que não teria parte com Êle: Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça (João XIII-9).

Se algumas vêzes teve os seus erros, foram êstes ocasionados de uma certa forma pelo amor extraordinário que tinha a Jesus. Há em todos êstes erros o sinal do amor.

Não tendo ainda uma compreensão exata dos desígnios e dos planos de Deus com respeito à salvação dos pecadores, seu amor terno e por demais humano para com o Mestre não podia conformar-se com a idéia de que Jesus tinha que ir a Jerusalém e padecer muitas coisas dos anciãos e dos escribas e dos príncipes dos sacerdotes e ser morto (Mateus XVI-21), o que lhe mereceu a repreensão de Jesus: Tira-te de diante de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não tens gôsto das coisas que são de Deus, mas das que são dos homens (Mateus XVI-23). Era preciso uma repreensão muito forte, para Pedro compreender o êrro daquela afeição demasiadamente humana, que era também muito forte; era preciso uma advertência enérgica para que Pedro olhasse o amor a Cristo pelo lado mais sobrenatural, adorando, acima de tudo, os sapientíssimos desígnios de Deus.

173. UM PARÊNTESIS SôBRE PEDRO E SATANÁS.

Aqui vamos abrir um parêntesis para comentar uma divertida observação protestante.

Vivendo a catar na Bíblia tudo quanto é pretexto para destruir as prerrogativas concedidas por Jesus a S. Pedro, os protestantes vêem aí ingênuamente uma prova de que S. Pedro não podia ser chefe da Igreja e assim formulam o seu "formidável" argumento: Cristo chamou de Satanás a Pedro; ora, Satanás não podia ser chefe da Igreja; logo, Pedro não podia ser chefe da Igreja.

O argumento é tão "formidável" que não prova coisa alguma. Por êste mesmo modo de argumentar podia-se provar que S. Pedro não foi Apóstolo de Cristo: Cristo chamou de Satanás a Pedro; ora, Satanás não podia ser Apóstolo de Cristo; logo, Pedro não podia ser Apóstolo. Podia-se provar até que Pedro não era nem cristão: Pedro foi chamado Satanás; ora, Satanás não é cristão; logo, Pedro não é cristão.

Há uma semelhança entre Pedro e Satanás: Pedro é pescador de homens (Lucas V-10) e Satanás o é também, com uma diferença apenas e esta é muito grande. Pedro era pescador de homens, para o Céu, para a vida eterna; Satanás era pescador de homens, para levá-los ao inferno e à eterna perdição.

Assim como a mãe extremosa chama a seus filhinhos queridos de diabinhos, porque êles a tentam várias vêzes ao dia, Cristo quis mostrar a Pedro que, na sua inexperiência, na sua ignorância, estava naquela hora fazendo, como se fôsse um menino sem juízo, um papel próprio de Satanás: estava querendo induzi-Lo a que não sofresse humilhações da parte dos chefes da sinagoga, quando não sabia Pedro que tudo isto era necessário para a nossa própria salvação.

174. AINDA O AMOR DE PEDRO.

Mas prossigamos. Foi também pelo amor ao Mestre que êle feriu a um servo do pontífice e lhe cortou a orelha direita (João XVIII-10).

Êle enganou-se COMO QUALQUER UM DE NÓS SE TERIA ENGANADO, pois O Mestre havia dito: Agora quem tem bôlsa tome-a e também alforje; e o que a não tem, venda a sua túnica e COMPRE ESPADA, porque vos digo que é necessário que se veja cumprido em mim ainda isto que está escrito: E foi reputado por um dos iníquos. Porque as coisas que dizem respeito a mim vão já a ter o seu cumprimento. Mas êles responderam: Senhor, EIS AQUI ESTÃO DUAS ESPADAS. E Jesus lhes disse: BASTA (Lucas XXII-36 a 38). A sua interpretação das palavras do Mestre não foi exata. Mas a intenção foi boa, e a ação, ditada pelo amor: quis defender o Mestre querido. Jesus mesmo permitiu esta reação, porque servia para que, curando o soldado ferido, tivesse ocasião de dar uma cabal demonstração de amor aos inimigos e de que era livremente que a êles se entregava.

Foi pelo amor que Pedro caiu na presunção: Eu darei a minha vida por ti (João XIII-37). Repugnava-lhe a idéia de ter que negar o seu Mestre. Era amor, porém, que precisava de ser acompanhado de humildade; e por isto não foi suficiente para vencer a tentação no momento preciso. A prova de que havia muito amor a Jesus no seu coração foram as lágrimas copiosas que êle derramou logo após o cantar do galo: E tendo saído para fora, chorou Pedro amargamente (Lucas XXII-62).

E mais uma prova de seu amor ao Mestre, Pedro tinha dado nesta mesma aparição de Jesus, sôbre a qual estamos falando e que se realizou à margem do mar de Tiberíades. Logo que viu que Jesus ali estava, Pedro não esperou que a barca chegasse em terra, lançou-se ao mar, ansioso por se encontrar com o Mestre: Então aquêle discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor. Simão Pedro, quando ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a sua túnica (porque estava nu) e lançou-se ao mar. E os outros discípulos vieram na barca (João XXI-7 e 8). O amor se descobre nestas pequeninas coisas.

Enganou-se Pedro algumas vêzes; mostrou ignorância, o que é natural, porque era um rude pescador e não havia recebido ainda a abundância das luzes do Espírito Santo no Pentecostes; mas o que é fato é que assim como se sobressaiu entre os discípulos pela sua fé decidida, assim também se salientou pelo seu amor ardoroso. E é por isto que Jesus lhe diz, a êle especialmente, depois de exigir-lhe uma confissão de seu amor: Apascenta os meus cordeiros (João XXI-15).

A cena se repete ainda duas vêzes: Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, tu amas-me? Éle Lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe terceira vez: Simão, filho de João, tu amas-me? Ficou Pedro triste, porque terceira vez lhe perguntara: Tu amas-me? e respondeu--Lhe: Senhor, tu conheces tudo; tu sabes que eu te amo. Disse-Lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas (João XXI-16 e 17).

175. VERBO APASCENTAR.

Vê-se, pelo texto grego, que tendo Jesus dito a Pedro três vêzes APASCENTA, êste verbo apascentar é expresso de duas formas: BóSKO POIMÁINO. É a missão do pastor em tôda a extensão da palavra, pois enquanto BÓSKO é empregado mais para significar a ação de nutrir, oferecer o alimento, o verbo POIMÁINO é freqüentemente empregado na Escritura para significar a idéia não só de instruir com palavras (E vos darei pastôres segundo o meu coração, os quais vos APASCENTARÃO com a ciência com a doutrina — Jeremias III-15), mas também de governar e governar com autoridade e por isto é aplicada a Deus e também aos reis. Vejamos alguns exemplos.

No livro 2.º dos Reis se aplica êste vêrbo a Davi, que ia ser rei de Israel: E vieram tôdas as tribos de Israel ter com Davi em Hebron, dizendo: Aqui nos tens, que somos teus ossos e tua carne. E ainda ontem e antes de ontem, quando Saul era rei sôbre nós, eras tu o que conduzias e fazias voltar a Israel; e o Senhor te disse: Tu APASCENTARÁS meu povo de Israel, e tu serás o condutor de Israel (2.º Reis V-1 e 2).

A respeito do mesmo Davi se lê em Ezequiel: Eu salvarei o meu rebanho e êle não servirá mais de prêsa, e eu julgarei entre ovelhas e ovelhas. E suscitarei sôbre elas um único Pastor que as APASCENTE, meu servo Davi; êle mesmo as APASCENTARÁ, e êste mesmo terá o lugar de seu pastor. Eu, porém, o Senhor, serei para êles o seu Deus, e meu servo Davi será no meio delas como o seu príncipe (Ezequiel XXXIV-22 a 24).

No livro de Isaías se lê a respeito de Deus: Eis aí virá o Senhor Deus com fortaleza e o seu braço dominará; eis aí virá com Ele a sua paga e diante «Ele a sua obra. Ele APASCENTARÁ, como pastor, o seu rebanho, ajuntará pela fôrça do seu braço os cordeiros e os tomará no seu seio, Ele mesmo levará sôbre si as ovelhas que estiverem prenhes (Isaías XL-10 e 11).

Em Miquéias se lê na profecia sôbre o Messias: E tu, Belém E frata, tu és pequenina entre os milhares de Judá; mas de ti é que me há de sair Aquêle que há de reinar em Israel... E Ele estará firme e APASCENTARÁ o seu rebanho na fortaleza do Senhor (Miquéias V-2 e 4).

Em todos êstes exemplos acima citados, o verbo APASCENTAR é expresso no texto grego (versão dos Setenta), pelo verbo POIMÁINO, O mesmo verbo que é aplicado a S. Pedro (João XXI-16).

Cristo confere, portanto, a Pedro, a missão não só de instruir, mas também de governar o seu rebanho, como um rei governa o seu povo.

176. PASTOR DOS PASTÔRES.

Mas, dirão os protestantes, os Apóstolos também não são pastôres?

— Não há dúvida; mas foi somente a Pedro que Cristo confiou a missão de reger e pastorear, não alguns de seus cordeiros, algumas de suas ovelhas, mas os SEUS CORDEIROS, AS SUAS OVELHAS sem restrição alguma.

Os seus cordeiros, as suas ovelhas — quer dizer todos os que pertencem ao rebanho de Cristo, tôdas as suas ovelhas e cordeiros e aí se incluem os próprios Apóstolos, que são também ovelhas do Divino Salvador: A todos vós serei eu esta noite uma ocasião de escândalo, pois está escrito: Eu ferirei o pastor e AS OVELHAS se porão em desarranjo (Marcos XIV-27).

O artigo que precede a êsses nomes (os meus cordeiros; as minhas ovelhas) vem também no texto grego.

Quando o protestante pede a Deus: Senhor, protegei os MEUS FILHOS, não está pedindo a Deus que proteja TODOS OS SEUS FILHOS? Ou está pedindo apenas que proteja alguns? Quando o protestante diz ao seu criado: Tome conta DOS MEUS CANÁRIOS, vai ficar satisfeito se o criado que se descuidou de alguns, vem apresentar, como desculpa, que o seu patrão não falou em TODOS OS CANÁRIOS? Quando diz ao seu filho: Estude AS SUAS LIÇÕES, está mandando que estude TÔDAS as suas lições ou que estude somente algumas? Quando diz: As MINHAS PALAVRAS São sinceras, quer dizer que tôdas elas são sinceras ou que somente algumas o são? Como é então que só diante dêste texto, vem alegar que

Cristo não disse: TODOS OS MEUS CORDEIROS, TÔDAS AS MINHAS OVELHAS?

Todos os Apóstolos eram pastôres. Mas por que SOMENTE a Pedro, Cristo fêz especialmente Pastor DO SEU REBANHO (e seu rebanho é tôda a Cristandade), a êste mesmo Pedro que Éle declarou seria a pedra sôbre a qual edificaria a sua Igreja, a êste mesmo Pedro pelo qual orou especialmente, para que êle confortasse os seus irmãos (Lucas XXII-32)? É porque Pedro, sendo o chefe visível da Igreja, havia de ser naturalmente aqui na terra o pastor dos pastôres.

177. NÃO FOI UMA REINTEGRAÇÃO NO APOSTOLADO.

Procurando diminuir o valor demonstrativo dêstes textos (Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas), os protestantes se lembraram de forjar a seguinte explicação: Pedro havia negado o seu Mestre; tinha, portanto, perdido o direito de ser Apóstolo de Cristo, pois não se pode negar o Mestre e ser seu Apóstolo ao mesmo tempo. Dizendo-lhe especialmente: Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas, Cristo está apenas restituindo a Pedro o cargo de Apóstolo que êle havia perdido.

— Antes de tudo, a argumentação dos protestantes se baseia num falso suposto: o de que Pedro, só pelo simples fato de sua negação foi destituído do seu cargo de Apóstolo. É claro que, se êle continuasse a negar o Mestre por todo o resto da vida, não poderia ser Apóstolo, pois para ser Apóstolo, haveria de confessar o Cristo. Mas a sua conversão foi pronta, sincera e imediata. Depois da queda, Pedro, profundamente humilde, está mais do que nunca indicado para Apóstolo. Por isto diz S. Ambrósio: "Ensina-nos, ó Pedro, de que te aproveitaram tuas lágrimas? mas tu ensinaste imediatamente, pois tu que antes de chorar, caíste; depois de chorar, te levantaste para reger os outros, tu que antes não tinhas regido a ti mesmo".

Mas, supondo mesmo que fôsse como dizem os protestantes, que a negação o tivesse despojado da sua dignidade de Apóstolo, o que é certo é que na hora em que Cristo lhe disse: Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas (João XXI-15, 16 e 17), a dignidade de Apóstolo, Pedro já a teria recuperado. Não só Cristo lhe fêz uma aparição especial depois da ressurreição, mas também ANTES daquela cena da margem do lago de Tiberíades, já aparecera a Pedro e aos demais Apóstolos, quando estavam trancados numa casa de Jerusalém, com exceção apenas de S. Tomé, e tinha dito a todos êles, portanto também a S. Pedro: Assim COMO O PAI ME ENVIOU A MIM, TAMBÉM EU VOS ENVIO A vós (João XX-21). Recebei o Espírito Santo; aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-22 e 23). E S. João logo acrescenta: Porém Tomé, UM DOS DOZE, que se chama Dídimo, não estava com êles quando veio Jesus (João XX-24).

Que quer dizer Apóstolo, senão enviado? Aquêles doze foram os enviados de Jesus. E aí já aparecem recebendo (S. Pedro com êles) a prerrogativa de perdoar pecados e reter. Logo, Cristo não pensou absolutamente em fazer a Pedro uma restituição de apostolado, pois Apóstolo, Pedro já era e continuava sendo, quando Cristo lhe disse: Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas. Éle quis, não há dúvida, levá-lo a fazer com a tríplice confissão de amor uma reparação pública pela sua tríplice negação. Mas desta tríplice confissão de amor se serviu imediatamente, como base, para conceder a Pedro uma prerrogativa que não concedeu aos demais Apóstolos: a de ser Pastor de todo o seu rebanho.

A DISPUTA SABRE O MAIOR

178. ORIGEM DA DISPUTA.

Os protestantes objetam o seguinte: Depois que Cristo disse: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja, os Apóstolos ainda aparecem disputando sôbre qual dêles é o maior no Reino dos Céus. Ora, isto é um sinal de que não tinham entendido as palavras de Cristo no sentido de que Pedro era o chefe, portanto o maior de todos. Além disto, quando perguntaram qual era o maior no Reino dos Céus, se na verdade fôsse Pedro o chefe da Igreja, Cristo deveria responder: É Pedro e não outro o maior no Reino dos Céus. Mas qual foi a resposta de Cristo? Foi esta: Na verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não fizerdes como meninos, não haveis de entrar no Reino dos Céus. Todo aquêle, pois, que se fizer pequeno como êste menino, êsse será o maior no Reino dos Céus (Mateus XVIII-3 e 4). É uma prova, portanto, de que Cristo não tinha nem a Pedro, nem a ninguém na conta de chefe, nem de maior, mas eram todos iguais.

— O fato de surgir entre os Apóstolos aquela disputa sôbre quem era o maior, foi justamente uma prova de que Jesus Cristo estava distinguindo a Pedro com a primazia. Se Cristo os considerasse a todos iguais, em ninguém se teria despertado a preocupação de saber quem era o maior, nem quem era o menor. E o Evangelho de S. Mateus nos mostra claramente a seqüência lógica dos acontecimentos. No capítulo XVI se mostra, como vimos, Jesus chamando a Pedro pedra de sua Igreja, dando-lhe as chaves do Reino dos Céus, o poder de ligar e desligar. Porém imediatamente S. Mateus nos mostra Jesus fazendo a Pedro uma repreensão bem severa diante de todos: Tira-te de diante de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não tens gôsto das coisas que são de Deus, mas das que são dos homens (Mateus XVI-23). Isto, como é natural, serviu para amortecer bastante o efeito que teriam produzido aquelas prerrogativas prometidas especialmente à pessoa de Pedro. No capítulo seguinte se mostra Jesus levando para o monte Tabor, para a sua transfiguração, a 3 Apóstolos somente: Pedro, Tiago e João. Era um grande privilégio concedido agora a três de uma vez. Éste mesmo capítulo XVII no fim nos mostra o episódio do impôsto das dracmas, em que Cristo dá uma distinção especialíssima a S. Pedro, mandando-lhe que pesque, para poder adquirir um estáter e pagar o impôsto em nome do Mestre e em seu próprio nome. Todos êsses fatos reunidos despertaram o ciúme, a emulação entre os Apóstolos e a sua pergunta a Cristo: Quem é maior no reino dos Céus? (Mateus XVIII-1) vem no texto grego acompanhada da partícula ÁRA que quer dizer PORTANTO: Quem é PORTANTO maior no Reino dos Céus? É uma conseqüência da distinção feita naquela hora a S. Pedro e da discussão que se suscitou entre êles.

Ainda mesmo que êles tenham a certeza de que Pedro é o primeiro, sabe-se muito bem como são os homens, quando estão interessados num assunto, quando estão "torcendo" para que alguma coisa não se verifique. Cheios de ciúme, de ambição de conseguir o primeiro lugar, os Apóstolos só se conformarão quando ouvirem o Mestre desenganá-los com uma aberta declaração do assunto e por isto vêm perguntar: Quem julgas tu que é maior no Reino dos Céus? (Mateus XVIII-1), para se desiludirem de uma vez e tirarem a limpo tôda a questão.

Mas Jesus lhes responde com a máxima habilidade.

Primeiro que tudo, os Apóstolos não sabiam bem o que estavam perguntando, porque não conheciam exatamente o que vinha a ser êsse Reino dos Céus.

Tinham sôbre o mesmo uma idéia confusa, pois estavam imbuídos daquela mesma concepção que predominava entre os judeus, ou seja, a idéia de um reino messiânico a realizar-se aqui na terra, com predomínio de Israel sôbre os outros povos. Esta idéia, os Apóstolos a conservaram até mesmo depois da ressurreição e só perderam êste preconceito, quando os iluminou o Espírito Santo, no dia de Pentecostes. Por isto os vemos ainda perguntando, quando o Mestre, prestes a subir para Céu, lhes ordena que não saiam de Jerusalém para poder receber o Paráclito: Senhor, dar-se-á caso que restituas neste tempo o reino a Israel? (Atos 1-6).

179. O REINO DOS CÉUS.

Uma coisa é evidente nos Evangelhos: a expressão Reino dos Céus é tomada em dois sentidos diversos, embora afins. Ora designa a Igreja, ora designa o reino celestial da eterna bem-aventurança, onde se reúnem os anjos e os santos.

Vejamos por exemplo: O Reino dos Céus é semelhante a uma rêde lançada no mar, que tôda a casta de peixes colhe e, depois de estar cheia, a tiram os homens para fora e, sentados na praia, escolhem os bons para os vasos e deitam fora os maus. Assim será no fim do mundo: sairão os anjos e separarão os maus dentre os justos e lançá-los-ão na fornalha de fogo (Mateus XIII-47 a 50). Pelo que aí se vê, o Reino dos Céus vem a significar a Igreja, a qual tem bons e maus, porque mesmo dentre os que crêem em Cristo e em todos os seus ensinamentos, nem todos cumprem a lei divina e têm o espírito de Cristo, como deviam; no fim do mundo é quando se fará a separação e só os bons é que irão para o Reino dos Céus, tomado êste no sentido da bem-aventurança celeste.

Do mesmo modo: O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; e, enquanto dormiam os homens, veio o inimigo e semeou depois cizânia no meio do trigo e foi-se. E tendo crescido a erva e dado fruto, apareceu também então cizânia (Mateus XIII-24 a 26). No tempo da ceifa, direi aos segadores: Colhei primeiramente a cizânia e atai-a em molhos para a queimar; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro (Mateus XIII-30). No fim do mundo, portanto, se fará a depuração.

O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo; o qual grão é na verdade o mais pequeno de todas as sementes, mas depois de ter crescido é maior que tôdas as hortaliças e se faz árvore, de sorte que as aves do céu vêm a fazer ninhos nos seus ramos (Mateus XIII-31 e 32). Aí se trata evidentemente da Igreja, pequenina a princípio, reduzida a 12 Apóstolos, poucos discípulos e algumas mulheres, e depois desenvolvendo-se até estender os seus ramos pelo mundo inteiro.

Em outras ocasiões, porém, Jesus falando do Reino dos Céus fala a respeito da eterna bem-aventurança. Assim, quando diz: Se a vossa justiça não fôr maior e mais perfeita do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus (Mateus V-20) ou quando diz: Em verdade vos digo que um rico dificultosamente entrará no Reino dos Céus (Mateus XIX-23), Jesus aí não se refere à Igreja: é fácil a um homem que não seja mais virtuoso que os fariseus, ou que seja rico entrar na Igreja e ser aí um mau peixe ou uma cizânia no meio do trigo; difícil, sim, será que entre no Céu. Do mesmo modo, quando Cristo diz: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque dêles é o Reino dos Céus (Mateus V-3) Digo-vos, porém, que virão muitos do Oriente e do Ocidente e que se sentarão à mesa com Abraão e Isaque e Jacó no Reino dos Céus, mas que os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores (Mateus VIII-11), a referência à bem-aventurança celeste é bem evidente.

180. LEVANTANDO OS ÂNIMOS.

Ali estavam os Apóstolos a perguntar quem era o maior no Reino dos Céus (existente aqui na terra), fôsse qual fôsse a idéia que êles tinham dêsse reino. Mas estavam desunidos, cheios de ambição de glória e de mando, num estado de espírito que só podia ser amplamente desastroso para a Igreja. Que seria da Igreja, se os Apóstolos, seus futuros propagadores, as colunas em que ia firmar-se, estavam assim rosnando entre si, divididos pelo ciúme e pela discórdia? Jesus podia ter-lhes dito: O maior, o chefe de Vocês é Simão Pedro. Mas isto não resolveria o caso, não serviria para arrancar-lhes o veneno da rivalidade que havia em seus corações. Preferiu levantar-lhes o espírito, falando-lhes do Reino dos Céus noutro sentido, não o reino, a Igreja aqui na terra, mas o prêmio eterno de Deus lá no Céu, o qual êles não conseguirão de forma alguma se continuarem com esta soberba, se não se tornarem simples e humildes e desinteressados de honras e de grandezas, como são as crianças: Na verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não fizerdes como meninos, não haveis de entrar no Reino dos Céus (Mateus XVIII-3). E em lugar de se estarem preocupando com os primeiros lugares aqui na terra, a preocupação que deviam ter era a de alcançar o primeiro lugar no Céu, mas isto só conseguirão à custa de humildade e quanto mais humildes forem, melhor lugar alcançarão: Todo aquêle, pois, que se fizer pequeno como êste menino, êsse será o maior no Reino dos Céus (Mateus XVIII-4). Vê-se, portanto, que Nosso Senhor mudou de assunto, procurando hàbilmente elevá-los a uma consideração mais alta, para dar-lhes uma lição de cordura, de humildade e desprendimento e concitá-los a acabarem com aquela discussão tão antipática e desastrosa.

Cristo aí toma o Reino dos Céus, como sinônimo do Céu; quando dizemos que Pedro ou o Papa tem a chave do Reino dos Céus, é o maior no Reino dos Céus, aqui entendemos a Igreja. É claro que um cristão dos mais humildes, dos mais obscuros, pode alcançar no Céu um lugar maior do que o do Papa. E não negamos a possibilidade de alguns Papas não terem nem entrado no Céu. Isto é outro assunto. O que não impediu a Cristo de deixar um PASTOR UNIVERSAL para a sua Igreja, pois a Igreja é uma sociedade bem organizada e tôda sociedade bem organizada tem um chefe. E outro não é na Igreja de Deus senão aquêle que é o sucessor de Pedro, a quem foi dito: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja... E eu te darei as chaves do Reino dos Céus (Mateus XVI-18 e 19).

A QUESTÃO DOS DOZE TRONOS

181. OUTRA OBJEÇÃO DO MESMO GÊNERO.

Mas os Apóstolos ainda não se emendaram completamente com a lição do Mestre. A idéia de competição surgiu novamente entre êles. E surge, por conseqüência, uma nova objeção dos protestantes.

Objetam com as palavras de Cristo: Sabeis que os príncipes das gentes dominam os seus vassalos e que os que são maiores exercitam, o seu poder sôbre êles. Não será assim entre vós outros; mas entre vós todo o que quiser ser o maior, êsse seja o que vos sirva; e o que entre vós quiser ser o primeiro, êsse seja o vosso servo (Mateus XX-25 a 27).

Logo, dizem êles, Cristo destruiu completamente a idéia de que entre os Apóstolos houvesse alguém que dominasse os outros.

— Vejamos, porém, como tudo se passou.

No capítulo anterior, S. Mateus nos mostra S. Pedro dizendo ao Mestre: Eis aqui estamos nós que deixámos tudo e te seguimos: que galardão, pois, será o nosso? (Mateus XIX-27).

A resposta de Jesus é esta: Em, verdade vos afirmo que vós, quando no dia da regeneração estiver o Filho do Homem sentado no trono da sua glória, vós torno a dizer, que me seguistes, também estareis sentados sôbre doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel (Mateus XIX-28).

182. UMA OBSERVAÇÃO FORA DE PROPÓSITO.

Para mostrar como os protestantes vivem catando a torto e a direito passagens da Bíblia, para ver se tapam o sol com uma peneira, ou no caso, se obscurecem a primazia de S. Pedro sôbre os demais Apóstolos, basta dizer que há alguns dêles (e até ilustrados!) que diante dêste texto se põem a dizer: Estão vendo? Cristo aí não fala num trono mais elevado para S. Pedro, fala em 12 tronos; logo, todos os Apóstolos eram iguais! A objeção é verdadeiramente infantil, porque está argumentando com aquilo que vai acontecer DEPOIS QUE O MUNDO SE ACABAR. Nesse tempo não haverá mais Papa governando a Igreja, pois é um govêrno que se exerce AQUI NA TERRA, para que a Igreja cumpra fielmente a sua missão, de acôrdo com o estabelecido pelo seu Divino Fundador Jesus Cristo. O grau maior ou menor de glória é devido à virtude de cada um; se os Apóstolos estarão assim tão elevados, não é pelo simples fato de terem sido escolhidos para Apóstolos. Pois houve um que foi escolhido para Apóstolo e no entanto fracassou: Judas Iscariotes, o qual não terá direito a trono algum. Se os Apóstolos conseguirão êsses tronos, é porque os terão merecido pelas suas virtudes. E são duas coisas diferentes: a virtude de uma pessoa e o cargo que esta pessoa exerce. Quais os que brilharão mais nos seus respectivos tronos, isto fica para vermos no dia em que se vai cumprir exatíssimamente a justiça de Deus.

183. A PROPOSTA DA MÃE DOS FILHOS DE ZEBEDEU.

Mas voltemos à nossa exposição. Cristo tinha prometido 12 tronos no Céu aos 12 Apóstolos para julgar as tribos de Israel. Isto chegou ao conhecimento de Salomé, a mãe de João e Tiago, a qual não se contentou com a certeza de que seus 2 filhos teriam um trono cada um. Ela não fazia uma idéia muito clara sôbre que espécie de trono seria êste. Mas queria algo mais para os seus filhos: que êsses 2 tronos fôssem os primeiros, os principais, um à direita, outro à esquerda do Mestre.

A mulher não veio fazer êste pedido contra a vontade dos filhos; ao contrário, êles estavam perfeitamente de acôrdo com a proposta materna. E a prova é que Jesus interrogará daqui a pouco a João e a Tiago, e êles se mostrarão interessados nesta pretensão. É bem interessante notar que tal ambição existe precisamente em Tiago e João, quando sabemos que Pedro, Tiago e João eram os discípulos principais, os discípulos privilegiados do Salvador. Êles se aliam afim de deixar Pedro para trás, sinal de que já sabiam ou, pelo menos, desconfiavam que Pedro gozava da primazia. E tomando conta um do trono à direita e outro, do trono à esquerda, para Pedro não sobraria senão um lugar de menos relêvo.

Diante da petição da mãe dos 2 Apóstolos, Jesus lhes diz, não só a ela, mas também aos filhos que esposavam aquela idéia: Não sabeis o que pedis (Mateus XX-22). "Pedis o triunfo antes da luta, antes da vitória; além disto o meu reino não é terreno e pomposo, como pensais, sim espiritual e eterno, conquistado à custa de sacrifícios e de atos heróicos de virtude; pedis honras, quando antes devíeis pedir a graça necessária para poderdes suportar os trabalhos e sofrimentos que deverão ser arrostados por causa do meu nome", assim parafraseia um douto comentarista.

Para conseguir êsses lugares, é preciso passar pelo martírio. Por isto o Mestre pergunta: Podeis vós beber o cálix que eu hei de beber? (Mateus XX-22).

Isto é uma prova de que se trata aqui, não de um lugar na Igreja, mas de um lugar privilegiado para os Apóstolos na glória celeste, pois seria absurdo dizer que para ter um lugar de honra no govêrno da Igreja, govêrno que é exercido aqui na terra, seja preciso morrer, ser martirizado primeiro. Nem será preciso gastar muita tinta para provar que — beber o cálix — aí equivale a passar por amarguras, sofrer e morrer. Basta relembrar a palavra de Cristo, no Horto das Oliveiras, ao iniciar a sua paixão: Pai meu, se é possível, passe de mim êste cálix (Mateus XXVI-39). E Cristo no nosso caso está falando em beber-se o mesmo cálix que Êle bebeu.

Tiago e João dizem: Podemos (Mateus XX-22), isto é, estamos preparados para morrer por ti. Nosso Senhor lhes responde: Haveis de beber o meu cálix (Mateus XX-23). Realmente S. Tiago foi o primeiro Apóstolo martirizado, conforme se lê nos Atos: E neste mesmo tempo enviou o rei Herodes tropas para maltratar a alguns da Igreja. E matou à espada a Tiago, irmão de João (Atos XII-1 e 2). S. João foi mandado lançar por Domiciano na caldeira de óleo fervendo, mas dela saiu ileso, tornando-se um "mártir vivo" pelo resto da vida, como diz S. Jerônimo.

Mas continua Nosso Senhor: Pelo que toca a terdes assento à minha mão direita ou à esquerda, não me pertence a mim o dar-vo-lo; mas isso é para aquêles para quem está preparado por meu Pai (Mateus XX-23).

E o Evangelho diz em continuação: E quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos (Mateus XX-24).

184. A EXORTAÇÃO DO MESTRE.

Eis aí novamente a desunião, a falta de caridade reinando entre os Apóstolos e tudo motivado pela cobiça, pelo desejo de suplantar os outros. Era mais uma vez a crise da discórdia ameaçando a Igreja. Tornava-se necessário repreender vivamente os Apóstolos e outra vez recomendar-lhes a humildade cristã, a simplicidade, o desprendimento. Vamos então repetir as palavras de Jesus na sua íntegra, uma vez que há no fim um pequeno trecho que os protestantes manhosamente ocultam, porque é o suficiente para destruir completamente a sua objeção. São estas as palavras de Jesus: Sabeis que os príncipes das gentes dominam os seus vassalos e que os que são maiores exercitam o seu poder sôbre êles. Não será assim entre vós outros, mas entre vós todo o que quiser ser o maior, êsse seja o que vos sirva; e o que entre vós quiser ser o primeiro, êsse seja o vosso servo, ASSIM COMO O FILHO DO HOMEM NÃO VEIO PARA SER SERVIDO, MAS PARA SERVIR e para dar a sua vida em redenção por muitos (Mateus XX-25 a 28).

Jesus repreende os seus discípulos por aquela competição sôbre qual há de ser o maior no Reino dos Céus, quando os cristãos não devem ser como os pagãos, que têm ambição de mando e procuram ser grandes só para dominar os outros com soberba. Devem seguir o seu exemplo. Ninguém tinha mais autoridade, mais poder do que Êle; e no entanto Êle veio ao mundo fazer o papel de servo, não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela redenção de muitos. Esta humildade, entretanto, diminuía em alguma coisa a qualidade de chefe que tinha Jesus? Que não diminuía, se vê claramente na cerimônia do Lava-pés: Jesus, ao realizar a ceia na véspera de sua Paixão, lavou os pés de seus discípulos e depois lhes disse: Sabeis o que vos fiz? Vós chamais-me MESTRE E SENHOR, e dizeis bem PORQUE O SOU. Se eu, logo, sendo vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, deveis vós também lavar-vos os pés uns aos outros, porque eu dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais vós também (João XIII-12 a 15). Cristo recomenda a humildade a todos, mas esta humildade não despoja da autoridade aquele que dela estiver revestido, assim como não destruía a autoridade do próprio Cristo.

E a prova de que das palavras do Mestre, dirigidas aos seus discípulos por ocasião da questão dos doze tronos, não se segue absolutamente que todos sejam iguais, é que S. Lucas traz estas mesmas palavras e pela frase que se lê em S. Lucas se mostra claramente que há um que é o maior, um que governa entre êles: Porém Jesus lhes disse: Os reis dos gentios dominam sôbre êles e os que têm sôbre êles autoridade chamam-se benfeitores. Não há de ser, porém, assim entre vós outros; mas O QUE ENTRE VÓS É O MAIOR faça-se como o mais pequeno e O QUE GOVERNA seja como o que serve. Porque qual é o maior, o que está sentado à mesa ou o que serve? não é maior o que está sentado à mesa? pois eu estou no meio de vós outros assim como o que serve (Lucas XXII-25 a 27).

Por que é que os protestantes, para entender bem o sentido de um texto, não o comparam com os textos paralelos? Isto é um cuidado elementar que deve ter quem queira SINCERAMENTE penetrar o verdadeiro sentido das palavras do Mestre. Querer argumentar somente com um texto, desprezando intencionalmente outros que o esclarecem, só pode resultar nisto mesmo: atribuir-se a Nosso Senhor uma intenção que Êle jamais teve. A sua intenção não foi dizer que não havia primazia em nenhum dos Apóstolos. Foi, sim, combater o espírito de ambição reinante entre os seus discípulos, fazendo-lhes ver que aquêle que quiser ser o primeiro no Céu, tem que ser o primeiro na humildade, porque a humildade é o caminho do Céu: Todo o que se exalta será humilhado, todo o que se humilha será exaltado (Lucas XIV-11). E aquêle que governa, para bem fazê-lo, há de ser humilde, como foi humilde o Mestre a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (Mateus XXVIII-18), mas que não deixou, por isto, de ser um vivo exemplo de humildade: Aprendei de mim que sou manso e HUMILDE de coração (Mateus XI-29).

185. S. PEDRO SEGUIU OS CONSELHOS DO MESTRE.

S. Pedro, iluminado pelo Espírito Santo quando assumiu o govêrno da Igreja, no dia de Pentecostes e já antes preparado psicologicamente pelo pecado da negação, o qual êle havia de deplorar e carpir por todo o resto da vida, estava apto para assimilar perfeitamente a doutrina do Mestre: devia governar com humildade, pois o que governa, o que é o maior deve ser o mais humilde. Não têm, portanto, razão de ser as alegações daqueles que acham não ter sido S. Pedro o chefe da Igreja, porque não vêem um TOM AUTORITÁRIO nas suas palavras, o que se explica pela extraordinária modéstia do Apóstolo, que seguiu com tôda a perfeição os conselhos de Jesus.

Se S. Pedro diz na sua 1.° Epístola: Esta é, pois, a rogativa que eu faço aos presbíteros que há entre vós, eu PRESBÍTERO como êles e testemunha das penas que padeceu Cristo (1.º Pedro V-1), daí não se pode tirar um argumento para negar que fôsse Pedro o chefe da Igreja, como fazem os protestantes que dizem: Êle aí está-se dizendo um presbítero como os outros; logo, não é o chefe. É um dêsses argumentos que não provam nada, porque provam demais: com esta mesma maneira de argumentar se poderia provar também que Pedro não era Apóstolo, pois um Apóstolo era evidentemente mais do que um simples presbítero. A raciocinar dêste jeito, quando ouvíssemos um general modestamente dizer aos seus soldados: "Eu que sou como vós um soldado da Pátria, apelo para a vossa boa vontade" etc, etc, teríamos o direito de dizer: "Estão vendo? eu não disse? êle não é general, não é nem mesmo um oficial, porque êle mesmo se declara um soldado." Raciocínio evidentemente falho, porque a maior dignidade inclui as atribuições da menor; quem é general é também soldado; quem era Apóstolo, máxime quem era o chefe dos Apóstolos tinha inclusivamente todos os direitos, todos os poderes, todos os privilégios de um simples presbítero.

186. SILÊNCIO DE S. MARCOS.

Outra conseqüência da extrema humildade e modéstia de S. Pedro foi o silêncio de S. Marcos sôbre tudo o que servia de glória para o Apóstolo.

S. Marcos narra a confissão de S. Pedro e não traz, como S. Mateus, as palavras seguintes que lhe disse Jesus: Tu és Pedro e sôbre esta pedra etc. Então lhes disse Jesus: E vós outros quem dizeis que sou eu? Respondendo Pedro, Lhe disse: Tu és o Cristo. E Jesus lhes proibiu com ameaças que a ninguém dissessem isto dÊle (Marcos VIII-29 e 30). E no entanto S. Marcos narra a repreensão severa que Pedro recebeu logo em seguida: Tira-te de diante de mim, Satanás, que não tens gôsto das coisas de Deus, mas sim das dos homens (Marcos VIII-33). E o mesmo S. Marcos narra bem circunstanciadamente a negação de S. Pedro (Marcos XIV-29 a 31; 66 a 72), bem como fala na censura a êle feita porque dormia no Getsêmani (Marcos XIV-37).

Ora, S. Marcos fêz o seu Evangelho de acôrdo com o que ouviu da pregação de Pedro. Devia, portanto, dizem os protestantes, ser o primeiro a narrar êste episódio.

— Mas, afinal, aonde se quer chegar com semelhante argumentação? Quer-se provar com isto que S. Mateus mentiu ou inventou? Quem estava mais apto para contar tudo quanto se passou sem faltar coisa alguma: S. Mateus, que foi testemunha ocular do fato ou S. Marcos e S. Lucas, que não foram testemunhas? Então uma passagem de S. Mateus precisa de ser repetida por S. Marcos ou por outro Evangelista, para ser palavra de Deus? Tudo quanto está na Escritura não merece a nossa fé? Porque uma passagem do Evangelho não nos agrada, vamos exigir que a Bíblia a repita para nela acreditarmos?

Há muitos pontos importantes da vida e da doutrina de Cristo que vêm narrados por um só Evangelista.

S. João é o único evangelista a nos narrar o milagre das bodas de Caná (II-1 a 11), a entrevista de Jesus com Nicodemos (III-1 a 11), seu encontro com a Samaritana (IV-4 a 42); as curas: do filho do régulo de Cafarnaum (IV-43 a 54), do paralítico da piscina (V-1 a 16) e do cego de nascença (IX-1 a 41), o episódio da adúltera (VIII-1 a 11), a parábola do Bom Pastor (X-1 a 16), a ressurreição de Lázaro (XI-1 a 45), a cerimônia do Lava-pés (XIII-1 a 20).

S. Lucas é o único evangelista a nos narrar: a anunciação a Maria e Encarnação do Verbo (1-26 a 28), a adoração dos pastôres (11-8 a 20), a purificação (11-22 a 38), o episódio de Jesus perdido no templo (11-41 a 50), a parábola do Bom Samaritano (X-30 a 37), o episódio de Jesus, Maria e Marta em Betânia (X-38 a 42), a cura da mulher encurvada (XIII-10 a 17); as parábolas: da tôrre a ser edificada (XIV-28 a 30), da guerra a ser empreendida (XIV-31 a 33), da dracma perdida (XV-8 a 10), do filho pródigo (XV-11 a 32), do ecônomo infiel (XVI-1 a 12), de Lázaro e o mau rico (XVI-19 a 31); a cura dos 10 leprosos (XVII-12 a 19), a parábola do fariseu e do publicano (XVIII-9 a 14), a visita a Zaqueu (XIX-1 a 10).

Só em S. Mateus se encontra: a adoração dos magos (II-1 a 12), a fuga para o Egito e a volta (11-13 a 23) as parábolas da cizânia (XIII-24 a 30) e do devedor insolvente (XVIII-23 a 35) e a descrição do juízo final (XXV-31 a 46).

Não é, portanto, o fato de um trecho qualquer dos Evangelhos ser consignado em um só evangelista que lhe diminui o valor demonstrativo.

Agora chamamos a atenção para o seguinte: dos 4 evangelistas, S. Marcos, discípulo e companheiro de S. Pedro e que fêz o Evangelho de acôrdo com a sua pregação, é o único a não nos fornecer um argumento a favor do primado daquele Apóstolo. S. Mateus nos traz êste trecho já por nós analisado: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja... Eu te darei as chaves do Reino dos Céus. Tudo que ligares sôbre a terra etc. (Mateus XVI-18 e 19).

S. Lucas nos fornece um trecho precioso que também já analisámos: Simão, Simão, eis aí vos pediu Satanás com instância para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por TI, para que A TUA FÉ não falte; e TU enfim, depois de convertido, CONFORTA A TEUS IRMÃOS (Lucas XXII-31 e 32).

S. João nos apresenta Jesus confiando a Pedro, só a Pedro, o govêrno do seu rebanho: Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas (João XXI-15, 16 e 17).

E no entanto S. Marcos não traz nada que sirva para engrandecer S. Pedro, mas se mostra sempre explícito e minucioso em narrar tudo o que para êle servia de humilhação.

Qual a razão dêste fenômeno?

Não somos nós que vamos apontá-la. É uma autoridade antiquíssima, o historiador Eusébio de Cesaréia, na sua Demonstração Evangélica (III-V, 92), que nos diz ser a razão de tudo isto a humildade de S. Pedro que nas suas catequeses costumava sempre relembrar o que mais contribuía para humilhá-lo, passando em silêncio aquilo que mais lhe servia de exaltação e de louvor; e o Evangelho de S. Marcos, calcado sôbre a catequese de Pedro, tinha que trazer a marca desta humildade profunda.

De modo que S. Pedro não era só entre os Apóstolos aquêle que tinha a fé mais firme e mais esclarecida (não foi a carne e sangue quem to revelou, mas sim meu Pai que está nos Céus — Mateus XVI-17); não era somente aquêle que O amava mais do que os outros (Simão, filho de João, tu amas-me mais do que éstes? — João XXI-15); era também o que mais se sobressaía pela sua modéstia, portanto, segundo o modo de pensar do Divino Mestre, indicado por isto para ser o chefe da Igreja, pois quem entre vós É o MAIOR faça-se como o mais pequeno (Lucas XXII-26), impondo-se não só por ser o depositário das chaves do Reino dos Céus, mas também pelo exemplo notável de sua profunda humildade.

DIZE-O À IGREJA

187. UMA INTERPRETAÇÃO PELO MÉTODO CONFUSO.

Já vimos que Cristo deu especialmente a S. Pedro o poder de ligar e desligar.

Tentando destruir o efeito destas palavras de Jesus Cristo ditas diretamente ao chefe dos Apóstolos, os protestantes pertencentes às seitas de tipo congregacionalista, costumam fazer o seguinte argumento: Isto não prova que Pedro seja o chefe da Igreja. Porque êste mesmo poder de ligar e desligar foi também concedido aos Apóstolos: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos (João XX-23); e foi concedido também a tôda a Igreja, como se vê pelas palavras seguintes: Se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele só: se te ouvir, ganhado terás a teu irmão; mas se te não ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que por bôca de duas ou três testemunhas fique tudo confirmado. E se os não ouvir, DIZE-O À IGREJA; e se não ouvir a Igreja tem-no por um gentio ou um publicano. Em verdade vos digo que tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu, e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado também no Céu (Mateus XVIII-15 a 18). Isto quer dizer que não há chefes na Igreja; todos são iguais.

— Vamos responder a isto.

Quanto à distinção que há entre o poder de ligar e desligar e o poder de perdoar pecados e reter, veremos mais adiante (n.º 288). Isto não diz respeito diretamente à nossa questão, uma vez que reconhecemos que os Apóstolos tinham um e outro poder.

Queremos, antes de tudo, chamar a atenção para 2 anormalidades que fàcilmente o leitor poderá perceber nesta manhosa argumentação. Todo o mundo vê logo nestas palavras — Tudo o que ligares sôbre a terra, será ligado também nos Céus, tudo o que desatares sôbre a terra, será desatado também nos Céus — que Jesus aí está dando plenos poderes no govêrno da Igreja. Então é o caso de perguntar: será Jesus Cristo tão confuso, tão desordenado assim, que dê plenos poderes a um só, depois dê plenos poderes a 12, e dê também plenos poderes ao grosso da multidão? Que se diria do rei que desse plenos poderes ao general para governar o exército, desse também aos oficiais os mesmos plenos poderes e desse do mesmo modo plenos poderes a tôda a tropa? Daí nasceria naturalmente uma grande balbúrdia. Numa sociedade onde um particularmente e ao mesmo tempo todos em conjunto têm o supremo domínio, não pode haver nenhuma organização e entra fàcilmente a anarquia. Num exército, numa família, numa sociedade, pode-se admitir que vários mandem, mas tem que haver certa graduação, certa hierarquia entre êstes poderes. Manda o Presidente da República; manda o governador; manda o prefeito, mas nem todos mandam da mesma forma, nem com o mesmo grau de autoridade. Do contrário se estabelece a desordem e a confusão.

188. OS DOIS TRATAMENTOS: TU E VÓS.

Outra coisa que logo nos chama a atenção é esta mistura de TU e vós: dize-o à Igreja (Tu); tudo quanto ligardes (vós).

Isto necessita naturalmente de uma explicação. Quando Jesus diz: Tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu, e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado também no Céu, (Mateus XVIII-18); êste vós a quem se refere? Refere-se exclusivamente aos Apóstolos, pois exclusivamente aos Apóstolos é que Jesus estava falando naquele momento.

Isto se vê desde o comêço dêste capítulo. Jesus está na intimidade de seus Apóstolos, que O procuram para resolver a dissensão que lavra entre êles, ou seja, a disputa sôbre qual seja o maior: Naquela hora chegaram-se a Jesus os seus discípulos, dizendo: Quem julgas tu que é maior no Reino dos Céus? (Mateus XVIII-1).

Falando diretamente aos Apóstolos, Jesus lhes apresenta uma criança como modêlo de simplicidade e de desprendimento: Na verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não fizerdes como meninos, não haveis de entrar no Reino dos Céus. Todo aquêle, pois, que se fizer pequeno como êste menino, êsse será o maior no Reino dos Céus. E o que receber em meu nome um menino, tal como êste, a mim é que recebe (Mateus XVIII-3 a 5).

Falando sôbre as crianças e sempre no seu propósito de desviar a atenção dos Apóstolos daquela desagradável controvérsia, Nosso Senhor passou a falar sôbre o perigo de escandalizá-las: O que escandalizar, porém, a um dêstes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fôra que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de atafona, e que o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos, porque é necessário que sucedam escândalos, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo (Mateus XVIII-6 e 7).

Ora, vemos nos Evangelhos que Jesus às vêzes está tratando por vós aos seus ouvintes e interrompe êste tratamento por TU, dirigindo-se ao homem, qualquer que êle seja, ao cristão em geral: Tu, ó cristão; tu, ó homem.

Eu vos digo que se a VOSSA justiça não fôr maior e mais perfeita do que a dos escribas e a dos fariseus, não ENTRAREIS no Reino dos Céus. OUVISTES que foi dito aos antigos: Não matarás, e quem matar será réu no juízo. Pois eu digo-vos que todo o que se ira contra seu irmão será réu no juízo e o que disser a seu irmão: Raca, será réu no conselho; e o que lhe disser: És um tolo, será réu do fogo do inferno. E aqui o tratamento passa a ser TU: Portanto se TU estás fazendo a TUA oferta diante do altar e te lembrar ai que TEU irmão tem contra TI alguma coisa, DEIXA ali a TUA oferta diante do altar e VAI-TE reconciliar primeiro com TEU irmão e depois virás fazer a TUA oferta... Dois versículos mais adiante, dirige-se novamente aos seus ouvintes: OUVISTES que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, digo-vos que todo o que olhar para uma mulher cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela. E volta ao tratamento de TU: E se o TEU ôlho TE serve de escândalo, ARRANCA-O e LANÇA-O fora de TI, porque melhor TE é que se perca um de TEUS membros do que todo o TEU corpo seja lançado no inferno (Mateus V-20 a 29).

Vemos aí perfeitamente a transição de vós para TU e vice-versa; vós se dirige àqueles que estão presentes ao sermão, TU indica uma doutrina geral para qualquer cristão, seja êle qual fôr.

O mesmo faz Nosso Senhor aqui no capítulo XVIII. Continuando a falar sôbre o escândalo, fala agora ao cristão em geral, tratando-o por TU : Ora, se a TUA mão ou o TEU pé te escandaliza, corta-o e lança-o fora de TI; melhor TE é entrar na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, ser lançado no fogo eterno. E se o TEU ôlho TE escandaliza, tira-o e lança-o fora de TI: melhor TE é entrar na vida com um só ôlho do que, tendo dois, ser lançado no fogo do inferno (Mateus XVIII-8 e 9).

Passa depois a dirigir-se diretamente aos Apóstolos, tratando-os por VÓS: VEDE não DESPREZEIS algum dêstes pequeninos; porque eu vos declaro que os seus anjos nos Céus incessantemente estão vendo a face de meu Pai que está nos Céus. Porque o Filho do Homem veio a salvar o que havia perecido. Que vos parece? se tiver alguém cem ovelhas e se desgarrar uma delas, porventura não deixa as noventa e nove nos montes, e vai buscar aquela que se extraviou? E se acontecer achá-la, digo-vos em verdade que maior contentamento recebe êle por esta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. Assim não é a vontade de vosso Pai que está nos Céus, que pereça um dêstes pequeninos (Mateus XVIII-10 a 14).

Já que falou sôbre o escândalo, Nosso Senhor passa a indicar um remédio contra êle. É a correção fraterna, que deve ser feita em secreto, diretamente com a pessoa com que se tem qualquer diferença. No caso de não dar resultado, recorre-se à Igreja. Jesus aí volta ao tratamento de TU, falando ao cristão em geral: Portanto se TEU irmão pecar contra TI, vai e corrige-o entre TI e êle só; se TE ouvir, ganhado terás a TEU irmão; mas, se TE não ouvir, toma ainda CONTIGO uma ou duas pessoas, para que por bôca de duas ou três testemunhas fique tudo confirmado. E se os não ouvir, DIZE-O À IGREJA; e se não ouvir a Igreja, tem-no por um gentio ou um publicano (Mateus XVIII-15 a 17).

189. AUTORIDADE DA IGREJA.

Jesus aí se refere à autoridade da Igreja para resolver questões entre os seus súditos. A que Igreja se refere? àquela mesma a que se referiu no capítulo XVI. É à instituição que Êle vai fundar : Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei A MINHA IGREJA (Mateus XVI-18). Para que os Apóstolos façam uma idéia do que vai ser esta Igreja, Êle faz uma comparação com a sinagoga, que funcionava para os judeus. Esta tinha um tribunal, o Sanhedrim, o qual era composto de autoridades investidas do poder de julgar; os julgamentos não eram feitos tumultuàriamente pela multidão, mas sim pelos juízes. Assim como para a sinagoga aquêle que dela era expulso era tido como um GENTIO OU UM PUBLICANO, o mesmo equivalentemente acontecerá com aquêle que fôr eliminado da Igreja.

Mas como foi a Igreja que Cristo fundou? Foi como uma multidão que tudo resolve por si, sem ter chefe, sem ter quem a governe? Não. A Igreja fundada por Cristo tem as suas autoridades legitimamente constituídas. Existe a Igreja docente e a discente, os que ensinam e os que aprendem: Ide, pois, e ENSINAI tôdas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ENSINANDO-AS a observar tôdas as coisas que vos tenho mandado (Mateus XXVIII-19 e 20). Nesta Igreja há uns que foram encarregados de governa-la: Atendei por vós e por todo o rebanho sôbre que o Espírito Santo vos constituiu bispos PARA GOVERNARDES A IGREJA DE DEUS, que Êle adquiriu pelo seu próprio sangue (Atos XX-28). Nesta Igreja há pastôres, enquanto outros são apascentados: APASCENTAI o rebanho de Deus que está entre vós (1.° Pedro V-2). Tem esta Igreja seus enviados, com missão especial, a que é preciso atender, do modo que se atende ao próprio Cristo: O que a vós ouve, a mim ouve; e o que a vós despreza, a mim despreza e quem a mim despreza, despreza Àquele que me enviou (Lucas X-16).

É a êstes, constituídos como dirigentes da Igreja, que compete decidir as questões. E por isto Cristo se volta novamente para os Apóstolos, falando-lhes diretamente e tratando-os outra vez por vós: Em verdade vos digo que tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado também no Céu (Mateus XVIII-18).

São os Apóstolos a voz autorizada que fala em nome da Igreja. Assim como acontece num país em que os seus dirigentes decidem por todo o povo: a Bélgica entrou em aliança com a Holanda e Luxemburgo; a França declarou guerra à Alemanha, o Brasil fêz um pacto comercial com a Inglaterra, o Japão e os Estados Unidos assinaram um acôrdo etc, assim também as decisões dos Apóstolos ou de seus sucessores são decisões da Igreja. É muito comum entre nós, ao se ouvir a opinião de um Bispo sôbre um assunto qualquer, dizer-se: Vamos ouvir a palavra da Igreja. Por isto diz o teólogo protestante Cameron: "Igreja aí se entende: aquêles que na Igreja presidem com autoridade. Assim como se diz do corpo humano que êle vê, quando só vêem os olhos, assim se diz da Igreja que ela ouve, quando ouviram aquêles que são como que os ouvidos da Igreja".

Trata-se aqui de um poder judiciário e tanto entre os judeus, com cuja sinagoga Jesus está fazendo uma comparação, como em qualquer reino ou sociedade bem organizada, os julgamentos são feitos, não pela multidão que muitas vêzes não raciocina, nem tem a necessária serenidade, mas por aquêles que têm competência, autoridade, ciência, imparcialidade para julgar. Podem os juízes pedir a opinião da massa, o modo de ver do povo, se assim acharem conveniente, mas não é à massa que compete julgar.

Segundo a interpretação protestante, havendo qualquer divergência entre os fiéis que não pôde ser resolvida pela admoestação secreta, pois é o assunto de que se trata neste trecho, se deveria declarar públicamente perante a igreja local reunida em sessão (note-se bem que Jesus Cristo ensinou simplesmente isto: dize-o à Igreja — e não: dize-o à igreja reunida em sessão) para o caso ser julgado pela assembléia. Ora, isto vai de encontro evidentemente ao objetivo que visa Cristo com o seu ensino. Êle acabara do falar sôbre o escândalo. Mostrou como remédio a correção fraterna. Em caso de falhar esta, o escândalo deve ser remediado com a decisão da Igreja. Ora, segundo a interpretação protestante, a solução proposta viria aumentar e desenvolver o escândalo. Dize-o à Igreja. Mas a Igreja considerada como a reunião de todos os fiéis, é composta também de crianças, as quais tanto insistiu Cristo não deveriam ser escandalizadas; delas fazem parte mocinhas e pessoas simples, às quais não convém o conhecimento de certas questões escabrosas. Se teu irmão pecar contra ti... dize-o à Igreja. Trata-se aí de uma queixa feita contra um irmão na fé, e a queixa feita públicamente redundaria muitas vêzes em falta de caridade, em humilhação pública, pois no meio da multidão bem podem aparecer alguns espíritos críticos e galhofeiros.

Havendo, portanto, divergências íntimas entre marido e mulher, por questões de leviandades, de adultério ou de incompreensão da parte de um ou de outro, questões entre patrões e empregados, entre patroas e criadas, por causa de roubo, de injustiça ou de crueldade, questões entre amigos, dos quais um nem sempre procedeu com lealdade, brigas entre namorados, desavenças entre comerciantes e seus fregueses, entre mestres e seus discípulos, entre companheiros de uma mesma associação, profissão ou classe, trata-se muitas vêzes de questões complicadas ou, para usar a linguagem popular moderna, de "sujeiras" que não devem ser discutidas perante os pequenos ou, pelo menos, de coisas íntimas que ninguém gostaria de ver tratadas e julgadas pela multidão. Esta, muitas vêzes, poderia dividir-se em duas correntes opostas, servindo isto somente para generalizar um conflito que dantes era somente de 2 pessoas. O direito concedido a qualquer pessoa de apresentar queixas perante a assembléia de fiéis, iria contra a caridade e a prudência, roubando a fama do próximo, contra o qual se faz a reclamação, tornando notório um crime que bem se podia conservar oculto.

Qualquer seita protestante que adotasse continuadamente êste sistema, veria logo seus adeptos desejarem ardentemente que tais questões fôssem decididas não pelo povo o qual, composto de pessoas de modos de ver muito diversos, não resolveria coisa alguma, mas diretamente, discretamente, pelos seus próprios pastôres que se supõe teriam mais capacidade para julgar.

É por isto que Nosso Senhor, depois de dizer a qualquer cristão DIZE-O À IGREJA, volta-se para os Apóstolos, fazendo-lhes ver que lhes vem do próprio Céu o seu poder de julgar: Em verdade vos digo que tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado também no Céu (Mateus XVIII-18).

190. OS FATOS NAS ESCRITURAS.

E a prova disto é que êste julgamento de questões ou de crimes feito na Igreja de Cristo por votação ou por aclamação da assembléia de fiéis, sem haver entre êles um chefe que decida, pois no caso a congregação é que decidiria, é coisa que nunca se viu nas Escrituras. Aí sempre aparece o poder judiciário exercido por um Apóstolo ou, pelo menos, por um juiz autorizado.

Já vimos, por exemplo, que no episódio de Ananias, o qual vendeu um campo e com fraude usurpou certa porção do preço do campo, consentindo-o sua mulher; e levando uma parte, a pôs aos pés dos Apóstolos (Atos V-1 e 2), S. Pedro não submeteu o caso à votação da Igreja, nem mesmo à votação dos Apóstolos, mas proferiu, êle próprio, sua sentença de condenação: Ananias, por que tentou Satanás o teu coração, para que tu mentisses ao Espírito Santo e reservasses parte do preço do campo?... Sabe que não mentiste aos homens, mas a Deus (Atos V-4 e 5).

O mesmo aconteceu no caso da condenação de Simão, o Mago; S. Pedro não submeteu o caso à apreciação da assembléia dos fiéis, nem ao menos pediu o parecer de S. João que com êle se achava, mas proferiu logo a sentença : O teu dinheiro pereça contigo... Faze, pois, penitência desta tua maldade (Atos VIII-20 e 22).

No caso do incestuoso de Corinto, se S. Paulo censura os Coríntios não é porque não o julgaram, é porque, havendo ali aquêle escândalo, êles nem se incomodavam com isto, nem se mostravam constrangidos ou escandalizados, providenciando para que FOSSE TIRADO o incestuoso do seu meio, tirado, é claro, pela autoridade competente, como era o próprio S. Paulo: É fama constante que entre vós há fornicação e tal fornicação qual nem ainda entre os gentios, tanto que chega a haver quem abusa da mulher de seu pai. E andais ainda inchados; e NEM AO MENOS HAVEIS MOSTRADO PENA, PARA QUE SEJA TIRADO dentre vós o que fêz tal maldade (1.° Coríntios V-1 e 2).(22) Acontece muitas vêzes numa sociedade que os seus membros, embora não tenham por si mesmos o direito de expulsar, pelo menos se mostram contrafeitos, desejando que os maus elementos sejam eliminados. Foi isto o que faltou nos Coríntios. Se S. Paulo reconhecesse nêles o direito de decretar a expulsão, os teria censurado porque não o expulsaram ou teria ordenado que o expulsassem. Mas S. Paulo é quem, mesmo ausente, com tôda a sua autoridade de Apóstolo, lavra, êle próprio, a condenação : Eu na verdade, ainda que ausente com o corpo, mas presente com o espírito, JÁ TENHO JULGADO como presente aquêle que assim se portou: em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, congregados vós e o meu espírito, com o poder de Nosso Senhor Jesus Cristo, SEJA O TAL ENTREGUE A SATANÁS PARA MORTIFICAÇÃO DA CARNE, afim de que a sua alma seja salva no dia de Nosso Senhor Jesus Cristo (1.ª Coríntios V-3 a 5).

Já no capítulo anterior, S. Paulo se apresenta a si mesmo pessoalmente com o direito de castigar : Que quereis? irei a vós outros COM VARA ou com caridade e espírito de mansidão? (1.ª CoríntioS IV-21).

E no capítulo seguinte se mostra incomodado, porque os cristãos estão levando suas demandas para serem decididas pelos juízes pagãos. A igreja de Corinto tinha sido fundada havia muito pouco tempo; ainda não havia nela um bispo que a regesse, nem um pastor que a dirigisse. "Ainda não tinha sido constituído um reitor da igreja", como observa S. Ambrósio. Ora, se a doutrina de Cristo fôsse esta: que as questões devessem ser resolvidas por uma assembléia sem chefe, resolvidas "democràticamente" por todos, como dizem alguns protestantes, qual o conselho que daria S. Paulo? Que os Coríntios se reunissem e resolvessem, êles mesmos, estas questões. Mas o que S. Paulo ordena é outra coisa : é que êles constituam um homem sábio para decidir êstes casos: É possível que não haja entre vós UM HOMEM SÁBIO que possa julgar entre seus irmãos? (1.ª Coríntios VI-5). Porque é uma coisa que entra pelos olhos : a difícil missão de julgar exige certas qualidades especiais, exige competência, serenidade, espírito de justiça; é preciso que se escolha um homem sábio para isto. E irônicamente S. Paulo lhes faz ver que era muito melhor que êles escolhessem os menores, os membros menos importantes para julgar, do que se sujeitarem a ver suas questões decididas pelos pagãos: Se tiverdes diferenças por coisas do século, estabelecei aos que são de menor estimação na Igreja para julgá-las Coríntios VI-4).

No fim de sua 2.º Epístola aos Coríntios, S. Paulo os adverte para que não continuem a cometer os mesmos erros e os ameaça de ser duro para com êles, usando com rigor a sua autoridade:

Temo que talvez, quando eu vier, vos não ache quais eu quero e que vós me acheis qual não quereis; que por desgraça não haja entre vós contendas, invejas, reixas, dissensões, detrações, mexericos, altivezas, parcialidades; para que não suceda que, quando eu vier outra vez, me humilhe Deus entre vós e que chore a muitos daqueles que antes pecaram e não fizeram penitência da imundícia e fornicação e desonestidade que cometeram. Eu me disponho a vos ir ver pela terceira vez. Na bôca de duas ou três testemunhas estará tôda a palavra. Assim como já disse dantes achando-me presente, assim o digo também agora estando ausente que, se eu fôr outra vez NÃO PERDOAREI AOS QUE ANTES PECARAM NEM A TODOS OS DEMAIS (2.ª Coríntios XII-20 e 21; XIII-1 e 2). E mais adiante no versículo 10.º: Eu vos escrevo isto ausente para que, estando presente, não empregue COM RIGOR A AUTORIDADE QUE DEUS ME DEU para edificação e não para destruição (2.º Coríntios XIII-10).

É uma autoridade exercida pessoalmente por S. Paulo que julga e pune, e não pela multidão; dela usou êle condenando a Himeneu e Alexandre: Conservando a fé e a boa consciência, a qual porque alguns repeliram, naufragaram na fé: dêste número é Himeneu e Alexandre, os quais EU ENTREGUEI a Satanás, para que aprendam a não blasfemar (1.ª Timóteo 1-19 e 20).

Esta mesma autoridade, vemo-la em Timóteo, a quem compete receber as queixas contra os presbíteros, para tomar as devidas providências. É a Timóteo que cabe repreender os que pecam e S. Paulo recomenda que êle faça repreensões públicas que sirvam de escarmento para os fiéis, o que é sinal de que os fiéis não se apresentam como juízes, mas como súditos, debaixo da autoridade do bispo de Éfeso: NÃO RECEBAS acusação contra o presbítero, senão com duas ou três testemunhas. Aos que pecarem, REPREENDE-OS diante de todos, para que também os OUTROS TENHAM MÊDO (1.° Timóteo V-19 e 20).

Está, portanto, mais do que provado, pela observação do contexto, pela lógica e pela praxe dos Apóstolos que nas suas palavras DIZE-O IGREJA, Cristo se refere à Igreja docente, àqueles que dirigem a Igreja e sôbre ela têm autoridade, portanto aos Apóstolos, a êstes é que Êle disse (pois a êles é que estava falando naquele momento): Tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu, e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado também no Céu (Matelt, XVIII-18). Por isto observa com razão S. Jerônimo que Cristo "deu tal poder aos Apóstolos, para que saibam os que são por êles condenados que a sentença humana dêles é corroborada pela sentença divina".

191. OS VERSÍCULOS SEGUINTES.

Mas os protestantes insistem e dizem que se trata aí de poderes concedidos aos fiéis, porque Jesus em seguida diz: Ainda vos digo mais que, se dois de vós se unirem entre sôbre a terra, seja qual fôr a coisa que êles pedirem, meu Pai que está nos Céus lha fará, porque onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou no meio dêles (Mateus XVIII-19 e 20).

Primeiro que tudo, estamos diante de um dêstes célebres argumentos protestantes que não prov,am nada, porque provam demais. Se se tratasse do mesmo assunto de julgamento dos que caíram em faltas, então neste caso Cristo estaria dizendo que 2 ou 3 fiéis, sem intervenção de seus chefes, pastôres ou prelados, terão também o poder de julgar. E assim aquêle que fôsse condenado pela assembléia, se houvesse no meio desta assembléia 2 ou 3 votos vencidos, poderia depois promover novo julgamento feito por estas 2 ou 3 pessoas e êste julgamento também seria válido, o que daria numa confusão tremenda. Quer dizer então que 2 ou 3 pessoas, sem ser revestidas de autoridade alguma, têm o direito de expulsar alguém de sua igreja? Isto é demais.

Há evidentemente aí uma mudança de assunto.

Jesus diz: AINDA vos digo MAIS etc (Mateus XVIII-19). Êste AINDA MAIS é expresso no grego pela partícula PÁLIN, a qual indica muitas vêzes na Bíblia a transição para outro assunto.

Assim se em S. Mateus: Eu vos digo que todo o que repudiar a sua mulher, a não ser por causa de fornicação, a faz ser adúltera; e o que tomar a repudiada comete adultério. IGUALMENTE ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos (Mateus V-32 e 33). Ora, êste IGUALMENTE é expresso no grego pela partícula PÁLIN. E aí houve evidentemente mudança de assunto.

Em S. Lucas se lê que Jesus dizia: A que é semelhante o reino de Deus e a que o compararei eu? É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou na sua horta e que cresceu até se fazer uma grande árvore; e as aves do céu repousaram nos seus ramos. E disse OUTRA VEZ: A que direi que o reino de Deus é semelhante? Semelhante é ao fermento que tomou uma mulher e o escondeu dentro de três medidas de farinha, até que ficasse levedada tôda a massa (Lucas XIII-18 a 21). Ora, êste OUTRA VEZ corresponde no grego à partícula PÁLIN; e aí se vê claramente a transição de uma para outra parábola.

O texto em questão, a Bíblia de Ferreira de Almeida o traz assim: TAMBÉM vos digo que se dois de vós concordarem na terra acêrca de qualquer coisa que pedirem etc (Mateus XVIII-19). Assim se exprime mais claramente o sentido da palavra PÁLIN, que equivale no caso à palavra portuguêsa OUTROSSIM, pela qual significamos que vamos tratar de outro assunto, embora êste não deixe de ter alguma relação com o assunto anterior.

Qual a relação que há, portanto, entre o poder de ligar e desligar concedido aos Apóstolos e a promessa da presença de Cristo junto àqueles que se congregarem em seu nome? É a seguinte: Jesus acabara de fazer uma comparação da Igreja com a sinagoga. Existia nesta o Sanhedrim, composto de juízes autorizados para decidir as questões, podendo até expulsar alguns da sinagoga. Jesus mostra que na Igreja existirá também êste poder e, para falar em têrmos que os Apóstolos compreendam, diz que aquêles que forem condenados pelas autoridades da Igreja, serão tidos como GENTIOS e PUBLICANOS. É evidente a comparação com o que se passava nos tribunais judaicos.

Ora, havia também entre os rabinos a doutrina de que Deus assistia particularmente a 2 ou mais pessoas reunidas em nome dÊle, como se vê por estas palavras do rabi Hananiah Ben Teradyon: "Quando dois estão assentados e ocupados com a Lei, a Glória está no meio dêles" (Aboth III-2). Esta doutrina, êles a baseavam em Malaquias: Falaram os que temem ao Senhor cada um com o seu próximo; e o Senhor se pôs atento e os ouviu (Malaquias III-16).

Jesus mostra que, assim como aos rabinos era concedida uma certa assistência de Deus nas suas reuniões mesmo de 2, aos Apóstolos se promete, além da ratificação de suas sentenças, uma assistência especial de Cristo nas suas reuniões, ainda que sejam de 2 ou 3 (se dois de vós se unirem entre si sôbre a terra — Mateus XVIII-19), mesmo porque há um princípio ainda mais amplo: onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no meio dêles (Mateus XVIII-20). E supõe-se que se 2 Apóstolos se reúnem, é para tratar da glória de Deus, é em nome de Jesus e neste caso têm sempre a complacência divina.

Esta promessa de Cristo equivale a uma afirmação de sua própria divindade. Cristo é Deus, pois Êle promete estar sempre presente onde Deus prometia outrora o confôrto de sua presença. E se havia esta promessa de assistência divina para os judeus, quando ocupados sinceramente com as coisas de Deus, com maioria de razão haverá para aquêles que pertencem à verdadeira Igreja, à qual Cristo prometeu assistência especial.

O PODER CONCEDIDO AOS APÓSTOLOS

192. HARMONIA ENTRE OS PODERES.

Descartados os protestantes congregacionalistas, que põem a direção da Igreja na assembléia dos fiéis, surgem em cena os protestantes chamados episcopalianos. Dirão êles naturalmente:

Pelo que o Sr. disse, se vê claramente que o Sr. concorda em que o poder de ligar e desligar foi concedido, não só a Pedro, mas a todos os Apóstolos também. Logo, o govêrno da Igreja não está somente nas mãos de Pedro, está nas mãos de todos os Apóstolos.

— É claro que a Igreja não haveria de ser sempre um pequenino rebanho (Lucas XII-32), mas tinha que tornar-se universal, espalhar-se por tôda a terra (Ide, pois, e ensinai tôdas as gentes — Mateus XXVIII-19); não era possível a um homem governar SÔZINHO esta Igreja espalhada por todo o mundo, assim como não é possível ao Presidente da República governar SÓZINHO o país; êle tem que ser auxiliado também neste ofício pelos governadores; e como o governador não pode sôzinho dirigir todo o Estado, tem que ser auxiliado, na sua administração, pelos prefeitos. Mas daí não se segue que o poder de um prefeito é igual ao de um governador, nem que o poder de um governador é igual ao do Presidente da República. O mesmo se dá no exército. Embora a direção geral do exército esteja nas mãos do general comandante, êle tem que ser auxiliado nesta direção pelos oficiais, também revestidos de autoridade.

Qual o maior poder, o de Pedro ou o dos outros Apóstolos? eis aí um ponto que os próprios Evangelhos se encarregam de esclarecer.

Primeiro Jesus, num momento EM QUE OS OUTROS APÓSTOLOS TAMBÉM ESTAVAM PRESENTES, disse a Pedro, somente a Pedro estas palavras: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus, e tudo o que desatares sôbre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19). Se Jesus não tencionasse dar a Pedro um poder todo especial, teria imediatamente acrescentado que o mesmo poder dado a Pedro era concedido também aos outros Apóstolos. No entanto, só falou a Pedro.

Depois noutra ocasião, Jesus disse a todos os Apóstolos, ESTANDO, PORTANTO, PEDRO INCLUÍDO ENTRE ÉLES : Tudo o que vós ligardes sôbre a terra será ligado também no Céu, e tudo o que vós desatardes sôbre a terra será desatado também no Céu (Mateus XVIII-18). A nenhum Apóstolo, fora S. Pedro, estas palavras foram ditas individualmente. Todos os outros as receberam em conjunto.

Além disto, antes de dar a Pedro o poder de ligar e desligar, Cristo disse a Pedro, somente a êle, e mais a nenhum dos Apóstolos, que êle era a PEDRA sôbre a qual se ia edificar a Igreja. Mais ainda: a metáfora de ligar e desligar é distinta da metáfora das chaves; pois às chaves compete abrir e fechar e não própriamente amarrar e desamarrar. E a Pedro, somente a êle, mais a nenhum dos Apóstolos foi que Cristo disse: Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (Mateus XVI-19). Como já provamos (n.° 169), dar as chaves significa dar todo poder e domínio sôbre uma casa ou sôbre uma cidade.

Finalmente, depois da ressurreição, antes de subir para o Céu, tendo que deixar alguém tomando conta do seu rebanho, foi a Pedro, sómente a Pedro, e mais a nenhum dos Apóstolos, que Cristo confiou esta vasta missão: Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas (João XXI-15, 16 e 17).

Cristo não era desorganizado nem confuso, nem capaz de cair em contradições. Nem era inconstante a ponto de dar a um homem todo o poder sôbre a Igreja, para retirar-lho depois e concedê-lo a 12 outras pessoas. Se deixasse a Igreja entregue a 12 homens para que a governassem como bem entendessem (12 homens êstes que haviam de ser substituídos por um número ainda maior por causa da enorme expansão da Igreja) daí resultaria uma extraordinária confusão. Portanto, se disse aos Apóstolos que lhes cabia o direito de ligar e desligar, é porque os queria fazer subordinadamente participantes daquele poder que foi conferido solenemente a S. Pedro, é porque só gozavam êles dêste direito em união com aquêle que foi constituído, só êle entre os Apóstolos, a pedra fundamental da Igreja, o depositário das chaves do Reino dos Céus e o Pastor clo rebanho universal.

OS MANDAMENTOS DA IGREJA

193. MANDAMENTO DO CONCILIO DE JERUSALÉM.

Tendo Pedro e os Apóstolos o poder de ligar e desligar e, por conseqüência, o poder de estabelecer leis que ligam a vontade dos homens, leis estas ratificadas pelo próprio Céu, daí se segue que a Igreja tem o direito de estabelecer seus mandamentos que obrigam os cristãos em consciência. Não é preciso que o objeto da lei seja em si já ordenado ou proibido por Deus. Se a Igreja ordena ou proíbe, isto já se torna ordenado ou proibido por Deus. Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus (Mateus XVI-18).

Assim vemos nos Atos que os Apóstolos, juntamente com Pedro e com os presbíteros de Jerusalém (era portanto a voz da Igreja na palavra de seus dirigentes), mesmo sabendo que a lei de Moisés não obrigava mais, acham que é necessário impor alguns encargos aos cristãos: que vos abstenhais do que tiver sido sacrificado aos ídolos, e do sangue, e das carnes sufocadas e da fornicação (Atos XV-29).

Quanto à fornicação, era já proibida pela lei de Deus; quanto ao comer carnes sacrificadas aos ídolos, só no caso em que isto viesse a dar num escândalo ou numa cooperação com a idolatria. Mas, se a lei de Moisés já não estava mais em vigor, é claro que Deus não proibia comer o sangue, nem comer as carnes sufocadas. E no entanto é a Igreja, pela voz de Pedro, dos Apóstolos e de alguns presbíteros que decreta essa proibição, porque a considera conveniente naquelas circunstâncias. Mais adiante, quando as circunstâncias mudam, é a própria Igreja que dispensará dêsse preceito.

Não é de admirar, portanto, que a Igreja, em vista dos poderes que lhe foram outorgados pelo próprio Cristo, a Igreja representada pelo seu chefe ou pelos seus chefes, estabeleça leis que são necessárias para que ela cumpra fielmente a sua missão de encaminhar as almas para Deus aqui na terra.

Mas surgem protestantes ferozes e agressivos que declamam, muito entusiasmados, afirmando que a Igreja estabeleceu os seus mandamentos em contraposição com os mandamentos da lei de Deus (!). Vamos, portanto, examinar os mandamentos da Igreja para ver se realmente encontramos entre êles algum que seja contrário à lei divina.

194. PRIMEIRO MANDAMENTO: OUVIR MISSA.

O primeiro mandamento da Igreja nos obriga a ouvir missa inteira nos domingos e festas de guarda.

Ora, santificação do dia do Senhor é um preceito da lei divina, exarado no 3.º mandamento do Decálogo. Aos judeus havia sido ordenada a observância do sábado. Mas é claro que o ESPÍRITO DA LEI era que se consagrasse a Deus um dia na semana, reservando-o para o descanso.

Para os judeus, o sábado tinha um significado especial: era o dia em que Deus terminara a criação, desde que os períodos em que Deus fêz o mundo são simbolizados por 7 dias, representando assim uma semana. Mas para os cristãos, o primeiro dia da semana tomou uma significação muito maior: foi no primeiro dia da semana que se realizou o grande acontecimento da Ressurreição de Jesus Cristo, quando se consumou a sua grande vitória sôbre a morte e sôbre todos os inimigos. E a Ressurreição do Senhor é um ponto básico para a nossa fé, como ensina S. Paulo (1.ª Coríntios XV-14). Foi igualmente num domingo que o Espírito Santo desceu visivelmente sôbre os Apóstolos, acontecimento também de suma importância para o estabelecimento do reino de Deus sôbre a terra. E se o sábado simbolizava o término da obra criadora de Deus, o domingo simboliza, por sua vez, o comêço da criação, o primeiro dia, e a criação é atribuída de modo especial a Deus Pai. Ficou assim o domingo como um dia, por excelência, da SS.ma Trindade, portanto o dia de Deus. A Igreja com o seu poder de ligar e desligar, desligou os fiéis da obrigação do sábado para os ligar à obrigação do domingo. A lei de Deus foi respeitada, pois o que Deus queria na sua lei era que houvesse um dia consagrado a Êle; e o fato de ser êsse dia um sábado ou um domingo já se havia tornado uma questão de menor importância: o sábado era prescrito aos judeus na lei de Moisés, mas a lei mosaica (exceto naquilo que pertence à lei natural) já tinha sido abolida.

Estão, aliás, de acôrdo conosco a grande maioria das seitas protestantes, embora afirmem só admitir aquilo que consta explicitamente na Bíblia.

Ora, sendo o domingo um dia consagrado a Deus e sendo o Santo Sacrifício da Missa o ato, por excelência, do nosso culto (sôbre a Missa falaremos depois nos n.º 345 a 348) e não sendo justo que a Igreja deixasse que os seus fiéis ficassem completamente desobrigados dêste ato supremo do culto de adoração a Deus, obrigou-os a ouvir a Santa Missa todos os domingos. Foi, portanto, uma maneira de acentuar ainda mais o caráter de DIA DO SENHOR que possui o domingo. Longe de ser uma contradição à lei de Deus, ao contrário foi um refôrço para o cumprimento da lei divina. Unem-se os fiéis no dia consagrado ao Senhor e em seu templo para orar, ouvir a palavra de Deus, adorar a Jesus Sacramentado no Santo Sacrifício da Missa. E isto obriga sob pecado, porque o Mestre disse: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus (Mateus XVI-19).

Por êste mesmo princípio a Igreja obriga também os fiéis ao seu culto em certos dias do ano, em que se comemoram grandes festividades religiosas. São 9 apenas, atualmente, os dias santos obrigatórios para a Igreja Universal. E alguns dêles, como p. exemplo: o Nascimento de Cristo, a 25 de dezembro, e a Adoração dos Magos, a 6 de janeiro, os protestantes se unem conosco para comemorá-los. Se algumas destas festas, como são 2 consagradas a Maria SS.ma e uma a S. Pedro, não agradam aos protestantes, isto já é outra questão, mas não é isto que tira à Igreja o poder de ligar os fiéis com suas sábias leis, poder que lhe foi outorgado pelo próprio Cristo.

195. SEGUNDO MANDAMENTO: A PARTICIPAÇÃO DA EUCARISTIA.

O segundo mandamento se refere à obrigação de participar da Ceia Eucarística, obrigação esta que nos foi imposta pelo próprio Cristo: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós (João VI-54). Sôbre a presença real de Jesus na Eucaristia (n.º 298 a 322) e sôbre a comunhão sob uma só espécie (n.º 307) falaremos mais adiante.

Durante muitos séculos a Igreja não precisou impor esta obrigação, porque os fiéis eram solícitos em aproximar-se da mesa eucarística. Vendo, depois, que muitos se descuidavam e andavam afastados da mesa divina por muito longo espaço de tempo, ela resolveu estabelecer um mínimo, marcando também a época própria para isto: Comungar ao menos uma vez cada ano, pela Páscoa da Ressurreição.

A Igreja está aí apenas urgindo o cumprimento de uma obrigação que já havia sido imposta pelo próprio Divino Mestre: a obrigação de comungar.

196. TERCEIRO MANDAMENTO: A CONFISSÃO ANUAL.

Mas o cristão só pode aproximar-se da mesa divina estando com a consciência bem purificada : Todo aquêle que comer êste pão ou beber o cálix do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, a si mesmo o homem, e assim coma dêste pão e beba dêste cálix. Porque todo aquêle que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não discernindo o corpo do Senhor (1.ª Coríntios XI-27 a 29).

A obrigação de comungar acarreta, portanto, a necessidade da confissão. É o terceiro mandamento da Igreja. Sôbre o sacramento da Confissão falaremos mais adiante (capítulo 12.º).

Queremos aqui apenas observar que basta a obrigação imposta por êste mandamento para mostrar como é inexata a idéia que os protestantes fazem sôbre a Igreja, a qual êles imaginam como interessada exclusivamente em ritos e exterioridades.

Em nada insiste mais a Igreja na sua pregação aos fiéis do que na necessidade de purificarem o seu coração, de servirem a Deus de corpo e alma, de evitarem o pecado, até mesmo nos mínimos pensamentos. E, não contente com isto, OBRIGA sob pena de pecado a todos os fiéis que tenham o uso da razão a fazerem pelo menos anualmente, a purificação de sua alma pela confissão dos pecados, a qual só é válida (portanto a obrigação só é cumprida) quando há o sincero arrependimento e o firme propósito de emenda para todo o resto da vida. Se se trata de alguém que durante o ano não cometeu nenhum pecado, nada mais fácil do que dizer ao confessor que está isento de culpa e que vai apenas pedir os seus conselhos e a sua bênção. Se se trata, porém, de um cristão que pecou gravemente durante o ano, chegada a Páscoa, é chegado o tempo, em que a Igreja está urgindo a obrigação de se aproximar dos sacramentos e em que êle não pode mais adiar a sua volta total para Deus, sem mostrar-se ao mesmo tempo um filho desobediente da Santa Igreja, porque o prazo de tolerância já se vai extinguir: ao menos uma vez cada ano.

Se há católicos que não cumprem com êste dever ou que se confessam sem a contrição verdadeira, a culpa é dêles, são êles que merecem a censura, e não a Igreja. Esta exige, portanto, mais, neste ponto de purificação interna do indivíduo do que o Protestantismo, o qual se limita a exortar pela pregação, ficando cada um a orientar-se a si mesmo, como juiz em causa própria, sem a ajuda e direção do confessor.

Os católicos todos e supomos também que todos os protestantes (porque aquela tese de Lutero de purificação meramente externa, somente pela não imputação dos pecados é uma tese superada mesmo dentro do Protestantismo) estão de acôrdo em que o Céu não se alcança a não ser pela purificação INTERNA da alma. A diferença que há é que nós, católicos, nos temos na conta de pecadores, sabemos que todos nós tropeçamos em muitas coisas (Tiago III-2), que temos durante tôda a vida que nos penitenciar de nossos pecados e que havemos de nos esforçar continuamente, ora para manter, ora para recuperar a nossa purificação. E os protestantes em geral se têm na conta de completamente e sempiternamente purificados, santos e imaculados pelo simples fato de terem aceitado a Cristo como Salvador, a grande maioria dêles com a idéia de que é impossível perderem-se. E foi a sua Religião que lhes incutiu esta idéia.

197. QUARTO MANDAMENTO: O JEJUM.

O 4.º mandamento: jejuar e abster-se de carne quando a Santa Igreja manda — é o que mais intriga os protestantes. Sua repugnância a êste preceito nasce principalmente da sua teoria de salvação só pela fé e da idéia errônea de que os nossos atos de virtudes, as nossas penitências não têm merecimento diante de Deus; só pela fé é que merecemos o Céu. Mas esta teoria já foi por nós refutada na primeira parte dêste livro.

A necessidade da penitência é inculcada no Evangelho pelas próprias palavras de Nosso Senhor que disse, referindo-se ao castigo sofrido por alguns galileus, os quais Pilatos mandara matar, misturando o sangue dêles com o sangue dos sacrifícios que haviam oferecido: Vós cuidais que aquêles galileus eram maiores pecadores que todos os outros da Galiléia, por haverem padecido tão cruel morte? Não eram, eu vo-lo declaro; mas, se vós outros não FIZERDES PENITÊNCIA, todos assim mesmo haveis de acabar (Lucas XIII-2 e 3).

O Evangelho está cheio de exortações à penitência. S. João Batista assim exorta os seus ouvintes: FAZEI PENITÊNCIA, porque está próximo o Reino dos Céus (Mateus III-2) E diz aos escribas e fariseus: Fazei, pois, dignos frutos de PENITÊNCIA (Mateus III-8).

Jesus começa a sua pregação com as mesmas palavras: Desde então começou Jesus a pregar e a dizer: FAZEI PENITÊNCIA, porque está próximo o Reino dos Céus (Mateus IV-17). Veio Jesus para Galiléia, pregando o Evangelho- do reino de Deus e dizendo: Pois que o tempo está cumprido e se aproximou o reino de Deus, FAZEI PENITÊNCIA e crede no Evangelho (Marcos I-14 e 15).

Em outras ocasiões disse Jesus: Eu vim chamar, não os justos, mas os pecadores à PENITÊNCIA (Lucas V-32). Haverá maior júbilo no Céu sôbre um pecador que FIZER PENITÊNCIA que sôbre noventa e nove justos que não hão de mister penitência (Lucas XV-7).

Esta é também a pregação dos Apóstolos: E saindo êles, pregavam aos povos que FIZESSEM PENITÊNCIA (Marcos 1-12).

S. Paulo, pregando no Areópago diz: Deus, dissimulando por certo os tempos desta ignorância, denuncia agora aos homens que todos em todo o lugar FAÇAM PENITÊNCIA (Atos XVIII-30). E no seu discurso perante o rei Agripa, diz: Preguei primeiramente aos de Damasco, e depois em Jerusalém e por tôda a terra de Judéia e aos gentios, que FIZESSEM PENITÊNCIA e se convertessem a Deus, fazendo DIGNAS OBRAS de PENITÊNCIA (Atos XXVI-20).

Os protestantes objetam que a expressão FAZER PENITÊNCIA corresponde no grego ao verbo METANOÉO que significa mudar de ânimo, de resolução, arrepender-se, converter-se, e que no próprio latim e no português PENITÊNCIA quer dizer arrependimento. Penitenciar-se é arrepender-se.

— Não há dúvida que a palavra quer dizer isto; mas daí não se segue que signifique isto EXCLUSIVAMENTE. Segundo o sentido em que é empregada na Bíblia, não exclui aquêles atos que nascem naturalmente dêste sentimento interno de contrição. E é por isto que nós vimos nos textos anteriormente citados a referência a OBRAS DE PENITÊNCIA (Atos XXVI-20), a FRUTOS DE PENITÊNCIA (Mateus III-8).

É claro que a base desta penitência é o arrependimento dos pecados, o qual deve existir no fundo do coração e sem o qual o sacrifício externo perderia a sua principal finalidade. Mas a idéia de penitência é ligada também na Bíblia à idéia de atos de mortificação corporal que são como o fruto, a conseqüência, a manifestação exterior dêste arrependimento. Assim se lê no livro de Jó: Por isso me repreendo a mim mesmo e FAÇO PENITÊNCIA NO PÓ E NA CINZA (Jó XLII-6). No 2.º livro de Esdras se descreve dêste modo a penitência do povo: E no dia vinte e quatro dêste mês se ajuntaram os filhos de Israel EM JEJUM e VESTIDOS DE SACOS e COBERTOS DE TERRA (2.º Esdras IX-1). Lê-se no livro do Profeta Joel: Agora, pois, diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, EM JEJUM, e em lágrimas e em gemidos (Joel 11-12).

E no livro do Profeta Jonas: E creram os ninivitas em Deus; e ordenaram um PÚBLICO JEJUM e VESTIRAM-SE DE SACO desde o maior até o menor... E viu Deus as OBRAS que êles fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e compadeceu-se dêles para lhes não fazer o mal que tinha resolvido fazer-lhes e com efeito lho não fêz (Jonas III-5 e 10).

Jesus não condena estas manifestações externas de penitência, ao contrário as considera como louváveis, pois é assim que descreve o bom resultado que teriam as suas pregações, se fôssem feitas em Tiro e Sidônia: Ai de ti, Corozaim; ai de ti, Betsaida; que se em Tiro e Sidônia se tivessem obrado as maravilhas que se obraram em vós, há muito tempo que elas TERIAM FEITO PENITÊNCIA, COBRINDO-SE DE CILÍCIO E DE CINZA (Lucas X-13). E notem os protestantes que também neste trecho o verbo FAZER PENITÊNCIA corresponde ao verbo grego METANOÉO.

E S. Paulo diz: CASTIGO O MEU CORPO e o reduzo à servidão, para que não suceda que, havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado (1. Coríntios IX-27), o que bem mostra que a penitência corporal tem também uma função preservativa, afim de que a carne não prevaleça contra o espírito, sendo útil também aos justos e não somente aos pecadores.

Jesus mesmo jejuou quarenta dias e quarenta noites no deserto : Então foi levado Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E tendo JEJUADO quarenta dias e quarenta noites, teve fome (Mateus IV-1 e 2). Não foi para fazer penitência por pecados próprios, que não os tinha, nem para preservar-se de cair em pecado, uma vez que era impecável; nem para pedir luzes especiais a Deus, pois era o Verbo e tinha ciência infinita, nem para oferecer o seu jejum pela salvação do mundo, neste caso o teria remido naqueles dias, pois bastava um simples suspiro seu, infinitamente meritório, para remir todo o gênero humano. Foi apenas para nos dar o exemplo a nós, pecadores. E Éle próprio estabeleceu normas para os seus discípulos, quando jejuassem: E quando JEJUAIS não vos ponhais tristes como os hipócritas, porque êles desfiguram os seus rostos para fazer ver, aos homens, que jejuam (Mateus VI-16).

É um êrro, portanto, considerar o jejum como antibíblico ou como uma ofensa ao sacrifício feito por Cristo na cruz, pois êle é reconhecido, recomendado pelo próprio Cristo que dêle nos deu exemplo.

S. Paulo nos diz na 2.ª Epístola aos Coríntios: Em tôdas as coisas nos portemos como ministros de Deus na muita paciência... nos trabalhos, nas vigílias, nos JEJUNS (2.ª Coríntios VI-4 e 5). E os Atos nos mostram o jejum sendo pôsto em prática por Paulo e Barnabé e pelos primeiros cristãos (Atos XIV-22; XIII-2 e 3).

Acusar a Igreja de crueldade para com os fiéis (aliás fiéis de 21 a 60 anos) seria desconhecer as minúcias da própria lei do jejum, tão benigna que há algumas pessoas sóbrias que jejuam diàriamente sem o saber. E mesmo assim, ela dispensa a tôdas as pessoas fracas e doentes de acôrdo com o princípio: As leis da Igreja não obrigam com grave incômodo. Outros zombam da Igreja, porque acham o jejum benigno demais, o que também é injusto: a Igreja, legislando para todos, estabelece um mínimo de penitência a ser executado; mas não condena, antes louva a quem queira fazer um jejum mais rigoroso, no caso em que tenha a necessária resistência física e isto não prejudique à saúde. Se alguém é forte e quer jejuar abstendo-se de qualquer alimento ou bebida até o meio-dia, ou, mais ainda, como fazem os judeus e os maometanos não comendo nada até o pôr do sol, ou quer jejuar a pão e água, faça-o, se pode, porque nisto não há desobediência à Igreja; trata-se de fazer ainda mais do que ela ordena, o que acarreta, se fôr feito com reta intenção, um merecimento ainda maior.

198. AINDA O QUARTO MANDAMENTO: A ABSTINÊNCIA DE CARNE.

À lei do jejum se acrescenta a de abstinência de carne em certos dias. Trata-se de tomar por penitência uma alimentação mais fraca.

Aqui entram os protestantes com a sua chicana, trazendo um texto que absolutamente não vem ao caso. Dizem que a Igreja está neste ponto em contradição ao ensino de Jesus: Não é o que entra pela bôca o que faz imundo o homem, mas o que sai pela bôca, isso é o que faz imundo o homem (Mateus XV-11).

Para bem compreender o sentido dêste texto, é preciso que vejamos por que motivo disse Jesus estas palavras.

Além da Lei, ou seja, os 5 livros de Moisés, havia entre os judeus as sentenças dos rabinos, as quais foram aumentando através dos séculos. Eram leis ditádas pelos rabinos e não constavam da lei de Deus. Uma destas leis era que ninguém devia comer sem lavar as mãos, isto era um "pecado", pois as mãos não lavadas eram mãos impuras ou comuns; era preciso purificá-las. Achavam êles que tinham que lavar as mãos antes e depois da comida e mesmo durante a comida, antes de cada novo prato. Lavando as mãos, deviam ter cuidado para que a mão já lavada não tocasse depois na mão que não tinha sido lavada ainda, pois neste caso ficaria novamente impura. A água que lavava devia ser pura, sem ter servido para outros usos. Era preciso lavar as mãos até o punho; e levá-las duas vêzes, porque a primeira água em contacto com as mãos tinha ficado impura; uma vez que havia perigo de ficarem algumas gôtas "impuras" aderentes à mão, era preciso que a água passasse outra vez. Estas e outras recomendações assim minuciosas se podem ver no livro de Strack-Billerbeck (págs. 698-705).

Enquanto davam a máxima importância a estas cerimônias e exterioridades, e ficavam altamente escandalizados quando alguém não as observava, os fariseus não davam importância alguma aos grandes mandamentos, que eram emanados do próprio Deus e não tinham nenhum escrúpulo em ter o seu coração cheio de ódio e de maldade, e de se entregar à calúnia e à maledicência. Isto mostra o triste estado a que tinham chegado os judeus no tempo de Nosso Jesus Cristo, pois se preocupavam somente com exterioridades, com purificações corporais, não cuidando da verdadeira purificação que Deus exige de nós, que é a purificação do espírito e do coração. Contra êste farisaísmo ilógico e repelente, Nosso Senhor várias vêzes se insurge no Evangelho.

Ora, não sendo estas purificações por ocasião da comida prescritas por Deus e sabendo-se que os judeus não as faziam com o verdadeiro espírito de fé e devoção interior, mas por mera ostentação, Nosso Senhor não se submetia a tais ritos que considerava inúteis e provàvelmente instruiu os Apóstolos neste sentido.

O caso chamou a atenção dos escribas e fariseus que vêm indignados perguntar a Jesus: Por que violam os teus discípulos a tradição dos antigos? pois não lavam as suas mãos quando comem pão (Mateus XV-2).

Nosso Senhor lhes responde que, se estão assim escandalizados pelo fato de não obedecerem os Apóstolos a uma prescrição dos homens, por que então vão êles de encontro abertamente às leis de Deus? E vós também por que transgredis o mandamento de Deus pela vossa tradição? Porque Deus disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: o que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe morra de morte. Porém vós outros dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: Tôda a oferta que eu faço a Deus te aproveitará a ti; pois é certo que o tal não honrará a seu pai ou a suá mãe; assim é que vós tendes feito vão o mandamento de Deus pela vossa tradição. Hipócritas, bem profetizou de vós outros Isaías, quando diz: Êste povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, pois, me honram, ensinando doutrinas e mandamentos que vêm dos homens. E chamando a si as turbas, lhes disse: Ouvi e entendei. Não é o que entra pela bôca o que faz imundo o homem; mas o que sai pela bôca, isso é o que faz imundo o homem (Mateus XV-3 a 11).

Os. Apóstolos não compreendem bem o que significam estas palavras. Nosso Senhor então lhes explica: Não compreendeis que tudo o que entra pela bôca desce ao ventre e se lança depois num lugar escuso? Mas as coisas que saem da bôca vêm do coração e estas são as que fazem o homem imundo; porque do coração é que saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias. Estas coisas são as que fazem imundo o homem; O COMER, PORÉM, COM AS MÃOS POR LAVAR, isso não faz imundo o homem (Mateus XV-17 a 20).

O que se vê evidentemente aí é que Nosso Senhor está reprovando o êrro dos judeus que EM QUALQUER REFEIÇÃO que faziam, achavam que era um pecado comer SEM PRIMEIRO LAVAREM AS MÃOS.

O comer em si não é pecado, nem havendo purificação de mãos, nem não havendo; nem é o que entra no homem para depois sair de maneira abjeta, que torna o homem puro ou impuro. Pecado, sim, é aquilo que procede do homem que não tem o coração puro, como são os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias, coisas estas a que os fariseus não davam a importância que deviam dar. Pecado é desobedecer também às. autoridades que foram por Deus legitimamente constituídas. Quando o católico come carne nos dias proibidos pela Igreja não é o simples fato do comer, não é o fato de ser a comida esta ou aquela, que faz com que aquilo seja um pecado. É o fato de desobedecer à Igreja que tem nos seus chefes o poder de ligar e desligar (Mateus XVI-19; XVIII-18) e a quem se deve ouvir sob pena de ser Considerado pagão ou publica-no (Mateus XVIII-17).

Nosso Senhor não está ensinando aí que nunca se peca pela comida; pois neste caso estaria ensinando que Adão e Eva não pecaram comendo o fruto proibido; ou estaria criticando a lei de Moisés, dada por Deus, segundo a qual havia muitas espécies de animais que não era lícito comer; ou estaria ensinando. que não é pecado a gente comer a galinha do vizinho ou a criança comer guloseimas quando seus pais não o permitem.

Comer em si não é pecado; comer sem lavar as mãos também não o é; comer, porém, aquilo que é proibido (e Cristo deu à Igreja o poder de proibir) isto, sim, é um pecado, mas um pecado de desobediência, que sendo desobediência à Igreja, o é também a Deus: Tudo o que ligares sôbre a terra será ligado também nos Céus (Mateus XVI-19).

199. QUINTO MANDAMENTO: PAGAR DÍZIMOS.

Finalmente os nossos Catecismos trazem o 5.º mandamento estabelecido nestes têrmos: Pagar dízimos segundo o costume.

Não há mais na Igreja a oferta dos dízimos, a qual desapareceu há muitos séculos. Nem se trata de um preceito atingindo individualmente a todos os cristãos, muitos dos quais podem estar em situação de miséria.

Trata-se apenas disto: a Igreja lembra aos fiéis a obrigação que êles têm de contribuir para as despesas do culto e para a honesta sustentação de seus ministros. As múltiplas obrigações dos sacerdotes exigem que êles estejam dedicados de corpo e alma ao serviço das almas; têm que dispor de alguns recursos, como humanos que são, para vestir, para alimentar-se, para apresentar-se convenientemente perante a sociedade e mesmo para fazer as suas caridades. O modo de prover os fiéis a estas necessidades pode variar de um país para outro. A praxe, entre nós, é que os católicos, quando batizam um filho, quando celebram suas festas de casamento, ou fazem os funerais e ofícios religiosos para os seus defuntos, reservem uma espórtula para a honesta sustentação do sacerdote. Os protestantes gostam de explorar esta situação, ditada pelas contingências da vida humana, procurando impressionar as pessoas rudes, incutindo-lhes no espírito que a Igreja vende os sacramentos, vende a salvação etc.

Entretanto, êste princípio da honesta sustentação dos ministros do altar, é estabelecida pela própria Bíblia: Porventura NÃO TEMOS NÓS DIREITO DE COMER E DE BEBER? Acaso não temos nós poder para levar por tôda a parte uma mulher irmã, assim como também os outros Apóstolos, e os irmãos do Senhor e Celas? Ou eu só e Barnabé não temos o poder de fazer isto? QUEM JAMAIS VAI À GUERRA À SUA CUSTA? QUEM PLANTA UMA VINHA E NÃO COME DO SEU FRUTO? QUEM APASCENTA UM REBANHO E NÃO COME DO LEITE DO REBANHO? Porventura digo eu isto como homem? Ou não no diz também a rei? Porque escrito está na lei de Moisés: Não atarás a bôca ao boi que debulha... SE NÓS VOS SEMEAMOS AS coisas ESPIRITUAIS, É PORVENTURA MUITO SE RECOLHERMOS AS TEMPORALIDADES QUE VOS PERTENCEM A VÓS? ( 1.ª Coríntios IX-4 a 9, 11).

E diz o mesmo S. Paulo a Timóteo: Os presbíteros que governam bem sejam honrados com estipêndio dobrado, principalmente os que trabalham em pregar e ensinar. Porque diz a Escritura: Não ligarás a bôca ao boi que debulha e: O que trabalha é digno da sua paga (1.ª Timóteo V-17 e 18).

Por tudo isto fica provado que os 5 mandamentos da Igreja não são senão sábias determinações baseadas naquilo que foi ensinado, prescrito, preceituado no Novo Testamento.

200. UMA ORGANIZAÇÃO DIVINA.

Temos ouvido discursos inflamados de protestantes, nos quais êles observam com muita ênfase que para nos salvar devemos seguir a Cristo e não a organizações humanas. Estamos perfeitamente de acôrdo. Organizações humanas são as seitas protestantes que foram, tôdas elas, fundadas pelos homens.

Mas havemos de seguir a uma ORGANIZAÇÃO DIVINA e esta organização é a Igreja fundada por Cristo (edificarei A MINHA IGREJA - Mateus XVI-18), esta Igreja que é a espôsa de Cristo (vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja — Efésios V-25), de modo que dizia S. Ciprino no século 3.º: "Não pode ter Deus como Pai, aquêle que não tem a Igreja como mãe"; esta Igreja que, como diz Cristo, havemos de ouvir, sob pena de sermos considerados gentios ou publicanos, esta Igreja que em todos os tempos, desde os primórdios do Cristianismo até os dias de hoje, sempre foi chamada A IGREJA CATÓLICA; esta Igreja Una e Indivisa que continua, através dos séculos, levando de vencida tôdas as heresias, mesmo as mais manhosas, ou as mais agressivas, porque as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus XVI-18); esta Igreja que tem como chefe o sucessor de Pedro, porque Cristo a construiu sôbre o PRIMEIRO (Mateus X-2) dos Apóstolos: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei a minha Igreja (Mateus XVI-18).