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(1) Aqui naturalmente perguntarão os protestantes: E os católicos também não ensinam que »FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO? Logo, segundo êles, também todos os pagãos se condenam, pois estão fora da Igreja.

— É preciso que se tome bem em consideração o sentido que o Catolicismo empresta a esta fórmula: Fora da Igreja não há salvação.

Esta mesma Igreja que ensina, como veremos, (n.º 22) que o Batismo é indispensável para a salvação, mas afirma também que o Batismo de água pode ser suprido pelo Batismo de desejo, ou seja, a reta consciência naqueles que não conhecem o Sacramento do Batismo, e que ensina que, em caso de impossibilidade, a Confissão sacramental pode ser suprida pelo ato de contrição perfeita, ensina igualmente que se pode pertencer à Igreja ou realmente ou EM VOTO. Ou, para usar uma linguagem mais acessível a todos, pode-se pertencer à Igreja por uma adesão explícita e pode-se pertencer a ela PELO CORAÇÃO. Aqueles que DE BOA FÉ estão separados da Igreja, mas buscam sinceramente a verdade e querem do íntimo dalma servir a Deus e realmente o fazem, obedecendo aos ditames da própria consciência, pertenceriam à Igreja Verdadeira, como devotados fiéis, se dela tivessem suficiente conhecimento. São, portanto, filhos seus, que ela não conhece; pertencem à ALMA DA IGREJA; fazem lá a seu modo, na sua ignorância, o que ela quer que todos façam: servir a Deus de todo o coração. Por isto disse o Papa Pio IX: "Aquêles que estão em ignorância invencível a respeito de nossa Santa Religião, mas observem fielmente os preceitos da lei natural gravados por Deus no coração de todos e, prontos a obedecer a Deus, levam uma vida proba e honesta, podem, pela luz divina e pela operação da graça, obter a vida eterna: porque Deus penetra, perscruta e conhece os corações, os espíritos, os pensamentos e a conduta. Em sua bondade e clemência supremas, não consentirá jamais em punir com suplícios eternos um homem que não é culpável de falta voluntária" (Encíclica Quanto conficiamur).

Mas aquêles que receberam a luz da revelação cristã têm obrigação de conhecer a Verdadeira Igreja que Cristo fundou e de pertencer a ela; estar deliberadamente separado da Igreja de Cristo é o mesmo que estar separado de Cristo, pois Cristo é a cabeça da Igreja (Efésios V-23). Se alguém não ouvir a Igreja, tem-no por uns gentio ou um publicano (Mateus XVIII-17).

Desta possibilidade de salvar-se o pagão, baseada em que Deus dá a todos a graça suficiente para a salvação, não se conclui absolutamente que seja inútil a pregação do Evangelho : 1.º porque a Igreja recebeu a incumbência de pregar o Evangelho a tôda a criatura, de levar a todos o conhecimento da verdade ; 2.º porque a pregação da doutrina de Cristo vai excitar ao arrependimento muitos pagãos que se acham de má fé ou mergulhados no pecado e que assim se encontram franca­mente no caminho da condenação ; 3.º porque êstes próprios que observam fielmente a lei natural e que não parecem ser em grande número podem, com a abundância de meios sobrenaturais que a Igreja lhes oferece, fortificar-se ainda mais na graça e atingir uma melhor perfeição, para maior glória de Deus.

(2) Quando diz : como crerão àquele que não ouviram? e como crerão sem pregador?, S. Paulo toma a fé no sentido restrito da palavra, fé NAS VERDADES RE­VELADAS, as quais não são conhecidas onde não foi anunciada ainda a palavra de Deus. E quando diz: Sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6), S. Paulo toma a fé em um sentido lato, a crença em verdades QUE PODEM SER ATINGIDAS PELA PRÓPRIA RAZÃO HUMANA, a qual não só pode provar a existência de Deus, mas também chegar à idéia de sua justiça, bondade e per­feição. Aliás, êle estava falando naquele momento (Hebreus XI-4 e 5) em Abel e Henoque, os quais viveram num tempo em que não haviam sido feitas ainda as revelações transmitidas a Abraão, a Moisés e aos profetas.

Ora, nós, católicos, admitimos que a todos os homens que gozam do uso da razão a guarda dos mandamentos é indispensável para a salvação ; a fé em Cristo é indispensável para aquêles a quem chega a notícia do Evangelho ; a fé em Deus Remunerador, ou seja, a fé em sentido lato, é indispensável mesmo para aquêles que nunca ouviram falar em Cristo. Mas a mentalidade dos protestantes é inteiramen­te outra ; tomam as palavras evangélicas : Quem crê em, Jesus se salva, quem não crê se condena (as quais se referem naturalmente àqueles a quem o Evangelho é anunciado) no sentido de que quem não ouve a pregação do Evangelho está irre­mediàvelmente perdido ; quem aceita o Evangelho está salvo com tôda a certeza. Sim, porque êles vêem como caminho para o Céu, pura e exclusivamente CRER EM JESUS. Obras, absolutamente não ! Mas se crer em Jesus é, segundo êles, CON­FIAR QUE JESUS Nos SALVA, eis aí um sentimento que é inteiramente incapaz de ter aquêle que ainda não foi devidamente instruído a respeito da doutrina do Evangelho.

(3) Não haverá contradição entre estas palavras de S. Paulo e o dogma da imaculada Conceição de Maria SS.ma, ou seja, de que ela foi concebida sem o pecado original? Nenhuma.

Se Adão e Eva não tivessem pecado, tôdas as criaturas teriam, segundo os desígnios de Deus, a graça santificante POR UM DIREITO DE HERANÇA; seríamos descendentes de um homem que se tinha conservado no elevado estado em que Deus o criou. Mas Adão, antes de gerar, decaiu dêste estado. Dizendo que TODOS PECARAM, TODOS INCORRERAM NA CONDENAÇÃO, S. Paulo está mostrando que tôda a Humanidade sem exceção alguma, INCLUSIVE MARIA SANTÍSSIMA, perdeu êste direito de herança. Acontece, porém, que aquilo a que não temos direito por herança, nós podemos receber por uma DÁDIVA, e assim puderam os homens novamente receber de Deus a graça santificante, em virtude dos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, que um dia havia de morrer por nós na cruz. Mas Deus é senhor absoluto das suas dádivas; Ele não estava proibido de dar a graça santificante a uma pessoa, mesmo antes que esta pessoa nascesse. Assim é que S. João Batista já foi santificado, já recebeu a graça santificante e se libertou do pecado original antes de seu nascimento: jd desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo (Lucas 1-15). Tudo indica que esta regeneração de João Batista se deu no próprio momento em que Maria SS.ma visitou a S. Isabel, pois esta diz à Santíssima Virgem: assim que chegou a voz da tua saudação aos meus ouvidos, logo o menino deu saltos de prazer no meu ventre (Lucas 1-44). Pois bem, Maria SS.m‘ foi santificada também no ventre de sua mãe, Sant'Ana, porém no próprio instante da sua conceição, não houve um só instante em que estivesse sujeita ao pecado original; isto aconteceu, não em virtude de um direito seu, mas por concessão de um privilégio especial de Deus e em virtude dos futuros merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus foi, portanto, o Salvador, o Redentor para ela, como foi para todos os homens; e a Redenção foi para ela uma Redenção preservativa.

(4) Lutero rompeu oficialmente com a Igreja no dia 1.o de novembro de 1517, afixando às portas do templo, em Vitemberga, as suas 95 teses sôbre as indulgências. Mas já antes disto lavrava no seu espírito o conceito herético sôbre a justificação pela fé sem as obras, de modo que a pretensa descoberta de Lutero foi no ano de 1514 ou, ao mais tardar, em 1515, conforme se conclui do exame de suas notas privadas, como professor.

(5) Temos visto protestantes que, tentando acobertar a incoerência do seu sistema, querem agora valer-se de uma fórmula inteiramente imaginária : "A fé e o arrependimento sempre andam juntos ; são duas graças gêmeas. Quem crê, se arrepende ; quem se arrepende, crê".

Mas isto não é verdade, ou se tome a fé no sentido protestante ou no sentido católico. Que é a fé, segundo o conceito dos protestantes? É a confiança de ser salvo por Jesus. Pode haver esta confiança de salvar-se, sem haver a contrição. Será uma confiança AINDA MAIOR, a de que Jesus nos salve sem exigir de nós o arrependimento, mas uma confiança que excede os seus justos limit5s. Aquêles que chegarão, no dia de juizo, CERTOS DE SEREM SALVOS POR JESUS, mas a quem o Divino Mestre dirá: Apartai-vos de mim os que obrais a iniqüidade (Mateus VII-23), por que serão condenados eternamente, senão porque lhes faltou o' arrependimento de seus pecados? Bem como, pode haver o arrependimento sem haver esta confiança, como se viu no caso de Judas que tocado de ARREPENDIMENTO, tornou a levar as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos (Mateus XXVII--3) e no entanto levado pelo desespêro, destituído de qualquer confiança de salvar-se, retirou-se e foi-se pendurar de um laço (Mateus XXVII-5) .

Se se toma a fé no sentido católico, o de ACREDITAR nas verdades reveladas, também é evidente que esta fé pode existir sem o arrependimento, como é o caso daqueles que crêem nas verdades da fé sem ter coragem de deixar o pecado; e o arrependimento pode existir sem a fé, é o que se observa naqueles que detestam de coração seus próprios crimes e desatinos e têm firme propósito de emenda, mas ainda não se abalançaram a acreditar em todos os dogmas ensinados por Cristo.

(6) O texto de S. João: A obra de Deus é esta, que creais nAquele que Êle enviou (João VI-29) será comentado especialmente no n.9 301, quando falarmos sôbre a Eucaristia ; aí faremos um demorado estudo sôbre o capítulo VI.9 de S. João (n." 298 a 317).

(7) A versão de Ferreira de Almeida traz, neste trecho de S. Paulo que estamos comentando, a palavra HERESIAS em vez da palavra SEITAS. Mas isto em nada altera o sentido. A passagem de S. Paulo continua a ser uma condenação das seitas protestantes, pois todos os "evangélicos" reconhecem que há dentro das seitas, nascidas do livre exame, nascidas do Protestantimo, muitas HERESIAS. Elas próprias se acusam umas às outras de heréticas, o que a ninguém surpreende, uma vez que ensinam em muitos pontos doutrinas totalmente diversas. E é interessante notar que a mesma palavra grega aí empregada HÁIRESIS aparece em outros textos da Bíblia; e em vários lugares é traduzida nas versões protestantes (tanto de Ferreira de Almeida, como da Sociedade Bíblica do Brasil) pela palavra SEITA (Atos: V-17; XV-5; XXIV-5; XXIV-14; XXVIII-22).

(8) Uma coisa, porém, é o homem aos pés de Deus fazendo o seu firme propósito, e outra já um bocado diversa é o mesmo homem às voltas com as seduções da tentação. E aí muitas vêzes fraqueja. A mentalidade excessivamente rígida de certos protestantes não pode compreender isto: acham que, desde que o propósito foi alguma vez quebrado, isto é sinal de que nunca houve o arrependimento. Doutrina muito boa... para levar a pobre Humanidade ao desespêro. Mas é o caso de perguntar: será que êsses protestantes se sentem NA SUA VIDA assim tão inflexíveis, tão angelicais que não experimentem o contraste entre os nossos melhores propósitos e a realidade das nossas imperfeições?

(9) Resisti-lhe NA CARA - é uma expressão dura e grosseira para a nossa linguagem de hoje; e o leitor inexperiente pode até ficar com uma idéia infeliz, pensando que S. Paulo DEU NA CARA de S. Pedro. Mas o sentido da expressão grega aí empregada: KATÀ PRÓSOPON é êste: EM PRESENÇA. S. Paulo quer significar que não se opôs a S. Pedro por trás dos bastidores, mas o fêz abertamente, em sua presença, ou em outros têrmos LANÇOU-LHE EM ROSTO a falta que estava cometendo com a sua atitude.

As versões protestantes de Ferreira de Almeida e da Sociedade, Bíblica do Brasil não fazem por menos: usam a expressão do Pe. Pereira e do Pe. Matos Soares, tão estranha para os nossos hábitos de hoje: resisti-lhe NA CARA.

Entretanto esta mesma expressão KATÀ PRÓSOPON aparece também em outras passagens e é traduzida de maneira mais suave.

Veja-se em Ferreira de Almeida: A tua salvação, a qual tu preparaste PERANTE A FACE de todos os povos (Lucas II-30 e 31) Jesus, a quem vós entregastes e PERANTE A FACE de Pilatos negastes (Atos III-13) .

Veja-se na versão da Sociedade Bíblica do Brasil: A tua salvação, a qual preparaste ANTE A FACE de todos os povos (Lucas II-30 e 31). Jesus, a quem vós entregastes e negastes PERANTE Pilatos (Atos III-13).

Ora, estas expressões PERANTE A FACE, ANTE A FACE, PERANTE correspondem exatamente à mesma expressão grega KATÀ PRÓSOPON, que é usada no incidente entre S. Paulo e S. Pedro.

Quer dizer que os tradutores da Bíblia não foram tão delicados com S. Pedro como o foram com Pôncio Pilatos...

Monsenhor José Basílio traz a versão cortês e ao mesmo tempo correta: resisti-lhe EM FACE - porque S. Paulo nunca se referiria a S. Pedro com um tom de insolência.

(10) Mais adiante (n.º 280) ao falarmos sôbre o Batismo, faremos mais um comentário dêste texto.

(11) Os protestantes costumam alegar contra o primado de Pedro a palavra de S. Paulo na Epístola aos Gálatas, na qual diz que Tiago e Cefas e João PARECIAM SER AS COLUNAS (Gálatas II-9) da Igreja; ora, dizem êles, se pareciam, é porque não eram as colunas da Igreja.

Para se ter uma idéia exata do pensamento de S. Paulo é preciso examinar o texto original grego, ver qual é a palavra que aí corresponde ao nosso verbo PARECER. Então se verá que o verbo correspondente no grego DOKÉO tem um sentido mais amplo, pois DOKÉO pode equivaler ao nosso PARECER, mas pode ter também outro sentido.

DOKÉO = parecer, ter a aparência de.

DOKÉO = ser considerado como, ser reputado como.

Podem-se ver os bons dicionários de Bailly e de Zorell.

Na nossa própria língua, quando se diz: Aquêle rapaz me parece muito competente — não se quer dizer que êle não o seja, mas se quer dizer apenas: Eu reputo, eu o considero muito competente.

Podemos mostrar em outras duas passagens do Novo Testamento o verbo DOKÉO empregado nesta segunda acepção, e não na primeira, de mera aparência. Assim se lê em S. Lucas que houve uma disputa entre os Apóstolos: Excitou-se também entre êles a questão sôbre qual dêles SE devia REPUTAR o maior (Lucas XXII-24). Ora, é claro que cada Apóstolo não queria apenas PARECER o maior, queria SER REPUTADO, SER CONSIDERADO por todos COMO O maior. E no entanto no texto grego aquêle verbo REPUTAR-SE OU SER REPUTADO é expresso pelo verbo DOKÉO: TÍS (qual) AUTÓN (dêles) DOKÉI (é considerado) ÉINAI (ser) MÉIZON (maior).

Também há outra palavra de Cristo em S. Marcos que diz assim: Vós sabeis que os que TÊM AUTORIDADE entre os povos, êsses são os que os dominam, e que os seus príncipes têm poder sôbre êles (Marcos X-42). Ora, é claro que Jesus aí não fala de homens que PARECEM reinar, mas que reinam realmente e dominam e têm poder. No entanto, o texto grego traz o verbo DOKÉO: Ho' DOKÓUNTES (aquêles que são considerados) ÁRCHEIN (imperar) TÓN ETHNÓN (sôbre OS povos) KATAKYRIÉUOUSIN (dominam) AUTÓN (sôbre êles).

O próprio contexto da Epístola aos Gálatas mostra claramente que S. Paulo está provando que tem autoridade também para ensinar aos fiéis e para combater os judaizantes, porque, diz êle, Tiago, Cefas e João que ERAM CONSIDERADOS as colunas da Igreja conheceram a graça que se me havia dado, deram as destras a mim e a Barnabé em sinal de companhia, para que nós fôssemos aos gentios, e êles à circuncisão (Gálatas II-9). Sutilmente Paulo está insinuando que também êle e Barnabé são colunas da Igreja. Diminuir a autoridade de Tiago, Cefas e João seria no caso diminuir também a própria.

De tudo isto se tiram duas conclusões. Uma é que a tradução do Padre Pereira não foi muito feliz. A Bíblia do Pe. Matos Soares e a edição do Novo Testamento do Mons. Dr. José Basílio Pereira trazem uma versão mais fiel: Tiago e Cef as e João que ERAM CONSIDERADOS as colunas. .. deram as mãos a mim a Barnabé (Gálatas II-9). A outra é que nem sempre se pode ter uma idéia exata do que diz a Bíblia sem se conhecer perfeitamente o hebraico e o grego, línguas originais em que foi escrita e por isto está sempre sujeita a algum engano uma pessoa que se limita a estudar o texto que possui em língua vernácula.

Outra objeção que também nada prova, diante dos textos tão evidentes que demonstram a preponderância de S. Pedro, é a que tiram os protestantes do seguinte versículo dos Atos: Os Apóstolos, porém, que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a palavra de Deus, MANDARAM-LHES a PEDRO e a João (Atos VIII-14) . Ora, dizem os protestantes, se mandaram a Pedro, é porque Pedro não era o chefe.

— Primeiro que tudo, existe aí uma confusão com o verbo MANDAR, que em português tem 2 sentidos:

MANDAR = ordenar, impor, preceituar.

MANDAR = enviar, remeter.

O verbo correspondente no grego é, neste versículo, APOSTÉLLO que sempre quer dizer ENVIAR e nunca ORDENAR.

Os apóstolos se reúnem e ENVIAM Pedro e João a Samaria. Segue-se daí que Pedro não seja o chefe dêles? Absolutamente não. Porque é muito comum numa associação ou numa assembléia qualquer, ficar assentado que deve ser enviado, para exercer determinada missão, um grupo de 2 ou mais membros e em vista da importância de tal missão, deliberar-se também que o presidente faça parte desta representação enviada. Se o presidente acede, êle vai à testa da mesma. Foi o que se deu precisamente no nosso caso. S. Lucas nos Atos dos Apóstolos já nos dá tantas provas da supremacia de S. Pedro, que não precisava de estar usando amplas explicações para salvaguardar esta supremacia.

Também na própria Bíblia se lê que tendo ouvido os filhos de Israel... congregaram-se todos em Silo para marcharem e pelejarem contra êles. E entretanto lhes ENVIARAM à terra da Galaad a Finéias, filho do sacerdote Eleazar e DEZ DOS PRÍNCIPES com êle, cada um de sua tribo (Josué XXII-11, 12 e 13) .

Igualmente o historiador Flávio Josefo narra que os judeus enviaram a Nero sumo sacerdote Ismael com os "dez primeiros" de sua gente (Ant. jud. XX, VIII, 11 § 194).

(12) Bem que diz o nosso povo: para tudo há gente neste mundo ! Ainda há protestantes que, quando lhes mostramos Cristo dizendo A MINHA IGREJA, pretendem justificar a multiplicidade das seitas, observando-nos que as Igrejas de Cristo são muitas, pois se diz no Apocalipse: Aquêle que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às IGREJAS (Apocalipse II-7). Mas isto é simplesmente o cúmulo!

A Bíblia chama IGREJA a Religião fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja Universal que é uma só. Ora é chamada simplesmente A IGREJA (1.ª Coríntios XII-28; Efésios 1-22, III-10, V-23 a 25, 27, 29 e 32; Colossenses 1-8 e 24), ora é chamada A IGREJA DE DEUS (Atos XX-28; 1.ª Coríntios XV-9; Gálatas 1-13; 1.ª Timóteo III-15).

A Bíblia chama também IGREJA a casa, o templo onde se reúnem os fiéis de certa localidade: é coisa indecente para uma mulher o falar na IGREJA (1.ª Coríntios XIV-35).

E chama igualmente IGREJA o conjunto dos fiéis de uma determinada região: a igreja de Deus que está em Corinto (1.ª Coríntios 1-2) igreja dos Tessalonicenses (1.ª Tessalonicenses I-1), igrejas da Galácia (Gálatas 1-2), igrejas da Macedônia (2.ª Coríntios VIII-1) igreja dos Laodicenses (Colossenses IV-16). E S. Paulo,' escrevendo a Filemon, chega a dirigir-se à Igreja que está em tua casa (Filemon verso 2.º).

O mesmo se dá em nossa língua com a palavra POVO — pois tanto dizemos: o Brasil é um grande povo — como vamos repartindo o sentido da palavra pelos Estados: povo de Pernambuco, povo do Ceará, povo do Rio Grande do Sul, mais ainda, pelas cidades: povo do Recife, povo de Olinda; até chegar a dizer: o povo da minha casa, neste último sentido (de assembléia local) que o Espírito Santo transmite por intermédio de S. João, no Apocalipse, a sua mensagem, que, como o Apóstolo mesmo indica, é dirigida às sete igrejas que há na Ásia, a Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadelfia, e a Laodicéia (Apocalipse 1-11).

Querer prevalecer-se disto para tentar provar que também na Igreja primitiva havia muitas seitas, como se aquelas assembléias locais fôssem como outras tantas seitas protestantes, a discutir entre si, umas batizando as crianças, outras só os adultos; umas descansando no sábado e outras no domingo; umas admitindo sacramentos e outras não; 'umas acreditando no inferno e outras negando-o; umas garantindo que o crente, quando morre, vai diretamente para o Céu, outras asseverando, ao contrário, que êle fica adormecido completamente até o dia do juízo final etc, etc, é querer caluniar e apresentar como sumamente anarquizada a Igreja primitiva, tão sabiamente instruída e unificada pela doutrinação dos Apóstolos.

(13) Como bem explica a Pastoral Coletiva de 1871, dos bispos suíços, aqual foi explicitamente aprovada pelo Papa Pio IX: "O Papa não é infalível nem como homem, nem como sábio, nem como sacerdote, nem como bispo, nem como príncipe temporal, nem como juiz, nem como legislador. Não é infalível e impecável na sua vida e procedimento, nas suas vistas políticas, nas suas relações com os príncipes, nem mesmo no govêrno da Igreja. É única e exclusivamente infalível quando, como Doutor supremo da Igreja, pronuncia em matéria de fé ou de costumes uma decisão que deve ser aceita e tida como obrigatória por todos os fiéis."

(14) Muito preocupados com a idéia, que puseram na cabeça, de que a Bíblia não podia chamar fundamento da Igreja senão ao próprio Cristo, alguns protestantes, diante desta frase de S. Paulo: sois cidadãos dos santos e domésticos de Deus, edificados sôbre o FUNDAMENTO dos Apóstolos e dos Profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular (Efésios II-20), querem interpretá-la não dêste modo: sois edificados sôbre O FUNDAMENTO QUE SÃO OS APÓSTOLOS E os PROFETAS, sendo Jesus Cristo a principal pedra angular — mas dêste: sois edificados sôbre O FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS E DOS PROFETAS, O QUAL FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS E DOS PROFETAS é Jesus Cristo, a pedra angular. Em português já se está percebendo como se tortura o texto para chegar a esta conclusão. E, se vamos examinar o texto original grego, vemos perfeitamente que esta interpretação não é exata. FUNDAMENTO no grego está em dativo (EPÍ TÓ THEMELÍO) e Jesus Cristo vem em genitivo (CHRISTÓU IEsóu). A frase — sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular (ÓNTOS AKROGONIÁIOU AUTÓU CHRISTÓU IESÓU) vem expressa no texto grego por um genitivo absoluto, que equivale ao ablativo absoluto do latim; esta frase é, portanto, independente da outra. Se o Apóstolo diz o MESMO JESUS CRISTO, é porque vinha falando em Jesus Cristo nos versículos imediatamente anteriores (Efésios II-13 a 18).

Compreendam bem os protestantes o que queremos dizer: Não negamos absolutamente que Jesus Cristo seja o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas. Apenas estamos dizendo que S. Paulo aí no trecho não se está referindo a isto: está dizendo que a Igreja é como um edifício que tem como FUNDAMENTO os Apóstolos e os Profetas, sendo Jesus Cristo a principal pedra angular.

(15) Quando dizemos isto, não afirmamos absolutamente que todos os Papas foram santos. Alguns houve (poucos, mas houve sempre) que até se fizeram célebres pela sua vida irregular. Mas infalibilidade é uma coisa, e impecabilidade é outra bem diversa. O próprio exemplo da Bíblia, em que Cristo escolhe Pedro para esteio da sua Igreja, mesmo sabendo que o Apóstolo haveria de fraquejar e negá-Lo, nos mostra muito bem que não são as fraquezas íntimas do homem, como tal, que o impedem de exercer a sua missão unificadora. A Providência Divina, preservando A FÉ na verdadeira Igreja, consiste em que Deus não permite absolutamente que a cátedra de Pedro seja ocupada por um herege que leve esta mesma Igreja a afogar-se no êrro, ao passo que as outras sedes episcopais não gozam de tal privilégio: algumas delas foram de fato ocupadas por bispos hereges que fizeram grande mal à Igreja, sem no entanto quebrarem a sua unidade, uma vez que a sede de Roma estava sempre firme, a sustentar a verdadeira doutrina.

(16) Ferreira de Almeida teve mêdo de traduzir assim e traduziu: com chôro hei de descer ao meu filho até à SEPULTURA (Gênesis XXXVII-35). A tradução é incorreta, pois, segundo a suposição de Jacó, uma fera havia devorado o filho dêle. E a tradução da Sociedade Bíblica do Brasil diz: com chôro hei de descer para meu filho ao SHEOL (Gênesis XXXVII-35). Não existe esta palavra em português; o leitor a procura no dicionário e não a encontra. De modo que, de qualquer forma quem quer compreender perfeitamente a Bíblia sem ter um certo preparo sôbre a linguagem e a literatura dos hebreus, está sempre arriscado a sair apanhando.

(17) Outra passagem em que o Salmista levanta mais uma pontinha do véu, é aquela em que êle diz : O poder é de Deus; e a ti, Senhor, é a misericórdia; porque tu RETRIBUIRÁS A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS (Salmos LXI-12 e 13). No tempo em que foi escrita esta frase, os judeus certamente, não lhe mediam todo o alcance, porque pensavam muito em justiça feita já neste mundo. Mas com a revelação do Novo Testamento (Mateus XVI-27; Romanos II-5 a 8) é que se vê claramente que se trata sobretudo de uma justiça a ser exercida após a morte, na vida futura, e aí se compreende melhor a profunda significação de tais palavras.

(18.) Todos anteriores à era cristã, o Eclesiástico é do século 2.º; a Sabedoria e o 2.º livro dos Macabeus são do 2.º ou do 1.º século.

(19) Refere-se a 2.º Macabeus XV-12 a 14.

(20) A respeito da origem do nome BATISTA, ouçamos o que o reverendo Davi Gomes, pastor batista conhecidíssimo em todo o Brasil, pois é o fundador e diretor da Escola Bíblica do Ar, nos informa à pág. 147 do seu livro "Perguntas e Respostas", editado em 1955: "Durante a idade média surgiu um grupo de religiosos que exigiam o batismo dos crentes, mesmo que tivessem sido aspergidos na infância. Por esta causa foram chamados pelos seus inimigos de anabatistas ou rebatizadores. Com o correr dos tempos o prefixo ANA caiu e ficou o nome batista, que designa uma seita religiosa que só aceita como membros pessoas que voluntàriamente aceitam Jesus como Salvador e sejam batizados em nome da Trindade e por imersão, por ordem de uma igreja biblicamente organizada". Completando a exposição do Pastor Davi Gomes : a seita dos Anabatistas foi iniciada por Nicolau Storch e Tomás Münzer no ano de 1521; foi a primeira cisão que se verificou no seio do Protestantismo, iniciando-se aí a longa história da multiplicidade das seitas protestantes.

(21) Afim de lançarem uma cortina de fumaça sôbre êste texto de S. Mateus, os protestantes se põem a querer dar exemplos dêstes casos de LIGAR e DESLIGAR, mas fornecem exemplos que nada têm que ver com o caso, e assim se estabelece a confusão, que é precisamente o que lhes interessa. Dizem : Pedro pregou no dia de Pentecostes e, depois da pregação, perguntaram os ouvintes o QUE DEVIAM FAZER. A resposta de Pedro foi que deviam arrepender-se e ser batizados (Atos II-38). Pedro é chamado à casa de Cornélio, prega aí o Evangelho, Cornélio e os presentes se convertem e aí se abre o reino dos Céus para os gentios (Atos cap. 10.º). Filipe, um simples diácono, prega em Samaria e aí muitos se convertem (Atos VIII-5 a 8 e 12); abriu-se, portanto, o reino dos Céus para os samaritanos. E assim por diante. Dêsses exemplos, os protestantes poderão apresentar milhares, se quiserem, desde os tempos de Cristo até os dias de hoje. Mas isto nada tem que ver com o poder de ligar e desligar. Trata-se aí, sim, da missão de PREGAR, de ENSINAR: Ide, pois, e ENSINAI tôdas as gentes (Mateus XXVIII-19) PREGAI O Evangelho a tôda a criatura (Marcos XVI-15), missão esta que os Apóstolos receberam, mas podiam também confiar e de fato confiaram a outras pessoas idôneas, para que os ajudassem nesta obra evangelizadora. Ainda hoje são muitos os que pregam o Evangelho; uns, porque receberam a missão da Igreja Verdadeira que Cristo fundou; outros, porque por sua própria cabeça entendem que devem pregá-lo, quando ninguém os autorizou para isto. Mas o que não sabíamos é que pelo simples fato de pregar o Evangelho, pregação esta EM QUE NADA PODE SER ALTERADO DO QUE JESUS ENSINOU, nada fica, portanto, ao nosso arbítrio, pelo simples fato de informar a alguém que precisa ARREPENDER-SE E SER BATIZADO, como Cristo ordenou, por êste simples fato uma pessoa possa dizer: Vejam que poder é o meu! Tudo o que eu ligo na terra, é ligado nos Céus; o que eu desligo na terra é desligado nos Céus.

Apresentam Ananias, um simples discípulo, com o poder de LIGAR e DESLIGAR, porque foi êle encarregado de introduzir a Saulo na Igreja (Atos IX-10 e 11; 17 e 18; XXII-12 a 16). Mas era Outra coisa que não sabíamos : que pelo simples fato de ter recebido DIRETAMENTE de Jesus UMA MISSÃO TÔDA ESPECIAL com relação a Saulo, a de curá-lo da cegueira e ministrar-lhe o Batismo, por êste simples fato Ananias pudesse dizer : Vejam que poder é o meu! TUDO o que eu ligo na terra é ligado nos Céus; tudo o que eu desligo na terra, é desligado nos Céus !

Para ser maior a confusão, no meio dêstes exemplos fora de propósito, os protestantes apresentam três exemplos legítimos : Pedro condena o proceder de Simão Mago, que queria por dinheiro adquirir o poder de dar o Espírito Santo (Atos VIII-18 a 24), Pedro repreende severamente a Ananias e Safira, que haviam sido réus de hipocrisia (Atos V-1 a 10), Paulo reprova enèrgicamente a Elimas, o Mago, que procura dificultar a conversão do procônsul (Atos XIII-8 a 12) e nestes 2 últimos casos Deus se encarregou de mostrar visivelmente com um castigo do Céu como ratificava a sentença dos Apóstolos. Mas que provam êstes exemplos senão que havia de fato uma AUTORIDADE para governar, repreender e castigar, que Deus reconhecia na pessoa de seus Apóstolos? É precisamente esta autoridade que negam os protestantes que dizem que a Igreja Cristã se regia democràticamente e os fiéis é que tudo decidiam.

(22) Ferreira de Almeida traduz assim: e nem ao menos vos entristecestes POR NÃO TER SIDO DENTRE VÓS TIRADO quem cometeu tal ação (1.ª Coríntios V-2).

(23) Sôbre o sentido de INFERNO, IRMÃOS e ADORAR vejam-se os mos 166, 382 e 400. CONHECER na Bíblia tanto pode significar ter relações carnais (Lucas 1-34), como pode incluir a idéia de fidelidade e submissão (1.ª João II-3 e 4).

(24) É o que diz também o teólogo protestante Leibnitz : "Estejam certos os clérigos e religiosos de que, para guardar a continência, quase mais nada é necessário além de evitar a ociosidade e as ocasiões perigosas e ter uma vontade firme, graça esta que Deus não nega àquele que a pede com fervoroso empenho" (Systema Theologicum n.Q 66).

(25). Se o texto grego traz literalmente ADELPHÉN GYNAIKA (uma irmã mulher ou uma mulher irmã) cabe ao intérprete da Bíblia explicar o que significa MULHER e o que significa IRMÃ aí no caso. O que não nos é lícito de maneira alguma é alterar o texto sagrado. Por isto se mostra infiel e sectária a seguinte tradução que vem na edição publicada em 1954 pela Sociedade Bíblica do Brasil: Porventura não temos o direito de levar conosco UMA CRENTE COMO ESPÔSA, como também os outros apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas? (1.ª Coríntios IX-5). Não só infiel e sectária, mas também desastrada. Tal qual como está redigida, a frase soa mal aos nossos ouvidos; parece dar a entender que os Apóstolos, ao fazerem as suas viagens, tinham o direito de lançar mão de uma crente qualquer e levá-la como espôsa…

(26) E quanto à alusão à passagem de S. Paulo que fala em alguns que apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos de êrro e a doutrinas de denionios. que PROIBIRÃO CASAREM-SE (1.ª Timóteo IV-1 e 3) não vem absolutamente ao caso. A Igreja não proíbe a ninguém casar-se. Apenas só aceita para sacerdote quem tenha feito DE LIVRE E ESPONTÂNEA VONTADE O Voto de castidade perfeita, voto que ela só permite que se faça depois dos 21 anos de idade. A Igreja não obriga ninguém a ser padre; ao contrário lança a pena de excomunhão sôbre aquêle que de qualquer modo obriga uma pessoa a abraçar o estado clerical ou a vida religiosa. Aquêles que vão espontâneamente receber as ordens sacras é porque julgam, depois de maduro exame, ter recebido êsse dom de Deus de que fala Jesus Cristo no Evangelho (nem todos são capazes desta resolução, mas só-mente aquêles a quem isto foi dado — Mateus XIX-11) e S. Paulo na sua Epístola aos Coríntios (cada um tem de Deus seu próprio dom: uns na verdade duma sorte e outros doutra — 1.º Coríntios VII-7).

S. Paulo aí na 1.º Epístola a Timóteo se refere a heresias que vão assolar os primitivos tempos da Igreja, principalmente a partir do século 2.º, como a dosencratistas que condenam o matrimônio e apontam como ações absolutamente ilícitas o comer carne e o beber vinho, e a dos marcionistas, os quais tendo a carne como má e fonte do pecado e achando que o casamento é um mal, porque multiplica neste mundo a existência da carne, proíbem o casamento e a procriação a seus adeptos. Se S. Paulo diz que estas heresias aparecerão NOS ÚLTIMOS TEMPOS, daí não se segue que seja coisa para o fim do mundo. O Apóstolo se reporta a um oráculo revelado pelo Espírito a um profeta e na linguagem profética os tempos messiânicos são chamados os ÚLTIMOS TEMPOS (veja-se Atos II-15 a 17) . Os primeiros tempos da Igreja já são chamados na Bíblia a última hora, os últimos tempos (1.ª João II-18; Judas versos 17 e 18) . E mesmo seria ridículo que S. Paulo estivesse fazendo recomendações especiais a Timóteo (propondo isto aos irmãos serás um bom ministro de Cristo — 1.k' Timóteo IV-6) sôbre êrros que só houvessem de aparecer lá para o fim do mundo.

(27) Depois de havermos mostrado uma meia dúzia de extravagantes interpretações feitas por protestantes, o leitor nos vai permitir acrescentar êste comentário sôbre uma esquisita doutrina dos Mormões, os quais, conforme explicaremos mais adiante (em nota ao n.º 234) não os consideramos, ou, pelo menos, não os consideramos todos como sendo protestantes. No entanto, nem neste assunto de batismo dos defuntos, os protestantes estão de todo inocentes, porque esta doutrina é também admitida pela seita chamada Igreja Neo-apostólica, conforme nos informa Crivelli no seu livro El mundo protestante, Sectas pág. 70.

(28) Vê-se aí bem claramente a manha do protestante que, mesmo quando concorda com a Igreja Católica, não quer dar o braço a torcer. O próprio Jesus, na descrição do juízo final, nos apresenta a salvação concedida POR CAUSA das boas obras (Mateus XXV-34 e 35); e como já explicámos (n.º 33), a doutrina católica é que, se estas boas obras podem merecer a vida eterna, não é senão porque são sobrenaturalizadas pela graça de Deus : Sem mim não podeis fazer nada (João XV-5).

(29) Temos tôda razão em incluir entre as seitas protestantes os Valdenses, fundados por Pedro Valdo, no século XIII, porque êles solenemente aderiram ao Protestantismo, no ano de. 1532, quando aceitaram as doutrinas calvinistas, passando a considerar-se como uma seita reformada; depois rejeitaram o predestinacionismo de Calvino e passaram a adotar a Confissão de Augsburgo, sempre, portanto, na doutrina -protestante. Agora que estão enquadrados no Protestantismo, os Valdenses já não têm exatamente a mesma doutrina primitiva; já não admitem 7 sacramentos, como admitiam outrora, nem consideram mais a prática da pobreza como necessária para a salvação, etc.

(30) Chamamos Luteranos Legítimos os que conservam mais fielmente a doutrina do seu mestre, porque o luteranismo, como tôdas as grandes seitas protestantes, está bastante subdividido e há, portanto, grande divergência entre as próprias seitas que se denominam Luteranas.

(31) Não temos , os Mormões na conta de protestantes, uma vez que a sua primeira confissão de fé, redigida pelo fundador José Smith, reza assim : "Cremos que a Bíblia é a palavra de Deus em tudo o que se conforma com o original inspirado e também que é palavra de Deus o Livro de Mormon." Ora, isto é contrário ao espírito do Protestantismo, o qual não admite outra regra de fé além da Bíblia. Se, porém houver Mormões que recusem reconhecer esta autoridade absoluta no Livro de Mormon, já não há motivo mais para deixarem de ser considerados protestantes. Fazem a interpretação da Bíblia como o fazem as seitas reformadas. Dizendo que o batismo por procuração é igualmente praticado pela Igreja Neo-Apostólica, mostramos que êste êrro existe também dentro do Protestantismo.

Quanto aos Adventistas do 7.º Dia, não vemos motivo para que não sejam considerados como protestantes, uma vez que êles ensinam bem claramente que "para chegar a conhecer com segurança a verdade devemos provar todo conceito pelas Escrituras" (lição 6.º do Curso por Correspondência da Voz da Profecia). Se êles prestam muita atenção ao que escreveu a Sra. Helena G. White, o mesmo se dá com outras seitas protestantes que têm também os seus mentores e que prestam muita atenção ao que lhes ensinaram Lutero, Calvino, Svedenborg, Jorge Fox, Campbell etc.

(32) A palavra do texto grego é EREUNÁTE que tanto pode ser traduzida EXAMINAI como EXAMINAIS. Não se sabe a intenção do Autor Sagrado. No latim da Vulgata, a palavra correspondente SCRUTÁMINI também pode ser traduzida tanto por EXAMINAI como por EXAMINAIS. Não se sabe, portanto, nem ao menos, se S. Jerônimo na sua versão tinha em mente o indicativo presente ou o imperativo. Mas isto em nada altera o sentido: EXAMINAI — Examinem Vocês as Escrituras, uma vez que julgam ter nelas a vida eterna; estas próprias Escrituras dão testemunho de mim nas suas profecias. E no entanto Vocês não querem vir a mim para ter a vida.

EXAMINAIS - Vocês vivem examinando as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna; pois bem, estas Escrituras dão testemunho de mim, nas suas profecias; e no entanto Vocês não querem vir a mim para ter a vida.

As versões protestantes de Ferreira de Almeida e da Sociedade Bíblica do Brasil preferem o indicativo: EXAMINAIS.

Achámos, por isto, muito interessante que o P.e Pereira tivesse traduzido EXAMINAI. Porque, para evitar teima com qualquer protestante que quisesse a pulso fazer valer a versão do imperativo, nós argumentamos mesmo com o imperativo.

(33) Os argumentos que usam os protestantes tentando prová-lo são argumentos infantis. Tôda a Escritura divinamente inspirada É ÚTIL para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça (2.ª Timóteo III-1G). A conclusão que querem tirar os protestantes é muito maior do que as premissas, pois do fato de SER ÚTIL a Escritura, não se segue que deva ser usada com exclusividade. Como bem observa Tanquerey, de acôrdo com tal sistema de argumentação, assim se poderia raciocinar: O ar puro é útil para conservação de uma boa saúde; logo, ar basta, não se precisa de alimentação.

Apelam também para as palavras de Moisés aos judeus, quando lhes anunciou a LEI ANTIGA: Vós não ajuntareis, nem tirareis nada às palavras que eu vos digo: guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos intimo (Deuteronômio IV-2).

o caso de perguntar: estas palavras são dirigidas SÓ AOS JUDEUS ou também aos cristãos? Se são dirigidas só aos judeus, nada temos que ver com elas. Se são também para os cristãos, por que é que os protestantes não observam TÔDA A LEI MOSAICA E SÓ A LEI MOSAICA?

Alegam o texto de S. Paulo aos Gálatas : Ainda quando nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho DIFERENTE do que nós vos temos anunciado, seja anátema (Gálatas 1-8). Até aqui não há nenhum argumento, pois S. Paulo, condena quem anunciar um Evangelho DIFERENTE do seu. Mas é que as versões protestantes trazem assim : ainda que nós ou um anjo do Céu vos pregasse um Evangelho ALÉM DO que vos pregamos, seja anátema (Gálatas 1-8 — Versão da Sociedade Bíblica do Brasil) Ferreira de Almeida diz : OUTRO evangelho ALÉM DO. que já vos tenho anunciado. E daí concluem os protestantes que está proibido ensinar qualquer coisa além do que Paulo pregou.

Acontece, porém, que o texto do P4. Pereira é que manifesta o verdadeiro pen samento de S. Paulo. Primeiro que tudo, a partícula grega que aí se traduziu por 'ALÉM DE — é a preposição PARÁ com acusativo, a qual também significa CONTRA. Vejam-se êstes textos em que aparece a mesma preposição no grego: Êste, pois, CONTRA a lei persuade aos homens que sirvam a Deus (Atos XVIII-13) mudaram o uso natural em outro uso que é CONTRA a natureza (Romanos 1-26) êle creu em esperança CONTRA a esperança (Romanos IV-18) rogo-vos, porém, irmãos, que não percais de vista aquêles que causam dissensões e escândalos CONTRA a doutrina que vós tendes aprendido (Romanos XVI-17). Confiram-se as versões protestantes. Além disto, que é que S. Paulo quer dizer? Que, se chegasse um anjo do Céu anunciando uma coisa que ele, Paulo, não tinha ensinado ainda, este anjo está condenado? Não, porque assim S. Paulo se estaria apresentando como um legítimo sabe-tudo, que tem maiores conhecimentos que todos os anjos do Céu. O que S. Paulo quer dizer é que está tão certo do Evangelho que pregou, que, se por hipótese absurda, chegasse um anjo do Céu pregando um Evangelho CONTRÁRIO ao seu, este anjo seria anátema. Depois que S. Paulo escreveu a Epístola aos Gálatas, apareceram outros livros do Novo Testamento, o Apocalipse de S. João por exemplo, revelando muitas coisas que ele não havia ensinado, e não se concebe que S. Paulo estivesse condenando a própria Bíblia. E vê-se claramente pelo contexto que S. Paulo se revolta contra os que pregam um Evangelho DIFERENTE do que ele pregou, pois diz imediatamente antes: Eu me espanto de que, deiando aquêle que vos chamou à graça de Cristo, passásseis assim tão depressa a OUTRO Evangelho; porque NÃO HÁ OUTRO, se não é que há alguns que vos perturbam e querem TRANSTORNAR o Evangelho de Cristo (Gálatas I-6 e 7).

(34) Os protestantes querem também apresentar como promessa da inspiração do Espírito Santo aos fiéis, as seguintes palavras de Jesus: Quando vier, porém,. aquêle Espírito de verdade, Êle vos ensinará TÔDAS AS VERDADES (João XVI-13). Mas estas palavras foram ditas aos APÓSTOLOS numa longa palestra que Jesus teve com êles, na intimidade e que vai de João XIII-31 até o final do Capítulo XVII do mesmo Evangelista. Querer cada nova-seita de hoje ser tão iluminado pelo Espírito Santo como eram os Apóstolos que tinham por missão lançar as bases para a propagação da Igreja, quando a promessa foi feita exclusivamente a estes últimos, é realmente uma pretensão muito grande.

(35) Quando apresentamos êstes argumentos, os protestantes respondem que, mesmo quando os cristãos não tinham em mãos os livros do Novo Testamento, tinham os do Antigo, os quais dão testemunho de Jesus. Ora, em que sentido o Antigo Testamento dá testemunho de Jesus? Apontando, pelas profecias, o Messias Prometido, profecias estas que se cumpriram no Divino Mestre. Mas para o cristão basta saber que Jesus é o Messias Prometido? Não lhe é necessário conhecer também a doutrina que Jesus ensinou? E onde, no Antigo Testamento poderão encontrar esta doutrina? Onde poderão instruir-se sôbre a SS.ma Trindade, o Batismo, a Ceia Eucarística, os novos mandamentos de Jesus, a organização da Igreja etc, etc? O Antigo Testamento usado com exclusividade, como meio de instrução, serviria até para atrapalhar, pois traz um grande número de prescrições da Lei Mosaica que na Nova Lei já estão abolidas. A doutrina cristã se aprende no Novo Testamento e não no Antigo; querem os protestantes negar esta verdade tão evidente?

(36) Não vem ao caso absolutamente a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo : Deixai os meninos e não embaraceis que êles venham a mim; porque destes tais é o reino dos Céus (Mateus XIX-14), a qual apresentam alguns protestantes, querendo alegar, com isto, que os meninos não precisam ser batizados, uma vez que o Céu já pertence a êles.

Nosso Senhor disse isto da mesma forma que disse: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque DÊLES É REINO DOS CÉUS... Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, porque DÉLES É O REINO DOS cÉus (Mateus V-3 e 10), ensinando com isto que são felizes os que têm o verdadeiro espírito de pobreza, os que sendo pobres abraçam de coração, amam e estimam o seu próprio estado, bem como são felizes aquêles que, batalhando por uma causa justa, apesar disto recebem perseguições, porque o Céu os está esperando, como a grande recompensa que lhes está reservada. Que diria o protestante daquele que ensinasse o seguinte: Quem é pobre de espírito, assim como também quem é injustamente perseguido, não precisa CRER EM JESUS, nem precisa ARREPENDER-SE DOS PECADOS, para conquistar o Céu, pois já tem o Céu garantido? O que Nosso Senhor quis dizer apenas foi que estas virtudes são, entre as outras, as que melhor conduzem à bem-aventurança celeste.

O mesmo se diga do caso das crianças. Não é o simples fato de ser criança que a leva para o Céu; pode haver, até, por exceção da regra, alguma criança má, que não o mereça de forma alguma. Nosso Senhor, dizendo TÓN TOIÓIITON, como está no texto grego (e o P.' Pereira traduziu muito bem : DÊSTES TAIS, isto é, daqueles que são como os meninos, que lhes são semelhantes) está apenas exaltando o valor da criança que é um modêlo para os grandes, um espelho das virtudes que se devem praticar para ganhar o Céu, pela sua candura, simplicidade, amor à verdade, castidade, desprendimento e rápido esquecimento das injúrias; é preciso que os grandes se tornem por virtude aquilo que as crianças já são por natureza. E por isto mesmo Nosso Senhor havia dito no capítulo .anterior: Na verdade vos digo que, se vos não converterdes e VOS NÃO FIZERDES COMO MENINOS, NÃO HAVEIS DE ENTRAR NO REINO DOS CÉUS (Mateus XVIII-3).

(37) Já S. Pedro aponta também os fiéis como DISPENSEIROS, mas não diz: dispenseiros de Deus ou dispenseiros dos mistérios de Deus, e sim dispenseiros das diferentes graças que Deus dá: Cada um, segundo a graça que recebeu, comunique-a aos outros, como BONS DISPENSEIROS das diferentes graças, que Deus dá (1a Pedro IV-10). O texto grego diz: }ás (como) KALÓI (bons) OIKONÓMOI (dispenseiros) POIldLES (da multiforme — O adjetivo P(SIKILOS significa variegado, de diversas côres, complexo, que se reveste de muitos aspectos) CHÁRITOS (graça) THEÓU (de Deus).

A graça pode ser tomada sob diversos aspectos. Ora se toma como graça habitual ou santificaste, é a habitação do Espírito Santo na alma que está limpa de pecado mortal. Ora se toma como graça atual, ou seja, qualquer benefício que se recebe de Deus: um bom conselho, uma boa palavra, um exemplo de virtude etc. Neste último sentido todos os fiéis têm a missão de ser também distribuidores das graças divinas, contribuindo, quanto podem, para o bem de seu próximo. Por isto o Apóstolo logo acrescenta: Se algum fala, seja como palavra de Deus; se algum ministra, seja conforme a virtude que Deus dá, para que em tôdas as coisas seja Deus honrado por Jesus Cristo (1.ª Pedro IV-11).

(38) O texto da Sociedade Bíblica do Brasil é o mesmo, acrescentando apenas a palavra vossos: Arrependeivos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo (Atos II-38).

(39) A versão da Sociedade Bíblica do Brasil traz assim : arca, na qual poucas pessoas, isto é, oito almas, se salvaram através das águas. Esta ÁGUA, FIGURANDO O BATISMO, AGORA VOS SALVA, não a purificação da imundícia da carne, mas a questão a respeito de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo (1.ª Pedro III-20 e 21).

Ferreira de Almeida assim traduz : arca, na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela ÁGUA, QUE também como uma verdadeira figura, AGORA VOS SALVA, BATISMO não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo (1.ª Pedro III-20 e 21).

Mas isto em nada altera o sentido.

Tanto faz dizer que a água do dilúvio, por onde oito se salvaram, era figura do Batismo, o QUAL agora nos salva — como dizer que a água do dilúvio, por onde oito se salvaram, era figura do Batismo, e esta mesma água agora NOS SALVA. Salva-nos, não porque lave as imundícies do corpo, mas porque nos leva a uma boa consciência para com Deus.

(41) Dizer que Jesus dá aí aos Apóstolos o poder de perdoar ou reter as ofensas QUE FÔSSEM COMETIDAS CONTRA ELES, Apóstolos, seria torcer as palavras do Mestre, para dar-lhes uma interpretação completamente contrária à doutrina do Evangelho. Torcer as palavras do Mestre, porque Jesus não disse : Àqueles a quem perdoardes OS PECADOS COMETIDOS CONTRA Vós, lhes serão perdoados — mas pura e. simplesmente: Àqueles a quem perdoardes os PECADOS. E seria uma interpretação contrária à moral evangélica, porque nem aos Apóstolos, nem a cristão nenhum, Nosso Senhor dá o direito de perdoar ou deixar de perdoar as ofensas pessoais cometidas contra êles. Ai a obrigação é sempre de perdoar. Depois da parábola do devedor insolvente, que foi castigado porque não perdoou ao seu próximo, diz o Divino Mestre : Assim também vos há de fazer meu Pai Celestial, SE NÃO PERDOARDES do íntimo dos vossos corações CADA um a seu irmão (Mateus XVIII-35). S. Pedro pergunta se há de perdoar a seu irmão sete vêzes, ao que o Salvador responde: Não te digo que até sete vêzes, mas que até setenta vêzes sete vêzes (Mateus XVIII-22) o que equivale a dizer que não há limites para êste perdão. Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus (Mateus V-44 e 45). Esta é a doutrina do Evangelho. Não seria Jesus, que a ensinou, que viria depois dizer : As ofensas que os outros fizerem contra vós, se as perdoardes, ficam perdoadas; e se as retiverdes, isto é, se não as perdoardes, não ficam perdoadas. Como se quisesse assim dar um direito de escolha entre a caridade que perdoa, e o odio que resolve negar o perdão. Não seria para ISTO, que Jesus haveria de soprar sôbre os seus Apóstolos, dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo João XX-22).

(42) PARA SERDES SALVOS - é expresso no grego pelo verbo IÁOMAI que significa CURAR, SARAR, tanto no sentido de curar o corpo, como no sentido de curar a alma, isto e, salvá-la, livrá-la do pecado. Que o verbo IÁOMAI é empregado na Bíblia também neste sentido, de cura espiritual, pode-se atestar pela seguinte passagem: O coração dêste povo se fêz pesado e os seus ouvidos se fizeram tardos, e êles fecharam os seus olhos; para não suceder que vejam com os olhos e ouçam com os ouvidos e entendam no coração e se convertam e eu os SARE (Mateus XIII-15). As mesmas expressões aparecem em João XII-40; Atos XXVIII-27. E na 1.ª Epístola de S. Pedro, falando-se a respeito de Cristo : O qual, foi o mesmo que levou os nossos pecados em seu corpo sôbre o madeiro para que, mortos aos pecados, vivamos à justiça; por cujas chagas fôstes vós SARADOS (1.ª Pedro II-24). Nestes exemplos acima citados o verbo SARAR corresponde ao verbo IÁOMAI, e aí se trata evidentemente de cura da alma. Enquanto S. Jerônimo na Vulgata traduziu assim : PARA SERDES SALVOS; Ferreira de Almeida traduz : PARA CUE SAREIS; a versão da Sociedade Bíblica do Brasil : PARA SERDES CURADOS. Daí nasce naturalmente a questão : S. Tiago fala da cura espiritual ou da corporal? Nada melhor do que o contexto para esclarecer êste caso. No versículo anterior, S. Tiago aponta como efeito da unção do óleo : E SE ESTIVER EM ALGUNS PECADOS, SER-LHE-ÃO PERDOADOS (Tiago V-15). E logo em seguida, após ilustrar com o exemplo de Elias o quanto pode a oração do justo, o Apóstolo acrescenta : Meus irmãos, se algum dentre vós se extraviar da verdade, e algum outro o meter a caminho, deve saber que aquêle que fizer CONVERTER a um pecador do êrro do seu descaminho, salvará a sua alma da morte e cobrirá a multidão dos pecados (Tiago V-19 e 20). É, portanto, a cura da alma, sobretudo, que o Apóstolo tem em vista.

(43) É possível que aqui o protestante se lembre de dizer: O Sr. não disse que as leis devem ser feitas em linguagem clara? No entanto, vemos o Sr. debater uma questão a respeito dos têrmos em que está redigida a lei e falar em hebraísmos etc.

— É natural que, se a lei foi enunciada em aramaico, tenha que ser expressa segundo a índole própria desta língua. O legislador não é obrigado a tomar em conta pequenas dificuldades que possam surgir de sua tradução em várias outras línguas. E esta dificuldade no nosso caso pràticamente não é nenhuma : compreende-se muito bem aí no texto que Jesus exige que se receba a Santíssima Eucaristia, se houvesse dúvida sôbre se deve ser recebida sob as duas espécies, bastariam, como vimos, as palavras do contexto para resolver esta dúvida: é bastante comer o Pão Celeste, que é a carne de Jesus, para fazer jus às promessas de vida eterna. Quanto à interpretação protestante (comer a carne de Cristo, e beber o sangue de Cristo = crer em Cristo), isto sim, é que em hebraico, em aramaico, em grego, em latim, em português e em qualquer língua do mundo é um enigma que ninguém seria capaz de decifrar; pois jamais em lugar algum do mundo comer carne, beber sangue foram sinônimos de TER FÉ. E uma lei não se enuncia por enigmas, muito menos por enigmas indecifráveis.

(44) Diz aí Lutero: "Confesso que o Dr. Karlstadt ou qualquer outro me teria prestado um grande serviço, se, há cinco anos, tivesse provado que no Sacramento só havia pão e vinho. Naquela ocasião tive grandes vexames e eu lutei e torci por encontrar uma saída, pois vi que com isso podia dar o maior golpe contra o Papado. Também havia dois que eram mais hábeis do que o Dr. Karlstadt e que não martirizavam tanto as palavras segundo seu próprio parecer. Mas estou prêso, não encontro saída. O texto é tão majestoso que com palavras não se deixa tirar da mente" (De Wette 11-576.e segs.).

(45) Muitos protestantes gostam de apresentar o seguinte versículo da Epístola aos Hebreus: Se nós pecamos voluntàriamente depois de ter recebido o conhecimento da verdade, JÁ NÃO RESTA MAIS HÓSTIA PELOS PECADOS (Hebreus X-26), querendo provar com isto que a Missa não pode ser sacrifício propiciatório. Na sua ânsia de destruir a Santa Missa e combater o Catolicismo, eles não medem bem as suas palavras, porque com esta errada interpretação estão afirmando simplesmente isto: que Jesus não pode ser uma hóstia de propiciação na Santa Missa, porque Êle não é mais hóstia de propiciação para aqueles que pecam voluntàriamente, depois de ter recebido o conhecimento da verdade. Como se o sacrifício da Cruz servisse para nos dar o perdão SÓMENTE UMA VEZ NA VIDA. Dado o primeira perdão, se esgotaria a eficácia do sacrifício expiatório de Cristo. Quem pecasse depois da conversão, depois de ter abraçado a verdade, estaria para sempre irremediàvelmente perdido... Junte-se esta afirmativa, que já é de si bem terrível, com aquela outra, também deles, protestantes, de que não há distinção alguma entre pecado mortal e pecado venial, e veja-se bem que DOUTRINA ESTA, CAPAZ DE LEVAR O MUNDO INTEIRO AO DESESPÊRO.

É preciso considerar a frase no seu respectivo contexto. S. Paulo que é um hebreu, falando na sua Epístola também AOS HEBREUS, se refere àqueles que abraçam o Cristianismo e depois caem na apostasia voltando ao judaísmo. Êle exorta os cristãos a permanecerem fiéis à sua fé NÃO ABANDONANDO A NOSSA CONGREGAÇÃO. COMO É COSTUME DALGUNS (Hebreus X-25) , porque se assim procedem de caso pensado, de propósito, deliberadamente, só poderão esperar a condenação, uma vez que no judaísmo não encontrarão mais a remissão dos pecados. Antigamente, isto, é, antes de Jesus Cristo morrer na cruz, havia na Religião Judaica os sacrifícios que se ofereciam pelos pecados e estes vêm descritos no Livro do Levítico, capítulos IV a VII. Tais sacrifícios ordenados por Deus serviam de fato para remissão dos pecados, não pelo seu valor em si, mas porque prefiguravam o sacrifício redentor de Cristo e dele tiravam a sua eficácia. Agora, porém, após a morte de Jesus, tudo isto passou, porque já não é mais o tempo das figuras e sim o da realidade esses sacrifícios judaicos não vigoram mais; não resta mais hóstia pelos pecados.

Para os que rejeitam a Cristo, ABANDONANDO A NOSSA CONGREGAÇÃO, ISTO É, A SUA VERDADEIRA IGREJA, não existe propiciação, mas sim, conforme continua o Apóstolo, uma esperança terrível do juízo e o ardor dum fogo zeloso que há de devorar aos adversários. Se algum quebranta a lei de Moisés, sendo-lhe provado com duas ou três testemunhas, morre sem dêle se ter comiseração alguma; pois, quanto maiores tormentos merece o que pisar aos pés o Filho de Deus e tiver em conta de profano o sangue do Testamento em que foi santificado e que ultrajar o espírito da graça? (Hebreus X-27 a 29).

Isto acontece com os que se afastam do Salvador, afastando-se por culpa própria (não de boa fé ou por ignorância) de sua Verdadeira Igreja. Mas para os que estão unidos a Cristo pela fé legítima, ainda existe a Vítima, a Hóstia de Propiciação pelos nossos pecados; é Jesus Cristo, o qual não morre porque é eterno, vivendo sempre para interceder por nós (Hebreus VII-25). E o Sacrifício da Missa É o MESMO Sacrifício da Cruz.

(46) Substância, no seu conceito filosófico, não • é o mesmo que substância considerada na química ou apresentada na nossa linguagem vulgar. Substância em filosofia é aquilo que faz com que uma coisa seja o que é, e não outra coisa. Tomemos, por exemplo, um pedaço de pão. O que é que faz com que isto seja pão, e não outra coisa? Não é a côr, porque ou mais torrado, tomando uma côr mais escura, ou menos torrado tomando uma côr mais clara, é pão da mesma forma. Não é o cheiro: quando saiu logo do forno e estava quente, tinha um cheirinho especial que perdeu depois, mas não deixou de ser pão por causa disto. Não é o gOsto: saboroso ou insípido, é pão sempre. Não é também a quantidade: a substância de pão está tão perfeitamente num pedacinho, como num pão que os padeiros entendessem de fabricar com dois metros de comprimento. O mesmo se diga da substância do vinho: pode ser tinto ou branco, pode ter sabores os mais variados, pode ser uma gotinha só ou um barril inteiro, é vinho sempre da mesma forma. É que se dá com tôdas as substâncias. Portanto a côr, o cheiro, o gôsto, a quantidade não são a substância: são o que se chama em filosofia os acidentes. A substância é algo que não é perceptível aos nossos olhos, aos nossos sentidos, ao passo que os acidentes o são.

O domínio de Deus sôbre as substâncias é absoluto, porque não tem limites o seu poder. Nas bodas de Caná, Jesus mudou a substância da água na do vinho, com um simples ato de sua vontade, mas aí mudou também os acidentes. Na Última Ceia fez muito mais: mudou a substância do pão na de sua Carne Sacratíssima, mudou a substância do vinho na de seu Sangue Precioso, permanecendo, porém, os acidentes do pão e do vinho. Mistério de—fé, que está acima de nossa razão, mas que, pela noção diversa de substância e de acidentes, não encerra em si nenhum absurdo ou contradição.

(47) Ou se admite a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, ou não se admite. Se se admite (e já a provámos bem claramente pela Bíblia), não há outro meio, diante das palavras de Jesus, senão admitir a transubstanciação, isto é, a substância do pão já não está mais ali, e sim o corpo do Salvador. Lutero se orgulhava de defender a presença real ainda melhor do que os católicos tinham feito até então. Entretanto, como bem observou Bossuet, Lutero se via por vêzes embaraçado diante de seus adversários precisamente porque não admitia a transubstanciação, e sim a consubstanciação, pois afirmava que ali na Eucaristia permanecia a substância do pão e ali também estava a substância do corpo de Cristo. Seus opositores observavam, então, que Jesus não disse: Neste pão está o meu corpo — mas sim — ISTO É o meu corpo.

Por aí se vê que não há meio termo. Se Jesus está presente na Hóstia Consagrada, está por transubstanciação. Nosso Senhor, ao dizer: Lázaro, sai para fora (João XI-43), não precisou acrescentar: "Acabei de fazer uma ressurreição", para que nós proclamássemos que foi uma ressurreição que Êle realizou. Assim também, na Última Ceia não foi preciso que Êle dissesse: "O que acabei de fazer foi uma transubstanciação." Dizendo ISTO É o meu corpo, exprimiu claramente que ali não estava mais a substância do pão, mas sim a de seu Corpo Sacratíssimo, embora sob as aparências de pão. E isto é o que nós chamamos TRANSUBSTANCIAÇÃO.

(48) Ferreira de Almeida traz aqui: Isto é o meu corpo que É PARTIDO por vós (1.ª Coríntios X1-24).. Mas não é esta a variante mais provável. O texto grego (edição de Nestie) assim traz: TOUTO (isto) móu (de mim) ESTÍN ( é) TO SOMA (o corpo) TO (o) IIYPÉR (por) IIYMÓN (vós). E aí têm os protestantes a versão da Sociedade Bíblica do Brasil: Êste é o meu corpo que é por vós (1.ª Coríntios XI-24). A ser verdadeira a versão apresentada por Ferreira de Almeida, quereria significar apenas isto, conforme a explicação do Cardeal Franzelin: "Isto é o meu corpo que, em estado de alimento, sob as espécies de pão, é partido."

Os protestantes querem censurar a Igreja, dizendo que ela não realiza a cerimônia de partir o pão eucarístico, à semelhança do que fêz Cristo na última Ceia. Mas isto não é exato: não se celebra a Santa Missa sem que o celebrante parta ao meio a Sagrada Hóstia, o que faz pouco depois do Pater Noster, entre a consagração e a comunhão.

E, se a Eucaristia era chamada no primeiro século o PARTIR DO PÃO, é preciso notar que esta era uma expressão empregada para designar qualquer refeição que se distribuía entre várias pessoas, e assim passou a significar também a distribuição eucarística: PARTE O TEU PÃO ao que tem fome, e introduze em tua casa os pobres e os peregrinos (Isaías LVIII-7). E não PARTIRÃO entre êles PÃO para consolar ao que chora sare um morto (Jeremias XVI-7). Os pequeninos pediram PÃO e não havia quem lho PARTISSE (Trenos IV-4).

É por isto que às vezes quando o Novo Testamento fala em partir do pão (Atos II-42 e 46) ficam os exegetas a discutir se se trata da distribuição eucarística ou de uma refeição qualquer feita em comum.

(49) Ferreira de Almeida traz: E havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja (Atos XIV-22). Mas esta expressão POR COMUM CONSENTIMENTO não está absolutamente no texto grego. A versão da Sociedade Bíblica do Brasil diz assim: Tendo feito eleger para êles presbíteros em cada igreja (Atos XIV-22). A tradução também não é exata. O verbo empregado no texto grego é CHEIROTONÉO que significa escolher com a mão estendida ou simplesmente escolher (Vejam-se Dicionários de Bailly e Zorell). Zorell mostra que fàcilmente se esqueceu a idéia de mão estendida para ficar sómente na idéia de escolher, de modo que o escritor Filou, por exemplo, (Do prêmio e pena c.º) usa esta expressão: BASILÉUS (rei) HYPó THEÓU (por Deus) CHEIROTONETHÉIS (escolhido).

Se houve mão estendida no caso foi só a de Paulo e Barnabé: CHEIROTONÉSANTES (tendo escolhido) AUTÓIS (para êles) K.AVEKKLESIAN (para cada igreja) PRESBYTÉROUS (presbíteros). Se o P.e Pereira também não traz a tradução exata, é que por sua vez se afastou um pouco da Vulgata, que nos apresenta o verdadeiro sentido do texto grego: Cum constituíssent (Tendo constituído) illis (para êles) per singulas ecclesias (em cada uma das igrejas) presbyteros (presbíteros).

(50) Interessados, como é natural, em destruir esta idéia de transmissão de poderes por sucessão apostólica, os protestantes começam a imaginar perigos de interromper-se esta sucessão e querem com isto impressionar os católicos. Mas se esquecem de uma coisa muito importante. Até o século XV, em que foi descoberta a imprensa, a Bíblia era copiada À MÃO. Desde o tempo em que o Pentateuco foi escrito até os dias de hoje, a Sagrada Escritura nos tem sido transmitida por uma sucessão de... copistas, até o século XV, de... tipógrafos daí para cá. O que nós chamamos, por exemplo, o texto original grego do Novo Testamento é fruto de uma exaustiva e paciente comparação de vários códices que têm pequenas diferenças, escolhendo-se ali a versão mais provável. Mas vai-se desprezar a Bíblia por causa disto? Não. Deus vela especialmente pela Sagrada Escritura, fazendo com que nela não se introduza êrro substancial. Com a mesma solicitude vela também Jesus Cristo sôbre a Igreja, que é igualmente obra de Deus e o Divino Mestre especialmente prometeu a ela a sua assistência. Essas dúvidas importunas revelam apenas falta de fé na ação contínua da Divina Providência. E uma grave injúria fazem os protestantes a Nosso Senhor Jesus Cristo, imaginando-O capaz de faltar com a sua palavra.

(51) O texto hebraico diz: Eu estava então entre Javé e vós para vos fazer conhecer a sua palavra (Deuteronômio V-5), mas isto em nada diminui o papel de mediador ou intermediário entre Deus e o seu povo que exercia Moisés, transmitindo dAquele para êste os divinos mandamentos.

(52) Diz Lutero, falando a respeito da dignidade da Mãe de Deus: "Por isso lhe foram outorgados bens tão grandes e preclaros, que excedem o maior alcance, pois daí lhe advém tôda honra e beatitude de tal sorte que, em todo o gênero humano, é a única pessoa superior a tôdas, que não tem outra igual, porque com o Pai Celestial tem o mesmo Filho comum. .. Pelo que, em uma só palavra se encerra tôda sua honra — ser mãe de Deus — não podendo ninguém a seu respeito dizer mais, ainda que tivesse tantas línguas quantas flores e ervas tem a terra, quantas estrêlas tem no céu e quantos grãos de areia tem o mar" (Vitemberga IV-9 pág. 85).

(53) O modo de dividir os mandamentos não é igual entre os católicos e a maioria dos protestantes. O que chamamos 5.º mandamento: Não matarás, eles chamam 6.º, porque do primeiro mandamento eles fizeram 2. Mas nisto, como em tudo o mais, não há uniformidade entre os protestantes, porque já os luteranos, por exemplo, dividem os mandamentos, exatamente da maneira católica. Veja-se o Breve Guia do Cristão págs. 8 a 21.

(54) Isto vem confirmar o que dissemos há pouco (n.º 367). Quando a Igreja define um dogma, não está, como pensam os protestantes, inventando uma doutrina nova e impondo-a aos fiéis, mas tornando oficialmente obrigatória uma doutrina que dentro da Igreja já está firme e consolidada pelo modo de sentir comum dos pastôres e dos fiéis, o que já é sinal de que aquilo é verdade, pois a Igreja em pêso não pode cair em êrro. Se a Igreja se vê na necessidade de torná-la oficialmente obrigatória, é porque os hereges a estão negando e combatendo, e é preciso delimitar bem os dois campos diversos: o da fé legítima e o da heresia. Ou porque estão surgindo entre os próprios teólogos católicos alguns que, por sua opinião pessoal, não estão exprimindo a doutrina católica no seu verdadeiro sentido e é preciso então cicie bem se esclareça o que é doutrina da Igreja e o que é mera opinião pessoal condenável e sem fundamento.

(55) O texto grego de Nestle não traz as palavras: Bendita és tu entre as mulheres, mas as mesmas competem sem dúvida alguma a Maria SS.ma, porque foram proferidas por S. Isabel, que as disse, inspirada pelo Espírito Santo, e isto consta não só da Vulgata, mas também do texto grego: Isabel ficou cheia do Espírito Santo e bradou em alta voz e disse: Benta és tu entre as mulheres, e bento é o fruto do teu ventre (Lucas 1-42).

(56) Ferreira de Almeida traz: José e sua mãe se maravilharam das coisas que dÊle se diziam (Lucas II-33). Mas não está de acôrdo com o texto grego que diz: O SEU PAI E A MÃE. Podem-se conferir todos os outros tradutores, inclusive a Sociedade Bíblica do Brasil.

(57) Êste texto que é o da Vulgata está de acôrdo também com a versão dos Setenta, e portanto de qualquer maneira reflete o modo de falar dos antigos. E se assim verteram os Setenta e S. Jerônimo, quem pode garantir qual é o texto hebraico original exato, se é o que temos hoje ou o que os Setenta e S. Jerônimo tiveram em mãos?

(58) O fato de dizer o Evangelho de S. João que os irmãos de Jesus não criam nÊle não exclui o fato de que Tiago Menor, o Apóstolo e Judas Tadeu estejam incluídos entre os irmãos de Jesus. Costumamos fazer classificações de acôrdo com a maioria. Assim é que dizemos que os brasileiros são católicos e os ingleses são protestantes, sem que isto seja argumento para negar a existência de protestantes no Brasil ou de católicos na Inglaterra. S. João não diz que TODOS os irmãos de Jesus eram descrentes. O que é fato, portanto, é que os irmãos de Jesus eram tantos, que uma ou duas exceções pouco influíam no caso.